PASTORES E “PASTORAS”? Uma exposição bíblica de Ef 4.11-12

O povo de Deus nunca deve deixar de orar. Especialmente, nunca deve deixar de orar pelo dom que receberam de Deus. Devem orar para que Deus os mostre cada vez mais seu próprio dom e em qual ou quais áreas espera que sirvam. Devem orar para que este dom seja lapidado, edificado e usado com bastante fidelidade entre o povo de Deus.

Além de orar por si mesmos e pelo dom que receberam, o povo de Deus deve orar igualmente pelas vidas que constituem em si mesmas dons de Deus à sua igreja. Apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres são apresentados nesta porção como vidas que o Senhor doou à igreja não apenas para edificá-la, mas para lançarem o fundamento da mesma e construírem sobre este fundamento. Os responsáveis pelo fundamento já morreram. Ninguém mais lança o fundamento. Ele já está posto. Os apóstolos foram os responsáveis por tal bênção. Evangelistas, pastores e mestres são responsáveis hoje por construírem sobre este fundamento, jamais pensando ou ousando colocar outro fundamento além do que já está posto.

No comentário anterior, analisamos brevemente a função dos apóstolos e profetas. Vejamos novamente o texto e sigamos na compreensão do mesmo.

E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo

Ef 4.11–12

E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas,

Já vimos isso no comentário anterior a este. Vejamos como Paulo continua.

outros para evangelistas 

Paulo, agora, trata dos evangelistas. Evangelista vem de εὐαγγελιστής, aquele que anuncia o evangelho (εὐαγγέλιον – notícias que tornam alguém feliz, palavras que fazem alguém feliz, ou, boas notícias). Evangelho, por sua vez, deriva de evangelizo (εὐαγγελίζω), ou seja, contar as boas novas.⁠1

O evangelho aqui, obviamente, está ligado à mensagem de Jesus Cristo presente nos relatos dos quatro evangelistas: Mateus, Marcos, Lucas e João. O evangelho pode ser resumido na notícia de que pecamos e por isso sofreremos as conseqüências de nossos pecados. O sofrimento consequente do pecado não se esgota neste mundo, fazendo-se necessário que continuemos sofrendo eternamente por causa de nossos pecados. No entanto, “Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”, Jo 3.16. Ou seja, para todo aquele que nega a si mesmo, toma a sua cruz, e converte-se em seguidor de Jesus, amando-o com todo seu coração, alma e força, não sofrerá mais as conseqüências eternas de seus pecados. Tais pessoas, ao crerem, são libertas da condenação que, naturalmente, as aguardava na eternidade.

O evangelista é aquele que anuncia o evangelho. Todavia, não como todos os cristãos naturalmente fazem, mas de uma forma mais rica e constante. Segundo Wiersbe, os evangelistas aqui citados como pessoas abençoadas com esse dom são uma espécie de condutores das Boas Novas. São homens que viajam de lugar a lugar pregando o Evangelho para os perdidos (At 8.26-40;21.28). Todos, ministros ou não, devem evangelizar. Todos os ministros devem realizar a obra de um evangelista. No entanto, haviam pessoas naquela época como hoje que tinham e têm o dom do evangelismo.⁠2 Conforme comenta o teólogo Harold Hoehner, os “evangelistas são aqueles engajados no espalhar do Evangelho, semelhante aos missionários de nossos dias⁠3”.

e outros para pastores e mestres, 

Atos 20.28 parece indicar que a igreja local é como um rebanho de ovelhas. Sobre estas pessoas, Deus instituiu pastores. A responsabilidade de um pastor de ovelhas é alimentá-las e guiá-las. Estas são suas principais funções. Nesta expressão de Paulo aos Efésios, o Espírito Santo nos ensina como o Senhor considerou necessária a presença de uma pessoa para alimentar e guiar as outras. Isso, não para menosprezar ou glorificar uns ou outros, mas para que seu povo, sua família, pudesse caminhar conforme Seus eternos propósitos.

Logo, a figura pastoral não é uma invenção humana, mas uma criação divina. Foi Deus quem decidiu que os pastores existiriam e é Ele quem escolhe tais pessoas para o exercício do ministério pastoral.

O fato de Paulo escrever “pastores e mestres” não deve nos confundir. Paulo, provavelmente, não está falando de dois tipos de pessoa. O artigo (τοὺς) no grego apresenta-se apenas antes de “pastores”. E não há a conjunção δὲ entre as palavras “pastores” e “mestres”. Isso indica que “mestres” não trata de uma outra categoria de pessoa. O mais provável é que Paulo esteja falando de alguém cuja função seja confortar e guiar, ou seja, pastorear e ensinar; por isso, “pastores e mestres”. É nesse sentido que Hoehner, “bispos e presbíteros devem ser capazes de ensinar (1Tm 3.2; Tt 1.9)”⁠4.

