Adão e Eva existiram?

Um breve curso sobre a historicidade de Adão e Eva dado para a ABU (Aliança Bíblica Universitária) da cidade de São Carlos-SP.

Adão e Eva: eles existiram de fato? Ou são apenas um mito da tradição judaico-cristã?

Pequeno comentário bíblico (Ex 12-14)

Leia Êxodo 12-14. 

 

Esta porção das Escrituras começa com uma palavra especial do Senhor aos irmãos Arão e Moisés.  O Senhor está estabelecendo uma data especial para o seu povo, data que está relacionada ao próprio nome do livro, a data do êxodo, da páscoa, da libertação. 

 

A orientação do Senhor é que cada família preparasse um cordeiro, em defeito, conforme as orientações do texto (Ex 12). O cordeiro deveria ser comido, e se um fosse muito para uma família, esta deveria convidar outras para participar da refeição.

 

O sangue destes cordeiros deveria ser passado nas ombreiras e nas vergas das portas de todos que comessem o cordeiro. Isso marcaria a casa para algo terrível que aconteceria mais tarde naquela mesma noite.

 

Todos deveriam comer preparados para uma longa caminhada após. Deveriam comer com os “lombos cingidos, sandálias nos pés e cajado na mão”. Isso por que seria a passagem do Senhor, ou seja, a Páscoa do Senhor.

 

Após tais informações, o Senhor revela o que aconteceria naquela mesma noite. “Passarei pela terra do Egito e ferirei na terra do Egito todos os primogênitos, desde os homens até aos animais”. Somente as casas marcadas pelo sangue não seriam atacadas pela praga do Senhor.

 

A partir de Ex 12.21, Moisés chama os anciãos de Israel e lhes orienta quanto ao que reveriam fazer. A partir do verso 29, a décima praga começa a ser derramada sobre o povo — a morte dos primogênitos torna aquela noite a pior de todas da história do Egito.

 

Em meio a um grande clamor, Faraó chamou Moisés e Arão e lhes ordenou que saíssem do Egito. É então, no meio da madrugada, que o povo pegou o pão antes que levedasse, e tudo o mais que possuíam, e, rapidamente, saíram do Egito.

 

O final do capítulo 12 narra a fuga. Somente de homens, a caravana em fuga girava em torno de 600.000 homens. Some a eles uma esposa, seriam 1.200.000 pessoas. Some a cada casal 4 filhos, seriam 4.800.000 pessoas. Se levarmos em consideração que as pessoas naqueles dias tinham mais de quatro filhos, este número facilmente poderia crescer. O fato é: milhões e milhões de pessoas foram libertas da escravidão no Egito. Deus ouviu a oração de Seu povo. 

 

Agora, estavam livres. Depois de 430 anos de escravidão, estavam livres para adorar o Senhor no deserto. 

 

Agora, todos deveriam se consagrar. Ex 13 começa com essa exortação. Todo primogênito deveria ser consagrado ao Senhor. Tanto de humanos como dos animais, todos deveriam ser consagrados ao Senhor. Neste capítulo, o Senhor dará as primeiras ordens relacionadas à consagração desse povo agora libertado. O povo que antes estava embriagado pelas heresias e idolatrias dos egípcios precisaria se livrar de tudo aquilo e consagrarem-se inteiramente ao Senhor!

 

Não apenas os resquícios do Egito deveriam ser tirados, mas o povo deveria ser preparado para enfrentar espiritualmente a idolatria de Canaã. A consagração ao Senhor, nesta altura da história, era essencial. Sem consagrarem-se inteiramente, sem compreenderem que deveriam conhecer, amar e se dedicar ao Senhor, sem lutarem contra seus próprios pecados e passados, ou seja, sem se consagrarem ao Senhor, sua entrada em Canaã e permanência na mesma seriam um grande fiasco. 

 

Tudo deveria ser consagrado, seres humanos e animais. Se assim fizessem, Deus guiaria seu povo para dentro de uma terra maravilhosa, onde não teriam necessidade de nada.

 

O capítulo 13 termina com uma informação muito interessante: Moisés, na fuga do Egito, levou consigo os ossos de José, exatamente como ele pediu. De um modo milagroso, durante o dia uma coluna de nuvem os cobria. Ao mesmo tempo que os guiava, dando o destino que deveriam seguir, os protegia do forte sol do deserto. E, durante a noite, uma coluna de fogo os cobria, tanto para guiá-los quanto para aquecê-los diante do forte frio do deserto. E assim, Deus se mostrava patentemente presente, cuidando e protegendo o povo escolhido, amado e liberto.

 

Ex 14 começa com a certeza de que, todos que se consagram, são perseguidos. A ilusão de que “consagração" nos livra de “provação” é um grande engano. Aquele Faraó que havia “amolecido” por um curto espaço de tempo, agora volta a se arrepender e, com um coração duro, sai em perseguição. Vai buscar de volta os escravos que perdeu, a grande “mercadoria” desperdiçada. Embora saibamos que a mão do Senhor foi o que endureceu o coração de Faraó, não nos esqueçamos de que todos temos um coração semelhante.

 

Ex 14 é maravilhoso pois nos mostra o que Deus é capaz de fazer diante do impossível. Todos enfrentamos momentos em nossa história pessoal em que não vemos um caminho aberto diante de nós. Tudo parece ruir. Tudo parece acabado, fechado, destruído. Não nos sobram forças, muito menos esperança. Mas, é exatamente nestas horas que o Senhor manifesta sua maravilhosa graça em abrir caminhos onde parece não haver nenhum. 

 

Foi assim quando o exército de Faraó se aproximou de seus ex-escravos, o povo de Deus, e os cercou. Os hebreus tinham diante de si o mar vermelho. Atrás de si, o exército de Faraó. Eles estavam encurralados. Não havia um caminho. Pelo menos, não para os nossos olhos, pois aos olhos de Deus o caminho era abrir o mar vermelho para seu povo passar. E assim ele fez.

 

Uma grande coluna de fogo impediu o exército faraônico de passar até que o último homem israelita atravessasse o mar vermelho. Quando isso aconteceu, a coluna de fogo se desfez e o exército saiu em disparada para alcançar os hebreus do outro lado do mar. Mas foi em vão, pois Deus os destruiu no meio do mar que fechou durante sua travessia.

 

Este é o nosso Deus. Quão grande é o nosso Deus!

Pequeno comentário bíblico (Gn 47-50)

Leia Gênesis 47-50.

Jacó havia completado 130 anos quando foi morar na também chamada "terra de Ramessés". Era a melhor parte de terra que existia em todo o Império Egípcio. Deus estava com eles. Deus estava com ele, Jacó. Ele prometeu que seria fiel à sua aliança e, apesar de toda infidelidade do povo de Jacó, Deus não pode negar a Si mesmo, como milênios após escreveria um apóstolo chamado Paulo à um jovem pastor chamado Timóteo. Durante todo o tempo de sua vida, José sustentou seu pai e toda a sua família na terra do Egito.

A fome era tanta em toda a terra que, acabando o dinheiro, as pessoas começaram a trocar seus bens por alimento. Acabando seus bens, as pessoas começaram a se vender a fim de que não morressem de fome. Assim, a fortuna e posse do Faraó aumentou muitíssimo durante os sete anos de seca mundial.

Gn 47 termina dizendo que, após 17 anos, com 147 anos de idade, Jacó adoeceu e, antevendo a morte, pediu a José que jurasse que não deixaria seu pai sepultado no Egita, mas que levaria seu corpo para ser sepultado em sua própria terra, junto de Isaque e Abraão. E José lhe jurou que faria isso após a morte de seu pai.

Em Gn 48 e 49, Jacó abençoa a José, aos filhos de José e aos irmãos de José. Antes de tudo, a bênção veio sobre José, Efraim e Manassés. Assim como Abraão fez com Isaque e Isaque com Jacó, agora era a hora de Jacó fazer com os seus. Para cada filho, Jacó anuncia uma bênção diferente delineando como seria o futuro de cada um. Impressionante é perceber que, assim como Jacó disse, Deus fez com que acontecesse sobre a descendência de cada um deles.

O capítulo 49 encerra com a morte de Jacó que, após reunir e abençoar seus doze filhos, lembra-lhes de onde deveria ser enterrado: Caverna de Macpela, lugar onde foram sepultados Abraão e Sara, Isaque e Rebeca, e onde Jacó sepultou Lia. Ali ele deveria ser sepultado também. E, assim, expirou.

Jacó teve seu corpo embalsamado por médicos egípcios. Gn 50 afirma que os médicos levaram 40 dias para embalsamar o corpo de Jacó segundo o costume de embalsamento dos egípcios. Durante os 40 dias, seus filhos e muitos outros no Egito choraram e lamentaram por sua morte. Após o embalsamento, Faraó autorizou José levar o corpo do pai para ser sepultado onde prometido. 

O livro de Gênesis termina com a morte de José. Mas, antes, apresenta suas belíssimas palavras aos irmãos que morriam de medo de serem mortos, agora que Jacó havia morrido. José poderia persegui-los e vingar-se de toda a maldade agora. Mas não. Com um temor a Deus que lhe era peculiar, José disse:

Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida. Não temais, pois; eu vos sustentarei a vós outros e a vossos filhos. Assim, os consolou e lhes falou ao coração.

Antes de morrer, José fez uma espécie de profecia dizendo que o Senhor Deus os levaria de volta para a terra que prometeu dar ao bisavô deles, Abraão, e para todos os seus descendentes. José, porém, nao sabia quanto tempo isso levaria, e quanto sofrimento o povo viveria antes de ser levado de volta à sua terra. Mas essa é a história do Segundo Livro de Moisés chamado Êxodo.

José morreu com 110 anos, foi embalsamado e sepultado em um caixão (raríssimo e muitíssimo caro na época) na terra do Egito. Antes da morte, também profetizou que seus ossos seriam levados à terra de seus pais dali há algum tempo.

Com toda essa história, Moisés é levado por Deus a narrar não somente os fatos históricos que envolveram o início da nação de Israel, mas também preparar esse povo teologicamente quanto à origem de tudo. Com o livro de Gênesis, os israelitas saberiam quem criou o mundo, os seres humanos, e o povo da aliança. Com isso, quebraria uma grossa casca de politeísmo e cosmogonias bizarras aprendidas pelos mesmos israelitas durante o tempo em que foram escravos no Egito, tempo que ainda estaria por chegar.

