MARIA: Obedecendo sem questionar!

 

26No sexto mês, foi o anjo Gabriel enviado, da parte de Deus, para uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré,27a uma virgem desposada com certo homem da casa de Davi, cujo nome era José; a virgem chamava-se Maria.28E, entrando o anjo aonde ela estava, disse: Alegra-te, muito favorecida! O Senhor é contigo.29Ela, porém, ao ouvir esta palavra, perturbou-se muito e pôs-se a pensar no que significaria esta saudação.30Mas o anjo lhe disse: Maria, não temas; porque achaste graça diante de Deus.31Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem chamarás pelo nome de Jesus.32Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; Deus, o Senhor, lhe dará o trono de Davi, seu pai;33ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu reinado não terá fim.34Então, disse Maria ao anjo: Como será isto, pois não tenho relação com homem algum?35Respondeu-lhe o anjo: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso, também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus.36E Isabel, tua parenta, igualmente concebeu um filho na sua velhice, sendo este já o sexto mês para aquela que diziam ser estéril.37Porque para Deus não haverá impossíveis em todas as suas promessas.38Então, disse Maria: Aqui está a serva do Senhor; que se cumpra em mim conforme a tua palavra. E o anjo se ausentou dela.

Lc 1.26-38

Exposição bíblica

Maria, a mãe do Filho de Deus

Maria foi, sem dúvida, a pessoal mais extraordinária que já existiu na história. Foi, também, a pessoa mais privilegiada de todos os tempos. Além de tudo, foi escolhida pelo próprio Deus para ser aquela através de quem a promessa feita à esposa de Adão se cumpriria (Gn 3.15).

Maria é aquela que provê aos cristãos o maior exemplo de obediência a Deus e confiança em Cristo. Maria não foi apenas uma espectadora dos sofrimentos de Cristo; ela participou sofrendo também, além de estar o tempo todo entre os outros discípulos de Cristo.

Maria recebeu a visita de um anjo chamado Gabriel (cujo significado pode ser homem de Deus, força de Deus, enviado de Deus). Imagine você que não é sempre que recebemos a visita de um anjo. E Maria lida com essa realidade de forma aparentemente natural, demonstrando que havia muito temor do Senhor em seu coração, ou seja, ela cria que Deus realmente é real e presente sempre. Por isso encara como algo aparentemente natural quando o anjo lhe aparece.

Ela morava em Nazaré, segundo o texto. Ela era virgem, nunca havia casado, provavelmente uma adolescente. A palavra virgem, também designava alguém muito jovem que poderia ser desposada a partir dos 12 anos de idade.1

O fato de ser desposada significa que ela era prometida a alguém da linhagem do rei Davi. A palavra prometida em grego é ἐμνηστευμένην (emnēsteumenēn). Literalmente, diz respeito a alguém prometida a outra pessoa em casamento. Essa promessa não era apenas algo feito “de boca”, mas um compromisso formal e legal feito entre pessoas que haveriam de se casar.2

Durante o tempo em que durava esse contrato, normalmente não mais que um ano, o casal possuía um contrato/promessa de casamento sem, no entanto, relações sexuais.

Um anúncio cheio de alegria

Ao entrar em contato com Maria, a primeira palavra do anjo foi Alegra-te! A notícia que o anjo anunciaria seria a notícia mais esperada da história. A mensagem do Evangelho veio a Maria por meio de um anjo. E essa mensagem não poderia ser introduzida de outra maneira que não Alegra-te. A vinda de Jesus para salvar-nos de nossos pecados é a notícia mais feliz da história.

A mensagem de Gabriel a Maria foi um pouco diferente da mensagem dada a José. Para ambos, o anjo disse “não temas”. À Maria, Gabriel disse que ela conceberia (Lc 1.31). A José, o anjo disse que ela conceberia pelo poder do Espírito Santo (Mt 1.20). À Maria, disse que ele reinaria (Lc 1.33). A José, disse que ele salvaria (Mt 1.21). As mensagens se completam.

Em um primeiro momento, Maria não entendeu o que aconteceria. Isso não significa que ela não acreditou. É impressionante sua calma. Aparentemente, a realidade espiritual era tão natural para ela que, diante das palavras do anjo, o que surgiu no seu coração não foi medo ou incredulidade, mas apenas um desejo de saber como aquilo que o anjo falou se daria na prática.

Antes de explicar, Gabriel anuncia que ela achou graça diante de Deus. Ela foi escolhida por Deus. Daí, então, anuncia sua gravidez e diz que seu filho seria grande, seria rei, e reinaria para sempre.

Obedecendo sem questionar

No verso 34, Maria não questiona as palavras do anjo, mas apenas quer saber como isso se daria, visto não ser ela casada ainda. E, assim como Deus espera hoje de todas as jovens, Deus esperava de Maria também, e de todas as moças de sua época, que aguardassem o casamento para conhecerem sexualmente seus cônjuges.

É então que Gabriel anuncia que, pelo poder do Espírito Santo, ela conceberia e ficaria grávida. Para comprovar a Maria a capacidade de Deus de fazer o impossível, fala de uma parente de Maria chamada Isabel, descendente de Arão (Lc 1.5), esta que, além de ser bastante idosa, também era estéril. E então, anuncia as palavras do verso 37: Porque para Deus não haverá impossíveis em todas as suas promessas.

As palavras de Maria foram de alguém pronta para obedecer, sem questionar ou balançar, totalmente entregue aos planos de Deus. A resposta de Maria se deu através de um belo cântico conhecido na história como Magnificat:

46Então, disse Maria:

    A minha alma engrandece ao Senhor,

   47e o meu espírito se alegrou em Deus, meu Salvador,

   48porque contemplou na humildade da sua serva.

