A IMPORTÂNCIA DA VIDA DE ORAÇÃO (Comentário final à Epístola aos Efésios)

Nenhum cristão pode negligenciar sua vida de oração. Orar é permanecer vivo, de pé, acordado, em meio à uma grande batalha. Oração é a primeira fonte de força que o cristão possui para lutar contra os poderes desta era.⁠1

Paulo compreendia tão bem este princípio que termina sua Epístola aos Efésios da mesma maneira como começou, falando sobre oração, pedindo aos seus irmãos que se unissem a ele em oração.

com toda oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito e para isto vigiando com toda perseverança e súplica por todos os santos e também por mim; para que me seja dada, no abrir da minha boca, a palavra, para, com intrepidez, fazer conhecido o mistério do evangelho, pelo qual sou embaixador em cadeias, para que, em Cristo, eu seja ousado para falar, como me cumpre fazê-lo. 

E, para que saibais também a meu respeito e o que faço, de tudo vos informará Tíquico, o irmão amado e fiel ministro do Senhor. Foi para isso que eu vo-lo enviei, para que saibais a nosso respeito, e ele console o vosso coração. Paz seja com os irmãos e amor com fé, da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo. A graça seja com todos os que amam sinceramente a nosso Senhor Jesus Cristo.

Ef 6.18–24

Vejamos os três primeiros versos:

18 com toda oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito e para isto vigiando com toda perseverança e súplica por todos os santos 19 e também por mim; para que me seja dada, no abrir da minha boca, a palavra, para, com intrepidez, fazer conhecido o mistério do evangelho, 20 pelo qual sou embaixador em cadeias, para que, em Cristo, eu seja ousado para falar, como me cumpre fazê-lo.

Um embaixador em cadeias. É assim que Paulo se descreve no início de sua despedida. Você seria capaz de imaginar tal cena? A de um embaixador em cadeias? Um embaixador, principalmente dentro do contexto paulino, era alguém que corria o império romano, livre, como um mensageiro de reis e, às vezes, príncipes. No entanto, aqui temos um embaixador em cadeias. Alguém portanto uma mensagem real, do Rei dos reis, preso, sem condições de expor sua mensagem diante de todas as autoridades da terra.

É assim que Paulo pede que efésios que orem por ele com toda oração e súplica, que falem com em todo tempo ao Senhor por si mesmos, mas, principalmente, pelos demais cristãos espalhados pelo mundo em perseguição, e também por Paulo, preso por causa da mensagem.

No entanto, orar sem vigiar é imprudência. Por isso Paulo diz que eles deveriam orar e vigiar com toda perseverança. Sua oração sem cessar deveria ser por todos os santos, ou seja, por todos os cristãos espalhados pelo mundo.

Após orientar os efésios a orarem por seus irmãos na fé, Paulo pede para que se unam a ele em oração. Paulo pede oração por sua tarefa de anunciar o Evangelho, ainda que em cadeias. Um embaixador precisa de palavras, de uma mensagem. E Paulo compreendia sua completa dependência de Deus para anunciar exatamente aquilo que o Rei dos reis deseja que seja anunciado.

O desejo de Paulo era tornar a mensagem do Evangelho conhecida, o mistério do Evangelho que agora se torna conhecido de todos os homens.  E Paulo queria ter coragem para anunciá-lo, sem temer as outras consequências que poderiam vir sobre ele por conta de sua tarefa de anunciar. Ele já estava preso por causa disso. Que não lhe faltasse coragem.

Após lermos Paulo iniciando sua Epístola aos Efésios orando em adoração a Deus por sua graça e salvação, e também o vermos orando pelos efésios, Paulo encerra convidando os efésios a que se unissem a ele em oração, por sua vida e ministério. Será que Paulo levava a sério a vida de oração? Ou será que um homem da estatura espiritual dele chegou a um momento da vida em que considerou que não precisava mais orar? Paulo não precisava mais orar?

É obvio que precisava. Parece que, quanto mais perto de Deus chegava, mais dependente dele ficava. O amadurecimento espiritual, na verdade, torna-nos mais dependentes de Deus, como crianças que, quanto menores são, mais dependentes vivem de seus pais. Na vida cristã de Paulo, observamos o mesmo, quanto mais Paulo “cresce” espiritualmente, mais ele se torna como uma criança no Reino, e quando mais “criança” aos olhos de Deus se torna, mais dependente também ele vive.

Paulo levava muito a sério sua vida de oração. E “orar é trabalho duro”, como escreveu N.T.Wright⁠2 em seus comentários às epístolas da prisão. Para Wright, a oração não pode ser resumida a uns poucos momentos de meditação sonolenta realizada no final do dia, ou alguns poucos momentos preguiçosos e desatentos no início do dia. Como argumenta Wright, é óbvio que é melhor isso do que nada. Mas é o mesmo que sobreviver com um pequeno pedaço de pão ao longo do dia. Sem dúvida, uma alimentação maior, mais completa, será melhor para a saúde física do que apenas um pequeno pedaço de pão. Para Paulo, quem se engaja em uma vida de oração, deve manter-se sempre alerta, atento, vigiando e orando o tempo todo.

21 E, para que saibais também a meu respeito e o que faço, de tudo vos informará Tíquico, o irmão amado e fiel ministro do Senhor. 22 Foi para isso que eu vo-lo enviei, para que saibais a nosso respeito, e ele console o vosso coração. 23 Paz seja com os irmãos e amor com fé, da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo. 24 A graça seja com todos os que amam sinceramente a nosso Senhor Jesus Cristo.

Paulo termina a epístola com suas costumeiras considerações e despedida finais. Suas palavras sobre Tíquico nos versos 21 e 22 são praticamente idênticas às palavras encontradas em Colossenses 4.7-8:

Colossenses 4.7–8: Quanto à minha situação, Tíquico, irmão amado, e fiel ministro, e conservo no Senhor, de tudo vos informará. Eu vo-lo envio com o expresso propósito de vos dar conhecimento da nossa situação e de alentar o vosso coração.

Tíquico, então, é quem levou estas epístolas às igrejas de Éfeso e Colossos. Não que ele estivesse sozinho, pois não estava. Mas era o principal responsável deixado por Paulo para entregar a mensagem.

Tíquico era um cristão gentil, da Ásia Menos. Ele é muito mencionado no Novo Testamento, sempre como um parceiro no ministério de Paulo (At 20.4, Ef 6.21, Cl 4.7, 2Tm 4.12, Tt 3.12). Em Atos, sabemos que Tíquico acompanhou Paulo em sua terceira viagem missionária (At 20.4). Em outras citações, ele é mencionado como o irmão amado, o servo fiel, um conservo. Paulo confiava muito nele e várias vezes o comissionou a entregar algumas das cartas que hoje fazem parte do novo Testamento.

Paulo esperava que Tíquico contasse tudo o que estava acontecendo com Paulo naqueles últimos dias e que também consolasse o coração dos efésios que estavam, provavelmente, preocupados com a perseguição dos últimos dias. A consequência seria que eles, ouvindo a Palavra de consolo vinda de Tíquico, tivessem paz em seus corações.

Paz… e amor com fé, essas são as consequências maravilhosas que viriam de Deus sobre aqueles que ouvissem as palavras de Tíquico. Deus nos dá paz em meio às perseguições e, ao mesmo tempo, enche nossos coração com amor com fé, ou seja, amor e mais fé, amor unido à fé. Pensando em um tempo de perseguição religiosa e injustiças contra os cristãos, faz sentido imaginarmos o amor que encheria o coração dos perseguidos, obviamente um amor pelo que os perseguiam, com fé de que o Senhor está soberanamente no controle de todas as coisas.

Paz, então, está intimamente ligada à fé e ao amor. Todas vêm de Deus sobre o coração dos seres humanos. Vêm da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo. Foi esse mesmo amor que encheu o coração de Cristo sobre a cruz, quando orou por aqueles que o crucificavam, amando-os em fé. É esse mesmo amor cheio de fé que Deus deseja encher nossos corações. Só assim, teremos igualmente paz.

O apóstolo Paulo termina sua Epístola com uma bênção, desejando que a graça de nosso Senhor Jesus Cristo fosse com todos os que ama sinceramente a nosso Senhor Jesus Cristo. É essa mesma graça que nos abre os olhos para que comecemos a olhar para Deus na face de Cristo sobre a cruz e o amarmos com todo nosso coração, força e alma. É por graça que o amamos. É por graça que o recebemos em nossos corações, É por graça que permanecemos de pé, mesmo quando as tribulações tentam nos derrubar. É por graça que um dia entramos na presença do Pai e é pela mesma graça que seremos sustentados pelos séculos dos séculos em sua maravilhosa presença.

__________________

 

1 John D. Barry et al., Faithlife Study Bible (Bellingham, WA: Logos Bible Software, 2012), Ef 6.18.

2 Tom Wright, Paul for Everyone: The Prison Letters: Ephesians, Philippians, Colossians, and Philemon (London: Society for Promoting Christian Knowledge, 2004), 78.

BATALHA ESPIRITUAL: Como é e como nos preparar? (Comentário de Ef 6.10-17)

O cenário das batalhas era comum no imaginário popular da época de Paulo. Quando se imaginava uma batalha, logo se pensava em todas as figuras mencionadas neste texto. Não apenas o vestuário, mas também as armas usadas, tanto de defesa quanto de ataque.

Valendo-se dessas figuras, Paulo traz as figuras de uma batalha para o campo espiritual, mostrando que há uma batalha espiritual acontecendo sobre a vida de todo o povo de Deus. Embora exista muita confusão no tempo em que vivemos com esse tema, e muita gente o compreenda de forma errada, Paulo, neste texto, deixa claro o que verdadeiramente é uma batalha espiritual, dentro da qual todos nós vivemos.

Quanto ao mais, sede fortalecidos no Senhor e na força do seu poder. Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra as ciladas do diabo; porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes.

Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, depois de terdes vencido tudo, permanecer inabaláveis.

Estai, pois, firmes, cingindo-vos com a verdade e vestindo-vos da couraça da justiça. Calçai os pés com a preparação do evangelho da paz; embraçando sempre o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do Maligno.

Tomai também o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus;

Ef 6.10-17

10 Quanto ao mais, sede fortalecidos no Senhor e na força do seu poder.

Em princípio, a ordem é para que nos fortaleçamos. Mas não é uma força qualquer, é na força do seu poder, ou seja, o poder de Deus. Para o assunto que Paulo está para tratar, apenas a força que vem do Senhor é capaz de nos proteger.

E não podemos perder de foco tudo o que foi escrito até aqui, pois o que Paulo está para escrever está intimamente ligado aos versos anteriores, nos quais Paulo tratou sobre a família e todo o ambiente familiar.

11 Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra as ciladas do diabo; 12 porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes.

Antes de falar sobre a armadura de Deus, Paulo dá as razões e alguns alertas sobre nossa proteção e luta espiritual. A palavra revesti-vos nos faz pensar em que precisamos nos despir de algo. Bem, se vamos nos revestir da armadura para sermos protegidos espiritualmente pelo Senhor, devemos nos despir de tudo que possa ser nossa própria armadura, nossas próprias desculpas e armas de proteção.

Todos as possuímos e quando estamos em situações de tensão diante de alguém, as usamos sem dó nem piedade. Devemos abandonar nossas armas de ataque e de defesa e nos vestirmos apenas com a armadura de Deus, a qual é bem diferente da nossa própria armadura.

Para poderdes ficar firmes contra as ciladas do diabo, ou seja, contra todas as batalhas espirituais, somente as armas que o Senhor nos der funcionarão. O diabo é quem arma ciladas, armadilhas. Nós somos os que caem nelas. Você e eu precisamos estar atentos a isso.

Nossa luta não é contra o sangue e a carne, mas contra demônios. Logo, dentro do contexto deste texto, o contexto familiar, todas as vezes que ciladas do diabo forem armadas, é necessário que você se recorde que a luta dentro de seu lar não é contra sua esposa ou marido, filhos ou pais, mas contra espíritos imundos que, o tempo todo, estão tentando destruir o seu lar.

Neste mundo tenebroso, as trevas (tenebras) sempre estarão a nos cercar querendo nos envolver e destruir. E somos tão lentos para vê-la que, ao menor descuido, em meio às batalhas espirituais dentro do lar, rapidamente começamos a lutar contra a carne e o sangue que moram conosco. Mas a luta da esposa não é contra o marido, e vice-versa. Nem a dos pais com os filhos e vice-versa. Mas, a luta de cada um é contra os principados e potestades, as forças espirituais do mal.

Mas não é fácil nos recordarmos disso quando estamos em meio ao calor da irritação. No meio da ira, normalmente não nos lembramos da armadura de Deus e de contra quem estamos guerreando. Por fraqueza e imaturidade, acabamos tomando nossas próprias armas de defesa e de ataque, e partimos para a briga sem nos lembrarmos de quem nos jogou naquela cilada e de quais são seus reais propósitos finais. No final, todos da família perderão. Não restarão vencedores, apenas humanos que descuidadamente perderam a oportunidade de permanecerem firmes diante das ciladas do diabo.

13 Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, depois de terdes vencido tudo, permanecer inabaláveis.

Mais uma vez a ordem é dada: tomai toda a armadura de Deus. A razão não é somente a obediência à Palavra, mas a nossa completa fragilidade diante do mundo espiritual. Sendo nossa luta contra espíritos imundos poderosos que habitam as regiões celestiais desse mundo, que podemos fazer nós sem que os vejamos, os toquemos ou sequer saibamos como lidar com os tais.

É necessário que alguém maior do que nós, mais forte do que nós, nos defenda e conceda as armas de nossa defesa. É por isso que somos exortados a tomar toda a armadura de Deus, sem a qual não seremos capazes de resistir no dia mau. O dia mau é o dia da tentação, da batalha espiritual que virá (e vem) sobre nós e nossas famílias. Só podemos vencer e permanecer inabaláveis caso reconheçamos o Senhor como nosso Castelo Forte, nosso rochedo e Libertador. Sem ele, certamente cederemos aos desejos enganosos e pecaminosos, ou seja, às nossas próprias armas.

14 Estai, pois, firmes, cingindo-vos com a verdade e vestindo-vos da couraça da justiça. 15 Calçai os pés com a preparação do evangelho da paz; 16 embraçando sempre o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do Maligno. 17 Tomai também o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus;

Para que possamos estar firmes no dia da luta, é necessário que nos revistamos da armadura de Deus, a qual passa a ser descrita nos versos 14 a 17, finalizando essa passagem.

O primeiro item da armadura de Deus é cingir-se com a verdade, ou, o “cinto da verdade” (τὴν ὀσφὺν ὑμῶν ἐν ἀληθείᾳ — tēn osphyn hymōn en alētheia). O cinto nas armaduras antigas serviam para prender bem a roupa tanto na cintura quanto no meio do peito facilitando movimentos rápidos por parte de quem luta. O cinto era vital para a segurança e sobrevivência de um guerreiro na antiguidade. Assim, o cinto da verdade nos mostra o que é vital para nossa sobrevivência em lutas espirituais que vivenciamos dentro e fora de nossas famílias. Sem a verdade, estamos a um grande passo de nossa completa destruição.⁠1

O segundo item da armadura é a couraça da justiça (τὸν θώρακα τῆς δικαιοσύνης — ton thōraka tēs dikaiosynēs). Da palavra grega “thōraka (θώρακα)” surge a nossa palavra “tórax”. Originalmente, θώρακα significa couraça, originalmente feita de couro, de onde retiramos seu nome em português. Posteriormente, a couraça, item da armadura que protege o tórax, passou a ser confeccionada com outros materiais. Muitos reconhecem aqui o texto de Isaías:

Isaías 59.17: Vestiu-se de justiça, como de uma couraça, e pôs o capacete da salvação na cabeça; pôs sobre si a vestidura da vingança e se cobriu de zelo, como de um manto.

Outra sugestão que o texto nos traz é a de que a couraça da justiça protegerá o coração do cristão dos assaltos e investidas do diabo assim como a couraça de um soldado protege seu coração da lança de seu inimigo.

O terceiro item  (verso 15) é o calçado. Um soldado em batalha deve estar calçado devidamente a fim de não sofrer durante a luta. O que calça um cristão é o Evangelho. Assim como calçado dá segurança para quem se move diante de um inimigo, o Evangelho também nos dá segurança de quais movimentos devemos realizar quando dentro de uma intensa batalha espiritual. Também está associado a Isaías que escreveu:

Isaías 52.7: Que formosos são sobre os montes os pés do que anuncia as boas-novas, que faz ouvir a paz, que anuncia coisas boas, que faz ouvir a salvação, que diz a Sião: O teu Deus reina!

Assim, além de dar segurança para quem está na luta, simboliza aquele que é mensageiro ou portador de uma notícia importante. Os cristãos são estes que, enquanto batalham contra o inimigo, continuam a levar o Evangelho de Cristo por todo o mundo.

O próximo item da armadura é o escudo da fé. Todos sabemos como é e para que serve um escudo. Até hoje, forças militares e policiais utilizam escudos para avançar sobre seus oponentes enquanto se protegem do que é lançado sobre eles. Em tempos antigos, o escudo tinha o mesmo fim, embora os itens lançados fossem diferentes.

Segundo o texto, nosso inimigo é perito em lançar sobre nós dardos inflamados. O escudo, numa batalha, é um dos mais importantes itens na batalha. Sem ele, a luta está quase perdida. Logo, a fé é que nos protege das dúvidas que serão lançadas das formas mais geniais possíveis pelo Maligno. Ele sabe como nos fazer duvidar de Deus, duvidar de nós mesmo e duvidarmos dele. A arte da dúvida e da insegurança gera em nós o desânimo necessário para que percamos a batalha.

A própria ideia de um dardo inflamado, ou seja, uma flecha em cuja ponta há fogo, demonstra o desejo destruidor de nosso inimigo. É necessário que mantenhamos o escudo da fé sempre levantado, caso contrário, na fraqueza da dúvida seremos derrotados e mortos.

O penúltimo item é capacete da salvação. Sem salvação, nossa luta já está fadada ao fracasso. Sem salvação não há nem luta, pois a ausência do capacete denota que já somos derrotados, escravos daquele contra quem imaginamos lutar. Na verdade, o capacete da salvação é tomado no mesmo instante em que a justiça é posta sobre nós. O que devemos fazer em meio às batalhas espirituais é nos lembrar de que um dia nos vestimos com este capacete e de que ele é visto, e muito bem visto, por aquele contra quem lutamos. Nosso inimigo sabe quem somos e isso o irrita e inquieta.

O último, mas não menos importante, item da armadura de Deus é a espada do Espírito, que é a palavra de Deus. O próprio texto explica o que simboliza esta parte de nossa armadura. Em nós não pode faltar a espada, aquilo que nos protege, defende das investidas de nosso inimigo. É com ela que nos protegemos diante das aflições.

Esta espada foi dada pelo Espírito, demonstrando a inspiração que a Bíblia possui por parte do Espírito Santo de Deus. Este é o único item de ataque que a armadura possui, embora contra o inimigo de nossas almas ela será mais usada como defesa do que como ataque, assim como fez Jesus na tentação no deserto:

A seguir, foi Jesus levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo.E, depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome.Então, o tentador, aproximando-se, lhe disse: Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães.Jesus, porém, respondeu: Está escrito:

  Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus.

Então, o diabo o levou à Cidade Santa, colocou-o sobre o pináculo do templo e lhe disse: Se és Filho de Deus, atira-te abaixo, porque está escrito:

  Aos seus anjos ordenará a teu respeito que te guardem;

e:

  Eles te susterão nas suas mãos, para não tropeçares nalguma pedra.

Respondeu-lhe Jesus: Também está escrito:

  Não tentarás o Senhor, teu Deus.

Levou-o ainda o diabo a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória delese lhe disse: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares.Então, Jesus lhe ordenou: Retira-te, Satanás, porque está escrito:

  Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a ele darás culto.

Com isto, o deixou o diabo, e eis que vieram anjos e o serviram.

Mt 4.1–11

Diante da insistência do Maligno para fazer Jesus cair em tentação, o tempo todo Jesus o atacou em respostas usando a própria Palavra de Deus. Assim, todos os cristãos devem conhecer bem as Escrituras a fim de sairem vitoriosos em face as batalhas espirituais que vivenciam tanto dentro do lar quanto fora dele.

_____________

 

1 Derek R. Brown, Miles Custis, e Matthew M. Whitehead, Lexham Bible Guide: Ephesians, ed. Douglas Mangum, Lexham Bible Guide (Bellingham, WA: Lexham Press, 2013), Ef 6.14.

ESCRAVOS E SEUS SENHORES NA IGREJA (Comentário de Ef 6.5-9)

As relações sociais no Império Romano  no século I eram bastante diferentes das relações ocidentais dos últimos séculos. Sem compreendermos bem tais relações dificilmente entenderemos palavras como as à seguir.

Quanto a vós outros, servos, obedecei a vosso senhor segundo a carne com temor e tremor, na sinceridade do vosso coração, como a Cristo,não servindo à vista, como para agradar a homens, mas como servos de Cristo, fazendo, de coração, a vontade de Deus;servindo de boa vontade, como ao Senhor e não como a homens,certos de que cada um, se fizer alguma coisa boa, receberá isso outra vez do Senhor, quer seja servo, quer livre.E vós, senhores, de igual modo procedei para com eles, deixando as ameaças, sabendo que o Senhor, tanto deles como vosso, está nos céus e que para com ele não há acepção de pessoas.

Ef 6.5–9

5Quanto a vós outros, servos, obedecei a vosso senhor segundo a carne com temor e tremor, na sinceridade do vosso coração, como a Cristo,

A palavra Servos (δοῦλοι — douloi), no contexto de Paulo significava literalmente Escravos. Paulo está falando a escravos aqui, e não meramente a pessoas que trabalham para outras pessoas. No entanto, escravidão naquele tempo era algo muito diferente de como estamos acostumados a conhecê-la em nosso século e no ocidente.

Segundo o Dr. Marvin R. Vincent, em muitas cidades da Asia Menor, o número de escravos ultrapassava o de homens livres.⁠1 No Império Romano, as pessoas possuíam dois níveis sociais nos quais poderiam se encaixar: escravos ou livres. Em muitas ocasiões, escravos eram melhor tratados, cuidados e alimentados do que os homens livres. Famílias de escravos possuíam a segurança do cuidado de seus senhores enquanto famílias livres, em momentos de seca ou escassez de alimento, acabavam morrendo de fome.

De um modo muito diferente da história recente, a escravidão nos dias de Paulo não era baseada em etnias ou “raças”. Qualquer ser humano poderia se tornar um escravo e qualquer escravo poderia se tornar um homem livre. Homens livres e escravos viviam e trabalhavam juntos no século I e eram, socialmente, distinguidos apenas por seus status social de escravo ou livre. Há inúmeros relatos de pessoas que, podendo alcançar sua liberdade, preferiam continuar vivendo com seus senhores, como escravos, pela segurança que isso lhes trazia.⁠2

De modo nenhum isso é uma defesa da escravidão. Apenas precisamos compreender o contexto em que tais palavras foram escritas. Paulo, de modo algum, era a favor da escravidão tal como nós a conhecemos hoje. Basta uma simples leitura e estudo de sua Epístola a Filemon para compreendermos um pouco de seu pensamento sobre a escravidão. O que Paulo faz aqui em Efésios é mostrar tanto a escravos quanto a senhores de seu tempo como eles deveriam viver, no contexto social em que se encontravam, como cristãos. O propósito de Paulo é fazer com que as atitudes de um para com o outro sejam mudadas.

Como bem escreveu Ted Cabal, “o Evangelho é oposto à escravidão. Onde o Evangelho permeia vida, a instituição da escravidão está abolida. É digno de nota que a primeira geração de cristãos que foi libertada da escravidão do pecado, agradecidamente passou a chamar a si mesma de ‘escravos’ de Deus ou de Cristo (veja 1Tm 6.1; Fm 16)”.⁠3 Embora pareça algo contraditório, a “escravidão a Cristo” é o mais alto nível de liberdade que o ser humano pode alcançar.

O senhor segundo a carne do verso em estudo apenas contrasta com o verdadeiro e celestial Senhor (Ef 6.4). Mais desse conselho é dado nos seguintes versos:

Colossenses 3.22: Servos, obedecei em tudo ao vosso senhor segundo a carne, não servindo apenas sob vigilância, visando tão-somente agradar homens, mas em singeleza de coração, temendo ao Senhor.

1Pedro 2.18–21: Servos, sede submissos, com todo o temor ao vosso senhor, não somente se for bom e cordato, mas também ao perverso; porque isto é grato, que alguém suporte tristezas, sofrendo injustamente, por motivo de sua consciência para com Deus. Pois que glória há, se, pecando e sendo esbofeteados por isso, o suportais com paciência? Se, entretanto, quando praticais o bem, sois igualmente afligidos e o suportais com paciência, isto é grato a Deus. Porquanto para isto mesmo fostes chamados, pois que também Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos.

6não servindo à vista, como para agradar a homens, mas como servos de Cristo, fazendo, de coração, a vontade de Deus; 7servindo de boa vontade, como ao Senhor e não como a homens, 

Há uma insistência dos versos 5 a 7 de que a obediência é como ao próprio Cristo e não ao homem. Toda obediência devida tem como fim principal a glória de Deus. Assim, a razão pela qual um servo obedece a seu senhor não é o senhor em si, o senho humano. Mas, é pelo Senhor celestial que o servo deve obedecer e honrar aqueles que são seus senhores durante o tempo de sua servidão.

Como servos de Cristo, todos devem servir a seus senhores, de boa vontade, pensando que estão agradando a Deus fazendo isso, ainda que seus senhores não se agradem, ou reconheçam seu esforço, ou elogiem, enfim, é Deus quem observa e, por fim, deve recompensar seu ser por ter agido de um modo correto em sua relação social.

8certos de que cada um, se fizer alguma coisa boa, receberá isso outra vez do Senhor, quer seja servo, quer livre.

Aqui encontra-se a razão para tal obediência e uma promessa aos que agirem bem. Receberá isso outra vez do Senhor garante que Deus vê a vidas de todos os crentes, sejam eles livres ou prisioneiros de guerra vivendo como escravos em outra nação. Deus vê a todos e recompensará a cada um.

A Bíblia nos fala muito sobre recompensas futuras. Embora não consigamos compreender claramente o que serão tais prêmios, eles existem e serão dados ao povo de Deus no tempo oportuno (Mt 5.12,46;6.1–2;10.41–42; Lc 6.23,35; 1Co 3.8,14; 9.17–18; 2Jo 8; Ap 11.18; 14.13; 22.12).⁠4

Assim, a razão pela qual ouvimos ao Senhor e o obedecemos é tanto para lhe agradar quanto por causa das recompensas que ele mesmo deseja nos dar. Sejam homens livres, sejam escravos, Paulo se preocupa em que todos ouçam o que ele tem a dizer.

9E vós, senhores, de igual modo procedei para com eles, deixando as ameaças, sabendo que o Senhor, tanto deles como vosso, está nos céus e que para com ele não há acepção de pessoas.

Aprende-se neste último verso que senhores não são diferentes de seus servos. Mutatis mutandis,⁠5 Paulo orienta que os senhores deveriam proceder de igual modo para com eles, ou seja, pensando no Senhor e agindo de um modo que glorifica ao Senhor.

Deixando as ameaças aponta para uma relação amorosa que se espera entre senhores e escravos na sociedade imperial do séc. I. É o amor quem deve regula as relações, amor pelo próximo, e, principalmente, amor por Deus que deu tais orientações tanto para um quanto para outro.

Como o cristianismo torna todos os homens irmãos uns dos outros, não deveria haver ameaças ou opressão por parte dos senhores sobre seus escravos irmãos, principalmente aqueles que consentissem viver como escravos (por vontade própria) para fugir da fome e proteger sua família.⁠6

O modo igual com o qual os senhores devem proceder diante de seus servos aponta para Deus. Ambos agem diante da face de Deus. Ambos, independentemente de sua posição social na Terra, possuem um mesmo e único Senhor nos céus, para o qual não distinção entre um e outro, ou seja, não há acepção de pessoas.

A lição que o Espírito Santo deseja nos transmitir nestas palavras é que tudo o que fazemos, fazemos coram deo, ou seja, diante da face de Deus. E, por ele, fazemos o que fazemos, para a glória dele, e não de qualquer ser humano criado. Tudo o que fazemos, fazemos para o Senhor e não para o homem.  Devemos viver coram deo, cheios de santo e amoroso temor e tremor.

Seja na família, seja no trabalho, seja nos estudos, seja na igreja, seja nas relações sociais que forem, devemos agir sempre pensando em como o Senhor de todos deseja que ajamos. É a Ele que prestaremos contas e é a ele quem amamos com todo nosso coração. Por isso, devemos pensar nele antes de quaisquer decisões que venhamos a tomar.

Viver coram deo nos guarda da falsa ideia do carpe diem, ou seja, do “aproveite o dia”. Não é possível aproveitar bem o dia, curtir a vida e o dia vivido, sem nos lembrarmos que estamos constantemente diante da face de Deus. É Deus quem torna nossos dias felizes ou não. É ele quem dá sentido à nossa história. Sem ele, tudo é passageiro e vazio. Com ele, sejamos senhores ou servos, nossa vida sempre será uma bênção. Em outras palavras, não é possível haver carpe diem sem que haja coram deo.

