AS 7 IGREJAS DO APOCALIPSE: Sardes (Comentário Ap 3.1-6)

Em Sardes, a igreja recebeu uma das palavras mais duras dentre todas as enviadas por Jesus às sete igrejas do Apocalipse. Apesar de duras, suas palavras demonstram o amor de quem prefere anunciar do que calar e permitir o sofrimento daqueles que poderiam se arrepender caso ouvissem a verdade. Cada palavra de Jesus, por mais dura que possa parecer, carrega consigo toneladas de amor, paciência e desejo divino de que houvesse arrependimento.

Ao anjo da igreja em Sardes escreve:

Estas coisas diz aquele que tem os sete Espíritos de Deus e as sete estrelas: Conheço as tuas obras, que tens nome de que vives e estás morto.Sê vigilante e consolida o resto que estava para morrer, porque não tenho achado íntegras as tuas obras na presença do meu Deus.Lembra-te, pois, do que tens recebido e ouvido, guarda-o e arrepende-te. Porquanto, se não vigiares, virei como ladrão, e não conhecerás de modo algum em que hora virei contra ti.Tens, contudo, em Sardes, umas poucas pessoas que não contaminaram as suas vestiduras e andarão de branco junto comigo, pois são dignas.O vencedor será assim vestido de vestiduras brancas, e de modo nenhum apagarei o seu nome do Livro da Vida; pelo contrário, confessarei o seu nome diante de meu Pai e diante dos seus anjos.Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.

Ap 3.1–6

1       Ao anjo da igreja em Sardes escreve:

Estas coisas diz aquele que tem os sete Espíritos de Deus e as sete estrelas: Conheço as tuas obras, que tens nome de que vives e estás morto.

Os sete espíritos de Deus traz a ideia d perfeição deste mesmo espírito. Não devemos considerar que Deus possua sete espíritos santos, e que a trindade agora tornou-se maior. Dentro da linguagem do gênero apocalíptico, sete está sempre associado à perfeição. Assim, o texto acima começa mencionando aquele que é um com o perfeito Espírito Santo de Deus.

Não apenas Cristo é um com o Espírito Santo, mas com os anjos que estão em suas mãos, ou seja, os pastores das sete igrejas, os quais também representam o número “perfeito” ou completo dos pastores que servem a Deus. 

Jesus está, primeiramente, dirigindo estas palavras ao pastor da igreja em Sardes. As suas palavras dizem respeito ao pastor e, por consequência, à igreja que o seguia em suas práticas e crenças. Estes, tinham a aparência de quem vivia, mas, na realidade, estavam mortos.

Sardes era uma cidade conhecida por ser uma antiga fortaleza militar. Nos dias do apóstolo João, Sardes era uma cidade muito rica, detentora de um gigantesco (pelas proporções da época) templo dedicado à deusa Artemis. Além da idolatria à Artemis, ali era prestado culto ao imperador com um templo dedicado à sua imagem.

2       Sê vigilante e consolida o resto que estava para morrer, porque não tenho achado íntegras as tuas obras na presença do meu Deus.

A vigilância não estava sendo mantida pelos de Sardes. No verso anterior, Jesus já havia os exortado de que, talvez, estivessem mortos espiritualmente, ou seja, que nem salvos seriam. Isso tonar esta repreensão a mais dura das sete enviadas em Apocalipse. 

A partir do verso 2, há uma série de advertências imperativas nas quais Cristo chama sua igreja ao arrependimento. Ao afirmar sobre o resto que estava para morrer, Jesus demonstra saber que alguns da igreja não eram mortos apenas espiritual ou metaforicamente, mas haviam morrido fisicamente. E havia alguns ali que estavam perto da morte.

Ao afirmar que não tinha achado íntegras as obras do povo na presença de Deus, Jesus demonstra saber que alguns dos que ali estavam não possuíam obras como agrada a Deus. Ainda tinham obras a cumprir.⁠1

3       Lembra-te, pois, do que tens recebido e ouvido, guarda-o e arrepende-te. Porquanto, se não vigiares, virei como ladrão, e não conhecerás de modo algum em que hora virei contra ti.

Jesus agora demonstra saber do conteúdo lá ensinado e que os de Sardes não eram ignorantes quanto ao Evangelho. Tal conhecimento deveria levá-los ao arrependimento. Todo conhecimento de Deus (ou, que venha de Deus) deve levar-nos ao arrependimento. Eles não deveriam se lembrar do modo como ouviram ou do local aonde estavam, mas do conteúdo do que ouviram. Jesus, provavelmente, estaria se referindo ao Evangelho.

