INTERCESSÃO: uma prática que pode trazer o avivamento pessoal

“Mudou o Senhor a sorte de Jó, quando este orava pelos seus amigos; e o Senhor deu-lhe o dobro de tudo o que antes possuíra.” 

Jó 42.10

Orar pelos outros

Uma definição simples de intercessão é esta: orar pelos outros. No entanto, a intercessão vai além do que pedir a Deus algo em favor da vida de outro. De acordo com o Dicionário Oxford de Igreja Cristã, intercessão não é apenas orar em favor dos outros. Além de fazer parte das liturgias cristãs mais antigas, a intercessão também se caracteriza por fazer algo por alguém, na história do cristianismo.

Ou seja, quando alguém está fraco em sua fé, é assistido por outro que intercede em seu lugar, ou em seu favor, a Deus, orando por essa pessoa (ou seja, no lugar dela, como se fosse ela), lendo a Bíblia por essa pessoa, além de realizar outros atos de devoção em lugar de alguém em uma situação específica da vida da pessoa na qual ela se encontra impossibilitada de continuar a realizar atos de piedade e devoção. Obviamente, isso tudo tem como propósito o socorro de Deus sobre a vida dessa pessoa.

Não entendemos claramente como se dá esse “colocar-se no lugar de”. Só sabemos que devemos viver como um corpo, de modo que, quando um sofre, todos sofrem, quando um se alegra, todos se alegram. Assim, então, quando algum membro do corpo é impossibilitado de fazer algo em sua piedade, espera-se que outra pessoa no corpo faça em lugar daquela impossibilitada. É isso que o Espírito Santo faz por nós, quando intercede por nós “com gemidos inexprimíveis” (Rm 8.26b), em nós, como se fosse nós. “Porque não sabemos orar como convém”, o Espírito intercede em nosso lugar.

A despeito dessa visão que também é contemplada na história da igreja, a intercessão ficou mais conhecida como a prática de orarmos uns pelos outros.

Esquecer-se de si 

A intercessão não é algo natural do ser humano. O que nos é natural é o egoísmo. A intercessão mata o egoísmo. A intercessão fez com que Jó, doente como estava, intercedesse por seus amigos, texto que lemos mais acima. Na situação de Jó, é natural que não lembremos dos outros, afinal, temos problemas demais em nós mesmos.

No entanto, o que agradou ao Senhor e fez com que este restaurasse tudo o que Jó havia perdido, foi o fato dele ter se lembrado de seus amigos, e orado por eles, apesar dele mesmo, Jó, ter problemas demais para apresentar ao Senhor. Jó não se preocupou apenas com seus próprios problemas, mas trouxe diante de Deus os problemas dos outros também. E isso agradou demais a Deus. O texto bíblico diz que foi quando Jó passou a interceder que o Senhor o abençoou e deu fim a todo o seu sofrimento.

Pense comigo, não é normal intercedermos pelos outros quando temos problemas pessoais ou em nossas famílias, não é verdade? Mas é exatamente isso que Deus espera que façamos: que esqueçamos de nós, de nossos problemas, e passemos a nos lembrar dos outros também, a nos colocar na pele dos outros, nos sofrimentos dos outros, a sofrermos o sofrimento dos outros a não apenas o nosso.

O que nos parece é que, quando paramos de pensar em nós e passamos a interceder pelos outros, Deus passa a cuidar de nós e de nossos problemas de um modo que, antes, não acontecia. A paz que sentido é patente. E tudo começa quando apresentamos a Deus nossos pedidos e súplicas, mas também apresentamos aquilo que tem feito outros sofrerem.

Vamos ver como isso se desenvolve, brevemente, nas Escrituras.

O Espírito faz isso 

Romanos 8:26–27: Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis.27E aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito, porque segundo a vontade de Deus é que ele intercede pelos santos.

Bem, esse texto já foi rapidamente comentado mais acima, quando expliquei algo sobre a intercessão. Quando estamos fracos e incapazes, seja por qual motivo for, o Espírito ora em nosso lugar. E é “segundo a vontade de Deus que ele intercede pelos santos”.

Veja que o Espírito intercede por você. Agora mesmo, se ele compreende que você não tem condições de orar sozinho por sua própria vida, ou seja, que você está fraco, distante, incapaz espiritualmente, ele intercederá em seu lugar a fim que você fique firme.

Quando estamos bem, é isso que devemos fazer pelos outros também. O Espírito faz em nós e por nós a fim de que estejamos bem a ponto de podermos fazer isso pelos outros também.

Jesus faria isso

Isaías 53:12: Por isso, eu lhe darei muitos como a sua parte, e com os poderosos repartirá ele o despojo, porquanto derramou a sua alma na morte; foi contado com os transgressores; contudo, levou sobre si o pecado de muitos e pelos transgressores intercedeu.

O profeta Isaías prometeu que Jesus, quando viesse, faria isso por seu povo. Um detalhe interessante é que Jesus não faria isso apenas por aquelas pessoas já santas e redimidas, mas o faria por todas as pessoas, inclusive aquelas que estivessem em pecado. O profeta Isaías está nos dizendo que Jesus intercede inclusive por pecadores!

Creio que devemos seguir tal exemplo. Creio que também devemos orar por pessoas que estão distantes de Deus, que estão em pecado, sofrendo por causa de seus pecados e incapazes de clamar a Deus por restauração e perdão (devido ao distanciamento que essas pessoas possuem de Deus). O pecado as afasta de Deus, as impossibilita de clamarem por ajuda. Jesus intercede por elas.

Jesus continua fazendo isso

Hebreus 7:25: Por isso, também pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles.

O que vemos neste texto, é que Cristo não apenas fez isso no passado, mas continua a fazer pelas pessoas que se converteram a ele. A prática da intercessão é presente na vida de Jesus. Cristo continua intercedendo por seu povo, pela vida das pessoas que se achegam a Deus. Ou seja, essa não é uma prática passada, mas presente, que, agora mesmo, ele realiza por você em mim.

Cristo é um exemplo para todos nós dia auto-negação, de pessoa que se importam mais com os outros do que consigo mesmo. E isso não acontece por qualquer sentimento especial que ele nutra a nosso respeito, mas por uma decisão de lembrar-se de nós, e de colocar-nos co nstantemente diante do trono da graça de Deus. Olhando para o exemplo de Cristo, deveríamos viver por interceder uns pelos outros também. Deveríamos lembrar sempre uns dos outros em nossas orações, a exemplo de Cristo, suplicando o favor, a misericórdia, e a graça de Deus sobre nossos amigos e irmãos em Cristo e também sobre a vida daqueles que estão ainda no pecado.

Jesus ensinou a fazer isso

Mateus 5:44: Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem;

Aqui, temos não o exemplo daquilo que Cristo faria, nem daquilo que ele fez, mas uma ordem daquilo que todos devemos fazer. Sua ordem contempla até mesmo nossos inimigos. E isso é impressionante. Não era comum no contexto judaico esse tipo de afirmação. Os ensinos rabínicos que hoje são conhecidos pelos manuscritos de Qumran ensinam exatamente o oposto, que os judeus deveriam odiar seus inimigos e não amar, muito menos orar, por aqueles que os perseguissem.

Enfim, esse ensino de Jesus é totalmente diferente de tudo o que se vivia na época. E esse ensinamento chega até nós como uma forma de nos fazer compreender a maneira como devemos tratar as pessoas que nos fazem mal, que nos persegue, que nos caluniam, traem, ofendem, etc. Devemos interceder por todas elas. Como faríamos isso sem que nos esquecêssemos de nós mesmos?

Paulo recomenda os efésios a fazerem isso

Efésios 6:18–20: com toda oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito e para isto vigiando com toda perseverança e súplica por todos os santos19e também por mim; para que me seja dada, no abrir da minha boca, a palavra, para, com intrepidez, fazer conhecido o mistério do evangelho,20pelo qual sou embaixador em cadeias, para que, em Cristo, eu seja ousado para falar’ como me cumpre fazê-lo.