Deus não apenas quebraria toda crosta de paganismo, mas prepararia seu povo para enfrentar as bizarras cosmogonias e idolatrias que encontrariam quando começassem a voltar para Canaã.

Há um Deus que controla toda a história e tem nossas vidas em suas mãos. É loucura não arrepender-se e voltar-se para este Deus. É loucura imperdoável não olhar e amar com toda a alma esse Deus. Ele nos fez, e nos fez para Ele. Sem Ele, não somos, nunca seremos, nunca nos satisfaremos. Mas, nEle, encontraremos respostas claras de quem somos, porque somos e para quem somos.

Somente nEle seremos plena e eternamente felizes.

Pequeno comentário bíblico (Gn 43-46)

Leia Gênesis 43-46.

Em Gn 43, a fome está a assolar o mundo conhecido dentro do Império Egipcio. Não sabemos fora dele, mas, dentro de seus limites, milhares morriam de fome. Somente aqueles que chegavam à sede do império e compravam comida e provisão direto do jovem hebreu governador de todo o império seriam capazes de sobreviver. Mas isso não era fácil. Além de dinheiro para comprar o alimento, precisavam de dinheiro para a viagem. Não era fácil. Poucos conseguiam.

É neste contexto que a família de Jacó também estava para morrer de fome. Jacó desejou enviar seus filhos de volta ao Egito para comprar mais comida, mas não estava disposto a enviar Benjamim. Isso revela o quanto seu coração estava ligado ao filho, à mãe (Raquel, mulher que ele mais amou), e ao fato dele ser irmão por parte de pai e mãe de José, filho que Jacó tinha por morto já há alguns anos.

Judá, no início de Gn 43, consegue convencer o pai de deixar Benjamim ir. Com Benjamim, Jacó pede para que eles enviem também presentes de Canaã ao governador do Egito, que nem desconfiava ser seu filho.

Quando chegaram ao Egito com Benjamim, dinheiro em dobro e presentes, foram recebidos por José em sua própria casa. Isso deve ter sido assustador, pois ninguém que fosse ao Egito comprar comida era recebido na casa do governador. Ou receberiam uma recepção extraordinária (o que dificilmente imaginaram), ou receberiam alguma condenação ou repreensão. Imagino que a tensão nos dez irmãos de José tenha sido grande.

No entanto, a ordem era que recebessem uma boa hospedagem. Foram muito bem acolhidos. A conversa que tiveram com o mordomo da casa de José demostra seu medo de serem presos pelo dinheiro que voltou nos sacos para Canaã. Aquele era o dinheiro referente ao pagamento da comida. Deveria ter ficado no Egito.

Quando ouviram que o mordomo recebeu todo o dinheiro, certamente não entenderam nada, mas pensaram em Deus, no Deus de seu pai que lhe contou dos impossíveis realizados em sua vida e na vida de Isaque e Abraão, avô e bisavô deles. Sentiram que o mesmo Deus estava ali com eles.

Receberam água, seus animais foram alimentados, e o "governador" até mesmo se interessou pelo bem-estar do pai deles. Tudo muito estranho para eles. Quando lhe mostraram Benjamim, seu irmão legítimo, por parte de pai e de mãe, José não se conteve e saiu correndo para chorar em outro lugar.

Quando voltou, ordenou que servisse a comida. Outra grande curiosidade que os deixou supresos foi o fato dos lugares à mesa já estarem definidos. E, curiosamente, sem que ninguém tivesse revelado a idade, a ordem na mesa estava por faixa etária. 

Em Gn 44, José ordena o mesmo que da primeira vez, que os sacos sejam cheios e que o dinheiro referente à comida seja devolvido na boca dos sacos. Contudo, José ordena que sua melhor e mais especial taça de prata seja colocada no saco de Benjamim. Após despedir-se de seus irmãos, José ordena seu mordomo que os alcance lhes acuse de roubo fazendo-os voltar.

Todos ficaram atônitos quando viram a taça no saco de Benjamim. Embora o texto não diga, todos devem ter passado por um misto de tristeza, ódio, raiva, medo e dúvidas.

Retornando todos a José, que ainda estava em sua casa os aguardando voltar com o mordomo, são repreendidos. Contudo, abrem a boca e começar a contar toda a história de suas vidas com a esperança de que o "governador" os liberasse e ficasse com um deles no lugar de Benjamim. Em meio a todo o pedido, os irmãos chegaram a citar que o pai morreria se Benjamim não voltasse, visto que o irmão de Benjamim, o outro filho que Jacó teve com Raquel, havia morrido anos atrás. Imagine o quão rasgada o corações do bondoso e obediente José não ficou nesta hora.

Em Gn 45, José dá um grande grito e ordena que todos saíssem de sua frente. Que momento terrível! Saindo todos, menos os seus irmãos, o governador José chorou em alta voz, de modo que os oficiais que estavam do lado de fora o ouviam. 

Quando conseguiu falar, José se revelou a seus irmãos dizendo: EU SOU JOSÉ; VIVE AINDA MEU PAI? Imagine o rosto de seus irmãos! Gn 45.3 nos diz que seus irmãos não conseguiam abrir a boca, de tanto medo que passaram a sentir de José.

José, então, pediu que eles se aproximassem (sem medo) para lhe ouvir. Particularmente, considero tais palavras algo belíssimo, quase sobrenatural:

Eu sou José, vosso irmão, a quem vendestes para o Egito. 5Agora, pois, não vos entristeçais, nem vos irriteis contra vós mesmos por me haverdes vendido para aqui; porque, para conservação da vida, Deus me enviou adiante de vós. 6Porque já houve dois anos de fome na terra, e ainda restam cinco anos em que não haverá lavoura nem colheita. 7Deus me enviou adiante de vós, para conservar vossa sucessão na terra e para vos preservar a vida por um grande livramento. 8Assim, não fostes vós que me enviastes para cá, e sim Deus, que me pôs por pai de Faraó, e senhor de toda a sua casa, e como governador em toda a terra do Egito. 9Apressai-vos, subi a meu paib e dizei-lhe: Assim manda dizer teu filho José: Deus me pôs por senhor em toda terra do Egito; desce a mim, não te demores. 10Habitarás na terra de Gósen e estarás perto de mim, tu, teus filhos, os filhos de teus filhos, os teus rebanhos, o teu gado e tudo quanto tens. 11Aí te sustentarei, porque ainda haverá cinco anos de fome; para que não te empobreças, tu e tua casa e tudo o que tens. 12Eis que vedes por vós mesmos, e meu irmão Benjamim vê também, que sou eu mesmo quem vos fala. 13Anunciai a meu pai toda a minha glória no Egito e tudo o que tendes visto; apressai-vos e fazei descer meu pai para aqui.

Após tais palavras, José se lança sobre o pescoço de Benjamim e, abraçando-o, chora muito sobre ele. Fez isso com todos os irmãos e todos fizeram com ele. Todos choraram muito e, depois, ficaram por muito tempo conversando. Como seria maravilhoso se nos fosse revelado o conteúdo dessa conversa!

Gn 45 termina dizendo que o Faraó, ao ficar sabendo de tudo isso, ordena que todos os familiares de José fossem trazidos ao Egito com carros e servos à sua disposição e que fosse hospedados no melhor da terra e que fossem tratados melhor do que qualquer cidadão em todo o Império Egípcio.

Curiosamente, Jacó custou em acreditar que seu filho estava vivo. Mesmo diante da palavra dos filhos, Jacó acreditou com muito custo, mesmo tendo visto os carros do Egito que vieram para lhe buscar.

Gn 46 começa com o aparecimento de Deus para Jacó quando eles desciam para o Egito. Aparentemente, Jacó ainda estava com medo de tudo aquilo não ser o que realmente parecia. Com as palavras do Senhor para acalmar a Jacó, e reconfirmando Sua fidelidade na aliança com seus descendentes, Jacó seguiu viagem sem medo, confiando na Palavra de Deus.

Após mencionar toda a grande descendencia de Jacó que descia com ele para o Egito, Gn 46 termina com o envio de Judá a José para que este dissesse como a casa de Jacó poderia chegar à Gósen. De uma maneira não revelada, alguém é enviado por José para encaminhar Jacó e todos os seus (e tudo o que todos possuíam) até a terra de Gósen, onde viveriam.

Nesse meio tempo, José se arrumou para ir ao encontro de seu pai. Quando chegou a Gósen, se lançou sobre o pescoço de seu pai e, abraçados, choraram por muito tempo. Após esse momento de grande emoção e alegria, Gn 46 termina com as recomendações de José para seu pai e seus irmãos de como deveriam falar e se portar diante do Faraó.

Sem dúvida alguma, nesta história conhecemos um Deus que é Senhor do passado, do presente e do futuro. Ele não é, como afirmam os teístas abertos, um Deus que desconhece o futuro e que está e processo de transformação como os seres humanos. Deus está acima do tempo e da história. Em sua eternidade, antevê nosso futuro, escreve-o e é o único capaz de nos guiar, guardar e surpreender.

Como disse o profeta Isaías, anos à frente:

Porque desde a antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu Deus além de ti, que trabalha para aquele que nele espera.

Pequeno comentário bíblico (Gn 40-42)

Leia Gênesis 40-42.

O capítulo 40 começa com a prisão de outros dois homens muito próximos de Faraó. Tanto o principal padeiro (lembre-se de que pães eram elementos principais em todas as refeições na antiguidade) quanto o copeiro (função que protegia o rei de ser morto por envenenamento, posto que o copeiro provava a comida e bebida reais antes do mesmo) foram postos na prisão por causa de uma espécie de rebelião e ofensa que lhe fizeram.

Não nos é dito o teor dessa ofensa, mas isso não importa. O que o texto deseja enfatizar é que, quando na prisão, ambos têm contato com José, que também possuia um posto de confiança elevado dentro da prisão. 

Numa manhã quando José veio até eles e os viu perturbados, perguntou-lhes a razão e ficou sabendo que era por causa dos sonhos que ambos tiveram na noite passada. Os sonhos eram muito semelhantes, mas com finais inquietantes. Estavam perturbados por não conseguirem entender o porque de terem sonhado coisas tão semelhantes com finais diferentes.