____________

 

1 Marvin Richardson Vincent, Word studies in the New Testament, vol. 3 (New York: Charles Scribner’s Sons, 1887), 404.

2 John D. Barry et al., Faithlife Study Bible (Bellingham, WA: Logos Bible Software, 2012).

3 Ted Cabal et al., The Apologetics Study Bible: Real Questions, Straight Answers, Stronger Faith (Nashville, TN: Holman Bible Publishers, 2007), 1770.

4 Robert James Utley, Paul Bound, the Gospel Unbound: Letters from Prison (Colossians, Ephesians and Philemon, then later, Philippians), vol. Volume 8, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 1997), 136.

5 Expressão latina que traz a ideia de “mudando o que tem de ser mudado”.

6 Robert Jamieson, A. R. Fausset, e David Brown, Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible, vol. 2 (Oak Harbor, WA: Logos Research Systems, Inc., 1997), 356–357.

AS 7 IGREJAS DO APOCALIPSE: Laodicéia (Comentário 3.14-22)

É possível ser igreja e deixar Jesus do lado de fora? É possível ser uma igreja e, ainda assim, existir sem sua doce presença? Impressionantemente, a resposta é sim. Não sabemos por quanto tempo, mas é possível pois foi exatamente o que aconteceu em Laodicéia. Lá, os laodicenses agiam como cristãos, mas suas obras eram completamente diferentes das que traziam agrado a Deus.

Nesta pequenina carta de Jesus aos laodicenses, vemos como uma igreja que estava deixando Jesus do lado de fora pode, ainda assim, ser chamada de igreja por nosso Senhor Jesus Cristo.

Ao anjo da igreja em Laodicéia escreve:

Estas coisas diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus:

Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente!

Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca; pois dizes Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu.

Aconselho-te que de mim compres ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres, vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez, e colírio para ungires os olhos, a fim de que vejas.

Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso e arrepende-te.

Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo.

Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como também eu venci e me sentei com meu Pai no seu trono.

Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.

Ap 3.14–22

 

14       Ao anjo da igreja em Laodicéia escreve: Estas coisas diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus:

Laodicéia vem de Λαοδικείᾳ (Laodikeia), literalmente, “justiça do povo”. Os cidadãos de Laodicéia tinham um gosto especial, segundo Dr. Vincent, pela arte grega, e eram extremamente reconhecidos na ciência e na literatura. Tratava-se de uma cidade envolvida com artes e cultura. Laodicéia, nos dias em que este livro foi escrito, hospedava uma grande escola de medicina.⁠1

Além disso, Laodicéia era conhecida pela produção de uma espécie de lã negra de altíssima qualidade, muito procurada naqueles dias. Havia tudo de bom dentro de seus domínios, menos uma coisa, a água.

A razão para isso é simples. Laodicéia ficava entre duas cidades conhecidas, Hierápolis e Colossos. Da primeira, no alto de um penhasco íngrime, havia uma fonte de água quente. Turistas do mundo todo vinham à Hierápolis para seus banhos quentes. Ainda hoje, hotéis exploram tais águas na região da antiga Hierápolis, sendo fonte de grande lucro.

De acordo com Dr. Wright, no primeiro século, foram construídos aquedutos para trazer a água quente de Hierápolis para Laodiceia, a qual ficava em um vale entre as cidades de Colossos e Hierápolis. Ainda hoje estes aquedutos podem ser vistos na região.

Durante o percurso que fazia, a água quente se esfriava até chegar em Laodicéia, cerca de quatro ou cinco quilômetros de distância. Chegando morna em Laodicéia, tornava-se imprópria para beber, e era usada apenas para fins medicinais.⁠2

Do outro lado do vale, ficava a cidade de Colossos, a qual em 61 d.C., ou seja, há cerca de 30 anos antes de Apocalipse ser escrito, havia sofrido um terrível terremoto. Nesta cidade também havia uma “fonte esplêndida de água, que desce do alto do Monte Cadmus, coberto de neve”.⁠3

Isso fazia com que as águas que saíssem de Colossos, saíssem muito frias. No entanto, ao se aproximarem de Laodicéia, também perdiam sua temperatura gelada, chegando mornas por causa do calor do vale de Laodicéia, localizada há cerca de 18 quilômetros de Colossos. Também chegavam mornas.

Assim, as águas que banhavam Laodicéia eram mornas de ambos os lados. Ainda de acordo com N.T.Wright, a própria palavra Laodicéia era proverbial naqueles dias para designar algo apático, morno, ou, até mesmo, nojento.

Quando Jesus se dirige aos cristãos de Laodicéia, apresenta-se como aquele que é verdadeiro, o Amém, a testemunha fiel e verdadeira. Não há erro ou mentira naquilo que será dito e deve ser ouvido com absoluta atenção e cuidado.⁠4

15       Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! 16       Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca;

Deus usa figuras reconhecidas pela cidade para tratar de sua nojeira espiritual. Aquele que é a verdade e que não é capaz de narrar mentiras utiliza de figuras e imagens compreensíveis à audiência para tratar de sua situação espiritual.

Jesus diz conhecer as obras de cada um deles e as descreve como nem fria, nem quente. Ou seja, assim como as águas que desciam de Hierápolis e Colossos eram um problema para a saúde física da cidade, a vida espiritual dos cristãos de Laodicéia também era um problema.

Ao dizer assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca, Jesus está demonstrando sua revolta com o sabor do cristianismo de Laodicéia. Assim como uma pessoa podia se adoecer bebendo da água de Laodicéia, Jesus notava como imprópria a vida espiritual dos laodicenses, como algo que poderia lhe trazer doença caso insistisse em usufruir.

17       pois dizes Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu. 18       Aconselho-te que de mim compres ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres, vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez, e colírio para ungires os olhos, a fim de que vejas.     

Jesus descreve a situação financeira da igreja, aparentemente muito boa. A impressão que se tem com tais palavras é que não havia problema financeiro em Laodicéia. Jesus, mais uma vez, utiliza de figuras conhecidas pelos habitantes de Laodicéia, no entanto, chamando para si a capacidade de cobrir a real vergonha dos laodicenses, a qual não estava em seu corpo, mas em sua alma.

A despeito de toda lã produzida em Laodicéia, é de Jesus que os laodicenses deveriam comprar a real veste para se cobrir. E também apesar do ouro que tinham, de Cristo viria o melhor tesouro, sendo ele mesmo o grande e único tesouro que os laodicenses precisavam. E não devemos deixar de olhar para a necessidade de um colírio, mesmo havendo uma escola médica na cidade, nenhum doutor seria capaz de fazê-los enxergar melhor do que Cristo.

Apesar de possuírem muito, na verdade, não possuíam nada, pois o tudo que possuíam nada tinha a ver com Cristo, e somente em Jesus todo tesouro e satisfação podem ser encontrados.

19       Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso e arrepende-te. 20       Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo.

Jesus reconhece que havia uma igreja ali, embora fosse tão desobediente e falha. O fato de dizer que disciplina a quantos amo, demonstra que havia amor e compaixão de sua parte para com os laodicenses. Embora tão imperfeitos em sua espiritualidade, ainda eram igreja, digna da atenção do próprio Cristo.

O amor é quem convida ao arrependimento. E convida por estar do lado de fora da igreja. Não são incrédulos que deveriam convidar Jesus a entrar, mas os próprios cristãos. Suas palavras Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo, revelam alguém que deseja entrar, ter comunhão, estar no meio, ser íntimo, mas que permanecia do lado de fora.

O caminho para abrir a porta é o arrependimento. O arrependimento é que o leva à ceia, à comunhão.

21       Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como também eu venci e me sentei com meu Pai no seu trono. 22       Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.    

Mais uma vez, o encerramento de suas palavras revelam alguém disposto a dar de si mesmo, do que possui, àqueles que o amarem e deixarem tudo para tê-lo. Seu próprio trono será compartilhado com aqueles que se arrependerem e o amarem.

__________________

 

1 Marvin Richardson Vincent, Word studies in the New Testament, vol. 2 (New York: Charles Scribner’s Sons, 1887), 469.

2 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 37.

3 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 37.

4 Johannes P. Louw e Eugene Albert Nida, Greek-English lexicon of the New Testament: based on semantic domains (New York: United Bible Societies, 1996), 672.

OS PAPÉIS DO HOMEM E DA MULHER NO CASAMENTO (Parte 1)

As funções dadas ao homem e à mulher apontam para uma das tantas formas de sermos cheios do Espírito Santo. Após começar a falar sobre o encher-se do Espírito, Paulo passa explorar uma forma pouco estudada de glorificar a Deus. Vivendo os papéis dados por Deus, homem e mulher são capazes de viver de um modo que glorifique a Deus e os encha do Espírito Santo.

A razão para isso é não só glorificar a Deus, mas protegerem-se de quaisquer problemas futuros que desencadeariam um processo de separação e divórcio. Batalhas espirituais são tão frequentes e normais que somente quando compreende-se as funções de cada um e vivem a função dada a cada um é que somos capazes de viver para a glória de Deus. 

Vejamos, assim, o começo sobre as funções no casamento e como homem e mulher, complementando-se através de suas funções, glorificam a Deus e protegem seu lar de quaisquer tempestades que vierem.

As mulheres sejam submissas ao seu próprio marido, como ao Senhor;

porque o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, sendo este mesmo o salvador do corpo. Como, porém, a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo submissas ao seu marido.

Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito.

Assim também os maridos devem amar a sua mulher como ao próprio corpo. Quem ama a esposa a si mesmo se ama.

Ef 5.22–28

As mulheres sejam submissas ao seu próprio marido, como ao Senhor;

Esse verso não deve ser lido sem a orientação do verso anterior (v. 21), sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo. A sujeição, segundos estes versos, é mútua, e não unilateral. 

No entanto, a primeira a ouvir sobre sua relação à submissão é a mulher. Esta, deve ser submissa ao marido da mesma forma como é submissa a Cristo. No entanto, isso não torna o marido um Cristo, ou Deus na vida da mulher. Apenas aponta para a função que a esposa tem em relação ao marido, e a relação funcional é de submissão.

A palavra submissa, na verdade, não aparece no verso 22, mas no 21. As mulheres do v. 22 estão ligadas à ordem do verso 21, 36.18 ὑποτάσσομαι (hypotassomai), submeter-se às ordens ou direções de alguém, obedecer, submeter-se.⁠1

A ordem para submeter-se no verso 21 é uns aos outros no temor de Cristo, ou seja, não apenas da mulher. O ponto é que, a primeira a receber orientação foi a mulher que, em respeito a Deus e ao marido, deve submeter-se sempre à função dada a ele de responder pela família e conduzi-la nas decisões e rumos da vida. Assim como são submissas ao Senhor Jesus, devem submeter-se ao marido. Por qual motivo?  

porque o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, sendo este mesmo o salvador do corpo. Como, porém, a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo submissas ao seu marido.

Eis o motivo dado pelo Espírito Santo. A palavra cabeça está ligada à função do marido de ser responsável pela família, sendo ele quem prestará contas e quem deve responder por quaisquer questões que sejam.

O paralelo usado por Deus neste texto é Cristo e igreja, homem e mulher. Como Cristo é o cabeça da igreja, o marido é o cabeça da mulher. A mulher deve se ver como a igreja, buscando santidade, serviço, amor, devoção, dedicação, enquanto o homem deve ver-se como Cristo, amando, protegendo, santificando, alimentando, pastoreando. Paulo irá explicar de modo mais detalhado este paralelo adiante.

Após expor o papel da mulher, o papel do homem é destacado.

Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito.

Assim também os maridos devem amar a sua mulher como ao próprio corpo. Quem ama a esposa a si mesmo se ama.

Aqui encontra-se, indubitavelmente, a função mais difícil, talvez, impossível, que foi a dada ao homem. No entanto, embora impossível, não pode ser abandonada. A função dada ao homem é ser semelhante a Cristo. 

Se, por um lado, a mulher de se ver como a igreja, por outro lado o homem deve se ver como Cristo, não somente em sua glória, mas em seu sacrifício. Aliás, mais em sua humilhação do que em sua exaltação, algo que ele, Cristo, não divide com ninguém. Já sua humilhação é dividida com o homem.

A primeira ordem é do amor. Amar não é nada além do que morrer para o bem do outro. Deixar sua própria vontade por causa do desejo de quem se ama. A medida que é dada ao homem contempla-o amando sua mulher da mesma maneira como Cristo a ama. Daí, então, cada palavra dita, cada decisão tomada, enfim, devem ser executadas pensando-se em Cristo. 

Enquanto a mulher se vê como a igreja em sua relação com o marido, o homem deve sempre pensar em Cristo, em como ele falaria, em como ele responderia, em o que Cristo faria com o tempo livre, na maneira como Cristo administraria o sustento dentro de casa, etc.

Como Cristo se entregou pela igreja, os maridos devem se entregar por suas esposas. E essa entrega envolve a santificação. A expressão no início do verso 28 “assim também os maridos devem amar a sua mulher revela o modo como o homem deve se ver em relação à esposa. O assim também deve levar os olhos dos maridos à pessoa de Cristo. Assim, todo marido deve se ver como responsável pela vida espiritual de sua esposa. É mais do que ser um pastor do lar, mas um verdadeiro agente santificador. Não que os maridos possuam poder para isso, mas sim o poder para conduzir um processo que leve a isso.

É assim que eles devem santificar suas esposas, como responsáveis pela santidade delas. As palavras são “santificar, purificar, lavar pela Palavra e, por fim, a apresentar diante do Pai”. Com outras palavras, é isso que o Espírito Santo levou Paulo a escrever nos versos 25-27 de Efésios 5.

Deve haver um santo temor em todo homem, pois haveremos de apresentar nossa esposa e família diante de Deus um dia. E esse dia pode chegar em breve e é por isso que não podemos postergar essa tarefa mais e mais. 

A Palavra de Deus possui um papel purificador neste texto. É ela quem purifica a mulher e o homem, e é através dela que o homem purificará sua esposa, através de leituras juntas, através de recordações de textos bíblicos que dão a direção em momentos de dúvida, através de momentos de devoção e meditação, enfim, é a Palavra de Deus sempre que é capaz de purificar os corações e o homem tem a responsabilidade dada pelo Criador de administrar a espiritualidade da esposa. Assim como Cristo apresentará sua noiva ao Pai, maridos darão conta de suas esposas de uma forma que, para nós, hoje, é difícil de compreender.

O amor de um homem por uma mulher apresenta o amor de um homem por si mesmo. Da mesma maneira como ele cuida de seu corpo e vontades, deve cuidar também da esposa.

 

1 Johannes P. Louw e Eugene Albert Nida, Greek-English lexicon of the New Testament: based on semantic domains (New York: United Bible Societies, 1996), 467.

A IGREJA DE JESUS CRISTO (Parte 3)

Esta é a TERCEIRA parte de meu comentário da Epístola de Paulo aos Efésios. Feita para ser estudada nas comunidades da Igreja Batista Liberdade em Araraquara-SP, receberá ainda as partes 4 a 6, fechando o estudo de toda a epístola. O estudo de todo o capítulo 1 pode ser lido aqui: http://www.wilsonporte.org/site/a-igreja-de-jesus-cristo-parte-1/ ou aqui: http://issuu.com/webmais/docs/efesios_1parte e o capítulo  2 aqui http://www.wilsonporte.org/site/a-igreja-de-jesus-cristo-parte-2/ ou aqui http://issuu.com/webmais/docs/efesios_2_issu?e=7511948/9346937.

Espero em Deus que possa ser útil para a edificação de quem ler.

in dextera tua,

Wilson

COMO SER CHEIO DO ESPÍRITO SANTO?

A maneira como “andamos” determina o porquê somos ou não cheios do Espírito Santo de Deus. Paulo, nesta passagem, abordará o tema do encher-se do Espírito como uma espécie de preparação para tudo o que falará sobre família e batalha espiritual logo em seguida. 

Devemos prestar muita atenção a esta passagem pois ela determina o modo como vivemos, como “andamos”, como passamos nossos dias e a razão pelas quais, muitas vezes, vivemos vazios de paz, vazios de vida, vazios do Espírito.

Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus. Por esta razão, não vos torneis insensatos, mas procurai compreender qual a vontade do Senhor. E não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito, falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais, dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo.

Ef 5.15–21

15 Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios,

Este portanto está ligado às palavras anteriores cujo foco eram o despertamento dos efésios e a visão dos frutos da luz e das trevas. Um vez cientes de como vivem os cristãos, os efésios deveriam ver como andar em meio à sociedade pagã de seu tempo.

Trazendo para nosso tempo, as coisas não são muito diferentes. A sociedade de hoje é ainda mais sagaz e sutil em seu paganismo disfarçado. De um modo discreto, vê-se o paganismo entrando nas igrejas e se misturando com o ensino do Evangelho através de novas teologia cujo foco não é Deus, mas o homem. Lembre-se do Evangelho da Prosperidade, da Cura, da Expulsão de demônios, e tantos outros. Quando dão a ênfase que dão, estão pensando em quem? Com certeza, não é na Prosperidade de Deus, na Cura de Deus ou na Expulsão de demônios do corpo de Cristo. O foco é o homem, caracterizando-se em um outro Evangelho, totalmente diferente do Evangelho deixado por Jesus Cristo.

O cristão de ontem e de hoje deve constantemente ver como tem andado, se segundo o Evangelho de Cristo ou segundo o Evangelho do Diabo. O de Cristo glorifica a Deus, o do Diabo glorifica o homem. Quem glorifica ao homem é néscio, ou seja, sem conhecimento (de Deus), ignorante das coisas espirituais. Quem glorifica a Deus é sábio, pois conheceu a Deus verdadeiramente e vive para a glória de Deus, satisfeito com o que o Senhor lhe der, seja muito, seja pouco.

16 remindo o tempo, porque os dias são maus.

Esta expressão apenas aponta para a pressa em se honra a Deus, refletindo em cada passo que dermos em nossa caminhada se estamos glorificando a Deus ou não. Devemos ver como andamos e, como o texto diz mais à frente, nossa caminhada neste mundo deve ser feita em louvores.

Há pessoas que perdem seu tempo com futilidades, com conversas fúteis o tempo todo, dando atenção à informações fúteis e que não levam a nada o tempo todo. Ao contrário dessa vida sossegada, o cristão vive consciente, e não mediocremente. Ele passa a remir seu tempo, aproveitando cada oportunidade para aprender mais, para louvar mais, para falar com Deus, para ouvir a Deus, para descansar seu corpo e sua mente, etc.

Não remir o tempo significa entregar-se aos males desse mundo. Entregar-se sem se preocupar com o que acontecerá amanhã, sem se preocupar com os passos dos filhos que, muitas vezes, acabam seguindo os passos dos pais em seus casamentos, em seus vícios, em suas linguagens. Não remir o tempo significa andar sem pensar em Deus, nosso Criador, e muito menos no dia de amanhã. Só um louco ou um perdido e morto espiritualmente pode andar e viver assim.

17 Por esta razão, não vos torneis insensatos, mas procurai compreender qual a vontade do Senhor.

É exatamente por isso que os efésios não deveriam viver com os néscios, os insensatos, ou que têm cabeça, mas não a usam para nada de bom. Ao invés de viverem sossegadamente, deveriam buscar conhecer a vontade do Senhor Deus.

18 E não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito,

E aqui entramos no verso eixo desta passagem, pois ou os vícios e ídolos ou o Espírito do Senhor guiará sua vida.

O foco do Espírito Santo não é nos proibir de beber vinho, algo comum a todos tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. O foco do texto está em não desperdiçar a vida vivendo de falsos deuses, de ídolos do coração, como vivem os que não cuidam do tempo que têm para viver e vivem de qualquer jeito. Estes, normalmente, entregam-se aos excessos.

O excesso de vinho causa embriaguez e muda o comportamento de uma pessoa. Se jeito de andar, de falar, de demonstrar afetos, dentre outras coisas, mudam com o excesso de vinho. Assim também, o encher-se do Espírito Santo muda o comportamento da quem cuida de remir o seu tempo. Enche-se do Espírito também muda o modo de alguém andar, de alguém falar e o modo como esse alguém trata seu semelhante.

Encher-se do Espírito Santo é uma ordem aos cristãos. A partir daqui, o apóstolo Paulo é usado para nos mostrar como encher-se do Espírito, que é a mesma forma como remirmos nosso tempo e andarmos como sábios.

19 falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais, 20 dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, 21 sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo.

Este é encerramento da, poderíamos dizer, introdução da penúltima seção da Epístola de Paulo aos Efésios. Nela, Paulo focará a família, ponto que abordaremos ricamente a partir das próximas páginas. 

O louvor é modo como os cristãos devem andar e viver. Salmos devem constar em nossas conversações, não que, necessariamente, devemos ficar citando salmos o tempo todo, mas o conteúdo por trás dos salmos devem tomar conta do que falamos — Deus é nossa força, nossa proteção, nosso livramento, nosso perdão, etc. Tudo o que vivemos foi vivido também pelos homens que escreveram o saltério. Todos os salmos são manifestações de sentimentos humanos, de todos os sentimentos e situações vividas por nós. Não é possível encontrarmos nada que vivemos hoje que não foi experimentado pelos salmistas.

O louvor entoado em hinos e cânticos espirituais devem fazer parte de nossas vidas. Assim, conhecer e cantar apenas músicas que não são cristãs não é comum no período da igreja antiga. Os irmãos do cristianismo “primitivo” são exortados neste texto a incluir canções cristãs em seu modo de “andar”, como uma das tantas formas de se encherem do Espírito Santo. 

Além do louvor, ações de graças são recomendadas, graças por tudo que lhes acontecia em vida. Com toda certeza, estes cristãos não estavam isentos de aflições ou sofrimentos, mas experimentavam absolutamente tudo o que nós experimentamos hoje também. 

Em meio a tudo o que viviam, são orientados a serem gratos, por toda e qualquer coisa que lhes acontecessem, pois gratidão é o modo como Deus deseja que vivamos e nos enchamos do Espírito santo. Uma das formas de nos enchermos do Espírito Santo é cultivarmos uma vida de gratidão.

Sobre a sujeição que devemos ter uns aos outros no temor de Cristo, trataremos no próximo comentário, visto estar intimamente ligado à passagem que vem em seguida.

DESPERTAMENTO! (Comentário Ef 5.8-14)

Você vive um sonho? Digo, você vive em uma realidade que não existe? Conhece pessoas que parecem estar vivendo em um mundo irreal? Pessoas que falam e vivem como se não estivessem no planeta terra? Vivem como se fossem eternas, como se nunca fossem morrer. 

Tais pessoas existem e estão por todo lado. Inclusive, na igreja. É por isso que Paulo escreve aos efésios para que houvesse despertamento entre eles, despertamento que os mantivesse atentos, acordados, atentos à esta vida e à vindoura.

É assim que vivem os cidadãos do Reino de Cristo, como pessoas acordadas, conscientes de que a vida não se resume aos poucos anos que aqui vivemos, os quais, para a maioria, não chegam aos míseros 100 anos. Deus tem mais para os seus. Suas vidas não se resumem a este mundo, mas, às vezes, o sono é tão grande que não conseguem viver outra realidade diferente da deste mundo.

Vejamos, então, o apóstolo recordando os efésios e os chamando ao despertamento.

8Pois, outrora, éreis trevas, porém, agora, sois luz no Senhor; andai como filhos da luz 9 (porque o fruto da luz consiste em toda bondade, e justiça, e verdade), 10provando sempre o que é agradável ao Senhor. 11E não sejais cúmplices nas obras infrutíferas das trevas; antes, porém, reprovai-as. 12Porque o que eles fazem em oculto, o só referir é vergonha. 13Mas todas as coisas, quando reprovadas pela luz, se tornam manifestas; porque tudo que se manifesta é luz. 14Pelo que diz:

Desperta, ó tu que dormes,

levanta-te de entre os mortos,

e Cristo te iluminará.

Ef 5.8-14

8Pois, outrora, éreis trevas, porém, agora, sois luz no Senhor; andai como filhos da luz 

Luz e trevas são colocados em contraste, mais uma vez. De um modo interessante e excludente, Paulo apresenta as formas absolutamente intocáveis presentes nas duas vidas aqui mencionadas. Não há como correlacionar ou complementar luz e trevas. Pelos próprios elementos em si, um é absolutamente intransigente ao outro. Se há trevas em um lugar e uma pequena vela é acesa, as trevas imediatamente se dissipam ante a luz, ainda que pequena. Assim, apenas há trevas na completa ausência da luz.

O mesmo ocorre com os elementos espirituais utilizados pelo apóstolo Paulo neste texto. Na ocasião anterior à vida cristã, todos os efésios eram trevas. Agora, porém, são luz no Senhor. A vida pregressa dos efésios não é matéria de discussão, acusação ou lembrança, mas apenas é citada para que se estabeleça o contraste com o que agora eram. Eles não estavam nas trevas, eles eram as trevas. E agora, eles não apenas estão na luz, mas eles são a própria luz no Senhor. Sua união com Cristo tornou-os luz.

Diante disso, são ordenados a andarem como filhos da luz.

9 (porque o fruto da luz consiste em toda bondade, e justiça, e verdade), 

Uma vez que estão na luz e tornam-se participantes dela, Paulo usa outra ilustração bem querida a ele e outros escritores do Novo Testamento: o enraizamento. Uma vez que estejam enraizados na luz, o fruto que esta “árvore” produzirá será um fruto da luz. E, na luz, não pode sair outra coisa senão a bondade, a justiça e a verdade. Os frutos dos cristãos são frutos de Cristo, vêm dele e glorificam a ele.

10provando sempre o que é agradável ao Senhor. 

Como sabemos se estamos agradando ao Senhor? Como filhos da luz, como sabemos se nossos frutos são prazeroso e agradáveis a Deus? A resposta está no verso anterior, embora a afirmativa só esteja neste verso. A árvore que dá bom fruto sempre prova sua origem.  Os cristãos que estão acordados e vivos para as coisas do Senhor são pessoas que dão prova sobre a quem estão ligados. Como estão em Cristo, seus frutos provam a quem estão ligados e são frutos que agradam, consequentemente, ao Senhor.

11E não sejais cúmplices nas obras infrutíferas das trevas; antes, porém, reprovai-as. 

Ser cúmplice é ser participante do delito, pecado ou crime de alguém. Quando o texto bíblico diz ser cúmplice nas obras infrutíferas das trevas, trata da corresponsabilidade que o ser humano convertido pode ter quando participa do pecado. As obras infrutíferas das trevas estão ligadas às ações ilícitas que Paulo mencionou nos versos 3 a 5. Aquele que possui obras das trevas estão, via de regra, mortos em seu entendimento espiritual. Tais pessoas são infrutíferas pelo fato de não serem frutíferos, não servirem à ninguém.⁠1

Não ser cúmplice significa não participar do delito, crime ou pecado cometidos. As palavras de Paulo foram καὶ μὴ συγκοινωνεῖτε (kaì mḕ synkoinōneîte), ou seja, “e não [tenhais] comunhão com” ou “e não [sejais] co-cooperadores”. A identificação das palavras gregas nos leva à compreensão de que Paulo estava ordenando os efésios a pararem um ato que estava em progresso naquele exato momento (Presente Imperativo Ativo com uma partícula negativa). Poderia estar se referindo tanto à intimidade social dos cristãos de Éfeso com adoradores de pagãos quanto ao envolvimento dos mesmos com  os falsos mestres existentes na cidade.⁠2

12Porque o que eles fazem em oculto, o só referir é vergonha. 

Aqueles que não produzem frutos da luz, ou seja, os responsáveis pelas obras infrutíferas das trevas, são os que fazem em oculto aquilo que é reprovável diante da luz. Como afirmou Robertson, “o pecado ama as trevas”.⁠3

Não deveria ser objeto nem de nossas conversações o que é feito com prazer durante a ausência da luz. Aquilo que é amado nas trevas o só referir entre os cristãos deveria ser uma vergonha. Não deveria ser um tópico da conversação dos efésios o comportamento ilícito dos efésios.

13 Mas todas as coisas, quando reprovadas pela luz, se tornam manifestas; porque tudo que se manifesta é luz. 

É como quando se acende uma forte luz sobre algo que acontece indevidamente, por exemplo, quando a polícia lança luz sobre a ação criminosa de dois bandidos que estavam, às escuras, assaltando uma escola infantil. Sob a luz, suas obras criminosas são expostas e, por serem erradas, imediatamente são reprovadas e encaminhadas à julgamento.

Sob a luz de Deus, tudo o que fizermos de errado será reprovado e exposto. É por isso que devemos andar como crianças ou filhos da luz, que possuem conhecimento de quem é seu pai e que possuam santidade. O objetivo final do fruto da luz é a bênção e a alegria na vida presente e futura; e, ao contrário disso, como bem escreveu Matthew Henry, o fim dos frutos das trevas é a destruição do pecador impenitente.⁠4

14 Pelo que diz:

Desperta, ó tu que dormes,

levanta-te de entre os mortos,

e Cristo te iluminará.