    Pois, desde agora, todas as gerações me considerarão bem-aventurada,

   49porque o Poderoso me fez grandes coisas.

    Santo é o seu nome.

   50A sua misericórdia vai de geração em geração

    sobre os que o temem.

   51Agiu com o seu braço valorosamente;

    dispersou os que, no coração, alimentavam pensamentos soberbos.

   52Derribou do seu trono os poderosos

    e exaltou os humildes.

   53Encheu de bens os famintos

    e despediu vazios os ricos.

   54Amparou a Israel, seu servo,

    a fim de lembrar-se da sua misericórdia

   55a favor de Abraão e de sua descendência, para sempre,

    como prometera aos nossos pais.

Lc 1.46–55

Essas palavras expressam a surpresa e alegria de Maria por ter sido escolhida. Já como mãe, percebemos outros traços muito importantes nesta pequena jovem de Deus.

Uma mãe como qualquer outra

Maria guardava todas as memórias da infância de Jesus em seu coração, tal como qualquer mãe (Lc 2.51).

Com seu marido, Maria levou Jesus para ser circuncidado após 8 dias de nascido (conforme prescrito na lei em Lv 12.3). Depois de outros 33 dias (conforme prescreve a lei da purificação em Lv 12.4), o levou para ser apresentado ao Senhor no Templo em Jerusalém, como todos os pais faziam com todas as crianças na Judeia naqueles dias (Lc 2.21-24). Mais um ponto que nos chama a atenção neste texto é que Maria e José não puderam trazer o que a Lei prescrevia. Eles trouxeram o que a Lei permitia a famílias mais pobres. Vejam a Lei:

6E, cumpridos os dias da sua purificação por filho ou filha, trará ao sacerdote um cordeiro de um ano, por holocausto, e um pombinho ou uma rola, por oferta pelo pecado, à porta da tenda da congregação;7o sacerdote o oferecerá perante o Senhor e, pela mulher, fará expiação; e ela será purificada do fluxo do seu sangue; esta é a lei da que der à luz menino ou menina.8Mas, se as suas posses não lhe permitirem trazer um cordeiro, tomará, então, duas rolas ou dois pombinhos, um para o holocausto e o outro para a oferta pelo pecado; assim, o sacerdote fará expiação pela mulher, e será limpa.

Lv 12.6–8

Maria e seu marido não puderam trazer um cordeiro, mas duas rolas ou dois pombinhos, demonstrando serem de poucas condições financeiras. E foi em um lar assim que Jesus cresceu. Não em um berço de ouro, mas em um lar simples e humilde.

Quando o menino Jesus sumiu dos pais, Maria demonstrou ansiedade como qualquer outra mãe (Lc 2.48).

E, além de ter Jesus, a Bíblia nos fala que ela, com José, teve outros filhos e filhas (Mt 13.55-56 — a palavra irmão aqui significa irmão mesmo, filhos do mesmo pai e mãe, e não “primos” como alguns sugerem; a mesma palavra é usada em Mt 1.2 para falar de Judá e seus irmãos, filhos de Jacó).

Muitas outras coisas são ditas sobre ela nas Escrituras. Enfim, em um dos últimos textos sobre a vida de Maria na Bíblia, a encontramos orando junto com os demais discípulos (At 1.14).

Aplicação

Olhando para essa história de vida, não encontramos absolutamente nada que a desabone. Maria é um exemplo para mim de obediência e amor pelo Senhor. É um exemplo também de humildade e simplicidade, de auto-negação e serviço ao Senhor.

Maria serviu a Deus com sua própria vida e história, assim como se espera de todos nós. Ela não é um exemplo apenas para ser admirada ou elogiada, mas para ser imitada. Alguém que ame a Deus como Maria amou é alguém que deve estar pronto a se negar como ela se negou.

Alguém que deseja agradar a Deus deve atentar para a vida dessa jovem, pois ela foi alguém que conseguiu, desde a adolescência, acertar diante dos olhos de Deus. Essa foi a razão de Deus tê-la escolhido para ser a mãe do Salvador, a mãe do Filho de Deus.

Olhando para a vida dela, precisamos nos questionar:

1. Como pode alguém agradar a Deus se fica questionando a Palavra de Deus?

2. Como pode alguém agradar a Deus se nunca se dispõe a servir a Deus?

3. Como pode alguém agradar a Deus se não sabe conter os desejos de seu corpo?

4. Como pode alguém agradar a Deus se não está pronta para fazer de seu próprio corpo, de seu tempo, de seu presente e futuro, um vaso para ser usado para glória de Deus?

Com Maria aprendemos que é preciso morrer para poder viver. Com Maria e seu cântico Magnificat aprendemos que precisamos de um Salvador, como ela cantou que precisava, para que a alegria anunciada pelo anjo deixe de ser uma promessa e torne-se uma viva realidade dentro de nós.

Conclusão

Não há outro caminho diferente do de Maria. Não há melhor caminho do que o de Maria. O caminho de Maria é o caminho da obediência, o caminho de quem ouve e obedece, não por medo, mas por amor. Maria amava a Deus e por isso esteve pronta para obedecer. Deus não espera outra coisa de nós, que não, obediência por amor.

Deus nos dê um coração assim. Deus tire de nós todas os questionamentos sem sentido. Deus tire de nós todo medo em obedecer, pensando no que os outros dirão se nós obedecermos a Deus. Deus tire de nós a perca de tempo com fofocas e intrigas, enquanto poderíamos estar nossos lábios para seu louvor e evangelização. Deus tire de nós a lentidão em servir, a preguiça diante dos planos de Deus para nossas vidas, e coloque em nós um coração como o dessa menina que, desde sua adolescência, estava pronta para dizer sim e servir. Que juntos, todos nós possamos dizer diariamente ao Senhor: Aqui está a serva (o servo) do Senhor; que se cumpra em mim conforme a tua palavra.

