A PÁSCOA

Enquanto comemos muito chocolate e brincamos com ovos e coelhos (por favor, não sejam radicais demais quanto a isso, ok?!), é pertinente e valioso que nos recordemos de onde vem esta festa.

A páscoa é mais um feriado esperado e comemorado pelos brasileiros. Aliás, em todas as nações de tradição judaico-cristã, a páscoa será lembrada neste final de semana.

O que, no entanto, muitos perderam é o significado real da páscoa. E é sobre o significado desta festa que trataremos neste pequeno artigo.

PESACH (PĚʹ·SǍḤ)

No Antigo Testamento, a Páscoa foi instituída por ocasião da libertação do povo do Egito. O nome “páscoa” vem de pesach (pěʹ′·sǎḥ), palavra hebraica para “passagem”, representando a passagem do anjo da morte sobre o Egito ferindo-o com a 10a praga.

A páscoa era celebrada anualmente com o fim de relembrar a libertação que o Senhor deu ao seu povo. Depois de mais de 400 anos de escravidão no Egito, Deus os libertou em um evento no qual os elementos usados na páscoa estiveram presentes.

A páscoa foi instituída em Êx 12.14:

Este dia vos será por memorial, e o celebrareis como solenidade ao Senhor; nas vossas gerações o celebrareis por estatuto perpétuo.

Os elementos da páscoa no A.T.

Os elementos usados na celebração da páscoa no A.T. eram o cordeiro, os pães ázimos, as ervas amargas e o sangue. Cada um desses elementos era trazido e utilizado anualmente nas festas de páscoa. Cada um representava e relembrava um ponto para o povo.

O cordeiro representava a redenção e a libertação dadas a Israel. Todos israelitas tiveram de sacrificar um pequeno cordeiro e aspergir seu sangue sobre os umbrais de suas casas a fim de que suas casas não fossem feridas pelo anjo da morte que passaria pelo Egito.

Os pães ázimos representavam a pressa com que os israelitas fugiram do Egito. Quando, finalmente, após a última praga, o Faraó autorizou a saída do povo do Egito, todos abandonaram suas casas com tanta rapidez que, segundo os registros, não houve tempo para que a farinha amassada recebesse o fermento.

As ervas amargas, também conhecidas como alface agreste, representavam a lembrança que os israelitas tinham do tempo em que foram oprimidos pelos egípcios. O tempo de escravidão foi um tempo amargo. No entanto, gastronomicamente as ervas amargas ofereciam um melhor sabor à carne do cordeiro quando comida junto dos pães ázimos.

Por fim, o sangue dos cordeiros representavam a expiação, ou seja, a lembrança de que houve um sacrifício de um animal perfeito aos olhos de Deus, cujo sangue guardou os israelitas do anjo da morte durante a última praga do Egito.

O ritual da páscoa no A.T.

Durante a celebração anual da páscoa, os judeus deveriam preparar e tomar o cordeiro assim como em Êx 12:

Falai a toda a congregação de Israel, dizendo: Aos dez deste mês, cada um tomará para si um cordeiro, segundo a casa dos pais, um cordeiro para cada família.Mas, se a família for pequena para um cordeiro, então, convidará ele o seu vizinho mais próximo, conforme o número das almas; conforme o que cada um puder comer, por aí calculareis quantos bastem para o cordeiro.O cordeiro será sem defeito, macho de um ano; podereis tomar um cordeiro ou um cabrito;e o guardareis até ao décimo quarto dia deste mês, e todo o ajuntamento da congregação de Israel o imolará no crepúsculo da tarde.Tomarão do sangue e o porão em ambas as ombreiras e na verga da porta, nas casas em que o comerem;naquela noite, comerão a carne assada no fogo; com pães asmos e ervas amargas a comerão.Não comereis do animal nada cru, nem cozido em água, porém assado ao fogo: a cabeça, as pernas e a fressura.Nada deixareis dele até pela manhã; o que, porém, ficar até pela manhã, queimá-lo-eis.Desta maneira o comereis: lombos cingidos, sandálias nos pés e cajado na mão; comê-lo-eis à pressa; é a Páscoa do Senhor.

Êx 12.3-11

Assim, tomavam para si o cordeiro conforme prescrito no texto, e toda a família participava comendo-o. E, no caso de uma família ser pequena para comer integralmente o cordeiro, deveria se juntar a outra família vizinha. O cordeiro deveria ser macho, de um ano de idade, primogênito e sem nenhuma mancha. Passando por estes requisitos, deveriam ser assados inteiramente e comidos com os pães ázimos e com as ervas amargas.

O ritual da páscoa no N.T.

Quando chegamos ao Novo Testamento, encontramos um paralelo impressionante entre as figuras envolvidas na páscoa judaica e a vida e obra de nosso Senhor Jesus Cristo.

Não há ritual de páscoa no Novo Testamento, tal como houve no A.T.. O que há é o encontro das figuras perfeitas de tudo o que foi simbolizado no A.T.. Vejamos, então, como os símbolos se completam.

O cordeiro no N.T. simboliza o nosso Senhor Jesus Cristo. Ele, em si, é a própria libertação que o povo de Deus tem sobre a escravidão do pecado.

No dia seguinte, estava João outra vez na companhia de dois dos seus discípulos e, vendo Jesus passar, disse: Eis o Cordeiro de Deus!

Jo 1.35

O cordeiro, na lembrança do judeu, foi o animal do qual veio o sangue que livrou os israelitas da morte. Assim, deveria haver alguma relação entre o sangue dos cordeiros do Egito com o sangue do Cordeiro de Deus envia à terra.

Curiosamente, o Cordeiro de Deus se parecia muito com o cordeiro exigido no A.T.. Ele também foi sem defeito, também foi sacrificado e sangrado sem que seus ossos fossem quebrados (João 19.36).

sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo,

1Pe 1.18-19

E, enquanto o sangue na antiga páscoa era aspergido sobre o altar, o sangue na nova páscoa é aspergido sobre a vida dos convertidos.

Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado.

1Jo 1.7

Além do cordeiro, temos no N.T. o simbolismo dos pães ázimos associado à pureza, ao pão sem fermento, ou seja, sem o agente de decomposição. O fermento era visto pelos judeus como um símbolo corrupção moral e doutrinal.

Como não compreendeis que não vos falei a respeito de pães? E sim: acautelai-vos do fermento dos fariseus e dos saduceus.

Mt 16.11

Nós nos alimentamos desse pão sem pecado que é Cristo. Alimentados por ele, aprendemos que não devemos viver com pecado em nossas vidas, pois o mesmo naturalmente “fermentará”, crescendo dentro de nós, corrompendo-nos de dentro para fora. Espera-se, na páscoa Cristã, que nos lembremos de nossa santidade.

Com o cordeiro e os pães, junta-se o elemento das ervas amargas. No N.T., estas ervas estão, no pensamento da Igreja Antiga, associadas à amargura que Cordeiro passou em lugar das almas que ele veio para salvar.

Cristo, o Cordeiro de Deus, se fez pecado e maldição em nosso lugar, a fim de que fôssemos feitos benditos de Deus Pai, e justos diante de Deus. Isso custou a amargura e angústia da Cruz.

Por fim, o sangue do cordeiro, no N.T., está associado ao perdão que Deus garante a todo aquele que se arrepender de seus pecados e converter-se ao seu filho amado, Jesus Cristo. O sangue do Cordeiro de Deus foi derramado e aspergido sobre o seu povo com o objetivo desse mesmo povo ser liberto da escravidão ao pecado.

Em Cristo se cumpriu tudo o que o A.T. testamento profetizou sobre o Cordeiro derradeiro. Com o sacrifício do último Cordeiro, teve fim toda legislação judaica sobre a páscoa. Com a morte de Cristo na cruz do Calvário, temos o sacrifício perfeito. Com ele, não precisasse de nenhum outro. Basta que sejamos aspergidos por seu sangue, marcados com Seu Espírito, a fim de que não sejamos destruídos pelo mesmo anjo da morte quando, em sua segunda vinda, vier para julgar a terra.

Celebremos com alegria a páscoa! Nela, nos lembremos de que o Cordeiro de Deus foi enviado para ser sacrificado em nosso lugar, para levar a nossa culpa, e para que seu sangue servisse de livramento presente e futuro uma vez que aspergido sobre nossas vidas.

Que não deixemos de agradecer a Deus e de nos alimentarmos de santidade, honrando aquele que se deu por nós em uma páscoa especial e inesquecível há quase 2.000 anos atrás.

QUAL O PAPEL DO MARIDO, DA ESPOSA E DOS FILHOS EM UMA FAMÍLIA CRISTÃ?

Esposas, sede submissas ao próprio marido, como convém no Senhor. Maridos, amai vossa esposa e não a trateis com amargura. Filhos, em tudo obedecei a vossos pais; pois fazê-lo é grato diante do Senhor.

Colossenses 3.18-20

MARIDOS

Como Cristo se entregou pela igreja, os maridos devem se entregar por suas esposas. E essa entrega envolve a santificação. Está escrito em Ef 5.28: assim também os maridos devem amar a sua mulher. Estas palavras revelam o modo como o homem deve se ver em relação à esposa. O “assim também” deve levar os olhos dos maridos à pessoa de Cristo. Todo marido deve se ver como responsável pela vida espiritual de sua esposa.

São responsáveis pela santidade delas. As palavras são “santificar, purificar, lavar pela Palavra e, por fim, a apresentar diante do Pai”. Em outras palavras, é isso que o Espírito Santo levou Paulo a escrever nos versos 25-27 de Efésios 5.

Deve haver um santo temor em todo homem, pois haveremos de apresentar nossa esposa e família diante de Deus um dia. E esse dia pode chegar em breve e é por isso que não podemos postergar essa tarefa mais e mais.

ESPOSAS

A primeira a ouvir de seu papel foi a mulher. Esta deve ser submissa ao marido da mesma forma como é submissa a Cristo. No entanto, isso não torna o marido um Cristo, ou Deus na vida da mulher. Apenas aponta para a função que a esposa tem em relação ao marido, e a relação funcional é de submissão.

A palavra submissa, na verdade, não aparece no verso 22, mas no 21. As mulheres do v. 22 estão ligadas à ordem do verso 21, onde a palavra original traz a ideia de submeter-se às ordens ou direções de alguém, obedecer, submeter-se.