Aqui, talvez, esteja o coração de toda essa passagem. O objetivo final do apóstolo Paulo é o despertamento dos efésios. Despertamento para Deus e para a vida relacionada a Ele. Esta é uma palavra de urgência, que clama para que volte à vida aquele que longe dela está. Trata-se de uma situação de perigo onde quem chama está em condição de vida diante de quem está a ser chamado. 

Assim como feito pelo profeta Isaías (Is 51.17, 52.1 e 60.1), Paulo chama o povo de Deus à vida, ao despertamento. Paulo é quase lírico em suas palavras, soando para nós um material métrico litúrgico de sua época. Paulo, com frequência, usou de materiais artísticos em seus escritos, seja em evangelização, seja em cartas pessoais, seja em cartas pastorais; ele se vale tanto material cristão quanto pagão, demonstrando certo domínio de material artístico, musical e poético, seja cristão ou não, de sua época. É nesse tom que Paulo escreve estas palavras.⁠5

O despertamento sobre o qual Paulo escreve está ligado à uma cegueira espiritual, e a uma possível morte espiritual. É possível que Paulo esteja falando de pessoas não crentes, como é também possível que se tratem de crentes que estejam dormindo espiritualmente. 

Cristo ilumina e sua luz acaba com todas as trevas. A luz de Cristo está associada à cura, à saúde espiritual, à verdade de Deus, ao conhecimento de Sua Palavra, à bondade, etc. Quando a luz de Cristo resplandece sobre alguém, acontece o que está descrito em Ml 4.2:

Ml 4.2: Mas para vós outros que temeis o meu nome nascerá o sol da justiça, trazendo salvação nas suas asas; saireis e saltareis como bezerros soltos da estrebaria

Somente Cristo e Sua luz podem por fim às nossas trevas e sono. Sem a luz de Cristo, continuamos dormindo, vivendo uma realidade que não existe, tal como em um sonho.

O chamado ao despertamento nunca foi tão urgente quanto no tempo em que vivemos, onde nos distraímos com tantas coisas no dia a dia, que imaginamos que aquilo é a vida, iludindo-nos com o presente como se o futuro (e a eternidade futura) não existisse. Quando o futuro chegar, pegará a muitos de surpresa e fará com que muitos comecem a lamentar e a entrarem em choro e ranger de dentes. 

Somente um despertamento espiritual é capaz de acordar alguém que dorme sem a real noção da realidade em que vive. É neste sentido que todos devemos orar como Habacuque um dia orou clamando ao Senhor que mantivesse viva em sua vida e memória coisas mais importantes:

Hc 3.1–2: Oração do profeta Habacuque sob a forma de canto. Tenho ouvido, ó Senhor, as tuas declarações, e me sinto alarmado; aviva a tua obra, ó Senhor, no decorrer dos anos, e, no decurso dos anos, faze-a conhecida; na tua ira, lembra-te da misericórdia.

Clamar ao Senhor que nos avive ou que nos desperte deve ser algo sempre constante em nossas orações. Espiritualmente, dormir nesta vida significa viver uma vida que não é real, que não existe. É como viver um sonho. E, neste texto, o Senho está nos chamando para a realidade e não para o sonho, para a vida verdadeira e não para a ilusão.

 

1 John D. Barry et al., Faithlife Study Bible (Bellingham, WA: Logos Bible Software, 2012), Ef 5.11.

2 Robert James Utley, Paul Bound, the Gospel Unbound: Letters from Prison (Colossians, Ephesians and Philemon, then later, Philippians), vol. Volume 8, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 1997), 127.

3 A.T. Robertson, Word Pictures in the New Testament (Nashville, TN: Broadman Press, 1933), Ef 5.12.

4 Matthew Henry e Thomas Scott, Matthew Henry’s Concise Commentary on the Bible (Sociedade Bíblica do Brasil, 1939), Ef 5.3.

5 Robert James Utley, Paul Bound, the Gospel Unbound: Letters from Prison (Colossians, Ephesians and Philemon, then later, Philippians), vol. Volume 8, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 1997), 127.

HERDEIROS DO REINO DOS CÉUS

Você deseja herdar o Reino dos Céus? Quem herdará o Reino dos Céus? Quem será ou não cidadão no Reino dos Céus? Isso é importante para você?

Para Paulo, falar sobre isso aos efésios era importante demais. Não apenas a ele, mas ao próprio Espírito Santo, inspirador e real autor desta epístola. 

Vejamos, segundo o Espírito do Senhor, coisas que não devem estar presentes na vida de um futuro cidadão do Reino dos Céus.

Mas a impudicícia e toda sorte de impurezas ou cobiça nem sequer se nomeiem entre vós, como convém a santos; nem conversação torpe, nem palavras vãs ou chocarrices, coisas essas inconvenientes; antes, pelo contrário, ações de graças. Sabei, pois, isto: nenhum incontinente, ou impuro, ou avarento, que é idólatra, tem herança no reino de Cristo e de Deus. Ninguém vos engane com palavras vãs; porque, por essas coisas, vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência. Portanto, não sejais participantes com eles.

Ef 5.3–7

3 Mas a impudicícia e toda sorte de impurezas ou cobiça nem sequer se nomeiem entre vós, como convém a santos;

Assim começam as exortações, se assim podemos as chamar, aos filhos de Deus que viviam em Éfeso. 

Há coisas que não deveriam nem mesmo existir em meio aos cristãos. Há coisas que são toleráveis, assim como há coisas que são normais, embora não deveriam ser um hábito. No entanto, há coisas que deveriam jamais existir entre os cristãos. Jamais! Que coisas são estas? Vejamos.

Paulo começa com a palavra impudicícia. Esta palavra está ligada à pessoa impudica, ou seja, que comete lascívia. Trata-se de uma pessoa que não possui vergonha do que faz, especialmente a coisas ligadas à sexualidade e à sensualidade. Pessoas que se entregam à libidinagem, às paixões de sua carne para satisfazê-las e nem sequer sente-se envergonhado por isso. Uma pessoa sem vergonha, literalmente. 

Tanto a impudicícia como toda sorte de impurezas ou cobiça jamais deveriam sem nomeadas entre o povo de Deus. Por qual razão? Pelo fato de serem santos.

É assim que Deus vê seus filhos. Se você entregou sua vida a Cristo, recebeu-o como seu Senhor e Salvador, e foi adotado pelo Pai, você é visto como um santo por Deus. Isso, porque Deus colocou sobre você a santidade de Seu Filho Amado, Jesus Cristo, o Santo. Ele é quem santifica você e faz substituição por seus pecados de modo que todos eles foram remidos na cruz do Calvário, ficando em você, aos olhos de Deus, a imagem de alguém que já foi santificado.

Como um santo de Deus, estas coisas nem deveriam ser nomeadas. Isso significa dizer que não trata-se apenas de não cometer estes pecados, mas que coisas relacionadas a eles nem deveriam ser nomeadas entre vocês. O cometê-las seria algo gravíssimo diante dessa exortação.

4 nem conversação torpe, nem palavras vãs ou chocarrices, coisas essas inconvenientes; antes, pelo contrário, ações de graças.

Os cristãos devem evitar imoralidade sexual da mesma maneira como devem evitar conversas relacionadas à imoralidade sexual.⁠1

Alguns, talvez, diriam que os cristãos são também humanos, e que Deus há de entender sua dificuldade com as inclinações da carne. Bem, parece-me muito claro neste texto que Deus não quer nem saber de entender ou deixar de entender, Ele apenas quer nos instruir, se é que temos ouvidos para o ouvir. 

Logo, não há “lado humano” da moeda, ou seja, não há verdade de Deus e verdade do homem. Deus é verdadeiro e mentiroso todo homem, e todo que se postar contra isso, é mentiroso para Deus.

Palavras vãs ou chocarrices estão ligadas às palavras imorais, via de regra, relacionadas à sexualidade. Estas conversas na boca dos futuros cidadãos do Reino dos Céus são, no mínimo, inconvenientes, segundo a Palavra de Deus. Ao invés disso, um conselho é dado: por que não enchermos nossas bocas com palavras de ação de graças? Obviamente, atrairemos menos ouvintes do que se anunciarmos que contaremos uma piada suja, ou começarmos a falar sobre experiências sexuais, ou se começarmos a flertar ou insistir com alguém sobre um desejo impudico e lascivo de nossa parte.  

5       Sabei, pois, isto: nenhum incontinente, ou impuro, ou avarento, que é idólatra, tem herança no reino de Cristo e de Deus.

De um modo muito claro, o Espírito Santo diz às igrejas, e não somente aos efésios, que não herdarão o reino de Cristo e de Deus estas pessoas. E acrescenta: nenhum incontinente, ou impuro, ou avarento, que é idólatra

Não apenas os impudicos, os chocarreiros, pessoas que perdem seu tempo correndo atrás de satisfazer acima de tudo seus desejos sexuais, mas pessoas que incontinentes em todas as demais áreas não herdarão o reino de Cristo.

Alguém pode ser incontinente em relação à bebida alcoólica, à comida, à mentira, ou outras coisas. A incontinência é prova de que não há o Espírito Santo na vida de tal pessoa, pois é o Espírito o único capaz de frear, dominar, esta vida a fim de torná-la moderada.

A impureza citada no texto está ligada a tudo que exclui a pureza de sua vida. Você se tornará alguém impuro sempre que excluir o que é puro de sua vida. Se você exclui a pureza, natural e consequentemente, você descambará para a impureza.

Se você é incontinente com relação ao dinheiro, então você é um avarento, uma pessoa que alimenta a paixão e o amor pelo dinheiro e por juntá-lo mais do que qualquer coisa. Tal pessoa tornou-se uma escrava do dinheiro e, logo, não pode ser serva de Cristo:

Mateus 6:24: Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar a um e amar o outro, ou há de dedicar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.

Todo avarento é um idólatra, segundo a Palavra de Cristo. Todos que colocam qualquer coisa no lugar de Deus, é um idólatra, segundo as Escrituras.

6       Ninguém vos engane com palavras vãs; porque, por essas coisas, vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência.

As κενοῖς λόγοις (kenoîs lógois), ou seja, palavras vãs, estão ligadas às palavras tanto de falsos mestres quanto de outras pessoas que viviam no meio dos efésios, colossenses, dentre outras igrejas, e que os levava para longe do Evangelho. Eram palavras bonitas, palavras com aparente intelectualidade, mas que, ao final, conduziriam os efésios para longe do Caminho da Graça.

A ira de Deus se manifesta sobre as pessoas que iludem com palavras vãs e sobre as vidas daqueles que dão ouvidos a tais palavras sem buscarem discernir se estão corretas à luz da Palavra de Deus. Sim, é possível errarmos por ignorância, ignorância por preguiça de estudarmos e verificarmos “se as coisas são realmente assim”, como faziam os bereanos (At 17.11).

Estas mesmas pessoas que trivializavam a Palavra de Deus também o faziam em Colossos:

Colossenses 2.4,8: Assim digo para que ninguém vos engane com raciocínios falazes…  Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo;

7 Portanto, não sejais participantes com eles.

Em sua conclusão desta segunda parte de exortação no capítulo 5, o Espírito Santo guia Paulo a escrever que os efésios e, consequentemente, todos nós, não deveríamos ser participantes destas coisas mencionadas ao longo desta porção das Escrituras.

A ordem aqui tem o mesmo tom das que vêm nos Dez Mandamentos. São ordens que vêm para nos guardar de tropeçar. Precisamos estar atentos a estes ensinamentos! Eles nos ajudam a viver de um modo mais feliz e seguro. Fomos criados por Deus e só ele sabe melhor como devemos viver.

Quando Deus nos diz “não”, nos diz para nossa proteção. O “não” é um dom de Deus por amor aos seus. Deus nos diz não para nos guardar da condenação, do egoísmo, e da maldade que há dentro de nós. Dar ouvidos aos seus conselhos fará de nós pessoas mais sábias e que vivem em paz. Dar ouvidos aos “nãos” de Deus é verdadeira libertação!

___________________

 

1 John D. Barry et al., Faithlife Study Bible (Bellingham, WA: Logos Bible Software, 2012), Ef 5.4.

ANDAI EM AMOR (Comentário Ef 5.1-2)

Este início de capítulo praticamente resume tudo o que podemos esperar do final desta epístola. Muitas exortações serão feitas para o bem da igreja em Éfeso. 

Iniciando o período final desta epístola, Paulo os recomenda e exorta naquilo que seria a mais importante das recomendações que o apóstolo poderia fazer. Como fez em outras epístolas, Paulo entra no assunto do amor mútuo e demonstra como a prática do amor estava até mesmo relacionada à veracidade da salvação dos efésios.

Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados; e andai em amor, como também Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus, em aroma suave.

Ef 5.1–2

Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados;

Paulo começa o capítulo com uma palavra muito usada em seus escritos, a palavra “imitadores”. Esta palavra descende da antiga palavra μιμεομαι (mimeomai), muito usada por Paulo. Μιμητής (mimētēs), “imitador”, traz a ideia de alguém que deseja ser igual a outra pessoa, e, por isso, a imita. 

Existe uma ordem aqui para que sejamos imitadores de Deus. A palavra sede vem de γίνεσθε (ginesthe), que significa algo que está se tornando em algo diferente. “Sede”, então”, poderia muito bem ser traduzida como “venham a ser”. Esta é a ideia de Paulo, que todos os efésios viessem a ser como Deus na matéria a ser tratada.

A nossa palavra “mímica” descende em certa medida da palavra μιμητής. 

Como filhos amados, ou seja, como filhos a quem Jesus tem demonstrado amor, esforcem-se por imitar a Deus no amor.⁠1

O fato de Deus ter dado Jesus a nós deve levar-nos a querer imitá-lo, dando-nos a nós mesmos a Deus e ao próximo. A ideia é que, assim como fomos perdoados, devemos perdoar também, assim como fomos acolhidos, devemos acolher a outros que se acheguem a fé cristã.⁠2

Os cristãos são chamados para serem filhos amados, ou seja, para agirem como Cristo, sendo significantes como ele foi. Se os cristãos são amados por Deus, isso de dá ao fato deles terem sido amados por Deus. Neste pequeno verso, Paulo os está encorajando a imitarem seu Pai, assim como uma criança faz em uma família. Toda ideia de família perfeita perdida no Jardim do Éden começa a ser restaurada na família de Deus, e a exortação que os filhos recebem é exatamente esta do verso 1.⁠3

O que temos neste primeiro verso é uma exortação ao amor mútuo. A caridade é parte da vida cristã. Aliás, é a própria vida cristã. No capítulo anterior, Paulo procurou demostrar tal verdade. É por isso que este verso começa com a palavra pois. Este pois aponta para tudo o que foi intencionado no capítulo 4.

Todas as pessoas piedosas que amam a Deus verdadeiramente devem procurar imitá-los no amor. Sem as obras de uma vida regenerada não há sinal de fé. A fé, embora invisível, pode ser “vista” nas obras (principalmente) de amor dos cristãos. Assim como Deus não espera ser amado para amar, seus filhos amam.

Como escreveu Matthew Henry, não há um atributo de Deus mais recomendado a que imitemos do que sua bondade e amor.⁠4 Não nos é recomendado imitá-lo em seu poder, em sua criação, mas em seu amor. Como crianças (ou filhos e filhas) amadas devemos procurar agir uns para com os outros.

e andai em amor, como também Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus, em aroma suave.

A palavra e aqui funciona como uma forma de provar o que havia sido dito antes. Assim, se vocês são realmente filhos amados do Pai, vocês andarão da forma aqui descrita no verso 2.

Andai em amor. Ou seja, isso deveria ser parte do estilo de viver dos cristãos em éfeso. Não apenas uma exortação apostólica, mas um modo como eles viviam, naturalmente. É natural que um filho queira imitar o pai e a filha a mãe em alguns coisas da vida. Assim, não se espera que o filho de Deus não queira olha para seu pai e imitá-lo no dia a dia, como em uma brincadeira de mímica.

Andai é parte resultante do que esteve presente no início da vida cristã. A decisão inicial tomada pelos cristãos de seguir a Cristo envolveu o andai. Para que negassem a si mesmos e, arrependidos, se tornassem seguidores de Cristo, foi necessário ação. 

Os efésios deveriam continuar agindo, evitando entrarem em um estado de inércia espiritual, algo que o próprio Cristo os exortou quando lhes escreveu a carta que está registrada no livro de Apocalipse 2.1-7.

Nossas vidas devem ser uma oferta e sacrifício a Deus. Mas, como vivermos assim?

Embora hoje tais termos não sejam tão usados e frequentes, eram muito usados e conhecidos no Antigo Testamento. 

A entrega, sacrifício e morte de Cristo foi em oferecimento a Deus “em nosso lugar”. Ele pagou pelos nossos “crimes”, pelos nossos pecados. O justo pelos injustos. Jesus não se ofereceu na cruz para o Diabo, como se ele possuísse algo que deveria ser trocado. Não é disso que o Evangelho fala. O Evangelho fala de um justo e bom morrendo e pagando pelos erros e quebra da Lei de Deus cometidos por um sem número de indivíduos. Tais indivíduos haviam pecado contra Deus e deveriam pagar pelos erros cometidos. O problema é que nunca conseguiriam, e é por isso que, também, o inferno existe. Mas Deus prova seu amor nós entregando seu filho que morreu pagando pelos nossos erros e pecados. Assim, a morte de Cristo foi para pagar a Deus pelos erros que nós cometemos. E o Diabo não tem nada a ver com isso. Ele é só um marginal à beira de nossa história, alguém já condenado que nada pode fazer para mudar o que Cristo fez por nós.⁠5

Ele entregou-se a si mesmo por nós. Quando nos entregamos uns pelos outros, isso também é algo agradável a Deus, como que uma oferta e aroma suave.

Jo 15.13: Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos.

Rm 5.8: Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores.

Gl 2.20: logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim

Devemos nos oferecer a Deus assim também, mas agora, sem a necessidade de derramamento de sangue. Como sacrifícios vivos, e que permanecerão vivos após se sacrificarem. Aliás, o fato de se sacrificarem, fará deles seres humanos mais vivos ainda. Ao contrário do que acontecia na prática cúltica veterotestamentária israelita. E o aroma suave era sinal de que aquilo que faziam e viviam era agradável a Deus.⁠6

A maior prova de que provamos da graça e bondade de Deus é que começamos a agir e influenciar outros a agirem de um modo caridoso e amoroso. O amor nunca deve ser comprometido pela sinceridade, mas a sinceridade ser comprometida e embevecida com amor.

1João 4.8: Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor.

 

1 Marvin Richardson Vincent, Word studies in the New Testament, vol. 3 (New York: Charles Scribner’s Sons, 1887), 397.

2 Matthew Henry e Thomas Scott, Matthew Henry’s Concise Commentary on the Bible (Sociedade Bíblica do Brasil, 1939), Ef 5.2.

3 Robert James Utley, Paul Bound, the Gospel Unbound: Letters from Prison (Colossians, Ephesians and Philemon, then later, Philippians), vol. Volume 8, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 1997), 124.

4 Matthew Henry, Matthew Henry’s commentary on the whole Bible: complete and unabridged in one volume (Peabody: Hendrickson, 1994), 2315.

5 A.T. Robertson, Word Pictures in the New Testament (Nashville, TN: Broadman Press, 1933), Ef 5.2.

6 Robert James Utley, Paul Bound, the Gospel Unbound: Letters from Prison (Colossians, Ephesians and Philemon, then later, Philippians), vol. Volume 8, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 1997), 124.

NÃO DEIS LUGAR AO DIABO! É possível? Como? (Comentário de Ef 4.25-32)

Por isso, deixando a mentira, fale cada um a verdade com o seu próximo, porque somos membros uns dos outros. Irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira, nem deis lugar ao diabo. Aquele que furtava não furte mais; antes, trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com que acudir ao necessitado. Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, e sim unicamente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e, assim, transmita graça aos que ouvem. E não entristeçais o Espírito de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção. Longe de vós, toda amargura, e cólera, e ira, e gritaria, e blasfêmias, e bem assim toda malícia. Antes, sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus, em Cristo, vos perdoou.

Ef 4.25–32

25Por isso, deixando a mentira, fale cada um a verdade com o seu próximo, porque somos membros uns dos outros.

A principal expressão deste verso é deixando a mentira. Todo o texto está relacionado ao pequeno trecho do início do verso 27: não deis lugar ao diabo. Há das formas de não darmos lugar ao inimigo de nossas almas é deixando a mentira. Jesus ensinou a relação entre os que vivem na mentira e sua filiação demoníaca:

João 8.44: Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira.

Quando tornamo-nos filhos de Deus, tornamo-nos filhos da verdade e, automaticamente, deixamos de ter prazer ou indiferença com relação à mentira. Não olhamos para a mentira nem mesmo com indiferença, mas com preocupação. Cientes agora de que há uma paternidade em todo falso testemunho e um espírito que guia toda a mentira, passamos a pensar na seriedade que é agirmos de um modo que fere o pai da verdade, o nosso pai que está nos céus. Deixar a mentira e falar a verdade com nosso próximo é a atitude que se espera, ou melhor, é a atitude natural de alguém que torna-se filho ou filha de Deus.

O fato de sermos membros uns dos outros torna absurda toda mentira. Seria como um dedo olhar para o cotovelo e dizer, “estou com dor de cabeça” — e o cotovelo acreditar.

26Irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira,

A ira, em si, não é pecado. Animais se iram. Bebês se iram. Assassinos se iram. Deus se ira.

No entanto, há um nível ou momento em que a ira pode tornar-se pecaminosa. Ela só se torna pecaminosa quando damos lugar ao diabo. O próprio texto nos orienta com relação a como não dar lugar ao diabo: não se ponha o sol sobre a vossa ira. Paulo está citando:

Salmo 4.4: Irai-vos e não pequeis; consultai no travesseiro o coração e sossegai.

A ira guardada no coração é como o maná guardado no cesto. Se deixado de um dia para o outro, apodrecerá e passará a feder, tornando-se insuportável para aquele que guardou aquilo que deveria deixado de lado.

27nem deis lugar ao diabo.

É sobre isso que todo este final do capítulo quatro está a tratar. Não dar lugar ao diabo falando a mentira, não dar lugar ao diabo guardando ira e ressentimento no coração, além do que vem nos versos a seguir.

Todos os filhos de Deus foram libertos do poder e influência do Diabo e, logo, não devem dar a ele autoridade sobre suas vidas. Ele passará todo o tempo lhe tentando, seduzindo, enganando. Mas você, como alguém que já foi liberto, deve sempre resistir às suas ações. Você foi liberto, e deve resistir como diz Tiago:

Tiago 4.7: Sujeitai-vos, portanto, a Deus; mas resisti ao diabo, e ele fugirá de vós.

28Aquele que furtava não furte mais; antes, trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com que acudir ao necessitado.

Neste versos, Paulo trata dos pecados enquanto ações que ferem materialmente o próximo. Há pecados que ferem apenas emocionalmente nosso próximo, mas, sobre estes, Paulo tratará no verso seguinte.

O furto é algo que destrói a criação. Deus não nos criou para roubar, mas para partilhar, cuidar, ensinar e aprender. Paulo já havia falado sobre isso em Ef 2.10:

Efésios 2.10: Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.

Deus nos criou para que andássemos em boas obras, e não em furtos ou ações que tirem o que é dos outros. Quando alguém que roubava se torna filho de Deus, o primeiro fruto de sua conversão é devolver o que antes roubou:

Lc 19.1–10: Entrando em Jericó, atravessava Jesus a cidade.Eis que um homem, chamado Zaqueu, maioral dos publicanos e rico,procurava ver quem era Jesus, mas não podia, por causa da multidão, por ser ele de pequena estatura.Então, correndo adiante, subiu a um sicômoro a fim de vê-lo, porque por ali havia de passar.Quando Jesus chegou àquele lugar, olhando para cima, disse-lhe: Zaqueu, desce depressa, pois me convém ficar hoje em tua casa.Ele desceu a toda a pressa e o recebeu com alegria.Todos os que viram isto murmuravam, dizendo que ele se hospedara com homem pecador.Entrementes, Zaqueu se levantou e disse ao Senhor: Senhor, resolvo dar aos pobres a metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, restituo quatro vezes mais.Então, Jesus lhe disse: Hoje, houve salvação nesta casa, pois que também este é filho de Abraão.Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido.

Continuar na mentira, continuar roubando, continuar sem os frutos de uma nova vida é o mesmo que dar lugar ao diabo. Alguém que dá lugar ao diabo é alguém que não faz o bem com suas próprias mãos, que nunca acode ao necessitado. Alguém que dá lugar ao diabo, é alguém que nunca age com os frutos desta nova vida apresentada pelo apóstolo Paulo. Alguém que foge do trabalho ou que é negligente no que faz é alguém que está sempre a dar lugar ao diabo. Por essa razão, o trabalho desta pessoa torna-se um fardo ou uma tristeza para quem dele precisa.

29Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, e sim unicamente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e, assim, transmita graça aos que ouvem.

Agora, Paulo falar do pecado enquanto uma ação que fere emocionalmente o meu próximo. A palavra que Paulo usa para torpe é a palavra σαπρός (sapros), que trata de algo que pertence ao que é prejudicial em vista de seu ser insalubre e corrupto — algo que é insalubre e corrupto que corrompe e torna insalubre aquilo que toca, algo nocivo, prejudicial.⁠1

Esta palavra está em contraste com o que é bom para edificação. A palavra torpe é toda palavra que não é boa para a edificação. Não necessariamente qualquer palavra que não edifica, mas palavras que destroem, corrompem, prejudicam aqueles que a ouvem. Na língua portuguesa, a palavra torpe significa “depravado; que insulta os bons costumes: motivo torpe. Asqueroso; que causa nojo; que é nojento: ação torpe.”⁠2

É perfeitamente cabível tal tradução diante da palavra grega inspirada σαπρός. Nossas palavras não devem ser ditas ou escritas de um modo irresponsável. Não devemos falar ou escrever sem pensar como se nossa boa e nossas palavras fossem apenas de nossa própria conta. Nossa boca não é mais nossa, e nossas palavras devem ser transformada. Nunca se esqueça que seu eu foi crucificado e um novo homem vive em você, o homem Jesus Cristo. Suas palavras ditas ou escritas devem sempre honrar a ele, e nunca envergonhá-lo.

30E não entristeçais o Espírito de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção.31Longe de vós, toda amargura, e cólera, e ira, e gritaria, e blasfêmias, e bem assim toda malícia.32Antes, sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus, em Cristo, vos perdoou.

Dar lugar ao diabo, entristece ao Espírito Santo. Ele nos selou e nos reconhece, assim como o diabo também nos reconhece. Nos reconhece e sabe que não pode nem mesmo tocar naqueles que são de Deus (1Jo 5.18).

E, por fim, para que não venhamos a dar lugar ao diabo entristecendo o Espírito de Deus que habita em nós, é preciso que fujamos de tudo o que está no verso 31. Amargura, cólera, ira, gritaria, blasfêmias, e todo tipo de malícia.

Dar espaço a estas coisas em sua vida é dar lugar ao diabo. E quem dá lugar ao diabo, não pode estar dando lugar a Deus. Deus e o diabo não podem conviver em um mesmo corpo. Ou você está dando ouvidos e lugar a um ou a outro. E, se você está dando lugar ao diabo, Deus não está com você.

Resistindo ao diabo, ele fugirá de você. Daí, então, dando lugar a Deus, seja benigno (faça o bem ao próximo, fale bem do próximo, ame o bem, fuja do mal), seja compassivo, e perdoe, do mesmo jeito como você um dia foi perdoado. O fato de Deus dar perdão a você lhe obriga a perdoar a toda pessoa que lhe ferir o corpo ou a alma. Não perdoar é também dar lugar ao diabo.

A quem você está dando lugar em sua vida?

 

_______________________

1 Johannes P. Louw e Eugene Albert Nida, Greek-English lexicon of the New Testament: based on semantic domains (New York: United Bible Societies, 1996), 229.

2 Dicionário Online Português (http://www.dicio.com.br/torpe/). Acesso em 16 de novembro de 2014.

DESPIR-SE DE SI E REVESTIR-SE DE CRISTO (Comentário Ef 4.20-24)

Mas não foi assim que aprendestes a Cristo, se é que, de fato, o tendes ouvido e nele fostes instruídos, segundo é a verdade em Jesus, no sentido de que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe segundo as concupiscências do engano, e vos renoveis no espírito do vosso entendimento, e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade.

Ef 4.20–24

20       Mas não foi assim que aprendestes a Cristo,

O que os cristãos aprendem de Cristo não encontra paralelos em outras religiões universais. E tudo o que os efésios haviam aprendido em sua antiga vida pagã deveria ser deixado agora. É de Cristo que os efésios aprenderiam como viver, e o que o Evangelho de Jesus os ensinaria entraria em profundo contraste com o que antigamente conheciam e com o que os falsos mestres estavam ensinando. A nova vida em Cristo os desafiaria a um novo modo de viver.⁠1

O apóstolo Paulo já os vinha desafiando quanto à nova vida, à nova forma de pensar, não mais na vaidade de seus pensamentos ou afeições carnais. Essa nova vida os faria parecidos com Deus e não mais com o que eram anteriormente. Cristo nos ensina a viver de um modo diferente.