 

1 Manser, M. H. (2009). Dictionary of Bible Themes: The Accessible and Comprehensive Tool for Topical Studies. London: Martin Manser.

2 Louw, J. P., & Nida, E. A. (1996). Greek-English lexicon of the New Testament: based on semantic domains (electronic ed. of the 2nd edition., Vol. 1, p. 456). New York: United Bible Societies.

JOÃO BATISTA: Temor de Deus vs. Temor dos homens

1Naqueles dias, apareceu João Batista pregando no deserto da Judéia e dizia:2Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus.3Porque este é o referido por intermédio do profeta Isaías:

  Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas.

4Usava João vestes de pêlos de camelo e um cinto de couro; a sua alimentação eram gafanhotos e mel silvestre.5Então, saíam a ter com ele Jerusalém, toda a Judéia e toda a circunvizinhança do Jordão;6e eram por ele batizados no rio Jordão, confessando os seus pecados.7Vendo ele, porém, que muitos fariseus e saduceus vinham ao batismo, disse-lhes: Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura?8Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento;9e não comeceis a dizer entre vós mesmos: Temos por pai a Abraão; porque eu vos afirmo que destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão.10Já está posto o machado à raiz das árvores; toda árvore, pois, que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo.

11Eu vos batizo com água, para arrependimento; mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu, cujas sandálias não sou digno de levar. Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo.12A sua pá, ele a tem na mão e limpará completamente a sua eira; recolherá o seu trigo no celeiro, mas queimará a palha em fogo inextinguível.

13Por esse tempo, dirigiu-se Jesus da Galiléia para o Jordão, a fim de que João o batizasse.14Ele, porém, o dissuadia, dizendo: Eu é que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?15Mas Jesus lhe respondeu: Deixa por enquanto, porque, assim, nos convém cumprir toda a justiça. Então, ele o admitiu.16Batizado Jesus, saiu logo da água, e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba, vindo sobre ele.17E eis uma voz dos céus, que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo.

Mt 3.1–17

Um pregador do arrependimento

Bem, o texto já começa afirmando o que João fazia. Nada nos é dito aqui sobre sua história. Isso é mencionado em outro texto.

O deserto da Judeia era o local de pregação de João Batista. Sua mensagem era de arrependimento. O verso 2 menciona que suas palavras era: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus. A mensagem de João era um chamado ao arrependimento e conversão. Segundo ele, o reino dos céus estava chegando. Isso, segundo as profecias veterotestamentárias, tinha a ver com a vinda do Messias. Então, quem ouvia João, imaginava que ele estava falando sobre a vinda do Messias. E muitos se arrependeram e se tornaram discípulos de João, antes mesmo de se tornarem discípulos de Jesus.

No verso 4, vemos como João se vestia e alimentava. Ele usava vestes de pêlos de camelo e um cinto de couro; a sua alimentação eram gafanhotos e mel silvestre. Ou seja, ele seguia uma espécie de costume essênio. Os essênio eram um de muitos grupos existentes na Judeia nos tempos de Jesus. Assim como os fariseus eram uma denominação do judaísmo, os essênios eram outra. E curiosamente eles possuíam o costumo de se vestir e alimentar como João Batista, daí muitos considerarem se não tivesse sido um essênio também.

Os versos 5 e 6 dizem que ele andava por todo lado e pessoas de todos os lados saíam para ouvi-lo. Quando estavam diante dele e ouviam suas palavras, se arrependiam de seus pecados e eram batizadas.  João, vemos no verso 8, enfatizava muito os frutos dignos de um arrependimento sincero. Ou seja, João não estava preocupado com o que estavam pensando dele. Ele sabia que devia pregar, e o fez com todo o coração.

No final do verso 9, João Batista deixa claro que a mera prática das coisas religiosas não tornam uma pessoa filha de Deus. A partir do verso 11, João Batista passa a falar de Jesus, ou seja, aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu, cujas sandálias não sou digno de levar. Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo.12A sua pá, ele a tem na mão e limpará completamente a sua eira; recolherá o seu trigo no celeiro, mas queimará a palha em fogo inextinguível.

João Batista pregou sobre seu parente, Jesus de Nazaré (talvez, primo de 2º grau), filho de Maria, provavelmente, prima ou irmã de sua mãe (Lc 1.36). Jesus, na mensagem de João Batista, é aquele que venha para salvar, mas também para condenar.

O verso 13 diz que, no tempo em que João pregava todas estas coisas, Jesus foi da Galiléia, provavelmente, Nazaré, para o rio Jordão. O objetivo era ser também batizado por João. No encontro, João debate com Jesus reclamando que ele é quem deveria ser batizado por Cristo e não o contrário. Jesus o convence e é batizado. O verso 16 nos apresenta a manifestação do Espírito Santo e do Pai logo após o batismo de Jesus. Ou seja, temos aqui uma apresentação da Trindade. O verso 17 termina com a aprovação do Pai com relação ao que o Filho estava fazendo.

Lições dessa passagem sobre João Batista

Ele não tinha temor dos homens. João sabia o que deveria falar e não se envergonhou. Ele temia mais a Deus do que aos homens. Ele estava mais preocupado com o que Deus estava pensando sobre ele do que com o que os homens estavam pensando dele naquela ocasião.

Essa é uma das grandes lições que aprendemos com João na passagem. Outra coisa é que vemos um homem que conhece sua mensagem. Isso revela profundo interesse por conhecimento, por informação, por saber corretamente o que dizer. O contrário disso seria a negligência e a irresponsabilidade que as quais podem gerar mentiras ou falsas doutrinas sobre jesus. João, no entanto, sabia muito bem o conteúdo do que cria.