No entanto, a ordem para submeter-se no verso 21 é de “uns aos outros no temor de Cristo”, ou seja, não apenas da mulher. O ponto é que, a primeira a receber orientação foi a mulher que, em respeito a Deus e ao marido, deve submeter-se sempre à função dada a ele de responder pela família e conduzi-la nas decisões e rumos da vida. Assim como são submissas ao Senhor Jesus, devem submeter-se ao marido.

FILHOS

A ordem dada aos filhos é clara: obediência. Por causa dos pais? Não. Por causa de Deus. Os filhos são chamados por Deus a observarem uma ordem. Deus não está aconselhando filhos, está mostrando a eles como devem viver.

Quando se fala de filhos, não se deve imaginar crianças, pois a idade não é referida no texto. O Espírito Santo apenas diz: filhos. De acordo com o Dr. Utley, na vida judaica, um menino se tornava um homem, responsável pela Lei e com permissão para se casar, aos 13 anos de idade (i.e. em seu bar mitzvah). Já as meninas, aos 12 anos de idade tornavam-se maduras para o casamento e a responsabilidade social.

Assim, não devemos nos preocupar com idade, mas com filiação. Todos somos filhos. Todos devemos ouvir o que Efésios 6.2. Quer estejamos debaixo do lar de nossos pais, ou debaixo de um novo lar, unidos pelos laços da matrimônio, todos devemos honrar pai e mãe em temor e obediência a Deus.

POSSO ME DIVORCIAR? PORQUE HÁ TANTOS DIVÓRCIOS ENTRE OS CRISTÃOS?

Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles; porque esta é a Lei e os Profetas.

Mt 7.12

Sem dúvida, há dezenas de respostas a esta pergunta. Respostas modernas e respostas antigas. Antigamente, embora separação e divórcio não fossem tão comum como são hoje, existiam também. Era comum no mundo fora da igreja, e completamente raro dentro do cristianismo. Nem se imaginava um cristão temente a Deus terminando uma relação que jurou sustentar até que a morte os separasse. A única coisa que fazia passar pela cabeça de um cristão a separação e o divórcio era o adultério comprovado da outra parte, e, ainda assim, quando não havia arrependimento. Mesmo assim, muitos casamentos perduravam ainda que com adultério e abandono por parte de um dos cônjuges.

Hoje, no entanto, se separa e divorcia por quase qualquer coisa. O divórcio na igreja é igual ao do mundo. Já não há mais diferença. A igreja encontrou os caminhos do mundo e gostou, viu neles a possibilidade de ser “feliz”, iludindo-se com uma falsa compreensão do que é felicidade.

Há um tempo atrás, um amigo advogado me contou de um casal que o procurou em uma segunda-feira querendo tratar do divórcio. O casamento havia acontecido no sábado, dois dias antes. Vale lembrar o que Jesus disse sobre o divórcio:

Replicaram-lhe: Por que mandou, então, Moisés dar carta de divórcio e repudiar? Respondeu-lhes Jesus: Por causa da dureza do vosso coração é que Moisés vos permitiu repudiar vossa mulher; entretanto, não foi assim desde o princípio.

Eu, porém, vos digo quem repudiar sua mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas, e casar com outra comete adultério [e o que casar com a repudiada comete adultério]. Disseram-lhe os discípulos: Se essa é a condição do homem relativamente à sua mulher, não convém casar. Jesus, porém, lhes respondeu: Nem todos são aptos para receber este conceito, mas apenas aqueles a quem é dado.

Mt 19.7–11

divorce1A razão pela qual o divórcio existe é a dureza de nosso coração. No entanto, o Evangelho fala de um coração que não é mais endurecido pelo pecado, um coração de pedra que foi substituído por um coração de carne. Dado o novo coração, o que se espera é o perdão e a restauração do casamento, ou seja, a crença de que a graça de Jesus Cristo é poderosa para restaurar qualquer coisa que se tenha quebrado. Mas, infelizmente, poucos confiam e se entregam à graça de Jesus.

E assim tem caminhado a humanidade, debaixo da “virtude” de Narciso, onde o importante é o amor, não pelo outro, mas por si mesmo. Apaixone-se, sim, mas, antes de tudo, por si mesmo. E quando seu eu não for mais preenchido, correspondido, suprido, satisfeito, parta para outra, pois o mais importante nessa vida é ser feliz.

Na mitologia grega, Narciso foi um herói que apaixonou-se por sua própria imagem refletida em uma lagoa. Narciso se amou, se apaixonou por si, e acabou morrendo no leito do rio. Narciso se amava tanto que acabou deitando-se na beira de um lago e definhou ali, olhando só para si, amando só a si. Olhando para a água, se embelezando, acabou secando, adoecendo e morrendo.

Assim também será com qualquer pessoa que se importa mais consigo do que com o próximo. Quem não perdoa e não pede perdão, quem não se entrega à graça restauradora, mas vive para buscar seu próprio prazer, sua auto-satisfação, acabará vivendo vazio, depressivo, e definhará até a morte. Leia novamente o versículo do início deste texto. É nele que se encontra a solução para todos os casamentos!

NOVAS ESPERANÇAS: Feliz 2015!

Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos

1 Pe 1.3

Com Jesus Cristo em nossas vidas, sempre temos uma viva esperança em nossos corações. Com o final de mais um ano, muita gente fala de esperança, embora esta fuja aos olhos daqueles que dela falam.

Esperança de um diploma, esperança de uma família melhor, esperança de uma vida melhor, esperança de mais condições financeiras para alcançar objetivos sonhados, esperança de que nada de mal aconteça (ou volte a acontecer), etc.

A esperança está sempre viva. Ela (quase) nunca morre, ou, “é a última que morre”, como alguns costumam dizer.

No entanto, a Palavra de Deus afirma que há uma esperança que nunca morre e que habita no coração de quem foi regenerado, ou seja, de quem nasceu de novo para uma vida de comunhão e consagração a Deus.

Pedro, no texto acima, afirma que fomos regenerados para uma viva esperança. Esta esperança da qual Pedro fala é sempre viva, nunca morre, visto estar ligada a Deus, que nunca morre. Ele é nossa garantia de que, venha o que vier, tudo cooperará “para o bem daqueles que amam a Deus”, Rm 8.28.

Uma das coisas que devemos manter vivas em nossos lábios são as palavras de Davi:

Sl 51.10,12: Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável… Restitui-me a alegria da tua salvação e sustenta-me com um espírito voluntário.

Davi foi extremamente sábio nestas palavras. Foi a ausência da alegria da salvação que o levou a procurar alegria no pecado. Consciente de que, se voltasse a sentir prazer e alegria em Deus e sua tão preciosa salvação, não voltaria ao pecado.

Você, neste novo ano, não ficará sem alegria. Nenhum ser humano vive sem procurar satisfação e prazer em algo ou alguém. E, se Deus não for sua procura, outras coisas serão, as quais se tornarão ídolos em sua vida.

Que vivamos este novo ano como Paulo escreveu:

Fp 3.12–14: Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus. Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado; mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.

Temos um alvo diante de nós: ser mais parecidos com Cristo. Sem isso, não conseguiremos chegar a lugar algum e não viveremos a alegria da viva esperança dentro de nós.

Você pode ter vivido um ano não muito bom. No entanto, se tivesse se consagrado mais, orado mais, buscado mais a Deus, e sido mais transformado pelo Senhor, sem dúvida não terminaria o ano tão frustrado como terminou.

Sua alegria depende de Deus. É ele quem regula o tamanho de nossa paz, alegria e esperança. Quanto mais dele em nós, mais da paz, da alegria e da esperança. Quanto menos dele, menos de tudo o que ele promete nos dar em sua Palavra.

Que, além de vivermos para correr para o alvo, olhando para Cristo, possamos nos recordar do conselho de Tiago:

Tg 4.13–17: Atendei, agora, vós que dizeis: Hoje ou amanhã, iremos para a cidade tal, e lá passaremos um ano, e negociaremos, e teremos lucros. Vós não sabeis o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida? Sois, apenas, como neblina que aparece por instante e logo se dissipa. Em vez disso, devíeis dizer: Se o Senhor quiser, não só viveremos, como também faremos isto ou aquilo. Agora, entretanto, vos jactais das vossas arrogantes pretensões. Toda jactância semelhante a essa é maligna. Portanto, aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz nisso está pecando.

Que o Senhor guie nossos passos e que não nos esqueçamos que dependemos dele para tudo. Que ele seja o seu tudo e que você possa procurar entregar tudo a ele neste novo ano. Com ou sem ele, continuaremos a ser como uma palha a queimar, como uma flor que nasce, murcha e cai, como uma onda tossida no oceano, como um vapor que surge e passa. Com ou sem ele, continuaremos a ser pequenos, frágeis e passageiros.

No entanto, quanto mais entregamos nosso tudo (que é tão pouco) a ele, mais ele nos enche de esperança fazendo tudo ter sentido. Não nos sentiremos perdidos. E mesmo quando nossos braços fraquejarem, seremos sustentados na crença de que ele está no controle e que, no final, tudo terminará bem.

Que Deus dê um bom ano a todos!

PORQUE COMEMORO O NATAL?

Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz;

Is 9.6

Eu comemoro o Natal porque muitos na Bíblia o comemoraram, e eu quero demonstrar a mesma gratidão que eles pela vinda do Messias prometido. Muitos no Antigo Testamento esperaram pelo Messias, e foi Isaías quem descreveu com alegria sua vinda (veja o texto acima — Is 9.6).

Magos vieram do oriente para adorar a Deus e a Jesus por causa de seu nascimento, fato que trouxe grande ódio a Herodes, um dos poucos que olhavam para o Natal com raiva:

Tendo Jesus nascido em Belém da Judéia, em dias do rei Herodes, eis que vieram uns magos do Oriente a Jerusalém. E perguntavam: Onde está o recém-nascido Rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no Oriente e viemos para adorá-lo.

Mt 2.1–2

Além dos magos do oriente, os anjos cantaram de alegria pelo nascimento de Jesus:

Havia, naquela mesma região, pastores que viviam nos campos e guardavam o seu rebanho durante as vigílias da noite. E um anjo do Senhor desceu aonde eles estavam, e a glória do Senhor brilhou ao redor deles; e ficaram tomados de grande temor. O anjo, porém, lhes disse: Não temais; eis aqui vos trago boa-nova de grande alegria, que o será para todo o povo: é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor… E, subitamente, apareceu com o anjo uma multidão da milícia celestial, louvando a Deus e dizendo: “Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem.”