Os cristãos devem ser diferentes dos “gentios”, segundo Paulo. Cristo os ensina a viver de um modo diferente. Cristo é nosso livro, nossa lição, nosso caminho e nossa grade curricular. Nós devemos aprender de Cristo, com Cristo e em Cristo.⁠2

21       se é que, de fato, o tendes ouvido e nele fostes instruídos, segundo é a verdade em Jesus,

Aqui, Paulo passa a exortá-los como faz com todos os demais cristãos. Seu desejo é fazê-los pensar em sua própria salvação. Todos devem pensar em sua salvação. Se, por um lado, o Espírito Santo testifica com nosso espírito de que somos filhos de Deus, há muitos que se professam cristãos, que estão no meio cristão, mas que não possui o testemunho interno do Espírito, e muito menos a alegria da vida eterna, além de não possuir nenhuma evidência dos frutos de uma nova vida, frutos de arrependimento e frutos do Espírito Santo.

Para estes, o auto-exame torna-se urgente. Obviamente, não só para estes. Todos devem realizar o auto-exame diariamente. E, sem dúvida, todos devem se questionar se é de Cristo que têm aprendido como viver.

Aos coríntios, Paulo escreveu algo parecido, porém de uma forma mais direta:

Examinai-vos a vós mesmos se realmente estais na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não reconheceis que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados.

2Co 13.5

Todos devem constantemente se questionar se estão aprendendo de Cristo e se estão ouvindo a Cristo. É ele quem instrui os cristãos como viver. É dele que você e eu devemos buscar conselhos sobre como viver. Não apenas como viver na igreja, mas em todas as áreas e situações de nossa vida.

A verdade está apenas em Jesus, a verdade sobre o perdão, sobre o casamento, sobre o inferno, sobre o plano de Deus para sua vida, etc. Não queira conhecer verdades sobre qualquer coisa à parte de Cristo. Ele é o criador de todas as coisas e a verdade por traz de todas as coisas. A “verdade em Jesus” é usada em um sentido essencial. Ele é a essência da verdade e a mesma em sua mais alta perfeição.⁠3

Há alguns textos que nos ajudam a perceber um pouco mis da verdade em Jesus:

João 1.14: E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.

João 1.17: Porque a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo.

João 18.37: Então, lhe disse Pilatos: Logo, tu és rei? Respondeu Jesus: Tu dizes que sou rei. Eu para isso nasci e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz.

João 8.44: Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira.

Os cristãos andam na verdade que aprenderam em Jesus.

22       no sentido de que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe segundo as concupiscências do engano,

A principal palavra deste verso é despojeis (do grego ἀποτίθεμαι). Literalmente, esta palavra significa “por de lado”. Trata-se de uma figura de linguagem para nos ensinar que devemos parar de fazer o que antes estávamos acostumados, despindo-nos daquele antigo jeito ou forma de viver.⁠4 

Quando Paulo fala sobre o velho homem, ele fala de algo que estava em nós, mas que agora não está mais. Assim como nos despimos de uma roupa, devemos nos despir do velho homem. Compare com estes versos:

Romanos 6.6: sabendo isto: que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos;

Colossenses 3.9: Não mintais uns aos outros, uma vez que vos despistes do velho homem com os seus feitos

Algo que é instruído sobre o velho homem é que ele se corrompe. Ele se corrompe porque ainda existe. Nós nos despimos dele, mas ele não deixa de existir. E este velho homem que havia em nós se corrompia segundo as concupiscências do engano. O velho homem nada mais é do que o homem que sempre fomos e que, alguns, talvez ainda sejam. Por isso, Paulo os exorta a se auto-examinarem a fim de saberem se, de fato, foram revestidos do novo homem que não traz vícios ou mentiras como o antigo trazia.⁠5

Quando uma pessoa se converte a Cristo Jesus, experimenta uma profunda mudança em seu comportamento. Tal pessoa passa a viver uma nova posição diante de Deus. “O venho homem é posto fora, e nós podemos agora andar em novidade de vida através de Cristo.”⁠6

Não apenas nossa mente é mudada, mas nossa cidadania também. Passamos a nos ver mais como cidadãos do reino dos céus do que deste mundo. Nos vemos como peregrinos neste mundo. Somos uma “nova criação” em Cristo, feita por Cristo e para Cristo.

E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas.

2Co 5.17

Os desejos e as ideias da antiga criação, ou do velho homem, não devem controlar mais as nossas mentes. Como disse Wiersbe, como cristãos, não apenas tivemos nossas mentes mudadas, mas a nossa cidadania também mudou. Pertencemos a um outro reino, e nossas atitudes e desejos estão a cada dia sendo moldados pelos desejos e atitudes dessa nova vida.

Se você pertence a Cristo, você não pertence mais à corrupção que o pecado pode causar, mas você pertence a Cristo. Então, tanto os efésios quanto você e eu precisamos nos auto-examinar e continuarmos a nos despir de tudo o que está relacionado à corrupção do pecado. E como é que fazemos isso?

23       e vos renoveis no espírito do vosso entendimento,

Aqui está a resposta. Somente pela renovação de nosso entendimento das coisas é que poderemos viver despidos do velho homem. Enquanto nosso entendimento não form renovado, não conseguiremos nos despir da velha vida, dos velhos hábitos, dos velhos pecados. 

Nosso “espírito” tem de se renovar. Paulo não está falando sobre o Espírito Santo, mas sobre o espírito de nosso entendimento. A palavra grega ἀνανεοῦσθαι (ananeoûsthai, ou seja, “[vos] renoveis”) implica “o renovar contínuo na fase inicial de um novo homem”. Isso é interessante, pois a língua grega possui outra palavra para a renovação continuada de um antigo estado, e não é isso que o texto está dizendo. A palavra aqui usada não trata de algo antigo que é renovado, mas de algo novo que continuará a ser renovado.⁠7

Além disso, é importante que entendamos que o espírito de nosso entendimento está em contraste com a “vaidade de nossos pensamentos” que acabam por “obscurecer nosso entendimento”. O homem que teve um encontro com Cristo possui um novo modo de pensar e de entender todas as coisas.

24       e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade.

Mais uma vez o texto usa a metáfora da roupa para nos ajudar a compreender o que significa nascermos de novo. Ser criado “de novo” segundo Deus (e não segundo os homens), o que traz verdadeira justiçam e retidão ao coração de quem nasceu de novo, faz com que o homem experimento o que é viver sem a “velha roupagem”, mas revestido com a misericórdia e a justiça de Cristo que o fazem um verdadeiro filho ou filha de Deus.

Todos nós poderemos ser usados por Deus para ajudar pessoas a caminharem para a santificação e para uma nova vida. Com estas palavras, Paulo demonstra sua preocupação em ajudar seus amigos e irmãos a crescer em sua santidade, a andarem em novidade de vida. Suas palavras demonstram o amor de alguém que se preocupa por que sabe que não há nada melhor para seus amigos do que ser renovado no entendimento e ver, dia após dia, Cristo sendo formado nos seus. O mesmo zelo Paulo demonstrou pelos gálatas:

Gálatas 4.19: meus filhos, por quem, de novo, sofro as dores de parto, até ser Cristo formado em vós;

Como escreveu Utley: “A nossa salvação é gratuita, mas nossa maturidade cristã custa tudo!”⁠8 Ser um verdadeiro cristão tem a ver com você morrer para poder nascer, você se despir e deixar tudo para que você possa se revestir e ser alguém totalmente novo, a cada dia mais novo.

 

1 Robert James Utley, Paul Bound, the Gospel Unbound: Letters from Prison (Colossians, Ephesians and Philemon, then later, Philippians), vol. Volume 8, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 1997), 114.

2 Matthew Henry, Matthew Henry’s commentary on the whole Bible: complete and unabridged in one volume (Peabody: Hendrickson, 1994), 2314.

3 Robert Jamieson, A. R. Fausset, e David Brown, Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible, vol. 2 (Oak Harbor, WA: Logos Research Systems, Inc., 1997), 351.

4 Johannes P. Louw e Eugene Albert Nida, Greek-English lexicon of the New Testament: based on semantic domains (New York: United Bible Societies, 1996), 657–659.

5 Marvin Richardson Vincent, Word studies in the New Testament, vol. 3 (New York: Charles Scribner’s Sons, 1887), 395.

6 Warren W. Wiersbe, The Bible exposition commentary, vol. 2 (Wheaton, IL: Victor Books, 1996), 40.

7 Robert Jamieson, A. R. Fausset, e David Brown, Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible, vol. 2 (Oak Harbor, WA: Logos Research Systems, Inc., 1997), 351.

8 Robert James Utley, Paul Bound, the Gospel Unbound: Letters from Prison (Colossians, Ephesians and Philemon, then later, Philippians), vol. Volume 8, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 1997), 114.

A VAIDADE DOS NOSSOS PENSAMENTOS (Comentário de Ef 4.17-19)

Seguir o próprio coração é algo errado? É algo perigoso? Ou é algo que todos devemos fazer? “Seguir o coração” é o conselho mais dado em nosso tempo. Seja dentro de um caríssimo consultório psicológico, seja por uma dona de casa orientando sua filha, seja por um adolescente de 14 anos conversando com seu amigo sobre o que farão de suas vidas.

Devemos confiar apenas em pessoas confiáveis. Há pessoas que acreditam que nenhum ser humano é confiável. Preferem confiar em cachorros ou gatos. Ou passarinhos. Ou ratinhos. Jamais em seres humanos.

Paulo, no texto a seguir, é usado pelo Espírito Santo para nos ensinar que o ser mais enganoso do mundo mora dentro de nós — o nosso “coração”. Se não podemos confiar nos seres humanos, isso nos inclui. Vejamos o por que de sermos seres tão “enganosos” e “perigosos” assim.

Isto, portanto, digo e no Senhor testifico que não mais andeis como também andam os gentios, na vaidade dos seus próprios pensamentos, obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus por causa da ignorância em que vivem, pela dureza do seu coração, os quais, tendo-se tornado insensíveis, se entregaram à dissolução para, com avidez, cometerem toda sorte de impureza.

Ef 4.17–19

Isto, portanto, digo e no Senhor testifico 

“Portanto”, ou seja, resumindo tudo aquilo que Paulo começou em Ef 4.1, ele conclui com a aplicação destas palavras. Este “portanto” está ligado ao que foi começado no início desta perícope.

Seu resumo e conclusão são realizados debaixo de um profundo senso de comunhão e dependência de Cristo Jesus. Ele não há de dizer nada sem a plena convicção o que ele diz, diz no Senhor, como se o próprio Senhor estivesse dizendo através dele. Na verdade, é ele quem está no Senhor e, por isso, é capaz de escrever com tanta autoridade e convicção de que estas palavras honram a Cristo e estão em pleno acordo com a sua vontade.

que não mais andeis como também andam os gentios, na vaidade dos seus próprios pensamentos,

O testemunho que, em Cristo, Paulo dá tem a ver, mais uma vez — ele tratou disso no início do capítulo 2 —, como a maneira como os cristão andam e vivem. Andar, mais uma vez, tem mais a ver com o modo de vida, o “estilo de vida” (way of life), do que com passos que alguém dá literalmente em direção a um lugar.

O Espírito está falando através de Paulo com os efésios e conosco sobre a maneira como nós vivemos, falamos, agimos e pensamos. E é exatamente aqui, no “pensamento” que a maior de todas as batalhas acontece.

Não é interessante pensarmos no que a Bíblia diz sobre o “pensamento”? A Bíblia se preocupa com nossos pensamentos. Há pessoas que pensam que a Bíblia não trata nada sobre o pensamento, que seu foco está mais no que fazemos do que no que pensamos. Mas, isso não é verdade. Não apenas aqui, mas também nestes outros textos a Sagrada Escritura foca na raiz de nossos problemas:

Guarda-te não haja pensamento vil no teu coração, nem digas: Está próximo o sétimo ano, o ano da remissão, de sorte que os teus olhos sejam malignos para com teu irmão pobre, e não lhe dês nada, e ele clame contra ti ao SENHOR, e haja em ti pecado.

Dt 15.9

Nem no teu pensamento amaldiçoes o rei, nem tampouco no mais interior do teu quarto, o rico; porque as aves dos céus poderiam levar a tua voz, e o que tem asas daria notícia das tuas palavras.

Ec 10.20

Portanto, assim te farei, ó Israel! E, porque isso te farei, prepara-te, ó Israel, para te encontrares com o teu Deus. Porque é ele quem forma os montes, e cria o vento, e declara ao homem qual é o seu pensamento; e faz da manhã trevas e pisa os altos da terra; SENHOR, Deus dos Exércitos, é o seu nome.

Am 4.12–13

Em todos estes textos, o foco do Senhor está no pensamento do homem, naquilo que também é chamado de “coração” em alguns outros lugares:

Jesus, porém, conhecendo-lhes os pensamentos, disse: Por que cogitais o mal no vosso coração?

Mt 9.4

Este texto, mais claro do que qualquer outro, mostra Jesus conhecendo “os pensamentos” e questionando-os sobre o mal que estava em seu “coração”. Obviamente, Jesus não falava do órgão responsável pelo pelo percurso do sangue que ele mesmo bombeia para toda parte do organismo humano. Coração, para Cristo, é uma figura de linguagem, mais especificamente, uma metáfora do pensamento humano. É de lá, do “coração”, ou, dos “pensamentos”, que nascem ou brotam tudo aquilo que acabamos fazendo na prática.

Vejam estas outras palavras de Cristo:

Raça de víboras, como podeis falar coisas boas, sendo maus? Porque a boca fala do que está cheio o coração. O homem bom tira do tesouro bom coisas boas; mas o homem mau do mau tesouro tira coisas más.

Mt 12.34–35

Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.

Mt 15.8

Mas o que sai da boca vem do coração, e é isso que contamina o homem. Porque do coração procedem maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias.

Mt 15.18–19

Nós achamos que conhecemos nosso coração, mas o fato é que não temos nem noção do que se passa por lá. Somos completamente ignorantes e não nos conhecemos. Você, aqui, pode discordar de mim. Mas o fato é que a Bíblia nos ensina que nosso coração é enganoso, corrupto, e que ninguém pode conhecê-lo.

Para conhecer nosso coração, ou seja, para que conheçamos melhor a nós mesmos, é necessário que conheçamos a Deus primeiro. Somente Ele pode nos ensinar, sem que nada nos engane, quem realmente somos, e o que verdadeiramente está em nosso coração. Seguir o coração sem seguir a Deus mantém o coração humano debaixo do mesmo engano de sempre.

Jeremias escreveu sobre o engano de nosso coração:

 

Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá? Eu, o SENHOR, esquadrinho o coração, eu provo os pensamentos; e isto para dar a cada um segundo o seu proceder, segundo o fruto das suas ações.

Jr 17.9–10

Ciente dessa verdade, Davi ora a Deus pedindo que seu coração pudesse ser renovado e purificado. E Davi sabia que ele mesmo não poderia mudar seu próprio coração. Não fosse Deus transformando seu coração, nada mudaria. Ele se esforçaria até o final da vida, mas não sairia do lugar. Por isso, Davi orou:

Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável.

Sl 51.10

A vaidade de nossos pensamentos se revela quando agimos e vivemos por coisas vazias, vãs. A palavra usada por Paulo, ματαιότητι (mataiótēti), denota algo vazio, oco. Vaidade tem a ver com algo vazio, sem sentido, oco, morto. Algo que acontece, mas que não faz diferença nenhuma em nossas vidas. Algo que esquecemos na semana seguinte, quando não esquecemos na manhã seguinte. Isso é a vaidade.

Correr atrás da vaidade, ou viver na vaidade de nossos pensamentos, é viver uma vida sem sentido, sem razão, vazia, e não foi para isso que Deus lhe criou. A preocupação de Paulo com estas palavras é ajudá-los a viverem melhor. Pensamentos vazios ou fúteis são pensamentos que nos levam ao pecado. É de nossos pensamentos que cada pecado sai. E é por isso que, nem mesmo em pensamento devemos ferir alguém, matar alguém ou cobiçar este alguém.

Jesus se preocupou em nos ensinar mais sobre nossos pensamentos do que sobre nossas ações. Isso deve  nos fazer pensar seriamente na maneira em que vivemos e no que preenche nosso pensamento. Ao concluir sua carta aos filipenses, Paulo escreveu sobre isso:

Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento.

Fp 4.8

obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus por causa da ignorância em que vivem, pela dureza do seu coração,

Quando nossa mente é vazia, ou seja, cheia apenas de coisas que não prestam, nosso entendimento acaba sendo obscurecido. Entendimento aqui tem a ver com a nossa razão, aquilo que compreendemos das coisas. Pensamento é diferente de razão. Quando o pensamento é pecaminoso, a razão obscurece e o ser humano permanece na ignorância e mediocridade.

Esta vida ignorante, vazia, triste, cheia de dificuldade para compreender (razão) as coisas é fruto de uma vida cujos pensamentos estão voltados o tempo todo para coisas vazias.

A conclusão disso é que tais pessoas ficarão alheias à vida de Deus. Ninguém fica alheio, ou seja, alienado, separado de Deus, de seu povo e de sua Palavra sem que, antes, encha o pensamento somente com coisas vazias. Pensamento vazio e pecaminoso nos traz dificuldade para entender a vida, dificuldade para raciocinar, além de nos levar a cada dia para mais longe de Deus. Pensamentos vazios nos tornam ignorantes.

Paulo ainda destaca que é pela dureza do coração do ser humano que ele age desta forma. A maioria das pessoas não gostam de pensar naquilo que é bom, naquilo que está associado a Deus e sua Palavra. Antes, amam o que Deus odeia, e odeiam o que Ele ama. Isso torna seus corações cada vez mais duros insensíveis a Deus e ao próximo. Paulo continua, em Ef 4, falando isso…

os quais, tendo-se tornado insensíveis, se entregaram à dissolução para, com avidez, cometerem toda sorte de impureza.

“Tendo-se tornando insensíveis”, ou seja, insensíveis quanto a Deus e quanto ao próximo, cada dia mais egoístas, mais autocentrados, mais distantes de Deus e de seu semelhante, vivendo numa vida fantasiosa, sofrendo apenas quando seu mundo interior e suas fantasias egoístas não são realizadas. Seu foco é apenas em si mesmos e, até mesmo sua relação com as demais pessoas, é egoísta e pecaminosa.

É por isso que Paulo diz que tais pessoas se entregaram à dissolução para, com avidez, cometerem toda sorte de impureza. 

Não há limites para quem se entrega à vaidade de seus próprios pensamentos. Não há limites para o fim desse abismo. O fim do egoísmo é a morte e o completo esquecimento. E Deus não lhe criou para isso. Deus lhe criou para um propósito maior que seu coração jamais lhe revelará. Somente em Cristo o homem encontrará perfeitamente sua razão de viver.

COMO FALAR SEM OFENDER (Comentário de Ef 4.15-16)

Para vocês, o que é mais importante: falar a verdade, ou amar?

Se sua resposta foi: falar a verdade, você errou, pois falar a verdade sem amor é brutalidade.

Se sua resposta foi: amar, você errou também, pois amar sem ser verdadeiro é hipocrisia.

A única resposta que demonstra maturidade é: as duas coisas. Alguém maduro é alguém que sabe falar a verdade em amor, brandamente. Paulo, em Ef 4.15-16 está a dizer de outra maneira aquilo que escreveu às igrejas na Galácia:

Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura; e guarda-te para que não sejas também tentado. Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo. Porque, se alguém julga ser alguma coisa, não sendo nada, a si mesmo se engana.

Gl 6.1–3

O espírito de brandura sempre deve estar presente quando alguém for falar a verdade para outro, principalmente se esta verdade for sobre o pecado desta outra pessoa. 

Verdade e unidade sempre estiveram em disputa na igreja cristã. A razão é simples: imaturidade. Apenas crianças não conseguem lidar com o equilíbrio verdade/unidade. Paulo, no texto abaixo, mostra como um cristão pode ser saudável à medida que experimenta crescimento em amor e verdade. Um sem o outro é sinal de enfermidade espiritual. Não é possível nem mesmo haver crescimento pessoal — ou coletivo — sem que estejamos lidando maduramente com a verdade e o amor.

   Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor.

   Ef 4.15–16

 Mas, seguindo a verdade em amor, 

Não há como existe amor sem a verdade, e não há como existir a verdade sem o amor. A primeira palavra deste verso é ἀληθεύοντες (alētheúontes) que significa literalmente “falando a verdade”. Pode significar também “ser verdadeiro”, e, especialmente nesta passagem, significa “caminhando na verdade”. A pergunta que poderíamos fazer é: qual verdade? No tempo em que vivemos, a relativização da verdade torna este verso uma base para qualquer heresia.

Não creio na relativização da verdade, pois a mesma é bem descrita na Palavra e está associada a uma pessoa e sua mensagem. Cristo e o Evangelho são a verdade. E é bom lembrar que o Evangelho está presente tanto no Novo quanto no Antigo Testamento.

No entanto, devemos caminhar sobre o Evangelho e em Cristo em amor. A experiência de Esdras demonstra alguém que viveu esta recomendação antes mesmo dela existir:

Porque Esdras tinha disposto o coração para buscar a Lei do SENHOR, e para a cumprir, e para ensinar em Israel os seus estatutos e os seus juízos.

Ed 7.10

Falar a verdade em amor é sinal de maturidade cristã. Há quem ame, mas não consegue falar a verdade. E há quem goste de falar a verdade, mas não sabe falá-la de um modo amoroso. Por isso, só se vive esta orientação do verso 15 em um estado de maturidade cristã.

Como escreveu Warren Wiersbe, “verdade sem amor é brutalidade, mas amor sem verdade é hipocrisia”.⁠1 A fim de não sermos hipócritas ou brutos, precisamos crescer, amadurecer, em tudo “naquele que é a cabeça, Cristo”.

cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, 

Cristo é o cabeça e de tudo o que é feito no Corpo. É ele quem nos dá a direção para o crescimento. Sem suas orientações, correríamos ao redor do rabo, como um pequeno cachorro, sem sair do lugar. É pela iluminação de suas palavras que encontramos o caminho para sairmos da imaturidade e deixarmos a brutalidade ou a hipocrisia. O que Deus espera de nós é a presença tanto da verdade quanto do amor em nossas vidas. Mas nada disso seria possível sem que tivéssemos Cristo como cabeça, como orientador e alimentador deste Corpo.

de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor.

Outra evidência de maturidade na vida de um cristão é quando este está em cooperação com outros cristãos. Ef 4.16 explica que os membros de um corpo local — uma igreja local — pertencem um ao outro, afetam um ao outro, e precisam um do outro. Não há pessoa insignificante no Corpo de Cristo. Paulo já havia dito em Ef 4.2:

com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor,

Ef 4.2

Qualquer pessoa que deixa de viver isso, deixa de viver a vontade de Deus. E, nisso, peca. Por mais que tal pessoa se considere insignificante ou incapaz, tais considerações são uma mentira de sua mente para sua própria alma. Assim como não há partes em um corpo humano que sejam consideradas insignificantes a ponto de considerarmos retirá-las de nosso corpo, também não há parte insignificante no Corpo de Cristo. Todos no Corpo possuem um propósito aos olhos de Deus, e crescem à medida em que são alimentadas, exatamente como é no corpo humano. Este crescimento acontece à medida em que o alimento espiritual é administrado fielmente a estes membros. Quem não se alimenta da Palavra, permanecerá sempre um bebê espiritual, um bebê amado, mas que por não se alimentar, permanecerá sempre dependente dos outros, carente dos outros, inútil, hipócrita e bruto. A única solução — ou remédio — para isso é a correta administração da Palavra na vida deste membro bebê que nunca cresceu.

Daqui nós entendemos que a unidade espiritual não é algo fabricado com técnicas ou estratégias. Por mais úteis para a comunhão que sejam as comunidades familiares, os grupos familiares, as células, os pequenos grupos, os núcleos de estudo bíblico, e os tantos modelos que existem de reuniões familiares entre os cristãos, nada disso pode dar verdadeira unidade espiritual. Somente o alimento espiritual, somente a Verdade pode unir de verdade. A ausência da Verdade de Deus só gera hipocrisia. E os cristãos devem fugir da mesma. É assim que, falando a verdade em amor, vivemos juntos, equipamos e edificamos uns aos outros, a fim de que todos nós possamos crescer e ser mais parecido com Cristo.⁠2

De Cristo, o cabeça, a igreja recebe força para crescer. É dele que vem a capacidade para crescermos e nos edificarmos. As palavras “bem ajustado e consolidada” (συναρμολογούμενον καὶ συμβιβαζόμενον – synarmologoúmenon kaì symbibazómenon). A correta identificação destas palavras nos levam à compreensão de algo que está em harmonia ou adaptação e de algo compacto ou sólido.⁠3 O crescimento da igreja deve levá-la a um nivele compactação e plena alegria, celebração. 

É necessário que estejamos bem ajustados e consolidados. Isso só se dá pela participação de todos, estando todos cientes de seu lugar no corpo, seus dons, suas funções, suas vocações. É em amor que todo esse processo acontece. Pedro escreveu isso de um modo brilhante em sua segunda epístola:

por isso mesmo, vós, reunindo toda a vossa diligência, associai com a vossa fé a virtude com a virtude, o conhecimento; com o conhecimento, o domínio próprio com o domínio próprio, a perseverança com a perseverança, a piedade; com a piedade, a fraternidade com a fraternidade, o amor. Porque estas coisas, existindo em vós e em vós aumentando, fazem com que não sejais nem inativos, nem infrutuosos no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo. Pois aquele a quem estas coisas não estão presentes é cego, vendo só o que está perto, esquecido da purificação dos seus pecados de outrora. Por isso, irmãos, procurai, com diligência cada vez maior, confirmar a vossa vocação e eleição; porquanto, procedendo assim, não tropeçareis em tempo algum. Pois desta maneira é que vos será amplamente suprida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

2Pe 1.5–11

Segundo o texto, devemos ser “frutuosos no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo”. Ou seja, nossa vida deve dar frutos naturalmente; frutos de arrependimento, frutos de bondade, frutos de perdão, frutos de mansidão, frutos de uma nova vida, frutos do Espírito Santo de Deus em nossas vidas.

Cada parte no Corpo de Cristo coopera para o crescimento das demais partes. Ninguém é inútil no Corpo de Cristo, muito menos esquecido. Cristo usa a todos, a menos que uma parte desse todo esteja doente, fraco, carecendo de restauração.

O ideal no Corpo é estar ele todo junto, cooperando, amando, perdoando, e fazendo a Obra que Ele, a Cabeça, nos deixou para fazer. O Corpo de Cristo é um organismo vivo que cresce ou adoece. Paulo está aqui orientando a igreja a maneira como o crescimento ocorre saudavelmente.

A metáfora do corpo humano serve para enfatizar a unidade (em amor) que deve sempre estar presente na Igreja.⁠4 Toda desunião é como uma ferida aberta no corpo por onde vírus e bactérias estranhas ao corpo entram no mesmo. Todo desentendimento ou desunião é uma porta aberta para Satanás, espíritos imundos e malignos, além de ser uma porta aberta para falsos mestres também. Um corpo saudável que se protege do mal é um corpo que cresce em amor, falando a verdade sempre em amor.

É vital que “cresçamos” em Cristo se queremos ser uma expressão válida de Jesus para o mundo de hoje. E esse crescer só pode se dar através do amor de cada parte, de cada membro, de cada um por seu próximo. Sem amor, não crescemos. Sem amor, você não crescer.⁠5 

Voltando ao texto aos Gálatas, citado mais acima, entendemos que não há, para o cristão, como falar a verdade sem amor. Fazer isso é imaturidade, despreparo e pecado. Tal pessoa nem deveria falar, pois está tentando corrigir um pecado cometendo outro:

Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura; e guarda-te para que não sejas também tentado. Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo. Porque, se alguém julga ser alguma coisa, não sendo nada, a si mesmo se engana.

Gl 6.1–3

Falar sem amor é julgar ser mais que o outro. Como Paulo diz: se alguém julga ser alguma coisa, não sendo nada, a si mesmo se engana. É exatamente por reconhecermos que não somos ninguém sem a graça de Deus que procuramos falar com amor àquele(a) que nos feriu.

A lei de Cristo, ou seja, a vontade de Deus, é também que levemos uns aos outros, que suportemos uns aos outros, em amor. E quando alguém encontrar seu irmão ou irmã em pecado, que o(a) procure com espírito de brandura, guardando-se para cair no mesmo erro, agindo em tudo pensando no crescimento do outro que, na verdade, é o crescimento de si mesmo.

 

1 Warren W. Wiersbe, The Bible exposition commentary, vol. 2 (Wheaton, IL: Victor Books, 1996), 38.

2 Warren W. Wiersbe, The Bible exposition commentary, vol. 2 (Wheaton, IL: Victor Books, 1996), 39.

3 Marvin Richardson Vincent, Word studies in the New Testament, vol. 3 (New York: Charles Scribner’s Sons, 1887), 392–393.