José testemunha do poder do Senhor Deus em revelar sonhos e ambos passam a contar sobre seus sonhos. O sonho do copeiro lhe indicava, segundo a interpretação de José, que, em três dias, ele seria recolocado em sua posição de copeiro-real. O sonho do padeiro lhe indicava que, em três dias, sua cabeça seria cortada, seu corpo crucificado e sua carne serviria de alimento às aves do céu. Em três dias, tudo isso aconteceu. Era aniversário do Faraó quando o mesmo realizou exatamente o que previu José.

Pela providência divina, após dois anos, o próprio Faraó teve um sonho incomum que também lhe perturbou muito. Sonhou com sete vacas gordas que saíam do Rio Nilo, diante do qual ele se encontrava em seu sonho. Após saírem da água, passaram a pastar. Estas eram muitíssimo saudáveis. Após um tempo, outras sete vacas magérrimas saíram da água. Estas se colocaram ao lado das gordas e passaram a devorá-las! 

No meio do sonho, Faraó acordou e tornou a dormir. De novo sonhou. Agora, via um pé de milho. Dele, saia sete espigas cheias e belas. Depois de um tempo, brotaram outras sete espigas, agora mirradas e secas. E aconteceu as últimas sete passaram a devorar a primeiras sete, belas e cheias.

Quando acordou, procurou os magos e sábios para lhe explicarem. Mas ninguém conseguiu uma explicação que lhe satisfizesse. Era comum na antiguidade reis terem em sua lista de servos mais próximos magos e sábios. Os últimos funcionavam como uma espécie de conselheiros. Os primeiros, como uma espécie de médicos, de bruxos e de sacerdotes. Nenhum deles interpretou o sonho.

É aqui que vemos, mais uma vez, a mão e a providência divina. O copeiro, restaurado da cadeia às suas funções dois anos antes, ao acompanhar a aflição do rei, diz a ele de um jovem hebreu, na cadeia, que interpreta sonhos e é famoso por isso.

Quando o rei o chamou à sua presença, contou-lhe o sonho e imediatamente ouviu sua explicação. Não sem antes José glorificar a Deus dizendo que o poder para interpretar sonhos não vinha dele mesmo, mas de seu Deus.

José explicou: os dois sonhos, na verdade, são apenas um. Sete anos virão, prósperos e fartos. No entanto, após estes primeiros sete anos, outros sete virão, de grande seca, fome e morte. Deus estaria revelando tudo isso ao Faraó a fim de que ele se previnisse e soubesse guardar alimento suficiente para administrar assim que os anos de fome chegassem.

Suas palavras alegraram tanto ao Faraó que este o restaurou à sua posição. José, a partir de então, seria o governador de tudo no império do Egito. Suas palavras foram:

Visto que Deus te fez saber tudo isto, ninguém há tão ajuizado e sábio como tu. 40Administrarás a minha casaa, e à tua palavra obedecerá todo o meu povo; somente no trono eu serei maior do que tu. 41Disse mais Faraó a José: Vês que te faço autoridade sobre toda a terra do Egito. 42Então, tirou Faraó o seu anel de sinete da mão e o pôs na mão de José, fê-lo vestir roupas de linho fino e lhe pôs ao pescoço um colar de ouro43E fê-lo subir ao seu segundo carro, e clamavam diante dele: Inclinai-vos! Desse modo, o constituiu sobre toda a terra do Egito. 44Disse ainda Faraó a José: Eu sou Faraó, contudo sem a tua ordem ninguém levantará mão ou pé em toda a terra do Egito.

Gn 41 termina dizendo que, nos primeiros sete anos de grande paz e properidade, José casou e teve dois filhos: Manassés e Efraim. Quando os sete anos de seca e fome começaram, José abriu os celeiros que construiu e passou a vender a todos que lhe procurassem por alimentos e provisão. Nisso, a fama de José cresceu muitíssimo bem como o tesouro de Faraó e do Egito, algo que viria a chamar a atenção de outros impérios mundiais que, futuramente (como veremos mais adiante), viriam e tomariam o Império Egípcio.

Gn 42 narra a emocionante (para José) história do reencontro dele com seus irmãos. Como a fome também havia chegado à terra de Canaã onde seu pai Jacó e seus irmãos viviam, Jacó os fez descer para comprar alimento para sua terra a fim de que não morressem de fome. Dos onze irmãos, dez desceram ao Egito para comprar comida. Somente Benjamim permaneceu com seu pai.

Quando chegaram ao Egito, procuraram pelo famoso governador que vendia a comida. Jamais imaginariam que o governador fosse seu jovem irmão, o qual haviam vendido anos atrás em um momento de grande ódio contra ele. Nenhum deles reconheceu José, provavelmente por causa das roupas e pinturas (uma espécie de tatuagem) típicas dos governadores do Império Egípcio. Não o reconheceram, mas José os reconheceu.

Curiosamente, a atitude de José para com eles foi dura, provavelmente por que não gostaria de lhes entregar nada sem que pudesse reencontrar a todos, inclusive seu pai. Por isso, os tratou como se fosse espiãos, embora soubesse no coração que não eram. Deixou-os na cadeia por três dias. Ao final dos quais, receberam de José a ordem de voltarem à casa e trazerem o irmão mais novo que ficará em guarda de seu pai. Essa seria a "prova" de que não eram homens mentirosos, espiões e ladrões.

Eles poderiam voltar para casa com comida, mas um deveria ficar. Simeão foi o escolhido. Foi algemado e posto na prisão até que todos retornassem. José ordenou que os sacos fossem cheios de comida e dinheiro fosse posto na boca dos sacos. Quando perceberam tudo isso durante a viagem temeram. Todavia, continuaram e chegaram em casa. Contaram tudo a seu pai, o que lhe trouxe grande medo. Relutou muito deixar Benjamim ir com eles. Suas palavras foram:

Meu filho não descerá convosco; seu irmão é morto, e ele ficou só; se lhe sucede algum desastre no caminho por onde fordes, fareis descer minhas cãs com tristeza à sepultura.

O desfecho dessa história maravilhosa, veremos nos posts posteriores.

Pequeno comentário bíblico (Gn 37-39)

Leia Gênesis 37-39.

Desde a queda, nós, seres humanos, não suportamos a ideia de servir. Não suportamos a ideia de sermos menores ou submissos a outros. Desde a Queda, desejamos dominar. Homens dominarem mulheres e mulheres dominarem aos homens. Homens dominarem outros homens, subjulgá-los, vendê-los, tratá-los como se fossem animais. Desde a queda, amamos a morte, o caos, a destruição.

Na história que descortina o trecho final do livro de Gênesis, conhecemos o poder o ódio no coração dos filhos de Jacó. ódio que nasceu ao José compartilhar os sonhos que teve, nos quais sempre sobressaia aos seus irmãos e onde, aparentemente, até mesmo seus pais se curvariam diante dele. Sem dúvida, até mesmo para José estes sonhos eram estranhos. Ele nunca imaginou exatamente no que esses sonhos iriam dar. No final, compreendeu. Mas, agora, eram apenas imagens confusas de realidade que só serviram para enfurecer seus irmãos.

Após compartilhar os sonhos, José vai ao campo atrás de seus irmãos, a pedido do pai. Chegando lá, é orientado por um senhor que seus irmãos foram para Dotã, não muito longe dali. Quando chegou em Dotã, encontrou seus irmãos que, vendo-o ao longe, começaram a maldizer sua pessoa. José, provavelmente, os ouviu falar furiosamente sobre algo, mas é certo que não entendeu. Se tivesse ouvido, sem dúvida fugiria dali. 

Sem que isso acontecesse, quando chegou perto de seus irmãos, acabou sendo despido de sua veste principal e jogado em uma cisterna vazia que havia por ali. Era comum pessoas cavarem buracos, pequenos e grandes, para guardar água. Essas eram as cisternas. E esta onde jogaram José estava vazia.

A partir de então, ideias sobre como exterminar José eram a pauta de sua conversa. E tudo muito rápido, pois José estava se aproximando. Vendo-o ao longe, rapidamente decidiram vendê-lo a um grupo de mercadores que passava por ali naquele exato momento (providência, e não coincidência!). Não iriam matá-lo, primeira proposta feita por alguns do grupo. Decidiram por vendê-lo.

Quando José, amarrado e jogado junto dos demais escravos e marcadorias daqueles ismaelitas que o compraram já estava longe, sumindo na poeira da estrada, seus irmãos decidiram matar um animal e, com o seu sangue, molhar a roupa de José que haviam tirado dele antes de o jogarem na cisterna. 

Ao retornarem a seu pai, agiram como se fossem vários Jacós no passado – ou seja, agiram traiçoeiramente. Assim como seu pai enganou a muitos no passado, agora era enganado pela quase totalidade de seus filhos, que o levaram a crer que seu amado filho José havia sido morto e devorado por uma fera do campo. A tristeza de Jacó foi enorme, e seu luto durou muitas semanas.

Gn 38 começa contando parte da história de Judá que acabou por se apartar de seus irmãos indo morar na casa de Hira, um adulamita. Ali teve filhos com Sua. O primeiro, Er, foi tão perverso aos olhos do Senhor que o próprio Deus o matou (Gn 38.7). E não apenas Er, mas Onã, seu irmão, por não honrar a descendência de seu irmão dando um filho à sua cunhada. Pelas leis e cultura de então, era isso que deveria fazer.

Curiosamente, Gn 38 termina com uma série de tragédias na família de Judá. Após pedir à sua nora que fosse morar com o pai dela até que seu filho mais novo crescesse e pudesse lhe dar um descendente, morre outra filha de Judá, filha que teve com sua mulher chamada Sua. Após ser consolado, Judá subiu para a cidade de Timna junto de um amigo, Hira.

Era lá que Tamar, sua nora, estava agora morando, em casa de seu pai. Quando soube que o sogro estava na cidade, disfarçou-se como uma prostituta e ficou na entrada da cidade. Quando Judá a viu, a teve por uma prostituta e pediu a ela "seus serviços sexuais". Obviamente, não percebeu quem ela era, pois o rosto estava coberto. Como pagamento, Judá deixou com ela seu selo, seu cajado e seu cordão, até que pudesse enviar um pagamento melhor. Ela, mais que depressa, aceitou.

Dessa relação promíscua e adúltera, Tamar engravidou. Quando Judá enviou o pagamento pela prostituição, ninguém mais encontrou aquela "mulher". Após certificar-se de que ninguém sabia onde ela estava, deixou de se preocupar com ela e com seus instrumentos que ficaram em posse dela.