Lc 2.8–11,13–14

E não posso me esquecer ou deixar de mencionar a querida Maria, mãe de nosso Salvador, louvando a Deus pelo nascimento de Jesus, também salvador de sua própria alma:

Então, disse Maria: A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegrou em Deus, meu Salvador, porque contemplou na humildade da sua serva.

Lc 1.46–48

E no mesmo texto de Lucas, no capítulo 2, lemos de um ancião chamado Simeão e de uma senhora chamada Ana que agradeceram muito a Deus pelo nascimento de Jesus Cristo. Seu primeiro advento trouxe grande alegria a todos de seu tempo e foi comemorado com efusividade. 

Ninguém escondeu a alegria pela vinda do Messias prometido. Não foi somente a sua morte na cruz e sua ressurreição que trouxe alegria aos homens de seu tempo, mas o próprio nascimento foi motivo de louvor.

Ana, Simeão, os anjos, Isaías, Maria, os pastores, os magos, enfim, muitos se alegraram com o nascimento de Jesus, enquanto o resto dormia na noite fria de Belém. 

E você? Irá dormir, como os habitantes de Belém? Eu comemorarei, com muita alegria, a vinda de meu Senhor e Salvador. Não é o dia 25 de dezembro que me faz comemorar. Fosse 12 de outubro, fosse 7 de setembro, fosse 12 de abril, eu continuaria comemorando, pois o que importa não é o dia, mas o advento! Glória a Deus nas maiores alturas!

A NOSSA MORTE NA MORTE DE CRISTO

“O pecado é o motivo de tua tristeza. Deixa que a santidade seja o motivo de tua alegria”

Agostinho

Porquanto para isto mesmo fostes chamados, pois que também Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos, o qual não cometeu pecado, nem dolo algum se achou em sua boca; pois ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente, carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos para os pecados, vivamos para a justiça; por suas chagas, fostes sarados.

1Pe 2.21–24

21 Porquanto para isto mesmo fostes chamados, pois que também Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos,

Todos os cristãos foram chamados para imitar a vida de Cristo. Essa é a maneira de viver para a glória de Deus. Imitar a Cristo é andar em submissão, é andar atentamente, vigiando a cada minuto. Todos os cristãos foram chamados para submeter-se a Cristo, ao seu senhorio e aos seus mandamentos. É prova de que o amamos se guardamos e cumprimos os seus mandamentos (Jo 14.15).

O final deste verso traz a palavra exemplo. Esta palavra vem do grego ὑπογραμμός (hypogrammós), um modelo de comportamento e vida a ser seguido. Tecnicamente, esta palavra se refere a um padrão ou modelo a ser copiado, seja por escrito, seja por desenho.⁠1

Quanto mais nos submetemos, mais amadurecemos. E sinal de maturidade para um crente é quando este se comporta como Cristo em todas as áreas da vida. E algo que precisa ser resgatado pelos cristãos é a imitação de Cristo em sua morte. Precisamos resgatar a compreensão do que significa tomar a cruz, morrer a cada dia, negar a nós mesmos, e termos nosso caráter transformado à medida em que nos desprendemos das coisas desse mundo.

Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos, como isso soa diferente do Evangelho pregado em nosso tempo, como o Evangelho da Saúde, ou o Evangelho da riqueza e da prosperidade, ou o Evangelho do “abracadabra”, onde tudo o que você determina, sai da cartola. O sofrimento de Cristo também é um exemplo para nós, e até mesmo os sofrimentos em nossas vidas estão em pleno acordo com os propósitos de Deus. Devemos apenas nos submeter e reconhecer Sua soberania e bondade sobre nossas vidas e todas as coisas que acontecem conosco.

Para muitos cristãos hoje, o sofrimento de Cristo é algo confuso. Assim como para os judeus que esperavam um líder militar libertador. Muitos dos que aguardavam o Messias se surpreenderam com o nível de humildade e de abnegação. Assim como para muitos hoje parece não fazer sentido o sofrimento diário.

22 o qual não cometeu pecado, nem dolo algum se achou em sua boca;

Essa é uma situação que Pedro faz do profeta Isaías, especificamente em Is 53.9: 

Designaram-lhe a sepultura com os perversos, mas com o rico esteve na sua morte, posto que nunca fez injustiça, nem dolo algum se achou em sua boca.

Is 53.9

Jesus preenchia perfeitamente o perfil esperado como Messias, segundo as Escrituras. Um sacrifício perfeito, puro, em troca de um grupo enorme de pessoas culpadas, condenadas à morte eterna.

23 pois ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente,

Quem é “aquele que julga retamente”? Isso é importantíssimo pois diz a quem Cristo presta contas com sua morte. Deus é o justo Juíz, e é a ele que Jesus se apresenta em sua morte.

Sua morte não tem a ver com os soldados, com o sumo-sacerdote, com Pôncio Pilatos, ou com as leis do Império Romano de então. Sua morte tem a ver com a justiça de Deus. É à justiça divina que Jesus está respondendo em sua morte. A pena que ele cumpria não era a pena de morte de um governo específico. Jesus estava pagando não por ter blasfemado, como imaginavam os que o viam morrer. Jesus estava pagando pela culpa de um sem número de pessoas que, imerecidamente, estavam sendo justificadas com o sacrifício de Cristo na Cruz.

Mais uma vez, Isaías é citado:

Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; como cordeiro foi levado ao matadouro; e, como ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca.

Is 53.7

Com seu silêncio, Jesus cumpria a profecia diante de Cairás, Anás, Pilatos e Herodes. Quando quebrava o silêncio era para dizer palavras como:

Quando chegaram ao lugar chamado Calvário, ali o crucificaram, bem como aos malfeitores, um à direita, outro à esquerda. Contudo, Jesus dizia: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. Então, repartindo as vestes dele, lançaram sortes.

Lc 23.33–34

Com seu próprio exemplo, Jesus nos mostrou como não devemos pagar o mal com o mal, como não devemos devolver a quem nos calunia com calúnias, e a quem nos maltrata com maltratos.

24 carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos para os pecados, vivamos para a justiça; por suas chagas, fostes sarados.

E nosso texto termina com Pedro citando novamente o profeta Isaías:

Por isso, eu lhe darei muitos como a sua parte, e com os poderosos repartirá ele o despojo, porquanto derramou a sua alma na morte; foi contado com os transgressores; contudo, levou sobre si o pecado de muitos e pelos transgressores intercedeu.

Is 53.12

Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.

Is 53.5

É impossível imaginarmos como se deu esse “carregar” de nossos pecados sobre o madeiro. Mas o fato é que todos os nossos pecados, passados, presentes ou futuros, foram lançados sobre ele, e não somente os pecados, mas a culpa por estes pecados, o que deveríamos pagar por causa desses pecados. Cristo pagou para que ficássemos livres de condenação. A “carregar” sobre si, tirou de sobre nós. É por isso que, ao nos ver hoje, Deus nos chama de justos. Glória a Deus somente!

Cristo nos substituiu perfeitamente não faltando mais nada a ser feito ou a ser pago. Como ele mesmo disse, “Está consumado!” (Jo 19.30). Usando a palavra corpo aqui, é possível que Pedro estivesse implicitamente combatendo a seita gnóstica que afirmava, dentre outras coisas, que Jesus não possuía um corpo. Aqui, claramente é afirmada a humanidade e a morte física de Jesus de Nazaré. 

O texto termina com as palavras para que nós, mortos para os pecados, vivamos para a justiça; por suas chagas, fostes sarados.

Esse é um dos principais propósitos e alvos do cristianismo. Pelo sacrifício de Cristo, todos nós encontramos cura para nossas almas, para o principal problema de nossas almas, problema imperceptível, assim como um câncer ainda escondido, que guarde dentro de nosso corpo um potencial de sofrimento e morte, mas que ainda não foi descoberto.

O pecado faz com que o ser humano carregue dentro de si um elemento que o fará sofrer por toda a eternidade, aquilo que é chamado nas Escrituras de morte eterna também. Mas, assim como um câncer não detectado, muita gente não tem noção do que as aguarda. Nós não tínhamos noção, tínhamos? E foi assim, antes que nascêssemos, Cristo já estava nos sarando, já estava destruindo aquilo que poderia nos destruir e fazer sofrer por toda a eternidade. 

Ao destruir aquilo que nos faria sofrer por toda a eternidade, Cristo nos deu o exemplo de como deveríamos passar os nossos poucos dias nesta vida. E eu encerro esta exposição refletindo sobre a mortificação do pecado.

Mortificação do pecado

A mortificação do pecado é uma das marcas que faltam a muitos cristãos em nosso tempo, ou seja, uma clara luta contra o pecado. Quando os pais da igreja falavam de luta contra o pecado (tudo aquilo que nos afasta da perseverança na ORAÇÃO e na PALAVRA), falavam sobre martírio

Para que entendamos o que o martírio tem a ver com a mortificação do pecado, vamos lembrar um pouquinho sobre a patrística. Orígenes, em aproximadamente 250 d.C., vivendo debaixo da perseguição de Diocleciano, escreveu:

“De uma tentação ou nós saímos mártires ou saímos idólatras.”

Orígenes 

Mártir é todo aquele que morre para não negar que Jesus Cristo é Deus. Por que os mártires cristãos morriam? Para não cometer idolatria! O que acontece quando caímos em tentação? Fazemos das coisas, deuses!

Orígenes, quando criança, queria ser martirizado. O martírio representava uma alma que não trocou Deus por outras coisas quaisquer. Quando criança, inspirado pela morte dos antigos mártires e também do martírio de seu próprio pai, Orígenes dizia para sua mãe que se entregaria aos romanos quando estes passassem em frente de sua casa. Diz-nos Eusébio de Cesareia que a mãe de Orígenes, para que ele não se entregasse aos romanos, antes de sair de casa tirava a roupa dele e deixava ele nu. Por pudor, ele não saia para ser martirizado. No entanto, quando já idoso, terminou seus dias neste mundo preso, torturado e morto por volta de 253 d.C., debaixo da ordem de Décio.