4 Robert James Utley, Paul Bound, the Gospel Unbound: Letters from Prison (Colossians, Ephesians and Philemon, then later, Philippians), vol. Volume 8, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 1997), 112.

5 Larry Richards e Lawrence O. Richards, The teacher’s commentary (Wheaton, IL: Victor Books, 1987), 924.

SER CRENTE É SER BURRO? OU CONVERSÃO TORNA-NOS MAIS INTELIGENTES?

Na seqüência do seu comentário sobre a concessão divina de homens como pastores, Paulo começa a aprofundar mais a razão pela qual tais homens são dados como dons à igreja.

Para Deus, a unidade do Corpo é essencial para o crescimento. Esta é a razão pela qual o Senhor vai ensinar no texto abaixo que todos deveriam crescer juntos em todos os sentidos, embora para muitos a tentação seria permanecer crianças, imaturos, enfraquecendo e atrapalhando o crescimento de todo o Corpo.

Vejamos porque é importante que todos no Corpo cresçam juntos, em todos os sentidos.

Até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro.
Ef 4.13–14

Até que todos cheguemos à unidade da fé

O objetivo da existência desses homens sobre a igreja de Jesus Cristo é, mais uma vez, levá-los à unidade através da única coisa que pode promover boa e sólida saúde à este Corpo, o Corpo de Cristo: o alimento da Palavra de Deus.

Sem este alimento, não é possível haver saúde. E se não há saúde, não há unidade. É por isso, mais uma vez, que o Senhor colocar homens sobre sua igreja para alimentá-la com o Evangelho e para lhes orientar através da pregação tudo o que está relacionado ao Evangelho e às suas vidas diárias.

Até que a igreja seja perfeita, tais homens estarão sobre ela. Como sabemos que tal perfeição só se encontrará no Novo Céu e Nova Terra, apenas lá os pastores deixarão de existir.

A expressão “unidade da fé” mostra como o Senhor espera que caminhemos com relação ao que cremos. Não deve haver diferença de fé em uma igreja local. Todos devemos nos esforçar para caminhar debaixo de uma mesma confissão de fé. Toda igreja deve ser confessional. Nenhuma igreja deve manter-se baseada na unidade, na amizade e na fraternidade. O que deve unir uma igreja é a sua fé na verdade.

De modo que, sem tal unidade, não é possível continuar a caminhar como igreja. Para qualquer pessoa que queira continuar a caminhar junto de outras pessoas, mas que não confessam a mesma fé que aquelas jamais chegará com elas à unidade da fé. A unidade só o é se o for na fé. Sem fé, não há unidade espiritual. Pode haver unidade por simpatia — como em qualquer associação ou clube de amigos —, mas não a unidade espiritual pretendida e anunciada por Cristo na oração de João 17, pouco antes de sua paixão e morte.

e do pleno conhecimento do Filho de Deus,

A unidade, segundo Paulo, não seria apenas da fé, ou seja, naquilo que se crê e se confessa publicamente, mas também no “pleno conhecimento do Filho de Deus”.

A unidade do pleno conhecimento mostra o quanto o Senhor deseja que cresçamos juntos e alcancemos juntos os benefícios advindos da comunhão do Espírito. O propósito de Deus para a sua igreja é que todos cresçam e não apenas uns poucos.

Todo aquele que deixa o conhecimento e o crescimento espiritual para outros por entender que não precisa disso, ou que não foi chamado para isso, atrapalha todo o restante do Corpo ao não cooperar com o crescimento de cada parte. Deus não deseja que apenas uns poucos cheguem ao pleno conhecimento, mas que todos cheguem lá.

Logo, todos em uma igreja devem assumir seu compromisso em estudar, ler, e ouvir para aprender mais da Palavra de Deus. Ninguém pode ficar fora disso.

E, note, o conhecimento virá de homens que o Senhor chamou para pastorearem a igreja de Deus. Mais uma vez, a tarefa dos pastores fica clara neste texto: levar o rebanho à unidade da fé e ao pleno conhecimento de Cristo. Como é possível fazer isso sem o ministério da Palavra? Como é possível fazer isso sem que o mesmo se dedique, se esmere em estudar, conhecer mais, escrever sobre, fazer cursos, e tantas outras coisas relacionadas à Palavra de Deus? Simplesmente, não é possível.

Algo interessante a se notar é que a palavra “pleno conhecimento” (ἐπιγνωώσεως – é uma palavra só em grego) não é o mesmo que fé. Não apenas dever ter a mesma fé, crermos na mesma coisa, mas crermos o mesmo sobre a pessoa bendita de nosso Senhor Jesus Cristo. O conhecimento de Cristo está relacionado ao que sabemos sobre sua vida, paixão, morte, ressurreição, ascensão e atual atuação sobre seu povo.[1]

Quando uma pessoa afirma que tem um determinado pensamento sobre a pessoa de Cristo, tal atitude pode muito bem constituir-se em uma idolatria, caso tal pensamento sobre Jesus não seja bíblico, mas fruto da imaginação pessoal ou de uma experiência que a pessoa teve com Deus em algum momento de suas vidas.

à perfeita varonilidade,

εἰς ἄνδρα τέλειον (à perfeita varonilidade), literalmente significa “para o homem maduro”. Tem a ver com aquilo que Paulo escreveu aos coríntios:

1Coríntios 2.6: Entretanto, expomos sabedoria entre os experimentados; não, porém, a sabedoria deste século, nem a dos poderosos desta época, que se reduzem a nada;

Tal “varonilidade” como traduzido à língua portuguesa deseja apontar para a maturidade à qual Deus deseja que todos cheguemos. O autor aos hebreus foi ainda mais específico:

Hebreus 5.14: Mas o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que, pela prática, têm as suas faculdades exercitadas para discernir não somente o bem, mas também o mal.

Mais uma vez, o desejo do Senhor é nos levar, nos conduzir, à maturidade no conhecimento. De um modo bastante simples, poderíamos colocar que a conversão é o passo inicial para qualquer pessoa que deseja conhecer coisas novas e maiores do que as que estamos acostumados a conhecer e lidar na Terra. Converter-se torna a pessoa mais inteligente. Ou, pelo menos, é à inteligência que a conversão deveria conduzir qualquer pessoa. Logo, é um contrassenso alguém se converter e não querer ler e estudar e conhecer melhor a Cristo e Sua Palavra.

A todo convertido, o Espírito Santo levará a crescer em conhecimento através dos pastores e mestres dados por Deus à Sua Igreja. Pastores, professores, professoras, pais e mães, que conduzirão a outros a crescer em conhecimento a respeito da pessoa de Jesus. A ideia de um “homem perfeito” ou “perfeita varonilidade” contrasta aqui com o permanecer crianças no conhecimento e na comunhão.[2]

à medida da estatura da plenitude de Cristo,

Com tais palavras, o Espírito Santo nos conduz a compreendermos que todo o crescimento nada mais é do que um conformar-nos à imagem de Cristo, o filho de Deus. Deus, o Pai, deseja nos tornar parecidos com seu Filho e, por isso, nos conduz à unidade da fé e do pleno conhecimento de Jesus.

Ele assim nos conduz por que deseja que sejamos como o Seu Filho foi aqui na Terra. Em essência, é mais do que óbvio que nunca seremos como Cristo. Mas, em atitude e humanidade, ele é o nosso norte; ele é o nosso alvo, o nosso principal modelo.

Como bem escreveu Matthew Henry, “Enquanto estão neste mundo, os filhos de Deus irão crescer (em conhecimento); e o crescimento dos cristãos tende à glória de Cristo[3]”.

para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro.

Eis o porque da importância da doutrina. Eis a razão de Deus, por meio de Seu Espírito, nos conduzir à maturidade espiritual através do estudo de Sua Palavra: para que não sejamos meninos inconstantes!

A palavra “menino” não tem nada a ver com a ideia de “pequenino” presente em outras partes da Escritura. Menino aqui traz em si a ideia de alguém que não cresceu. Aliás, alguém que, possivelmente, é cristão há décadas, mas ainda não cresceu, ainda é menino.

Seja você convertido a pouco tempo ou a muito tempo, entenda isso: Deus deseja lhe tornar alguém inteligente. Deus deseja lhe fazer crescer, lhe informar além de formar em você a imagem de Seu Filho. “Aquele que começou” uma boa obra em sua vida quer continuar a desenvolvê-la. Nenhum cristão é uma obra já acabada. Como meninos, os cristãos são facilmente enganados pelos outros ou por seus próprios corações.

Como é o coração de um menino? Obviamente, é enganoso, imaturo, e perigoso. Muitas vezes, o coração de uma criança lhe dá certezas para as quais os adultos lhes exortam. Todos sabemos que crianças não sabem de nada — ou, quase nada. São imaturas quanto aos perigos da altitude, da alta temperatura de uma panela no fogo, da alta tensão em uma tomada de energia, etc. E esta “meninice” pode matá-la. É exatamente por isso que pais e responsáveis se esforçam para trazer segurança aos meninos e meninas em idade bastante tenra.

É exatamente neste sentido que Paulo está falando aos efésios. Assim como há os meninos e meninas em idade física, há os mesmos em idade espiritual. Tais pessoas vivem em perigo. Nunca sabem em que crer. São presas fáceis do inimigo, assim como as crianças são presas fáceis aos seqüestradores.

Nosso coração e alma podem ser facilmente sequestrados pelo inimigo de nossas almas caso não cresçamos e amadureçamos no conhecimento de Cristo e da fé.

Há muitos ventos de doutrina soprando mundo afora. E tais ventos podem facilmente arrebatar e destruir a vida de um menino espiritual, ou seja, alguém que não cresceu, que não leu, que não estudou, que não aprendeu absolutamente nada sobre a fé, sobre o Evangelho e sobre a pessoa de nosso Senhor. Ventos só derrubam árvores sem raiz, árvores “recém-nascidas”. Àquelas maduras cujas raízes se aprofundam no solo, dificilmente os ventos de uma tempestade derrubam. Assim são as vidas cujas raízes não passam de um solo muito raso, imaturo, fraco. A estas “árvores”, qualquer vento derruba.

Deus deseja nos fazer árvores fortes e frondosas, iguais às do Salmo 1:

Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes, o seu prazer está na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite. Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem sucedido. Os ímpios não são assim; são, porém, como a palha que o vento dispersa.
Sl 1.1–4

Se queremos acertar e termos paz, o caminho é o crescimento espiritual; crescer em graça e em conhecimento, exatamente como Jesus:

E crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens.
Lc 2.52

Façamos o mesmo que Cristo. Sigamos seu exemplo e busquemos crescer, para o nosso bem e para a glória daquele que nos salvou para que fôssemos mais do que jamais imaginamos que seríamos.

Sugiro, como complemento, que assista a estes dois vídeos abaixo. São parte de uma entrevista que dei ao site “Tu, porém“, no último Congresso da Vida Nova.

“O CRISTIANISMO DESMOTIVA O PROGRESSO DA CIÊNCIA?”

“COMO CONSCIENTIZAR A IGREJA DA IMPORTÂNCIA DA CIÊNCIA?”

_____________
[1] Marvin Richardson Vincent, Word studies in the New Testament, vol. 3 (New York: Charles Scribner’s Sons, 1887), 390–391.
[2] Robert Jamieson, A. R. Fausset, e David Brown, Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible (Oak Harbor, WA: Logos Research Systems, Inc., 1997), Ef 4.13.
[3] Matthew Henry e Thomas Scott, Matthew Henry’s Concise Commentary on the Bible (Sociedade Bíblica do Brasil, 1939), Ef 4.7.

PASTORES E “PASTORAS”? Uma exposição bíblica de Ef 4.11-12

O povo de Deus nunca deve deixar de orar. Especialmente, nunca deve deixar de orar pelo dom que receberam de Deus. Devem orar para que Deus os mostre cada vez mais seu próprio dom e em qual ou quais áreas espera que sirvam. Devem orar para que este dom seja lapidado, edificado e usado com bastante fidelidade entre o povo de Deus.

Além de orar por si mesmos e pelo dom que receberam, o povo de Deus deve orar igualmente pelas vidas que constituem em si mesmas dons de Deus à sua igreja. Apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres são apresentados nesta porção como vidas que o Senhor doou à igreja não apenas para edificá-la, mas para lançarem o fundamento da mesma e construírem sobre este fundamento. Os responsáveis pelo fundamento já morreram. Ninguém mais lança o fundamento. Ele já está posto. Os apóstolos foram os responsáveis por tal bênção. Evangelistas, pastores e mestres são responsáveis hoje por construírem sobre este fundamento, jamais pensando ou ousando colocar outro fundamento além do que já está posto.

No comentário anterior, analisamos brevemente a função dos apóstolos e profetas. Vejamos novamente o texto e sigamos na compreensão do mesmo.

E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo

Ef 4.11–12

E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas,

Já vimos isso no comentário anterior a este. Vejamos como Paulo continua.

outros para evangelistas 

Paulo, agora, trata dos evangelistas. Evangelista vem de εὐαγγελιστής, aquele que anuncia o evangelho (εὐαγγέλιον – notícias que tornam alguém feliz, palavras que fazem alguém feliz, ou, boas notícias). Evangelho, por sua vez, deriva de evangelizo (εὐαγγελίζω), ou seja, contar as boas novas.⁠1

O evangelho aqui, obviamente, está ligado à mensagem de Jesus Cristo presente nos relatos dos quatro evangelistas: Mateus, Marcos, Lucas e João. O evangelho pode ser resumido na notícia de que pecamos e por isso sofreremos as conseqüências de nossos pecados. O sofrimento consequente do pecado não se esgota neste mundo, fazendo-se necessário que continuemos sofrendo eternamente por causa de nossos pecados. No entanto, “Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”, Jo 3.16. Ou seja, para todo aquele que nega a si mesmo, toma a sua cruz, e converte-se em seguidor de Jesus, amando-o com todo seu coração, alma e força, não sofrerá mais as conseqüências eternas de seus pecados. Tais pessoas, ao crerem, são libertas da condenação que, naturalmente, as aguardava na eternidade.

O evangelista é aquele que anuncia o evangelho. Todavia, não como todos os cristãos naturalmente fazem, mas de uma forma mais rica e constante. Segundo Wiersbe, os evangelistas aqui citados como pessoas abençoadas com esse dom são uma espécie de condutores das Boas Novas. São homens que viajam de lugar a lugar pregando o Evangelho para os perdidos (At 8.26-40;21.28). Todos, ministros ou não, devem evangelizar. Todos os ministros devem realizar a obra de um evangelista. No entanto, haviam pessoas naquela época como hoje que tinham e têm o dom do evangelismo.⁠2 Conforme comenta o teólogo Harold Hoehner, os “evangelistas são aqueles engajados no espalhar do Evangelho, semelhante aos missionários de nossos dias⁠3”.

e outros para pastores e mestres, 

Atos 20.28 parece indicar que a igreja local é como um rebanho de ovelhas. Sobre estas pessoas, Deus instituiu pastores. A responsabilidade de um pastor de ovelhas é alimentá-las e guiá-las. Estas são suas principais funções. Nesta expressão de Paulo aos Efésios, o Espírito Santo nos ensina como o Senhor considerou necessária a presença de uma pessoa para alimentar e guiar as outras. Isso, não para menosprezar ou glorificar uns ou outros, mas para que seu povo, sua família, pudesse caminhar conforme Seus eternos propósitos.

Logo, a figura pastoral não é uma invenção humana, mas uma criação divina. Foi Deus quem decidiu que os pastores existiriam e é Ele quem escolhe tais pessoas para o exercício do ministério pastoral.

O fato de Paulo escrever “pastores e mestres” não deve nos confundir. Paulo, provavelmente, não está falando de dois tipos de pessoa. O artigo (τοὺς) no grego apresenta-se apenas antes de “pastores”. E não há a conjunção δὲ entre as palavras “pastores” e “mestres”. Isso indica que “mestres” não trata de uma outra categoria de pessoa. O mais provável é que Paulo esteja falando de alguém cuja função seja confortar e guiar, ou seja, pastorear e ensinar; por isso, “pastores e mestres”. É nesse sentido que Hoehner, “bispos e presbíteros devem ser capazes de ensinar (1Tm 3.2; Tt 1.9)”⁠4.

Na mente de Paulo⁠5, a figura pastoral é exclusivamente masculina excluindo-se completamente a possibilidade dessa responsabilidade ser assumida por uma mulher. E isto não tem a ver com machismo ou algo de um tempo passado. A Bíblia deve sempre ser lida como atemporal, e não como algo que se encaixou a um momento, cujos ensinamentos serviram apenas aos que viveram naquele tempo.

A Bíblia não foi escrita com base na inspiração de um homem ou uma mulher, mas foi escrita debaixo da inspiração do Espírito Santo. Homens escolhidos por Deus, inspirados por Seu Espírito, colocaram no papel aquilo que o próprio Deus desejou dizer aos homens (2Pe 1.20-21). Cada letra da Sagrada Escritura é Sagrada. Cada ponto e espaço são inspirados e determinados pelo Senhor para que os homens conheçam o caminho do arrependimento e salvação. Não há nada nas Escrituras que não seja revelação do Senhor. Tal certeza é fundamental para que recebamos a Bíblia como regra de fé e prática. Se não temos a Bíblia, se ela não é revelada e inspirada, o que resta para nos guiar no caminho da fé. Se a Bíblia não for vista como a regra final para nossa fé e prática, abre-se a porta para toda e qualquer prática, inclusive a ordenação de homossexuais ao ministério pastoral, algo que tem se tornado bastante comum em tradições cristãs que oficialmente têm deixado de crer na Bíblia como inspirado por Deus e não fruto de uma mente ou uma época. Assim sendo, pensemos na questão de gêneros.

Não há distinção entre homens e mulheres no que diz respeito à essência. Em essência, homem e mulher são iguais. No entanto, há distinção nas funções desempenhadas por eles. Gênesis 1 relata como Deus criou o homem e a mulher. Gênesis 2 relata quais os papéis Deus deu a cada um deles. São iguais em essência, diferentes em papéis; e isso, desde a criação.

Paulo explica isso em 1Tm 2.13, onde fala da ordem em que cada um foi criado. Já em 1Co 11.8, Paulo aborda a forma como foram criados, ressaltando que os papéis também têm a ver com a forma como foram criados (primeiro o homem, depois a mulher — feita a partir do homem). No verso seguinte à este último (1Co 11.9), Paulo explica o propósito da criação de cada um; neste texto, o Espírito Santo usa Paulo para nos revelar que a mulher foi criada por causa do homem. Em toda sua teologia, homem e mulher são iguais para Paulo, diferindo apenas nas funções que cada um deve desempenhar em vida.

Outro ponto importante é que, todas as vezes que a Bíblia cita alguém em função pastoral, ela cita homens. Todos os apóstolos, evangelistas e pastores são homens na Bíblia. Aquele que “aspira ao episcopado” (1Tm 3.1) deve ser “esposo de uma só mulher”. Isso, obviamente, não pode ser aplicado a nenhuma mulher. A mesma orientação o Espírito Santo dá a Tito através de Paulo em Tt 1.6: “marido de uma só mulher”.

Contudo, convém ressaltar que a Bíblia não anula o ministério feminino, muito menos os dons de ensino dados a elas. São muitos os ministérios nos quais elas desenvolvem e praticam seus dons. Todavia, no que diz respeito ao “pastores e mestre”, àqueles que tem a responsabilidade de apontar o caminho pelo qual a igreja deve andar, dar a visão e a doutrina, guiar nas disciplinas e nos aconselhamentos, guiar os demais pastores da igreja, guiar os demais líderes, conselheiros, evangelistas e professores na igreja, que essa figura sempre estará sob a responsabilidade de um homem.

A história da igreja contempla muitas mulheres com o dom de ensino, muitas ensinando em seminários, escrevendo livros e sendo tremendamente usadas por Deus. No entanto, nenhuma delas na função de “pastores e mestres”, sendo a responsável pela última palavra sobre doutrina em uma igreja local. Esta responsabilidade recai apenas àqueles que são, mais uma vez, “maridos de uma só mulher”.

O fato de Deus usar em alguns momentos da história (inclusive no período bíblico) mulheres em funções de homens não significa normatização, mas juízo de Deus e negligência dos homens. Haja vista o uso que Deus fez do falso profeta Balaão (Nm 22.35), das profecias de um rei desobediente e que não era segundo o coração de Deus como Saul (1Sm 10.10; 19.23), e da juíza Débora que julgou Israel em um tempo em que os homens eram covardes e desobedientes, agindo cada um segundo o seu próprio coração (Jz 4.4-9). Nada disso autoriza que falsos profetas, reis desobedientes ou juízas corajosas e fiéis sejam oficializadas dentro do propósito de Deus. O fato de Deus usá-los apenas denuncia uma época em que os homens de Deus não estavam desempenhando bem suas funções, muito menos se submetendo à direção de Deus para exercê-las. Deus pode muito bem instituir pastoras em um tempo de negligência dos homens; mas isso seria apenas juízo de Deus, e não oficialização de uma nova norma.

No período da Igreja Antiga (ou, Primitiva), a orientação que o Espírito Santo dava era a de que  sempre fossem eleitos homens para a função pastoral:

E, promovendo-lhes, em cada igreja, a eleição de presbíteros, depois de orar com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido.

At 14.23

O mesmo pode ser visto mais adiante no livro de Atos quando o próprio Espírito Santo é mencionado como agente oficilizador:

Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue.

At 20.28

Mais uma vez, foram homens aqueles que foram constituídos pastores sobre a Igreja de Deus. E o próprio Espírito Santo foi quem assim determinou. As demais ocorrências das palavras pastor, presbítero, bispo, ancião, ministro, etc., sempre aparecem com o artigo masculino no Novo Testamento Grego. Não há uma ocorrência sequer de que a autoridade sobre uma igreja local esteve debaixo de uma mulher. O ministério delas está bem descrito em Tt 2.3-5 e outras passagens na Bíblia. Elas nunca deveriam assumir a autoridade sobre uma igreja local e sobre os homens. Em todo o Novo Testamento e período da Igreja Antiga, a presidência de uma igreja sempre foi responsabilidade dada a um homem pelo Espírito Santo. Via de regra, a função das mulheres estava associada ao ensino (desde que debaixo da autoridade de um pastor), ao ensino de outras mulheres, ao cuidado de pobres e doentes, à assistência em casos de morte de outras mulheres (eram as mulheres que cuidavam de tudo relacionado ao enterro de outras mulheres), à exortação e aconselhamento de outras mulheres em pecado ou rebeldia, dentre outras. Isso, sem falar de sua maior responsabilidade e papel dada por Deus desde a criação: a de ser mãe e esposa, funções estas que vão muito além de qualquer responsabilidade sua na igreja, além de serem muito mais importantes também.

Nunca se fez tão necessário um aprofundamento no tema quanto hoje. Quem sabe a profunda participação de mulheres em funções pastorais não seja um sinal do juízo de Deus sobre a Igreja em nosso tempo, tão negligente, insubmissa, desnorteada e sem doutrina.

com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo

Por fim, Paulo nos orienta que a razão de Deus dar tais homens à sua igreja é fazê-la crescer em santidade e em desempenho. O “aperfeiçoamento dos santos” está intimamente ligado ao “desempenho do seu serviço”. São este homens mencionados nos versos anteriores que prepararão o povo de Deus para o serviço, ou seja, para o exercício de seus dons.

Os líderes são homens dotados por Deus para treinar o Corpo de Cristo para a obra do ministério de seus dons espirituais. A “edificação do corpo de Cristo” vem dos dons que o Espírito dá a cada um dos membros da Igreja de Deus, e a preparação desses membros vem de um pastor que, quando fielmente lhe prega a Palavra, trabalha para que sejam aperfeiçoados para o desempenho de seu serviço entre os irmãos e irmãs.⁠6

Johannes P. Louw e Eugene Albert Nida, Greek-English lexicon of the New Testament: based on semantic domains (New York: United Bible Societies, 1996), 412.

Warren W. Wiersbe, The Bible exposition commentary, vol. 2 (Wheaton, IL: Victor Books, 1996), 38.

Harold W. Hoehner, “Ephesians”, in The Bible Knowledge Commentary: An Exposition of the Scriptures, ed. J. F. Walvoord e R. B. Zuck, vol. 2 (Wheaton, IL: Victor Books, 1985), 635.

Harold W. Hoehner, “Ephesians”, in The Bible Knowledge Commentary: An Exposition of the Scriptures, ed. J. F. Walvoord e R. B. Zuck, vol. 2 (Wheaton, IL: Victor Books, 1985), 635.

Sem dúvida alguma, inspirado pelo Espírito Santo.

Robert James Utley, Paul Bound, the Gospel Unbound: Letters from Prison (Colossians, Ephesians and Philemon, then later, Philippians), vol. Volume 8, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 1997), 112.

APÓSTOLOS E PROFETAS: dons de Deus à Igreja Primitiva

Deus, no processo de dar dons aos homens, fez de alguns homens dons em si mesmos. Tais homens não serviriam apenas à edificação da igreja, mas à unidade da mesma.

Ainda tratando sobre dons, o apóstolo Paulo apresenta alguns dons especiais de Deus à Igreja. O tom da passagem ainda é sobre a forma graciosa como Deus nos concede sua graça e favor.

E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, 

Ef 4.11a

E ele mesmo concedeu 

O texto começa afirmando que alguns dons são um pouco diferente dos demais. Embora todos sirvam para a edificação, alguns representam uma espécie de dons unificadores ou,  que promovem unidade. Estes são dons que garantem a unidade da Igreja, sua coesão e indissolubilidade.

O verso 8 já havia afirmado que o próprio Cristo, após subir às alturas, concedeu dons aos homens. Agora, ele parece afirmar que alguns homens são um dom à igreja, um dom que produziria em um primeiro momento o fundamento de todo o edifício, e homens que, em um segundo momento, produziriam a unidade e crescimento desse edifício.

A ênfase, no texto grego, reside sobre a expressão “ele mesmo”. Sua soberania é a responsável pelos dons concedidos.⁠1 É Ele quem determina o que será dado e para quem será dado. Mais uma vez, não são as pessoas que escolhem ou conquistam direito à dons, mas o próprio Senhor é quem determina qual ou quais dons receberão os homens. Os dons dados à igreja são pessoas que receberam previamente dons.⁠2 É nesse sentido que Paulo destaca tais homens como um dom especial de Deus à igreja.

uns para apóstolos, 

Aqui, o Espírito Santo aponta para a realidade do fundamento da igreja. Este é um dos dons que cessaram após a morte do último apóstolo. Apóstolos e profetas já haviam sido mencionados nesta mesma epístola:

Efésios 2.20: edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular;

Efésios 3.5: o qual, em outras gerações, não foi dado a conhecer aos filhos dos homens, como, agora, foi revelado aos seus santos apóstolos e profetas, no Espírito,

Tivéssemos apóstolos ainda hoje, certamente ainda teríamos fundamentos a serem lançados. Ou seja, a Bíblia ainda estaria sendo escrita, visto que é o único fundamento que os cristãos possuem em sua fé. Não há outro fundamento e, o único que há, foi lançado pelos apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo.

Esta palavra, em seu sentido original, tem a ver com alguém enviado em uma missão especial.⁠3 Dos muitos discípulos que Cristo teve, doze foram escolhidos para serem apóstolos. Como bem escreveu Warren W. Wiersbe, “um discípulo é um seguidor ou um aprendiz, mas um apóstolo é um representante divinamente apontado⁠4”.

Em um certo sentido, todos possuímos um chamado apostólico, visto que fomos todos enviados com uma grande missão. Mas não no sentido neotestamentário. Ninguém hoje deveria reivindicar o título de apóstolo, visto que ninguém hoje jamais acompanhou o ministério de Cristo ou viu a Cristo ressuscitado. Usar o título de apóstolo somente porque iniciou um novo ministério é perverter o termo bíblico restrito aos 12.

Como bem como Augustus Nicodemus em seu livro Apóstolos:

O que estamos dizendo é que não temos mais homens como os apóstolos com dons de curar e de fazer milagres, sinais e prodígios, os quais, aliás, nunca foram superados pelos que hoje reivindicam título e ofício.⁠5

Como afirma Wiersbe, os apóstolos deveriam dar testemunho da ressurreição (At 1.15-22), e, portanto, tinham que ter visto o Cristo ressurreto pessoalmente (1Co 9.1-2). Não há apóstolos hoje, no sentido mais estrito do Novo Testamento. Esses homens ajudaram a lançar as bases da igreja: “o fundamento dos apóstolos e profetas” (Ef 2.20); e, uma vez que foram lançadas as bases, os apóstolos já não eram necessários. Deus autenticou o ministério desses homens com milagres extraordinários (Hb 2.1-4). Essa é a razão pela qual não devemos esperar muito menos exigir esses mesmos milagres hoje.⁠6

outros para profetas, 

Pouco é falado sobre a função destes profetas no Novo Testamento. Em um certo sentido, o Novo Testamento afirma que todos os cristãos devem procurar e pedir por este dom. Vide 1Co 14.1:

1Co 14.1: Segui o amor e procurai, com zelo, os dons espirituais, mas principalmente que profetizeis. 