Por fim, temos esta recomendação do apóstolo Paulo aos efésios de que eles deveriam interceder uns pela vida dos outros também. Paulo recomenda que todos porém, supliquem, o tempo todo e não apenas em alguns cultos especiais. Eles deveriam vigiar com perseverança. E Paulo recomendar ao jovem Timóteo que transmitisse estas informações a todos os pastores sobre os quais ele ministraria. Estes pastores bem como suas igrejas deveriam manter o ensino da intercessão.

1 Timóteo 2:1–2: Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens,2em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos vida tranqüila e mansa, com toda piedade e respeito.

Paulo ensina Timóteo que ele deveria exortar a todos a fazerem isso. Paulo incluí aqui que a intercessão também deve ser feita em favor dos que nos governam. Paulo cita aqui os reis e todos os que se acham investidos de autoridade. A razão pela qual devemos interceder por todos eles, é para que tenhamos uma “vida tranquila e mansa, com toda piedade e respeito”.

Creio que a intercessão tem poder de nos trazer para mais perto daquilo que Deus espera que sejamos como seres humanos. Creio intercessão tem o poder de matar nosso egoísmo. Creio também que a intercessão tenho poder para despertar uma avivamento pessoal, e, quem sabe, um avivamento comunitário.

Conta-se a história de que o Conde Zinzendorf, um dos pais do avivamento morávio, líder de um grande movimento missionário, dava uma espécie de instrução espiritual a 9 meninas da idade de 10 a 13 anos. Essas aulas a essas crianças, segundo ele contou a sua esposa, não obtinham muita atenção da parte das meninas. Ele, porém, quis insistir com elas.

Ele se recorda que, em 16 de julho de 1727, Zinzendorf derramou seu coração em intercessão. Ele estava angustiado por essas meninas. Então, por 10 dias, de 17 a 27 de agosto de 1727, as intercessões dele foram respondidas e um grande derramamento do Espírito de Deus veio sobre aquelas garotas.

Com o tempo, mais e mais garotas e garotos, depois também adultos da comunidade de refugiados de Herrnhut vieram debaixo da influência do Espírito se juntar ela comunidade. Uma testemunha daqueles dias chegou a dizer que “não podia atribuir a causa daquele avivamento espiritual entre as crianças de Herrnhut a nada que não um maravilhoso derramar do Espírito de Deus”.⁠1

Assim, creio que podemos desfrutar hoje também de um despertamento espiritual, à medida em que nos esqueçamos de nós mesmos e passemos a nos lembrar mais dos outros em nossas orações diárias. A intercessão tem sim o poder de mudar muita coisa em nossas vidas. Precisamos redescobrir essa prática diária em nossas vidas.

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1 Tan, P. L. (1996). Encyclopedia of 7700 Illustrations: Signs of the Times (p. 1154). Garland, TX: Bible Communications, Inc.

A IMPORTÂNCIA DA VIDA DE ORAÇÃO (Comentário final à Epístola aos Efésios)

Nenhum cristão pode negligenciar sua vida de oração. Orar é permanecer vivo, de pé, acordado, em meio à uma grande batalha. Oração é a primeira fonte de força que o cristão possui para lutar contra os poderes desta era.⁠1

Paulo compreendia tão bem este princípio que termina sua Epístola aos Efésios da mesma maneira como começou, falando sobre oração, pedindo aos seus irmãos que se unissem a ele em oração.

com toda oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito e para isto vigiando com toda perseverança e súplica por todos os santos e também por mim; para que me seja dada, no abrir da minha boca, a palavra, para, com intrepidez, fazer conhecido o mistério do evangelho, pelo qual sou embaixador em cadeias, para que, em Cristo, eu seja ousado para falar, como me cumpre fazê-lo. 

E, para que saibais também a meu respeito e o que faço, de tudo vos informará Tíquico, o irmão amado e fiel ministro do Senhor. Foi para isso que eu vo-lo enviei, para que saibais a nosso respeito, e ele console o vosso coração. Paz seja com os irmãos e amor com fé, da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo. A graça seja com todos os que amam sinceramente a nosso Senhor Jesus Cristo.

Ef 6.18–24

Vejamos os três primeiros versos:

18 com toda oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito e para isto vigiando com toda perseverança e súplica por todos os santos 19 e também por mim; para que me seja dada, no abrir da minha boca, a palavra, para, com intrepidez, fazer conhecido o mistério do evangelho, 20 pelo qual sou embaixador em cadeias, para que, em Cristo, eu seja ousado para falar, como me cumpre fazê-lo.

Um embaixador em cadeias. É assim que Paulo se descreve no início de sua despedida. Você seria capaz de imaginar tal cena? A de um embaixador em cadeias? Um embaixador, principalmente dentro do contexto paulino, era alguém que corria o império romano, livre, como um mensageiro de reis e, às vezes, príncipes. No entanto, aqui temos um embaixador em cadeias. Alguém portanto uma mensagem real, do Rei dos reis, preso, sem condições de expor sua mensagem diante de todas as autoridades da terra.

É assim que Paulo pede que efésios que orem por ele com toda oração e súplica, que falem com em todo tempo ao Senhor por si mesmos, mas, principalmente, pelos demais cristãos espalhados pelo mundo em perseguição, e também por Paulo, preso por causa da mensagem.

No entanto, orar sem vigiar é imprudência. Por isso Paulo diz que eles deveriam orar e vigiar com toda perseverança. Sua oração sem cessar deveria ser por todos os santos, ou seja, por todos os cristãos espalhados pelo mundo.

Após orientar os efésios a orarem por seus irmãos na fé, Paulo pede para que se unam a ele em oração. Paulo pede oração por sua tarefa de anunciar o Evangelho, ainda que em cadeias. Um embaixador precisa de palavras, de uma mensagem. E Paulo compreendia sua completa dependência de Deus para anunciar exatamente aquilo que o Rei dos reis deseja que seja anunciado.

O desejo de Paulo era tornar a mensagem do Evangelho conhecida, o mistério do Evangelho que agora se torna conhecido de todos os homens.  E Paulo queria ter coragem para anunciá-lo, sem temer as outras consequências que poderiam vir sobre ele por conta de sua tarefa de anunciar. Ele já estava preso por causa disso. Que não lhe faltasse coragem.

Após lermos Paulo iniciando sua Epístola aos Efésios orando em adoração a Deus por sua graça e salvação, e também o vermos orando pelos efésios, Paulo encerra convidando os efésios a que se unissem a ele em oração, por sua vida e ministério. Será que Paulo levava a sério a vida de oração? Ou será que um homem da estatura espiritual dele chegou a um momento da vida em que considerou que não precisava mais orar? Paulo não precisava mais orar?

É obvio que precisava. Parece que, quanto mais perto de Deus chegava, mais dependente dele ficava. O amadurecimento espiritual, na verdade, torna-nos mais dependentes de Deus, como crianças que, quanto menores são, mais dependentes vivem de seus pais. Na vida cristã de Paulo, observamos o mesmo, quanto mais Paulo “cresce” espiritualmente, mais ele se torna como uma criança no Reino, e quando mais “criança” aos olhos de Deus se torna, mais dependente também ele vive.

Paulo levava muito a sério sua vida de oração. E “orar é trabalho duro”, como escreveu N.T.Wright⁠2 em seus comentários às epístolas da prisão. Para Wright, a oração não pode ser resumida a uns poucos momentos de meditação sonolenta realizada no final do dia, ou alguns poucos momentos preguiçosos e desatentos no início do dia. Como argumenta Wright, é óbvio que é melhor isso do que nada. Mas é o mesmo que sobreviver com um pequeno pedaço de pão ao longo do dia. Sem dúvida, uma alimentação maior, mais completa, será melhor para a saúde física do que apenas um pequeno pedaço de pão. Para Paulo, quem se engaja em uma vida de oração, deve manter-se sempre alerta, atento, vigiando e orando o tempo todo.

21 E, para que saibais também a meu respeito e o que faço, de tudo vos informará Tíquico, o irmão amado e fiel ministro do Senhor. 22 Foi para isso que eu vo-lo enviei, para que saibais a nosso respeito, e ele console o vosso coração. 23 Paz seja com os irmãos e amor com fé, da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo. 24 A graça seja com todos os que amam sinceramente a nosso Senhor Jesus Cristo.