Jesus cita outra vez suas palavras uma vez registradas pelo apóstolo Mateus:

Mateus 24.42–44: Portanto, vigiai, porque não sabeis em que dia vem o vosso Senhor. Mas considerai isto: se o pai de família soubesse a que hora viria o ladrão, vigiaria e não deixaria que fosse arrombada a sua casa. Por isso, ficai também vós apercebidos; porque, à hora em que não cuidais, o Filho do Homem virá.

Sua exortação quanto à sua vinda é dita em um contexto de juízo sobre o descaso da igreja em Sardes para com a obra do Senhor e para com a vida em santidade. Paulo também chegou a mencionar este acontecimento:

1Tessalonicenses 5.2: pois vós mesmos estais inteirados com precisão de que o Dia do Senhor vem como ladrão de noite.

4       Tens, contudo, em Sardes, umas poucas pessoas que não contaminaram as suas vestiduras e andarão de branco junto comigo, pois são dignas.

Aqui, a provável razão desta carta, o fato de ainda existirem uns poucos em Sardes que mantinham-se puros espiritualmente, mesmo diante de tanta tentação para sair e errar contra Deus. A expressão umas poucas pessoas que não contaminaram as suas vestiduras e andarão de branco junto comigo demonstra a fidelidade de alguns na igreja, pessoas que o próprio Jesus considera dignas de se vestirem como ele e andarem com ele por ocasião de seu 2º Advento.

A vestes contaminadas possivelmente esteja relacionada à atividades sexuais presentes em rituais de idolatria em determinados templos de Sardes.

Havia um grupo fiel em Sardes, e estes se vestirão como Cristo, como vitoriosos.

5       O vencedor será assim vestido de vestiduras brancas, e de modo nenhum apagarei o seu nome do Livro da Vida; pelo contrário, confessarei o seu nome diante de meu Pai e diante dos seus anjos. 6 Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.

Mais uma vez é prometido que se vestirão como Cristo aqueles que se guardarem puros até a sua vinda. Estas vestiduras brancas aqui mencionadas são um símbolo da vida eterna, cheia de comunhão e unidade com o próprio Cristo na eternidade.

Há uns poucos que são capazes de pensar e ensinar que é possível ter seus nomes ou de outros retirados da árvore da vida, mas isso é um completo absurdo. A expressão hiperbólica de Cristo nesta passagem reforça a ideia bíblica da segurança eterna dos crentes, ou seja, de que uma vez em Cristo, selados pelo Espírito Santo, nada nem ninguém pode lhes salvar. Ou seja. Uma vez salvo, salvo para sempre, graças à ação do Espírito dentro de nós nos ajudando a perseverar até o final.

Seus nomes serão preservados e confessados diante do Pai. O próprio Cristo os confessará diante do Pai, como um sinal de honra e oficialidade de sua vocação. Jesus conclui suas palavras mais uma vez citando um trecho que foi registrado por Mateus pois deve ter constado em algumas pregações de Jesus:

Mateus 10.32: Portanto, todo aquele que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus.

Suas últimas palavras são de apelo, como sempre. É o Espírito quem dá capacidade para alguém ouvir e entender as Escrituras.

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1 John D. Barry et al., Faithlife Study Bible (Bellingham, WA: Logos Bible Software, 2012), Ap 3.2.

AS 7 IGREJAS DO APOCALIPSE: Tiatira (Comentário Ap 2.18-29)

Jesus se dirige à igreja localizada na cidade, provavelmente, mais insignificante das sete igrejas do Apocalipse. No entanto, havia um risco real no seio da igreja, e é sobre isso que ele tratará em sua carta.

Ao anjo da igreja em Tiatira escreve:

Estas coisas diz o Filho de Deus, que tem os olhos como chama de fogo e os pés semelhantes ao bronze polido:

Conheço as tuas obras, o teu amor, a tua fé, o teu serviço, a tua perseverança e as tuas últimas obras, mais numerosas do que as primeiras.

Tenho, porém, contra ti o tolerares que essa mulher Jezabel, que a si mesma se declara profetisa, não somente ensine, mas ainda seduza os meus servos a praticarem a prostituição e a comerem coisas sacrificadas aos ídolos.

Dei-lhe tempo para que se arrependesse; ela, todavia, não quer arrepender-se da sua prostituição.

Eis que a prostro de cama, bem como em grande tribulação os que com ela adulteram, caso não se arrependam das obras que ela incita.

Matarei os seus filhos, e todas as igrejas conhecerão que eu sou aquele que sonda mentes e corações, e vos darei a cada um segundo as vossas obras.