Outra lição é que essa informação não fez com que João tornasse-se alguém frio. O conhecimento trouxe m fervor ao coração de João. A boa teologia fez com que João agisse com mais “paixão” e afinco em seu ministério.

Alguns fatos sobre João

João era filho de um casal de idosos que não podiam ter filhos. Sua mãe se chamava Isabel, e era uma mulher reconhecida publicamente como estéril. Seu pai, Zacarias, era um sacerdote do templo de Jerusalém, que recebeu a visita de um anjo enquanto trabalhava dentro do templo.

Ele viveu no deserto sua infância até o momento em que deveria se manifestar em Israel (Lc 1.80). Muitas profecias foram feitas sobre sua pessoa:

Lucas 1.14–17: 14Em ti haverá prazer e alegria, e muitos se regozijarão com o seu nascimento.15Pois ele será grande diante do Senhor, não beberá vinho nem bebida forte e será cheio do Espírito Santo, já do ventre materno.16E converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus.17E irá adiante do Senhor no espírito e poder de Elias, para converter o coração dos pais aos filhos, converter os desobedientes à prudência dos justos e habilitar para o Senhor um povo preparado.

Lucas 1.76–79:

   76Tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo,

    porque precederás o Senhor, preparando-lhe os caminhos,

   77para dar ao seu povo conhecimento da salvação,

    no redimi-lo dos seus pecados,

   78graças à entranhável misericórdia de nosso Deus,

    pela qual nos visitará o sol nascente das alturas,

   79para alumiar os que jazem nas trevas e na sombra da morte,

    e dirigir os nossos pés pelo caminho da paz.

Mateus 3.3: 3Porque este é o referido por intermédio do profeta Isaías:

  Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas.

Lucas 3.4–6:

4conforme está escrito no livro das palavras do profeta Isaías:

  Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas.

   5Todo vale será aterrado, e nivelados todos os montes e outeiros; os caminhos tortuosos serão retificados, e os escabrosos, aplanados;

   6e toda carne verá a salvação de Deus.

Ele possuía um estilo de vida muito simples (Mt 3.4). Sua palavra era sempre um chamado ao arrependimento (Lc 3.3). João, antes de Jesus, teve seus discípulos, os quais, futuramente, tornaram-se discípulos de Cristo (Jo 3.25-26).

A morte de João Batista esteve ligada à sua pregação. Ao confrontar Herodes e sua vida adúltera, João Batista foi preso e, enfim, executado, a pedido da filha de sua amante (Mt 14.6-12).

João Batista foi um homem tão temente a Deus que muitos consideraram que Jesus era o próprio João ressuscitado:

Marcos 8.27–28: 27Então, Jesus e os seus discípulos partiram para as aldeias de Cesaréia de Filipe; e, no caminho, perguntou-lhes: Quem dizem os homens que sou eu?28E responderam: João Batista outros: Elias; mas outros: Algum dos profetas.

Mateus 14.1–2: 1Por aquele tempo, ouviu o tetrarca Herodes a fama de Jesus2e disse aos que o serviam: Este é João Batista; ele ressuscitou dos mortos, e, por isso, nele operam forças miraculosas.

O próprio Jesus o honrou com estas palavras:

Mateus 11.11: 11Em verdade vos digo: entre os nascidos de mulher, ninguém apareceu maior do que João Batista; mas o menor no reino dos céus é maior do que ele.

Aplicação

Tudo isso nos revela a vida de um homem que quis viver no temor do Senhor e não no temor dos homens, um homem que não amou a própria vida, que não se importou se a verdade tirasse dele privilégios que muitos em seu tempo desfrutava.

Em João, aprendemos que cada um de nós possui um chamado, uma missão, um propósito. Cada um de nós deve pelo menos ter no coração o mesmo temor de Deus que João manifesta ter. Corremos o risco, constantemente, de temer mais aos homens do que a Deus, a pensar mais no que os outros estão pensando de nós, do que pensar no que Deus está pensando de nós e sobre nós.

Deus deve ser a primeira pessoa que nos vem à mente, sempre.

Conclusão

Se vivermos hoje como João viveu, certamente o mundo conhecerá o poder de Deus em Cristo. O desejo de Cristo é, sem dúvida, que sua igreja esteja cheia de João Batistas, cheia de homens e mulheres que temem a Deus mais do que tudo, que o consideram mais do que tudo, e que se importam mais com o que Ele pensa de você do que com o que seus amigos pensam de você.

O mundo precisa de pessoas assim. Pessoas para quem Deus é grande e os homens pequenos. Vivemos em um mundo onde essa verdade é invertida. Vivemos num tempo em que as pessoas são grandes e Deus é pequeno, onde não se considera sua Palavra e sua vontade, mas a vontade própria, a do coração, ou os conselhos “sem noção” que outros lhe dão.

Somente vivendo debaixo desse temor do Senhor encontraremos paz. Somente vivendo debaixo desse amor pelo Senhor é que estaremos dispostos a viver ou morrer para a glória de Deus.

ENOQUE: O que significa andar com Deus?

 

18Jarede viveu cento e sessenta e dois anos e gerou a Enoque.19Depois que gerou a Enoque, viveu Jarede oitocentos anos; e teve filhos e filhas.20Todos os dias de Jarede foram novecentos e sessenta e dois anos; e morreu. 21Enoque viveu sessenta e cinco anos e gerou a Metusalém.22Andou Enoque com Deus; e, depois que gerou a Metusalém, viveu trezentos anos; e teve filhos e filhas.23Todos os dias de Enoque foram trezentos e sessenta e cinco anos.24Andou Enoque com Deus e já não era, porque Deus o tomou para si.

Gn 5.18–24

Quem foi Enoque? 