Paulo termina a epístola com suas costumeiras considerações e despedida finais. Suas palavras sobre Tíquico nos versos 21 e 22 são praticamente idênticas às palavras encontradas em Colossenses 4.7-8:

Colossenses 4.7–8: Quanto à minha situação, Tíquico, irmão amado, e fiel ministro, e conservo no Senhor, de tudo vos informará. Eu vo-lo envio com o expresso propósito de vos dar conhecimento da nossa situação e de alentar o vosso coração.

Tíquico, então, é quem levou estas epístolas às igrejas de Éfeso e Colossos. Não que ele estivesse sozinho, pois não estava. Mas era o principal responsável deixado por Paulo para entregar a mensagem.

Tíquico era um cristão gentil, da Ásia Menos. Ele é muito mencionado no Novo Testamento, sempre como um parceiro no ministério de Paulo (At 20.4, Ef 6.21, Cl 4.7, 2Tm 4.12, Tt 3.12). Em Atos, sabemos que Tíquico acompanhou Paulo em sua terceira viagem missionária (At 20.4). Em outras citações, ele é mencionado como o irmão amado, o servo fiel, um conservo. Paulo confiava muito nele e várias vezes o comissionou a entregar algumas das cartas que hoje fazem parte do novo Testamento.

Paulo esperava que Tíquico contasse tudo o que estava acontecendo com Paulo naqueles últimos dias e que também consolasse o coração dos efésios que estavam, provavelmente, preocupados com a perseguição dos últimos dias. A consequência seria que eles, ouvindo a Palavra de consolo vinda de Tíquico, tivessem paz em seus corações.

Paz… e amor com fé, essas são as consequências maravilhosas que viriam de Deus sobre aqueles que ouvissem as palavras de Tíquico. Deus nos dá paz em meio às perseguições e, ao mesmo tempo, enche nossos coração com amor com fé, ou seja, amor e mais fé, amor unido à fé. Pensando em um tempo de perseguição religiosa e injustiças contra os cristãos, faz sentido imaginarmos o amor que encheria o coração dos perseguidos, obviamente um amor pelo que os perseguiam, com fé de que o Senhor está soberanamente no controle de todas as coisas.

Paz, então, está intimamente ligada à fé e ao amor. Todas vêm de Deus sobre o coração dos seres humanos. Vêm da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo. Foi esse mesmo amor que encheu o coração de Cristo sobre a cruz, quando orou por aqueles que o crucificavam, amando-os em fé. É esse mesmo amor cheio de fé que Deus deseja encher nossos corações. Só assim, teremos igualmente paz.

O apóstolo Paulo termina sua Epístola com uma bênção, desejando que a graça de nosso Senhor Jesus Cristo fosse com todos os que ama sinceramente a nosso Senhor Jesus Cristo. É essa mesma graça que nos abre os olhos para que comecemos a olhar para Deus na face de Cristo sobre a cruz e o amarmos com todo nosso coração, força e alma. É por graça que o amamos. É por graça que o recebemos em nossos corações, É por graça que permanecemos de pé, mesmo quando as tribulações tentam nos derrubar. É por graça que um dia entramos na presença do Pai e é pela mesma graça que seremos sustentados pelos séculos dos séculos em sua maravilhosa presença.

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1 John D. Barry et al., Faithlife Study Bible (Bellingham, WA: Logos Bible Software, 2012), Ef 6.18.

2 Tom Wright, Paul for Everyone: The Prison Letters: Ephesians, Philippians, Colossians, and Philemon (London: Society for Promoting Christian Knowledge, 2004), 78.

A SOLIDÃO DE CRISTO E A NOSSA ESPIRITUALIDADE

“Somos de Deus: vivamos, pois, para ele e morramos para ele. Somos de Deus: então que sua sabedoria e vontade governem todas as nossas ações. Somos de Deus: que todas as partes de nossa vida se empenhem concomitantemente em prol dele como nosso único alvo legítimo.”

João Calvino⁠1

Tendo-se levantado alta madrugada, saiu, foi para um lugar deserto e ali orava. Procuravam-no diligentemente Simão e os que com ele estavam. Tendo-o encontrado, lhe disseram Todos te buscam. Jesus, porém, lhes disse: Vamos a outros lugares, às povoações vizinhas, a fim de que eu pregue também ali, pois para isso é que eu vim. Então, foi por toda a Galiléia, pregando nas sinagogas deles e expelindo os demônios.

Mc 1.35–39

35 Tendo-se levantado alta madrugada, saiu, foi para um lugar deserto e ali orava.

A cena descrita nesta passagem localiza-se no início do ministério de Jesus. Ele havia, segundo Marco, acabado de escolher alguns de seus primeiros apóstolos. O colégio apostólico ainda nem estava formado, mas estes primeiros chamados já puderam experimentar o poder daquele que os chamou sobre demônios e doenças. Sem dúvida, não era um homem qualquer, ou um homem comum. Não se tratava de um mágico também. Embora os mágicos já existissem em vários lugares do mundo — e muitos eram considerados semi-deuses — não eram comuns mágicos naquela região.

Pouco a pouco, os feitos de Jesus acabaram atraindo atenção de um grande número de pessoas e sua fama crescia a cada dia. Após entrar em Cafarnaum e procurar por uma sinagoga, enquanto lhe expunha as Escrituras, um homem é possuído por um espírito imundo e Jesus o expulsa. Imediatamente, alguns associam isso a alguma nova doutrina. Ao sair da sinagoga, foram direto para a casa de Pedro e André, onde a sogra de Pedro estava doente. Falaram dela para Jesus e ele, só de dar a mão a ela, a curou. Ao se levantar, começou a servi-los em casa.

Quando chegou a tarde, já era tão grande a fama do que havia acontecido que à porta da casa onde estavam, uma multidão se ajuntou, doentes, amigos de doentes, e pessoas querendo ver milagres gratuitamente — era comum aos mágicos, e muitos consideraram Jesus um mágico, cobrarem por suas ilusões. Jesus curou a muitos, além de expulsar demônios.

Ao final do dia, junto dos demais, adormeceu, provavelmente na mesma cidade e casa onde estavam. E é aqui que o texto de Mc 1.35 começa. Antes que todos os demais acordassem, Jesus se levantou e procurou um lugar deserto para orar. Ainda era alta madrugada. Segundo o Dr. Robert James Utley, “Isso se refere à última vigia da noite, algo entre 03h00 e 06h00 da manhã.”⁠2

Se temos a Cristo como nosso mestre e guia, devemos observar sua vida de oração. Ele tinha uma vida de oração? Diante do que aconteceu no dia anterior, levantar-se alta madrugada era a única solução para quem queria estar sozinho. No escuro, provavelmente Jesus não teria muitas distrações. Jesus sabia o que queria. Ele sabia que precisava sair do meio onde facilmente poderia ser distraído. 

Jesus compreendia que precisava de um lugar deserto, um lugar como um quarto, uma cozinha, um quintal, ou uma praça, em momentos em que ninguém está nestes lugares. Para nós, hoje, isso nem sempre será confortável, mas a partir do momento que nos levantamos e saímos em busca deste deserto, recebemos o conforto que precisamos para as lutas pessoais e ministeriais. Nós também precisamos desta solidão de Cristo.

36 Procuravam-no diligentemente Simão e os que com ele estavam.

Não sabemos quem são estas pessoas que, com Pedro, procuravam a Jesus. É bom lembrar que, provavelmente, Jesus estava na casa de Pedro e André, no mesmo lugar onde, no dia anterior, havia curado a sogra de Pedro.

Essa procura dos discípulos interromperia o momento de deserto de Cristo. Estes momentos a sós com Deus nunca durarão para sempre. Precisamos estar cientes de que interrupções sempre acontecerão, e que elas nem sempre são ruins. A interrupção só existiu por que Jesus buscou o deserto. Estivesse ele dormindo, certamente não seria interrompido. 

Cristo buscou o deserto porque, como homem, precisava do mesmo. Como homens, também precisamos nos conscientizar que seguir o exemplo de Cristo, ou seja, buscar desertos em nosso dia a dia, trará para nossas almas cura, alimento e direção do próprio Deus. Foi Jesus quem disse:

“Mas tu, quando orares, entra no teu quarto e, fechando a porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.” 