Para Orígenes, bem como para todos os cristãos da Igreja Antiga, todo pecado se resume nisso: idolatria.

Martírio vermelho X Martírio branco

O martírio vermelho acabou em 313 d.C quando o imperador Constantino fez publicar o Édito de Milão, que instituía a tolerância religiosa no império, beneficiando principalmente os cristãos. Com o seu fim, acabou também a perseguição e, consequentemente, o martírio “vermelho”, como depois ficou conhecido. 

Com o martírio branco, os cristãos entenderam que deveriam continuar morrendo, só que, agora, de um modo diferente. E é aqui que 1Pe 2.21-24, texto dessa exposição entra e se torna tão importante e tão lido e pregado no período da patrística.

O que estes primeiros mártires da história da igreja têm a nos ensinar? Que se não morrermos também, acabaremos sendo engolidos pelas paixões e distrações de nosso tempo.

A morte de Cristo, além de ser motivo de nosso louvor a Deus, nos é exemplo de como devemos viver. Obviamente, não carregando cruzes e nos sacrificando fisicamente, mas espiritualmente tomando a nossa cruz, símbolo de morte, e morrendo dia a dia para aquilo neste mundo que jaz no maligno. Viver para a justiça, morrer para o pecado, carregar também a nossa cruz, ao mesmo tempo que nos lembramos de que já estamos crucificados, deve ser o modo como vivemos e nos santificamos como peregrinos.

Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim.

Gl 2.19–20

 

1 John D. Barry et al., Faithlife Study Bible (Bellingham, WA: Logos Bible Software, 2012), 1Pe 2.21.

A SOLIDÃO DE CRISTO E A NOSSA ESPIRITUALIDADE

“Somos de Deus: vivamos, pois, para ele e morramos para ele. Somos de Deus: então que sua sabedoria e vontade governem todas as nossas ações. Somos de Deus: que todas as partes de nossa vida se empenhem concomitantemente em prol dele como nosso único alvo legítimo.”

João Calvino⁠1

Tendo-se levantado alta madrugada, saiu, foi para um lugar deserto e ali orava. Procuravam-no diligentemente Simão e os que com ele estavam. Tendo-o encontrado, lhe disseram Todos te buscam. Jesus, porém, lhes disse: Vamos a outros lugares, às povoações vizinhas, a fim de que eu pregue também ali, pois para isso é que eu vim. Então, foi por toda a Galiléia, pregando nas sinagogas deles e expelindo os demônios.

Mc 1.35–39

35 Tendo-se levantado alta madrugada, saiu, foi para um lugar deserto e ali orava.

A cena descrita nesta passagem localiza-se no início do ministério de Jesus. Ele havia, segundo Marco, acabado de escolher alguns de seus primeiros apóstolos. O colégio apostólico ainda nem estava formado, mas estes primeiros chamados já puderam experimentar o poder daquele que os chamou sobre demônios e doenças. Sem dúvida, não era um homem qualquer, ou um homem comum. Não se tratava de um mágico também. Embora os mágicos já existissem em vários lugares do mundo — e muitos eram considerados semi-deuses — não eram comuns mágicos naquela região.

Pouco a pouco, os feitos de Jesus acabaram atraindo atenção de um grande número de pessoas e sua fama crescia a cada dia. Após entrar em Cafarnaum e procurar por uma sinagoga, enquanto lhe expunha as Escrituras, um homem é possuído por um espírito imundo e Jesus o expulsa. Imediatamente, alguns associam isso a alguma nova doutrina. Ao sair da sinagoga, foram direto para a casa de Pedro e André, onde a sogra de Pedro estava doente. Falaram dela para Jesus e ele, só de dar a mão a ela, a curou. Ao se levantar, começou a servi-los em casa.

Quando chegou a tarde, já era tão grande a fama do que havia acontecido que à porta da casa onde estavam, uma multidão se ajuntou, doentes, amigos de doentes, e pessoas querendo ver milagres gratuitamente — era comum aos mágicos, e muitos consideraram Jesus um mágico, cobrarem por suas ilusões. Jesus curou a muitos, além de expulsar demônios.

Ao final do dia, junto dos demais, adormeceu, provavelmente na mesma cidade e casa onde estavam. E é aqui que o texto de Mc 1.35 começa. Antes que todos os demais acordassem, Jesus se levantou e procurou um lugar deserto para orar. Ainda era alta madrugada. Segundo o Dr. Robert James Utley, “Isso se refere à última vigia da noite, algo entre 03h00 e 06h00 da manhã.”⁠2

Se temos a Cristo como nosso mestre e guia, devemos observar sua vida de oração. Ele tinha uma vida de oração? Diante do que aconteceu no dia anterior, levantar-se alta madrugada era a única solução para quem queria estar sozinho. No escuro, provavelmente Jesus não teria muitas distrações. Jesus sabia o que queria. Ele sabia que precisava sair do meio onde facilmente poderia ser distraído. 

Jesus compreendia que precisava de um lugar deserto, um lugar como um quarto, uma cozinha, um quintal, ou uma praça, em momentos em que ninguém está nestes lugares. Para nós, hoje, isso nem sempre será confortável, mas a partir do momento que nos levantamos e saímos em busca deste deserto, recebemos o conforto que precisamos para as lutas pessoais e ministeriais. Nós também precisamos desta solidão de Cristo.

36 Procuravam-no diligentemente Simão e os que com ele estavam.

Não sabemos quem são estas pessoas que, com Pedro, procuravam a Jesus. É bom lembrar que, provavelmente, Jesus estava na casa de Pedro e André, no mesmo lugar onde, no dia anterior, havia curado a sogra de Pedro.

Essa procura dos discípulos interromperia o momento de deserto de Cristo. Estes momentos a sós com Deus nunca durarão para sempre. Precisamos estar cientes de que interrupções sempre acontecerão, e que elas nem sempre são ruins. A interrupção só existiu por que Jesus buscou o deserto. Estivesse ele dormindo, certamente não seria interrompido. 

Cristo buscou o deserto porque, como homem, precisava do mesmo. Como homens, também precisamos nos conscientizar que seguir o exemplo de Cristo, ou seja, buscar desertos em nosso dia a dia, trará para nossas almas cura, alimento e direção do próprio Deus. Foi Jesus quem disse:

“Mas tu, quando orares, entra no teu quarto e, fechando a porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.” 

Mateus 6:6

37 Tendo-o encontrado, lhe disseram Todos te buscam.

38 Jesus, porém, lhes disse: Vamos a outros lugares, às povoações vizinhas, a fim de que eu pregue também ali, pois para isso é que eu vim.

Mas daí, se dá o encontro. Quando o acham, dizem o que está no verso 37. Eles o buscavam pelo fato dele ser o centro das atenções o motivo pelo qual todos estavam ali. Era apenas o início de seu ministério, mas todos (ou muitos) os que ali se encontravam ali estavam por causa dele.

No verso 38, Jesus nos ensina aqui sua preocupação não estava com Jerusalém, com a fama imediata, coisa que seus irmãos lhe sugeriram no início de seu ministério (João 7.3-10). 

às povoações vizinhas, a fim de que eu pregue também ali

Jesus entendia que aquele momento era o momento de ensinar aquelas pessoas. E tudo o que ele fazia, absolutamente tudo, era feito depois de algum tempo de deserto e oração. O Evangelho é para todos, e por isso escolheu aqueles pequeninos povoados para falar do Reino dos Céus.

Resultado vs. Paz

A oração nos dá um senso correto de nossa missão. Sem oração, nunca acertaremos com a vontade de Deus. Construiremos as nossas carreiras, ministérios, plantaremos igrejas, mas nunca teremos paz, visto que a paz só vem por meio dessa comunhão com Deus que nos dirige e fortalece para o ministério. Somente Cristo e o exemplo dele nos colocarão no passo correto em nossa jornada.

Veja que isso não tem a ver com resultados, mas com paz. Os resultados nem sempre são indicadores da vontade de Deus. E os resultados nem sempre trarão paz para você. Mas a paz que excede todo entendimento, essa lhe anima e fortalece, ainda que o ministério passe por lutas e tribulações, você sempre se sentirá forte e em paz.

39 Então, foi por toda a Galiléia, pregando nas sinagogas deles e expelindo os demônios.

Nosso texto termina dizendo que Jesus, após o deserto no qual orou, saiu para pregar o Evangelho. Ele é o nosso maior exemplo. Sem deserto, não há pregação do Evangelho. Sem deserto, não somos moldados muito menos preparados para a obra que Ele nos vocacionou.

No início do cristianismo, todos sabemos das muitas perseguições e martírios vividos pela igreja. Mas, após um bom tempo sem perseguição e o chamado martírio vermelho, alguns cristãos começaram a viver de um modo bastante frouxo. Não havia mais mortificação de pecados, e a diferença entre os cristãos e o mundo era muito pequena.

Foi nessa época que nasceram as comunidades monásticas. Como surgiu a vida monástica?

A vida monástica surgiu no Egito antigo. Sempre houve uma comunidade judaica e cristã muito forte no Egito, na cidade de Alexandria. Foi lá que surgiu a tradução dos LXX.  E, em 313 d.C., quando a perseguição acaba devido ao Édito de Milão (assinado e emitido pelo Imperador Constantino I no Ocidente e Licínio no Oriente) a Igreja passa ter liberdade religiosa. A igreja não se tornou oficial no Império durante o tempo de Constantino, mas apenas em 27 de fevereiro de 380 d.C., com o imperador Teodósio I, quando este fez com que o Cristianismo fosse a única religião autorizada em todo o Império — naquilo que ficou conhecido como Édito de Tessalônica.

Com toda a paz que o Cristianismo passou a desfrutar, ou seja, com o fim do chamado martírio vermelho, alguns passaram a procurar o que ficou conhecido, tempos depois, como a busca pelo martírio branco.

Foi nesse período que nasceu a vida monástica. Após o momento em que os cristãos deixaram de conhecer os familiares dos mártires, deixaram de falar sobre a beleza de seus testemunhos, a grandeza de sua fé e de suas virtudes, de como eles amavam a Deus e eram realmente parecidos com Cristo em suas vidas, alguns homens (e depois mulheres) começaram a fugir para o deserto a fim de buscarem a Deus. Desse modo, a vida monástica surgiu como uma tentativa de fugir do mundo e do pecado, como uma tentativa de buscar o que ninguém mais buscava, ou seja, força na solidão, força no deserto, para vencer a idolatria.