Digo, todavia, a vós outros, os demais de Tiatira, a tantos quantos não têm essa doutrina e que não conheceram, como eles dizem, as coisas profundas de Satanás: Outra carga não jogarei sobre vós; tão-somente conservai o que tendes, até que eu venha.

Ao vencedor, que guardar até ao fim as minhas obras, eu lhe darei autoridade sobre as nações, e com cetro de ferro as regerá e as reduzirá a pedaços como se fossem objetos de barro; assim como também eu recebi de meu Pai, dar-lhe-ei ainda a estrela da manhã. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.

Ap 2.18–29

18 Ao anjo da igreja em Tiatira escreve:

Estas coisas diz o Filho de Deus, que tem os olhos como chama de fogo e os pés semelhantes ao bronze polido:

A cidade de Tiatira ficava no sopé entre duas montanhas. Era uma cidade onde existia muitas guildas, uma espécie de sindicatos de profissões especificas. Não era uma cidade conhecida por seus cultos religiosos, embora os tais existissem por lá. Mas era especialmente famosa por causa das guildas dos que trabalhavam com tecidos, com joias, com ferramentas cortantes, etc. Cada guilda cuidava dos interesses da profissão e todos trabalhadores a que estava ligada.

Frequentemente, festas aconteciam reunindo os trabalhadores relacionados a uma mesma profissão. Quando isso acontecia, momentos religiosos eram comuns, quanto carne sacrificada a ídolos eram comidas após momentos litúrgicos pagãos. 

Era uma cidade muito parecida com as cidades de hoje em termos de reivindicações dos direitos dos trabalhadores. Não era uma cidade conhecida por seu exército, ou por seus templos ao imperador, ou por suas fortalezas, as quais nem existiam por lá. Tiatira é, provavelmente, uma das cidades menos importantes religiosamente entre as sete igrejas do Apocalipse. Era uma cidade conhecida por suas indústrias, seu trânsito intenso de comerciantes, e por suas guildas e as coisas relacionadas a elas. Esse fluxo grande de pessoas de vários lugares e o envolvimento quase certo dos cristãos com as guildas e a vida da cidade, representavam um perigo para os cristãos que ali viviam.

Aos cristãos de Tiatira, Jesus se apresenta como aquele que purifica, como aquele que possui olhos como chama de fogo e os pés semelhantes ao bronze polido, figura que já apareceu em Ap 1.14-15. Ele é aquele que purifica com os olhos e possui a beleza de quem anuncia Boas Novas. Essa é a figura por trás dos pés: aquele que traz notícias.

19 Conheço as tuas obras, o teu amor, a tua fé, o teu serviço, a tua perseverança e as tuas últimas obras, mais numerosas do que as primeiras.

Como é típico das mensagens às igrejas, Jesus apresenta os pontos favoráveis de Tiatira. Jesus alista: as tuas obras, o teu amor, a tua fé, o teu serviço, a tua perseverança e as tuas últimas obras, mais numerosas do que as primeiras.

Ou seja, não havia nada que desabonasse os de Tiatira com relação à prática. Eles amavam, tinha fé, trabalhavam na obra de Deus, eram perseverantes, ou seja, não desanimavam facilmente, e quanto mais o tempo passava, mais obras tinham a apresentar. Ou seja, ao contrário do “normal”, com o passar do tempo, eles não esfriavam, ao contrário, aumentavam mais ainda seu serviço ao Senhor.

20 Tenho, porém, contra ti o tolerares que essa mulher Jezabel, que a si mesma se declara profetisa, não somente ensine, mas ainda seduza os meus servos a praticarem a prostituição e a comerem coisas sacrificadas aos ídolos.

No entanto, após rapidamente os elogiar, passa a apresentar o que tinha contra eles. Tenho, porém, contra ti o tolerares que essa mulher Jezabel. O único defeito dos cristãos de Tiatira era o serem tolerantes para com essa mulher sobre a qual não sabemos absolutamente nada além do nome. Precisamos aqui refletir em duas coisas.

1. O problema não era Jezabel, mas o fato deles serem tolerantes quanto ao ensino e sedução que ela exercia entre os cristãos de Tiatira. O pecado deles era a tolerância. Tolerância nunca é bom quando é contra o pecado. Tolerância para com o pecado, via de regra, levará à heresia, como bem disse John MacArthur na 11ª edição da Conferência Fiel para Pastores e Líderes: “A heresia vem montada nos lombos da tolerância”. Jesus estava preocupado que seu povo viesse a se afastar dele e de sua Palavra por causa da tolerância com relação aos ensinos de Jezabel;

2. O segundo ponto que precisamos abordar é sobre quem foi Jezabel. As informações que dispomos do próprio Cristo é que ela possuía bom contato com os cristãos da igreja em Tiatira. Se declarava profetisa entre os cristãos, ensinava na igreja, e possuía uma prática de vida que acabava levando alguns homens à prostituição e às festas onde se comia carne sacrificada aos ídolos.

