A linda história dos 40 mártires do gelo

No dia 9 de março, completou-se 1694 anos da morte dos 40 mártires do gelo. Você conhece a história destes homens?

Três grandes homens de Deus do passado escreveram sobre uma história realmente impressionante de amor a Cristo e de martírio. Gregório de Nissa (séc. IV) escreveu sobre a festa que a igreja em seu tempo criou para celebrar a memória dos 40 mártires. Alguns de seus sermões falam desses mártires. 

Éfrem da Síria (também conhecido como Santo Éfrem, o Sírio) também citou os 40 mártires em seus escritos. Ele foi um grande líder e compositor de hinos e poesias. Várias desses hinos e poesias foram dedicados aos 40 mártires. Éfrem viveu numa cidade chamada Edessa, cerca de 350 quilômetros ao sul de Sevaste, local onde os 40 foram mortos por amor a Cristo.

No ano 320 d.C., milhares de cristãos se espalhavam pelo Império Romano. Apesar de toda perseguição, o número dos cristãos só aumentava. Havia cristãos em todas as esferas da sociedade. Inclusive nas forças armadas, obrigatória para todos os cidadãos do império.

Era comum a religião entre os soldados. Em cada local onde as legiões de soldados romanos se encontrava haviam lugares de culto a Mitra, a Jesus, a César, enfim, àquele que tais soldados consideravam seu Deus. 

O episódio dos 40 mártires foi um dos mais estranhos da história. A começar pelo fato de um número grande de soldados serem mortos por seus próprios companheiros. TUDO COMEÇOU QUANDO o imperador Licínio exigiu que as tropas sacrificassem à sua imagem. Agrícola, governador da região onde estavam os 40 soldados, fez valer a ordem do imperador. O governador Agrícula, no início de março de 320 d.C., levou à tropa que estava em Sevaste (atualmente na Turquia) a ordem de Licínio.

No entanto, 40 dos soldados que estavam ali eram cristãos. Estes, se recusaram oferecer sacrifícios em adoração ao imperador. Segundo o relato de alguns dos Pais da Igreja, um dos 40 disse assim:

– Não vamos sacrificar, pois isso é trair a nossa santa fé.

O governador, calma mas firmemente respondeu:

– Mas, o que vocês falarão aos seus companheiros? Pensem! Somente vocês, de toda a tropa de César, irão desafiá-lo? Pensem! Pensem na vergonha que vocês trarão aos seus companheiros e à sua legião!

Mas, ainda assim, eles permaneceram firmes em sua posição.

– Desonrar o nome de nosso Senhor Jesus Cristo é algo mais terrível ainda!

O governou respondeu:

– Vocês estão loucos! Vocês não têm nenhum senhor senão César! Em nome dele eu prometo a promoção para o primeiro de vocês que der um passo à frente e cumprir o seu dever de sacrificar ao imperador!

Após breve pausa, nenhum deles se moveu. Então, Agrícola mudou sua tática:

– Vocês irão perseverar em sua rebelião? Se perseverarem, preparem-se para a tortura, para a prisão e para a morte! Esta é a sua última chance. Vocês irão obedecer ao imperador?

 Embora sabiam que o governador não estava brincando, os soldados mativeram-se firmes em sua resolução. Outro deles afirmou:

– Nada que você vier a nos oferecer substituirá o que perderíamos no outro mundo. Quanto às ameaças de tortura, prisão e morte, aprendemos a negar o nosso corpo quando o bem-estar de nossa alma está em jogo.

– Açoite-os!, gritou Agrícola.

Os próprios companheiros de farda tiveram de prender e açoitar cada um de seus companheiros. Levaram-nos para fora, no frio gelado de Sevaste, tiraram-lhes as roupas e os amarraram em postes. Depois de amarrados, foram chicoteados severamente. Após isso, chicotes com pequenos ganchos de ferro rasgaram suas peles nuas espalhando sangue sobre o gelo.

Em meio ao sangue sobre o branco da neve e aos gemidos de frio e de dor, os soldados que espancaram seus próprios companheiros deixaram o local do açoite sem que nenhum dos 40 soldados cristãos voltasse atrás em sua decisão. Depois de algum tempo, Agrícola ordenou que os 40 fossem presos em sua masmorra até que Lísias, o comandante daquela legião, chegasse a Sevaste.

QUANDO LÍSIAS CHEGOU, após fracassar em convencer os 40, chamou Agrícola e ordenou que os levasse para a lagoa, do lado de fora. Lá, segundo os escritos dos Pais da Igreja, fazia um frio de cortar as bochechas.

– Vocês ficarão nus, no lago, até decidirem sacrificar aos deuses, disse Lísias aos soldados.

Imediatamente, todos os soldados tiraram suas roupas e correram em direção à lagoa, extremamente gelada, envolta por neve em suas margens. Correndo, alguns dos soldados gritaram:

– Somos soldados do Senhor e não tememos nada. O que é morrer, senão entrar na vida eterna? Cantemos, irmãos!

Perplexo, Agrícola viu seus guardas puxando uma canção e correram para o lago congelado. Chegou a ordenar que colocassem grandes banheiras ao redor do lago. Sua esperança era que os soldados, antes de congelarem, se arrependessem e saíssem de lá para se aquecer e sacrificar ao imperador. Alguns soldados gritavam para os que estavam no lago tentando convencê-los a sairem de lá. 

EM ALGUM MOMENTO, um dos soldados que estavam fora do lago disse estar vendo espíritos com coroas de ouro pairando sobre o lago, parecendo estar estendendo roupas para aqueles que congelavam no lago. Seus companheiros disseram que ele estava ficando louco por causa do frio. Além de estar extremamente escuro não se podendo enxergar quase nada, o frio esfaqueava seus rostos.

Naquela hora, um dos 40 que estavam no lago saiu correndo em direção a uma das banheiras aquecidas. Ajudado por soldados que estavam do lado de fora, mergulhou numa das banheiras quentes e morreu instantaneamente por causa do choque térmico. Entrando em convulsão, acabou morrendo ali.

O guarda que estava do lado de fora e havia tido a visão, mais que depressa tirou suas roupas e se juntou aos mártires dentro do lago. 

Na manhã seguinte, Agrícola foi avisado de que haviam 40 soldados mortos dentro do lago, e mais um morto quando quis escapar do lago. Ordenou que seus corpos fossem tirados do gelo e queimados. As cinzas deveriam ser jogadas em um rio que passava ali por perto.

Então, algo inusitado aconteceu. O responsável por jogá-los no fogo percebeu que um deles estava aparentemente vivo e grito:

– Ei, temos um vivo aqui! É Melito! Coitado, ele é apenas um garoto.

Outro soldado disse:

– É um garoto aqui do local. Ei, veja sua mãe lá.

O soldado acenou para a mãe de Melito e pediu que ela se aproximasse. Ao chegar perto, disse para ela:

– Escute-nos, mãe. Leve seu garoto para casa, salve-o. Nós iremos olhar para outro lado.

A mulher, profundamente triste, vendo seu filho aparentemente morto, respondeu repreendendo-os:

– Que conversa é essa? Vocês querem privá-lo de sua coroa? Eu nunca deixaria isso acontecer!

À medida que os corpos dos mortos eram colocados sobre uma espécie de vagão que os levaria para a fogueira, sua mãe fez toda a força para levantá-lo fazendo com que seu filho se juntasse aos demais cristãos.

Chorando muito, a mãe disse:

– Vá, filho. Vá para o fim dessa jornada com seus companheiros a fim de que você não seja o último a se apresentar diante de Deus.

Um dos guardas bateu com as mãos na cabeça, olhou para cima e disse:

– Cristãos! Eu simplesmente não os entendo.

Basílio de Cesareia (séc. IV) foi outro pai da igreja que também narrou e escreveu a respeito dos 40 mártires. Basílio disse ter conhecido alguns homens bastante idosos que foram companheiros dos bravos 40 mártires.

Creio que a história desses homens deve nos levar a pensar em nossas próprias vidas e histórias. Devemos viver como homens e mulheres que já morreram também. Embora o martírio vermelho não exista entre nós, aquilo que os Pais da Igreja chamaram de Martírio Branco ainda nos desafia. 

O martírio branco é o morrer diariamente sem o derramamento de uma gota de sangue. É o morrer para este mundo, para o pecado, para as nossas próprias vontades. É lembrar todos os dias de que já não vivemos mais, mas que Cristo vive em nós. Não nos esqueçamos nós também de que morremos com Cristo. Vivamos como tais, a fim de que a luz e a graça de Cristo resplandeçam mais e mais através de nossas vidas.

 

História da Igreja? Pra quê?

Alunos da SEBI-Araraquara. Encerramos a semana de estudos com um delicioso churrasco!

Alunos da SEBI-Araraquara. Encerramos a semana de estudos com um delicioso churrasco!

Por que estudar história da igreja? Muitas pessoas já me perguntaram isso. Frustradas com professores de história que tiveram no ensino médio e/ou faculdade, não entendem o valor (e, até mesmo, prazer) em estudar e conhecer melhor a própria história da igreja.

Pois bem, conhecer melhor a história do cristianismo é fundamental para quem deseja viver o melhor possível o hoje. Conhecer erros do passado, conhecer bem as discussões em cima de questões que, volta e meia, retornam, pode nos ajudar a fim de que não caiamos nos mesmos erros.