Após três meses, informaram Judá que Tamar estava grávida. Como Judá esperava que Tamar engravidasse de Selá, seu filho mais novo, ficou enfurecido, pois tal gravidez era contrária às leis e cultura da época, chegando até mesmo a desonrar a "casa de Judá". Daí a sentença de Judá: Tamar deve ser queimada viva!

Quando a buscaram para a morte, apresentou o selo, o cordão e o cajado do pai da criança que esperava. Quando Judá os reconheceu, concordou que a atitude de Tamar foi justa, buscando ela apenas um herdeiro para seu falecido esposo, filho do próprio Judá. Gn 38 termina dizendo que ela não foi morta e que, por fim, nasceram gêmeos daquela relação, Perez e Zera.

Gn 39 volta a atenção para José que, agora, estava no Egito. Na casa de Potifar, comandante da guarda oficial de Faraó, foi colocado como mordomo principal. Ele possuía autoridade sobre toda a casa, incluíndo as pessoas, de Potifar. Ninguém estava acima dele. Nem mesmo a esposa de Potifar. Desta, Potifar exigiu a José que não a tocasse nem mandasse.

Impressionante o contraste entre as tragédias no desobediente Judá e os milagres no temente e obediente José. Enquanto Judá colheu apenas desgraças, em sua obediência, José (e todos que conviviam com ele) viu a mão poderosa do Senhor o abençoando em tudo o que fazia. Todos gostavam dele. Por sua simpatia e boa aparência, a esposa de Potifar começou a cobiçá-lo.

Por dias, tentou levá-lo ao seu quarto para adulterar com ele. Mas José sempre negou. Quando ela o agarrou, José imediatamente fugiu, deixando nas mãos dela parte de sua roupa. Por causa dessa parte de roupa que ficou com ela, José acabou sempre acusado de tentativa de estupro por ela. Por isso, foi enviado à cadeia pelo próprio Potifar. Isso também é curioso pois, se fosse qualquer outra pessoa, José seria imediatamente condenado à morte. Mas, tal era a simpatia desse homem junto aos outros e tal era a mão de Deus sobre ele que, até mesmo na prisão, foi colocado pelo carcereiro principal no mais alto posto entre os presos.

Gn 39 termina falando do quanto José caiu na graça do carcereiro e de como Deus o abençoou na cadeia, permitindo que ele fosse para lá apenas por que possuia planos mais elevados para a vida de José. Muitos outras bênçãos estão por vir. Mas isso, José nem podia imaginar.

Pequeno comentário bíblico (Gn 33-36)

Leia Gênesis 33-36.

O encontro foi emocionante. Havia anos que os irmãos não se viam. Quando Jacó partiu, Esaú nutria ódio no coração contra seu irmão. Se o viesse naqueles primeiros anos, seguramente o mataria por toda traição e maldade praticadas contra ele. Mas agora os tempos são outros. Ademais, a humildade de Jacó ao apresentar-se ao seu irmão (se sinceramente, ou se astutamente, não sabemos), mais todos os presentes que lhe deu, acalmaram seu coração de modo que, na hora do reencontro, se abraçaram, se beijaram e choraram muito.

Limpando as lágrimas dos olhos, Esaú perguntou quem era aquela multidão que seguia seu irmão. E a resposta foi: "São os filhos que Deus, na sua bondade, deu a este seu criado" (Gn 33.5). Após mulheres e filhos se apresentarem e honrarem Esaú, Jacó fez questão o irmão aceitasse todos os presentes que, até então, relutavam em receber.

Após o reencontro marcante, foram cada para o seu lugar. No início, Esaú até quis acompanhar Jacó ou enviar uns dos seus para acompanhá-lo, mas Jacó não aceitou. Esaú vai para sua terra, Edom, e Jacó para Sucote. Em Sucote, Jacó construiu uma casa para si e seus filhos, futuros pais das doze tribos de Israel, e casas para seus escravos e escravas, animais, e mulheres.

Gn 34 começa com a narrativa de uma tragédia. Assim como é hoje, no passado o estupro era algo horrível e repulsivo.  Dina, uma das filhas de Jacó, foi estuprada por Siquém, filho de Hamor, líder de uma região que Jacó e Lia estavam visitando.

Hamor estuprou Dina e se apaixonou por ela. Seu pai chegou a pedir clemência de Jacó e paciência. Jacó, astuto que era, até foi paciente no início, mas quando seus filhos chegaram e souberam, planejaram o assassinato de Siquém. Após exigirem que Siquém e todos os habitantes da região fossem circuncidados, planejaram matá-los poucos dias depois, quando a dor da circuncisão fosse mais forte.

E assim fizeram. Mataram a todos os homens da região de Siquém e levaram as mulheres e crianças em retribuição ao crime cometido contra DIna. Talvez você considere a medida dos filhos de Jacó pesada demais para o crime. Por essas e outras que leis como "olho por olho e dente por dente" foram criadas – para que nenhum crime tenha pena maior (ou menor) do que o que foi praticado.

De lá, Jacó e os seus foram para Betel. Isso, porque Deus disse a ele que deveriam ir e morar em Betel. E não foi somente o lugar que Deus disse que deveria ser novo. O coração deles também deveria ser renovado. Deus orienta Jacó que faz com que todos joguem fora seus ídolos. Deus falsos enchiam as casas e corações dos filhos e filhas de Jacó. E o Senhor desejava ser o único no coração deles. Após esse momento, Deus prepara o coração de Jacó para um momento muito difícil: a morte de Raquel.

Antes da morte dela, Deus reafirma Sua aliança e fidelidade. Raquel estava grávida quando faleceu. Morreu em meio à dores de parto. À criança, quis que chamassem de Benoni. Porém, Jacó mudou o nome dele para Benjamin. Gn 35 termina falando dos doze filhos de Jacó e de sua mudança para Manre. No final da vida de seu pai, Isaque, Jacó decidiu ir morar com ele. Ficou lá até a sua morte, que é narrada no final de Gn 35. Morreu com 180 anos e foi sepultado por Esaú e Jacó. Ou seja, sua sensação de que iria morrer há décadas atrás (quando pediu para Esaú lhe preparar uma caça e foi enganado por Jacó) estava errada.

Gn 36 começa com o relato de quais foram os descendentes de Esaú e termina narrando quantos deles foram reis em Edom.

Pequeno comentário bíblico (Gn 30-32)

Leia Gênesis 30-32.

 
Gn 30 começa com a repetição das histórias que fizeram parte da vida do pai e do avô de Jacó. A esposa amada por ele, Raquel, também era estéril. E ela, como Sara, ofereceu sua serva para engravidar de seu marido e, com isso, fazer do filho dela o seu próprio.
 
Alguém que leia a Bíblia inadvertidamente poderia concluir que Deus autoriza um homem ter várias mulheres, ou, vários filhos com várias mulheres. É isso que a história da Abraão, Isaque e Jacó nos apresenta: três homens, pai, filho e neto, tendo filhos com sua própria esposa além de filhos com várias outras mulheres.
 
Seu exemplo deve ser seguido por nós? Estaria Deus aqui nos apresentando um modelo perfeito de relações? Estarei Deus, ao menos, permitindo a poligamia? É óbvio que não. Qualquer leitor honesto (e com dois neurônios funcionando) sabe que a apresentação destes fatos tem mais a ver com a transparência da narrativa do que com a beleza da história.
 
Ou seja, nestas histórias, conhecemos os patriarcas, homens escolhidos por Deus, homens que andaram perto de Deus, que mantiveram comunhão com Deus, e que falharam de um modo absurdo. Mas, onde estão as falhas deles? Eis algumas: desconfiança de que Deus cumpriria Sua promessa (por isso, “dar um jeito” para que a promessa se cumprisse), afobação ou falta de paciência (querer as coisas no tempo deles e não no tempo do Senhor, adultério (Deus disse desde o início que o um homem com uma mulher seriam uma só carne, e que a união de um homem com uma mulher espelharia Sua imagem e semelhança. A imagem e semelhança de Deus não se espelha em um homem com várias mulheres tenho filhos com várias delas), etc.
 
Então, Deus está nos contando que aqueles homens não foram perfeitos, e que Sua graça e fidelidade vão além de nossas rebeldias. Ele é infinitamente bom e gracioso. Infinitamente paciente. Como disse Paulo a Timóteo, ainda que sejamos infiéis, Ele permanece fiel pois não pode negar a Si mesmo, ou seja, o que Ele é (2Tm 2.13).
 
Cada um deles (Abraão, Isaque e Jacó) colheram as consequências de sua desobediência. Sofreram ao ver filhos matando ou desejando a morte um do outro, vendo a rejeição entre filhos e mulheres, dentre outras coisas. Suas vidas não foram um “mar de rosas”. Pelo contrário! Eles sofreram muito com as consequências de não terem paciência para esperar a promessa de Deus no tempo de Deus com a pessoa correta!
 
Após o nascimento de José, filho de Jacó com Raquel, Gn 30 termina falando de um trato entre Jacó e seu sogro. Gn 31 começa com o Senhor dizendo a Jacó que deveria voltar à sua terra. Ao chamar suas esposas e filhos, informou que o motivo da viagem seria a forma não mais tão amistosa de Labão e seus filhos para com ele. Enquanto pegava tudo o que era seu e se preparava para fugir para a região montanhosa de Gileade, Raquel roubou um dos deuses da casa de seu pai e escondeu no meio de suas coisas.
 
Quando Labão, três dias depois, descobriu a fuga, reúne um grupo e vai atrás de Jacó. Depois de sete dias, alcançou Jacó nas montanhas de Gileade. É impressionante o cuidado de Deus sobre Jacó. Antes que Labão fosse até ele, Deus vai a Labão e, em um sonho, lhe ordena não fazer nenhum mal a Jacó e os seus. De fato, o cuidado de Deus é maior do que merecemos! Gn 31 termina com um novo acordo entre Jacó e Labão, após grande discussão entre os dois.
 
Em Gn 32, a presença maravilhosa de Deus continua a se revelar a Jacó. Em um lugar que ele chamou de Maanaim, pode avistar alguns anjos do Senhor que foram ao seu encontro. Após esse momento, Jacó enviou mensageiros a seu irmão Esaú, com quem se encontraria em breve. Jacó temia que seu irmão viesse até ele com centenas de homens para matá-lo finalmente. Quando os mensageiros voltaram, trouxeram a notícia que de que Esaú estava vindo ao seu encontro, com quatrocentos homens. Imagine o medo no coração de Jacó. Diante disso, resolveu dividir seu grupo em duas partes a fim de que, se uma fosse dizimada, a outra sobrevivesse. 
 