Não podemos ir tão rapidamente associando esta Jezabel com a do Antigo Testamento, embora tenham o mesmo nome e façam o mesmo — levar o povo de Deus à prostituição e à idolatria. Talvez seja um apelido que Senhor deu à mulher de Tiatira para mostrar como ela parecia com a esposa do rei Acabe no Antigo Testamento. 

No entanto, não podemos deixar de lembrar de que esta Jezabel era uma pessoa real no meio da igreja em Tiatira. Era alguém que estava ali e precisava ser parada. Alguns já chegaram a associá-la à esposa do “anjo” de Tiatira, ou seja, à esposa do pastor, fato difícil de ser provado, embora alguns manuscritos antigos possibilitem essa tradução: Tenho, porém, contra ti o tolerares que SUA mulher Jezabel. Não podemos esquecer de que a carta foi escrita, antes de tudo, ao “anjo da igreja em Tiatira”. No entanto, não é possível confiar nesta tradução.

Seja ela quem tenha sido, o que importa é que deveria ser parada no meio dos cristãos. Não deveria continuar sendo tolerada, muito menos seu ensino.

21 Dei-lhe tempo para que se arrependesse; ela, todavia, não quer arrepender-se da sua prostituição. 22 Eis que a prostro de cama, bem como em grande tribulação os que com ela adulteram, caso não se arrependam das obras que ela incita. 23 Matarei os seus filhos, e todas as igrejas conhecerão que eu sou aquele que sonda mentes e corações, e vos darei a cada um segundo as vossas obras.

Aqui, Jesus passa a falar sobre Jezabel e, por associação, ou, cumplicidade no erro, àqueles de Tiatira que participavam do pecado de Jezabel. É interessante observar que Jesus dá um tempo para que haja arrependimento, mas não há no coração de quem cometia o pecado nenhum desejo de voltar atrás. 

A consequência do pecado foi uma enfermidade que a pôs de cama. Interessante também observar que veio tribulação sobre aqueles que foram seduzidos por ela. Os tais não podiam acusá-la ou transferir a culpa à ela. Por terem caído, tornaram-se culpados do erro também. Haveria consequências na família deles. Pessoas morreriam como consequência do pecado, não sabemos se por meio de alguma doença resultante dos pecados cometidos, ou se por outra maneira. Mas, é interessante observar que tudo isso é apenas uma advertência. Haveria socorro caso houvesse arrependimento. 

Jesus deixa claro o fogo de seus olhos. Ele é quem purifica arrependidos como também é capaz de conhecer tudo o que se passa no coração e na mente de cada um. E ele retribui a cada um segundo suas obras!

24 Digo, todavia, a vós outros, os demais de Tiatira, a tantos quantos não têm essa doutrina e que não conheceram, como eles dizem, as coisas profundas de Satanás: Outra carga não jogarei sobre vós; 25 tão-somente conservai o que tendes, até que eu venha. 26 Ao vencedor, que guardar até ao fim as minhas obras, eu lhe darei autoridade sobre as nações, 27 e com cetro de ferro as regerá e as reduzirá a pedaços como se fossem objetos de barro; 28 assim como também eu recebi de meu Pai, dar-lhe-ei ainda a estrela da manhã. 29 Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.

A carta termina com algumas recomendações. Antes, porém, garante aos que não se curvaram ante o ensino de Jezabel nem foram seduzidos por suas prostituições e para suas festas relacionadas à idolatria que não lançaria tribulação sobre eles, mas apenas aos que se entregaram ao erro. Ou seja, aprendemos aqui que Jesus pode lançar tribulação sobre seu povo quando este se entrega ao erro e não se arrepende do mesmo.

A partir do verso 26, a quem perseverar até o fim, Jesus promete associação consigo em sua obra em uma clara associação ao Salmo 2.8–9:

Pede-me, e eu te darei as nações por herança

e as extremidades da terra por tua possessão.

Com vara de ferro as regerás

e as despedaçarás como um vaso de oleiro.