Enoque foi o sétimo depois de Adão. Ele vem da geração que começou após a morte de seu irmão Abel. Podemos encontrar todos os detalhes das sete gerações no início do capítulo 5 de Gênesis. A versão resumida, encontramos em 1Crônicas 1.1-4: “Adão, Sete, Enos, Cainã, Maalalel, Jarede, Enoque, Metusalém, Lameque, Noé, Sem, Cam e Jafé.”

É assim que o autor das Crônicas começa a história de Israel, pelas gerações que começam em Adão e terminam nos filhos de Noé.

Sabemos muito pouco sobre Enoque. O pouco que sabemos, contudo, nos permite compreender o porque de Deus tê-lo colocado na lista de heróis da fé, na lista daqueles cujo testemunho devemos imitar, enquanto perseveramos nós também em nossas próprias histórias de vida.

Enoque foi filho de Jarede e pai de Metusalém. Ele foi um descendente de Sete, e essa geração era famosa por sua longevidade. A ciência já recorreceu a possibilidade disso acontecer em situações extraordinária quando o quadro genético da pessoa é favorável a isso.

Numa geração onde as pessoas viviam séculos e séculos, Enoque viveu pouco; foram somente 365 anos de vida. Isso era considerado pouco em sua geração e, especialmente, dentro de sua descendência. Ao contrário de Enoque, se filho Metusalém foi o homem que mais tempo viveu sobre a face da terra, morrendo o filho de Enoque com 969 anos de idade. Ninguém na longínqua geração de Sete, filho de Adão, viveu tanto tempo.

Mas, o tempo mais curto de vida de Enoque não se deu por qualquer acidente. Ao contrário. Foi o próprio Deus que decidiu interromper sua história de vida, chamando-o para si de uma forma que era desconhecida naquele tempo. Enoque não morreu. Deus o levou vivo para o céu. Deus o trasladou sem que Enoque tivesse que encarar o último inimigo do homem, a morte. Além dele, outros poucos viveram isso na história. E a razão pela qual Deus o levou dessa maneira é o que torna a vida de Enoque especial para todos nós.

O que havia de especial em sua vida?

O verso 19 nos diz que Enoque teve muitos irmãos. No entanto, ninguém temia ao Senhor como ele. Nós nem mesmo sabemos do nome de seus irmãos. Seus irmãos não são chamados de heróis da fé. Isso não significa que eles não tenham temido ao Senhor, mas que eles não chegaram ao ponto onde Deus espera que todos cheguemos um dia. E Enoque chegou lá, e chegou o mais perto que qualquer outro homem tenha chegado.

Isso já nos mostra o quanto Enoque era especial e diferente dos de sua geração. Diferente, mas nem tanto. O verso 21 diz que Enoque teve um filho, Metusalém. Isso significa que Enoque se casou, e teve com sua esposa filhos e filhas, diz o final do verso 22. Ou seja, nesse quesito, Enoque foi bastante parecido com as pessoas de sua época. Ele não era um super-homem, mas um homem comum que nasceu, teve irmãos e irmãs, conheceu uma garota, casou-se com ela e teve filhos e filhas com ela.

Mas, o diferencial na vida de Enoque é o que está no início do verso 22: “Andou Enoque com Deus”. O que significa andar com Deus? Andar com Deus significa andar com pensamentos em Deus. Significa também andar com atos de amor pelo Senhor, dizendo não ao pecado e a tudo que sua geração lhe oferecia. Significa que o coração de Enoque estava o tempo todo em Deus.

O mundo na época de Enoque não era muito diferente do nosso. A maldade e o pecado já enchiam a Terra que, após somente 4 gerações, seria totalmente destruída. É possível que muitos contemporâneos de Enoque tenham morrido no dilúvio, no qual se destacou um bisneto de Enoque, um homem chamado Noé.

Então, imagine o mundo já em sua época crescendo em maldade e pecado. Lembre-se do que disse Jesus, de que o mundo estaria como nos dias de Nós, nos dias que antecedessem sua segunda vinda. Muitos já cremos que estamos muito próximos desse dia, talvez vivendo aquilo que Enoque viveu — os dias que antecederam o dilúvio.

E foi nesse tempo de pecado que um homem se destacou pelo simples fato de ter decidido andar com Deus.

Ele foi o primeiro a temer ao Senhor?

É interessante notar que outros em sua geração haviam sido fiéis e tementes a Deus. Enoque vem da geração de Sete e Enos, no tempo de quem “se começou a invocar o nome do Senhor”, Gn 4.26b.

No entanto, Enoque amou mais a Deus do que, provavelmente, todos os seus antepassados. Ele viveu uma vida de serviço ao Senhor e de adoração. É bem provável que ele tenha se destacado diante de seus antepassados, razão pela qual ele nem mesmo conheceu a morte. A Bíblia apenas diz que “Andou Enoque com Deus e já não era, porque Deus o tomou para si”, Gn 5.24.

Quando a genealogia de Jesus é contada em Lucas 3.37, ele é colocado na geração de Enoque e de seu filho Metusalém. A forma como ele deixou este mundo é contada pelo autor de Hebreus, no capítulo 11.5: “Pela fé, Enoque foi trasladado para não ver a morte; não foi achado, porque Deus o trasladara. Pois, antes da sua trasladação, obteve testemunho de haver agradado a Deus. De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam”, Hb 11.5–6).