Após realizar essa divisão, retira-se para orar. Sua oração foi de lembrança da aliança entre Deus e sua família. Após orar, dormiu. Quando acordou, separou boa parte do que possuía para dar de presente ao seu irmão. Decidiu mandar vários grupos de mensageiros para Esaú. Com cada grupo, muitos presentes para acalmar a ira de seu irmão. 
 
Quando anoiteceu, Jacó atravessou a região do rio Jaboque. Ao atravessar o próprio rio, esperou que tudo o que estava com ele atravessasse também, ficando ele por último. Ao ficar sozinho, apareceu o famoso homem com quem Jacó lutou até o amanhecer. Este ser pessoal contra o qual Jacó lutou era, sem dúvida, um ser divino, não humano, sob uma forma física, humana, corpórea. 
 
As razões para essa luta são, no todo, incompreensíveis. O por quê do “Anjo” querer tanto ir embora, o por quê do próprio YaHWeH (como o próprio texto parece afirmar) lutar com ele, dentre outras, são difíceis de precisar (embora existam inúmeras possíveis explicações). O certo é que, quando Jacó percebeu que o “homem” contra o qual lutava não era apenas um homem, passou a pedir-lhe que o abençoasse e insistiu nisso.
 
Gn 32 termina com mudanças de nome. Jacó passa a ser Israel, por que “lutou com Deus”, e o vale do Jaboque passa a ser Peniel, por que ali Israel viu “a face de Deus". Mudanças de nomes sempre marcavam momentos, lugares, pessoas e histórias. Mais uma vez, vemos o Senhor lhe confirmando que nunca o deixaria. Em um momento de medo, Jacó experimenta a certeza de que Aquele que lhe prometeu estaria o tempo todo ao lado dele.

Pequeno comentário bíblico (Gn 27-29)

Leia Gênesis 27 a 29.

Gn 27 começa com uma história bastante conhecida, dentro e fora da cultura judaico-cristã. A traição de Jacó é parte de filmes, documentários e até livros literários. O fato é que, assim como agiu desde o ventre de sua mão, Jacó mais uma vez age usurpadoramente. Ele e sua mãe, que o tinha como filho predileto. Perceba como tudo isso está completamente fora da vontade de Deus. O que esse texto exalta aos nossos olhos é a capacidade do Senhor transformar nossas piores misérias em bênçãos de Sua divina misericórdia.

Após Isaque, idoso, anunciar que daria sua bênção principal a Esaú, sua mãe, ao ouvir isso, trama com Isaque a traição. O restante da história não precisa de explicação. Jacó se faz de Esaú, engana seu pai, recebe a bênção (que Deus já havia previsto e pré-anunciado desde o ventre – e Paulo diz que Deus já havia decidido ter misericórdia de Jacó ao invés de Esaú, ao escrever Rm 9-11), e Esaú, quando descobre a trama, decide matar seu irmão.

Por causa disso Jacó foge para a mesopotâmia. Antes de fugir, ouve de sua mãe e de seu pai conselhos quanto a esposa que deveria encontrar nas terras para onde fugiria. Não deveria, como fez Esaú, casar-se com hetéias, mas deveria encontrar uma esposa dentre seus parentes a fim de não trouxesse mais tristeza ao coração dos pais. Deveria encontrar-se com Betuel, avô de Jacó, e casar-se com uma das filhas de Labão, irmão de sua mãe. Lembre-se que, naquela época, a Lei de Moisés ainda não havia sido dada sendo esta prática comum em todas as regiões.

Jacó foi e fez exatamente como seus pais mandaram. Em ira contra o que seus pais fizeram, Esaú foi até à casa dos descendentes de Ismael e casou-se com uma de suas filhas, Maalate.

No caminho para Mesopotâmia, Jacó teve um sonho. Após dormir sobre uma pedra, sonhou com uma escada que levava ao céu de onde descia e subia anjos. Nesta visão, o Senhor, que estava ao lado dele, lhe disse que manteria sua aliança, assim como fez com seu pai Isaque e seu avô Abraão. Deus prometeu ser fiel até o fim à aliança. Caberia a Jacó ser igualmente fiel. Ao acordar do sonho, Jacó construiu uma espécie de lugar de culto para adorar e, ao mesmo tempo, marcar aquele lugar especial para ele. Após isso, comprometeu-se em também ser fiel à aliança, visto que Deus havia dito à ele de Sua parte na aliança. Jacó também seria fiel em sua própria parte na aliança.

Gn 29 narra o emocionante (para eles) encontro de Jacó, Raquel e Labão. Ao se reconhecerem, Labão o recebeu calorosamente em sua casa. Por amor a Raquel, Isawue trabalhou por sete anos ao seu sogro Labão. Ao final dos quais, é enganado na noite de núpcias quando descobre que seu sogro havia lhe dado Lia (ou, Léia, a filha mais velha) ao invés de Raquel. Após reclamar a Labão a trapaça (como se ele mesmo nunca houvesse trapaceado), seu sogro promete lhe dar Raquel após a festa de casamento se Jacó concordasse trabalhar mais sete ano para ele. Como a amava muito, concordou. Gn 29 termina afirmando que o Senhor concedeu 4 filhos à Lia, embora Jacó a desprezasse e amasse mais à Raquel. 

Resumindo estes três capítulos, aprendemos que, apesar de nossas misérias e infidelidade, o Senhor ainda assim é misericordioso e compassivo, e capaz de transformar nossas desgraças em algo que redunde em Sua glória. 

 

Pequeno comentário bíblico (Gn 23-26)

Leia Gênesis 23-26. 

Após sofrer por duas vezes em momentos que exigiram de Abraão coragem e obediência, Gn 23 começa com a trágica notícia de uma perda irreparável. Sua esposa Sara faleceu. 
 
Diante disso, Abraão, como nós, nada podia fazer. Enquanto chorava e lamentava (eis aqui uma espécie de oração que precisamos redescobrir em nossos dias!), Abraão saiu à procura de um campo onde pudesse sepultar Sara. 
 
E foi próximo à um lugar onde moraram e que, provavelmente, lhes foi muito especial que Abraão quis comprar um sepulcro. Logo após Abraão se separar de Ló (que escolheu a melhor parte da terra, ou seja, próximo ao Jordão e à cidade de Sodoma), Abraão foi para um lugar chamado de Manre, próximo a Hebron. E foi ao lado desse lugar que Abraão comprou um grande pedaço de terra onde existia uma caverna na qual Sara seria sepultada. O nome desse lugar era Macpela. 
 
Naqueles dias, era comum as pessoas sepultarem seus amigos e parentes em cavernas, chamadas na língua hebraica de "sheol", ou ainda, "lugar dos mortos". Abraão, rico, muito abençoado por Deus, pagou o preço que lhe foi oferecido, à vista. E foi assim que acabaram seus dias junto de Sara, sua esposa tão amada. 
 
A tristeza também encheu o coração do filho de Sara, Isaque. Gn 24 nos conta que Abraão, quando já muito idoso, pediu ao seu servo mais antigo e fiel que fosse até à casa de seus parentes a fim de encontrar uma esposa para Isaque. Afinal, para que a promessa de Deus se cumprisse era necessário que Isaque tivesse filhos. A preocupação de Abraão em que a moça fosse da família era para que Isaque não fosse seduzido por ideais, comportamentos, religiões e pecados que o distanciassem da fidelidade em que caminhou seus pais. Que a fidelidade de Abraão continuasse em Isaque. E assim foi. 
 
De um modo sobrenatural, o servo de Abraão encontrou Rebeca, filha de um primo de Isaque. Depois que seu pai e seu irmão (Betuel e Labão) consentiram deixá-la ir, Rebeca partiu. Quando já estavam quase chegando ao destino, Rebeca e Isaque se encontraram, se amaram, e deram início às gerações que formariam os israelitas e os edomitas. 
 
E não foi apenas Isaque que deu início à uma família, Gn 25 diz que Abraão, mesmo já super idoso, casou-se novamente, com Quetura, e ainda teve fôlego para ter com ela mais seis filhos, além dos que teve com concubinas. Nisso (concubinas) certamente, Abraão não honrou a Deus nem é um exemplo para nós. 
 
Pouco depois de seu último filho nascer, Abraão morreu, com 175 anos de idade. Isaque e Ismael, seus filhos mais velhos, o sepultaram na caverna de Macpela, junto de Sara, a mãe de Isaque. O capítulo 25 começa afirmando que o Senhor manteve sua benção sobre Isaque. 
 
Após passar pela geração de Ismael e de Isaque, Gn 25 conta-nos de como a história de Abraão se repetiu no filho. A esposa de Isaque também era estéril. Ele também tinha que confiar na fidelidade do Senhor em cumprir sua promessa. E assim o fez. De Rebeca nasceram Esaú e Jacó, ambos, pais de grandes nações, assim como foi com Isaque e Ismael. De Esaú e Jacó vieram os edomitas e os israelitas. 
 
Curioso é notar o paralelo entre a rivalidade de Isaque e Ismael e a rivalidade entre Esaú e Jacó, que veio desde o ventre e perdurou por séculos, até que o Senhor permitiu que um povo extinguisse os edomitas para sempre por causa de sua maldade, avareza e impiedade.
 
O texto diz que os irmãos cresceram com características totalmente diferentes. Esaú se tornou excelente caçador e era amado por seu pai devido às caças que trazia para ele saborear. Jacó era mais amado pela mãe e, aparentemente, não exercia atividades pesadas. O texto apenas diz que ele habitava em tendas. 
 
Gn 25 termina enfatizando o quanto Esaú não se importava com as bênçãos divinas. Para ele, as promessas, Palavra e bênçãos de Deus eram inferiores a encher sua barriga com uma sopa. A sensação de saciedade física estava acima de Deus em sua vida.
 
Em Gn 26, diante de uma seca semelhante à que houve nos dias de seu pai, Isaque vai à Gerar, especialmente ao seu rei, Abimeleque. Lá, Deus confirma a Isaque sua promessa na aliança. Deus nunca muda. Se Deus promete, ele sempre cumpre. Assim, o Senhor quis assegurar a Isaque sua fidelidade em Sua parte na aliança. Cabia a Isaque, sem dúvida, lembrar-se de sua própria parte e fidelidade na aliança. Se assim fosse, tudo iria sempre muito bem.
 
