A IMPORTÂNCIA DA VIDA DE ORAÇÃO (Comentário final à Epístola aos Efésios)

Nenhum cristão pode negligenciar sua vida de oração. Orar é permanecer vivo, de pé, acordado, em meio à uma grande batalha. Oração é a primeira fonte de força que o cristão possui para lutar contra os poderes desta era.⁠1

Paulo compreendia tão bem este princípio que termina sua Epístola aos Efésios da mesma maneira como começou, falando sobre oração, pedindo aos seus irmãos que se unissem a ele em oração.

com toda oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito e para isto vigiando com toda perseverança e súplica por todos os santos e também por mim; para que me seja dada, no abrir da minha boca, a palavra, para, com intrepidez, fazer conhecido o mistério do evangelho, pelo qual sou embaixador em cadeias, para que, em Cristo, eu seja ousado para falar, como me cumpre fazê-lo. 

E, para que saibais também a meu respeito e o que faço, de tudo vos informará Tíquico, o irmão amado e fiel ministro do Senhor. Foi para isso que eu vo-lo enviei, para que saibais a nosso respeito, e ele console o vosso coração. Paz seja com os irmãos e amor com fé, da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo. A graça seja com todos os que amam sinceramente a nosso Senhor Jesus Cristo.

Ef 6.18–24

Vejamos os três primeiros versos:

18 com toda oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito e para isto vigiando com toda perseverança e súplica por todos os santos 19 e também por mim; para que me seja dada, no abrir da minha boca, a palavra, para, com intrepidez, fazer conhecido o mistério do evangelho, 20 pelo qual sou embaixador em cadeias, para que, em Cristo, eu seja ousado para falar, como me cumpre fazê-lo.

Um embaixador em cadeias. É assim que Paulo se descreve no início de sua despedida. Você seria capaz de imaginar tal cena? A de um embaixador em cadeias? Um embaixador, principalmente dentro do contexto paulino, era alguém que corria o império romano, livre, como um mensageiro de reis e, às vezes, príncipes. No entanto, aqui temos um embaixador em cadeias. Alguém portanto uma mensagem real, do Rei dos reis, preso, sem condições de expor sua mensagem diante de todas as autoridades da terra.

É assim que Paulo pede que efésios que orem por ele com toda oração e súplica, que falem com em todo tempo ao Senhor por si mesmos, mas, principalmente, pelos demais cristãos espalhados pelo mundo em perseguição, e também por Paulo, preso por causa da mensagem.

No entanto, orar sem vigiar é imprudência. Por isso Paulo diz que eles deveriam orar e vigiar com toda perseverança. Sua oração sem cessar deveria ser por todos os santos, ou seja, por todos os cristãos espalhados pelo mundo.

Após orientar os efésios a orarem por seus irmãos na fé, Paulo pede para que se unam a ele em oração. Paulo pede oração por sua tarefa de anunciar o Evangelho, ainda que em cadeias. Um embaixador precisa de palavras, de uma mensagem. E Paulo compreendia sua completa dependência de Deus para anunciar exatamente aquilo que o Rei dos reis deseja que seja anunciado.

O desejo de Paulo era tornar a mensagem do Evangelho conhecida, o mistério do Evangelho que agora se torna conhecido de todos os homens.  E Paulo queria ter coragem para anunciá-lo, sem temer as outras consequências que poderiam vir sobre ele por conta de sua tarefa de anunciar. Ele já estava preso por causa disso. Que não lhe faltasse coragem.

Após lermos Paulo iniciando sua Epístola aos Efésios orando em adoração a Deus por sua graça e salvação, e também o vermos orando pelos efésios, Paulo encerra convidando os efésios a que se unissem a ele em oração, por sua vida e ministério. Será que Paulo levava a sério a vida de oração? Ou será que um homem da estatura espiritual dele chegou a um momento da vida em que considerou que não precisava mais orar? Paulo não precisava mais orar?

É obvio que precisava. Parece que, quanto mais perto de Deus chegava, mais dependente dele ficava. O amadurecimento espiritual, na verdade, torna-nos mais dependentes de Deus, como crianças que, quanto menores são, mais dependentes vivem de seus pais. Na vida cristã de Paulo, observamos o mesmo, quanto mais Paulo “cresce” espiritualmente, mais ele se torna como uma criança no Reino, e quando mais “criança” aos olhos de Deus se torna, mais dependente também ele vive.

Paulo levava muito a sério sua vida de oração. E “orar é trabalho duro”, como escreveu N.T.Wright⁠2 em seus comentários às epístolas da prisão. Para Wright, a oração não pode ser resumida a uns poucos momentos de meditação sonolenta realizada no final do dia, ou alguns poucos momentos preguiçosos e desatentos no início do dia. Como argumenta Wright, é óbvio que é melhor isso do que nada. Mas é o mesmo que sobreviver com um pequeno pedaço de pão ao longo do dia. Sem dúvida, uma alimentação maior, mais completa, será melhor para a saúde física do que apenas um pequeno pedaço de pão. Para Paulo, quem se engaja em uma vida de oração, deve manter-se sempre alerta, atento, vigiando e orando o tempo todo.