Semana passada, tive o privilégio de ensinar História da Igreja 3 para os brilhantes [;-)] estudantes de teologia da Sociedade de Estudos Bíblicos Interdisciplinares, pólo Araraquara-SP. Pudemos estudar sobre os Puritanos e sobre os dois primeiros séculos da história da igreja batista.

livro-a-igreja-crista-na-historia-206x300Há excelentes livros de história da igreja escritos em português. Sem dúvida alguma, o recém lançado de Franklin Ferreira, A Igreja Cristã na História, publicado pelas Edições Vida Nova, é o melhor. O livro é super didático, recomendadíssimo para ser usado em seminários, traz um elemento inédito: informações riquíssimas sobre filmes e documentários sobre os vários períodos da história da igreja cristã. Além disso, traz mapas, quadros e gráficos que auxiliam muito a compreensão do período e contexto estudado.

Sem dúvida, se conhecêssemos melhor a história da igreja e a própria história do pensamento cristão, não cairíamos, como igreja, em tantos erros doutrinários sugeridos por pregadores recentes. Temas já rebatidos e destruídos com autoridade e sabedoria no passado, mas que retornam retocados seduzindo e destruindo a vida de tantos descuidados.

Se eu fosse você, valorizaria muito mais a história da igreja. Conhecê-la também significa conhecer a história dos feitos de Deus, o seu Deus, na história. Conhecer a história dos santos e santas, inspirariam você a uma vida mais santa também. Lhe asseguro: vale a pena! Estude mais. Você só ganhará com isso.

Wilson Porte Jr.

 

 

Os Batistas e suas Origens: CONCLUSÕES PESSOAIS

 
Concluo que havia uniformidade e solidez dentre os os Batistas que deram origem a todos os Batistas do século vinte e um. Neles encontramos uma herança riquíssima. 
Os erros quanto às origens dos Batistas se dão, tão somente, por ignorância histórica. E, tal descaso com a história, tem conduzido muitos ao sectarismo, à intolerância e à intransigência. Concluo que seria de grande valia aos batistas de hoje se voltassem às origens e à fé de seus fundadores. 
Se, por um lado, os Batistas de hoje se encontram tão fragmentados e sem uma identidade que lhes defina, por outro lado, sabemos que tal fragmentação só poderá ser desfeita com um retorno dos Batistas atuais às doutrinas e Confissões que uniam e caracterizavam os antecessores de todos os Batistas da atualidade: os Batistas Calvinistas. A verdade em que criam lhes trouxe a unidade em que viveram.
Concluo, certo de que os Batistas que sustentavam firmemente as Doutrinas da Graça, são aqueles que resistiram ao tempo, às prisões e às perseguições. Diferentemente dos Batistas Gerais, os Batistas Calvinistas brotaram e perduraram no tempo através de homens brilhantes como Benjamin Keach (século dezessete), John Gill (século dezoito) e Charles H. Spurgeon (século dezenove), homens que, ao lado de outros, esboçaram aquilo que trouxe uniformidade e identidade aos Batistas.
Se hoje constatamos um profundo distanciamento das características dos primeiros Batistas, isso se dá por um sensível distanciamento das Confissões de Fé e das Doutrinas que sustentavam o que criam e pregavam. Creio que Thomas Nettles registra bem quando, no final do século dezenove, um sensível distanciamento das origens acontece na União Batista (Inglaterra), à qual Spurgeon e sua igreja eram ligados. Segundo Nettles, nesse tempo “o Wesleyanismo tinha mais em comum com Spurgeon do que a nulidade doutrinal da União Batista”.
 Concluo com as palavras do próprio Spurgeon, escritas pouco antes dele e sua igreja romper com a União Batista por causa de seu distanciamento das Escrituras. Estas palavras refletem o começo do distanciamento que perdura até os dias de hoje:

Nenhum amante do evangelho pode esconder de si mesmo o fato de que os dias são maus… Leia os jornais que representam a Escola do Corpo Dissidente e pergunte-se: ‘Quanto mais longe eles podem ir? Qual doutrina continua a ser abandonada? Qual outra verdade tem sido objeto de desprezo?’ Uma nova religião foi iniciada… e esta religião, sendo destituída de honestidade moral, corrompe-se, sendo a antiga fé com ligeiras melhorias e, assim, usurpa púlpitos que foram erguidas para a pregação do evangelho. A Expiação é refutada, a inspiração das Escrituras é ridicularizada, o Espírito Santo é rebaixado a uma mera influência, o castigo do pecado é transformado em ficção, e a ressurreição em um mito… E, ainda assim, esses inimigos de nossa fé esperam que nós lhes chamemos ‘irmãos’ , e nos mantenhamos em uma confederação com eles!Sobre as costas da falsidade doutrinária vem um declínio natural da vida espiritual, evidenciado por um gosto questionável por divertimentos, e um cansaço por reuniões devocionais… O fato é que muitos gostariam de unir a igreja e o palco, as cartas e a oração, as danças e os sacramentos.Quando a antiga fé se vai e o entusiasmo pelo evangelho é morto, não é de se admirar que as pessoas busquem outras coisas no caminho do prazer. Ao lhes faltar o pão, eles se alimentam de cinzas; e rejeitando o caminho do Senhor, correm avidamente ao caminho da loucura.

 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BEEKE, Joel; PEDERSON, Randall. Paixão pela pureza: conheça os puritanos. São Paulo: PES, 2010.
COXE, Nehemiah; OWEN, John. Covenant Theology: from Adam to Christ. Palmdale: RBAP, 2005.
DALLIMORE, Arnold. Spurgeon, a new biography. Carlisle: The Banner of Truth Trust, 1984.
ELWELL, Walter A. (ed.). Enciclopédia histórico-teológica da igreja cristã. São Paulo: Vida Nova, 2009.
HAYKIN, Michael. Kiffin, Knollys and Keach: rediscovering our english baptist heritage. Leeds: Reformation Today Trust, 1996.
HAYKIN, Michael. One heart and one soul: John Sutcliff of Olney, his Friends and his times. Durham: Evangelical Press, 1994.
NETTLES, Thomas J. By His grace and for His glory: a historical, theological, and practical study of the doctrines of grace in baptist life. Grand Rapids: Baker Book House, 1986.
SCHAFF, Philip. Creeds of Christendom, with a History and Critical notes: The History of Creeds. v. 1. Grand Rapids: Baker Book House, 1990.
WEYLAND, Francis. Notes on the Principles and Practices of the Baptist ChurchesNew York: Sheldon, Blakeman, & Co., 1857.

Os primeiros Batistas e suas principais Contribuições

 
Por Wilson Porte Jr.
 
De acordo com Haykin, “a herança dos Batistas Calvinistas tem sido extremamente negligenciada”. Dentre todos os teólogos daquele século, apenas um é bem conhecido no século vinte e um: John Bunyan. Surpreendentemente, homens como Benjamin Keach, Nehemiah Coxe, William Kiffin e Hanserd Knollys são virtualmente desconhecidos em nosso tempo. Estes três homens, segundo Haykin, têm muito a ensinar aos Batistas de nosso século. Sua contribuição teológica e pastoral, colocou os Batistas na história da tradição reformada.
 
Benjamin Keach: fundador da
Igreja em New Park Street,
futuramente pastoreada por C.H.Spurgeon
As principais contribuições dos Batistas Calvinistas são suas confissões de fé. Philip Schaff, em The History of the Creeds of Christendom (A história dos credos da cristandade), no primeiro dos três volumes de sua obra The Creeds of Christendom (Os credos da cristandade), traz duas cartas escritas a ele pelo Dr. Joseph Angus e pelo Dr. Osgood. Nestas cartas, Angus e Osgood dissertam acerca destas confissões batistas, seus propósitos e objetivos.
 
As confissões Batistas Calvinistas dos ingleses, segundo o Dr. Joseph Angus,
 

Foram preparadas, em um primeiro momento, com propósitos defensivos e apologéticos. Elas, simplesmente, descrevem as doutrinas sustentadas pelos corpos de onde emanaram. As Confissões nunca foram impostas sobre os ministros e membros das igrejas. Mesmo quando adotadas, como algumas vezes foi, por alguma igreja como uma expressão de seus sentimentos, todas as igrejas irmãs eram deixadas livres e, nestas igrejas em particular, uma considerável margem de julgamento era permitida no interpretar das confissões. As confissões nunca foram aceitas como testes mas, simplesmente, representavam, de uma forma geral, o sentimento do corpo.

 
Na outra carta mencionada por Schaff, Dr. Osgood diz que 

As confissões de Fé nunca eram tidas como testes de ortodoxia, como se tivessem qualquer força autoritária ou obrigatória. Elas apenas refletiam a real harmonia de visões e interpretações bíblicas das igrejas que assentiam a elas.

Spurgeon: Herdeiro da Herança
Calvinista dos Batistas do séc. XVII
Dentre os principais documentos escritos, está a “Confissão das Sete Igrejas em Londres”, de 1644. Esta confissão surge três anos antes da Confissão de Fé de Westminster. Em 1646 ela é editada recebendo adições e mudanças. Neste ano, seu título é “A Confissão de Fé das Sete Congregações ou Igrejas de Cristo em Londres, que são comumente (mas injustamente) chamadas Anabatistas”.
 
São cinquenta e um artigos que, excetuando os sacramentos e o governo da Igreja, concordam com as Igrejas Reformadas Ortodoxas. Em seu último artigo, esta confissão admite a falibilidade das confissões humanas, e mostra a prontidão dos Batistas em receber mais luz para a compreensão das Sãs Doutrinas. Por outro lado, também mostra a determinação que eles tinham e que preferiam “morrer mil mortes ao invés de fazer qualquer coisa contra a menor frase da verdade de Deus, ou contra a luz de nossas próprias consciências”
New Park Street Church:
fundada por Keach.
Em 1677, também na cidade de Londres, começa a ser escrito outro documento de grande importância para os Batistas Calvinistas. Seu título, naquele momento, é “Uma Confissão de Fé composta por Presbíteros e Irmãos de muitas congregações de Cristãos batizados sob a profissão de sua fé”. Em 1688 ela foi reimpressa e, em 1689, é novamente reimpressa, aprovada e recomendada pelos ministros e mensageiros de mais de cem congregações que se encontraram em Londres, de 3 a 11 de julho de 1689. Esta está melhor elaborada e escrita, sendo mais importante e autoritativa do que a primeira de 1644. Até hoje, ela é tida em alta estima pelos Batistas reformados, sobrepujando em muito a antiga confissão. 
 