É importante que nos lembremos um pouquinho sobre a história deles a fim de reconhecermos o que podemos aprender com eles.

Os monges primitivos eram homens que queriam estar no deserto (vida eremítica) em um combate constante contra a idolatria. Os primeiros monges viviam sozinhos, e é daí que vem a palavra monge: no grego μοναχός, de μόνος, “sozinho” ou “alguém sozinho”.⁠3

Estes monges fugiam para o deserto para fugir do pecado. Mas seu esforço, por mais bem intencionado que fosse, não deu certo. Os primeiros monges fizeram absurdos. Cometeram exageros tais como viver em cima de árvores (dendritas, do gr. δένδρον), viver sobre colunas (os estilitas, do gr. στῦλος), dentre outros. 

Os primeiros monges certamente prejudicaram sua saúde, feriram seu corpo e cometeram alguns exageros. A igreja entendeu que isso era pecado visto o corpo ser templo do Espírito Santo e é por isso que tais monges deixaram de existir logo cedo.

Mas, apesar de seus erros, compreendemos que a grande maioria deles era bem intencionada; contudo, sem uma direção espiritual. E foi devido aos abusos e erros dos primeiros monges que as gerações posteriores começaram as comunidades cenobíticas (κοινός e βίος, comum e vida).

 Nessas comunidades de monges, existia um pai espiritual que os guardava de exageros. Eles o chamavam de “abba”, do aramaico “pai”. Dessa palavra veio a palavra “abade”, que designava o líder ou pai espiritual de um monastério.

Mas, e aí? O que fazemos com toda essa informação? Esses primeiros monges acertaram? É óbvio que não. E o que aprendemos com ele? Aprendemos que havia em seus corações um desejo enorme de morrer para o mundo.

Tirando, com toda obviedade, todos os exageros e absurdos de uma vida monástica, retemos deles o que falta a muitos de nós em nossos dias: um desejo enorme de morrer para o mundo, de buscar o deserto, ou um lugar deserto, para nele buscarmos força e graça para vencermos a idolatria de nossos corações.

Se nós não possuirmos maturidade para cuidar de nossos corpos como templo do Espírito Santo e não buscarmos com grande intensidade morrer para esse mundo por meio de um deserto com Deus, correremos o enorme risco de nos distrairmos e desperdiçarmos nossas vidas, nossas famílias e nosso ministério.

A solução para isso? Deserto! Que Cristo seja nosso grande exemplo. Que vejamos na solidão de Cristo, em seus momentos de deserto, uma lição de como passarmos os nossos dias. É no deserto com Deus que encontramos força para viver, para perdoar, para evangelizar. É no deserto que nosso caráter é transformado à imagem de Seu filho amado, Cristo Jesus.

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1 João Calvino, Institutas da Religião Cristã. Livro 3, capítulo 7, seção 1.

2 Robert James Dr. Utley, The Gospel according to Peter: Mark and I & II Peter, vol. Volume 2, Study Guide Commentary Series (Marshall, Texas: Bible Lessons International, 2000), 25.

3 F. L. Cross e Elizabeth A. Livingstone, orgs., The Oxford dictionary of the Christian Church (Oxford;  New York: Oxford University Press, 2005), 1111.

UM CRISTÃO PODE FICAR POSSUÍDO PELO DIABO?

Quando o espírito imundo sai do homem, anda por lugares áridos, procurando repouso; e, não o achando, diz: Voltarei para minha casa, donde saí.

Lucas 11.24

Pode um cristão ficar possuído por um demônio? Não! Um cristão verdadeiro jamais poderá ser possuído por um espírito imundo. Este é o nome que Jesus dava a tais espíritos que possuíam pessoas ou animais. Sabe-se que nem todos os demônios possuem pessoas, mas alguns o fazem, por motivos não muito claros a nós. O que se sabe vem do bom senso e das palavras dos próprios demônios que não são palavras nada confiáveis.

Em 1Jo 5.18-19, o Espírito Santo nos instrui pela Palavra o seguinte:

Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive em pecado; antes, Aquele que nasceu de Deus o guarda, e o Maligno não lhe toca. Sabemos que somos de Deus e que o mundo inteiro jaz no Maligno.

A primeira informação deste texto é que a pessoa que se converteu não vive mais na prática do pecado. Isso não significa que tal pessoa não peca mais, mas que o pecado, agora, será apenas um acidente na peregrinação de tal pessoa. Antes, o pecado era uma constante, um prazer diário. Agora, apenas um acidente que traz profunda tristeza àquele que o comete.

São tais pessoas, para as quais o pecado traz tristeza e faz parte da batalha do dia a dia, que são chamadas pela Bíblia de “nascidos de Deus”. Para elas, assim como para Deus, o pecado é algo que traz tristeza e, muitas vezes, ódio. É dos cristãos amar o que Deus ama e odiar o que Deus odeia. Alguém que ama o que Deus odeia e odeia o que Ele ama ainda não “nasceu de Deus”, termo usado pelo apóstolo João no verso acima.

E são estes nascidos de Deus que não podem ser tocados pelo Maligno. Tais pessoas são guardadas pelo Espírito. O Espírito Santo de Deus as reveste impedindo qualquer ação demoníaca em tais pessoas. As pessoas convertidas foram seladas com o Espírito de Deus e isso lhes confere até mesmo autoridade sobre espíritos demoníacos.

“O mundo inteiro jaz no Maligno”, ou seja, não há nada neste mundo que esteja fora da ação demoníaca do Maligno. Tudo está sob sua ação e intervenção. Apenas aquilo e aqueles a quem o Senhor deseja guardar são protegidos. Deus está acima do Maligno. Não há rivalidade, ou guerra entre Deus e o Maligno. Há apenas um Soberano: Deus. Mesmo a autoridade do Maligno sobre seres humanos e animais encontra-se debaixo da autoridade de Deus. Ou seja, qualquer palavra de Deus faz com que o Maligno pare na mesma hora o que ele está fazendo e se submeta à autoridade máxima e soberana de Deus.

No entanto, aqueles que não são nascidos de Deus permanecem à mercê da ação destes espíritos imundos. São apenas estas pessoas que podem ficam possuídas por demônios. Um convertido, ou seja, alguém nascido de novo, jamais ficará possuído por outro espírito além do Espírito Santo de Deus.

Para os convertidos, a recomendação é apenas esta: Sujeitai-vos, portanto, a Deus; mas resisti ao diabo, e ele fugirá de vós (Tg 4.7). Devemos apenas resistir às suas tentações. Ele continuará a agir externamente tentando nos seduzir e fazer cair. Cabe a nós resistirmos e fugirmos para que nada roube a nossa paz.

4 passos para o alívio

Como ter alívio na vida? Como encontrar paz para a alma? Sinceramente, não creio que é possível viver em paz plenamente, sem o confronto com as lutas e as tribulações da vida. Todavia, sei que há como se viver tranquilo em meio ao furacão, em paz em meio às aflições. Loucura? Talvez, não.

Aqui estão alguns passos para esta paz sobre a qual escrevo e que tem funcionado muito bem em minha própria vida.

1º passo — CONFIE na promessa de que, buscar a Deus, por pior que seja a tribulação, é a atitude mais sábia que alguém pode ter. Ore, fale com Deus. Busque-o com todo o coração, conversando com ele como com alguém em quem você confia plenamente. Confie que Ele é misericordioso, que Ele é paciente e que Ele está disposto a lhe socorrer em todo o tempo;

2º passo — CONFESSE seus pecados; pecados não confessados a Deus mantêm uma tristeza incompreensível em sua alma. Só o perdão traz paz, paz que não vem sem o alívio da culpa. Uma vez que a culpa é retirada, a paz é desfrutada. Fale com Deus sobre o seu pecado. Além do perdão, reconheça sua fraqueza. Não faça promessas do tipo “nunca mais farei isso, ou aquilo”. Não jure, não prometa, apenas reconheça sua fragilidade e completa dependência da misericórdia dele para se libertar do erro;

3º passo — CLAME pela proteção do Senhor. Clame a Ele que lhe guarde – "Não terás medo do terror de noite nem da seta que voa de dia”, Salmo 91.5. “Setas”, ou seja, flechas do “inimigo” voam sobre nossas cabeças diariamente. Quem, a não ser o Senhor, pode nos proteger de tão furioso inimigo?

4º passo — CREIA que o socorro virá. Ele virá! Como a própria Escritura afirma, feliz é aquele que descansa à sombra do onipotente (Salmo 91)! Não deixe de buscá-lo a cada 30 minutos, repetindo os passos aqui apresentados. O resultado, pelo menos em minha vida tem sido assim, será o descanso que vem de Cristo para sua alma. Não há nada melhor do que desfrutar dessa paz.

Alívio vem da constância com que praticamos estes passos. Não há como viver sem buscar a proteção e o perdão do Senhor. Um cristão que não busca constantemente tais coisas no Senhor só pode ser um cristão aflito, sem paz, atribulado. Que tal parar agora mesmo e dar estes passos?
 

QUEM SOU EU? Comentários sobre o sumiço da identidade cristã

Recentemente, muitas denominações históricas têm trabalhado com comissões para resgate de identidade denominacional. A perda da identidade de muitas denominações cristãs acabou por inspirar alguns escritores a cunharem o termo “pós-denominacional”. Para estes, vivemos no chamado período “pós-denominacional”, quando a preocupação e o envolvimento com denominações históricas não são tão buscados quanto em tempos anteriores.

A perda de identidade sempre se dá quando se esquece os fundamentos mais básicos de nossa história. Os cristãos, por exemplo, possuem sua raiz (ou alicerce — termo muito usado por Paulo nesta epístola) sobre Cristo e o seu Evangelho, sua Boa Nova. Quando este fundamento é substituído por qualquer outra coisa, o edifício e todos os que estão nele correm o risco de se perderem.

Outro risco é o abalo a cada tempestade que soprar. Assim como uma casa edificada sobre a areia, é a vida de alguém que não tem como base de sua vida Cristo. Uma denominação cristã que substituiu a simplicidade do Evangelho e de Cristo por centenas de outras coisas, também precisa de um retorno à simplicidade a fim de se reencontrar com sua identidade outrora perdida.