O texto que normalmente é lido sobre a morte de Enoque é apenas Hb 11.5. O verso 6 é lido muitas vezes isolado, mas não penso que deve continuar a ser lido assim. Para mim, o verso 6 tem muito a ver com o 5, ou seja, com Enoque. O texto grego inicia com uma conjunção δὲ, a qual liga o que está sendo dito com o que foi dito anteriormente.⁠1

Assim, completa-se a ideia de que Enoque agradou a Deus, creu na existência de Deus, e viveu com essa certeza todos os dias de sua vida, agindo de um modo diferente dos de sua geração. Ele temeu a Deus, como muitos outros, mas sua fé era de tal modo prática, que o texto bíblico diz que ele agradou ao Senhor, e não outros.

Como Enoque aponta para Cristo?

Enoque aponta para Cristo no sentido de ele mesmo ter andado como Cristo andou. A vida de Cristo foi, como a de Enoque, um andar com Deus. Suas ações, suas palavras, suas orações, refletem um homem que também andou com Deus.

E é interessante que nossas vidas devem ser marcadas por um seguir dos passos de Jesus, um andar como ele andou.

Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios. Ef 5.15

Devemos andar na luz, disse Jesus:

Respondeu-lhes Jesus: Ainda por um pouco a luz está convosco. Andai enquanto tendes a luz, para que as trevas não vos apanhem; e quem anda nas trevas não sabe para onde vai. João 12.35

Por fim, temos a recomendação de que andemos como ele e nele!

Ora, como recebestes Cristo Jesus, o Senhor, assim andai nele,

Cl 2.6

Conclusão e Aplicação

Hoje, podemos viver em meio a muitas pessoas que também expressam uma espécie de temor ao Senhor. No entanto, isso não muda nada visível na vida dessas pessoas. E creio que o Senhor espera que você seja alguém como Enoque em sua geração, alguém que cause mudanças, que seja diferente, que caminhe com Ele, pensando nEle, falando com Ele, sempre diante da face dEle.

Andar com Deus não é simplesmente afirmar-se como um cristão. Andar com Deus hoje significa ser alguém que honra a Deus em cada palavra que fala, em cada atitude que toma, em cada passo que dá. Assim, você também pode andar com Deus em nosso tempo. É bem possível que você não seja trasladado como Enoque foi… isso, provavelmente não acontecerá com você. Mas, é bem possível que sua vida seja um exemplo para a de muitos, como Enoque foi para os de sua geração e futuras gerações. Os efeitos da santidade na vida de alguém perduram por gerações e gerações. Os frutos ainda são colhidos mesmo depois da morte da pessoa que andou com Deus.

Isso significa que, mesmo depois de sua morte, seu testemunho e história ainda podem continuar a abençoar e influenciar a vida de muitas e muitas pessoas. Que você e eu possamos olhar para a vida de Enoque e concluirmos que não há nada melhor do que escolhermos por esse caminho para viver: andando com Deus.

_____________________

 

1 Louw, J. P., & Nida, E. A. (1996). Greek-English lexicon of the New Testament: based on semantic domains (electronic ed. of the 2nd edition., Vol. 1, p. 789). New York: United Bible Societies.

ABEL: Uma vida de entrega e adoração

As história de Abel é, na verdade, de Caim. Abel é lembrado nas Escrituras como um homem de fé, um homem de Deus, alguém de destaque. Embora saibamos muito pouco dele, o pouco que nos é revelado é suficiente para nos mostrar alguém especial e agradável aos olhos de Deus.

Abel, segundo filho de Adão e Eva, foi irmão de Caim. Abel foi assassinado por seu irmão. Foi o primeiro ser humano a conhecer a morte, e a conhecê-la de um modo tão cruel.

E, como já disse, quando sua história é contada, na verdade está tratando de seu irmão, e não dele. Vejamos o texto:

1Coabitou o homem com Eva, sua mulher. Esta concebeu e deu à luz a Caim; então, disse: Adquiri um varão com o auxílio do Senhor.2Depois, deu à luz a Abel, seu irmão. Abel foi pastor de ovelhas, e Caim, lavrador.3Aconteceu que no fim de uns tempos trouxe Caim do fruto da terra uma oferta ao Senhor.4Abel, por sua vez, trouxe das primícias do seu rebanho e da gordura deste. Agradou-se o Senhor de Abel e de sua oferta;5ao passo que de Caim e de sua oferta não se agradou. Irou-se, pois, sobremaneira, Caim, e descaiu-lhe o semblante.6Então, lhe disse o Senhor: Por que andas irado, e por que descaiu o teu semblante?7Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo. 8Disse Caim a Abel, seu irmão: Vamos ao campo. Estando eles no campo, sucedeu que se levantou Caim contra Abel, seu irmão, e o matou.9Disse o Senhor a Caim: Onde está Abel, teu irmão? Ele respondeu: Não sei; acaso, sou eu tutor de meu irmão?10E disse Deus: Que fizeste? A voz do sangue de teu irmão clama da terra a mim.11És agora, pois, maldito por sobre a terra, cuja boca se abriu para receber de tuas mãos o sangue de teu irmão.12Quando lavrares o solo, não te dará ele a sua força; serás fugitivo e errante pela terra.13Então, disse Caim ao Senhor: É tamanho o meu castigo, que já não posso suportá-lo.14Eis que hoje me lanças da face da terra, e da tua presença hei de esconder-me; serei fugitivo e errante pela terra; quem comigo se encontrar me matará.15O Senhor, porém, lhe disse: Assim, qualquer que matar a Caim será vingado sete vezes. E pôs o Senhor um sinal em Caim para que o não ferisse de morte quem quer que o encontrasse.16Retirou-se Caim da presença do Senhor e habitou na terra de Node, ao oriente do Éden.

Gn 4.1-16

Exposição bíblica

Porque Caim ficou irado contra seu irmão?

Para entendermos a história de Abel, precisamos responder essa pergunta. A história de Abel faz mais sentido para nós quando a estudamos sob a luz do que aconteceu com Caim, o primogênito de Adão e Eva.