Em Gerar, curiosamente, apresentou sua esposa Rebeca da mesma forma com seu pai apresentou sua mãe, como sua irmã. Isaque também temeu que roubasse sua esposa e o matassem. Após se descobrir que Rebeca era esposa de Isaque, o rei ordenou que ninguém a tocasse e o abençoou grandemente, exatamente como aconteceu com Abraão.
 
O capítulo termina narrando a tristeza de Isaque e Rebeca em ver seu filho Esaú casando com uma mulher que não pertencia ao “povo da aliança”.

Pequeno comentário bíblico (Gn 21-22)

Leia Gênesis 21-22.

100 anos de idade. Um ano a ser comemorado por todos que o alcançam. Principalmente, se o seu primeiro filho nascer exatamente nesse ano. Foi assim com Abraão. 

Com cem anos, e com Sara em sua velhice, ambos viram o cumprimento de uma promessa de Deus. Sara amamentou um filho numa época da vida em que todos reconheceram ser um milagre. 

Como foi feito no nascimento de seu primeiro filho, Ismael, Isaque é circundado em obediência à Palavra de Deus. Nisso Abraão demonstra fidelidade na aliança. Embora com alguns tropeços, lutava para perseverar em obediência. 

Curiosamente, Ismael zombou de Isaque quando este ainda era muito pequeno e havia acabado de desmamar. Essa zombaria de um para com o outro não pararia até os dias de hoje, quando os descendentes de ambos permanecem em pé de guerra. Árabes e judeus, além da zombaria, se odeiam e não se suportam, sempre querendo o mais velho tomar o lugar do mais novo. 

Diante da zombaria, Sara, com o consentimento do Senhor, pede que Abraão mande Agar embora. E ele o fez. 

Esse foi o primeiro grande pedido do Senhor a Abraão, e que o deixou profundamente triste e perturbado. Ele deveria se despedir de seu filho e enviá-lo para longe de si. Essa não seria a primeira vez que o Senhor lhe pediria algo difícil, mas, sem dúvida, deve ter partido seu coração. 

A situação de Agar era tão desesperadora que achava que morreriam, ela é seu filho, de fome no deserto. Mas Deus, tão compassivo que é, viu a ambos e os sustentou até o fim. Quão gracioso é o nosso Deus! Quão grande deve ser a iniquidade no coração do homem para lhe provocar a ira. Embora Deus não tolere um cisco de iniquidade qualquer, é impressionante suas ações e providências junto a pessoas em sofrimento e desespero. Se Ele age assim, do mesmo modo devemos agir, com compaixão e misericórdia socorrendo mesmo aqueles que não estão ligados a nós em aliança. 

Agora, então, entra em cena o segundo grande pedido a Abraão, e que também tinha a ver com seus filhos: o sacrifício de Isaque. 

O capítulo 22 é desesperador! Incompreensível, muitas vezes. Mas revela o quanto Deus espera ser amado por nós. Nada deve ser maior em nosso coração do que o amor por Ele. 

Naquele sacrifício, Deus, de certo modo, também revelava que um cordeiro seria preparado para morrer pelos que seriam, pela fé (como ensinou Paulo aos Gálatas), também filhos e filhas de Abraão. Aqui, sem dúvida alguma, Deus está revelando uma infinita graça que estaria sobre todos os que fossem seus. Um cordeiro também seria nos dado para a nossa libertação e salvação. Nesse sentido, somos todos Isaques. 

O capítulo termina com Naor, irmão de Abraão tendo vários filhos, tanto da esposa quanto da concubina. 

Pequeno comentário bíblico (Gn 18-20)

Leia Gênesis 18-20.
 
Era aproximadamente 12h00. Meio-dia. O sol estava no momento mais quente do dia. A Abraão estava em um lugar considerado sagrado perto dos carvalhais de Manre, próximo a Hebron.
 
Ali, Gn 18.1 afirma que o próprio Senhor (YHWH, Yahweh), junto de outros dois prováveis anjos, apareceram a Abraão que insistiu que fossem à sua casa. Nesta visita, o Senhor e os anjos reafirmam que Sara terá um filho dali um ano aproximadamente.
 
Ao saírem, afirmam que estavam em direção às cidades de Sodoma e Gomorra. Curiosamente, no capítulo seguinte (Gn 19.1), o Senhor não mais está, mas apenas os dois anjos.

Ao final do 18, curiosamente Abraão busca ao Senhor (que ali manifestava-se junto de dois anjos) pedindo-lhe graça pelas cidades mais sexualmente imorais conhecidas na antiguidade. Sodoma e Gomorra ultrapassaram Corinto em imoralidade. E Abraão rogou ao Senhor por graça. O problema era que ninguém naquelas cidades se arrependeria de seus pecados e, por isso, a justiça de Deus seria derramada pondo fim no que os homens dali começaram a destruir. 

Tenha em vista sempre isso: os homens e mulheres começaram a destruir a si mesmos com suas relações homossexuais, seus estupros, seus adultérios, e toda sorte de imoralidade sexual. Eles, com toda libertinagem, começaram a destruir o que não era deles, pois todos foram criados pelo Senhor. Ao não se arrependerem, o juízo do Criador manifestou-se concluindo o que eles mesmos começaram. 

Quando os anjos entraram em Sodoma e Gomorra (Gn 19), já era quase noite. Quando Ló os viu, insistiu que ficassem em sua casa. E a imoralidade dos cidadãos da idade se vê em Gn 19.5 quando alguns deles foram à casa de Ló com o intuito de estuprarem os anjos. Após arrombarem a porta da casa, foram feridos de cegueira pelos anjos. 

Na manhã seguinte, os anjos conseguiram retirar a família de Ló de lá. Mas fez uma advertência: "não olhes para trás" (Gn 19.17). Ou seja, não tenham em seus corações nada que seja maior do que o Senhor que os livrou da destruição. Não olhes para a casa que ficou para trás, pois o Senhor é maior; não olhes para os amigos que ficaram para trás, pois o Senhor é maior; não olhes para a sexualidade liberal que ficou para trás, pois o Senhor é melhor; não olhes para sua vida e suas conquistas que ficaram para trás, pois o que está diante de vocês, o Senhor, é infinitamente melhor!

De todos, apenas a esposa de Ló olhou para trás e, por isso, foi julgada da mesma forma como aqueles que ela amava. E não parou por aí, pois a imoralidade da cidade ia também no coração das filhas de Ló que, vendo que não tinham mais a mãe, embriagaram o pai e engravidam dele, dando origem a duas grandes nações: os moabitas e os amonitas. Como tem sido desde o início, mesmo após o Senhor demonstrar tanta graça, libertação e salvação, o veneno do pecado continuou a agir no coração dos seres humanos. 

No capítulo 20, Abraão e Sara voltam a falar que são irmãos a fim de não serem prejudicados ao mudarem novamente de residência. Mais uma vez, não cometa o erro de dizer que eles mentiram, justificando assim as suas próprias mentiras. Eles eram realmente irmãos, filhos do mesmo pai, mas de mães diferentes (Gn 20.12). Ao confiarem nessa justificativa, demonstraram mais uma vez insegurança quanto ao cuidado do Senhor sobre eles. Veja quão frágeis e semelhantes a nós eles eram. Esse registro apenas nos anima a não cometermos o mesmo erro (não a mentira, que não houve, mas a desconfiança). Abraão e Sara nada mais foram do que vasos de barro frágeis, mas cheios de um tesouro: a obediência e amor ao Deus que os chamou desde o início. 

Pequeno comentário bíblico (Gn 15-17)

Leia Gênesis 15-17.

 

Esperar resposta de Deus não é fácil. Nunca foi. Abraão ficou anos crendo que receberia um filho do Senhor. Ele e sua esposa não podiam ter filhos. Mas, quando o filho viria? A promessa havia sido feita há anos. Ele já estavam idosos demais. 

 

Nesse momento, Abraão cogita a possibilidade do Senhor cumprir sua promessa de uma descendência reconhecendo seu servo Eliézer como um filho legítimo. Mas Deus se nega. Nega, pois Seus planos sao sempre perfeitos. No momento correto, tudo se cumprirá. A Deus cabe o cumprir, e a nós o esperar.

 

No momento da dúvida (e, possivelmente, do medo e da vergonha), Deus leva Abraão para contar as estrelas e, assim como isso é impossível, assim também seria contar a descendência de Abraão. E em Gn 15.6, as Escrituras afirmam que Abraão creu no Senhor! Mesmo ciente de que isso seria impossível, ele creu.

 

No final do capítulo 15, Deus promete que, além do filho, lhe daria a terra, desde a fronteira do Egito até o rio Eufrates, ou seja, uma porção de terra que Israel, praticamente, nunca veio a tomar posse (devido à sua própria insistência na desobediência).

 

No capítulo seguinte, algo muito triste acontece. Sarai, também em um momento de crise (como seu marido no capítulo anterior), recorre à sua serva, Agar, para dar ao seu marido a descendência prometida. Lembre-se que Abraão já havia cogitado Eliézer, seu servo, como herdeiro e Deus não aceitou. Mas agora, assim como Eva com Adão, Sara deu sua serva Agar a Abraão e ele a possuiu, engravidando-a.

 

Dessa relação, nasceu Ismael, o pai de todos os árabes. Com a gravidez de Agar, a relação dela com sua senhora Sara começa a ficar perturbada que, de tanto ser maltratada, Agar fugiu. E, longe de casa, ouve do Senhor palavras impressionantes:

 

    Disse-lhe mais o Anjo do Senhor: Multiplicarei sobremodo a tua descendência, de maneira que, por numerosa, não será contada. Disse-lhe ainda o Anjo do Senhor: Concebeste e darás à luz um filho, a quem chamarás Ismael, porque o Senhor te acudiu na tua aflição. Ele será, entre os homens, como um jumento selvagem; a sua mão será contra todos, e a mão de todos, contra ele; e habitará fronteiro a todos os seus irmãos. (Gn 16.10-12)

 

Note as palavras em negrito sublinhadas. É impressionante como essas palavras têm se cumprido. A descendência de Ismael (árabes) de fato se multiplicou e continua a multiplicar-se. Os árabes, não todos (obviamente), mas muitos deles, agem como um jumento selvagem no sentido de serem valentes, destemidos, indomáveis e violentos. O texto diz que a mão deles seria contra todos, e a de todos, contra eles. E, o mais impressionante, que ele habitaria à fronteira de seus irmãos (judeus, descendentes de Isaque).