21 E, para que saibais também a meu respeito e o que faço, de tudo vos informará Tíquico, o irmão amado e fiel ministro do Senhor. 22 Foi para isso que eu vo-lo enviei, para que saibais a nosso respeito, e ele console o vosso coração. 23 Paz seja com os irmãos e amor com fé, da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo. 24 A graça seja com todos os que amam sinceramente a nosso Senhor Jesus Cristo.

Paulo termina a epístola com suas costumeiras considerações e despedida finais. Suas palavras sobre Tíquico nos versos 21 e 22 são praticamente idênticas às palavras encontradas em Colossenses 4.7-8:

Colossenses 4.7–8: Quanto à minha situação, Tíquico, irmão amado, e fiel ministro, e conservo no Senhor, de tudo vos informará. Eu vo-lo envio com o expresso propósito de vos dar conhecimento da nossa situação e de alentar o vosso coração.

Tíquico, então, é quem levou estas epístolas às igrejas de Éfeso e Colossos. Não que ele estivesse sozinho, pois não estava. Mas era o principal responsável deixado por Paulo para entregar a mensagem.

Tíquico era um cristão gentil, da Ásia Menos. Ele é muito mencionado no Novo Testamento, sempre como um parceiro no ministério de Paulo (At 20.4, Ef 6.21, Cl 4.7, 2Tm 4.12, Tt 3.12). Em Atos, sabemos que Tíquico acompanhou Paulo em sua terceira viagem missionária (At 20.4). Em outras citações, ele é mencionado como o irmão amado, o servo fiel, um conservo. Paulo confiava muito nele e várias vezes o comissionou a entregar algumas das cartas que hoje fazem parte do novo Testamento.

Paulo esperava que Tíquico contasse tudo o que estava acontecendo com Paulo naqueles últimos dias e que também consolasse o coração dos efésios que estavam, provavelmente, preocupados com a perseguição dos últimos dias. A consequência seria que eles, ouvindo a Palavra de consolo vinda de Tíquico, tivessem paz em seus corações.

Paz… e amor com fé, essas são as consequências maravilhosas que viriam de Deus sobre aqueles que ouvissem as palavras de Tíquico. Deus nos dá paz em meio às perseguições e, ao mesmo tempo, enche nossos coração com amor com fé, ou seja, amor e mais fé, amor unido à fé. Pensando em um tempo de perseguição religiosa e injustiças contra os cristãos, faz sentido imaginarmos o amor que encheria o coração dos perseguidos, obviamente um amor pelo que os perseguiam, com fé de que o Senhor está soberanamente no controle de todas as coisas.

Paz, então, está intimamente ligada à fé e ao amor. Todas vêm de Deus sobre o coração dos seres humanos. Vêm da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo. Foi esse mesmo amor que encheu o coração de Cristo sobre a cruz, quando orou por aqueles que o crucificavam, amando-os em fé. É esse mesmo amor cheio de fé que Deus deseja encher nossos corações. Só assim, teremos igualmente paz.

O apóstolo Paulo termina sua Epístola com uma bênção, desejando que a graça de nosso Senhor Jesus Cristo fosse com todos os que ama sinceramente a nosso Senhor Jesus Cristo. É essa mesma graça que nos abre os olhos para que comecemos a olhar para Deus na face de Cristo sobre a cruz e o amarmos com todo nosso coração, força e alma. É por graça que o amamos. É por graça que o recebemos em nossos corações, É por graça que permanecemos de pé, mesmo quando as tribulações tentam nos derrubar. É por graça que um dia entramos na presença do Pai e é pela mesma graça que seremos sustentados pelos séculos dos séculos em sua maravilhosa presença.

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1 John D. Barry et al., Faithlife Study Bible (Bellingham, WA: Logos Bible Software, 2012), Ef 6.18.

2 Tom Wright, Paul for Everyone: The Prison Letters: Ephesians, Philippians, Colossians, and Philemon (London: Society for Promoting Christian Knowledge, 2004), 78.

Comunidades! (parte 2)

Wilson Porte Jr.
 
Segunda palavra sobre os fundamentos de uma Comunidade cristã. Nela, falo de outras cinco palavras (assim como o programa passado) relacionadas à expressão "uns aos outros" na Bíblia Sagrada. Minha oração é que o Senhor lhe abençoe através desta mensagem.
  
 
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Comunidades! (parte 1)

Comunidades foram desenhadas por Deus. Deus não nos criou para vivermos sozinhos. A solidão é o oposto do que Deus espera por nós. Deus vive em Comunidade – Pai, Filho e Espírito Santo. Uma comunidade perfeita. Uma comunidade de amor! Assim viveu o povo de Deus desde o início, em comunidades. Comunidades pequenas e uma grande comunidade.
No Novo Testamento, a mesma dinâmica é encontrada. Em Atos dos Apóstolos, encontramos os cristãos se encontrando durante a semana nas casas e no Dia do Senhor no templo para ouvir e aprender o Fundamento dos Apóstolos.
Posto isto, toda polarização em apenas um dos pontos constitui-se em erro. Não podemos viver somente em casas e nem somente em “templos”. Um comunidade, aos olhos de Deus, é aquela que se encontra periodicamente de casa em casa e em um local onde todas as pequenas comunidades possam se encontrar como uma grande comunidade para adorar a Deus e ouvir a pregação de Sua Palavra.
É sobre isso que essa série Comunidades! trata.
Wilson Porte Jr.
in dextera tua