Assim, quem vencesse às tentações e seduções deste mundo provaria do que Cristo é e será sobre o mundo vindouro, de sua autoridade real. Mas não só isso, ele também diz dar-lhe-ei ainda a estrela da manhã. Jesus está prometendo que, além de partilhar sua autoridade, partilharia sua identidade, conforme observa N.T.Wright em seu comentário sobre Apocalipse: “Uma vez que, mais adiante no livro (Ap 22.16), Jesus mesmo é a ‘estrela da manhã’, nós, provavelmente, temos aqui outra dica do nível de intimidade que ele oferece ao seu povo. Ele partilhará sua própria identidade com eles, assim como acabamos de vê-lo fazendo com sua autoridade real”.⁠1

Assim, mais uma vez, o vemos partilhando muito de si com seu povo, o que nos enche de alegria e esperança. Que todos tenham ouvidos atentos para ouvir.

 

1 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 27–28.

HERDEIROS DO REINO DOS CÉUS

Você deseja herdar o Reino dos Céus? Quem herdará o Reino dos Céus? Quem será ou não cidadão no Reino dos Céus? Isso é importante para você?

Para Paulo, falar sobre isso aos efésios era importante demais. Não apenas a ele, mas ao próprio Espírito Santo, inspirador e real autor desta epístola. 

Vejamos, segundo o Espírito do Senhor, coisas que não devem estar presentes na vida de um futuro cidadão do Reino dos Céus.

Mas a impudicícia e toda sorte de impurezas ou cobiça nem sequer se nomeiem entre vós, como convém a santos; nem conversação torpe, nem palavras vãs ou chocarrices, coisas essas inconvenientes; antes, pelo contrário, ações de graças. Sabei, pois, isto: nenhum incontinente, ou impuro, ou avarento, que é idólatra, tem herança no reino de Cristo e de Deus. Ninguém vos engane com palavras vãs; porque, por essas coisas, vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência. Portanto, não sejais participantes com eles.

Ef 5.3–7

3 Mas a impudicícia e toda sorte de impurezas ou cobiça nem sequer se nomeiem entre vós, como convém a santos;

Assim começam as exortações, se assim podemos as chamar, aos filhos de Deus que viviam em Éfeso. 

Há coisas que não deveriam nem mesmo existir em meio aos cristãos. Há coisas que são toleráveis, assim como há coisas que são normais, embora não deveriam ser um hábito. No entanto, há coisas que deveriam jamais existir entre os cristãos. Jamais! Que coisas são estas? Vejamos.

Paulo começa com a palavra impudicícia. Esta palavra está ligada à pessoa impudica, ou seja, que comete lascívia. Trata-se de uma pessoa que não possui vergonha do que faz, especialmente a coisas ligadas à sexualidade e à sensualidade. Pessoas que se entregam à libidinagem, às paixões de sua carne para satisfazê-las e nem sequer sente-se envergonhado por isso. Uma pessoa sem vergonha, literalmente. 

Tanto a impudicícia como toda sorte de impurezas ou cobiça jamais deveriam sem nomeadas entre o povo de Deus. Por qual razão? Pelo fato de serem santos.

É assim que Deus vê seus filhos. Se você entregou sua vida a Cristo, recebeu-o como seu Senhor e Salvador, e foi adotado pelo Pai, você é visto como um santo por Deus. Isso, porque Deus colocou sobre você a santidade de Seu Filho Amado, Jesus Cristo, o Santo. Ele é quem santifica você e faz substituição por seus pecados de modo que todos eles foram remidos na cruz do Calvário, ficando em você, aos olhos de Deus, a imagem de alguém que já foi santificado.

Como um santo de Deus, estas coisas nem deveriam ser nomeadas. Isso significa dizer que não trata-se apenas de não cometer estes pecados, mas que coisas relacionadas a eles nem deveriam ser nomeadas entre vocês. O cometê-las seria algo gravíssimo diante dessa exortação.

4 nem conversação torpe, nem palavras vãs ou chocarrices, coisas essas inconvenientes; antes, pelo contrário, ações de graças.

Os cristãos devem evitar imoralidade sexual da mesma maneira como devem evitar conversas relacionadas à imoralidade sexual.⁠1

Alguns, talvez, diriam que os cristãos são também humanos, e que Deus há de entender sua dificuldade com as inclinações da carne. Bem, parece-me muito claro neste texto que Deus não quer nem saber de entender ou deixar de entender, Ele apenas quer nos instruir, se é que temos ouvidos para o ouvir. 

Logo, não há “lado humano” da moeda, ou seja, não há verdade de Deus e verdade do homem. Deus é verdadeiro e mentiroso todo homem, e todo que se postar contra isso, é mentiroso para Deus.