Antes de tudo, Paulo irá colocar neste trecho de sua epístola que cada efésio era uma pedra viva, muito bem escolhida, separada (santificada) e preparada para ser colocada no edifício que o Senhor está construindo para sua habitação. Estas pedras não brigam, não se ofendem, mas se completam, cooperando para o fim à que são destinadas. Elas glorificam a Deus, e e não a si mesmos. 

 

Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus, 20 edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito.

 

Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus, 

 

No texto imediatamente anterior, o apóstolo Paulo abordou o significado do fim de toda separação entre pessoas que agora fazem parte de um só corpo. Nos comentários que fiz deste texto imediatamente anterior a este em estudo aqui, Paulo  exorta os efésios de que toda separação ou inimizade no corpo de Cristo é um completo absurdo, uma impossibilidade lógica. Um corpo dividido é um corpo morto. Como o corpo de Cristo nunca estará morto, alguém em brigas e inimizades dentro do corpo de Cristo só pode ser alguém completamente doente espiritualmente, ou alguém que, de fato, não pertence ao corpo.

Tendo entendido a isso, Paulo passa a afirmar que tais pessoas são “Concidadãos”, ou seja, pessoas que moram junto, que habitam na mesma casa. Mas, que casa? Com quem? Paulo continua afirmando que eles são “concidadãos dos santos”. Tais pessoas são vistas por Deus como quem mora no lugar pertencente aos santos.

Os santos não são uma categoria especial dentro do povo de Deus. Os santos são o próprio povo de Deus. Logo, alguém que não é santo, não é parte do povo de Deus. Sem santidade, ninguém, jamais, verá ao Senhor (Hb 12.14). Os cidadãos que habitam juntos (concidadãos), por serem santos, são membros da família de Deus. E, como membros de um só corpo, lutam juntos contra qualquer invasão para destruição do mesmo. Pecados são combatidos em grupo, e nunca individualmente apenas. Todos sofrem quando um sofre, e todos vencem e se alegram quando um vence e se alegra.

 

edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, 

 

O apóstolo Paulo continua sua argumentação relacionada à igreja demonstrando que todos os santos estão alicerçados sobre um único fundamento. Assim como uma casa é construída sobre um alicerce bem feito com ferros, pedras, concreto, amarrações, etc., a “casa de Deus” também precisa de um alicerce seguro sobre o qual possa ser construída sem perigo de desmoronar. E o nome deste alicerce é Cristo.

Todos na família de Deus estão alicerçados sobre Jesus Cristo. Se alguém presente na comunhão cristã não está alicerçado em Cristo, tal pessoa correi o risco de trazer instabilidade ao corpo. Sabemos que o corpo, o edifício, jamais será destruído. Todavia, pode ser abalado por conta de indivíduos que constroem suas vidas sobre o pecado, a ganância, a mentira, o adultério, etc. Tais pessoas, quando constroem suas vidas sobre o pecado, podem até permanecer bem por um tempo. Todavia, na primeira tempestade, suas vidas ruirão. 

Ou construímos nossas vidas sobre Cristo ou sobre o pecado que reina em nosso coração. Ou sobre a Rocha, ou sobre a areia. Só a tempestade prova sobre o que estamos alicerçados.

Para Paulo, “edificados” está relacionado a esta segurança que o cristão tem na vida, mesmo diante de uma tempestade. Tudo o que fazemos na vida possui uma base. Não tomamos nenhuma decisão sem que nos apoiemos em algo ou alguém. Só Cristo é alicerce seguro. Só Cristo nos mantém em pé diante das piores tempestades.

Após mencionar a edificação, o apóstolo fala do “fundamento”, isto é, a base lançada por apóstolos e profetas (a Bíblia Sagrada). Não há outro fundamento se não o Verbo Revelado e o Verbo Encarnado. É sobre o Verbo que todos estamos. Foi o Verbo que criou todas as coisas. É nEle que tudo subsiste. 

Apóstolos e profetas aqui se referem à Sagrada Escritura, escrita, quase toda ela, por apóstolos e profetas. Foram estes que Deus usou para se revelar aos homens, dando-lhes o fundamento sobre o qual construírem suas vidas. É sobre este mesmo fundamento que a igreja está alicerçada.

 

sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular; 

 

Jesus é o único alicerce sobre o qual nossas vidas devem estar edificadas. Alguém que constrói sua vida sobre outro fundamento correi o risco de ver sua vida destruída, sua casa desabada. 

A “pedra angular” sobre a qual Paulo fala era usada em construções antigas para sustentar todo o prédio. Ainda hoje, mesmo no Brasil, podemos encontrar algumas casas construídas sobre tais pedras angulares, ou pedras de esquina. No centro histórico da cidade de Paraty-RJ, algumas casas possuem esta pedra conhecida na antiguidade como o alicerce sobre o qual casas eram construídas.

Há diversas formas de pedras angulares. Há as que são postas na base de antigas casas. Há as que são postas sobre o arco de uma ponte, sustentando não apenas o arco todo, mas toda a estrutura sobre a ponte. Seja qual for a forma de uma pedra angular, sua função será sempre a mesma — dar segurança àquilo ou àqueles que estiverem sobre ela.

 

no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, 

 

Todo edifício  aqui significa você e um monte de gente. Ou seja, todos aqueles que fazem parte desse corpo ou família de santos que compõe a família de Deus. Em outro lugar da Escritura, Pedro fala que somos “pedras vivas” (1Pe 2.1-10, principalmente o verso 5).

 

   1Pe 2.1–10: Despojando-vos, portanto, de toda maldade e dolo de hipocrisias e invejas e de toda sorte de maledicências, desejai ardentemente, como crianças recém-nascidas, o genuíno leite espiritual, para que, por ele, vos seja dado crescimento para salvação, se é que já tendes a experiência de que o Senhor é bondoso. Chegando-vos para ele, a pedra que vive, rejeitada, sim, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo. Pois isso está na Escritura: Eis que ponho em Sião uma pedra angular, eleita e preciosa; e quem nela crer não será, de modo algum, envergonhado. Para vós outros, portanto, os que credes, é a preciosidade; mas, para os descrentes, a pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular e: Pedra de tropeço e rocha de ofensa. São estes os que tropeçam na palavra, sendo desobedientes, para o que também foram postos. Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; vós, sim, que, antes, não éreis povo, mas, agora, sois povo de Deus, que não tínheis alcançado misericórdia, mas, agora, alcançastes misericórdia.

 

Cristo, portanto, é a pedra angular, a pedra viva. E todos os cristãos são, igualmente, pedras vivas que compõe este grande edifício que está em contrição há milênios. Um dia a construção chegará à conclusão. Todavia, este dia depende do completar do número dos eleitos:

 

Ap 6.11: Então, a cada um deles foi dada uma vestidura branca, e lhes disseram que repousassem ainda por pouco tempo, até que também se completasse o número dos seus conservos e seus irmãos que iam ser mortos como igualmente eles foram.

 

O ajuste deste prédio chamado aqui de “santuário dedicado ao Senhor” é impecável quando posto sobre o alicerce. Bem ajustada traz a ideia de que todos possuem o mesmo fundamento na vida (Cristo), vivendo todos vidas santas, amando todos a Deus mais do que a tudo, e exercendo todos seus dons para a edificação do corpo. Assim, todos permanecem devidamente ajustados às suas funções dentro do corpo, cooperando através de seus dons.

Uma vez que tudo transcorre dessa maneira, a conseqüência natural é o crescimento deste edifício. Assim, a igreja só não cresce se os seus membros não vivem como exposto até aqui. O crescimento não se dá pelas habilidades pastorais, musicais, etc., mas pelo próprio movimento do corpo segundo seus dons e sua comunhão com Deus.

 

no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito.

 

O capítulo dois termina com a certeza do apóstolo de que todos eles estavam dentro deste edifício que ainda está em construção. A “Casa do Senhor” ainda está em processo de edificação. As pedras que compõe este edifício estão sendo “ganhas” a cada dia, mundo afora. E o edifício continuará a ser levantado até que se complete o número dos chamados. Até lá, cabe à igreja duas coisas: pregar o evangelho e alicerçar-se em tudo o que faz sobre o único alicerce que a mantêm de pé, Cristo. 

Assim, a igreja crescerá sobre Cristo, a rocha verdadeira e única, o alicerce sobre o qual todos sempre estaremos bem seguros. Não há segurança fora de Cristo. Todos que constroem suas vidas fora de Cristo, constroem sobre a areia, sobre o pecado, sobre o que é passageiro e inseguro. A areia pode sustentar por um breve período toda contrição erguida sobre ela, mas não pode sustentar por todo tempo. À primeira tempestade, o edifício cairá. Assim também a vida dos que constroem suas histórias sobre o pecado — em qualquer tempestade ou aflição, suas vidas ruirão caindo sobre uma depressão e vazio que ninguém poderá curar.

Cristo, no entanto, constrói sua igreja. Pedras vivas a compõe. Estas são santas, são chamadas “família de Deus”. Compõe o santuário que o próprio Senhor está construindo para fazer dela a “habitação de Deus no Espírito”, como Paulo encerra.

            

COMO VENCER A MURMURAÇÃO?

Se você tivesse que encontrar um antônimo para louvor, qual seria? Segundo os dicionários, antônimos para louvor incluem as palavras depreciação, maledicência, murmuração, dentre outras.

Agora, reflita por um instante sobre o que mais está presente em seus lábios: louvor ou murmúrio? A resposta a isso demonstra o quanto precisamos diariamente ser recordado sobre o nosso passado e o nosso presente. De onde fomos tirados e aonde estamos, hoje, plantados.

A falta de recordação diária sobre nosso passado e presente em relação Deus é o que tem levado muitas pessoas a uma vida de tanto murmúrio ao invés de louvor. Homens e mulheres que, à semelhança dos moradores de Éfeso, vão à igreja, consideram-se cristãs, são batizadas, possuem cargos eclesiásticos, no entanto, passam a maior parte de seus dias reclamando, murmurando.

Isso revela uma fraca compreensão de quem nós somos em Cristo. Ligados à ele, somos novas criaturas cheios de motivos para louvá-lo regular e diariamente. 