Na mente de Paulo⁠5, a figura pastoral é exclusivamente masculina excluindo-se completamente a possibilidade dessa responsabilidade ser assumida por uma mulher. E isto não tem a ver com machismo ou algo de um tempo passado. A Bíblia deve sempre ser lida como atemporal, e não como algo que se encaixou a um momento, cujos ensinamentos serviram apenas aos que viveram naquele tempo.

A Bíblia não foi escrita com base na inspiração de um homem ou uma mulher, mas foi escrita debaixo da inspiração do Espírito Santo. Homens escolhidos por Deus, inspirados por Seu Espírito, colocaram no papel aquilo que o próprio Deus desejou dizer aos homens (2Pe 1.20-21). Cada letra da Sagrada Escritura é Sagrada. Cada ponto e espaço são inspirados e determinados pelo Senhor para que os homens conheçam o caminho do arrependimento e salvação. Não há nada nas Escrituras que não seja revelação do Senhor. Tal certeza é fundamental para que recebamos a Bíblia como regra de fé e prática. Se não temos a Bíblia, se ela não é revelada e inspirada, o que resta para nos guiar no caminho da fé. Se a Bíblia não for vista como a regra final para nossa fé e prática, abre-se a porta para toda e qualquer prática, inclusive a ordenação de homossexuais ao ministério pastoral, algo que tem se tornado bastante comum em tradições cristãs que oficialmente têm deixado de crer na Bíblia como inspirado por Deus e não fruto de uma mente ou uma época. Assim sendo, pensemos na questão de gêneros.

Não há distinção entre homens e mulheres no que diz respeito à essência. Em essência, homem e mulher são iguais. No entanto, há distinção nas funções desempenhadas por eles. Gênesis 1 relata como Deus criou o homem e a mulher. Gênesis 2 relata quais os papéis Deus deu a cada um deles. São iguais em essência, diferentes em papéis; e isso, desde a criação.

Paulo explica isso em 1Tm 2.13, onde fala da ordem em que cada um foi criado. Já em 1Co 11.8, Paulo aborda a forma como foram criados, ressaltando que os papéis também têm a ver com a forma como foram criados (primeiro o homem, depois a mulher — feita a partir do homem). No verso seguinte à este último (1Co 11.9), Paulo explica o propósito da criação de cada um; neste texto, o Espírito Santo usa Paulo para nos revelar que a mulher foi criada por causa do homem. Em toda sua teologia, homem e mulher são iguais para Paulo, diferindo apenas nas funções que cada um deve desempenhar em vida.

Outro ponto importante é que, todas as vezes que a Bíblia cita alguém em função pastoral, ela cita homens. Todos os apóstolos, evangelistas e pastores são homens na Bíblia. Aquele que “aspira ao episcopado” (1Tm 3.1) deve ser “esposo de uma só mulher”. Isso, obviamente, não pode ser aplicado a nenhuma mulher. A mesma orientação o Espírito Santo dá a Tito através de Paulo em Tt 1.6: “marido de uma só mulher”.

Contudo, convém ressaltar que a Bíblia não anula o ministério feminino, muito menos os dons de ensino dados a elas. São muitos os ministérios nos quais elas desenvolvem e praticam seus dons. Todavia, no que diz respeito ao “pastores e mestre”, àqueles que tem a responsabilidade de apontar o caminho pelo qual a igreja deve andar, dar a visão e a doutrina, guiar nas disciplinas e nos aconselhamentos, guiar os demais pastores da igreja, guiar os demais líderes, conselheiros, evangelistas e professores na igreja, que essa figura sempre estará sob a responsabilidade de um homem.

A história da igreja contempla muitas mulheres com o dom de ensino, muitas ensinando em seminários, escrevendo livros e sendo tremendamente usadas por Deus. No entanto, nenhuma delas na função de “pastores e mestres”, sendo a responsável pela última palavra sobre doutrina em uma igreja local. Esta responsabilidade recai apenas àqueles que são, mais uma vez, “maridos de uma só mulher”.

O fato de Deus usar em alguns momentos da história (inclusive no período bíblico) mulheres em funções de homens não significa normatização, mas juízo de Deus e negligência dos homens. Haja vista o uso que Deus fez do falso profeta Balaão (Nm 22.35), das profecias de um rei desobediente e que não era segundo o coração de Deus como Saul (1Sm 10.10; 19.23), e da juíza Débora que julgou Israel em um tempo em que os homens eram covardes e desobedientes, agindo cada um segundo o seu próprio coração (Jz 4.4-9). Nada disso autoriza que falsos profetas, reis desobedientes ou juízas corajosas e fiéis sejam oficializadas dentro do propósito de Deus. O fato de Deus usá-los apenas denuncia uma época em que os homens de Deus não estavam desempenhando bem suas funções, muito menos se submetendo à direção de Deus para exercê-las. Deus pode muito bem instituir pastoras em um tempo de negligência dos homens; mas isso seria apenas juízo de Deus, e não oficialização de uma nova norma.