Palavras vãs ou chocarrices estão ligadas às palavras imorais, via de regra, relacionadas à sexualidade. Estas conversas na boca dos futuros cidadãos do Reino dos Céus são, no mínimo, inconvenientes, segundo a Palavra de Deus. Ao invés disso, um conselho é dado: por que não enchermos nossas bocas com palavras de ação de graças? Obviamente, atrairemos menos ouvintes do que se anunciarmos que contaremos uma piada suja, ou começarmos a falar sobre experiências sexuais, ou se começarmos a flertar ou insistir com alguém sobre um desejo impudico e lascivo de nossa parte.  

5       Sabei, pois, isto: nenhum incontinente, ou impuro, ou avarento, que é idólatra, tem herança no reino de Cristo e de Deus.

De um modo muito claro, o Espírito Santo diz às igrejas, e não somente aos efésios, que não herdarão o reino de Cristo e de Deus estas pessoas. E acrescenta: nenhum incontinente, ou impuro, ou avarento, que é idólatra

Não apenas os impudicos, os chocarreiros, pessoas que perdem seu tempo correndo atrás de satisfazer acima de tudo seus desejos sexuais, mas pessoas que incontinentes em todas as demais áreas não herdarão o reino de Cristo.

Alguém pode ser incontinente em relação à bebida alcoólica, à comida, à mentira, ou outras coisas. A incontinência é prova de que não há o Espírito Santo na vida de tal pessoa, pois é o Espírito o único capaz de frear, dominar, esta vida a fim de torná-la moderada.

A impureza citada no texto está ligada a tudo que exclui a pureza de sua vida. Você se tornará alguém impuro sempre que excluir o que é puro de sua vida. Se você exclui a pureza, natural e consequentemente, você descambará para a impureza.

Se você é incontinente com relação ao dinheiro, então você é um avarento, uma pessoa que alimenta a paixão e o amor pelo dinheiro e por juntá-lo mais do que qualquer coisa. Tal pessoa tornou-se uma escrava do dinheiro e, logo, não pode ser serva de Cristo:

Mateus 6:24: Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar a um e amar o outro, ou há de dedicar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.

Todo avarento é um idólatra, segundo a Palavra de Cristo. Todos que colocam qualquer coisa no lugar de Deus, é um idólatra, segundo as Escrituras.

6       Ninguém vos engane com palavras vãs; porque, por essas coisas, vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência.

As κενοῖς λόγοις (kenoîs lógois), ou seja, palavras vãs, estão ligadas às palavras tanto de falsos mestres quanto de outras pessoas que viviam no meio dos efésios, colossenses, dentre outras igrejas, e que os levava para longe do Evangelho. Eram palavras bonitas, palavras com aparente intelectualidade, mas que, ao final, conduziriam os efésios para longe do Caminho da Graça.

A ira de Deus se manifesta sobre as pessoas que iludem com palavras vãs e sobre as vidas daqueles que dão ouvidos a tais palavras sem buscarem discernir se estão corretas à luz da Palavra de Deus. Sim, é possível errarmos por ignorância, ignorância por preguiça de estudarmos e verificarmos “se as coisas são realmente assim”, como faziam os bereanos (At 17.11).

Estas mesmas pessoas que trivializavam a Palavra de Deus também o faziam em Colossos:

Colossenses 2.4,8: Assim digo para que ninguém vos engane com raciocínios falazes…  Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo;

7 Portanto, não sejais participantes com eles.

Em sua conclusão desta segunda parte de exortação no capítulo 5, o Espírito Santo guia Paulo a escrever que os efésios e, consequentemente, todos nós, não deveríamos ser participantes destas coisas mencionadas ao longo desta porção das Escrituras.

A ordem aqui tem o mesmo tom das que vêm nos Dez Mandamentos. São ordens que vêm para nos guardar de tropeçar. Precisamos estar atentos a estes ensinamentos! Eles nos ajudam a viver de um modo mais feliz e seguro. Fomos criados por Deus e só ele sabe melhor como devemos viver.

Quando Deus nos diz “não”, nos diz para nossa proteção. O “não” é um dom de Deus por amor aos seus. Deus nos diz não para nos guardar da condenação, do egoísmo, e da maldade que há dentro de nós. Dar ouvidos aos seus conselhos fará de nós pessoas mais sábias e que vivem em paz. Dar ouvidos aos “nãos” de Deus é verdadeira libertação!

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1 John D. Barry et al., Faithlife Study Bible (Bellingham, WA: Logos Bible Software, 2012), Ef 5.4.

AS 7 IGREJAS DO APOCALIPSE: Éfeso (Comentário Ap 2.1-7)

Com elogios e repreensões, Jesus se dirige à igreja em Éfeso. Todos que estão vivos e são capazes de ouvir e entender o que o Espírito diz, precisam dar atenção à esta mensagem visto nela encontrar-se uma promessa escatológica.