 

O capítulo seguinte, Gn 17, é o início do cumprimento da promessa. Abraão, em princípio, crê que Deus estava a falar sobre Ismael. Mas não. Promete abençoar Ismael e sua descendência, mas assegura que, dali a um ano, Sara teria um filho que deveria ser chamado de Isaque. E, com ele Deus manteria e cumpriria a aliança. 

 

O capítulo termina com Abraão demonstrando fidelidade em sua parte na aliança, circuncidar a si mesmo, com noventa e nove anos, a Ismael, com treze, e a todos os homens que, de algum modo estavam ligados a ele, sua família e sua casa.

 

Vê-se um homem que, mesmo diante do impossível, está pronto a obedecer por crer na promessa de Deus. Vê-se também um homem frágil, sujeito a cair, mas pronto a arrepender-se e a obedecer, a cumprir o que Deus espera dele. Um homem perseverante, como são todos aqueles que o Senhor um dia chamou para serem Seus.

Pequeno comentário bíblico (Gn 12-14)

Leia gênesis 12-14.

Abraão foi o que hoje chamaríamos de um iraquiano. A região de onde ele, inicialmente, saiu com toda a sua família, fica nos territórios do atual Iraque. Em Gn 12, Abraão saiu de sua cidade, Harã, com a promessa divina de que receberia terra e herança.
 
Constrangido pela palavra de Deus, Abraão obedece. Sai com sua esposa, sobrinho (que era como um filho para ele) e tudo o que possuía. Aos setenta e cinco anos de idade, começou sua peregrinação rumo ao desconhecido lugar que o próprio Deus iria lhe mostrar. Abraão, por essa e outras, é chamado de "o pai da fé". 
 
Após passar por alguns lugares, adorar a Deus em algumas terras, decide ir ao Egito. No Egito, entra em acordo com sua esposa de que não revelariam que eram casados, a fim de ele não viesse a ser morto. Isso, pelo fato de sua esposa ser muito bonita. Apesar de muitos chamarem isso de mentira, o fato é que Sara era também irmã de Abraão.
 
Não era incomum naqueles dias casamento entre irmãos de família muito grande. Lembre-se de que a Lei proibindo casamento entre irmãos ainda não havia sido escrita (viria a ser escrita por Moisés cerca de 650 anos depois). 
 
Quando os egípcios descobrem que Sara era esposa de Abraão, após já terem-na tomado dele, devolvem-na imediatamente com o medo de sofrerem debaixo da ira de Deus. Sara já vivia na casa do próprio Faraó, de tão bela que era. Após levarem Sara, Faraó presenteou Abraão com muitas posses. Quando a devolveram a Abraão, este já era um homem muito rico. 
 
Logo após o retorno de Sara, ela e Abraão saem do Egito em direção a Betel. Lá, Abraão e Ló, seu sobrinho, se dividiram. Abraão deu a Ló a oportunidade de escolher qual parte da terra queria viver. Ló escolheu a melhor parte, numa terra muito bonita nas campinas do Jordão e que tem acesso às cidades, antes muito belas e grandes, de Sodoma e Gomorra. 
 
Indo Abraão para o outro lado das campinas do Jordão, permaneceu na terra de Canaã, onde Deus lhe prometeu dar tudo o que seus olhos pudessem enxergar. Foi nesse tempo que Abraão fixou sua residência em meio aos carvalhais de Manre, perto da cidade de Hebron. 
 
Gn 14 começar falando de uma grande e provavelmente demorada guerra de quatro reis contra cinco reis. Dentre os cinco, estavam os reis de Sodoma e Gomorra, os quais perderam para os quatro reis. Nessa derrota, Sodoma e Gomorra foram saqueadas e muitos de seus habitantes levados, inclusive Ló e tudo o que possuía. 
 
Quando isso chegou aos ouvidos de Abraão por meio de um sobrevivente, este reuniu trezentos e dezoito homens para resgatar seu sobrinho e a família dele. Numa campanha super bem sucedida, trouxeram de volta Ló, sua família e tudo o que possuía, e mais todas as mulheres que haviam sido capturadas. Quando chegaram à sua terra, foram recebidos pelo rei de Sodoma e pelo rei de Salém (que também era sacerdote de Deus). O rei de Salém, Melquisedeque, o abençoou e Abraão lhe pagou o dízimo. Mas, quando o rei de Sodoma insistiu que Abraão ficasse com os bens trazidos da guerra, ele não aceitou, mas fez questão de que fosse dado aos jovens que o acompanharam na campanha de resgate o que lhes fosse justo. Abraão não quis se aproveitar do sucesso que Deus havia lhe dado no resgate de seu sobrinho tomando para si algo que o próprio Deus não havia lhe dado. Abraão temeu a Deus e não olhou com ganância para o que lhe foi oferecido. 
 
Nestes três capítulos, conhecemos um homem simples, mas corajoso; temente a Deus, idoso, cheio de fé, e que começava a ver o muito que Deus faria por ele nos anos que ainda lhe restavam de vida. 
 

Pequeno comentário bíblico (Gn 10-11)

Leia Gênesis 10-11.

Com a morte de Noé no capítulo 9, Gn 10 passa a contar a história dos filhos dele. Como era feito na literatura histórica antiga, por meio das chamadas gerações. Em princípio, a geração de Jafé, que aparentemente habitou regiões de uma Europa primitiva. 

A segunda geração é a de Cam. Dessa, se destaca Ninrode, o primeiro grande rei depois do Dilúvio. O primeiro homem a ganhar notoriedade e respeito daqueles que conseguiu subjulgar. Foi o primeiro grande conquistador depois de dilúvio. Fundou as cidades de Nínive, Resém e Babel, além de outras menos conhecidas.

Ninrode era um homem violento e fundou as duas cidades mais violentas do mundo antigo. O descendente de Cam, segundo vários comentaristas, foi também o primeiro grande escravista pós-dilúvio. Aliás, o próprio texto hebraico nos permite admitir isso ao dizer que Ninrode era um gibbor tsayid (grande caçador). Para estes, Ninrode caçava gente, e não animais.

Leupold, em seu comentário sobre o Antigo Testamento, admite que Ninrode era um “escravista”, ou, um “caçador de homens”.* Muitos estudiosos o associam a um antigo rei assírio, Sargão de Acade (2330 a.C.), que também foi um escravizador e “conquistador”.

Dr. Thomas Constable, professor do Dallas Theological Seminary, em seu comentário online afirma: “É possível que Sargon de Acádia, acerca de quem muitos historiadores antigos afirmam que foi o primeiro rei da Babilônia, possa ser o Ninrode (que significa “devemos nos rebelar”) dos versos 8 a 10. Muitas pessoas nos tempos antigos tinham mais do que um nome”. **

O Talmude Babilônico afirma que seu nome Ninrode possivelmente tem a ver com seu caráter perante Deus: "Então, por que foi ele chamado de Ninrode? Porque incitou todo o mundo a se rebelar contra a Sua soberania.”***

Até mesmo Flávio Josefo, famoso historiador judeu que testemunhou a destruição de Jerusalém em 70 d.C. tratou de Ninrode em seu livro Antiguidades Judaicas

"Pouco a pouco, transformou o estado de coisas numa tirania, sustentando que a única maneira de afastar os homens do temor a Deus era fazê-los continuamente dependentes do seu próprio poder. Ele ameaçou vingar-se de Deus, se Este quisesse novamente inundar a terra; porque construiria uma torre mais alta do que poderia ser atingida pela água e vingaria a destruição dos seus antepassados. O povo estava ansioso de seguir este conselho, achando ser escravidão submeter-se a Deus; de modo que empreenderam construir a torre […] e ela subiu com rapidez além de todas as expectativas.”****

João Calvino, ao comentar Gênesis, afirma que grande caçador “metaforicamente indica que ele era um homem furioso, mais parecido com uma fera que com um homem”.*** 

Logo após dar um destaque especial a Ninrode, Gn 10 termina com a geração de Sem, para a qual voltará no capítulo seguinte. Gn 10 termina afirmando que, após o dilúvio, todas as nações da terra descenderam dos filhos de Noé, o que parece indicar um dilúvio universal (e não local como suspeitam alguns comentaristas).

Em Gn 11, volta-se a dar destaque a Ninrode, não à sua pessoa, especificamente, mas à uma obra que, muito provavelmente esteve ligada a ele: a construção da Torre de Babel. Ninrode foi o fundador dessa cidade e grande rei da mesma. E, no contexto de sua vida, as Escrituras nos afirmam que nela intentou-se construir uma grande torre com o objetivo de serem famosos e não serem espalhados mundo afora (ou seja, duas grandes desobediências: glória só a Deus, e multiplicar e encher a terra) 

Deus os disciplina confundindo sua língua. Como ninguém mais se entendia, tocar o empreendimento de construção da torre tornou-se impossível. Assim, teve fim a arrogância e desobediência de Ninrode e seus súditos, pelo menos naquele momento em Babel.

Gn 11 termina com a geração de Sem. Após citar vários desconhecidos, chega à Naor, que gerou Tera, que gerou Abrão, marido de Sarai. Após narrar o fim trágico dos descendentes de Cam, as Escrituras falam da graça de Deus na geração de Sem escolhendo um de seus descendentes para ser o "pai da fé" e o pai de uma "grande nação".

 

* Leupold, H.C. Leupold on the Old Testament: expositor on Genesis in 2 volumes. Volume 1, p. 366.

** http://soniclight.com/constable/notes.htm

*** Talmude Babilônico (Erubin 53a). Enciclopédia de Interpretação Bíblica, de Menahem M. Kasher, Vol. II, 1955, p. 79.

**** Josefo, Flavio. Antiguidades Judaicas, I, 114, 115 (iv, 2, 3).

***** Calvino, João. Comentário de Genesis. p. 317.

 

Pequeno comentário bíblico (Gn 6-9)

Leia Gn 6-9

A corrupção na natureza humana que se viu em Eva, depois em Adão, e depois em Caim, parecia ter sido contornada com a descendência de Sete, filho que Deus deu a Adão e Eva após o assassinato de Abel. Foi na descendência de Sete que voltou-se a invocar o nome do Senhor (Gn 4.26).