Spurgeon como pastor da New Park
Street Church, quase 2 século após
Cerca de seis décadas após sua recomendação, em 25 de setembro de 1742, a Confissão de Fé Batista de 1689 foi adotada, com algumas adições e alterações, nos Estados Unidos da América por uma Associação Batista sob o nome de Confissão de Fé Batista de Filadélfia.
 
Antes, porém, da Confissão de 1689, como carinhosamente é chamada, ser usada na Confissão de Filadélfia (1742), em 1693 William Collins apresentou um Catecismo baseado na Confissão de 1689 para a Assembléia Geral que se encontrou em Londres no mês de junho daquele ano. Ela foi fortemente baseada no Catecismo Menor de Westminster e segue sua ordem e método. Ela é também chamada de “Catecismo de Keach”.
 
Benjamin Keach esteve com Collins e é co-responsável pelo Catecismo. Ambos, juntamente com outros signatários, foram os responsáveis pela Confissão de 1689. Este Catecismo foi o único que obteve aceitação geral entre os Batistas da Inglaterra e Estados Unidos da América.
 
A atual New Park Street Church,
mais de 300 anos depois de Keach.
Por ela passaram Benjamin Keach,
John Gill, John Rippon, Charles Spurgeon,
dentre outros. Atualmente, Peter Masters
é seu pastor.
Anos após à Confissão de Filadélfia, a Confissão de 1689 foi reescrita de forma mais simples e condensada na Confissão de Fé Batista de New Hampshire, em 1833. Preparada pelo Rev. J. Newton Brown, editor da Universal Cyclopædia of Religious Knowledge (Enciclopédia Universal de Conhecimento Religioso), a Confissão de New Hampshire apresenta o sistema calvinista de forma mais moderada. Foi aceita na época pelos Batistas do Norte e Oeste dos Estados Unidos da América tornando-se, rapidamente, popular e amplamente aceita entre todos os Batistas norte-americanos.
Além destas confissões, outras de caráter pessoal foram escritas ao longo do século dezessete por John Bunyan, Benjamin Keach, dentre outros.
 
Um dos pontos fortemente defendidos nestas Confissões é a questão da autonomia da igreja local. Além da questão do batismo, vemos que a questão relacionada à igreja, seu governo, sua relação com o estado, e sua possível nacionalização, marcou de forma singular tais documentos. No século dezenove, o batista Francis Weyland escreveu sobre os princípios e práticas das igrejas batistas dos séculos dezessete ao dezenove. Vejamos como Weyland, refletindo a abordagem dos Batistas dos séculos anteriores ao dele, aborda a questão do governo da igreja:
 

Nós acreditamos, no sentido mais amplo, na independência de toda igreja individual de Cristo. Nós acreditamos que cada igreja é uma sociedade cristã, na qual é conferido por Cristo o completo poder de se auto-governar. Nenhuma igreja tem qualquer poder sobre qualquer outra igreja. Nenhum ministro tem qualquer autoridade sob qualquer igreja exceto naquela a qual foi chamado para ser seu pastor… Nós não podemos aceitar a autoridade de qualquer tribunal. Nós não temos direito de delegar tal autoridade a qualquer homem ou conselho de homens. É a essência de nossa fé que as Escrituras são a revelação de Deus, dada a todo e cada homem. Elas foram dadas a todos os indivíduos de modo que estes possam entendê-las por si mesmos, e a palavra que é dada a eles, os julgará no grande dia.

 
Deste modo, através de Confissões de Fé que refletiam o consenso das igrejas Batistas Calvinistas, através de Confissões de Fé pessoais, como as de Bunyan e Keach, através de sermões e livros que discorriam sobre sua perspectiva do credobatismo, do governo da igreja, dentre outros assuntos ligados à fé reformada e às doutrinas da graça, podemos conhecer a vasta contribuição que os Batistas Calvinistas prestaram durante o século dezessete e posteriores.

As principais CARACTERÍSTICAS dos primeiros BATISTAS: Eram eles Calvinistas?

 
Por Wilson Porte Jr.
 
Dentre as principais características dos Batistas Calvinistas no século dezessete, está o fato deles não serem revolucionários quanto à política e à religião. Eles eram “ordeiros, pacificadores, zelosos e devotados como qualquer outra classe de Cristãos”.
 
Antiga Igreja Batista Particular em Winslow
pastoreada por Benjamin Keach até 1668,
quando fundou a Igreja Batista Particular em
Horselydown (Southwark), futuramente
pastoreada por John Gill
e Charles H. Spurgeon
Embora tenham herdado alguns princípios dos menonitas e anabatistas do continente, não herdaram seus excessos e excentricidades. 
Os Batistas Calvinistas, diferentemente dos Batistas Gerais, ou Batistas Arminianos, ou ainda, Batistas do Livre-Arbítrio, eram reformados em sua doutrina e independentes quanto ao governo da Igreja. Eles criam que apenas os regenerados poderiam ser batizados e, isso, por imersão, sob uma voluntária profissão de sua fé.
Púlpito em Winslow, onde
Benjamin Keach pregava.
Os Batistas Calvinistas criam na salvação de todas as crianças que faleciam antes da “idade da responsabilidade”.
Eles não criam no poder salvífico ou regenerador do batismo, mas que este era apenas um sinal externo de uma graça já recebida, uma pública profissão de fé em Cristo, e uma entrada aos privilégios e responsabilidades (membresia) da igreja local.
 
Interior da Igreja de Benjamin Keach
restaurado nos moldes do século XVII
Outra marcante característica dos Batistas Calvinistas no século dezessete, foi sua oposição ao estabelecimento de uma igreja nacional. Além disto, se opuseram, também, quanto à união entre Igreja e Estado. Algo muito prezado por estes batistas era o voluntariado. Além disso, sua defesa da doutrina da liberdade religiosa como um direito de todos os homens constantemente fez parte de seus catecismos e confissões.
Outra característica marcante dos Batistas Calvinistas, era sua posição quanto à Teologia do Pacto. Tendo sido grandemente influenciados por teólogos reformados do século dezesseis e início do século dezessete, os teólogos batistas compreendiam o Pacto da Graça como o centro unificador de toda teologia bíblica. Para os mesmos, é através de alianças que Deus entra em relacionamentos com a raça humana. 
 
TEÓLOGOS RESPONSÁVEIS POR TAIS CARACTERÍSTICAS
 
Alguns que contribuíram marcantemente para a formação dos principais pontos teológicos que caracterizam fortemente os teólogos batistas do século dezessete foram John Bunyan, Nehemiah Coxe, Hanserd Knollys, William Kiffin, Benjamin Keach e John Gill. Vejamos um pouco de cada um deles.
Rev. John Bunyan
John Bunyan (1628-1688) foi, segundo Beeke, um poderoso pregador, além de ser o mais conhecido de todos os puritanos. Bunyan foi um dos autores mais influentes do século dezessete. Foi ativo como pregador leigo no exército do Parlamento bem como durante o período da “Federação”. Por causa disso, ficou preso por doze anos, recusando constantemente sua própria liberdade condicional dizendo que, caso fosse solto, voltaria a pregar no mesmo dia, o que lhe era proibido naquele tempo. É durante sua prisão que escreve seu mais famoso livro, O Peregrino. Bunyan  foi nomeado pastor de um congregação batista particular em Bedford em 21 de janeiro de 1672. Contudo, não pode assumir seu posto até que fosse libertado em maio do mesmo ano. Bunyan não foi admirado apenas nos círculos evangélicos, mas, até mesmo dentro do movimento romântico no século dezenove, Bunyan era tido como um gênio literário.
 
Nehemiah Coxe (?-1688) foi filho de um antigo líder dentre os Batistas Calvinistas, Benjamin Coxe. Não sabemos quase nada sobre sua data de nascimento e sobre sua infância. Um dos primeiros registros a seu respeito acontece em 1669, quando Coxe é aceito à membresia de uma igreja batista em Bedford, pastoreada por Bunyan. Em 1673, Coxe foi chamado para servir como pastor em Hitchin, uma congregação da igreja de Bedford. Coxe também era conhecido como um médico qualificado, hábil em latim, grego e hebraico, além de “um teólogo exigente”. Coxe era tido em alto respeito por seus contemporâneos, vindo, posteriormente, a servir como um editor da Segunda Confissão de Fé Batista de Londres. Ele morreu em 1688, antes da Assembléia Geral de 1689, quando os batistas utilizariam sua edição da Confissão de Fé para formalizarem a Confissão de Fé Batista de 1689.
 
Rev. Hanserd Knollys
Hanserd Knollys (c. 1599-1691) foi pastor de uma das maiores congregações Batistas Calvinistas na Inglaterra. Cerca de mil pessoas se reuniam para ouvi-lo entre as décadas de 1640 e 1650. Antes deste tempo, por volta de 1635, Knollys deixou a Igreja da Inglaterra e foi para a América. No entanto, por volta de 1641, Knollys teve problemas com os Congregacionais na Nova Inglaterra, o que o fez voltar para a Inglaterra. Dentro de três anos após o seu retorno, Knollys se identifica com o credobatismo e com a incipiente causa Batista Calvinista, centrada na cidade de Londres. Segundo Haykin, a identificação de Knollys com os Batistas Calvinistas o conduziu, inicialmente, a uma controversa viagem de pregações em Suffolk, durante a qual, em uma ocasião, uma ‘rude multidão’, o privou de pregar atirando pedras nele, enquanto ele estava no púlpito.
 