Mateus 6:6

37 Tendo-o encontrado, lhe disseram Todos te buscam.

38 Jesus, porém, lhes disse: Vamos a outros lugares, às povoações vizinhas, a fim de que eu pregue também ali, pois para isso é que eu vim.

Mas daí, se dá o encontro. Quando o acham, dizem o que está no verso 37. Eles o buscavam pelo fato dele ser o centro das atenções o motivo pelo qual todos estavam ali. Era apenas o início de seu ministério, mas todos (ou muitos) os que ali se encontravam ali estavam por causa dele.

No verso 38, Jesus nos ensina aqui sua preocupação não estava com Jerusalém, com a fama imediata, coisa que seus irmãos lhe sugeriram no início de seu ministério (João 7.3-10). 

às povoações vizinhas, a fim de que eu pregue também ali

Jesus entendia que aquele momento era o momento de ensinar aquelas pessoas. E tudo o que ele fazia, absolutamente tudo, era feito depois de algum tempo de deserto e oração. O Evangelho é para todos, e por isso escolheu aqueles pequeninos povoados para falar do Reino dos Céus.

Resultado vs. Paz

A oração nos dá um senso correto de nossa missão. Sem oração, nunca acertaremos com a vontade de Deus. Construiremos as nossas carreiras, ministérios, plantaremos igrejas, mas nunca teremos paz, visto que a paz só vem por meio dessa comunhão com Deus que nos dirige e fortalece para o ministério. Somente Cristo e o exemplo dele nos colocarão no passo correto em nossa jornada.

Veja que isso não tem a ver com resultados, mas com paz. Os resultados nem sempre são indicadores da vontade de Deus. E os resultados nem sempre trarão paz para você. Mas a paz que excede todo entendimento, essa lhe anima e fortalece, ainda que o ministério passe por lutas e tribulações, você sempre se sentirá forte e em paz.

39 Então, foi por toda a Galiléia, pregando nas sinagogas deles e expelindo os demônios.

Nosso texto termina dizendo que Jesus, após o deserto no qual orou, saiu para pregar o Evangelho. Ele é o nosso maior exemplo. Sem deserto, não há pregação do Evangelho. Sem deserto, não somos moldados muito menos preparados para a obra que Ele nos vocacionou.

No início do cristianismo, todos sabemos das muitas perseguições e martírios vividos pela igreja. Mas, após um bom tempo sem perseguição e o chamado martírio vermelho, alguns cristãos começaram a viver de um modo bastante frouxo. Não havia mais mortificação de pecados, e a diferença entre os cristãos e o mundo era muito pequena.

Foi nessa época que nasceram as comunidades monásticas. Como surgiu a vida monástica?

A vida monástica surgiu no Egito antigo. Sempre houve uma comunidade judaica e cristã muito forte no Egito, na cidade de Alexandria. Foi lá que surgiu a tradução dos LXX.  E, em 313 d.C., quando a perseguição acaba devido ao Édito de Milão (assinado e emitido pelo Imperador Constantino I no Ocidente e Licínio no Oriente) a Igreja passa ter liberdade religiosa. A igreja não se tornou oficial no Império durante o tempo de Constantino, mas apenas em 27 de fevereiro de 380 d.C., com o imperador Teodósio I, quando este fez com que o Cristianismo fosse a única religião autorizada em todo o Império — naquilo que ficou conhecido como Édito de Tessalônica.

Com toda a paz que o Cristianismo passou a desfrutar, ou seja, com o fim do chamado martírio vermelho, alguns passaram a procurar o que ficou conhecido, tempos depois, como a busca pelo martírio branco.

Foi nesse período que nasceu a vida monástica. Após o momento em que os cristãos deixaram de conhecer os familiares dos mártires, deixaram de falar sobre a beleza de seus testemunhos, a grandeza de sua fé e de suas virtudes, de como eles amavam a Deus e eram realmente parecidos com Cristo em suas vidas, alguns homens (e depois mulheres) começaram a fugir para o deserto a fim de buscarem a Deus. Desse modo, a vida monástica surgiu como uma tentativa de fugir do mundo e do pecado, como uma tentativa de buscar o que ninguém mais buscava, ou seja, força na solidão, força no deserto, para vencer a idolatria.

É importante que nos lembremos um pouquinho sobre a história deles a fim de reconhecermos o que podemos aprender com eles.

Os monges primitivos eram homens que queriam estar no deserto (vida eremítica) em um combate constante contra a idolatria. Os primeiros monges viviam sozinhos, e é daí que vem a palavra monge: no grego μοναχός, de μόνος, “sozinho” ou “alguém sozinho”.⁠3

Estes monges fugiam para o deserto para fugir do pecado. Mas seu esforço, por mais bem intencionado que fosse, não deu certo. Os primeiros monges fizeram absurdos. Cometeram exageros tais como viver em cima de árvores (dendritas, do gr. δένδρον), viver sobre colunas (os estilitas, do gr. στῦλος), dentre outros. 

Os primeiros monges certamente prejudicaram sua saúde, feriram seu corpo e cometeram alguns exageros. A igreja entendeu que isso era pecado visto o corpo ser templo do Espírito Santo e é por isso que tais monges deixaram de existir logo cedo.

Mas, apesar de seus erros, compreendemos que a grande maioria deles era bem intencionada; contudo, sem uma direção espiritual. E foi devido aos abusos e erros dos primeiros monges que as gerações posteriores começaram as comunidades cenobíticas (κοινός e βίος, comum e vida).

 Nessas comunidades de monges, existia um pai espiritual que os guardava de exageros. Eles o chamavam de “abba”, do aramaico “pai”. Dessa palavra veio a palavra “abade”, que designava o líder ou pai espiritual de um monastério.

Mas, e aí? O que fazemos com toda essa informação? Esses primeiros monges acertaram? É óbvio que não. E o que aprendemos com ele? Aprendemos que havia em seus corações um desejo enorme de morrer para o mundo.

Tirando, com toda obviedade, todos os exageros e absurdos de uma vida monástica, retemos deles o que falta a muitos de nós em nossos dias: um desejo enorme de morrer para o mundo, de buscar o deserto, ou um lugar deserto, para nele buscarmos força e graça para vencermos a idolatria de nossos corações.

Se nós não possuirmos maturidade para cuidar de nossos corpos como templo do Espírito Santo e não buscarmos com grande intensidade morrer para esse mundo por meio de um deserto com Deus, correremos o enorme risco de nos distrairmos e desperdiçarmos nossas vidas, nossas famílias e nosso ministério.

A solução para isso? Deserto! Que Cristo seja nosso grande exemplo. Que vejamos na solidão de Cristo, em seus momentos de deserto, uma lição de como passarmos os nossos dias. É no deserto com Deus que encontramos força para viver, para perdoar, para evangelizar. É no deserto que nosso caráter é transformado à imagem de Seu filho amado, Cristo Jesus.

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1 João Calvino, Institutas da Religião Cristã. Livro 3, capítulo 7, seção 1.

2 Robert James Dr. Utley, The Gospel according to Peter: Mark and I & II Peter, vol. Volume 2, Study Guide Commentary Series (Marshall, Texas: Bible Lessons International, 2000), 25.

3 F. L. Cross e Elizabeth A. Livingstone, orgs., The Oxford dictionary of the Christian Church (Oxford;  New York: Oxford University Press, 2005), 1111.

ORAÇÃO DE JOELHOS: porque e quando ajoelhar-se?

Porque os cristãos se ajoelham? Você já se fez esta pergunta? Há razões mais específicas pelas quais devemos nos colocar de joelhos? Ou será que todas as orações deveriam ser feitas de joelhos? Seria hipocrisia orar de joelhos? O que a Bíblia diz sobre isso?

Nesta porção de Paulo aos Efésios, o mesmo comenta sobre sua própria experiência nos ajudando a entender pelo menos um bom motivo pelo qual se por de joelhos. 

Muitas outras religiões mantêm essa prática. Muitos, como os muçulmanos, entendem que todas as orações devem ser feitas de joelhos. Não querendo entrar no mérito do porque as outras religiões encontram razões para colocarem-se de joelhos perantes seus deuses, vejamos razões bem claras pelas quais devemos nos colocar diante de nosso Deus.