Em um sentido amplo, todos devemos ser canais de Deus para chegar ao coração de alguém. Ser profeta também é isso. Aliás, é principalmente isso. Mas, obviamente, não é somente isso. Ainda falando sobre o sentido mais amplo, Deus espera que todos sejamos instrumentos em Suas mãos usados no tempo e lugar corretos para chegar à alma de alguém.

Somos uma espécie de canais através dos quais Deus fala com alguém. Alguém que nos ouvirá pregar, aconselhar, exortar, e que terão em nossas palavras a impressão de que o próprio Deus está falando com ele. Ter o dom de profecia é ter a capacidade dada por Deus de dizer “assim diz o Senhor”, de ser um instrumento nas mãos de Deus para falar com outros de um modo que nunca seríamos capazes sem o dom.⁠7

Tais profetas no Novo Testamento possuem uma diferença acentuada em vista dos profetas do Antigo Testamento. Um simples leitura da Bíblia esclarece esta diferença. De acordo com Utley, os profetas do Novo Testamento aplicam a Escritura às situações novas e diferentes das vividas pelo povo judeu no Antigo Testamento. Os profetas do NT estão intimamente ligados aos apóstolos, evangelistas, pastores e mestres pelo fato de todos estarem proclamando o Evangelho, embora com ênfases diferentes.⁠8

Assim como o povo de Deus deveria orar pelo seu próprio dom pessoal (ou dons pessoais), este mesmo povo deveria orar por estes homens que, no passado, serviram como instrumentos de Deus para lançar os alicerces ou fundamentos do cristianismo e do Novo Testamento.

No texto seguinte deste comentário, veremos como evangelistas, pastores e mestres são apresentados como dons de Deus à Igreja também.

______________

 

1 Robert Jamieson, A. R. Fausset, e David Brown, Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible (Oak Harbor, WA: Logos Research Systems, Inc., 1997), Ef 4.11.

2 Harold W. Hoehner, “Ephesians”, in The Bible Knowledge Commentary: An Exposition of the Scriptures, ed. J. F. Walvoord e R. B. Zuck, vol. 2 (Wheaton, IL: Victor Books, 1985), 634.

3 Warren W. Wiersbe, The Bible exposition commentary, vol. 2 (Wheaton, IL: Victor Books, 1996), 37.

4 Warren W. Wiersbe, The Bible exposition commentary, vol. 2 (Wheaton, IL: Victor Books, 1996), 37.

5 Augustus Nicodemus Lopes, Apóstolos: a verdade bíblica sobre o apostolado, (São José dos Campos, SP: Fiel, 2014), parte I, cap. 2, posição 921, edição Kindle.

6 Warren W. Wiersbe, The Bible exposition commentary, vol. 2 (Wheaton, IL: Victor Books, 1996), 37–38.

7 Em um sentido extraordinário, reconhecemos também que é possível que alguém fale sobre algo incrível que não aconteceu e ainda acontecerá em um futuro próximo ou distante. Há alguns casos assim no Novo Testamento e na história da igreja. Reforçamos, no entanto, que são casos extraordinários, mas nunca ordinários, semanais, dominicais.

8 Robert James Utley, Paul Bound, the Gospel Unbound: Letters from Prison (Colossians, Ephesians and Philemon, then later, Philippians), vol. Volume 8, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 1997), 111.

A IGREJA DE JESUS CRISTO (Parte 2)

Esta é a segunda parte de meu comentário da Epístola de Paulo aos Efésios. Feita para ser estudada nas comunidades da Igreja Batista Liberdade em Araraquara-SP, receberá ainda as partes 3 a 6, fechando o estudo de toda a epístola. O estudo de todo o capítulo 1 pode ser lido aqui: http://www.wilsonporte.org/site/a-igreja-de-jesus-cristo-parte-1/ ou aqui: http://issuu.com/webmais/docs/efesios_1parte

Espero em Deus que possa ser útil para a edificação de quem ler.

in dextera tua,

Wilson

 

UNIDADE NA DIVERSIDADE: A beleza do Corpo de Cristo

Além de ser um milagre, a Igreja de Jesus Cristo é uma prova de que há amor na Santíssima Trindade. Tudo o que Paulo irá apresentar no texto abaixo aponta para esta ação misericordiosa e compassiva de Deus sobre um povo pelo qual Cristo morreu. Povo que Deus não apenas escolheu, chamou, perdoou, batizou com Seu Espírito, mas povo que também foi habitado por Deus.

Por amor, Deus uniu pessoas quebradas e destruídas. Vidas desgarradas que foram chamadas pelo Bom Pastor para serem ovelhas de um só rebanho. Deus fez tudo o que era necessário para que esse povo fosse unido. Agora, Deus usa o apóstolo Paulo para exortá-lo a não destruírem essa comunhão. Vejamos suas palavras:

esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz; há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos.

Ef 4.3–6

Paulo toca no esforço humano, tema raro em suas epístolas. Isso deixa claro que há responsabilidades que cabem aos homens dentro do plano redentor em todo o seu transcorrer. Aqui, especialmente, esta responsabilidade está ligada à unidade no seio da Igreja de Jesus. 

esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz;

A palavra usada para “esforçando-vos” é σπουδάζοντες (spoudázontes), cuja tradução é “ser zeloso”, “fazer algo com intensa motivação”. Este esforço do qual Paulo fala é algo que depende somente de nós. A igreja é a destinatária desta ordem. Sim, trata-se de um ordem que todos devem ouvir. Assim, precisamos de duas palavras para traduzir σπουδάζοντες — esforço e diligência, “esforçai-vos diligentemente” —, ou seja, façam o que têm de fazer com toda atenção e cuidado.

O esforço é direcionado à preservação de algo muito caro à Santíssima Trindade, a Unidade no Corpo de Cristo. Desde muito cedo, antes mesmo da Igreja de Jesus Cristo existir, ele já orava por ela, pedindo exatamente por sua união.

Pai santo, guarda-os em teu nome, que me deste, para que eles sejam um, assim como nós… Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra; a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste.

Jo 17.11, 20–21

Jesus orou pela unidade da Igreja desde antes de sua paixão e morte. Ele sabia que a estrutura dessa igreja seria frágil. Seres humanos são frágeis e susceptíveis à queda. Por isso, precisam de oração e de atenção. 

Paulo segue informando que este esforço seria para proteger ou preservar com muito carinho a unidade do Espírito. A palavra preservar nos mostra o quão vulnerável e susceptível de invasão e destruição é a Igreja. Ela é um organismo frágil que pode ser invadida e destruída — pelo menos localmente — com muita facilidade. É por isso que todos que estão nela devem esforçar-se para mantê-la unida. Todo esforço contra a união é parceria com as trevas. Alguém que coopera para a desunião da igreja é alguém que está agindo segundo o grande inimigo do Corpo de Cristo. Jamais alguém que ama a Cristo agiria de um modo a ferir ou dividir seu Corpo. É por isso que todos dentro dela devem se esforçar ao máximo para protegê-la.

Unidade não significa uniformidade. Paulo não está exortando os efésios a serem uniformizados, ou conformados, a todos os demais cristãos em todo o mundo. A Igreja é um Corpo rico em diversidade. Paulo, então, não os exorta a lutar pela uniformidade de práticas, liturgias, tons, temperamentos, etc. Paulo os exorta à unidade. A expressão “unidade do Espírito” tem a ver com esta união entre aqueles que possuem o Espírito de Cristo, aqueles sobre os quais o Espírito Santo habita.

Toda a responsabilidade pela unidade na Igreja é dos que creem. Assim, se você que me lê é parte do Corpo de Cristo, você é responsável por essa unidade. É dos cristãos a responsabilidade pela saúde e vitalidade do Corpo de Cristo. Somos nós quem cuidamos da saúde deste corpo. Por estas palavras de Paulo, Deus nos exorta a sermos totalmente submissos à esta ordem a fim de mantermos a paz na Família de Deus.⁠1

4       há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação;

Esta declaração deixa muito claro que não se concebe a ideia de divisão no Corpo de Cristo. Toda ideia sectária é absurda e errada. Ainda que existam várias denominações ou tradições cristãs, o cristianismo, ou, a Igreja de Jesus Cristo, é única. É a única Igreja de Cristo que entrará na presença do Senhor por toda a eternidade.

O verso 4 começa afirmando que há um Corpo. A Igreja não é uma possibilidade, mas uma realidade. A Igreja não é um sonho de Deus, mas uma ação já concretizada por Deus. Obviamente, este Corpo não é o que ele será um dia. Mas, sem dúvida alguma, ele não é o que um dia foi. Todos os que estão nele foram regenerados e transformados. Já não são mais como eram. E, juntos, caminham debaixo da orientação da Cabeça que é Cristo, o Senhor.

Assim, o Corpo já é. Ele já existe. E, neste Corpo, habita um Espírito, não dois. Não há um Espírito Santo em cada Igreja local. Ele habita todo o Corpo, não individualmente cada um. Ele é sobre todos, com todos e por todos. Ele sustenta a Igreja em todo o mundo. Ele a lembra das palavras de Cristo. É Ele quem convence novos cristãos de seus pecados, da justiça de Deus e do Juízo. É Ele quem a todos sela, regenera e santifica. Toda a obra na igreja é ação do Espírito Santo do Senhor. Sem o Espírito Santo seria impossível sermos Igreja. Se Ele não habitasse o Seu povo, jamais conseguiríamos alcançar a união. É pela ajuda e suporte do Espírito que somos capazes de alcançarmos a unidade.

Daqui até o final desta perícope, Paulo mostrará de modo simples e rápido o papel e exercício da Santíssima Trindade sobre o Corpo de Cristo:

“Um só Espírito”, verso 4.

“Um só Senhor”, verso 5.

“Um só Deus e Pai”, verso 6.

A fórmula trinitária é uma expressão do que Paulo cria. Aqui, Paulo deixa claro que crê na Trindade e que acredita que Ela está presente na Igreja. Em algum sentido não muito claro a nós, Pai-Filho-Espírito estão com a Sua Igreja o tempo todo capacitando-a a serem um Corpo unido. Deste modo, todo esforço contra a unidade é uma afronta à Trindade. Por outro lado, todo esforço pela unidade agrada e glorifica a Deus.

O verso 4 termina nos lembrando do nosso chamado. É sempre bom lembrarmos que quem nos chamou foi o próprio Espírito do Senhor. De acordo com Jesus,

Quando ele vier convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo: do pecado porque não crêem em mim; da justiça, porque vou para o Pai, e não me vereis mais; do juízo, porque o príncipe deste mundo já está julgado.

Jo 16.8–11

Se um dia fomos convencidos de nossa culpa e pecado, foi graças à ação graciosa e misericordiosa do Senhor nos mostrando e convencendo. Sem a ação externa do Espírito, nenhum de nós poderia jamais ter se convencido sozinho, pois como também nos revela a Sagrada Escritura, estávamos todos “mortos em nossos delitos” (Ef 2.5). Graças à ação do Espírito tocando e convencendo estes mortos é que fomos capazes de enxergar nossos pecados com tristeza e não mais com desdém ou algo de menor importância. Esta é a “esperança de nosso chamado” ou “esperança da nossa vocação”. Vocação aqui tem a ver com este chamado inicial que o Espírito exerceu sobre nós.

5       há um só Senhor, uma só fé, um só batismo;

Não há dois senhores, um do Antigo e outro do Novo Testamento. O Senhor do Antigo é o Senhor do Novo Testamento. Aquele que se apresenta como o Senhor da Nova Aliança é o mesmo que se apresentou a Moisés no Monte Sinai como o único Deus e Senhor de todos. 

É deste Senhor que nos vem a fé e o batismo. A fé conforme explicada pelo autor da Epístola aos Hebreus:

Portanto, também nós, visto que temos a rodear-nos tão grande nuvem de testemunhas, desembaraçando-nos de todo peso e do pecado que tenazmente nos assedia, corramos, com perseverança, a carreira que nos está proposta, olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus.

Hb 12.1–2

Veja que este Senhor sobre quem Paulo fala aos Efésios é o mesmo Senhor da Epístola aos Hebreus. E é Ele o autor e consumados da nossa fé. Ela vem dele. Ela não nasce em nossos corações sem a intervenção direta dele. Há sim uma fé que vem de nosso próprio coração. Todavia, esta é inútil para a salvação. A fé que está ligada à salvação eterna é aquela que vem de Cristo, o qual não é apresentado apenas como o autor de nossa fé, mas também aquele que consuma esta fé dentro de nós.

Sendo Ele o autor desta fé, não pode haver dois tipos de fé, ou modos e sentimentos diferentes relacionados à fé. Sendo um só o autor da fé, ela será idêntica a todos que a possuírem. Isso cria uma unidade e identidade neste Corpo, não importando onde ou quando os membros do mesmo vivam. Sempre haverá uma identidade entre aqueles que possuem a fé, eles sempre se reconhecerão. E o Senhor faz isso para a Sua Igreja com o objetivo de vê-la unida. 

Veja, assim, que da parte do Senhor existe todo um esforço em prol da unidade deste Corpo, restando a nós apenas nos esforçarmos por proteger e preservar tal unidade. Toda desunião é ofensa à pessoa bendita de nosso Senhor Jesus Cristo.

Fé aqui também tem a ver com o conjunto daquilo que cremos. Não apenas a atitude daquele que crê, mas o próprio conteúdo daquilo que se crê. É aqui que nascem as Confissões de “Fé”. Além do sentido de fé ser aquela disposição interna de crer em Cristo e em sua obra, fé também traz a ideia de um conjunto de doutrinas nas quais os cristãos creem. Paulo fala sobre isso aos Filipenses:

Filipenses 1.27: Vivei, acima de tudo, por modo digno do evangelho de Cristo, para que, ou indo ver-vos ou estando ausente, ouça, no tocante a vós outros, que estais firmes em um só espírito, como uma só alma, lutando juntos pela fé evangélica.

Esta “fé evangélica” diz respeito àquilo em que os que creem acreditam. Não há duas formas de se crer no Evangelho e nas doutrinas essenciais do cristianismo, mas uma só. Há, sem dúvida, doutrinas não essenciais (como detalhes da escatologia relacionados à segunda vinda de Cristo) sobre as quais a Bíblia não é clara. Neste aspecto, somos livres para discordar e termos posicionamentos diferentes. No entanto, naquilo que é central à fé cristã, não há como divergirmos.

Em seguida, Paulo fala sobre o batismo. Aqui, ele pode estar falando tanto do batismo do Espírito quanto do batismo nas águas. Como ele já havia mencionado a pessoa do Espírito anteriormente, é possível que ele esteja falando de água aqui. Possivelmente, no verso 4 Paulo fale da ação interna do Espírito, ou seja, do batismo do Espírito que acontece, segundo o que Paulo escreve nesta mesma epístola, no exato momento em que a pessoa ouve a Palavra da Verdade e crê no Evangelho da Salvação (Ef 1.13).⁠2 E aqui no verso 5 ele esteja a tratar da ação externa relacionada com o batismo nas águas no qual a morte para mundo, a crucificação do eu, do velho homem, é simbolizada pela imersão após a qual a pessoa simbolicamente ressuscita para uma nova vida em Cristo (Rm 6.4; Cl 2.12).

Romanos 6.4: Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida.

Colossenses 2.12: tendo sido sepultados, juntamente com ele, no batismo, no qual igualmente fostes ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos.

6 um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos.

Paulo conclui esta porção mostrando o papel do Pai nesta presente habitação do Espírito sobre Sua Igreja. É por Ele que todos somos protegidos e guardados. Através da obra do Filho e do Espírito, o Pai está sobre todos nós. Isto demonstra proteção, cuidado e zelo.

Ele não apenas está sobre nós, mas Ele atua em nós. É neste sentido que Ele age por meio de todos. Nossa ações santas, de domínio próprio, de compaixão e misericórdia, nossas melhores ações de justiça e de socorro aos que sofrem são graças à ação dEle em nós. Não fosse a capacidade que Ele nos dá como nosso Criador e Sustentador jamais seríamos capazes de viver e fazer o bem.

Por fim, o texto sagrado diz que Ele está em todos nós. Obviamente, mais uma vez, Ele o faz através da obra do Espírito Santo em nós. Ele não apenas nos cerca, mas nos invade. Ele não apenas nos protege e abraça, mas nos possui de um modo gracioso e prazeroso.

Tudo isso apenas demonstra o quão paciente e amoroso Ele é, revelando a grandiosidade de sua graça. Graça que nos humilha ao não exigir nada de nós além de a aceitarmos com gratidão e amor. Ele fala e nós o abraçamos. Ele nos ama e nós, constrangidos, o amamos de volta. É assim que, na Nova Aliança, Deus entra em um Pacto com Seu povo, Sua Igreja, estabelecendo como estipulações deste pacto ou aliança que a parte dele seria nos dar tudo e a nossa parte seria recebermos tudo, em quebrantamento e arrependimento. 

Diante de tudo o que Ele fez por nós para que fôssemos um com Ele, aqui Ele nos exorta a nos esforcemos para que nada destrua este vínculo, esta união. Que jamais sejamos acusados de estarmos provocando a desunião desta Igreja que Ele comprou com o preço de Seu sangue sobre a cruz.

________

 

1 Robert James Utley, Paul Bound, the Gospel Unbound: Letters from Prison (Colossians, Ephesians and Philemon, then later, Philippians), vol. Volume 8, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 1997), 109.

2 Robert James Utley, Paul Bound, the Gospel Unbound: Letters from Prison (Colossians, Ephesians and Philemon, then later, Philippians), vol. Volume 8, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 1997), 110.

UM MILAGRE CHAMADO IGREJA

A Igreja de Deus é um milagre em todos os sentidos. Ela nunca daria certo não fosse propósito de Deus. Ela não sobreviveria mais do que 30 anos, não fosse criação do próprio Deus.

Numa época em que os homens têm feito tantas atrocidades com esta noiva, desfigurando-a por completo daquilo que ela um dia foi, se faz mais do que necessário que voltemos às antigas verdades e aos antigos conselho. É sobre isso que o apóstolo Paulo escreve neste trecho.

No início de um novo capítulo, Paulo inicia um novo tema, voltado à unidade deste Corpo, da Igreja de Jesus Cristo.

 

Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados, com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor

Ef 4.1–2

 

Mais uma vez, caminhemos através do texto. 

 

Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, 

 

As palavras de Paulo começam com uma súplica. Mas não uma súplica qualquer. Trata-se de um pedido feito por alguém que tem autoridade. Um pedido que os prudentes não deixam de atender. Um pedido que possui um tom de ordem. Assim é entendida a palavra escolhida por Paulo aqui, Παρακαλῶ. Se alguém possuía tal autoridade, esse alguém era o próprio apóstolo Paulo.

Aqui, ele se apresenta como o prisioneiro no Senhor. É a segunda vez que Paulo fala de si mesmo como um prisioneiro nesta carta. A primeira está em Ef 3.1:

 

Por esta causa eu, Paulo, sou o prisioneiro de Cristo Jesus, por amor de vós, gentios,

 

Contudo, há uma pequena diferença entre este texto com o que, agora, está em estudo. Em Ef 3.1, Paulo se menciona como um prisioneiro de Cristo. Em Ef 4.1, Paulo se menciona como um prisioneiro no Senhor. Na primeira vez que fala de si, Paulo se apresenta como uma propriedade de Cristo. Ele se apresenta como alguém que pertence à Jesus. Já na segunda vez em que se apresenta como um prisioneiro, Paulo apresenta-se não mais como uma propriedade, mas como alguém que está preso dentro de seu Senhor. 

Cristo não apenas é o dono deste prisioneiro, como também é a própria prisão. É neste sentido que Paulo está preso em Cristo. Significa que ele está dentro de Cristo. Obviamente, isso só faz sentido se observarmos que Cristo é aquele dentro de quem estamos enquanto somos guiados através do deserto deste mundo para a nossa Terra Prometida, A Jerusalém Celestial, a Nova Jerusalém, nos Novos Céus e Nova Terra.

Assim, Paulo reforça mais ainda a autoridade daquilo que falará. Ele não fala de si mesmo, mas fala estando dentro de Cristo. Sai de sua pena, mas pertence a Cristo, visto que tudo que ele agora é, é de Cristo.

Vejamos, então, o que Paulo com toda a autoridade possível, roga em um sentido de profunda autoridade aos seus leitores.

 

que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados,

 

Ainda no verso 1, Paulo apresenta sua súplica. Os efésios deveriam andar de um modo digno. O que significa isso? E, o que isso tem a ver com você e comigo?

Digno aqui é ἀξίως, algo que corresponde ao que é esperado de alguém. Algo que está “encaixado” ou “emoldurado” por outro algo — ou alguém — de modo que aquilo que o cerca é exatamente aquilo que o define.⁠1 Quem nos define é o Senhor e é pelos passos e vida dele que devemos ser moldados.

Já a expressão toda, “que andeis de modo digno”, nos recorda de que nossa vida deve ser um estandarte da glória e majestade daquele que nos amou e nos adotou em sua infinita graça. Todos devemos nos amoldar ao Evangelho e sua mensagem. Todos devemos ser transformados à imagem do Filho de Deus. Foi para isso que Deus nos predestinou:

 

Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou.

Rm 8.28–30⁠2

 

Note a parte que sublinhei. Qual o fim de nossa predestinação? Resposta: sermos conformados à imagem de seu Filho. Isso significa que, em amor, a Santíssima Trindade desde a eternidade já havia nos destinado a entrarmos em uma forma que possui o mesmo e santidade do Deus-Filho, o “primogênito entre muitos irmãos”. Após ele, Deus deu a todos nós o privilégio de sermos transformados à imagem de Jesus.

É a ele quem imitamos. Nosso andar deve seguir o exemplo e os passos de Jesus. É isso que significa andarmos de um modo digno. Não é à toa que fomos chamados de cristãos ao longo da história. Se é assim que você se chama, é assim que você deve viver. Nós fomos chamados para sermos cidadãos do Reino de Deus. Vivamos como cidadãos do Rei dos reis.⁠3

O verso ainda indica que devemos andar de modo digno “da vocação a que fostes chamados”. Isso traz de volta mais uma vez o tema da eleição. Se é Deus quem nos chama para andarmos de um modo digno em sua presença, mais uma vez, é de Deus o mérito e a graça do chamado. Não estávamos vivos quando fomos chamados, mas mortos. Foi nesta condição que Ele nos apresentou a graça de Seu Filho. Ao aceitá-la como suficiente, sinceramente arrependidos de nossos pecados, fomos aceitos na família divina. É por sua graça que Ele nos chama. Devemos andar de um modo digno pois esta é única forma de respondermos com gratidão ao chamado que um dia recebemos.

 

com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, 

 

A partir destas palavras, Paulo irá apresentar algumas formas de andarmos de um modo digno de cristãos. Obviamente, esta pequena lista de Paulo não é exaustiva. Muita coisa está fora daqui. Todavia, se bem observada, sem dúvida nenhuma, gerará grande impacto na vida e através da vida do povo de Deus.

Todos os dons que possuímos foram dados por Cristo à sua Igreja após sua morte, ressurreição e ascensão.⁠4 Em outro lugar, Paulo afirmou que o grande ministério dado à Igreja de Jesus Cristo após sua ascensão foi o da reconciliação:

 

Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus. Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele fôssemos feitos justiça de Deus.

2Co 5.18–21

 

Estas palavras nos recordam do ministério primordial que recebemos do Senhor. Tendo-o em mente, vejamos o que Paulo afirma aos efésios.

Quando Paulo fala sobre humildade e mansidão, obviamente não está falando de fraquezas humanas. Embora muitos as reconheçam em nosso tempo como tais, as mesmas são aqui apresentadas como virtudes dignas. É a humildade quem gera a mansidão. Observe sempre que é a falta de humildade que gera irritação em alguém e a falsa sensação de que tudo depende da tal pessoa. É como se o mundo não pudesse ser um lugar melhor sem aquela pessoa. Por isso que humildade e mansidão vêm juntas aqui, diferentemente da virtude seguinte, a longanimidade, quem vem sozinha.

De acordo com Warren W. Wiersbe, mansidão é poder sob controle.⁠5 Moisés era uma homem manso, embora fosse tremendamente poderoso:

 

Era o varão Moisés mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra.

Nm 12.3

 

Em Mt 11.29, Jesus afirma:

 

porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma.

Mt 11.29

 

O fato de Jesus Cristo ser manso, igualmente não fez dele alguém fraco, ou covarde. Ao contrário. Jesus era um homem absolutamente poderoso, mas este poder estava sob controle. Esta é a ideia de mansidão, um poder sob controle. Utley chama a mansidão de uma “força domesticada”, como a de um animal treinado.⁠6 Assim como um proprietário de um animal o treina para se conter, Deus também irá nos tratar até nossos impulsos estejam completamente controlados e submissos à sua soberana vontade. Animais selvagens podem estar em contato com seres humanos, desde que domados. Sem o seu completo domínio, não há relacionamento entre homem e fera. Curiosamente, Deus nunca destrói nossas energias e impulsos, mas procura domá-las, dominá-las e, por fim, usá-las para Sua glória e propósitos. Veja outros lugares onde esta virtude é destacada:

 

Efésios 4.2: com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor.

 

Gálatas 5.23: mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei.

 

Gálatas 6.1: Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura; e guarda-te para que não sejas também tentado.

 

Colossenses 3.12: Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de ternos afetos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de longanimidade.

 

1Timóteo 6.11: Tu, porém, ó homem de Deus, foge destas coisas; antes, segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a constância, a mansidão.

 

2Timóteo 2.25: disciplinando com mansidão os que se opõem, na expectativa de que Deus lhes conceda não só o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade.

 

Veja você o quanto o apóstolo Paulo gosta de citar tal expressão em suas epístolas. Há um senso de clareza para ele do quanto o Espírito nos domina e nos amansa para nos usarmos segundo seus propósitos.

Após falar da humildade que gera mansidão, Paulo fala da longanimidade. Alguém longânimo é alguém com uma paciência quase indestrutível, alguém com um ânimo muito longo, alguém muito paciente.

Paciência é outro tema precioso para o apóstolo:

 

Gálatas 5.22: Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade,

 

Colossenses 1.11: sendo fortalecidos com todo o poder, segundo a força da sua glória, em toda a perseverança e longanimidade; com alegria,

 

Colossenses 3.12: Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de ternos afetos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de longanimidade.

 

1Timóteo 1.16: Mas, por esta mesma razão, me foi concedida misericórdia, para que, em mim, o principal, evidenciasse Jesus Cristo a sua completa longanimidade, e servisse eu de modelo a quantos hão de crer nele para a vida eterna.

 

2Timóteo 4.2: prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina.

 

Diante de tudo isso que lemos, fica claro que a paciência é outra característica dos cristãos. Os cristãos são pacientes uns com outros por causa do fruto do Espírito, a paciência (e a longanimidade) de Deus que está dentro deles. Como já vimos em textos acima, tanto a mansidão quanto a longanimidade são frutos do Espírito Santo na vida do Seu povo.

É segundo o poder de Deus que opera dentro de nós que somos capazes de ser domados pelo Espírito, o mesmo que também nos conforma à imagem do Filho, a fim de que, pela graça, possamos ser paulatinamente transformados. É pela presença do Espírito em nós que o impossível se torna possível. E é pela transformação de nosso temperamento e caráter que somos visivelmente reconhecidos como legítimos membros da Igreja de Jesus Cristo neste mundo.⁠7 

 

suportando-vos uns aos outros em amor

 

Para Deus, nossas atitudes neste mundo são muitíssimo importantes. Nossas atitudes testemunhadas por nossa caminhada são uma espécie de assinatura de que o Espírito Santo está em nós. Não é possível que alguém se diga cristão sem que sua vida testemunhe dos frutos da presença do Espírito.

Além dos frutos já mencionados, este é especialmente importante. Naquele tempo, os escravos faziam parte da sociedade em todo o Império Romano. Apenas os escravos deveriam ter atitude de humildade  e mansidão. Os fortes, aos olhos do mundo, eram orgulhosos de si e impacientes, sempre descontentes ou irados com algo. Alguém constantemente agitado ou ativo era visto com bons olhos pela sociedade.

Além disso, os escravos eram aqueles que deveriam suportar outras pessoas numa típica atitude de servidão. Suportar não tinha a ver com ter paciência com alguém. Antes, tem a ver com dar o suporte que este alguém precisa para prosseguir.

Ao retratar estas atitudes como cristãs, Paulo deixa claro que somos escravos. Temos um Senhor, mas este não é mais aquele que tínhamos antes da conversão. Debaixo do senhorio de nosso Senhor Jesus Cristo, o servimos e nos dispomos a servir a todo aquele que ele nos mandar.

Os santos devem ser completamente humildes e mansos em seu caminhar diário. Isso não os fazia parecidos com as pessoas de seu tempo. Ontem como hoje, o chamado é para que sejamos diferentes, tenhamos um outro molde. Cristo é o nosso supremo modelo de humildade (Fp 2.7-11).

Assim, após falar sobre como cada um deles deveria caminhar e viver, Paulo declara o modo como outros os tratariam em suas lutas e dificuldades pessoais (e, obviamente, como eles deveriam tratar outros quando aqueles passassem por tribulações). 