Os escritos de Knollys acerca do papel central de Cristo na vida dos cristãos, especialmente, seu sermão Cristo Exaltado, publicado por volta de 1644, além de outras publicações de Knollys defendendo alguns princípios batistas, ajudaram fortemente a caracterizar os batistas da metade do século dezessete na Inglaterra. Haykin destaca que o exemplo de Knollys em argumentar contra a visão dos Seekers, deve ser uma inspiração para os Batistas modernos que têm de dar uma resposta às experiências e clamores do pentecostalismo atual.
 
Rev. William Kiffin
William Kiffin (1616-1701) desempenhou um papel importantíssimo no crescimento da causa Batista Calvinista.
 Nas décadas de 1640 e 1650, quando a Confissão de Fé Batista de Londres foi reimpressa inúmeras vezes, Kiffin esforçou-se por sua divulgação, planejou o estabelecimento de novas igrejas e associações, aconselhando-as e, de forma geral, “provendo estabilidade à causa incipiente”. Segundo Haykin, Kiffin e muitos de seus companheiros Batistas Calvinistas foram fortes ajudadores do governo de Cromwell. Kiffin chegou a senta-se como um membro do Parlamento de Middlesex em 1656. Após o período chamado de “A Restauração”, Kiffin foi preso inúmeras vezes nos dois ou três anos após o retorno da monarquia com Charles II.
Rev. Benjamin Keach
Benjamin Keach (1640-1704) foi um batista particular de persuasão puritana. No início de seu ministério, Keach foi um pregador não ordenado de uma igreja Batista Geral em Winslow, Buckinghamshire, Inglaterra. Foi entre os anos de 1664 e 1668 que as convicções teológicas de Keach começaram a tornar-se crescentemente calvinistas. Em 1672, Keach rompe com os batistas gerais e funda uma igreja batista particular em Horselydown, Southwark, futuramente pastoreada por John Gill e Charles Spurgeon. Keach é considerado pelos principais historiadores batistas como o principal teólogo batista calvinista do século dezessete.
 
Rev. John Gill
Já no apagar das luzes do século dezessete, começo do século dezoito, nasce um herdeiro das principais características teológicas dos Batistas Calvinistas do século dezessete, John Gill (1697-1771). Gill desponta no século dezoito sendo grandemente influenciado pelos escritos aliancistas de seus predecessores Batistas Calvinistas. Em 1719, Gill foi ordenado pastor da igreja fundada por Benjamin Keach, em Horselydown. Escrevendo sobre a Teologia das Alianças sob a inspiração dos batistas do século dezessete, Gill tornou-se a mais brilhante mente entre os batistas do século dezoito, indo muito além que seus predecessores, através de seus livros.
 
Estes homens foram os principais responsáveis pela teologia que caracterizou os primeiros Batistas Calvinistas. Suas obras são um tesouro ainda a ser descoberto dentro da tradição reformada. 
 
Algumas obras para consulta:
 
BEEKE, Joel; PEDERSON, Randall. Paixão pela pureza: conheça os puritanos. São Paulo: PES, 2010.
 
COXE, Nehemiah; OWEN, John. Covenant Theology: from Adam to Christ. Palmdale: RBAP, 2005.
 

DALLIMORE, Arnold. Spurgeon, a new biography. Carlisle: The Banner of Truth Trust, 1984.

 
HAYKIN, Michael. Kiffin, Knollys and Keach: rediscovering our english baptist heritage. Leeds: Reformation Today Trust, 1996.
 
HAYKIN, Michael. One heart and one soul: John Sutcliff of Olney, his Friends and his times. Durham: Evangelical Press, 1994.

Os Batistas e Suas Origens: Somos Calvinistas?

 

Por Wilson Porte Jr.
 
Definir a origem dos Batistas não é algo tão consensual como deveria. Perspectivas diferentes, infundadas historicamente, porém, cridas e ensinadas em muitas instituições, têm dividido os historiadores quanto à real origem desta tradição cristã. Há, pelo menos, três perspectivas quanto à origem dos Batistas: o Sucessionismo Batista (ou, Sucessionismo Orgânico Estrito), o Anabatismo, e o Movimento Puritano-Separatista Inglês.
 
TRÊS PERSPECTIVAS HISTÓRICAS
 
Rastro de Sangue: sem provas
históricas bem fundamentadas, 
é tido como lenda para
os historiadores da igreja.

A primeira perspectiva, conhecida como “Sucessionismo Batista”, define que os Batistas surgiram do ministério de João Batista, nas margens do Rio Jordão. Eles traçam uma sucessão da moderna denominação Batista vinda dos Paulicianos, Albingenses, Waldenses, Montanistas, etc. Os defensores desta perspectiva argumentam que, cada um destes grupos, sustentou as crenças básicas dos batistas. G. H. Orchard, J. M. Cramp e J. M. Carroll, com sua obra Rastro de Sangue, estão entre os principais defensores desta posição.

 
Os que sustentam a segunda perspectiva, a de que os Batistas vieram dos Anabatistas, argumentam que, ao tempo da Reforma, alguns que saíram da Igreja Romana mas não se identificaram com os Reformadores Magistrais (Lutero, Zwínglio, e Calvino), formaram um grupo à parte, buscando uma reforma “radical”. Estes, por sua posição de que o batismo devesse ser administrado apenas aos regenerados, ficaram conhecidos como Anabatistas (século dezesseis). É destes que, segundo os defensores desta visão, surgem os Batistas, também no século dezesseis.
 
A terceira e principal perspectiva, a qual seguirei em minha argumentação posterior, é que os Batistas surgiram dos Movimentos Puritano e Separatista na Inglaterra, durante o século dezessete. Esta é a posição defendida pelos principais historiadores batistas da atualidade: Michael A. G. Haykin e Thomas J. Nettles. Além destes, Champlin Burrage, W. T. Whitley, J. H. Shakespeare e B. R. White, historiadores batistas dos principais seminários nos Estados Unidos e na Europa, sustentam esta visão.
 
BATISTAS GERAIS E PARTICULARES

 

Quando pensamos na origem dos Batistas no século dezessete, como fruto dos movimentos separatista e puritano na Inglaterra, precisamos ter em mente dois grupos: os Batistas Gerais e os Batistas Particulares. Estes dois grupos, em princípio, se dividiram por conta da doutrina da Expiação. Os “Gerais”, crendo que na Expiação Ilimitada e os “Particulares”, ou, “Calvinistas”, na Expiação Limitada, ou ainda, Particular, dos Eleitos. 
 
John Smith

John Smith (1570-1612), em meados da primeira década do século dezessete, está relacionado à origem dos primeiros batistas em um tempo quando esta distinção entre Gerais e Particulares ainda não existia. Smith foi ordenado como um ministro da Igreja da Inglaterra em 1594. Dentro de três anos, Smith começa a pregar fortemente contra alguns aspectos da liturgia da Igreja Anglicana. Haykin afirma que, por volta do outono de 1607, Smith definiu-se convencido da posição Separatista, tendo, por fim, se unido à uma congregação Separatista na “cidade de Gainsborough, em Lincolnshire, na divisa de Nottinghamshire”.

É somente em 1609 que Smith “dá um passo significativo em seu pensamento, aceitando o batismo do crente”. Isto trouxe certo embaraço entre os Separatistas, à medida que Smith passa a pregar que o batismo da Igreja Anglicana é errado por ser ela uma Igreja errada. Ele disserta sobre isso em seu tratado intitulado The Character of the Beast (O Caráter da Besta), publicado em 1609. 

Inconstante em sua teologia, Smith entende que, uma vez que seu batismo na Igreja da Inglaterra tenha sido falso, que ele deveria ser novamente batizado. Ele o fez, tendo, logo em seguida, batizado todos os membros de sua igreja. Além das críticas dos separatistas, Smith e seu grupo foi curiosamente criticado por um grupo holandês chamado Waterlanders, ligado aos Menonitas. 
 
Os Waterlanders criticaram Smith pois criam que ele e toda sua congregação poderiam ter sido rebatizados por eles, e que Smith não deveria ter se autobatizado, além de rebatizar todos em sua igreja. Com isto, Smith se aproximou dos Waterlanders para compreender sua teologia. Ele e toda sua congregação foram para a Holanda tendo como um dos objetivos se aproximar dos Waterlanders. Nisto, Smith tornou-se Arminiano, abandonando, em particular, a crença de que Cristo morreu apenas pelos eleitos.

Depois de um tempo junto aos Waterlanders, Smith entendeu que seu autobatismo foi invalido, bem como o rebatismo de toda a sua congregação. Com um grupo de quarenta e duas pessoas, Smith submeteu-se novamente ao batismo dos Waterlanders, sendo, posteriormente, admitido à este grupo. Nisto, alguns que não concordaram com a inconstância e inconsistência de Smith, retornaram à Inglaterra em 1612 conduzidos por Thomas Helwys (1575-c.1616). Neste ano, Smith morre e sua congregação acaba por se unir à tradição anabatista holandesa.
 