 

Por esta causa, me ponho de joelhos diante do Pai, de quem toma o nome toda família, tanto no céu como sobre a terra, para que, segundo a riqueza da sua glória, vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior; e, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor, 

 

Ef 3.14–17

 

Sim, há uma razão especial pela qual devemos nos por de joelhos diante de Deus-Pai. Poucas são as vezes em que Paulo afirma que fará tal coisa. Orar é sempre um ato de intimidade entre o cristão e a Santíssima Trindade. Mas, o pôr-se de joelhos sempre teve uma razão específica e especial por detrás de tal atitude.

Não é comum vermos as pessoas ajoelhando-se para falar com Deus. A orações eram feitas de muitas maneiras no tempo bíblico. No entanto, quando se fala que uma pessoa se pôs de joelhos para orar, sempre alguma razão especial está atrelada a isso.

 

Por esta causa, me ponho de joelhos diante do Pai

 

Obviamente, Paulo não estava de joelhos no momento exato em que escrevia estas palavras. Trata-se apenas de uma figura simples relacionada à mais sincera oração.

Paulo não estava preocupado com sua vida, com seus problemas. Sua preocupação estava ligada aos efésios. É por eles que Paulo se ajoelhou. Ele se ajoelha “diante do Pai”, para quem dirige sincera  e amorosamente sua oração.⁠1

Pense por um momento neste fato. Paulo, em nenhuma de suas epístola diz que se ajoelha por si mesmo, mas sempre por outras pessoas. Será que o Espírito Santo não deseja nos ensinar algo com isso? Será que não deveríamos nós também nos ajoelharmos quando estivermos clamando pela vida de outra pessoa?

Como veremos abaixo, não foi apenas Paulo que fez isso. Muitos outros antes dele também se colocaram de joelhos para pedir por outros. Vejamos:

 

Vinde, adoremos e prostremo-nos; ajoelhemos diante do SENHOR, que nos criou. Ele é o nosso Deus, e nós, povo do seu pasto e ovelhas de sua mão. Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o coração, como em Meribá, como no dia de Massá, no deserto,

Sl 95.6–8.

 

Neste texto, o povo é convidado a orar suplicando por forças para que não voltem a cair no mesmo pecado que seus antepassados um dia caíram. Eles se põe de joelhos para clamar a Deus que os ajudasse a não terem o mesmo coração duro que seus pais tiveram nos tempos do deserto.

Não havia uma preocupação individual. O foco é no coletivo. Eles se prostrariam, se ajoelhariam, para pedir uns pelos outros, uns pelas vidas dos outros. O foco não estava no que era particular, mas no que estava relacionado à vida dos outros.

Outro texto que vemos é este:

 

E, quando chegaram para junto da multidão, aproximou-se dele um homem, que se ajoelhou e disse: Senhor, compadece-te de meu filho, porque é lunático e sofre muito; pois muitas vezes cai no fogo e outras muitas, na água.

Mt 17.14–15.

 

Neste texto, temos um homem se pondo de joelhos para pedir pela vida de seus filho. Seu filho tinha problemas aparentemente mentais, os quais, todavia, se revelaram como fruto de possessão demoníaca. O foco do texto, no entanto, não é o problema do filho, mas a atitude do pai. Ele foi até Jesus e, diante dele, ajoelhou-se para pedir por outro.

Aqui também o foco não é pedir por si. O foco daquele que procurou Jesus e se ajoelhou diante dele era outra pessoa. Um pai clamando socorro e libertação por seu filho. Um pai de joelhos clamando pela salvação de seu filho.

Outro texto é este:

 

Porque Salomão tinha feito uma tribuna de bronze, de cinco côvados de comprimento, cinco de largura e três de altura, e a pusera no meio do pátio; pôs-se em pé sobre ela, ajoelhou-se em presença de toda a congregação de Israel, estendeu as mãos para o céu e disse: Ó SENHOR, Deus de Israel, não há Deus como tu, nos céus e na terra, como tu que guardas a aliança e a misericórdia a teus servos que de todo o coração andam diante de ti … Ouve, pois, a súplica do teu servo e do teu povo de Israel, quando orarem neste lugar; ouve do lugar da tua habitação, dos céus; ouve e perdoa.

2Cr 6.13–14, 21

 

Neste texto, o rei Salomão se ajoelha para orar pelo povo. Após algumas palavras de adoração, Salomão intercede pelo povo, para que todas as orações que eles fizessem naquele lugar fossem ouvidas e atendidas pelo Senhor. Ele não pede por si, mas pelo povo, para que não só fossem ouvidas suas oração, mas também para que seus pecados fossem perdoados quando ali confessados.

Outra vez, o foco de quem ora não está em si mesmo, mas em outras pessoas que estão ao seu redor. Outros estão em sua mente quando seus joelhos tocam o chão.

Não lhe parece curioso este fato? São apenas alguns episódios bíblicos. Em todos eles, quem se ajoelha o faz para pedir pelo outro. Seria errado se ajoelhar para pedir por si mesmo? Qual seria a forma de orarmos por nós mesmo?

Na verdade, não há nada de errado em ajoelhar-se para orar por si mesmo. O ponto não é este, mas apenas destacar que, quando homens de Deus se ajoelhavam não era apenas para pedir pelos seus próprios  problemas, mas também pelos outros.

Normalmente, nos ajoelhamos com o objetivo de clamar por uma situação que nos saiu do controle, um pecado que cometemos, uma viagem que faremos, etc. O foco está sempre em nós mesmos. Aqui, com Paulo e todos estes demais textos, aprendemos que nossas orações de joelhos não devem ter apenas nossos pedidos como o centro da oração. É saudável que também nos ajoelhemos a fim de orar apenas pelos outros.

 

de quem toma o nome toda família, tanto no céu como sobre a terra,

 

O verso 15 nos apresenta outro fato maravilhoso. Assim como um pai dá um nome para um filho e para uma família, Deus dá um nome para todos que formam sua família, tanto no céu quanto na terra. 

Dar um nome equivale-se a dar um título.⁠2 Você o leva para onde for e todos o reconhecerão por este nome. Não apenas lhe chamarão por ele, mas também lhe honrarão.

Deus nos dá a honra de seus seus filhos e filhas e de levarmos o seu nome em nossas vidas. Como filhos amados, recebemos dEle esta graça.

Paulo aqui faz uma brincadeira com as palavras. No final do verso anterior, ele citou o πατέρα de quem toda a πατριὰ toma o nome. Pater e Patria, pai e família. Nesta brincadeira, Paulo reforça a identidade do nome entre a família com seu Pai.⁠3

 

para que, segundo a riqueza da sua glória, vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior; e, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor, 

 

No verso 16, Paulo nos recorda que Deus nos dá poder no homem interior. Este poder é o que nos capacita a agirmos com maturidade diante de todas as situações da vida. Não há nada impossível para quem caminha cheio desse poder. Tudo podemos naquele que nos fortalece.

É segundo a riqueza de sua glória que ele nos enche de graça e de poder. É por esta graça que Ele nos faz fortes. É por esta graça que cegos veem e fracos são capazes de lutar contra o impossível. É por esta graça que você e eu não temos motivos para desistir nunca e em nenhum momento de nossas vidas quando estivermos diante de tribulações e angústias.

No verso 17, Paulo trata de uma verdade muito cara aos cristãos: “habite Cristo no vosso coração”. Todos amamos esta expressão. Ensinar a crianças e adultos sobre Cristo estar presente em nossos corações é tão precioso.

No entanto, o que Paulo está fazendo aqui é ligar a riqueza de sua glória ao habitar de Cristo em nossos corações.

Pela fé (que é um dom de Deus, segundo informações reveladas nesta mesma Epístola) é que recebemos a Cristo em nossos corações e assim passamos a estar estabelecidos e firmemente arraigados em Cristo. O poder de Deus faz com que Cristo habite no coração. O poder de Deus é o que faz com que esta habitação seja indestrutível e eterna. Até quando ele habitará em nossos corações? Até que entremos definitivamente em sua presença no novo céu e nova terra. Lá, então, não se fará mais necessária esta atual e interna habitação. Na verdade, lá seremos nós que habitaremos nele, conforme nos aponta o livro de Apocalipse.