Todavia, como um câncer espalhando-se em metástases, assim parece ser o pecado na história humana. Por mais que tentemos corrigi-lo, por mais que aldeias, cidades e nações se convertam, o pecado ainda assim estará dentro da raça humana, espalhando-se e destruindo vidas, famílias e sociedades inteiras.

Assim foi na descendência de Sete. Em Gn 6, os “filhos de Deus", nome que, neste contexto, designa os descendentes de Sete (embora muitos erroneamente o atribuem aos anjos caídos), tomam para si mulheres de forma carnal. O que significa isso? Significa o início da “coisificação" dos relacionamentos, ou, como diz Zigmund Bauman, das relações ou amores “líquidos”.

Na criação, Deus nos fez para o outro. E isso é amor! Você morre para si e se doa pelo outro. Não há amor sem morte, sem abnegação, sem altruísmo. Mas aqui no início de Gn 6, dada a ação carnal dos filhos de Deus, Deus começa os ver com certa tristeza.

Um detalhe interessante é que, quando os descendentes de Sete têm seus filhos com algumas mulheres, nascem gigantes (Gn 6.4), homens que foram muito famosos e valentes na antiguidade. Todavia, como eram grandes seus corpos, também era grande a sua maldade. E por causa dessa maldade, Deus restauraria a terra e a raça humana pela primeira vez. 

Veio o dilúvio para acabar com o mal. Apenas quatro homens e quatro mulheres sobrevivem dentro de uma arca, além dos animais que ali também estavam. E foi o próprio Deus que ordenou sua construção e deu as coordenadas a Noé, o construtor maluco e desacreditado de seu tempo. Mas também, convenhamos, nunca havia chovido até então. Imagine um homem, longe do mar, construindo um grande navio e pregando por 100 anos aproximadamente sobre um mar que viria do céu e destruiria tudo. O que você diria de um homem desses? Pois é, todos o chamaram de maluco.

Chove quarenta dias e quarenta noites e as águas predominam sobre a terra por cento e cinquenta dias. Ao final destes dias, um forte vento é soprado sobre a terra fazendo as águas baixarem. Após enviar pássaros para investigarem a terra, o primeiro, um corvo, volta aparentemente sem ter achado lugar para pouso. Depois vai a pomba que também volta com a mesma experiência do corvo. Após alguns dias, Nós envia a pomba novamente que, agora, retorna com uma folha nova de oliveira no bico. Quando solta novamente, a pomba não retorna mais, tendo provavelmente encontrado lugar para seu ninho.

Então, Noé e sua família decidem descer da arca. Assim que o fazem, adoram a Deus. E, neste culto, Deus faz uma aliança com Noé de que, nunca mais destruiria a terra com Dilúvio. O sinal desta aliança é o arco-íris, posto por Deus nos céus para a recordação de Noé da promessa e fidelidade do Senhor.

A misericórdia do Senhor mais uma vez é estabelecida. Imagine Noé, todas as vezes que fosse chover pensando que, agora, ele seria destruído. Por isso, o arco-íris era o sinal da misericórdia e do alívio.

No entanto, tal como câncer na raça humana, o pecado encontra lugar para triunfar na família de Noé. Em um momento terrível, Cam “vê a nudez de seu pai” (que estava bêbado) e conta a seus irmaos que, com muito cuidado, vão vestir o pai sem olhar para a sua nudez. Noé amaldiçoa Cam por causa disso.

Embora seja um texto de difícil compreensão e explicação, creio que aprendemos algumas lições daqui:

  1. Mesmo Noé, com tamanha fé, foi frágil a ponto de cair no pecado da embriaguez, tão condenado nas Escrituras;
  2. Embora pareça algo bobo, inofensivo, o descuido em pequenas áreas de nossa vida podem nos conduzir a conseqüências terríveis no futuro;
  3. Todos devemos vigiar e estar atentos aos perigos do pecado. Ele não é nada inofensivo. É destruidor de vidas e famílias;
  4. Devemos tomar muito cuidado pois, curiosamente, homens e mulheres de Deus ficam mais suscetíveis a caírem após momentos em que são muito abençoados.
 

Pequeno comentário bíblico (Gn 3-5)

Leia Gênesis 3-5.

A criação estava completa. Céus, terra, mar, peixes, animais de todas as espécies, aves e, por fim, o ser humano. Homem e mulher completam a criação. São a coroa da criação (Salmo 8). Ao final de todo o processo criativo da Santíssima Trindade, eis a avaliação:

E Deus viu que tudo o que havia feito era muito bom. (Gn 1.31)

A expressão “muito bom” em hebraico é “tov meod”. Tov pode ser traduzido apenas como “bom”. Mas, literalmente, significa algo agradável, belo, que traz sensações boas a quem tem contato com aquilo (no caso aqui, a criação). E quando a palavra tov vem acompanhada da palavra meod (excessivamente, abundantemente, muitíssimo), a expressão ganha uma força impossível de ser superada.

Juntas, tov meod apontam para algo excessivamente belo, ou seja, de uma estética inigualável. Era assim que Deus via a Sua criação, como algo esteticamente muito bela.*

Mas aí, entramos no capítulo 3 de Gênesis. Em um momento de debate teológico (como chamaríamos hoje), Eva e serpente discutem sobre o que Deus havia dito. Eis o primeiro debate sobre a Palavra de Deus. De um lado, Eva tentando explicar e interpretar a Bíblia corretamente. De outro, a serpente que, ontem e hoje, vive para lançar dúvidas na Palavra de Deus. Como Eva, um monte de gente ainda hoje cai na conversa da serpente deixando de crer na Palavra de Deus como tal.

Logo após a serpente ganhar o debate, Eva cede comendo do fruto que lhe fora proibido. A conseqüência do primeiro pecado é a mesma do de todos os pecados, até os dias de hoje: disciplina e justiça. Eva e seu marido Adão acabaram sendo expulsos da presença de Deus debaixo de uma série de explicações de como seria o castigo deles (e, por consequência, nosso também). Por fim, aquilo que Deus havia dito (e a serpente desmentido) aconteceu: homem e mulher “morreram” espiritualmente. Aqueles que possuíam plena comunhão com o Criador, agora deveriam permanecer distantes, mortos para Deus e vivos para o pecado.

Geram o primeiro filho, Caim. O segundo, Abel. Não muito tempo depois disso, o pecado volta a aparecer e, em um momento de ira pecaminosa e inveja, Caim mata seu irmão caçula cometendo o primeiro assassinato da história humana. A terra recebe o sangue do primeiro ser humano morto. E é isso que colheríamos não fosse a graça de Deus, sangue e mais sangue, morte e violência sem fim. Pela graça comum de Deus, é que ainda podemos viver nesse mundo sem que não o destruamos enquanto destruimo-nos a nós mesmos.

Após esse início trágico (Gn 3 e 4), Gn 5 nos mostra a misericórdia de Deus sobre a descendência de Adão. Deus lhes dá Sete, um filho de cuja descendência os homens voltariam a buscar e adorar ao Senhor:

Sete foi pai de um filho e o chamou de Enos. Foi nesse tempo que o nome Senhor começou a ser usado no culto de adoração a Deus. (Gn 4.26)**

Gn 5 termina informando que um dos descendentes de Sete foi Noé, cujo tempo e história veremos no próximo comentário.

Brown, Francis; Driver, Samuel Rolles; and, Briggs, Charles Augustus. Enhanced Brown-Driver-Briggs Hebrew and English Lexicon. electronic ed. Oak Harbor, WA: Logos Research Systems, 2000, BDB 373.2 e BDB 547.2.

** Sociedade Bíblica do Brasil. Bíblia De Estudo Nova Tradução Na Linguagem De Hoje, Sociedade Bíblica do Brasil, 2005.

Pequeno comentário bíblico (Gn 1-2)

Leia Gênesis 1 e 2.

O início. Nada é mais claro, simples e direto do que a história da criação das Escrituras Sagradas. Não há rodeios, explicações minuciosas, apenas a Palavra que cria tudo do nada. Há apenas Deus! Não há a necessidade de se explicar a fonte de toda a criação, pois ela é a única que é desde toda a eternidade. Ela é a causa última de todas as coisas e, como escreveu Santo Atanásio (bispo de Alexandria, Século VI) em seu Credo:

O Pai é incriado, o Filho é incriado, o Espírito Santo é incriado.

O Pai é imenso, o Filho é imenso, o Espírito Santo é imenso.

O Pai é eterno, o Filho é eterno, o Espírito Santo é eterno.

E foi este Deus, a Santíssima Trindade, que, no início, criou todas as coisas.

É importante que se lembre que, ao se revelar ao seu povo, Deus quebrou uma grossa camada de paganismo e cosmogonias (teorias sobre a origem do mundo) bizarras. O povo de Israel, durante os 400 anos de escravidão no Egito, recebeu uma grande carga de ensinamentos absurdos sobre como o mundo foi criado. As histórias falavam de guerras entre deuses que deixaram destroços que resultaram em nosso mundo; falavam de deuses rasgando o ventre de outros deuses de cujas vísceras surgiram “os mundos”; e, até mesmo, do ato de cuspir ou masturbar divinos cuja consequência foi a criação do mundo.

Embora absurdas, estas eram as histórias que rondavam a mente dos israelitas. Com a revelação de Gênesis 1 e 2, Deus (apologeticamente) quebrou com tudo isso e preparou o povo para entrar na terra de Canaã onde outras heresias e cosmogonias bizarras os aguardavam.

Aprendemos com a revelação de Gn 1-2 que o Senhor é quem faz tudo do nada. Assim como foi no início é hoje também. Ele é o único que pode continuar a criar, miraculosamente, tudo do nada. Realizar mudanças em sua vida que são humanamente impossíveis. É o único que pode converter pessoas perdidas em achadas, mortas em seus pecados em vivas para Ele. É o único que tem o poder sobre a vida e sobre a morte. Ele é o Senhor da criação, tudo está em Suas mãos e nada foge ao Seu poder.

Ele nos criou para ele e nunca teremos paz enquanto não o reencontrarmos! Como escreveu Santo Agostinho:

“Fizestes-nos para Vós e o nosso coração está inquieto enquanto não descansar em Vós” (Confissões, I, 1, 1).

Só Ele cria paz onde há guerra, vida onde há morte, alegria onde há tristeza, perdão onde há culpa, prosperidade onde há miséria, justiça onde há corrupção, alívio onde há medo, forças onde há depressão. Só Ele pode realizar o impossível por nós. Só Ele continua a criar tudo do nada!

Wilson Porte Jr.