Perceba, ao longo do texto, quantas vezes o Senhor se apresenta para Caim. No verso 1, o texto diz que Caim veio ao mundo com o auxílio do Senhor. No verso 3, diz que ele trouxe uma oferta ao Senhor. No verso 5, diz que o Senhor não gostou da oferta de Caim. No verso 6, o próprio Deus vem falar com Caim, e o aconselha! Impressionante! Sendo ele o que, normalmente se imagina, alguém morto espiritualmente, como poderia o próprio Deus falar com ele? Como poderia o conselho do Senhor ter sido dado a ele? Enfim, não sabemos as respostas, mas, o certo, é que Caim não ouviu o conselho de Deus, algo típico de alguém que não ama a Deus. No verso 9, encontramos Deus novamente vindo a Caim para falar com ele. No verso 10, novamente é dito “E disse Deus”. No verso 13, a primeira resposta de Caim a Deus é dada. Mesmo sendo estúpido e desrespeitoso com Deus, no verso 15 o Senhor fala com ele novamente assegurando-lhe uma espécie de sobrevivência na Terra. No verso 16, esta história termina com Caim indo para a terra de Node, retirando-se da presença do Senhor.

Veja, então, que a história é sobre Caim e não Abel. No entanto, no restante das páginas das Escrituras, quem é destacado por Deus como um exemplo de vida e de fé para seu povo é Abel, cuja história sabemos tão pouco.

Vamos lembrar brevemente da história. Adão e Eva, pais de Abel e de Caim, foram os primeiros seres humanos sobre a Terra. Foram criados pelo próprio Deus, de um modo totalmente diferente de todos nós. Adão e Eva não tiveram pais, irmãos, tios, primos, avós ou bisavós. Eram apenas eles e Deus, o Criador.

O Senhor fez uma aliança com Adão no Éden. Adão quebrou essa aliança comendo com sua esposa do fruto de uma árvore que Deus havia ordenado não comer. Lembrem-se que a motivação para comerem desse fruto não foi a fome, mas o desejo de se tornarem iguais a Deus, sendo convencidos por uma serpente de que, se comessem do fruto da árvore que Deus mandou não comer, que seriam não mais imagem e semelhança, mas seriam iguais a Deus. Tentados por tão grande oportunidade (falsa), eles comeram, desobedecendo a Deus e quebrando a aliança feita com o Criador.

Ambos perderam o privilégio e alegria de viver na presença de Deus. O pecado trouxe a morte, a separação, o sofrimento. Em meio ao sofrimento do afastamento de Deus, Adão e Eva tiveram seu primeiro filho, e puseram nele o nome de Caim, que significa “adquirido, recebido”. Ele ajudava seus pais e se tornou aquilo no que, provavelmente, mais gostava de trabalhar: um lavrador. Enquanto Caim lavrava a terra, trabalhando na lavoura, seus pais tiveram outro filho, um irmão para Caim.

A este segundo filho, Adão e Eva dão o nome de Abel, cujo significado pode ser “sopro, brevidade, vapor”. Abel, diferente de seu irmão, tornou-se um pastor de ovelhas. Aqui temos, então, as duas profissões mais antigas do mundo: pastor e lavrador, aquele que cuida de animais e aquele que cuida da lavoura.

O texto bíblico nos diz em Gn 4.3 que “no fim de uns tempos trouxe Caim do fruto da terra uma oferta ao Senhor. Abel, por sua vez, trouxe das primícias do seu rebanho e da gordura deste. Agradou-se o Senhor de Abel e de sua oferta; ao passo que de Caim e de sua oferta não se agradou. Irou-se, pois, sobremaneira, Caim, e descaiu-lhe o semblante.”

Aqui, então, o texto nos responde a pergunta inicial. Caim se irritou com seu irmão pelo fato de sua oferta não ter sido aceita por Deus. Mais adiante, tentaremos entender isso. Por enquanto, é isso que precisamos saber. Sua ira se deu por ciúmes e inveja. E esse sentimento de ira trouxe Caim ao sofrimento, provavelmente, um início de depressão, pois o texto nos diz que “descaiu-lhe o semblante”.

Qual a razão de Deus ter rejeitado a oferta de Caim e aceitado a oferta de Abel?

Embora alguns rabinos argumentem que Caim trouxe uma oferta de péssima qualidade, não há como chegarmos a uma conclusão com essa resposta. Nada, na Bíblia, é dito sobre a qualidade da oferta de Caim. O texto apenas diz que Deus não gostou.

Conhecendo tudo o que conhecemos sobre oferta no restante das Escrituras, é bem possível que a oferta de Abel tenha vindo da melhor parte daquilo com que ele trabalhava, no caso, ovelhas. Inferindo isso, é possível que Caim tenha trazido de algo que não fosse o melhor.

Como Abel sabia sobre a oferta que agradaria a Deus?

Esta é outra coisa curiosa sobre a qual tenho meditado há um bom tempo é sobre como Abel sabia o que seria ou não agradável a Deus. Paulo nos diz em Romanos as seguintes palavras:

Estes mostram a norma da lei gravada no seu coração, testemunhando-lhes também a consciência e os seus pensamentos, mutuamente acusando-se ou defendendo-se, no dia em que Deus, por meio de Cristo Jesus, julgar os segredos dos homens, de conformidade com o meu evangelho.”  Rm 2.15–16.