A congregação que voltou com Helwys retinha o Arminianismo e, por isso, tornaram-se conhecidos na Inglaterra como Batistas Gerais (por causa de sua posição quanto à Expiação Geral, e não Limitada ou Particular). Assim que voltaram para a Inglaterra, Helwys foi preso por seu não-conformismo à Igreja Anglicana. Helwys morreu entre 1615 e 1616 e, sua pequena congregação, com cerca de dez membros, sobreviveu ao aprisionamento e morte de seu líder. Em 1626, Haykin afirma que haviam congregações Batistas Gerais em Londres, Coventry, Lincoln, Salisbury, e Tiverton, com aproximadamente cento e cinquenta membros.

De acordo com Haykin, os Batistas Gerais foram praticamente extintos no final do século dezoito. Sua relutância em construir edifícios eclesiásticos e sua aplicação rigorosa de uma política de endogamia (casamento permitido apenas entre os membros da própria igreja), são, para Haykin, duas de tantas razões que levaram os Batistas Gerais ao seu fim.

Culto na Igreja Jacob-Lathrop-Jessey
(representação da época)
É em meio a tudo isto que surgem os Batista Calvinistas. No ano de 1616, sob o pastoreio de Henry Jacob, uma igreja surge como a primeira igreja Batista Calvinista da história. É conhecida como Igreja Jacob-Lathrop-Jessey. Estes são os nomes dos três primeiros pastores desta igreja. Henry Jacob a pastoreou de 1616 a 1622, John Lathrop de 1624 a 1634, e Henry Jessey de 1637 a 1639.

No princípio, Henry Jacob (1563-1624) e sua congregação se destacaram por não cortarem relações com outros grupos Puritanos que permaneciam dentro da Igreja da Inglaterra. Em 1622, Jacob deixou a Inglaterra e mudou-se para a Virgínia, deixando o ministério daquela igreja. Dois anos depois, veio a morrer no Novo Mundo. Em 1624, Lathrop sucedeu Jacob. Quando, no início da década de 1630, o Arcebispo William Laud buscou conduzir todas as igrejas na Inglaterra de volta ao Anglicanismo, Lathrop decide tomar o mesmo rumo de Jacob, e parte para a Novo Inglaterra em 1634.
 
Rev. John Lathrop

Em 1637, Henry Jessey, que havia se tornado um Puritano durante seus estudos em Cambridge no início da década de 1620, assume o pastorado daquela igreja. Haykin afirma que, por volta de 1635, Jessey começou a participar dos cultos na Igreja Jacob-Lathrop, sendo, dois anos depois, convidado a assumir o pastorado da mesma. Jessey, assim como Jacob, mantém esta igreja em comunhão com os Puritanos dentro da Igreja da Inglaterra.

 
É no ministério de Jessey que esta igreja afirmará, em 1638, sua adoção do credobatismo. Em 1641, eles afirmam o batismo por imersão (até então, o batismo era administrado por aspersão ou afusão em todas as igrejas batistas), e, em 1644, produz uma Confissão de Fé ao lado de outras igrejas Batistas Calvinistas.

Além desta igreja, outra se destaca no início das igrejas Batistas Calvinistas: a Igreja pastoreada por John Spilsbury. Spilsbury, segundo Haykin, provavelmente foi membro da Igreja JLJ (como também era chamada a Igreja Jacob-Lathrop-Jessey). A igreja pastoreada por ele “foi a primeira a abraçar definitivamente a causa Batista Calvinista”.
 
Eles se encontravam em uma área de Londres conhecida como Wapping. Por volta de 1670, aproximadamente trezentas pessoas se reuniam regularmente nos cultos desta igreja. Afirma Haykin que, por volta de 1640, a Igreja JLJ havia crescido tanto que não podiam mais se reunir em um mesmo lugar. Decidiram, então, dividir a igreja em duas. Uma continuaria sob o pastorado de Jessey e, a outra, sob o pastoreio de um homem chamado Praise-God Barebone (1598-1679).

Durante as guerras civis, os Batistas Calvinistas começaram a crescer e se espalhar por várias cidades da Inglaterra. Em 1644, haviam sete congregações em Londres e quarenta e sete em toda a nação. Muitos deles estavam no exército de Cromwell, alguns em alta posição. Por esta razão, Oliver Cromwell não via os Batistas como um povo com quem devesse se preocupar. Após o período conhecido como “A Restauração”, quando a dinastia Stuart voltou a reinar na Inglaterra, os Batistas voltaram a ser perseguidos com prisões, torturas e multas. De acordo com Philip Schaff, os Batistas sofreram mais do que qualquer outro grupo não-conformista, “exceto os Quakers”.
 
A Confissão produzida no século
XVII, cuja 1ª edição (1644),
antecedeu em 2 anos a
Confissão de Fé de Westminster.
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O surgimento dos Batistas, no início do século dezessete, foi marcado por muitas perseguições e falsas acusações. Por causa de sua suposta relação com os Anabatistas holandeses e alemães, os Batistas foram tratados com severidade na Inglaterra durante um tempo. Por causa das atitudes radicais de alguns Anabatistas, os Batistas ingleses, embora pouco, ou, quase nada tivessem a ver com os Anabatistas alemães, acabaram sofrendo por falsa associação com estes. Schaff destaca que, durante o reinado de James I e Charles I, os Batistas “reuniam-se secretamente em bosques, estábulos e celeiros”.



Foi somente em 1633 que eles começaram a organizar congregações separatistas, mas eram punidos sempre que descobertos. Muitos fugiram para a Holanda e alguns para a América. Algumas de suas primeiras publicações estavam relacionadas à defesa da liberdade de consciência. 


Hanserd Knollys (1599–1691), Benjamin Keach (1640–1704), e John Bunyan  (1628–1688) estiveram entre os principais teólogos batistas do século dezessete a passar bastante tempo na prisão. Foi só após o Ato de Tolerância (1689) que a perseguição cessou, permitindo aos Batistas a construção de capelas e sua expansão por toda a nação. É a partir desse ano que os Batistas passam a ser um dos principais ramos do Separatismo inglês.

Os Batistas Reformados e a Graça (4)

 


A teologia dos primeiros Batistas
 
Por Wilson Porte Jr.
Nehemiah Coxe foi um dos maiores teólogos batistas do século 17. Já escrevi um pouco sobre sua biografia algumas postagens abaixo. Coxe, seguindo os passos dos primeiros batistas (contemporâneos seus), era alguém completamente embebecido com a teologia calvinista, evangélica, paulina, agostiniana, bíblica, da graça! Veja, de modo extremamente resumido, como se desenha o pensamento de Nehemiah Coxe sobre a graça.
Para Nehemiah Coxe, “Abraão pode ser considerado um tipo de Cristo que é eminentemente o Cabeça e Príncipe da nova aliança”. Coxe afirma que houve um Pacto da Graça feito com Abraão. Todavia, este não foi o mesmo Pacto da Graça feito com Cristo. Abraão teria servido apenas como um tipo de Cristo e a aliança abraâmica um tipo da aliança da graça. Nehemiah Coxe sustenta sua afirmação escrevendo que Abraão foi justificado pela fé, pela graça, antes mesmo de receber a circuncisão. 
Coxe sustenta que, toda a relação entre Deus e Israel se deu sob a graça, especialmente sob um Pacto de Graça. Cristo veio posteriormente apenas para confirmar o Pacto da Graça. Ele “foi sacrificado por nós na cruz, obteve eterna redenção, e, confirmando o pacto da graça com seu próprio sangue, transferiu todas as suas promessas em um testamento inalterável”.
Para Coxe, o Pacto da Graça foi feito com Abraão em e através de Jesus Cristo. Abraão não é o Cabeça, Cristo é. Coxe vai além e afirma que, no Pacto da Graça, não há selo ou sinal anexado a ele, “pois foi dado vinte e cinco anos antes da circuncisão”.
Para Coxe, Cristo sempre foi e sempre será, tanto para os eleitos do Antigo Testamento, quanto para os eleitos do Novo Testamento, 
o Cabeça e Raiz da nova aliança, e a Fonte da qual todas as suas bênçãos são dirigidas a nós. Uma vez que as benções foram inteiramente compradas por Ele, então elas são aplicadas inteiramente a todos que estão nele e em nenhum outro.
Se quiser conhecer mais sobre Coxe, recomendo fortemente seu livro Covenant Theology, que estou quase acabando de ler 🙂 
 

Os Batistas Reformados e a Graça (3)

 
A teologia dos primeiros Batistas
 
Por Wilson Porte Jr.
 
John Gill foi um dos mais brilhantes comentaristas da Bíblia de todos os tempos. Foi o primeiro teólogo batista a comentar a Bíblia toda. Gill, que é do século 18 (apenas nasceu no 17), pastoreou a igreja fundada por Benjamin Keach, e pastoreada, futuramente, por Charles Spurgeon.
Gill, aparentemente, segue a linha de Bunyan na apresentação dos papéis do Pai e do Filho neste pacto. Quanto ao Pai, Gill afirma que Ele daria de Si mesmo no Pacto. Consigo, daria muitas outras coisas, inclusive, o arrependimento e a fé, para os eleitos. Quanto ao Filho, Gill vai além de Bunyan afirmando que, no Pacto Eterno (também chamado por ele de Pacto da Graça), Cristo tomou o lugar do povo para que o povo pudesse tomar o seu próprio lugar, o lugar de Cristo.
Como já colocamos (em posts anteriores), Gill fundia os Pactos da Redenção e da Graça em um só e o mesmo pacto, administrados em momentos diferentes.
 Ao discorrer sobre o Pacto da Graça, Gill dá bastante atenção ao papel desenvolvido pelas pessoas da Trindade na economia do Pacto da Graça.
Igreja pastoreada por Gill e Spurgeon
Gill também afirma que Cristo é o cabeça de todos aqueles que nasceram de novo, reforçando a ideia de que os não regenerados ainda permanecem sob o Pacto das Obras, sob a força da Lei para a sua própria condenação e morte. 
Para conhecer melhor o pensamento de Gill sobre a Graça, leia Complete body of practical and doctrinal divinity aqui, ou, leia gratuitamente aqui.