A exortação é que todos se suportem, mutuamente. A mandamento é recíproco, todos deveriam estar prontos para dar o suporte que os demais carecessem. Isso é o remédio contra a desunião. Cientes de que ninguém deveria viver para si, nem morrer para si (Rm 14.7), todos deveriam batalhar pela unidade da família cristã. Quem desiste dela, peca.

Não é difícil entender isso. Se ligarmos todas as atitudes que se esperam de nós à pessoa bendita de nosso Senhor Jesus Cristo, nos lembraremos fácil e rapidamente de como ele também lutou pela unidade desse corpo. O “corpo” queria unidade? Seu povo é marcado por esta característica, a de amar e lutar pela unidade? É obvio que não. E, mesmo assim, ele foi capaz de dar a própria vida para que fôssemos um corpo. Esta é apenas uma das razões pelas quais os cristãos também deveriam estar dispostos a dar suas vidas pela união deste corpo. Abandoná-lo é pecar contra a própria obra de Cristo e um forma de desprezar do sofrimento de Cristo, como que dizendo que tudo aquilo não serviu para nada.

Ao nos ensinar que devemos dar o suporte uns aos outros, aprendemos que devemos ser amavelmente tolerantes com aqueles que são especialmente diferentes de nós.⁠8 Não somos chamados a tolerar e dar suporte apenas àqueles que são iguais a nós e que não possuem problemas em suas vidas. Somos chamados a perseverarmos na comunhão com todos os santos.

Se assim vivermos, observando estes conselhos e norteando nossas vidas por essas verdades, com certeza seremos membros saudáveis deste Corpo que nasceu com a morte de Cristo e que viverá por toda a eternidade pela misericórdia de Deus. 

 

_______________

1 Johannes P. Louw e Eugene Albert Nida, Greek-English lexicon of the New Testament: based on semantic domains (New York: United Bible Societies, 1996), 627.

2 O destaque e sublinhado, obviamente, são meus.

3 Matthew Henry, Matthew Henry’s commentary on the whole Bible: complete and unabridged in one volume (Peabody: Hendrickson, 1994), 2312.

4 Matthew Henry, Matthew Henry’s commentary on the whole Bible: complete and unabridged in one volume (Peabody: Hendrickson, 1994), 2313.

5 Warren W. Wiersbe, The Bible exposition commentary, vol. 2 (Wheaton, IL: Victor Books, 1996), 35.

6 Robert James Utley, Paul Bound, the Gospel Unbound: Letters from Prison (Colossians, Ephesians and Philemon, then later, Philippians), vol. Volume 8, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 1997), 108.

7 Robert Jamieson, A. R. Fausset, e David Brown, Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible (Oak Harbor, WA: Logos Research Systems, Inc., 1997), Ef 4.2–3.

8 Harold W. Hoehner, “Ephesians”, in The Bible Knowledge Commentary: An Exposition of the Scriptures, ed. J. F. Walvoord e R. B. Zuck, vol. 2 (Wheaton, IL: Victor Books, 1985), 632–633.

A INCRÍVEL MENSAGEM DO AMOR DE DEUS

É muito difícil descrever o que é o amor. É mais difícil ainda quando tentamos definir o que é o amor de Deus em relação a nós. Embora seja algo possível de se experimentar, não é algo possível de se esgotar, tal como uma fonte da qual se é possível beber sem que a mesma venha um dia a secar.

Assim é o amor de Deus. Ainda que seja impossível descrevê-lo plenamente como ele é, creio que o Espírito Santo usou Paulo nesta pequena porção para nos apresentar de um modo humanamente perfeito e incorrigível o que é o amor de Deus “por todos os seus santos”.

Paulo encerra este trecho de sua epístola com uma revelação sobre o amor de Deus que é incrível. Poucas vezes na Sagrada Escritura o conhecimento do amor de Deus é descrito com tanta profundidade e gratidão.

Aqui, Paulo é usado por Deus para nos apresentar, na medida em que podemos compreender, a grandeza impressionante do amor e da obra de Deus em nossas vidas. Vejamos:

 

a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus. Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém!

Ef 3.18–21

 

 

a fim de poderdes compreender, 

 

O entendimento sempre foi um tema especial na Palavra de Deus. A Bíblia não é para não ser compreendida. A Palavra do Senhor não diz respeito a um livro oculto que foi dado com o objetivo de não ser compreendido. É até absurda esta ideia.

Assim, também é absurda a ideia de que o Senhor deixou verdades ocultas que são essenciais para nossa salvação e conforto. Não questiono o fato de que existam verdades de difícil compreensão e que não estejam completamente reveladas — como a verdade da segunda vinda de Jesus Cristo. Todos sabemos que ela acontecerá, mas não exatamente como. A Bíblia nos fala que isso acontecerá, mas não dá detalhes precisos relacionados a dia, hora, etc. 

O mesmo não se dá com temas relacionados ao amor de Deus por nós, tema tratado por Paulo nesta porção de sua Epístola. Não somente aquilo que está relacionado ao amor de Deus, mas também tudo o que está relacionado com o conforto e consolo dos cristãos foi muito em revelado a fim de que pudéssemos descansar em momentos de crise.

A palavra escolhida por Paulo para “compreender” é a palavra καταλαμβάνω — chegar ao entendimento de algo que não era entendido ou percebido previamente.⁠1 Há um sentido também em que esta palavra significa algo que é abraçado, algo sobre o que você estende os braços e toma para si, compreendendo a dimensão de tal coisa.⁠2 

Assim, fica claro que o assunto que será tratado por Paulo não deveria ficar distante do conhecimento fácil dos efésios. Deveria ser algo sobre o que eles poderiam facilmente estender suas mãos, tocar, sentir, aprender e apreender.

 

com todos os santos, 

 

Com estas palavras, fica claro que o que deve ser compreendido não deve ficar fechado a um grupo exclusivo de pessoas. É clara a expressão “todos os santos”. Estes são aqueles que deverão alcançar a compreensão. Nenhum santo deve ficar de fora.

Isto, por si só, já confronta o que os gnósticos diziam nesta mesma época influenciando muitos cristãos. Eles diziam que havia um conhecimento secreto que deveria ser conhecido a fim de que a salvação pudesse ser obtida. No entanto, apenas um grupo pequeno tinha o privilégio de conhecer esta verdade oculta sobre si mesmos e sobre o universo. 

Com a expressão “com todos os santos”, Paulo mostra que o Evangelho não era destinado a um grupo de homens mais inteligentes que outros, ou um grupo de homens mais esforçados que outros. Todos os santos conheceriam esta verdade.

Mas, quem são “todos os santos”? Sempre que Paulo fala dos santos ele os trata de modo plural. Ser santo é ser parte de uma comunidade.⁠3 Obviamente, não uma comunidade local específica, mas uma comunidade espalhada por todo o mundo, composta de pessoas vivas e mortas, visíveis e invisíveis, que estão na terra e no céu.⁠4 E Deus trabalha o tempo todo com esta comunidade que Ele chama de seu “corpo”. Esta é a Igreja de Jesus Cristo.

 

qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus. 

 

Esta é, enfim, a verdade a ser conhecida: o amor de Cristo (ἀγάπην τοῦ Χριστοῦ). A palavra “amor” (ἀγάπην) aqui usada diz respeito a um amor por algo ou alguém baseado em uma sincera apreciação e grande entrega. Não é nunca algo egoísta, mas sempre abnegado e altruísta. Não é difícil de imaginar o amor de Jesus por nós desta maneira. É exatamente assim que ele amou a cada uma de suas ovelhas. Ele não somente as conhece pelo nome, mas sinceramente as ama. Por cada uma delas ele deu a sua vida. Há tanto amor na pessoa bendita de nosso Senhor Jesus Cristo que não é nem mesmo possível compreendermos racionalmente a magnitude desse amor.

Todavia, em algum sentido estranho a nós, Paulo afirma que abraçaremos (compreender) este amor. Nossas mãos (percepção) alcançariam a largura, o comprimento, a altura e a profundidade deste amor. 

A palavras de Paulo apontam para algo que ultrapassa nossa capacidade de compreender. Mas isso não significa que não podemos compreender. Significa apenas que vai além do que podemos. 

A expressão “e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento” (γνῶναί τε τὴν ὑπερβάλλουσαν τῆς γνώσεως ἀγάπην τοῦ Χριστοῦ, ἵνα πληρωθῆτε εἰς πᾶν τὸ πλήρωμα τοῦ θεοῦ⁠5) poderia ser também traduzida desta forma: “E conhecer o ultrapassar do conhecimento, o amor de Cristo, a fim de vós sejais tomados plenamente de toda a plenitude de Deus⁠6”. 

O que significa “o ultrapassar do conhecimento”? Resposta: o amor de Cristo. O amor de Cristo é o “ultrapassar do conhecimento”. Conhecer o amor de Cristo significa conhecer algo que ultrapassa o conhecimento. Quando conhecemos este amor, somos tomados pelo mesmo que nos dá a impressão de que estamos sendo tomados pela plenitude de Deus.

Uma tradução do texto grego acima bem próxima do literal seria exatamente esta: “conhecer o ultrapassar do conhecimento”. Nela, fica clara a impossibilidade de se alcançar em plenitude aquilo que é infinito. Ou seja, sendo a plenitude de Deus infinita, jamais pode ser totalmente abraçada por quem é finito e mortal. 

No entanto, o amor de Cristo é derramado de tal modo sobre nossos corações que nos permite compreender no máximo que podemos, no limite de nossa capacidade humana, este amor. Ele nos preenche de tal modo que temos a impressão de que o abraçamos plenamente. Todavia, abraçamos apenas aquilo que somos capazes de abraçar — bebemos somente daquilo que somos capazes de sorver. Sem dúvida, a fonte desta água possui muito mais do que eu jamais poderei beber.

Assim também é o amor de Cristo. Ele é totalmente suficiente para mim, e totalmente suficiente para você. Assim como é suficiente para satisfazer e preencher a todos os santos que o conhecem e dele experimentam. 

A expressão final desta porção afirma “para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus”, ou, como traduzi acima, “a fim de vós sejais tomados plenamente de toda a plenitude de Deus”. Esta expressão também é muito forte.

É quase inimaginável ilustrarmos tal expressão. Como é possível que sejamos “tomados plenamente de toda plenitude de Deus”? Deus não cabe em nós, diria alguém. Exatamente. Ele não cabe em nós como em lugar ou coisa alguma. Nada nem ninguém o comporta. Todavia, ele revela que de alguma maneira nos tomaria plenamente de si mesmo.

É impossível que alguém seja tomado pela pessoa bendita de nosso Deus e não sinta nada. O encontro com o amor de nossas almas sempre causa um impacto inesquecível e indelével. Deus deseja nos tomar para si, não apenas comprando-nos, mas ocupando-nos. Não apenas cercando-nos, mas invadindo-nos.

Após escrever sobre o amor de Deus e a maneira como esse amor nos invade e nos preenche, Paulo encerra com uma palavra de adoração:

 

Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém!

 

Esta é uma das mais belas doxologias⁠7 do Novo Testamento. O texto começa com as palavras que destinam a Deus todo o louvor. Só Ele é digno de louvor. Continuando, Paulo afirma o que este Deus é capaz de realizar em nós, ou seja, tudo. Ele é capaz de fazer infinitamente mais do que tudo.

Pare e medite, por um breve momento, sobre estas palavras: “poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos”. 

Há uma profundidade indescritível nestas palavras. Simplesmente não é possível imaginar o que Deus não possa fazer pelos seus. Ele os ama de um modo tão impressionante que não há nada que o Senhor possa lhes negar (obviamente, se não forem pecaminosas).

O texto continua afirmando “conforme o seu poder que opera em nós”. No grego original, Paulo fala de um poder que está dentro de nós. Ligue isso ao que foi dito anteriormente — fomos plenamente tomados pela plenitude de Deus. Agora, cheios de Deus, ou, do Espírito Santo, temos tal poder que opera dentro de nós.⁠8

Isto mostra o quão diferente a Nova Aliança é da Antiga. Na Nova Aliança (Novo Testamento), o Espírito do Senhor habita permanentemente entre seu povo, diferentemente de como era na Antiga Aliança. Esta presença é o que garante permanentemente este poder dentro de nós.

Paulo encerra este capítulo louvando a Deus na pessoa bendita de nosso Senhor Jesus Cristo, capaz de tudo, e a quem devemos adorar. A ele seja a glória. Só ele é digno, e ninguém os amará ou cuidará como ele. Ele é antes de todas as coisas, e superior a todos e todas as coisas.Só a ele os santos — todos os santos — rendem louvor. 

“A ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus”. Sendo a glória dada exclusivamente a Deus, note-se que esta glória (ou, fama) é conhecida através de Cristo e de seu corpo, a igreja. É nela que a fama de Cristo continua a ser espalhada em toda a Terra. A fama de seu nome é espalhada por todo o mundo via todos os santos, aqueles cujas vidas estavam cheias do Espírito Santo. 

Paulo termina com a expressão “por todas as gerações, para todo o sempre. Amém!” Havia no coração paulino um desejo de que tal ação de Deus no coração humano trouxesse a Deus não só a gloria devida ao seu nome, mas uma glória que fosse reconhecida pelos séculos dos séculos, para todo o sempre.

Com a expressão “amém”, Paulo encerra com esta expressão tão famosa no seio cristão. Do grego ἀμήν, esta expressão significa uma forte confirmação ou concordância com algo dito imediatamente antes. Assim, Paulo encerra afirmando quão firmemente ele cria em todas as coisas que havia acabado de dizer.

Esta é a mesma convicção que se espera de todo aquele que experimenta o amor de Deus e é tomado pelo mesmo.

 

 

______________

1 Johannes P. Louw e Eugene Albert Nida, Greek-English lexicon of the New Testament: based on semantic domains (New York: United Bible Societies, 1996), 381.

2 Warren W. Wiersbe, The Bible exposition commentary, vol. 2 (Wheaton, IL: Victor Books, 1996), 33.

3 Robert James Utley, Paul Bound, the Gospel Unbound: Letters from Prison (Colossians, Ephesians and Philemon, then later, Philippians), vol. Volume 8, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 1997), 103.

4 E esta é uma das ideais principais por trás da palavra Católica.

5 Eberhard Nestle et al., The Greek New Testament, 27th ed. (Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1993), Ef 3.19.

6 Minha tradução.

7 Uma expressão de louvor a Deus.

8 Robert James Utley, Paul Bound, the Gospel Unbound: Letters from Prison (Colossians, Ephesians and Philemon, then later, Philippians), vol. Volume 8, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 1997), 103–104.

ORAÇÃO DE JOELHOS: porque e quando ajoelhar-se?

Porque os cristãos se ajoelham? Você já se fez esta pergunta? Há razões mais específicas pelas quais devemos nos colocar de joelhos? Ou será que todas as orações deveriam ser feitas de joelhos? Seria hipocrisia orar de joelhos? O que a Bíblia diz sobre isso?

Nesta porção de Paulo aos Efésios, o mesmo comenta sobre sua própria experiência nos ajudando a entender pelo menos um bom motivo pelo qual se por de joelhos. 

Muitas outras religiões mantêm essa prática. Muitos, como os muçulmanos, entendem que todas as orações devem ser feitas de joelhos. Não querendo entrar no mérito do porque as outras religiões encontram razões para colocarem-se de joelhos perantes seus deuses, vejamos razões bem claras pelas quais devemos nos colocar diante de nosso Deus.

 

Por esta causa, me ponho de joelhos diante do Pai, de quem toma o nome toda família, tanto no céu como sobre a terra, para que, segundo a riqueza da sua glória, vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior; e, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor, 

 

Ef 3.14–17

 

Sim, há uma razão especial pela qual devemos nos por de joelhos diante de Deus-Pai. Poucas são as vezes em que Paulo afirma que fará tal coisa. Orar é sempre um ato de intimidade entre o cristão e a Santíssima Trindade. Mas, o pôr-se de joelhos sempre teve uma razão específica e especial por detrás de tal atitude.

Não é comum vermos as pessoas ajoelhando-se para falar com Deus. A orações eram feitas de muitas maneiras no tempo bíblico. No entanto, quando se fala que uma pessoa se pôs de joelhos para orar, sempre alguma razão especial está atrelada a isso.

 

Por esta causa, me ponho de joelhos diante do Pai

 

Obviamente, Paulo não estava de joelhos no momento exato em que escrevia estas palavras. Trata-se apenas de uma figura simples relacionada à mais sincera oração.

Paulo não estava preocupado com sua vida, com seus problemas. Sua preocupação estava ligada aos efésios. É por eles que Paulo se ajoelhou. Ele se ajoelha “diante do Pai”, para quem dirige sincera  e amorosamente sua oração.⁠1

Pense por um momento neste fato. Paulo, em nenhuma de suas epístola diz que se ajoelha por si mesmo, mas sempre por outras pessoas. Será que o Espírito Santo não deseja nos ensinar algo com isso? Será que não deveríamos nós também nos ajoelharmos quando estivermos clamando pela vida de outra pessoa?

Como veremos abaixo, não foi apenas Paulo que fez isso. Muitos outros antes dele também se colocaram de joelhos para pedir por outros. Vejamos:

 

Vinde, adoremos e prostremo-nos; ajoelhemos diante do SENHOR, que nos criou. Ele é o nosso Deus, e nós, povo do seu pasto e ovelhas de sua mão. Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o coração, como em Meribá, como no dia de Massá, no deserto,

Sl 95.6–8.

 

Neste texto, o povo é convidado a orar suplicando por forças para que não voltem a cair no mesmo pecado que seus antepassados um dia caíram. Eles se põe de joelhos para clamar a Deus que os ajudasse a não terem o mesmo coração duro que seus pais tiveram nos tempos do deserto.

Não havia uma preocupação individual. O foco é no coletivo. Eles se prostrariam, se ajoelhariam, para pedir uns pelos outros, uns pelas vidas dos outros. O foco não estava no que era particular, mas no que estava relacionado à vida dos outros.

Outro texto que vemos é este:

 

E, quando chegaram para junto da multidão, aproximou-se dele um homem, que se ajoelhou e disse: Senhor, compadece-te de meu filho, porque é lunático e sofre muito; pois muitas vezes cai no fogo e outras muitas, na água.

Mt 17.14–15.

 

Neste texto, temos um homem se pondo de joelhos para pedir pela vida de seus filho. Seu filho tinha problemas aparentemente mentais, os quais, todavia, se revelaram como fruto de possessão demoníaca. O foco do texto, no entanto, não é o problema do filho, mas a atitude do pai. Ele foi até Jesus e, diante dele, ajoelhou-se para pedir por outro.

Aqui também o foco não é pedir por si. O foco daquele que procurou Jesus e se ajoelhou diante dele era outra pessoa. Um pai clamando socorro e libertação por seu filho. Um pai de joelhos clamando pela salvação de seu filho.

Outro texto é este:

 

Porque Salomão tinha feito uma tribuna de bronze, de cinco côvados de comprimento, cinco de largura e três de altura, e a pusera no meio do pátio; pôs-se em pé sobre ela, ajoelhou-se em presença de toda a congregação de Israel, estendeu as mãos para o céu e disse: Ó SENHOR, Deus de Israel, não há Deus como tu, nos céus e na terra, como tu que guardas a aliança e a misericórdia a teus servos que de todo o coração andam diante de ti … Ouve, pois, a súplica do teu servo e do teu povo de Israel, quando orarem neste lugar; ouve do lugar da tua habitação, dos céus; ouve e perdoa.

2Cr 6.13–14, 21

 

Neste texto, o rei Salomão se ajoelha para orar pelo povo. Após algumas palavras de adoração, Salomão intercede pelo povo, para que todas as orações que eles fizessem naquele lugar fossem ouvidas e atendidas pelo Senhor. Ele não pede por si, mas pelo povo, para que não só fossem ouvidas suas oração, mas também para que seus pecados fossem perdoados quando ali confessados.

Outra vez, o foco de quem ora não está em si mesmo, mas em outras pessoas que estão ao seu redor. Outros estão em sua mente quando seus joelhos tocam o chão.

Não lhe parece curioso este fato? São apenas alguns episódios bíblicos. Em todos eles, quem se ajoelha o faz para pedir pelo outro. Seria errado se ajoelhar para pedir por si mesmo? Qual seria a forma de orarmos por nós mesmo?

Na verdade, não há nada de errado em ajoelhar-se para orar por si mesmo. O ponto não é este, mas apenas destacar que, quando homens de Deus se ajoelhavam não era apenas para pedir pelos seus próprios  problemas, mas também pelos outros.

Normalmente, nos ajoelhamos com o objetivo de clamar por uma situação que nos saiu do controle, um pecado que cometemos, uma viagem que faremos, etc. O foco está sempre em nós mesmos. Aqui, com Paulo e todos estes demais textos, aprendemos que nossas orações de joelhos não devem ter apenas nossos pedidos como o centro da oração. É saudável que também nos ajoelhemos a fim de orar apenas pelos outros.

 

de quem toma o nome toda família, tanto no céu como sobre a terra,

 

O verso 15 nos apresenta outro fato maravilhoso. Assim como um pai dá um nome para um filho e para uma família, Deus dá um nome para todos que formam sua família, tanto no céu quanto na terra. 

Dar um nome equivale-se a dar um título.⁠2 Você o leva para onde for e todos o reconhecerão por este nome. Não apenas lhe chamarão por ele, mas também lhe honrarão.

Deus nos dá a honra de seus seus filhos e filhas e de levarmos o seu nome em nossas vidas. Como filhos amados, recebemos dEle esta graça.

Paulo aqui faz uma brincadeira com as palavras. No final do verso anterior, ele citou o πατέρα de quem toda a πατριὰ toma o nome. Pater e Patria, pai e família. Nesta brincadeira, Paulo reforça a identidade do nome entre a família com seu Pai.⁠3

 

para que, segundo a riqueza da sua glória, vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior; e, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor, 

 

No verso 16, Paulo nos recorda que Deus nos dá poder no homem interior. Este poder é o que nos capacita a agirmos com maturidade diante de todas as situações da vida. Não há nada impossível para quem caminha cheio desse poder. Tudo podemos naquele que nos fortalece.

É segundo a riqueza de sua glória que ele nos enche de graça e de poder. É por esta graça que Ele nos faz fortes. É por esta graça que cegos veem e fracos são capazes de lutar contra o impossível. É por esta graça que você e eu não temos motivos para desistir nunca e em nenhum momento de nossas vidas quando estivermos diante de tribulações e angústias.

No verso 17, Paulo trata de uma verdade muito cara aos cristãos: “habite Cristo no vosso coração”. Todos amamos esta expressão. Ensinar a crianças e adultos sobre Cristo estar presente em nossos corações é tão precioso.

No entanto, o que Paulo está fazendo aqui é ligar a riqueza de sua glória ao habitar de Cristo em nossos corações.

Pela fé (que é um dom de Deus, segundo informações reveladas nesta mesma Epístola) é que recebemos a Cristo em nossos corações e assim passamos a estar estabelecidos e firmemente arraigados em Cristo. O poder de Deus faz com que Cristo habite no coração. O poder de Deus é o que faz com que esta habitação seja indestrutível e eterna. Até quando ele habitará em nossos corações? Até que entremos definitivamente em sua presença no novo céu e nova terra. Lá, então, não se fará mais necessária esta atual e interna habitação. Na verdade, lá seremos nós que habitaremos nele, conforme nos aponta o livro de Apocalipse.

 

Algo interessante a ser notado aqui também é o destaque à ação da Trindade em todo o processo. “Pai… Espírito… Filho”. No verso 14, a pessoa do Pai é mencionada. No verso 16, a pessoa do Espírito Santo é mencionada. E, no verso 17, a pessoa de Cristo é mencionada. Se separássemos tudo o que está no meio, as palavras de Paulo nesta porção ficariam assim:

 

“Me ponho de joelhos diante do Pai,… para sejais fortalecidos mediante o seu Espírito,… e, assim, habite Cristo em vosso coração”.

 

Note que o Pai é quem recebe a oração que fazemos ajoelhados. Quem opera na resposta a nosso pedido é o Espírito. É Ele quem opera em nós no tempo da igreja. É pela obra do Espírito segundo a vontade do Pai que o Filho habita em nossos corações fazendo com que conheçamos e experimentemos “a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade⁠4” do amor de Cristo, conforme veremos no comentário dos versos seguintes.

 

Assim, não nos esqueçamos de que a presença de Cristo em nossos corações é o que nos fortalece, que o Espírito Santo continua operando no coração de homens e mulheres segundo a vontade do Pai. E, acima de tudo, não nos esqueçamos de quão importante é nos colocarmos de joelhos para clamar pela vida das pessoas a quem amamos e desejamos livramentos, curas e, principalmente, salvação.

 

 

___________________

1 Kenneth S. Wuest, Wuest’s word studies from the Greek New Testament: for the English reader (Grand Rapids: Eerdmans, 1997), Ef 3.14.

2 Johannes P. Louw e Eugene Albert Nida, Greek-English lexicon of the New Testament: based on semantic domains (New York: United Bible Societies, 1996), 402.

3 Robert James Utley, Paul Bound, the Gospel Unbound: Letters from Prison (Colossians, Ephesians and Philemon, then later, Philippians), vol. Volume 8, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 1997), 102.

4 Ef 3.18

QUEM É VOCÊ? Saiba o que a Bíblia diz

No comentário anterior, vimos o encanto de Paulo pela surpresa que Deus lhe deu, bem como a todos os efésios e gentios, inserindo-os na nova aliança, fazendo também deles co-herdeiros com Cristo, desfazendo toda e qualquer barreira de separação que havia entre os judeus, o povo historicamente em aliança com o Senhor, conhecido como Povo de Deus, e os gentios, conhecidos historicamente como ímpios, pagãos, povos de fora da aliança, distantes de Deus e de suas promessas.

Agora, aqueles que estavam longe, estão perto. Foram inseridos à aliança, à nova aliança. Isto, como bem descreveu Paulo, nunca havia sido revelado a ninguém no Antigo Testamento.Tal mistério revelado através de Paulo nada mais fez do que demonstrar a grandeza da graça de Deus em Cristo.

A compreensão de tal mistério trouxe uma enorme alegria ao apóstolo Paulo. Nos versos e capítulos já analisados e comentados, Paulo revela sua gratidão e surpresa pela bondade de Deus em fazê-lo conhecedor de todas estas coisas bem como o portador e despenseiro deste conhecimento aos povos que viviam fora das fronteiras israelitas, os assim chamados gentios.

No entanto, a revelação de um outro mistério certamente alcançou Paulo em seu encontro com a graça de Deus. Este outro mistério que, penso eu, Paulo nunca imaginou que descobriria, é o de sua real natureza. Em sua conversão na estrada de Damasco, Paulo não pôde apenas conhecer a Deus, mas a si mesmo. A real conversão produz um profundo e correto conhecimento de Deus e de si mesmo.

É isso que vemos nas palavras de Paulo em Efésios 3.8:

 

A mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo

 

Aqui subjaz um conceito bíblico de humildade. Em outras palavras, aqui está uma pequenina visão bíblica sobre o homem e como ele deve se ver. Qual deve ser a compreensão de alguém sobre si mesmo? Vejamos a resposta nas palavras de Paulo.

 

A mim, 

 

Qual visão de si mesmo deve ter um cristão? Ἐμοὶ (emoi) é a forma dativa do pronome pessoal de primeira pessoa singular. Paulo estava falando de si. Quanto a “si”, ele não estava se lembrando de algo acontecido em um passado distante, mas de algo que continuava a ser em sua vida. Não é o caso dele ter sido o menor dentre todos os santos, mas dele continuar a sê-lo. Esta sempre foi sua visão de si mesmo, e que transparece em várias de suas cartas. Veja:

 

1Timóteo 1.15–16: Fiel é a palavra e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal. Mas, por esta mesma razão, me foi concedida misericórdia, para que, em mim, o principal, evidenciasse Jesus Cristo a sua completa longanimidade, e servisse eu de modelo a quantos hão de crer nele para a vida eterna.

 

1Coríntios 15.9: Porque eu sou o menor dos apóstolos, que mesmo não sou digno de ser chamado apóstolo, pois persegui a igreja de Deus.

 

Paulo sabia quem ele era. Humanamente falando, Paulo sabia de sua grandeza. Espiritualmente falando, com os olhos de um novo homem regenerado, Paulo sabia que não passava de um pequeno vaso escolhido para servir ao seu Senhor.

O menor de todos os santos, e o menor dentre todos os apóstolos. Alguém que não é digno de receber o que recebeu.

Paulo possuía um visão de si mesmo. Todos devemos ter. O grande perigo de nossos dias é que boa parte da psicologia moderna, sem falar de boa parte das pregações modernas — bastante influenciadas por uma visão incorreta de certos conceitos da psicologia —,  acabam transmitindo uma visão sobre o ser humano diferente daquela que Bíblia tem sobre ele.