Da mesma maneira como os oráculos dos profetas no Antigo Testamento vinham, vem a mensagem de Jesus aos efésios.⁠1 Vejamos.

Ao anjo da igreja em Éfeso escreve:

Estas coisas diz aquele que conserva na mão direita as sete estrelas e que anda no meio dos sete candeeiros de ouro: Conheço as tuas obras, tanto o teu labor como a tua perseverança, e que não podes suportar homens maus, e que puseste à prova os que a si mesmos se declaram apóstolos e não são, e os achaste mentirosos; e tens perseverança, e suportaste provas por causa do meu nome, e não te deixaste esmorecer. Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor. Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras; e, se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas. Tens, contudo, a teu favor que odeias as obras dos nicolaítas, as quais eu também odeio. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor, dar-lhe-ei que se alimente da árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus.

Ap 2.1–7

1 Ao anjo da igreja em Éfeso escreve: Estas coisas diz aquele que conserva na mão direita as sete estrelas e que anda no meio dos sete candeeiros de ouro:

A carta aos cristãos de Éfeso é, provavelmente, a primeira pelo fato de sua proeminência dentro da província, ou províncias dentre as quais viviam.

Éfeso não era grande apenas em importância política e comercial, mas também religiosamente. O imperador César Augusto permitiu que fossem construídos em Éfeso dois templos em sua própria honra, e o imperador Domiciano nomeou Éfeso como a “guardiã” do culto imperial, tornando-a o maior centro de adoração ao imperador em toda a Ásia.⁠2 Éfeso também era conhecida por sua adoração à Artemis e pela prática da magia. Encontramos pequenos registros disto em At 19.23-40 e em At 19.13-19:

At 19.34–35: Quando, porém, reconheceram que ele era judeu, todos, a uma voz, gritaram por espaço de quase duas horas: Grande é a Diana dos efésios! O escrivão da cidade, tendo apaziguado o povo, disse: Senhores, efésios: quem, porventura não sabe que a cidade de Éfeso é a guardiã do templo da grande Diana e da imagem que caiu de Júpiter?

At 19.18–19: Muitos dos que creram vieram confessando e denunciando publicamente as suas próprias obras. Também muitos dos que haviam praticado artes mágicas, reunindo os seus livros, os queimaram diante de todos. Calculados os seus preços, achou-se que montavam a cinqüenta mil denários.

Estes pequenos trechos já nos dão uma ideia de como eram as relações nesta cidade. Era o mundo no qual viviam os cristãos em Éfeso. E para estas pessoas Jesus está mais uma vez dizendo que ele é quem tem “na mão direita as sete estrelas (pastores) e que anda no meio dos sete candeeiros de ouro (igrejas)”. Jesus estava lhes assegurando de que estava no meio deles.

Certamente, o Novo Testamento nos fala mais sobre a vida desta igreja do que qualquer outra. Paulo plantou a igreja e Áquila e Priscila cuidaram dela no início, vindo, depois, Apolo dar continuidade ao trabalho. Sabemos pela patrística de que Timóteo também serviu à igreja em Éfeso. Sabe-se que o apóstolo João também viveu em Éfeso durante um tempo e que Maria, mãe de Jesus, viveu ali até o final de seus dias.

2 Conheço as tuas obras, tanto o teu labor como a tua perseverança, e que não podes suportar homens maus, e que puseste à prova os que a si mesmos se declaram apóstolos e não são, e os achaste mentirosos;

Obras, labor e perseverança, obras que devem estar presentes na vida de todo cristão. E isso não faltava ao efésios. Eles levavam a sério o trabalho do Senhor. Perseveravam naquilo que criam, não eram de “jogar a toalha”.

Parte de sua perseverança se dava ao fato dele não suportarem homens maus, homens que se diziam apóstolos sem ser um dos doze. Eram tão bom em sua obra e conhecimento da Escritura que eram capazes de mostrar a mentira por detrás das intenções dos falsos mestres.

3 e tens perseverança, e suportaste provas por causa do meu nome, e não te deixaste esmorecer.

Os efésios seguem sendo elogiados por Cristo por conta da maneira como passaram por perseguição e provações. Suportaste provas por causa do meu nome. O próprio Cristo reconhece que foi por causa de seu nome que os efésios suportaram dias difíceis, provas quase impossíveis em dias de perseguição. Os efésios em momento algum “esmoreceram” diante das provas.