Os Batistas Reformados e a Graça (2)

 
A teologia dos primeiros Batistas
Por Wilson Porte Jr.
Benjamin Keach, no séc. 17
Já escrevi sobre Benjamin Keach há textos atrás. Um ponto interessante de sua vida, é que foi ele quem plantou a igreja que Charles H. Spurgeon pastoreou cerca de 200 anos depois. Keach é fonte de minha pesquisa de conclusão de curso no mestrado. Acho-o brilhante. Abaixo, comentou de modo bastante resumido seu pensamento sobre a graça.
Austin Walker, biógrafo de Keach, afirma em seu livro The excellent Benjamin Keach (O Excelente Benjamin Keach) que o Pacto da Graça assumiu um lugar central no pensamento de Keach. Tanto, que não é possível separar o calvinismo de Keach do homem em si quando apreciamos seu entendimento do Pacto.
Thomas Nettles afirma que “o Pacto [da graça], e todas as bênçãos que o acompanham, é a força motriz e dá coerência a todo o esquema teológico de Keach”. O conceito do Pacto da Graça é central dentro da teologia de Keach. De acordo com Holmes, 
Nos dias de Keach, muitas pessoas tanto mal-entendiam as doutrinas bíblicas da genuína redenção, quanto teimosamente insistiam que a graça de Deus apenas era insuficiente para salvar. Sentindo tanto um chamado a proclamar as verdades das Escrituras quanto um imperativo de defender a mensagem do Evangelho de distorções, Keach pregou sermões que uniam teologia sólida com um apaixonado clamor por resposta, e ele produziu numerosos trabalhos polêmicos que refutavam erros e defendiam a ortodoxia.
Capa de um de seus livros mais
lidos no século 17.
Benjamin Keach afirma em seus Article of faith que o Pacto da Graça foi feito com o segundo Adão e, nele, com todos os eleitos. Cristo se torna o Cabeça ou, o Representante Federal dos regenerados. Keach diz que Cristo “livremente obrigou-se ou comprometeu-se com o Pai por eles, de um modo perfeito cumpriu toda a Lei na natureza deles que havia pecado, e satisfez a Justiça Divina carregando os pecados deles em seu corpo”. No Pacto da Graça, Keach entende que toda a culpa dos pecados dos eleitos foi posta sobre Cristo. “Ele sustentou aquela Ira e Maldição em seu Corpo e Alma, que eram devidas a eles por todas as suas transgressões”.
Para Keach, o segundo Adão o fez em favor de todos aqueles que creem nele. Para estes, Cristo obteve união com Ele, trazendo-os à verdade na chamada Nova Aliança, e dando a eles o direito pessoal a todas as suas bençãos. Keach afirmava que, desde a eternidade, “Deus entrou neste Pacto da Graça com a segunda pessoa da Trindade, que foi colocada como o Cabeça comum de todos os Eleitos, para libertá-los do estado de miséria e Pecado e para trazê-los ao estado da Salvação e eterna alegria.”
Caso queira continuar lendo o que este importante teólogo batista, um dos primeiros desta denominação, escreveu sobre a Graça, busque nos títulos abaixo (alguns deles você encontra no Google Books):
WALKER, Austin. The excellent Benjamin Keach. Toronto: Joshua Press, 2004.
NETTLES, Thomas J. Benjamin Keach (1640-1704). In: HAYKIN, Michael (ed.). The British particular baptists 1638-1910. Springfield: Particular Baptist Press, 1998.
 HAYKIN, Michael (ed.). The British particular baptists 1638-1910. Springfield: Particular Baptist Press, 1998.
HOLMES, Benjamin Keach’s understand of the covenant of grace.
BENJAMIN KEACH, Articles of faith. (busque este livro no Google Books).

Os Batistas Reformados e a Graça


A teologia dos primeiros Batistas
Por Wilson Porte Jr.
John Bunyan, mais conhecido como o autor do best-seller “O Peregrino, foi também um pastor batista “particular” no século 17. Hoje, os batistas particulares são bem representados teologicamente pelos chamados batistas reformados
Local de nascimento de John Bunyan

Os primeiros batistas podem ser encontrados no início do século 17. Estes eram chamados de “particulares” pois diferenciavam-se dos “batistas gerais”. A diferença entre esses dois grupos estava, especialmente, na doutrina da expiação. Sobre isso, escrevo em outra ocasião.

Uma das doutrinas centrais para os primeiros batistas era a Doutrina da Graça, ou, do Pacto da Graça entre Deus e os homens por meio de Jesus Cristo. John Bunyan, como um dos primeiros batistas (e reformado), afirmava que a graça vem aos homens por meio de um Pacto. Esta graça é livre e imutável. Este Pacto, segundo Bunyan, foi feito com Cristo, “não com muitos”, mas feito apenas com um. Bunyan afirma que Jesus é o empreiteiro e, ao mesmo tempo, o representando federal nas coisas concernentes ao Pacto da Graça.
Bunyan coloca da seguinte forma as condições deste pacto feito entre o Pai e o Filho:
Do lado do Mediador que Ele deveria vir ao mundo, e, então, da parte de Pai, que ele deveria lhe dar um corpo… Do lado do Mediador, que ele deveria morrer; e do lado do Pai, que ele deveria ressuscitá-lo… Do lado de Cristo, que ele deveria morrer para dar a justiça da satisfação divina, e então tomar a maldição que era devida a nós miseráveis pecadores; e do lado do Pai, estando completamente satisfeito, deveria pelo seu poder revivê-lo e ressuscitá-lo… Do lado do Mediador, que ele deveria se tornar maldição, e do lado do Pai, que através dele pecadores deveriam ser co-herdeiros das bênçãos… Do lado do Mediador, que deveria haver por ele uma vitória sobre o inferno, a morte e o diabo, e a maldição da lei; e do lado do Pai, que isto deveria ser comunicado aos pecadores, e assim eles serem postos em liberdade… Do lado do Mediador, que ele deveria trazer eterna justiça para os santos; e do lado do Pai, que ele deveria dar a eles um reino eterno.
Bunyan afirmava que, neste Pacto, percebemos com mais clareza o grande amor de Cristo pelos pecadores, o modo como ele foi enviado dos céus para declarar ao mundo o amor de Deus o Pai por pobres pecadores. Bunyan afirmava que melhor compreende-se a graça quando entende-se o sacrifício que Cristo fez por nós. Quando Cristo decidiu ser sacrificado em favor dos eleitos, sua aflição não foi, segundo Bunyan, apenas corpórea, mas psicológica, também. “Sua aflição foi no corpo e na alma!” Bunyan, ao escrever sobre este evento, emociona-se e louva ao Pai, Filho e Espírito Santo por tão grande salvação, pelo modo terrível como Cristo sofreu pelos eleitos, sofrimento físico e emocional, “pelo qual ninguém jamais passou”.
Você pode encontrar mais sobre o que pensa John Bunyan sobre a graça lendo suas Works (The entire works of John Bunyan). Caso não conheça e queira conhecer melhor sobre os batistas reformados e sua exposição sobre a Preciosa Graça de Deus, entre no site da CRBB (Comunhão Reformada Batista do Brasil) e busque lá sobre quem são e o que pensam estes irmãos.

John Gill e a Teologia das Alianças

Por Wilson Porte Jr.
 
John Gill (1697-1771), embora tenha apenas nascido no século dezessete, toda sua influência teológica foi formada com base nos escritos aliancistas de seus predecessores batistas particulares. Em 1719, Gill foi ordenado pastor da igreja fundada por Benjamin Keach, em Horselydown, sobre quem já escrevi alguma coisa aqui. Escrevendo sobre a Teologia das Alianças sob a inspiração dos batistas do século dezessete, Gill tornou-se a mais brilhante mente entre os batistas do século dezoito, indo muito além que seus predecessores, através de seus livros.
John Gill, quanto a Teologia das Alianças, entendia que existem apenas dois pactos, o das Obras e o da Graça. Contudo, chama o Pacto da Graça também de Pacto Eterno ou, Transação Federal ou ainda, Eterno Pacto da Graça.
 Gill afirma que, na eternidade, o Espírito Santo aprova e concorda com tudo relacionado com o Pacto da Graça, e, por isso, assume o papel do santificador na salvação da raça humana.
 Gill funde o Pacto da Graça com o Pacto da Redenção como se fossem um só. 
Em uma de suas justificativas, apela à etimologia e significado das palavras usadas para pacto nos escritos do Antigo e do Novo Testamento. Gill argumenta que aliança, em hebraico, vem de cortar, purificar, ordenar, dispor as coisas. Uma vez que isso aconteça debaixo do Pacto da Graça, na redenção humana, e, também, que a decisão de purificar, ordenar e salvar o homem venha da eternidade (Pacto da Redenção), Gill justifica sua crença de que há apenas um e não dois pactos (Redenção e Graça).
Gill, inclusive, chega a admitir o fato de que alguns teólogos assumem o termo Pacto da Redenção separadamente do Pacto da Graça. Contudo, Gill deixa claro que, para ele, este pacto nada mais é do que o Pacto da Graça em seu início, quando o Redentor decide assumir a sua parte no desenrolar da história.
 A partir de então, Gill começa a dissertar sobre as partes do Pai e do Filho naquilo que ele chama de um só Pacto, o Pacto da Graça. 
Valeria muito a pena se pastores (principalmente batistas) de nossos dias começassem a ler mais e estudar mais sobre isso. Muita coisa errada sobre a doutrina da salvação poderia ser corrigida se pudessem compreender mais sobre a Teologia das Alianças.
Sugiro Gill como uma excelente fonte de estudo acerca dessa que, para mim, é uma das mais lindas doutrinas nas Escrituras.