No período da Igreja Antiga (ou, Primitiva), a orientação que o Espírito Santo dava era a de que  sempre fossem eleitos homens para a função pastoral:

E, promovendo-lhes, em cada igreja, a eleição de presbíteros, depois de orar com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido.

At 14.23

O mesmo pode ser visto mais adiante no livro de Atos quando o próprio Espírito Santo é mencionado como agente oficilizador:

Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue.

At 20.28

Mais uma vez, foram homens aqueles que foram constituídos pastores sobre a Igreja de Deus. E o próprio Espírito Santo foi quem assim determinou. As demais ocorrências das palavras pastor, presbítero, bispo, ancião, ministro, etc., sempre aparecem com o artigo masculino no Novo Testamento Grego. Não há uma ocorrência sequer de que a autoridade sobre uma igreja local esteve debaixo de uma mulher. O ministério delas está bem descrito em Tt 2.3-5 e outras passagens na Bíblia. Elas nunca deveriam assumir a autoridade sobre uma igreja local e sobre os homens. Em todo o Novo Testamento e período da Igreja Antiga, a presidência de uma igreja sempre foi responsabilidade dada a um homem pelo Espírito Santo. Via de regra, a função das mulheres estava associada ao ensino (desde que debaixo da autoridade de um pastor), ao ensino de outras mulheres, ao cuidado de pobres e doentes, à assistência em casos de morte de outras mulheres (eram as mulheres que cuidavam de tudo relacionado ao enterro de outras mulheres), à exortação e aconselhamento de outras mulheres em pecado ou rebeldia, dentre outras. Isso, sem falar de sua maior responsabilidade e papel dada por Deus desde a criação: a de ser mãe e esposa, funções estas que vão muito além de qualquer responsabilidade sua na igreja, além de serem muito mais importantes também.

Nunca se fez tão necessário um aprofundamento no tema quanto hoje. Quem sabe a profunda participação de mulheres em funções pastorais não seja um sinal do juízo de Deus sobre a Igreja em nosso tempo, tão negligente, insubmissa, desnorteada e sem doutrina.

com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo

Por fim, Paulo nos orienta que a razão de Deus dar tais homens à sua igreja é fazê-la crescer em santidade e em desempenho. O “aperfeiçoamento dos santos” está intimamente ligado ao “desempenho do seu serviço”. São este homens mencionados nos versos anteriores que prepararão o povo de Deus para o serviço, ou seja, para o exercício de seus dons.

Os líderes são homens dotados por Deus para treinar o Corpo de Cristo para a obra do ministério de seus dons espirituais. A “edificação do corpo de Cristo” vem dos dons que o Espírito dá a cada um dos membros da Igreja de Deus, e a preparação desses membros vem de um pastor que, quando fielmente lhe prega a Palavra, trabalha para que sejam aperfeiçoados para o desempenho de seu serviço entre os irmãos e irmãs.⁠6

Johannes P. Louw e Eugene Albert Nida, Greek-English lexicon of the New Testament: based on semantic domains (New York: United Bible Societies, 1996), 412.

Warren W. Wiersbe, The Bible exposition commentary, vol. 2 (Wheaton, IL: Victor Books, 1996), 38.

Harold W. Hoehner, “Ephesians”, in The Bible Knowledge Commentary: An Exposition of the Scriptures, ed. J. F. Walvoord e R. B. Zuck, vol. 2 (Wheaton, IL: Victor Books, 1985), 635.

Harold W. Hoehner, “Ephesians”, in The Bible Knowledge Commentary: An Exposition of the Scriptures, ed. J. F. Walvoord e R. B. Zuck, vol. 2 (Wheaton, IL: Victor Books, 1985), 635.

Sem dúvida alguma, inspirado pelo Espírito Santo.

Robert James Utley, Paul Bound, the Gospel Unbound: Letters from Prison (Colossians, Ephesians and Philemon, then later, Philippians), vol. Volume 8, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 1997), 112.

DEUS SEMPRE NOS SURPREENDE

A união entre judeus e gentios foi algo totalmente oculto aos judeus do Antigo Testamento. Paulo, nas palavras que seguem, irá explicar como a ele foi revelado tal conhecimento e como isso trouxe Paulo a um estado de alegria e satisfação nunca antes experimentado por ele. 