 

Algo interessante a ser notado aqui também é o destaque à ação da Trindade em todo o processo. “Pai… Espírito… Filho”. No verso 14, a pessoa do Pai é mencionada. No verso 16, a pessoa do Espírito Santo é mencionada. E, no verso 17, a pessoa de Cristo é mencionada. Se separássemos tudo o que está no meio, as palavras de Paulo nesta porção ficariam assim:

 

“Me ponho de joelhos diante do Pai,… para sejais fortalecidos mediante o seu Espírito,… e, assim, habite Cristo em vosso coração”.

 

Note que o Pai é quem recebe a oração que fazemos ajoelhados. Quem opera na resposta a nosso pedido é o Espírito. É Ele quem opera em nós no tempo da igreja. É pela obra do Espírito segundo a vontade do Pai que o Filho habita em nossos corações fazendo com que conheçamos e experimentemos “a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade⁠4” do amor de Cristo, conforme veremos no comentário dos versos seguintes.

 

Assim, não nos esqueçamos de que a presença de Cristo em nossos corações é o que nos fortalece, que o Espírito Santo continua operando no coração de homens e mulheres segundo a vontade do Pai. E, acima de tudo, não nos esqueçamos de quão importante é nos colocarmos de joelhos para clamar pela vida das pessoas a quem amamos e desejamos livramentos, curas e, principalmente, salvação.

 

 

___________________

1 Kenneth S. Wuest, Wuest’s word studies from the Greek New Testament: for the English reader (Grand Rapids: Eerdmans, 1997), Ef 3.14.

2 Johannes P. Louw e Eugene Albert Nida, Greek-English lexicon of the New Testament: based on semantic domains (New York: United Bible Societies, 1996), 402.

3 Robert James Utley, Paul Bound, the Gospel Unbound: Letters from Prison (Colossians, Ephesians and Philemon, then later, Philippians), vol. Volume 8, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 1997), 102.

4 Ef 3.18

A VIDA DE ORAÇÃO DE PAULO (Parte 2)

No texto anterior, o apóstolo Paulo introduz sua segunda palavra de oração do início dessa carta. Ele enfatiza que perseverava em lembrar de orar pelos efésios e de fazer grata menção deles em suas orações por causa de sua fé confirmada pelas obras e pelo amor pelos demais cristãos. Paulo pede que o Senhor lhes dê espírito de sabedoria e revelação de nosso Senhor Jesus Cristo.

Após tais palavras, o apóstolo traz as palavras abaixo, as quais estão intimamente relacionadas ao início de sua oração pelos efésios. Assim, dando o Pai da glória espírito de sabedoria e revelação, os olhos dos efésios seriam iluminados a ponto de entenderem (revelação) aspectos sobre Cristo e Sua Palavra que o homem sem o dom do Espírito jamais será capaz de perceber.

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A VIDA DE ORAÇÃO DE PAULO (Parte 1)

O início da epístola de Paulo aos efésios é recheado com a vida espiritual do apóstolo. Numa carta onde ele tratará de temas teológicos e doutrinários relacionados à igreja, Paulo começa com duas palavras de e sobre oração.

A primeira, como já vimos anteriormente, foi sobre a graça de Deus que nos salva do inferno. Então, esta primeira diz respeito a Deus. Já a segunda, que vem agora no texto, diz respeito aos homens. Isso lembra, embora não podemos dizer que isso estava na mente de Paulo, o que Cristo ensinou na oração do Pai Nosso — primeiro Deus, depois nós.

Vejamos os versos 15 e 16 de Efésios:

15 Por isso também eu, tendo ouvido falar da fé que entre vós há no Senhor Jesus e do vosso amor para com todos os santos,

16 não cesso de dar graças por vós, lembrando-me de vós nas minhas orações,

Paulo era um homem de oração e suas orações não contavam apenas com suas próprias necessidades. O foco de Paulo nesta passagem é ressaltar seu louvor a Deus e sua oração pelos efésios. Consequentemente, a passagem lança luz sobre a presença da oração na vida de Paulo. Ressalta-se também que esta oração era em favor de outros.

Após uma oração sobre o amor de Deus, uma pequenina oração pela vida de seus amigos. Nela, Paulo fala da fé que havia entre eles. A preposição que aparece originalmente no escrito paulino (κατα – kata), quando usada com um acusativo — que é o caso aqui —, possui um sentido distributivo. Ou seja, Paulo não falava da fé presente no momento da conversão, mas da fé que acompanha a vida do cristão e que é posta em prática nas mais diferentes situações da vida. Trata-se de uma fé posta em prática. Não da fé presente no momento da salvação.

A palavra fé possui alguns significados na Sagrada Escritura. Ela pode estar tratando de um conjunto de crenças que alguém possui, de uma atitude interior da pessoa que está se convertendo, ou, como é o caso aqui, de uma atitude contínua exercida diariamente diante de Cristo.[1]

Esta fé resulta no amor citado por Paulo, manifesto na prática à todos os santos. A própria palavra "amor" está ligada a um amor que só o Espírito Santo pode produzir em nossos corações, e que vem primeiramente a nós para que, depois, possamos amá-lo e também amar ao outro (ἀγαπη – ágape – 1Jo 4.19[2]).

No verso seguinte, dois aspectos da vida de oração de Paulo são ressaltados:

1. Persistência;

2. Gratidão[3].

Essa atitude não se vê somente aqui, mas praticamente em todas as orações que Paulo faz pelas outras igrejas para as quais ele escreveu (cf. Rm 1.9; 2Co 11.28; Fl 1.3-4; Cl 1.3, 9; 1Ts 1.2-3; 2Tm 1.3, Fm 4). Leia:

"Porque Deus, a quem sirvo em meu espírito, no evangelho de seu Filho, é minha testemunha de como incessantemente faço menção de vós" Rm 1.9

"Além das coisas exteriores, há o que pesa sobre mim diariamente, a preocupação com todas as igrejas." 2Co 11.28

"Dou graças ao meu Deus por tudo que recordo de vós, 4fazendo sempre, com alegria, súplicas por todos vós, em todas as minhas orações," Fp 1.3-4

"Damos sempre graças a Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, quando oramos por vós, … Por esta razão, também nós, desde o dia em que o ouvimos, não cessamos de orar por vós e de pedir que transbordeis de pleno conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e entendimento espiritual;" Cl 1.3,9

"Damos, sempre, graças a Deus por todos vós, mencionando-vos em nossas orações e, sem cessar, recordando-nos, diante do nosso Deus e Pai, da operosidade da vossa fé, da abnegação do vosso amor e da firmeza da vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo," 1Ts 1.2-3

"Dou graças a Deus, a quem, desde os meus antepassados, sirvo com consciência pura, porque, sem cessar, me lembro de ti nas minhas orações, noite e dia." 2Tm 1.3

"Dou graças ao meu Deus, lembrando-me, sempre, de ti nas minhas orações," Fm 4

A vida de oração de Paulo era completamente equilibrada. Ele adorava a Deus e intercedia por Seu povo. Mesmo crendo que a igreja pertence a Deus, mesmo sabendo que cada uma daquelas igrejas para as quais ele escreveu estavam debaixo do cuidado de Deus, Paulo também compreendia que não deveria deixar de interceder em favor de cada uma delas. Ou seja, a soberania de Deus não anula nossa responsabilidade de orar!

Nossas orações, de certo modo, estão em pleno equilíbrio com a soberania de Deus. Deus é soberano e, em sua soberania, escolheu deixar que seres humanos fossem cooperadores de Seus planos através da oração. Ainda que correndo o risco de ser mal compreendido, afirmo com toda certeza de que as orações dos santos são as chaves que abrem as portas para as bênçãos que, na eternidade, Deus já havia determinado nos dar. Veja o que disse o irmão de Jesus:

"Cobiçais e nada tendes; matais, e invejais, e nada podeis obter; viveis a lutar e a fazer guerras. Nada tendes, porque não pedis; pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres." Tg 4.2

Sem dúvida, a oração intercessora permanecerá um mistério para o povo de Deus. Sabemos que Deus já determinou todas as bênçãos que receberemos (Ef 1.3-4). Por outro lado, também sabemos que devemos pedir, bater e buscar (Mt 7.7-8).