Homens Brilhantes que a Igreja Esqueceu – NEHEMIAH COXE

Você já ouviu falar de Nehemiah Coxe? Apesar de tão famoso e importante para o cristianismo no século 17, Nehemiah Coxe (?-1688) é hoje quase completamente desconhecido, inclusive dentro da denominação batista, cujas bases teológicas ajudou a lançar. Coxe foi filho de um antigo líder dentre os batistas particulares, Benjamin Coxe. Não sabemos quase nada sobre sua data de nascimento e sobre sua infância. Um dos primeiros registros a seu respeito acontece em 1669, quando Coxe é aceito à membresia de uma igreja batista em Bedford, pastoreada pelo famoso pregador John Bunyan. Em 1673, Coxe foi chamado para servir como pastor em Hitchin, uma congregação da igreja de Bedford. Coxe também é conhecido como médico qualificado, hábil em latim, grego e hebraico, além de um teólogo exigente. Coxe era tido em alto respeito por seus contemporâneos, vindo, posteriormente, a servir como um editor da Segunda Confissão de Fé Batista de Londres. Ele morreu em 1688, antes da Assembléia Geral de 1689, quando os batistas utilizariam sua edição da Confissão de Fé para formalizarem a Confissão de Fé Batista de 1689.

Para Coxe, Deus, desde a eternidade, anteviu a queda do homem. Tendo na eternidade um propósito gracioso em si mesmo de acordo como conselho de sua vontade, Deus decidiu redimir e salvar um remanescente de homens e mulheres perdidos de seu estado “cortado e caído”, e por sua graça todo-poderosa, através dos méritos de Cristo, recuperá-los da miséria à herança de um reino e glória muito maior do que a posta perante Adão em sua integridade.
Segundo Coxe, este eterno conselho desenrolou-se por meio de um pacto entre o Pai e o Filho, em um chamado Pacto da Redenção. Coxe diz que:
A este pacto pertencem todas as promessas do Pai ao Mediador, e os compromissos estipulados do Redentor acerca da salvação de pecadores e o caminho e o método de sua realização. Com respeito a estes conselhos, o Filho de Deus é tido como o prazer do Pai, e ele próprio também tem o seu prazer no mundo habitável quando a parte maior de suas cinzas foram formadas. Neste contexto, a aquiescência tanto do Pai quanto do Filho não é bem definida.
Diante disso, Coxe vai dizer que homem nunca entrou em um Pacto com Deus; é Deus quem entre em aliança com os homens. Esta aliança é fruto da majestade soberana e de sua infinita bondade ao propor, bem como de sua sabedoria ao escolher e ordenar, os termos de uma relação pactual entre Ele mesmo e suas criaturas.
Não dissertando muito sobre este Pacto, Coxe fecha seu pensamento dizendo que “não é com base em qualquer necessidade da natureza que Deus entra em um pacto com os homens, mas por causa apenas de seu bel-prazer”.
 É, portanto, por causa de um transbordar do amor e do prazer que há em Deus, que a Trindade faz uma aliança para a redenção de um grupo de homens e mulheres.
Confesso que, lendo Covenant Theology (Teologia do Pacto), de Nehemiah Coxe e John Owen, meu coração se encheu de louvor e gratidão. Como pôde Deus escolher um homem como eu para participar da festa que será o céu? Porque eu fui convidado, enquanto tantos outros não? Eu, que muitas vezes resisti! Mesmo assim, ele me fez entrar, e fez uma aliança comigo. Confesso, com lágrimas nos olhos, que já sou, e serei por toda eternidade, imensamente grato ao maravilhoso Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito!
Soli Deo Gloria! Amem.
Wilson Porte Jr.
Fontes:

RENIHAN, James. An Excellent and Judicious Divine: Nehemiah Coxe. In: COXE, Nehemiah; OWEN, John. Covenant Theology: from Adam to Christ. Palmdale: RBAP, 2005, p. 7-24.
COXE, Nehemiah; OWEN, John. Covenant Theology: from Adam to Christ. Palmdale: RBAP, 2005, p. 54

Homens Brilhantes que a Igreja Esqueceu – BENJAMIN KEACH

Benjamin Keach
Benjamin Keach (1640-1704) foi um homem brilhante para seu tempo. Seus estudiosos consideram-no um dos mais importantes teólogos do início da igreja batista. Sua vida e seus escritos, sobretudo os que tratam das Doutrinas da Graça, serviram para manter firmes e unidos os batistas particulares do século 17, dos quais, praticamente, todos os atuais batistas descendem.
O Progresso do Pecado, ou
As Viagens da Impiedade
Benjamin Keach foi um batista particular de persuasão puritana. No início de seu ministério, Keach foi um pregador não ordenado de uma igreja batista geral [1] em Winslow, Buckinghamshire, Inglaterra. Foi entre os anos de 1664 e 1668 que as convicções teológicas de Keach começaram a tornar-se crescentemente calvinistas. Em 1672, Keach rompe com os batistas gerais e funda uma igreja batista particular em Horselydown, Southwark, futuramente pastoreada por John Gill e Charles Spurgeon [2].
Benjamin Keach foi um dos primeiros teólogos batistas a escrever sobre a Teologia das Alianças. Em 1697, Keach publica uma pequena obra intitulada The articles of the faith of the church of Christ or congregation meeting at Horselydown (Os artigos da fé da igreja de Cristo ou da congregação que se encontra em Horselydown). Neste livro, Keach afirma que Cristo “sendo o eterno Filho de Deus, da mesma essência que Deus, co-igual com o Pai, de acordo com aquele santo Pacto e Acordo que havia entre ambos, tornou-se homem” [3]. Em seus Artigos de fé, mais à frente, Keach afirma que o perdão que recebemos de Deus só é possível graças e através do sangue da eterna aliança, ou do pacto eterno, ou seja, do Pacto da Redenção.
As Viagens da
Verdadeira Piedade
Segundo Keach, o sangue de Cristo, derramado em favor dos eleitos de Deus, já esteva acordado desde a eternidade. E é graças à fé na mensagem do Evangelho (que inclui o sangue de Cristo) que o homem é perdoado eternamente por Deus para desfrutar de Seu amor e ter prazer nEle para sempre.
Seus livros, no século 17, rivalizavam em pé de igualdade com seu amigo de ministério John Bunyan. Keach, à semelhança do Peregrino de Bunyan, também escreveu muitas alegorias sobre a vida cristã. Eu louvo a Deus pela vida e ministério deste Seu servo. Clique nas imagens ao longo deste post (capas originais de seus livros)  caso queira conhecer melhor o que ele escreveu.
Wilson Porte Jr.
[1] Os batistas gerais, diferentemente dos batistas particulares, abraçavam fortemente as doutrinas arminianas. 
[2] BEEKE, Joel; PEDERSON, Randall. Paixão pela pureza: conheça os puritanos. São Paulo: PES, 2010, p. 481.

ESCRAVIDÃO: Batistas, Metodistas, e a Igreja Fluminense (parte final)


