OS MORTOS PODEM VOLTAR A VIVER?

Esta pequena introdução de Paulo ao capítulo 2 de Efésios, bem que poderia se chamar “Libertos da Sepultura”. Não apenas “Liberto”, tratando-se de nosso Senhor Jesus Cristo, mas “Libertos”, pois com ele todos alcançamos libertação.

Mais do que isso, com ele, todos alcançamos a própria vida. Nossa libertação não foi de uma simples escravidão, mas da própria sepultura onde vivíamos mortos para Deus.

Continue reading

SALVAÇÃO: MÉRITO NOSSO OU DOM DE DEUS?

Como é bom saber que nossa salvação foi planejada cuidadosa e graciosamente pela Santíssima Trindade antes da fundação do mundo. Como é bom saber que nossa salvação não depende nós, não depende de nosso esforço ou merecimento. Como é bom saber que, além de salvos, nos foi dado pelo Espírito Santo o dom para perseverar até o fim, quando receberemos, ainda que imerecidamente, a coroa da vida e o fruto da Árvore da Vida, colhido pelas mãos do próprio Cordeiro de Deus.

 

Continuemos a refletir, em espírito de oração, nas palavras de Paulo inspiradas pelo Espírito Santo à igreja que se reunia na cidade de Éfeso.

 

8 que ele fez abundar para conosco em toda a sabedoria e prudência,

 

O início deste verso nos faz lembrar do que o Senhor fez abundar para conosco. Sua graça maravilhosa e inesgotável, como vimos na pregação anterior, está para nós como uma a água está para uma esponja. A graça de Deus nos envolve e nos preenche. É por isso que Paulo aqui ressalta que o Senhor a fez abundar sobre nós.

 

Outro ponto curioso do verso 8 é que Deus a derramou sobre nós com sabedoria e com prudência. O que significa isso? Vejamos.

 

Sabedoria tem a ver com o conhecimento perfeito que Deus possui e que lhe faz agir como age. Todas as suas ações são poderosas e perfeitas porque feitas sabiamente. Sabedoria não é algo necessariamente que está em Deus. De certo modo, ele é a própria sabedoria, a fonte dela. É por isso que a graça de Deus não vem impulsivamente sobre nós, ou mesmo apaixonadamente. Vem em sabedoria. Deus sabe o que ama e a quem ama. Seu amor e graça é absolutamente racional.

 

Já a Prudência tem a ver com uma virtude que não existiria se soubéssemos que Deus não existe. Ele é a fonte de toda prudência. A ação redentora não foi (nem é) ingênua ou pueril. Agiu o tempo todo prudentemente, sabiamente, demonstrando que há em Deus justiça e bondade em sua escolha eterna. Não é preciso muito esforço para concluirmos que nossos padrões acerca de justiça são insuficientes quando desejamos entender a Deus e o que ele fez. Portanto, fuja da tentação de achar que Deus é injusto em sua eleição. Nós nem mesmo sabemos o que é justiça, ainda mais aquilo que para ele é justiça.

 

9 fazendo-nos conhecer o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, 

 

Como fruto de um amor que não se pode medir nem explicar, Deus revelou a nós seu amor, coisa que, aparentemente, não revelou a nenhuma outra de suas criaturas. Quando o apóstolo fala do “mistério de sua vontade”, ela fala de nossa salvação, motivo do louvor de Paulo nesta primeira de duas orações que ele faz no capítulo um de sua epístola aos efésios.

 

Esta salvação vem a nós de acordo com seus planos pré-estabelecidos na eternidade passada. O beneplácito de Deus de certo modo revela sua prudência, mencionada no verso anterior. Deus agiu de um modo sensato em sua eleição. É possível a nós compreendermos isso? A menos que provem o contrário, afirmo com convicção que não. Por melhor que argumentemos, não conseguiremos nos desfazer do embaraço daquilo que para nós é justiça. Sempre acusaremos Deus de injusto.

 

Devemos, sabiamente, abandonar todo esforço em querer justificar a Deus quanto à eleição. Três coisas são certas:

 

1. Nenhum ser humano merece a salvação (nem mesmo os eleitos);

2. Deus escolheu de um modo sábio, sensato e prudente;

3. Deus foi e sempre será justo e bom, em seu caráter e em suas decisões.

 

Portanto, desistamos de querer “ganhar a briga” pela doutrina da eleição. Ela não nos foi revelada para que brigássemos, mas para que louvássemos a Deus por sua maravilhosa graça que nos anteviu salvos antes da fundação do mundo. Nunca pergunte o por quê de Deus não ter salvo um amigo seu. Pergunte o por quê dele ter salvo você. E então, o louve, com todo seu coração.

 

O beneplácito, conforme muitas versões em português traduz, vem da palavra original εὐδοκίαν⁠1 para “plano generoso”. Foi de um modo generoso que o Senhor nos anteviu, nos predestinou e que, generosa e abundantemente, tem nos abençoado e amparado dia após dia.⁠2 Assim, sabemos que nossa salvação trouxe grande prazer ao próprio Deus.