A solução para o murmúrio é a meditação. Fazer calar nosso coração diariamente diante da Palavra de Deus nos ajuda a pensar em nossa salvação, na nova vida que Cristo trouxe a nós. Assim, a salvação sobre a qual Paulo tanto fala no início desta epístola é considerada como um grande milagre, e não como algo de pequena importância. Paulo considera a salvação algo tão importante, que ele devota quase que cada linha dos primeiros capítulos desta carta para falar sobre ela.

Pouco considerado nos testemunhos modernos, o milagre da conversão é apontado na Sagrada Escritura como um dos principais motivos de nosso louvor. Isso, se não for o principal motivo de nosso louvor. Se Deus curar você de uma deficiência física, ou lhe conceder um livramento sobrenatural, nada disso será motivo para você louvar a Deus eternamente. Muitos motivos farão parte de nosso louvor no novo céu e nova terra, mas nenhum durará eternamente como a nossa salvação. Assim, a salvação é o maior de todos os milagres reconhecidos na eternidade.

Deus e o que ele fez por nós, a lembrança de que estaríamos no lago de fogo caso não tivéssemos sido tocados pelo poder de Deus através da pregação do Evangelho que um dia ouvimos, farão parte da principal lembrança que teremos na glória. Assim, Paulo lembrará os efésios nas palavras que seguem do maior milagre que jamais ouviremos.

 

Portanto, lembrai-vos de que, outrora, vós, gentios na carne, chamados incircuncisão por aqueles que se intitulam circuncisos, na carne, por mãos humanas, naquele tempo, estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança e sem Deus no mundo. Mas, agora, em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, fostes aproximados pelo sangue de Cristo.

Ef 2.11-13

 

Portanto, 

 

“Portanto”, ou seja, depois de tudo que lhes disse anteriormente. Cientes de que todos fomos presentes do Pai ao Filho, visto que nenhum de nós poderia ter vindo a Cristo se o Pai não tivesse nos trazido graciosamente, agora que estamos em Cristo, guardados, conduzidos e adotados por causa da obra do Filho de Deus, é necessário que nos lembremos de algumas verdades muito especiais.

Paulo introduz tais verdades convidando os efésios a lembrarem de quem eram e de quem são. Lembrarmos frequentemente sobre quem fomos e quem atualmente somos é saudável para todas as pessoas. Vejamos, então.

 

lembrai-vos 

 

Quando os exorta a se lembrarem, tal palavra (μνημονεύω) não trata apenas de uma recordação. Antes, “lembrai-vos” tem a ver com trazer de volta uma informação da memória, sem necessariamente a implicação de que a pessoa tenha esquecido daquilo.⁠1 Obviamente, os efésios não haviam se esquecido de quem era. O problema era a falta de lembrança diária.

Tal palavra apresenta-se como um imperativo para os efésios. Consequentemente, nós também a recebemos como um imperativo. Ouvir este imperativo traz verdadeira libertação. A lembrança diária feita durante momentos de meditação e devoção diárias traz ao coração do cristão verdadeira paz.

 

de que, outrora, vós, gentios na carne, chamados incircuncisão por aqueles que se intitulam circuncisos, na carne, por mãos humanas, naquele tempo, estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança e sem Deus no mundo. 

 

A realidade das pessoas sem Cristo é esta que está aqui. Assim estavam todos os efésios. Todos os hoje salvos também experimentaram esta realidade na vida. E não podemos nunca nos esquecer disso.

“Outrora”, todos éramos considerados “estranhos”, “estrangeiros”, “gentios”. Incircuncisos. Todavia, éramos assim considerados por outros que se consideravam “perto” de Deus por conta de sua religiosidade, de sua ligação com a religião estabelecida. 

Os “circuncisos” ou os “chamados circuncisão” são os judeus dentro do contexto dos efésios. Não apenas judeus não convertidos a Cristo, mas inclusive judeus convertidos, que consideravam Jesus como o Messias. Mesmo estes judeus messiânicos consideravam-se melhores pelo fato de serem circuncidados. Tanto estes quanto aqueles, consideravam-se mais em Deus do que os demais. O ponto é que ambos também estavam fora de Cristo, apesar de toda a arrogância e suposição religiosa.

Todos os incircuncisos/gentios/efésios a quem Paulo se dirige são lembrados pelo apóstolo de que, além da sua incircuncisão, eles eram “estranhos às alianças da promessa”. Assim, tudo aquilo que Deus prometeu ao seu povo, além das providências extraordinárias e os milagres que o povo de Israel experimentava, era estranho para eles. Eles não conheceram nada disso.

A circuncisão era o meio de entrada à comunidade da aliança visto que representava a fé do circuncidado no Deus que exigiu a circuncisão. A fé lhes dava o acesso, e não a circuncisão. Os efésios não possuíam nem uma coisa, nem outra.

O apóstolo termina sua palavra sobre o passado dos efésios lembrando-os de que eles, além de serem estranhos às alianças e incircuncisos, geograficamente permaneciam separados da comunidade dos israelitas. Eles não possuíam esperança nenhuma. Deus era alguém totalmente estranho para eles.

Partindo disso, Paulo completa.

 

Mas, agora, em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, fostes aproximados pelo sangue de Cristo.

 

Aqui está um milagre. Eles não vieram porque quiseram, mas foram aproximados. Isso está em pleno acordo com o que foi dito anteriormente a respeito dos cristãos serem presentes do Pai ao Filho, pessoas que o Pai, por motivos que nunca jamais entenderemos, decidiu desde antes da fundação do mundo, dar ao Filho como sua herança após a sua morte e ressurreição.

É bem possível que você que me lê nestas páginas seja um desses presentes do Pai ao Filho. Quem garantirá isso a você é o Espírito Santo, conforme afirma Rm 8:16:

 

O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus.

 

Assim, uma vez que o Espírito do Senhor nos enche da paz de que, arrependidos e convertidos a nosso Senhor Jesus Cristo, somos filhos adotados pela misericórdia do Pai, devemos sempre nos lembrar de que a nossa salvação foi um presente de Deus a nós. Não a merecemos. Ninguém a merece. É dom de Deus. É graça.

Paulo lembra os efésios de que, agora, eles estão “em Cristo” (isto é, protegidos, guardados e guiados), perto de Deus. Estávamos longe, mas agora estamos perto. Fomos aproximados pelo poder do sangue de Cristo Jesus. 

Segundo a própria estrutura do verbo grego, somos todos passivos no processo de conversão a Cristo. Há algo misterioso que acontece sobre nossas cabeças que envolve um amor gigantesco de Deus por nós, que nos transforma, nos quebranta, nos mostra o quanto o pecado é destruidor e maldito, nos mostra o quanto ele nos ama e, com este amor, nos constrange. Ele primeiro nos ama e, irresistivelmente, passamos a amá-lo também. Perdoados e lavados pelo sangue de Cristo, somos aproximados e continuamos a sê-lo a cada dia que passa. 

Ele continuará a nos aproximar de si, até nos transformar plenamente dando-nos plena condição para viver em sua presença pelos séculos dos séculos.

A consciência destas coisas deveria levar os efésios a louvar a Deus. Essa é uma das principais motivações de Paulo ao escrever esta carta. Ele mesmo está explodindo de gratidão e louvor por Deus tê-lo salvo. E tudo o que Paulo dirá até o final deste capítulo está relacionado a isto, ao louvor que é fruto da grande salvação que todos herdamos de Deus.

Uma vez que eles e nós fomos libertos da sepultura, nossa vida transforma-se em uma vida de louvor. Uma vez que aqueles que estavam mortos no pecado tornaram-se vivos para Deus, sua vida torna-se um constante de gratidão e louvor. Não há espaço para murmúrio. Veja outras razões bíblicas do porque não há mais murmuração:

 

Romanos 8.1: Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus.

Romanos 5.9: Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira

Colossenses 1.13: Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados.

 

Com todas essas palavras, unidas às de Paulo aos efésios, concluímos que Jesus mudou tanto o nosso estado quanto nossa posição. Quanto ao estado, antes éramos condenados, mas agora somos livres. Quanto à posição, antes estávamos distantes, presos ao império das trevas, mas agora estamos dentro do reino do Filho do seu amor. Estávamos distantes de Deus (v. 17) e dos judeus (v. 12), mas pelo sangue de Cristo, sendo purificados por ele, fomos trazidos para perto de Deus e das promessas da aliança.

Pelo sacrifício e morte de Cristo, fomos conduzidos para perto tanto de Deus quanto dos judeus. Apesar do pecado e da condenação ter-nos mantido distantes de Deus, no sofrimento e sacrifício de Cristo, a barreira da separação do pecado foi destruída e nossa condenação foi assumida por ele.⁠2

Por causa do grande amor de Deus por nós, através de Cristo, fomos trazidos de volta para nosso lar, para o lar daquele que nos criou, para, com ele, experimentarmos todos os benefícios oriundos da salvação. Esse é o motivo maior de nosso louvor. Nunca se esqueça: trazidos para o reino de nosso Pai, recebidos em sua igreja, unidos à família da aliança, e recebendo todos os privilégios que são conseqüência dessa bendita união.⁠3

Para estes efésios, bem como para todos os que, hoje, possuem em seus lábios mais louvor do que murmúrio, Deus está sempre perto, trazendo muita paz. Murmúrio é, com freqüência, sinal de perdição ou de vazio espiritual. Murmúrio é, com quase toda certeza, o principal sintoma de que algo maior está faltando à vida do que está sempre murmurando. Já o louvor frequentemente está relacionado com aqueles que experimentaram a libertação. Louvor é, com freqüência, sinal de salvação e de comunhão espiritual. Louvor é, com quase toda certeza, a principal característica de que algo maior ocupou o vazio que, um dia, ocupou o coração de uma pessoa.

 

 

 

 

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1 Johannes P. Louw e Eugene Albert Nida, Greek-English lexicon of the New Testament: based on semantic domains (New York: United Bible Societies, 1996), 346.

2 Harold W. Hoehner, “Ephesians”, in The Bible Knowledge Commentary: An Exposition of the Scriptures, ed. J. F. Walvoord e R. B. Zuck, vol. 2 (Wheaton, IL: Victor Books, 1985), 625.

3 Matthew Henry, Matthew Henry’s commentary on the whole Bible: complete and unabridged in one volume (Peabody: Hendrickson, 1994), 2310.