A VOZ DE OUTROS BATISTAS
Conforme vimos acima, os batistas brasileiros se dividiram em suas posições quanto à escravidão no Brasil. Conforme lemos em Helen B. Harrison, havia um forte grupo batista no Brasil contrário à prática escravagista. Em seu livro Os Bagby no Brasil, Harrison comenta sobre a alegria (e atitude) dos membros Primeira Igreja Batista do Brasil, em Salvador, quando da alforria dada a um escravo pela própria comunidade da Primeira Igreja Batista do Brasil. Este escravo, ao ser proibido de freqüentar a igreja por seu senhor, também membro da igreja, recebe uma surpresa assim como relatada por Harrison:
Outro fato que causou muito comentário foi o relativo a um africano, que assistia aos cultos com regularidade e interesse. Quando ele deixou de vir por alguns domingos, alguém comentou em sessão, sobre sua ausência. Outro explicou que seu dono declarava que o mataria se ele pisasse na igreja novamente. Um membro sugeriu: Vamos comprá-lo! Após longa deliberação, pois a igreja não tinha um só membro abastado, votaram unanimemente comprá-lo e dar-lhe sua liberdade. O homem, duas vezes redimido, ficou radiante e alegremente uniu-se à pequena igreja.
Deste período destacamos também a voz do Pr. Z. Taylor em cuja autobiografia refere-se à alegria de sua igreja ter libertado um escravo que havia se tornado cristão. Em sua autobiografia, Taylor não perde a oportunidade de acusar a igreja Católica Apostólica Romana ao afirmar que “os padres nunca fizeram nada para aliviar as dores dos escravos ou para redimi-los”.
Quanto à abolição da escravidão no Império do Brasil (13 de maio de 1888), Pr. Taylor registra sua alegria expressando-se da seguinte forma:
Os dois grandes inimigos do progresso do evangelho desapareceram no Brasil, a escravidão e o Império. Assim todos os inimigos do evangelho devem cair. Neste momento só há lugar para um Rei, e este é Jesus… O senhor destruiu dois gigantes poderosos: a Monarquia e a Escravidão, replanejando-as com a República e a Liberdade em que suas sementes teriam melhores condições de prosperar.
A VOZ DOS METODISTAS
O jornal O Expositor Cristão fora a voz dos metodistas durante o período da escravidão. Conquanto sua voz não tenha sido tão expressiva, observavam um aspecto interessante e necessário à imprensa da época: a questão do trabalho. O metodistas procuraram enaltecer o trabalho como algo nobre e que dignifica o homem. Em publicações dO Expositor Cristão, os metodistas entendiam que era possível alcançar num futuro próximo uma nação regenerada, formada por uma consciência nacional nova, uma nacionalidade que daria força à instituições políticas nacionais verdadeiras. Eles viam no trabalho um campo para que essa nova nacionalidade pudesse se formar, onde ex-escravos e nacionais livres trabalhariam.
Embora a Igreja Metodista jamais chegasse a defender oficialmente sua posição em relação à escravidão no Brasil, diferentemente de como fizeram na Inglaterra e nos Estados Unidos da América, por meio de sua imprensa puderam pôr um pouco mais de tempero ao discurso protestante de então.
A VOZ DA IGREJA FLUMINENSE
Na Igreja Fluminense havia uma consciência social mais profunda. Nos registros de sua história percebemos além de sua preocupação “espiritual” também uma preocupação com questões como a escravidão. 
Desta igreja temos um relato muito interessante que foi um sermão pregado pelo Pr. Dr. Robert Kalley em 3 de novembro de 1865, registrado por Reily em História Documental do Protestantismo no Brasil. Nesse sermão Kalley expõe sua compreensão bíblica sobre a escravidão, diante do fato de ter descoberto que, Bernardino de Oliveira Rameiro, membro de sua igreja, possuir escravos. Assim pregou Kalley:
É escravo? Ninguém tem o direito de fazê-lo escravo, roubando-lhe a liberdade pessoal, negociando com uma criatura humana, como se fosse uma máquina ou um objeto pessoal qualquer!
Cada um tem de dar contas ao Altíssimo Juiz do que pratica, quando obriga um seu semelhante a trabalhar, contra a vontade e sem salários e sob ameaças de castigo e sofrimentos diversos, para produzir em seu favor (do senhor, que o maltrata injustamente) bons serviços e excelentes lucros! Isto é roubo violento dos dons que o Criador concedeu ao pobre estrangeiro, que não é uma criatura diferente do senhor que o comprou! … O Senhor que procede desse modo é inimigo de Cristo: não pode ser membro da Igreja de Jesus, daquele Jesus que nos resgatou da maldição (Gl 3.13) e da lei do pecado da morte (Rm 8.2) e nos deu a liberdade, fazendo-nos filhos de Deus (Rm 8.15 e 16).
CONCLUSÃO
O que podemos concluir após essa breve explanação acerca da voz protestante perante a escravidão no Brasil Império? Concluo que os protestantes, conquanto sua voz fosse quase inaudível diante da grande massa, agiram de maneira tênue, sem muita expressão que causasse certo impacto. Sem dúvida, muito mais poderia ter sido feito uma vez que as vozes protestantes ora encontravam-se divididas em suas opiniões. Ninguém saberá qual impacto poderiam ter os protestantes no Império do Brasil caso suas vozes se unissem a favor da abolição da escravidão.
Todavia, não foi isso que se viu. Enquanto alguns expunham suas opiniões de maneira simples e até propagandista, outros levantavam o estandarte de que não cabia à igreja discutir tal assunto. Isso sem lembrarmos daqueles que justificavam a escravidão com o incidente da maldição de Cam.
Embora saibamos que o que levou alguns protestantes da época a sustentarem a escravidão como algo legítimo de ser aceito diante de Deus e da sociedade fosse o contexto político e social de onde vieram, isso não elimina a marca de omissão que foi deixada na história. Os interesses, a omissão, a ambição, foram pecados cujas marcas poderiam não ter sido deixadas, sobretudo por serem um povo que conhecia as Sagradas Escrituras.
Por outro lado, conquanto a voz dos protestantes abolicionistas diante da grande massa brasileira fosse quase inaudível, diante da igreja, certamente, ela ressoou de modo suficiente. Vozes como a de Robert Kalley, Zacarias Taylor, Eduardo Carlos Pereira, Asbhel Green Simonton (Imprensa Evangélica), James Cooley Fletcher, Daniel P. Kidder, dentre vários outros, impactaram o coração daqueles que, vindo a Lei Áurea em 13 de maio de 1888, regozijaram junto à imensa massa de brasileiros pela tão esperada abolição da escravatura no Brasil. As multidões que encheram as ruas das cidades brasileiras com gritos de júbilo pela efeméride, certamente foram recheadas por vozes protestantes cujos corações, humanos como o de todos os outros, também cantaram de alegria pela conquista da liberdade dos escravos. 
Wilson Porte Jr.
Post Tenebras Lux

Outras fontes para pesquisa:


HARRISON, Helen Bagby. Os Bagby no Brasil. Rio de Janeiro: JUERP.1987, p. 36.
TAYLOR, Z. The Rise and Progress of Baptist Mission in Brazil. EUA: Ouachita Baptist University,1969. p. 56.
ANDRADE, Ezequiel. Metodismo e Escravidão no Brasil (1835.1888). São Bernardo do Campo: ISM, 1995. p.150
REILY, Duncan A. História documental do protestantismo no Brasil. São Paulo: ASTE, 2003. p. 121-122.

ESCRAVIDÃO: Batistas e Anglicanos Separatistas

       A VOZ (e comportamento) INFLUENTE DE ALGUNS ANGLICANOS

Na cidade do Rio de Janeiro encontrava-se um grupo de anglicanos da Christ Church. Os membros dessa igreja, em sua maioria bastante abastados financeiramente, eram donos de escravos. Estes anglicanos buscaram cristianizar os filhos dos escravos de seus membros, forçosamente batizando-os e dando-lhes nomes cristãos. Consta no livro de atas da Christ Church os seguintes relatos: “Thereza, filha de Louisa – escrava negra, nativa de Manjoula, África – propriedade de James Thonton, um comerciante inglês”. Lê-se também: “Em 11 de maio de 1820 foram batizados 11 escravos do fazendeiro Robert Parker”.1

Em outra igreja Anglicana, a que se reunia em Morro Velho, também se constata escravos pertencentes a membros. Há registros de batismos de escravos domésticos de John Alexander em 1830 e do Coronel Skerit em 1833.2 As cidades de Morro Velho e Passagem no estado de Minas Gerais eram locais de exploração a minas por uma empresa inglesa. Em torno dessas minas crescia uma colônia britânica numerosa, sempre visitada pelos bispos da igreja anglicana.

A VOZ DIVISIONISTA DE ALGUNS BATISTAS
Na Igreja Batista também se viu opiniões divisionistas frente ao assunto escravidão. Em 1845 os batistas nos Estados Unidos da América se separaram por conta de posicionamentos diferentes quanto a abolição da escravidão ou não.
A Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos da América, hoje tão famosa (e numerosa), surgiu para abrigar as igrejas, pastores e teólogos cujo posicionamento frente a escravidão era divisionista (dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus). A Convenção Batista do Sul abarcava delegações de oito estados do sul, todos escravagistas.3 Foi exatamente essa Convenção que estabeleceu a Denominação Batista em solo brasileiro no século XIX.
Embora nem todos os batistas brasileiros de então eram favoráveis à posição daqueles que os evangelizara, ainda assim havia certa força favorável à escravidão dentro dos batistas brasileiros sob a influência da Convenção do Sul. 
Os primeiros colonos batistas no Brasil possuíam escravos. Muitos vieram para o Brasil por causa das facilidades e similaridades escravagistas aqui encontradas. Crabtree fora um missionário batista enviado pela Junta Missionária de Richmond (Convenção do Sul). Em 1859 ele escreve à Junta avaliando aquilo que seria, para ele, muito tranqüilizador para o envio de missionários americanos para o Brasil: “o Brasil era como os Estados Unidos, tem escravos e os missionários enviados pela Convenção Batista do Sul não podiam sentir-se constrangidas a combater a escravatura e assim envolver-se na política do país” [sic].4
Muitos batistas em Santa Bárbara D’Oeste admitiam escravos para os trabalhos domésticos e, também, na lavoura. Rute Mathews, contando a história de Ana Bagby (missionária batista pioneira no Brasil), relata a história da Senhora Ellis, batista, senhora de escravos, e que hospedou os fundadores da Primeira Igreja Batista do Brasil, os missionários W. Bagby, em sua casa nos primeiros meses do casal no Brasil:
Depois de dormir uma noite na Capital Paulista, os missionários tomaram o trem para Sta. Bárbara, onde chegaram sob forte aguaceiro. Na estação os aguardavam os enviados da Sra. Ellis, com dois cavalos e um escravo, para carregar a bagagem. A estrada até o sítio estava bem lamacenta, mas ao chegar, foram carinhosamente recebidos.5
Apesar disso, após 1888, praticamente todos os batistas brasileiros, contraditoriamente ao que praticaram durante o período da escravidão, concordaram em que o escravismo é incompatível com a fé cristã, condenando-o.
No próximo post comentarei sobre a voz influente de alguns dos batistas do sul dos EUA, donos de escravos.
Wilson Porte Jr.
Post Tenebras Lux

Notas
1 Livro nº 1 de Registro de Batismo da Christ Church, p. 19/20. Doc. Christ Church. Rio de Janeiro.
Diocesan Gazette de 1920 p. 26. Diocese Anglicana. Buenos Aires.
LATOURETTE, Kenneth Scott. História del Cristianismo. s/l: Casa Bautista de Publicaciones.1977. t.2 , p.418. 
4 CRABTREE, A.R. História dos Batistas do Brasil até 1906. Rio de Janeiro. Casa Publicadora Batista.1962, p.58.
5 MATHEWS, Rute F. Ana Bagby a Pioneira. Rio de Janeiro. Casa Publicadora Batista.1972, p.24.