 

Na continuação da epístola, Paulo afirma que a vinda de Cristo se deu naquilo que Deus mesmo chamou de “a plenitude dos tempos”. Este termo tem a ver com o ápice da história, o momento mais especial dentro do plano da criação. Para aquele que é o Criador e que é Eterno, tudo o que acontece antes e depois desse momento é periférico e menos importante em comparação com a crucificação. A história da humanidade é a história da redenção. O que não tem a ver com redenção, é periférico.

 

Vejamos o por quê.

 

10 de fazer convergir em Cristo todas as coisas, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra,

 

Como disse o teólogo puritano Matthew Henry, todas as linhas da revelação divina encontram-se em Cristo. Ou seja, além da própria história da humanidade encontrar o seu ápice em Cristo, tudo o que de Deus recebemos através de revelação especial (Verbo Escrito e Verbo Encarnado) convergem igualmente a Cristo.

 

Sem Cristo não há religião (no sentido puro da palavra, ou seja, um religar-se a Deus). Todos os povos, todas as línguas, todas as nações, tudo e todos que se encontram redimidos encontram-se e ainda encontrar-se-ão em Cristo, através da morte e ressurreição de Cristo.

 

Deus fez tudo convergir à cruz. Tanto os que serão salvos quanto os que continuarão perdidos por escolha própria por toda a eternidade. A cruz divide a história e aqueles que estarão ou não na eternidade com Deus. Este atrair ou convergir não seria apenas algo terreno, mas algo cósmico, toda a natureza criada seria convergida à Cristo na cruz. A cruz é o centro de toda a história e é nela que tudo encontra sua redenção. Através dela, abre-se a esperança para uma “nova humanidade” ligada ao “segundo Adão” que habitará a “nova Terra e os novos céus”!⁠3

 

11 nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade,

 

Paulo, aqui no verso 11, apresenta o papel dos que somos salvos dentro da história da redenção. Em Cristo, todos fomos feitos herança. Essa herança há muito havia sido prometida. Mesmo antes de Cristo nascer, Deus usou o profeta Isaías para revelar isso:

 

“Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma e ficará satisfeito; o meu Servo, o Justo, com o seu conhecimento, justificará a muitos, porque as iniquidades deles levará sobre si. Por isso, eu lhe darei muitos como a sua parte, e com os poderosos repartirá ele o despojo, porquanto derramou a sua alma na morte; foi contado com os transgressores; contudo, levou sobre si o pecado de muitos e pelos transgressores intercedeu.” Is 53.11-12.

 

Ele levou os nossos pecados sobre a cruz e lá pagou o preço por cada um deles. Agora, já não há mais condenação. Tendo pago o nosso preço, fez de nós a sua herança. Assim, do início ao fim, nossa salvação tem a ver com Ele, Cristo, e nunca conosco. Somos totalmente passivos no que diz respeito à obra e méritos pela salvação.

 

Tudo isso foi feito por causa da vontade de Deus. Do início ao fim, nossa salvação é pela pura e graciosa vontade de Deus. A expressão grega κατὰ τὴν βουλὴν τοῦ θελήματος αὐτοῦ poderia ser traduzida livremente assim: “de acordo com aquilo que foi planejado segundo a vontade dele”. Ou seja, não se trata apenas de um conhecimento prévio, ou de uma presciência, mas de algo que foi planejado, pensado, segundo a sabedoria, a justiça, a bondade e o amor que há nas pessoas benditas da Santíssima Trindade. Dessa graciosa deliberação, resultou o “beneplácito” de sua vontade.⁠4

 

Não foi por acaso nem ou presciência, mas por decisão ativa e deliberada do Pai, do Filho e do Espírito Santo na eternidade. Assim foram todos os santos predestinados para a glória daquele que nos criou.

 

_____________

1 Do grego koinê εὐδοκία, ας (aquilo que satisfaz alguém).

2 Johannes P. Louw e Eugene Albert Nida, Greek-English lexicon of the New Testament: based on semantic domains (New York: United Bible Societies, 1996), 298.

3 Matthew Henry, Matthew Henry’s commentary on the whole Bible: complete and unabridged in one volume (Peabody: Hendrickson, 1994), 2308.

4 Johannes P. Louw e Eugene Albert Nida, Greek-English lexicon of the New Testament: based on semantic domains (New York: United Bible Societies, 1996), 357.

A DOUTRINA DA ELEIÇÃO: MOTIVO PARA BRIGA OU ADORAÇÃO?

Porque tantos brigam quando tratam da doutrina da eleição? Porque irmãos em Cristo deixam de se falar por meses ou anos depois de se descobrirem defendendo lados diferentes dessa mesma doutrina? Seria a doutrina da eleição uma doutrina pela qual deveríamos brigar, discutir ou disputar? 