Todos devemos ter uma visão sobre nós mesmos. Você precisa ter uma visão de si, quem você é, quão importante (ou não) você é, etc. Consciente ou inconscientemente, você nutrirá em seu interior uma visão sobre si. Todos temos. A questão é: esta é uma visão correta ou errada de si mesmo? Uma visão honesta ou uma visão romântica? Uma visão bíblica ou uma visão distorcida, transmitida a você por alguém cheio de boas intenções, todavia sem dizer a verdade? 

Via de regra, seres humanos não gostam de ouvir a verdade. A mentira agrada mais. É por isso que tantos pregam e aconselham o que você quer ouvir, mas não o que você precisaria ouvir a fim que chegasse até a verdade sobre quem você é. Lembre-se, saber a verdade, sempre liberta. Abraçar a mentira, sempre perturbará, e nunca lhe dará descanso.

 

o menor de todos os santos, 

 

O que significa reconhecer-se como “menor”? Era essa compreensão que Paulo tinha de si mesmo. Ele sabia, uma vez convertido, que aos olhos de Deus ele era um servo. Esta era a verdade sobre si. E esta verdade lhe trouxe prazer e libertação. Paulo tornou-se um servo do Evangelho (Ef 3.6-8). Servo não no sentido de sujeição, como um escravo, mas no sentido de um “diakonos”, alguém que está servindo a outros.

A base deste serviço é a graça de Deus, o dom da graça de Deus. Segundo Paulo, é o poder de Deus que o mantém neste serviço. Paulo serve não pelo seu próprio poder, mas pelo poder de Deus. Paulo é pequeno, a despeito de todo conhecimento e fama que tivesse. O que importa são os olhos de Deus. E, diante desses, Paulo sabia de sua pequenez e fragilidade.⁠1

Como escreveu em 1Tm 1.15, “Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal”. Ainda que, aos olhos dos demais homens de seu tempo, Paulo parecesse um pouco exagerado em sua colocação, para ele mesmo, tais palavras faziam todo sentido. Aliás, é sempre assim que alguém se vê quando alcançado sobrenaturalmente por esta graça soberana e transformadora.

Em 1Co 15.9, escreveu que era “o menor dos apóstolos, que mesmo não sou digno de ser chamado apóstolo”. No mesmo verso, Paulo dá a razão de tal consideração. O fato dele ter sido um perseguidor da Igreja Cristã tornou-o consciente de uma indignidade. 

Obviamente, o ponto aqui não é discutir se alguém é digno ou não. Todos são indignos. O ponto é o destaque dado àquele que teve um encontro com a graça que mudou completamente a visão que ele tem de si mesmo. Não mais “o cara”, mas “o último”.

Conforme comenta o teólogo Robert Utley, a expressão “menor de todos” é um comparativo de um superlativo.⁠2 A antiga vida agora o humilhava. Sua religiosidade alicerçada sobre uma auto-justificação pessoal e uma perseguição agressiva contra a Igreja de Jesus Cristo fazia dele, antes da conversão, um homem bem visto pela comunidade religiosa judaica. Agora, convertido, tudo aquilo que antes era motivo de sua fama, é motivo de sua humilhação. Agora, Paulo não estava mais diante dos olhos do homens, mas dos olhos de Deus. E isso o humilhava. Os olhos de Deus quando postos sobre alguém sempre farão com que esta pessoa se sinta como a última, a menor. Não há espaço algum para auto-estima. Os olhos de Deus destrói toda a auto-estima. Destrói para começar a construir em você uma visão correta sobre a estima que vem do alto.

Este verso nos dá um ótimo exemplo de quão humildemente Paulo falava de si mesmo. Quão pouco falava de si, e quão ricamente falava de Cristo. Ele era, em suas próprias palavras, em sua própria estima pessoal, o menor que poderia ser. O que pode ser inferior ao menor? É impressionante como pessoas a quem Deus elevou demais honrando-as em sua obra, primeiramente fez com que elas tivessem uma nova visão sobre si mesmos. Para que Deus use alguém, primeiro ele abre os olhos desse alguém. Ou, como bem disse Søren Kierkegaard, "Deus cria tudo do nada — e tudo o que Deus vai usar, Ele primeiro reduz a nada."

Com estas palavras, Deus usa Paulo para nos informar que um fiel ministro de Cristo pode ser muito humilde e pensar muito pouco de si mesmo, até mesmo enquanto ele pensa e fala de modo grandioso e honrado de sua sagrada função.⁠3

 

me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo

 

Mais uma vez, Paulo fala sobre o pregar do Evangelho. A conclusão de palavras tão lindas sobre sua nova e correta visão de si mesmo é coroada com a lembrança de que em seu atual momento da vida, o servir através da pregação do Evangelho é algo extremamente poderoso.

Aqui, ele é chamado de o Evangelho das insondáveis riquezas de Cristo. Essa “riqueza” contrasta com a “pobreza” sobre si mesmo. Cristo é tudo, ele é nada. Cristo cresce, ele diminui.⁠4 Esta visão sobre Cristo e sobre Deus (e, por que não dizer, sobre si mesmo) não pode ser alcançada por meio de um esforço pessoal. Trata-se de uma revelação do próprio Deus.⁠5

Esta expressão “riquezas de Cristo” é uma das favoritas de Paulo.⁠6 As riquezas de Deus-Pai sobre as quais Paulo falou no capítulo 1, agora são transferidas para o Deus-Filho.⁠7 Paulo passa a falar grandiosamente sobre aquele a quem ele odiou e que, um dia, mesmo depois de morto, lhe apareceu no caminho de Damasco.

Paulo compreendeu que há em Cristo um tesouro poderosíssimo de misericórdia, graça e amor, como afirmou o puritano Matthew Henry.⁠8 As riquezas do Evangelho são as riquezas do próprio Cristo. Estas riquezas não podem ser perseguidas, descobertas ou alcançadas. Elas estão ocultas aos seres humanos. Somente Deus, pela graça, pode revelá-las a quem ele quiser. Agora, então, Paulo se empregava diariamente de pregar este “evangelho das insondáveis riquezas de Cristo” aos gentios de Éfeso e tantas outras cidades.

Enquanto tantos ainda permaneciam pobres sem o conhecimento da riqueza deste Evangelho, os efésios — e todos nós também — deveriam louvar e agradecer a Deus por tê-los permitido ver e experimentar este favor e graça de serem enriquecidos com o Evangelho. Talvez, muitos aqui se perguntem: “Mas, com o que o Evangelho enriquece?” E a resposta a todos estes é: “O Evangelho enriquece o ser humano de esperança, de perdão, de paz e de segurança de salvação”.

Aquele que é cheio desta paz que só a boa mensagem de Cristo pode dar também se torna rico do próprio Evangelho podendo compartilhá-lo com outros livre e abundantemente, por onde for.

Graças a Deus, todos os não judeus, ou seja, todos os gentios — todos nós — podemos ser ricos das bênçãos de Cristo e ricos da graça e misericórdia de Deus. Mas, para isso, é necessário que voltemos para Cristo, deixando de lado toda arrogância e vaidade, todo pensamento errado e demasiadamente elevado de si mesmo. Não somos mais do que pecadores, grandes pecadores, e Cristo, pela graça de Deus, é um grande Salvador. Todos precisamos dele, todos devemos olhar e correr para ele. Só assim saberemos quem realmente somos e quem realmente ele é.

 

____________________

1 Harold W. Hoehner, “Ephesians”, in The Bible Knowledge Commentary: An Exposition of the Scriptures, ed. J. F. Walvoord e R. B. Zuck, vol. 2 (Wheaton, IL: Victor Books, 1985), 629–630.

2 Robert James Utley, Paul Bound, the Gospel Unbound: Letters from Prison (Colossians, Ephesians and Philemon, then later, Philippians), vol. Volume 8, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 1997), 100.

3 Matthew Henry, Matthew Henry’s commentary on the whole Bible: complete and unabridged in one volume (Peabody: Hendrickson, 1994), 2311.

4 Biblical Studies Press, The NET Bible First Edition Notes (Biblical Studies Press, 2006), Ef 3.8.

5 Robert James Utley, Paul Bound, the Gospel Unbound: Letters from Prison (Colossians, Ephesians and Philemon, then later, Philippians), vol. Volume 8, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 1997), 100.

6 Confira Ef 1.7,18;2.4,7;3.8,16.

7 Robert James Utley, Paul Bound, the Gospel Unbound: Letters from Prison (Colossians, Ephesians and Philemon, then later, Philippians), vol. Volume 8, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 1997), 100.

8 Matthew Henry, Matthew Henry’s commentary on the whole Bible: complete and unabridged in one volume (Peabody: Hendrickson, 1994), 2311.

DEUS SEMPRE NOS SURPREENDE

A união entre judeus e gentios foi algo totalmente oculto aos judeus do Antigo Testamento. Paulo, nas palavras que seguem, irá explicar como a ele foi revelado tal conhecimento e como isso trouxe Paulo a um estado de alegria e satisfação nunca antes experimentado por ele. 

Embora o apóstolo explique resumidamente o mistério desta união entre judeus e gentios que tornou ambos os povos co-herdeiros, membros de um mesmo corpo, e co-participantes das bênçãos, vitórias e promessas de Cristo Jesus. 

O Evangelho faz o que nada mais é capaz. Ele restaura e une o que ninguém jamais imaginou. Se Deus é capaz de fazer isso de um modo tão surpreendente, e se ele é o mesmo ontem, hoje e eternamente, imagine a alegria que vem de saber que Deus sempre terá algo bom para nos surpreender? E ele sempre nos surpreende!

Apenas a distancia dele é que nos priva do desfrutar de suas surpresas. Mas, vejamos nas palavras do próprio Paulo sobre esta graça bendita que lhe encheu o coração de alegria e surpresa.

 

se é que tendes ouvido a respeito da dispensação da graça de Deus a mim confiada para vós outros; pois, segundo uma revelação, me foi dado conhecer o mistério, conforme escrevi há pouco, resumidamente; pelo que, quando ledes, podeis compreender o meu discernimento do mistério de Cristo, o qual, em outras gerações, não foi dado a conhecer aos filhos dos homens, como, agora, foi revelado aos seus santos apóstolos e profetas, no Espírito, a saber, que os gentios são co-herdeiros, membros do mesmo corpo e co-participantes da promessa em Cristo Jesus por meio do evangelho; do qual fui constituído ministro conforme o dom da graça de Deus a mim concedida segundo a força operante do seu poder.

 

 

se é que tendes ouvido a respeito da dispensação da graça de Deus 

 

O que é dispensação? A palavra nos remete a uma dispensa que precisa ser administrada. Seja uma dispensa pequena, seja uma dispensa grande, a correta e prudente administração da mesma se faz mais do que necessário para aquele que a possui. Deus possui muito, embora seja, em si, simples. O que vem dele, todavia, não é simples. Pelo menos, não para nós.

É nesse sentido que aquilo que dele vem a nós precisa ser corretamente administrado e “dispensado” a fim de que recebamos com entendimento. 

Da palavra “dispensação"  em grego se tira a palavra portuguesa para “economia”. A expressão toda que originalmente Paulo escreveu foi esta: τὴν οἰκονομίαν τῆς χάριτος τοῦ θεοῦ τῆς (tēn oikonomian tēs charitos tou theou tēs). A segunda palavra, οἰκονομίαν (oikonomian), é a palavra traduzida por dispensação. Trata-se da junção de duas palavras, oikos e nomos (casa e lei). Assim, economia — ou, dispensação — diz respeito às regras ou leis que governam e administram uma casa. É nesse sentido que Paulo se vê como um administrador do mistério que Deus lhe revelou.

Em que sentido a graça de Deus é dispensada sobre nós? A graça de Deus é bem conhecida do leitor de Paulo. Ele, nos dois primeiros capítulos, explicou o que significa para si este amor leal e fiel reconhecido também pela palavra graça. Graça não está relacionado apenas a algo gratuito, mas a algo gracioso, amoroso que, ao mesmo tempo, vem a nós em completa gravidade.

A graça de Deus é dispensada de modo amoroso e não opressivo sobre os efésios. Sobre a graça de Deus, Paulo falou no início desta epístola, o que também já comentei no início destes comentários em Efésios.

 

a mim confiada para vós outros;

 

Deus confiou a Paulo o administrar da dispensação de Sua graça entre os não-judeus. Deus, literalmente, deu a Paulo o que ele deveria dar aos não-judeus. Ele recebeu a “confiança” de Deus (Deus confiou a ele) para cuidar daquilo que seria dado aos gentios, abrindo-lhes a porta do Evangelho. Sua seria a responsabilidade tanto de pregar quanto de ensinar as Boas Novas recebidas.⁠1

O que é dado com confiança foi transmitido com fidelidade. O que foi dado a Paulo era para “vós outros” — os efésios e todos os gentios. Paulo foi apenas um mensageiro, um interlocutor. E deveria ser fiel. Veja que sua fidelidade lhe custou a prisão. Pensa que Paulo em algum momento se arrependeu? Nunca. Sua alegria estava em compartilhar ou dispensar com fidelidade e sabedoria aquilo que lhe havia sido confiado.

 

pois, segundo uma revelação, 

 

Deus confiou a Paulo a dispensação de Sua graça entre os gentios quando ele estava a caminho de Damasco, com autorização para prender os cristãos e arrastá-los a Jerusalém. No meio do caminho, o próprio Senhor Jesus lhe apareceu, converteu e revelou a razão de sua eleição para um ministério entre os gentios.

Revelação é trazer algo oculto à luz. A palavra para “revelação” é ἀποκάλυψιν (apokalypsin), de onde nos vem a palavra apocalipse. A melhor definição é realmente esta, trazer à luz algo que estava oculto. O que estava oculto? O mistério da união entre gentios e judeus em um só corpo compondo a “família de Deus”, como já dito em versos anteriores.

Revelação não é algo que se dá o tempo todo, indiscriminadamente. Trata-se de algo elementar, fundamental, sobre o qual tudo o mais se constrói. É a base de qualquer pensamento que se constrói. Não se pode lançar  fundamento de um edifício enquanto ele se constrói. Assim, o que foi dado a Paulo foi a base sobre o que não somente aquela igreja foi construída, mas todas as igrejas em todos os tempos nos milênios seguintes também o foram. 

A revelação que foi dada a Paulo no caminho de Damasco foi de uma natureza extraordinária. Ela não acontece ou acontecerá com outros da mesma maneira. Foi única. Foi para ele. Recebendo-a, foi fiel a ela até o dia de sua morte. Obviamente, não se tratava de uma revelação como Paulo receberia tempos depois, como a própria autoridade para escrever esta epístola aos Efésios, inspirada pelo Espírito Santo. Tal revelação também foi uma realidade em sua vida. 

Todavia, esta foi de uma outra natureza, pois estava relacionada ao descobrir da razão de sua existência neste mundo. Deus o havia predestinado para ser um vaso de honra entre os gentios, um vaso que seria usado para levar o evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo a povos distantes na geografia, na língua, na cultura, nos hábitos, nas festas, nas alianças, e em tudo o mais. Deus, em sua rica misericórdia, revelou a Paulo que ele seria o portador da mensagem do fim dessa separação e distância. 

 

me foi dado conhecer o mistério, 

 

Paulo recebeu como um presente a possibilidade de conhecer algo que ninguém havia conhecido antes dele. Nenhum profeta no Antigo Testamento havia suposto que a chegada dos gentios à aliança aconteceria da maneira como aconteceu no Novo Testamento.

Não preciso esclarecer em detalhes isto aqui, visto que Paulo tratará do mesmo assunto em detalhes no decorrer dessa carta.

Apenas destaco suas palavras “foi me dado”. Paulo, mais uma vez, é passivo no processo. O mistério que lhe foi dado veio como um presente, uma dádiva não merecida. Assim como tudo que Deus nos dá e faz por nós, recebemos de um modo passivo e imerecido, ficando encantados e constrangidos com tanto amor derramado sobre nós. 

 

conforme escrevi há pouco, resumidamente; pelo que, quando ledes, podeis compreender o meu discernimento do mistério de Cristo,

 

Paulo já havia escrito no final do capítulo dois acerca do mistério. Resumidamente, falou sobre algo grandioso e imperceptível aos hebreus do Antigo Testamento: a união dos gentios nas alianças dos judeus no Novo Testamento.

Obviamente, como já comentei, não em todas as alianças. Um estudo cuidadoso das alianças faz com que percebamos isso. Não se faz necessário explicar aqui que algumas alianças são exclusivas à Israel, enquanto outras são para todos os eleitos. Um exemplo: a aliança relacionada à terra prometida de Canaã, da qual a igreja hoje não participa, muito menos reivindica.

Paulo, ao falar sobre o mistério da inclusão dos gentios no mesmo “corpo” em que os judeus já estavam, explica que ele já havia falado sobre o assunto resumidamente. Logo, seu foco aqui não é ser exaustivo. No decorrer da carta, ele citará outras coisas relacionadas a esta união mística entre os povos com Cristo e, através de Cristo, com a Santíssima Trindade.

Paulo não se preocupa em explicar em detalhes esta união por, provavelmente, tratar-se de algo muitíssimo claro a todos os gentios efésios. Eles experimentavam esta união de modo prático e vívido. Não precisava-se explicar. Eles a sentiam. A paz, as bênçãos, a presença do Espírito, o perdão, a união, a nova aliança através do sangue do Cordeiro judeu sacrificado para salvar a todos que nele cressem, tudo isso fazia com que tal união mística fosse algo maravilhoso e vivo para eles.

 

o qual, em outras gerações, não foi dado a conhecer aos filhos dos homens, como, agora, foi revelado aos seus santos apóstolos e profetas, no Espírito, a saber, que os gentios são co-herdeiros, membros do mesmo corpo e co-participantes da promessa em Cristo Jesus por meio do evangelho; 

 

Aqui, então, o apóstolo Paulo irá deixar clara esta união. 

Em outras gerações, diz respeito ao tempo do Antigo Testamento, quando a revelação bíblica era dada aos homens através dos profetas. Naquele tempo, nenhum deles jamais supôs muito menos escreveu nada sobre o tempo da igreja, o tempo desta união mística conhecida por Paulo e passada dele para outros através de revelação, pregação, ensino e escritos, inspirados ou não. O que chegou a nós são apenas seus escritos inspirados (que estão na Bíblia) através dos quais podemos saber o que Paulo recebeu de Cristo como revelação e pregou em seu tempo de vida. 

Agora, diz respeito ao tempo em que Paulo vivia quando apóstolos e profetas recebiam, através da ação do Espírito Santo em suas vidas, a revelação relacionada a esta união. 

Toda herança espiritual prometida aos judeus agora era dada aos gentios. Estes últimos também se tornaram herdeiros. Quem imaginava isso antes de Cristo? Que de dois povos, Deus faria um, colocando-os dentro e debaixo da mesma aliança? Membros do mesmo corpo?! Ninguém jamais imaginou algo assim.

Este mistério que estava oculto até a vinda de Cristo e sua revelação é agora, através de Paulo, comunicado ao mundo. Através do Evangelho, tal união tornou-se possível. Sem o Evangelho, a inimizade permanece. Sem o Evangelho, o que fica é a competição, a traição e a mentira. Com o Evangelho, todas as barreiras são desfeitas pois o novo-convertido aprende que nenhum pecado deve ser deixado sem perdão. Aprende que deve perdoar as ofensas de outros assim como suas próprias ofensas foram um dia perdoadas pelo próprio Deus.

Sobre o Evangelho, Paulo conclui falando com alegria sobre o presente que Deus havia lhe dado de se tornar ministro do mesmo.

 

do qual fui constituído ministro conforme o dom da graça de Deus a mim concedida segundo a força operante do seu poder.

 

Paulo reconhece que, até mesmo o fato de ter sido chamado para ser um pregador do Evangelho foi uma ato da misericórdia e da graça de Deus. Não foi algo planejado, sonhado, pensado por Paulo. Foi algo que caiu sobre ele. Veio a ele, sem que o mesmo pudesse ter tempo para pensar no que entraria. Já dentro, percebeu que tal convite nada mais foi do que um presente gracioso, sinal do amor de Deus por ele.

Foi, portanto, concedido a Paulo este privilégio como poderia ter sido concedido a qualquer outra pessoa. O ponto, portanto, não é Paulo, mas a graça. Uma graça poderosa e soberana que age (e sempre agirá) onde quer que intente Deus trazer transformação e restauração. Esta graça é poderosa para trazer as maiores transformações que o ser humano pode imaginar. Sem ela, ele está perdido. Com ela, nunca cessam as surpresas das maravilhas que o Senhor concederá para os que estão nele.

 

No texto seguinte, Paulo continuará a tratar da graça envolvida na revelação deste mistério mas, antes de seguir, gostaria de chamar sua atenção para o que tudo isso transmite a nós, leitores do século XXI, milênios depois de Paulo.

Quem pode imaginar os planos de Deus para si? Que igreja pode imaginar os planos de Deus para ela? Por mais que nos esforcemos, jamais compreenderemos os planos de Deus para os seus, seja na igreja, seja na família, seja em sua vida pessoal, presente e futuro. 

Com estas palavras de Paulo, o que fica muito claro é que o Senhor sempre surpreende o seu povo. Por mais que suas bênçãos nos deixem felizes, ele sempre tem mais, sempre algo “escondido” esperando pelo tempo certo em que tal bênção há de ser trazida à luz. Quando revelada, explode o coração e a alma de qualquer um que esteja debaixo de sua bondade. Não somos capazes de imaginar nem mesmo de pedir por aquilo que nos seja melhor. Deus sempre terá algo infinitamente melhor preparado para nós.

Nem sempre entenderemos este melhor. Outro problema nosso é que, quase sempre não teremos paciência para esperar pelo melhor. O que queremos, queremos agora. Ou, para amanhã. Mas que não demore muito. Isso cria ansiedade dentro de nós. E esta ansiedade só nos distancia. 

O que deveríamos fazer então? Deveríamos ouvir estas palavras reveladas e inspiradas de Paulo e agarrarmos cada uma delas com toda a força de nossa alma e atravessarmos o momento de aparente silêncio de Deus confiando nesta certeza de que ele sempre surpreendeu o seu povo.

Agarre bem firme tais verdades, abrace-as com força e fé, sem a qual é impossível agradar a Deus. Permaneça fiel, certo de que Ele sempre tem o melhor para os seus. 

 

____________________

1 Kenneth S. Wuest, Wuest’s word studies from the Greek New Testament: for the English reader (Grand Rapids: Eerdmans, 1997), Ef 3.2.

VOCÊ DESEJA SER LIVRE?

A quem ou a quê você está ligado? Todos estamos amarrados a algo ou a alguém. Até mesmo aqueles que se consideram livres e que não estão presos a nada, enganam-se não percebendo que são escravos de uma falsa liberdade que não os levará a nada. Um falso senso da liberdade escraviza ignorantes ingênuos que supõe que a liberdade é um estado. Liberdade não é e nunca será um estado. Liberdade é uma pessoa!

Paulo aqui expõe algo sobre esta verdadeira liberdade que encontramos quando, paradoxalmente, nos tornamos prisioneiros de Jesus Cristo. Em Ef 3.1, Paulo diz:

 

Por esta causa eu, Paulo, sou o prisioneiro de Cristo Jesus, por amor de vós, gentios,

 

Compreendamos tais palavras passo a passo.

 

Por esta causa 

 

A causa sobre a qual Paulo escreve está ligada ao amor de Deus que ultrapassa o tempo e a história e ao poder de Deus em trazer à vida pessoas sem esperança e salvação, libertando-as de sua morte espiritual.

A causa da preocupação de Paulo era trazer os efésios para mais perto de Deus e afastá-los de tudo o que apenas cooperava para distanciá-los cada vez mais do soberano Deus que os salvou e protegia em meio às aflições que os cristãos no mundo todo passavam por aqueles dias.

Todos vivem por uma causa. Cristãos ou não-cristãos, todos vivem e morrem sobre uma causa. Consciente ou inconscientemente, todos compram, orçam, relacionam-se, sonham, agem, baseados em uma causa que, nem sempre, é clara e aparente aos tais.

É neste sentido que a causa de Paulo é Cristo. Cristo é o fundamento sobre o qual ele está. Em suas palavras anteriores aos efésios, Paulo comentou sobre o fundamento dos apóstolos e profetas sobre o qual toda igreja está construída. Paulo, como mais um membro deste grande corpo e edifício, também tem sua vida construída sobre Jesus. 

É por causa de Cristo, e pela causa de Cristo, que Paulo agora lhes escrevia. Não apenas por ter sido alcançado por este amor imerecido e liberto pelo poder desta misericórdia, mas também pela certeza de que o Senhor havia o chamado para espalhar a mensagem deste amor.

E foi em amor que Paulo lhes escreveu. A causa está relacionada a este amor, tanto por Cristo quanto pelos efésios e todos os demais gentios. Por causa deste amor por eles e da pregação deste evangelho, Paulo agora estava preso.

A ‘razão’ também está relacionada com o novo plano em que judeus e gentios agora estão colocados. E a razão dessa união e inseparabilidade entre os convertidos se dá pelo fato do Senhor ter os escolhido desde antes da fundação do mundo.⁠1 Ele são obra de Deus, fruto do poder de Deus. A graça de Deus é abundante também sobre os gentios. Eles nunca deveriam se esquecer disso.

 

eu, Paulo, sou o prisioneiro 

 

Paulo estava preso em Roma por causa de seu serviço no reino de Deus, e mais especificamente por causa de seu serviço entre os gentios (2Tm 1.11-12). Muitos judeus se levantaram contra Paulo por causa de sua pregação. Vinha dos judeus a maior parte das acusações falsas sobre o apóstolo, as quais incitavam governos e “forças policiais” a se levantarem contra Paulo para prenderem-no. A força da oposição dos judeus contra Paulo acabou ocasionando um ataque contra sua pessoa na cidade de Jerusalém e consequente prisão que o levou primeiramente a Cesareia e depois a Roma, de onde escreveu esta carta.⁠2

A prisão de Paulo não o fazia sofrer por causa dela em si. A aflição trazida pela prisão não significou tristeza para Paulo. Embora não deixasse de ser tribulação, havia paz em sua alma. Por isso Paulo não reclama, embora recorde de sua situação de prisioneiro. Assim, textos como os seguintes servem para nos recordar o que nossos irmãos quando sofriam tinham em mente:

 

Apocalipse 2.10: Não temas as coisas que tens de sofrer. Eis que o diabo está para lançar em prisão alguns dentre vós, para serdes postos à prova, e tereis tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida.

 

Colossenses 4.3: Suplicai, ao mesmo tempo, também por nós, para que Deus nos abra porta à palavra, a fim de falarmos do mistério de Cristo, pelo qual também estou algemado;

 

Embora, a aflição seja certa, nenhum deles a trocaria pela paz e alívio deste mundo, momentâneos, mas que se dissipam com o tempo. O foco deles estava na eternidade. Era nela que eles pensavam. Os sofrimentos do tempo presente não se podem comparar com o que estava preparado para eles em seu futuro:

 

Romanos 8.18: Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós.

 

Paulo se via como um prisioneiro, mas não prisioneiro de um império, e sim prisioneiro de um homem, Jesus Cristo. Assim ele continua:

 

de Cristo Jesus, 

 

Paulo estava ligado a Cristo, amarrado a Jesus, atado com laços de amor, a ponto de se considerar um escravo (δοῦλος) de nosso Senhor. Estar ligado dessa forma a Cristo é estar verdadeiramente liberto. Só quem está preso a Cristo é verdadeiramente livre. Quem supostamente está “livre” de Cristo são os que verdadeiramente estão escravos de seus vícios e pecados. Só Cristo nos liberta. Ele é a verdade que nossa alma tanto anseia e busca em tantas coisas e pessoas. Só nele encontramos verdadeiro e pleno descanso.

Paulo se considera um prisioneiro de Cristo Jesus. E isso é razão da liberdade de Paulo, da plena alegria em sua vida e história. Se alguém não está ‘acorrentado’ a Cristo, como um prisioneiro ou escravo, tal pessoa está acorrentada a outro senhor ou prisão. Consciente ou inconscientemente, todos estão presos a algo ou alguém. E só as correntes que nos atam a Cristo nos trazem paz e liberdade.

 

por amor de vós, gentios,

 

Literalmente, Paulo escreveu: “Por causa de vós, das etnias”. As etnias aqui descritas dizem respeito aos gentios que tanto sofriam por causa do preconceito dos judeus. Agora, todas as etnias do mundo seriam alcançadas pelo Evangelho.

O amor de Paulo pelo Senhor Jesus o levou a morrer para si e para o mundo levando o Evangelho a todos os não-judeus. Isso fez com que ele encontrasse a prisão em várias ocasiões. Quando estamos atados a Cristo, amando-o com todo o nosso coração e alma, estamos sempre prontos a falar dessa paz a todos que nos perguntam sobre ela.

 

______________

1 Harold W. Hoehner, “Ephesians”, in The Bible Knowledge Commentary: An Exposition of the Scriptures, ed. J. F. Walvoord e R. B. Zuck, vol. 2 (Wheaton, IL: Victor Books, 1985), 628.

2 Harold W. Hoehner, “Ephesians”, in The Bible Knowledge Commentary: An Exposition of the Scriptures, ed. J. F. Walvoord e R. B. Zuck, vol. 2 (Wheaton, IL: Victor Books, 1985), 628.