Minha fraqueza, Sua força

Porque quando estou fraco então sou forte.

2 Coríntios 12:10

Na vida cristã, crescer é sinônimo de tornar-se cada vez mais criança. Crescer, é tornar-se cada vez mais dependente de seu Pai que está nos céus. E crianças são fracas, são frágeis. Crianças nem sempre reconhecem seus limites, acreditando-se fortes. Mas, basta um pequeno deslize para reconhecerem que carecem da ajuda dos pais. Assim como crianças, cristãos também devem reconhecer sua fraqueza e necessidade de dependência do Pai.

Na vida diária, a medida que as crianças crescem, tornam-se menos dependentes dos pais, até que, na fase adulta, tornam-se totalmente independentes. Na vida cristã não é assim. Para o cristão, crescer é tornar-se criança. Quanto mais um cristão amadurece, mais dependente fica de seu Pai. Quanto mais o cristão cresce e amadurece, mais frágil torna-se, ou, pelo menos, mais consciente de sua fraqueza fica.

A fraqueza, longe de ser um defeito, é uma virtude que precisa ser resgatada pelos cristãos. Por causa do orgulho, muitos têm caído sob o engano de que são capazes de solucionar seus problemas sozinhos, sem a necessidade de oração ou socorro externo. Mas, como já dito, isso é orgulho, e orgulho deve ser abandonado.

A grande verdade é que somos todos pó (Salmo 103.14). Somos frágeis. Quando alguém quer se fazer forte, tal pessoa está lutando contra sua própria natureza, abusando de sua alma e, às vezes, até mesmo de seu próprio corpo. O fato é que somos pequenos, como os "hobbits" da história de J.R.R.Tolkien. Somos pequenas criaturas, frágeis, mas que portam um grande tesouro dentro de si.

Reconhecer nossa pequenez é um grande passo. Sem isso, dificilmente cresceremos rumo à maturidade. Devemos reconhecer diariamente que não podemos, não somos capazes de vencer o pecado, de que, como crianças, dependemos de nosso Pai até para atravessar a rua. Se pareço infantil, é de propósito. Não quero deixar de ser criança. Aliás, é isso que desejo ser, até morrer.

Na vida cristã, quanto mais de mim é empregado no dia a dia, menos dEle é experimentado e vivido. Mas, quanto menos me coloco, mais Ele sobressai, mais Ele aparece. Quanto mais forte me faço, menos dele recebo. No entanto, quanto mais fraco me faço, mais dEle eu percebo.

Que essa breve meditação nos leve a orar para que Ele nos esvazie de nós mesmos. Que façamos morrer os pecados que nos dão a falsa impressão de que somos fortes e podemos. Que o orgulho, a vaidade e a mentira morram. Minha oração é que eu diminua, e que Ele cresça. Você oraria por mais fraqueza comigo?

Grandioso és Tu!

Todos os dias te bendirei e louvarei o teu nome para todo o sempre. Grande é o Senhor e mui digno de ser louvado; a sua grandeza é insondável.

Salmo 145.2-3

Adorar a Deus tem a ver com reconhecer o quão grande Ele é, quão ilimitado é o Seu amor e poder, tanto na criação quanto na redenção. Adorar ao Senhor não é algo esporádico, mas diário. Desde o dia em que somos convertidos e para todo o sempre, o prazer maior do cristão é a adoração, o reconhecimento do quão grande é o Senhor.

"Ó Soberano Senhor, tu começaste a mostrar a teu servo a tua grandeza e a tua mão poderosa! Que Deus existe no céu ou na terra que possa realizar as tuas obras e os teus feitos poderosos?

Deuteronômio 3:24

Em Dt 3.24, Moisés afirma que Deus apenas começou a mostrar a Sua grandeza e ele. E lembre-se de quão grandes coisas Deus fez por ele e pelo povo no deserto (abriu o mar para passarem, derrotou o exército de Faraó, fez descer comida do céu, fez sair água da rocha, etc.). De fato, embora coisas sobrenaturais pareçam grandes demais para nós, para Deus são como o levantar da mão ou o piscar dos olhos.

Ergam os olhos e olhem para as alturas. Quem criou tudo isso? Aquele que põe em marcha cada estrela do seu exército celestial, e a todas chama pelo nome. Tão grande é o seu poder e tão imensa a sua força, que nenhuma delas deixa de comparecer!

Será que você não sabe? Nunca ouviu falar? O Senhor é o Deus eterno, o Criador de toda a terra. Ele não se cansa nem fica exausto, sua sabedoria é insondável.

Isaías 40:26-28

Em Is 40.26 e 28, o próprio Deus no convida a enxergarmos sua grandeza e poder enquanto estudamos as estrelas, galáxias, planetas, e todo o exército celestial. Deus chama uma a uma pelo seu próprio nome. E sabemos que são em número de bilhões de bilhões.

Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis;

Romanos 1:20-21

Em Rm 1.20-21, Paulo afirma serem indesculpáveis todos os homens diante das claríssimas evidências de um poder criador e sustentador por detrás de toda a criação. Não há como escapar do juízo ignorante.

Todos conhecemos a canção Grandioso és Tu. Caso você não lembre dela, tenha certeza que um dia você já a ouviu em algum lugar! Ela foi escrita por um pastor sueco, Carl Boberg, em 1886. A história da letra começa quando Boberg está de passagem por um estado sueco muito bonito e se depara com uma inesperada tempestade. Tudo foi muito  rápido. Em um momento, raios, trovões, muitos brilho e barulho. Rapidamente, tudo isso acaba e dá lugar ao calmo brilho do sol e ao doce canto dos pássaros nas árvores.

De joelhos, Carl Boberg sente um profundo desejo de adorar a Deus por Sua grandeza sobre toda a criação e escreve nove estrofes de uma poesia de louvor. Algum  tempo depois, algumas comunidades suecas começaram a cantar aquelas linhas com uma de suas antigas canções populares.

Posteriormente, aquela poesia foi traduzida para o alemão e para o russo e, por fim, para o inglês pelo Rev. S. K. Hine e sua esposa, missionários na Ucrânia. Com o passar do tempo, das 9 estrofes restaram 4 que, ainda hoje, são vastamente cantadas em todo o mundo através do hino Grandioso és Tu.

Louve sempre a Deus por Seu poder, primeiramente visto na criação e, agora, na redenção. O mesmo poder que criou céus e terra criou a sua nova vida. O mesmo poder que disse “Haja luz, e houve luz”, é o poder que regenera você tornando-o uma nova criatura. Louve-O sempre pois, maior do que Seu poder na criação é o Seu poder na redenção!

Grande é o Senhor, e digno de todo louvor na cidade do nosso Deus. (Sl 48.1)

A Comunhão dos Santos

Deus trino, perfeito em comunhão e amor, Tu tens todo o prazer em Ti mesmo. Desde sempre, desfrutas deste prazer sem de nada mais precisar ou depender. Tu és, como Teu belo nome o diz. Pai com o Filho, Filho com o Pai, Filho com o Espírito, Espírito com o Pai, três pessoas perfeitas, vivendo uma perfeita relação de amor.

E eu aqui tentando imaginar o por que de teres me criado. Aliás, o por que de teres criado à espécie humana. Tu dizes em Tua Palavra que nos criou para conosco teres comunhão. Mas que necessidade mais há em Ti?

Certo de que nada Te falta, sobra-me a certeza de que a comunhão que tens comigo nada mais é do que um derramar, um transbordar do Teu perfeito amor. Ao transbordares de amor entre si, derramam este amor sobre nós, indignos perdidos, sujos, pecadores, rebeldes, agora tocados e constrangidos por este amor tão sui generis, tão díspar, incomparável.

Ao derramares tão doce amor sobre os Teus, ensinaste-nos a amar. Não mais como antes, mas como por Ti somos amados – não amamos para recebermos, não amamos para trocarmos, amamos porque naturalmente derramamos no outro o que Tu fazes transbordar agora em nós.

Quanto mais Te amamos, mais nos amamos. Não como antes, mas como fomos por Ti amados. Assim, pecadores egoístas, agora perdoados e lavados pelo sangue da nova aliança, chamados de santos por Ti, podem ter comunhão também, como o Pai com o Filho, o Filho com o Pai, o Filho com Espírito e o Espírito com o Pai.

Que doce relação nos ensinaste viver. Prenda-nos a Ti, ao Teu doce amor, a fim de que nada nos separe uns dos outros também. Prenda-nos a Ti, a fim de que os laços que nos prendem a nossos irmãos estejam cada vez mais fortes, inquebráveis.

Por Cristo Jesus,

amém.

UNAM SANCTAM: Uma santa invisível

Deus de conforto e de paz, por Cristo Jesus lhe agradeço por vires buscar os perdidos e aflitos. Me lembro que eu fui um deles. Por Tua graça, não sou mais.

Não fosse por ela, ainda estaria me arrastando e mendigando o pão sujo, duro e passado, livremente oferecido, aos que andam longe de Ti.

Mas, por Ti fui arrastado. Por Teu Espírito fui chamado e tocado, e agora, a chama dEle arde em mim. Vivo por Ele. Vivo por Ti.

Te louvo por, mediante Tua obra em mim, poder fazer parte de uma santa e invisível comunhão. Tua noiva santa, pura e imaculada, lavada pelo sangue de Teu bendito Filho. A ela hoje pertenço, graças à Tua misericórdia.

Te louvo por não andar jamais sozinho. Te louvo por buscares não apenas a mim, mas a muitos que Tua graça escolheu desde antes da fundação do mundo. Somos uma família, uma santa comunhão. Vivemos como irmãos, visíveis e invisíveis, vivos deste lado da eternidade, misteriosamente ligados à outros vivos do outro lado da eternidade.

E juntos, membros de uma noiva santa e invisível, aguardamos a bendita manifestação da glória do nosso grande Deus e Senhor Jesus Cristo, o qual virá em breve para nos redimir plenamente.

Amado Consolador, louvado sejas por Tua bendita e santa e católica Igreja. Louvado sejas por me inserires nela, um miserável como eu, alguém que nunca desejaria estar nela, não fosse o Senhor tirar de mim a ignorância e podridão.

Por tudo isso, bendito sejas! Por Cristo Jesus,

amém.