Creio que a única razão pela qual pessoas literalmente brigam por causa de uma doutrina é por que tais pessoas ainda não compreenderam o propósito da mesma.

Ainda mais quando se fala sobre a doutrina da eleição. Essa doutrina é uma das mais belas das Escrituras e, seu único propósito (ou, pelo menos, seu propósito mais elevado) é nos conduzir à adoração.

É com uma palavra de adoração que o apóstolo Paulo introduz suas palavras sobre a eleição. Vejamos suas palavras em Ef 1.4:

assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele em amor.

Reflitamos nestas palavras…

assim como nos escolheu, nele

Eleição tem a ver com escolhas que outros fazem a nosso respeito. Nunca ninguém se elege para desempenhar uma responsabilidade. Sempre outro o elege. Aqui, Paulo está louvando a Deus por ter sido escolhido pelo próprio Deus para algumas coisas. Mais adiante, Paulo irá descrever o que são tais coisas, que, na verdade, formam o corpo do seu louvor.

Este texto começa com uma informação que não pode ser compreendida sem entendermos, ainda que rapidamente, o que eram as eleições no Império Romano.

Dentro do Império Romano de então, a eleição estava ligada a um conselho. Os césares romanos eram eleitos por meio de um conselho de senadores. Ninguém se fazia César, eram todos feitos césares por meio daquele conselho que possuía a prerrogativa de escolher, legislar e, até mesmo, dar ao César a autoridade de um ditador durante um tempo limitado em momentos de guerra.

Então, este é o conceito por trás da palavra “escolheu”. Assim como os césares eram eleitos por outros, Paulo louva a Deus por ter sido eleito por Deus também.

Portanto, a eleição trata-se de algo que não vem de nós. É um chamado de Deus para algo.

Algo interessante a ser observado com relação à palavra usada por Paulo no também poderia ser traduzida com “colhido”, visto que a palavra também é usada para isso, além de em contextos eletivos para cargos de autoridade.

antes da fundação do mundo, 

Então, é certo que Deus escolheu um povo. Que povo? Os santos já mencionados no verso 1. Estes que são chamados de santos são aqueles a quem Deus escolheu.

A continuação continua afirmando quando a eleição aconteceu. A resposta está nestas últimas palavras: “antes da fundação do mundo”. Ou seja, antes que Deus tivesse criado céus e terra, antes de Gn 1.1, Deus, mediante a sabedoria de Seu conselho, Pai, Filho e Espírito Santo, escolheu pessoas que seriam salvas do inferno e capacitadas pelo Espírito Santo a viverem de um modo santo nesta Terra.

Veja as palavras do apóstolo Pedro sobre esta mesma verdade:

18 sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram,

 19 mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo,

 20 conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós (1Pe 1:18-20 ARA) 

Assim, não somente a eleição de um povo para ser santo, mas o próprio sangue de Cristo foi conhecido desde antes da fundação do mundo. Ou seja, antes da Luz existir, na mente de Deus já havia a Cruz.

para que fôssemos santos 

Disso segue a razão de nossa eleição. E aqui, fica mais claro sobre quem Paulo está falando. O verbo falar possui um sujeito oculto de primeira pessoa do plural, “nós”. 

Nós! Nós quem? Os santos. Ou seja, aqueles que vivem em busca da santificação, ou, da mortificação de seus próprios pecados. Estas são as pessoas para as quais o Senhor se destina por meio desta carta.

A eleição é para a santidade. A santidade nunca alcançará a eleição. É a eleição que torna possível a santidade.

e irrepreensíveis 

O Espírito Santo continua a afirmar que os eleitos, além de santos, seriam irrepreensíveis. 

O que significa isso? Significa que a vida dos santos eleitos será de luta contra tudo o que possa atrair o olhar de repreensibilidade dos de fora para nós. Não significa ser perfeito, pois ninguém nunca será. Significa lutar contra o pecado. Lutar pela santidade.

Tais pessoas, lutam para fugir da aparência do mal. Elas se importam com o que os outros estão pensando delas, com seus testemunhos. Por isso, vivem como se fossem irrepreensíveis, embora ninguém jamais o será plenamente.

diante dele em amor;

Tudo isso, Deus o fez envolto em amor. A expressão “em amor” significa que estamos envoltos completamente, por dentro e fora, por amor. Não há nada de Deus para nós que não seja por amor e em amor. Deus não ama, Ele é amor. Por isso, Ele nos chama para andamos perante Ele em amor.

CONCLUSÃO

Deus, então, é louvado por Paulo por causa dessa graça de ser eleito. Essa é a única razão pela qual o Senhor nos revela o mistério da eleição. Não para discussões ou debates intermináveis na internet. Não para nos acharmos mais sábios que outros que ainda não compreenderam essa doutrina. Não para que nos vejamos como detentores de um conhecimento secreto superior e nos sintamos mais que os outros, mas para que levantemos as mãos e adoremos ao Senhor pela Sua maravilhosa graça que nos tirou da morte para vida.