A palavra usada aqui é κεκοπίακες (kekopiakes) que denota alguém que se torna emocionalmente cansada ou desencorajada.⁠3 E, aqui, Jesus está a dizer que eles não se deixaram abalar com as provas. Estas não desencorajaram os efésios de continuar servindo a Cristo. Psicológica e emocionalmente, os efésios permaneceram firmes e certos do que queriam — servir a Cristo e honrá-lo quer na vida quer na morte.

4Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor.

Após os elogios iniciais, Cristo começa a seção de repreensões. O Senhor os repreende pelo fato deles terem abandonado o primeiro amor. Isso significa que, apesar das obras externas e visíveis, faltavam internamente obras de devoção e amor pelo Salvador.

A expressão τὴν ἀγάπην σου τὴν πρώτην ἀφῆκες (tēn agapēn sou tēn prōtēn aphēkes) trata do amor que eles tiveram no início de sua caminhada cristã. É deste amor que o Senhor Jesus está falando. A prática piedosa que possuíam no início, abandonaram, embora suas obras fossem boas. É perfeitamente possível alguém ter obras, mas não vida. E é a isso que o Senhor está lhes exortando.

5Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras; e, se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas.

Aqui está a essência do Evangelho. Após a repreensão, exortação ao arrependimento. Arrepende-te e volta à prática das primeiras obras. Após se arrependerem de estarem em falta com suas vidas devocionais, voltem a praticar o que vocês praticavam no início de sua vida cristã.

Caso não fizessem isso, a certeza que Jesus lhes dá que é moveria o candelabro (igreja) deles de lugar. Ou seja, se a igreja perder o seu amor pelo Salvador, não serve para mais nada, a não ser ser lançada fora e ser pisada pelos homens:

Mt 5.13: Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens.

6Tens, contudo, a teu favor que odeias as obras dos nicolaítas, as quais eu também odeio.

Muito tem se debatido sobre quem são estes nicolaítas. Como afirmou o Dr. Dennis Johnson, o fato de Jesus não especificar detalhes sobre este grupo demonstra que eles eram bem conhecidos na época em que esta carta foi escrita. As ideias e práticas dos nicolaítas eram bem conhecidas no tempo em que esta carta foi escrita, no final do século I, início do século II.

Qual era o erro deste grupo? É da repreensão que Jesus faz à igreja em Pérgamo que inferimos que os nicolaítas, assim como Balaão há muito tempo atrás,

Ap 2.14–15: Tenho, todavia, contra ti algumas coisas, pois que tens aí os que sustentam a doutrina de Balaão, o qual ensinava a Balaque a armar ciladas diante dos filhos de Israel para comerem coisas sacrificadas aos ídolos e praticarem a prostituição. Outrossim, também tu tens os que da mesma forma sustentam a doutrina dos nicolaítas

Se a doutrina de Balaão estiver relacionada com a doutrina dos nicolaítas (como sugerem alguns), então sabemos que o que os efésios odiavam eram as práticas imorais cometidas por alguns em seu meio, as quais o próprio Jesus diz também odiar.⁠4  Segundo Kaschel e Zimmer, os nicolaítas eram “seguidores de uma seita que perturbavam as igrejas de Éfeso e de Pérgamo. Comiam alimentos sacrificados a ídolos e entregavam-se aos prazeres carnais.”⁠5

Após voltar a elogiá-los, Jesus volta a exortá-los como viver.

7Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor, dar-lhe-ei que se alimente da árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus.

Jesus encerra suas palavras com um ânimo à igreja em Éfeso. Ao vencedor, dar-lhe-ei que se alimente da árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus. O último lugar de habitação do povo de Deus é comparado com o lugar onde a história humana começou. A alusão ao retorno da Árvore da Vida é importantíssima, pois nos mostra que o Senhor há de restaurar mesmo sua criação, o que nos inclui, com a graça de Deus.

Todos devem dar ouvidos nesta mensagem.

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1 KEENER, Craig S. Revelation: the NIV application commentary: from biblical text to contemporary life. Grand Rapids: Zondervon, 2000, p. 105.

2 KEENER, p. 106.

3 Johannes P. Louw e Eugene Albert Nida, Greek-English lexicon of the New Testament: based on semantic domains (New York: United Bible Societies, 1996), 318.

4 JOHNSON Dennis E.The letter to the church in Ephesus. Tabletalk Magazine, May 2009: The 7 Letters of Revelation (Lake Mary, FL: Ligonier Ministries, 2009), 10.

5 Werner Kaschel e Rudi Zimmer, Dicionário da Bíblia de Almeida 2a ed. (Sociedade Bíblica do Brasil, 1999).