Seria isso (a lei gravada em seu coração) suficiente para que Abel oferecesse a Deus algo que lhe fosse agradável? Não sabemos. O ponto que me chama a atenção é que Abel já vivia como um homem de fé. Ou seja, bem logo após a queda, Deus já havia manifestado sua graça concedendo fé a um filho daqueles que haviam dado as costas a Ele. Se você tem dúvida sobre a fé de Abel, veja o que diz o autor aos Hebreus:

Pela fé, Abel ofereceu a Deus mais excelente sacrifício do que Caim; pelo qual obteve testemunho de ser justo, tendo a aprovação de Deus quanto às suas ofertas. Por meio dela, também mesmo depois de morto, ainda fala.” Hb 11.4

Abel é chamado na Bíblia de um herói da fé! Isso não é maravilhoso? Muito antes de Abraão, Noé, ou mesmo Sete colocarem sua fé em Deus, um filho de Adão e Eva já havia sido agraciado por Deus para adorá-lo na Terra.

Nós não sabemos como se deu essa “conversão” ao Senhor. Eu, no entanto, imagino que tenha vindo pela graça de Deus por instrumentalidade dos pais de Abel. Sim, creio que Adão e Eva tenham testemunhado a Abel sobre os efeitos da desobediência e do pecado. Creio que Adão e Eva tenham pregado a Abel sobre a promessa de Deus de enviar um descendente que “pisaria a cabeça da serpente”, desfazendo-lhe os efeitos e poder sobre a morte física e espiritual. E, sim, creio que o Senhor Deus deu a Abel a capacidade de crer nesta mensagem, uma espécie de proto-evangelho, a fim de poder oferecer ao Senhor um louvor e uma oferta (porque ofertas estão ligadas também à adoração) ao Senhor.

O que Abel ofereceu parece ter vindo do grande cuidado e atenção que ele dava à sua relação com Deus. Hebreus diz que foi pela fé que ele ofereceu, como um justo, ou seja, como um justificado, perdoado, salvo. Abel ofereceu algo que, futuramente, seria prescrito pelo próprio Senhor e seria registrado em Êx 13.12, Nm 18.17 e Pv 3.9.

Deus se agradou do louvor e oferta de Abel porque vinham conforme a vontade de Deus, e não conforme aquilo que Abel achava o melhor. Abel ouviu a Deus e quis agradá-lo. Abel creu no Senhor com todo seu coração e quis fazer a vontade de Deus e não a sua própria. Abel ofereceu uma oferta ao Senhor que foi fruto do seu louvor ao Senhor. Essa entrega de vida, essa auto-negação, essa disposição em dar aquilo que lhe era melhor faz de Abel um exemplo para nós, faz de Abel um homem do qual o mundo não era digno (Hb 11.38).

O que o Antigo Testamento fala sobre Abel?

Abel, no Antigo Testamento, é descrito como um pastor de ovelhas. A vez em que o nome de Abel é novamente descrito é quando Deus dá um novo filho a Adão e Eva chamado Sete, no tempo de quem, curiosamente, o nome do Senhor voltou a ser invocado na Terra. Pouco citado no Antigo Testamento, Abel volta a ser mencionado com mais ênfase no Novo Testamento.

O que o Novo Testamento fala sobre Abel?

No Evangelho segundo Mateus 23.35 e no segundo Lucas 11.51, Jesus cita Abel nas advertências que dá sobre as consequências do assassinato. Em Hebreus, Abel é chamado de justo e é colocado no topo da lista dos heróis da fé. Ainda em Hebreus 12.24, o sangue de Abel é comparado com o sangue de Jesus no sentido que o sangue de Jesus é redentor, enquanto que o sangue de Abel apenas aponta para a condenação daquele que o derramou, demonstrando que, assim como foi com Abel, aquele que agisse violentamente contra seu próximo, teria consequências presentes e eternas diante de Deus, caso não se arrependesse.

Aplicação

Abel é um exemplo para todos nós. Todos devemos seguir o exemplo de entrega e adoração do santo Abel. Ele foi o primeiro a entrar na presença de Deus após a morte. O primeiro a ser justificado. O primeiro a adorar e ofertar corretamente. O primeiro a morrer. O primeiro a esperar pela ressurreição do último dia. O primeiro a tornar-se um herói da fé. O primeiro a ser considerado pelo autor de Hebreus como “um homem do qual o mundo não era digno”, e isso por causa de sua fé e de seu amor pelo Senhor demonstrados naquela simples oferta que lhe custou a vida.

Como você e eu temos oferecido ao Senhor nosso louvor? Como você e eu temos ofertado ao Senhor? Temos adorado e ofertado conforme nosso próprio pensamento ou conforme diz a Palavra de Deus? Temos dado a Deus o melhor tempo, o melhor lugar em nossas vidas e agendas, um lugar de honra em nossos orçamentos? Ou temos dado a Deus do que sobra em nossas vidas? O que sobra do dinheiro, o que sobre do tempo, o que sobra de tudo? Temos agido como Caim ou como Abel?

Conclusão

Porque você acha que Abel entrou para a galeria de heróis da fé em Hb 11? Particularmente, creio que foi dar a Deus o melhor, fazendo isso em fé, não em vista, não esperando receber nada em troca, até porque o que ele recebeu em troca de sua oferta e louvor foi a morte.

E, uma última pergunta para nossa reflexão é: como a história de Abel aponta para a história de Jesus? Sem dúvida, Jesus agiu como Abel entregando sua vida por amor Deus. Sim, por amor a Deus antes de tudo. Como fruto de seu amor por Deus, ele nos amou também. Jesus também foi morto por aqueles que com ele convivia, por seus irmãos de nacionalidade. Estes, não apenas o rejeitaram, como o mataram.

Quando olhamos para Jesus, o vemos nos convidando a negarmos nossas vidas e a oferecermos como uma oferta em louvor a Deus, nossas vidas e tudo o que temos.

Rm 12.1–2: Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.2E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.

Lucas 9.23: Dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me.

Hebreus 13.15: Por meio de Jesus, pois, ofereçamos a Deus, sempre, sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que confessam o seu nome.