Paulo, então, com perseverança e gratidão nunca deixou de lembrar de cada um deles em suas orações. Vejamos o verso 17 de Efésios 1:

para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos dê o espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele;

A primeira coisa que nos salta aos olhos é a afirmação trinitária do apóstolo Paulo. Pai, Filho e Espírito Santo são mencionados como objeto das orações de Paulo pelos efésios. O Filho é o nosso Senhor e mediador. É o Filho que nos leva ao Pai. O Pai é aquele que recebe a nós e nossas orações. E o Espírito é o agente da doação. É o Espírito que opera em nós.

Aqui, o Espírito Santo é quem nos dará sabedoria e revelação sobre nosso Senhor Jesus Cristo. No Novo Testamento, o Espírito nos dá muitas coisas. Exemplos:

– Espírito de Adoção (Rm 8.15): Porque não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez estardes com temor, mas recebestes o espírito de adoção, pelo qual clamamos: Aba, Pai!

– Espírito de mansidão (1Co 4.21): Que quereis? Irei a vós com vara, ou com amor e espírito de mansidão?

– Espírito da verdade (1Jo 4.6): Nós somos de Deus; quem conhece a Deus nos ouve; quem não é de Deus não nos ouve. assim é que conhecemos o espírito da verdade e o espírito do erro.

– Espírito de sabedoria e revelação de nosso Senhor Jesus Cristo (Ef 1.17)

Esse espírito é dado pelo Pai da glória. E esse espírito não é apenas para uns poucos, mas é para todos os que nele creem (Ef 4.13: até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem feito, à medida da estatura da plenitude de Cristo;).

Isso nos mostra que o conhecimento não é algo que Deus deseja dar para um grupo pequeno dentro de seu rebanho (como afirmava alguns gnósticos). Jesus é A Verdade! E o Evangelho é dado por Deus e focado em Cristo, cuja mensagem é para todos.

O conhecimento de Jesus Cristo é fruto da obra do Espírito em nossas vidas e corações. Sem o Espírito, não podemos jamais conhecer plenamente a Cristo. Em suma, "espírito de sabedoria e revelação" está relacionado a conhecer plenamente a Jesus Cristo.[4]

Só conheceremos plenamente Jesus Cristo dentro da esfera de ação do Espírito Santo. E não se trata apenas de um conhecimento formal, mas de um conhecimento pessoal e relacional.[5]

Concluo que todos devemos lutar para ter em nossas vidas os dois elementos presentes na vida de oração de Paulo: perseverança e gratidão. Isso nos livrará de muita coisa ruim.

Que nunca nos esqueçamos dos outros em nossas orações.

Que clamemos a Deus por mais conhecimento e sabedoria, pois isso nos trará para mais perto de Cristo e fará com que nosso relacionamento com ele seja muito maior.

 


[1]. Wuest, K. S. (1997). Wuest's word studies from the Greek New Testament: For the English reader (Eph 1:14–15). Grand Rapids: Eerdmans, p. 51.

[2]. Johannes P. Louw and Eugene Albert Nida, vol. 2, Greek-English Lexicon of the New Testament: Based on Semantic Domains, electronic ed. of the 2nd edition. (New York: United Bible Societies, 1996), 1.

James Swanson, Dictionary of Biblical Languages With Semantic Domains: Greek (New Testament), electronic ed. (Oak Harbor: Logos Research Systems, Inc., 1997).

[3]. Robert James Utley, vol. Volume 8, Paul Bound, the Gospel Unbound: Letters from Prison (Colossians, Ephesians and Philemon, Then Later, Philippians), Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 1997), 79.

[4]. Wuest, K. S. (1997). Wuest's word studies from the Greek New Testament: For the English reader (Eph 1:15–17). Grand Rapids: Eerdmans.

[5]. Marvin Richardson Vincent, Word Studies in the New Testament (New York: Charles Scribner's Sons, 1887), Eph 1:15–17.

O voo da igreja e da Malaysia Airlines

Ontem a noite acompanhei pela TV as hipóteses relacionadas ao desaparecimento do avião da companhia aérea Malaysia Airlines que sumiu durante um voo da Malásia com direção à China – Pequim.

 

Ainda não se sabe a causa do desaparecimento. A principal hipótese é sequestro e uma possível explosão em ar, o que teria causado uma desintegração da aeronave em pleno voo. Essa seria a razão de não se encontrar vestígios da mesma.

 

Até agora (10/03/2014), o desaparecimento é um mistério.Tenho duas palavras sobre isso, para sua reflexão.

 

1. Devemos nos unir ao sofrimento dos familiares e orar para que Deus dê graça e força diante da possibilidade de receberem a pior notícia que seres humanos podem receber. Devemos orar por conforto e consolo. Devemos orar por inúmeros missionários que estão espalhados mundo afora para que sejam usados por Deus para alcançar possíveis terroristas para Cristo.

 

2. Podemos refletir em como o desaparecimento dessa aeronave assemelha-se ao estado atual da igreja no ocidente. Uma grande instituição, que faz um enorme barulho, mas que, do nada, parece não existir. Onde estão os santos de hoje? Onde estão os pastores que vivem como santos no mundo? Onde estão os cristãos que brilham como luz em meio às trevas? Tristemente, parece que a verdadeira igreja também desapareceu. Às vezes, dizem ter achado vestígios dela por aí. Mas, são poucos, bem poucos. Assim, devemos orar pela igreja também. Alguns já desistiram dela. Alguns vivem para criticá-la. Todavia, devemos amá-la e orar para que Deus a santifique e avive novamente.

 

Que o Senhor, em sua graça e misericórdia, esteja com os familiares e amigos dos desaparecidos. Resta a esperança de que o avião seja achado integro em algum lugar, e que tenha sido apenas um sequestro. Mas, se o pior vier, que nosso Deus console e use esta desgraça para sua glória.

 

Estejamos em oração.

A remissão dos pecados

Santo Deus, em nome de Teu santíssimo Filho, receba o eterno louvor de todos aqueles que são Teus. Teus não somente por que os criaste, mas também por tê-los comprado, remido, com o sangue precioso de Teu unigênito Filho.

Com o preço de Teu sangue, compraste-nos para Ti. Não por que em nós houvesse quaisquer valores, mas por que nos amaste com um amor que jamais compreenderemos. Quão grande amor é o vosso por nós. Quando o entenderemos? Quando alcançaremos graça para compreender-Te? No entanto, ainda que não Te compreendamos, Te amamos.

Como não falar de Teu amor? Como não louvá-lo? Como pode um ser tão Santo e Puro desejar unir-se a seres tão opostos a Si? Todavia, assim o fizeste, e aqui estão os Teus, louvando-Te diuturnamente em todos os cantos do planeta por terem seus pecados apagados, sua condenação anulada, sua vida restaurada.

Creio com toda minh’alma na remissão dos pecados graças ao sofrimento terrível de Cristo Jesus na cruz do Calvário. Louvo-Te por teres ali executado a minha justiça. Louvo-Te por que, nEle, derramaste Tua ira, Tua mão de justiça, de modo que, pelo sofrimento dele e punição a Ele, eu pudesse ser curado.

Desde o dia em que compreendi de um modo tão simples Tua graça, não paro de pensar no céu. Ó, quanto eu desejo alcançar o céu. Quanto eu desejo estar mais perto de Ti, meu Senhor e Salvador. Quão triste e dura é minha atual condição de ainda lutar contra o mal que habita em mim.

No entanto, vivo feliz por já ter a Ti em mim e por mim, sabendo que, quer seja hoje ou amanhã, daqui um mês ou cem anos, nunca deixarei de estar nas mãos daquele que me redimiu, que me comprou e que, por mim, sofreu e levou toda culpa.

Aleluia. Minh’alma louva ao Senhor. Bendito seja o Teu santo nome, para todo o sempre,

amém.

O que é orar?

Por que orar se Deus já sabe de tudo? Por que orar se somos tão pequenos e ignorantes quanto ao que é melhor para nós? Se Deus é soberano e sabe o que precisamos, por que apenas não descansamos? Aliás, orar não seria silêncio?

Pois bem. Esse foi o tema das duas últimas aulas que dei na Escola Bíblica Dominical da Igreja Batista Liberdade. Aqui, postarei apenas um breve resumo das ideias e colocarei abaixo os dois estudos sobre o assuntos, feitos nos dias 10 e 17 de novembro do presente ano.

Orar é buscar. Quando oramos a Deus, buscamos a Ele e àquilo que dEle esperamos receber. Quando não estamos orando a Deus, estamos a orar para outros seres/deuses quaisquer. Nunca ficamos sem orar. Ou oramos a Deus, ou a outros seres criados. Quando não buscamos a Deus, estamos a buscar algo que se coloque em Seu lugar, algo que nos preencha e satisfaça.

Assim, orar é buscar. Se buscamos o dinheiro como fonte de satisfaça, estamos a orar, buscar, o dinheiro. O dinheiro está a satisfazer tal indivíduo. Já aqueles que buscam na imoralidade sexual sua satisfação, tais estão a orar à imoralidade sexual.

É importante que se lembre: orar diz respeito à uma ação. Os termos constituintes de uma oração são, basicamente, sujeito e predicado. O sujeito é sempre você; o predicado sempre será Deus ou aquilo que ocupa o lugar dEle.

Por isso, cuidado para não continuar buscando em outras fontes a paz e satisfação que somente Deus pode lhe dar. Mas, CUIDADO, pois há algumas proibições quanto às suas orações.

No segundo áudio abaixo, trabalho apenas com este ponto: proibições quanto às nossas orações. R. C. Sproul escreveu:

“Nas Escrituras, há poucas proibições referentes à oração. Em Salmos 66.18, o salmista Davi escreve estas palavras divinamente inspiradas: ‘Se eu no coração contemplara a vaidade, o Senhor não me teria ouvido’. O versículo no hebraico poderia ser traduzido: “Se eu tivesse iniquidade no meu coração, o Senhor não teria ouvido”.

Estas palavras de Davi resumem tudo o que a Bíblia diz sobre o que impede que nossas orações sejam ouvidas e atendidas. Nada, a não ser o pecado, pode nos afastar e separar de Deus. Nada, a não ser nossas iniquidades, podem tapar os ouvidos de Deus às nossas orações.

Neste contexto, o correto é confessarmos. Arrepender-nos, confessarmos nossos pecados, e assim corrermos a buscar novamente prazer em Deus. Somente a vaidade é proibida àquele que deseja orar a Deus. O que é vaidade? Tudo aquilo que é passageiro, fútil, bobo, mas que tem o poder de nos seduzir a ponto de acreditarmos que podem nos satisfazer.

Não nos enganemos, fora de Deus, tudo é vaidade, tudo é passageiro, tudo é como a erva que seca, ou como a chuva que vai.

Por isso, apesar de sabermos e crermos que há um Deus que tudo sabe, tudo vê, tudo determina e tudo governa, orar significa buscarmos a este Deus não apenas para lhe pedirmos coisas, mas para, de sua destra, recebermos todo o prazer e satisfação capaz de preencher nossa alma definitivamente.

Ouça e reflita nas mensagens abaixo. Nelas, vamos mais fundo no estudo destes temas.

Fiquem na paz do Senhor.

Teologia da ignorância divina (parte 2)

Mudando de rumo
Sem dúvida alguma, a Bíblia apresenta a oração como uma forma de Deus nos por em nosso devido lugar. Nossas orações não mudam o onipotente Deus. Muito menos têm a função de informá-lo sobre o que é o melhor para nós.
 
Nossas orações são, antes, uma forma de sermos participantes dos propósitos de Deus para nós. Nossas orações são um privilégio que Ele nos concede de vivenciarmos o mistério da providência.Continue reading

Teologia da ignorância divina (parte 1)

“Perseverai na oração, vigiando com ações de graças.”
Colossenses 4.2
 
Sempre tive dificuldade com Serviços de Atendimento ao Cliente (SAC). Não sei se é o seu caso, mas todas as vezes que tenho problemas com um produto, plano ou equipamento, sofro para conseguir o que desejo. 
 
Contudo, há pessoas que são mestras em conseguir o que desejam. Tanto em conseguir um desconto, quanto em convencer um cliente. Não precisam que ninguém interceda por elas. São pessoas que têm o “dom” da intercessão.
 
Obviamente, não falo aqui de dom no sentido bíblico. Não falo de dom como Paulo falou aos coríntios. Antes, falo de algo que é fácil para alguns e terrível para outros: a capacidade de, em meio a problemas, intercederem por si mesmos perante outros.
 
O problema que desejo tratar neste capítulo não diz respeito à capacidade que alguns têm de conseguirem quase tudo o que desejam. O problema a ser tratado diz respeito ao momento quando tais pessoas vão a Deus tratando-o da mesma forma como tratariam alguém a ser convencido.
 

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A Comunhão dos Santos

Deus trino, perfeito em comunhão e amor, Tu tens todo o prazer em Ti mesmo. Desde sempre, desfrutas deste prazer sem de nada mais precisar ou depender. Tu és, como Teu belo nome o diz. Pai com o Filho, Filho com o Pai, Filho com o Espírito, Espírito com o Pai, três pessoas perfeitas, vivendo uma perfeita relação de amor.

E eu aqui tentando imaginar o por que de teres me criado. Aliás, o por que de teres criado à espécie humana. Tu dizes em Tua Palavra que nos criou para conosco teres comunhão. Mas que necessidade mais há em Ti?

Certo de que nada Te falta, sobra-me a certeza de que a comunhão que tens comigo nada mais é do que um derramar, um transbordar do Teu perfeito amor. Ao transbordares de amor entre si, derramam este amor sobre nós, indignos perdidos, sujos, pecadores, rebeldes, agora tocados e constrangidos por este amor tão sui generis, tão díspar, incomparável.

Ao derramares tão doce amor sobre os Teus, ensinaste-nos a amar. Não mais como antes, mas como por Ti somos amados – não amamos para recebermos, não amamos para trocarmos, amamos porque naturalmente derramamos no outro o que Tu fazes transbordar agora em nós.

Quanto mais Te amamos, mais nos amamos. Não como antes, mas como fomos por Ti amados. Assim, pecadores egoístas, agora perdoados e lavados pelo sangue da nova aliança, chamados de santos por Ti, podem ter comunhão também, como o Pai com o Filho, o Filho com o Pai, o Filho com Espírito e o Espírito com o Pai.

Que doce relação nos ensinaste viver. Prenda-nos a Ti, ao Teu doce amor, a fim de que nada nos separe uns dos outros também. Prenda-nos a Ti, a fim de que os laços que nos prendem a nossos irmãos estejam cada vez mais fortes, inquebráveis.

Por Cristo Jesus,

amém.

UNAM SANCTAM: Uma santa invisível

Deus de conforto e de paz, por Cristo Jesus lhe agradeço por vires buscar os perdidos e aflitos. Me lembro que eu fui um deles. Por Tua graça, não sou mais.

Não fosse por ela, ainda estaria me arrastando e mendigando o pão sujo, duro e passado, livremente oferecido, aos que andam longe de Ti.

Mas, por Ti fui arrastado. Por Teu Espírito fui chamado e tocado, e agora, a chama dEle arde em mim. Vivo por Ele. Vivo por Ti.

Te louvo por, mediante Tua obra em mim, poder fazer parte de uma santa e invisível comunhão. Tua noiva santa, pura e imaculada, lavada pelo sangue de Teu bendito Filho. A ela hoje pertenço, graças à Tua misericórdia.

Te louvo por não andar jamais sozinho. Te louvo por buscares não apenas a mim, mas a muitos que Tua graça escolheu desde antes da fundação do mundo. Somos uma família, uma santa comunhão. Vivemos como irmãos, visíveis e invisíveis, vivos deste lado da eternidade, misteriosamente ligados à outros vivos do outro lado da eternidade.

E juntos, membros de uma noiva santa e invisível, aguardamos a bendita manifestação da glória do nosso grande Deus e Senhor Jesus Cristo, o qual virá em breve para nos redimir plenamente.

Amado Consolador, louvado sejas por Tua bendita e santa e católica Igreja. Louvado sejas por me inserires nela, um miserável como eu, alguém que nunca desejaria estar nela, não fosse o Senhor tirar de mim a ignorância e podridão.

Por tudo isso, bendito sejas! Por Cristo Jesus,

amém.