Embora o apóstolo explique resumidamente o mistério desta união entre judeus e gentios que tornou ambos os povos co-herdeiros, membros de um mesmo corpo, e co-participantes das bênçãos, vitórias e promessas de Cristo Jesus. 

O Evangelho faz o que nada mais é capaz. Ele restaura e une o que ninguém jamais imaginou. Se Deus é capaz de fazer isso de um modo tão surpreendente, e se ele é o mesmo ontem, hoje e eternamente, imagine a alegria que vem de saber que Deus sempre terá algo bom para nos surpreender? E ele sempre nos surpreende!

Apenas a distancia dele é que nos priva do desfrutar de suas surpresas. Mas, vejamos nas palavras do próprio Paulo sobre esta graça bendita que lhe encheu o coração de alegria e surpresa.

 

se é que tendes ouvido a respeito da dispensação da graça de Deus a mim confiada para vós outros; pois, segundo uma revelação, me foi dado conhecer o mistério, conforme escrevi há pouco, resumidamente; pelo que, quando ledes, podeis compreender o meu discernimento do mistério de Cristo, o qual, em outras gerações, não foi dado a conhecer aos filhos dos homens, como, agora, foi revelado aos seus santos apóstolos e profetas, no Espírito, a saber, que os gentios são co-herdeiros, membros do mesmo corpo e co-participantes da promessa em Cristo Jesus por meio do evangelho; do qual fui constituído ministro conforme o dom da graça de Deus a mim concedida segundo a força operante do seu poder.

 

 

se é que tendes ouvido a respeito da dispensação da graça de Deus 

 

O que é dispensação? A palavra nos remete a uma dispensa que precisa ser administrada. Seja uma dispensa pequena, seja uma dispensa grande, a correta e prudente administração da mesma se faz mais do que necessário para aquele que a possui. Deus possui muito, embora seja, em si, simples. O que vem dele, todavia, não é simples. Pelo menos, não para nós.

É nesse sentido que aquilo que dele vem a nós precisa ser corretamente administrado e “dispensado” a fim de que recebamos com entendimento. 

Da palavra “dispensação"  em grego se tira a palavra portuguesa para “economia”. A expressão toda que originalmente Paulo escreveu foi esta: τὴν οἰκονομίαν τῆς χάριτος τοῦ θεοῦ τῆς (tēn oikonomian tēs charitos tou theou tēs). A segunda palavra, οἰκονομίαν (oikonomian), é a palavra traduzida por dispensação. Trata-se da junção de duas palavras, oikos e nomos (casa e lei). Assim, economia — ou, dispensação — diz respeito às regras ou leis que governam e administram uma casa. É nesse sentido que Paulo se vê como um administrador do mistério que Deus lhe revelou.

Em que sentido a graça de Deus é dispensada sobre nós? A graça de Deus é bem conhecida do leitor de Paulo. Ele, nos dois primeiros capítulos, explicou o que significa para si este amor leal e fiel reconhecido também pela palavra graça. Graça não está relacionado apenas a algo gratuito, mas a algo gracioso, amoroso que, ao mesmo tempo, vem a nós em completa gravidade.

A graça de Deus é dispensada de modo amoroso e não opressivo sobre os efésios. Sobre a graça de Deus, Paulo falou no início desta epístola, o que também já comentei no início destes comentários em Efésios.

 

a mim confiada para vós outros;

 

Deus confiou a Paulo o administrar da dispensação de Sua graça entre os não-judeus. Deus, literalmente, deu a Paulo o que ele deveria dar aos não-judeus. Ele recebeu a “confiança” de Deus (Deus confiou a ele) para cuidar daquilo que seria dado aos gentios, abrindo-lhes a porta do Evangelho. Sua seria a responsabilidade tanto de pregar quanto de ensinar as Boas Novas recebidas.⁠1

O que é dado com confiança foi transmitido com fidelidade. O que foi dado a Paulo era para “vós outros” — os efésios e todos os gentios. Paulo foi apenas um mensageiro, um interlocutor. E deveria ser fiel. Veja que sua fidelidade lhe custou a prisão. Pensa que Paulo em algum momento se arrependeu? Nunca. Sua alegria estava em compartilhar ou dispensar com fidelidade e sabedoria aquilo que lhe havia sido confiado.

 

pois, segundo uma revelação, 

 

Deus confiou a Paulo a dispensação de Sua graça entre os gentios quando ele estava a caminho de Damasco, com autorização para prender os cristãos e arrastá-los a Jerusalém. No meio do caminho, o próprio Senhor Jesus lhe apareceu, converteu e revelou a razão de sua eleição para um ministério entre os gentios.

Revelação é trazer algo oculto à luz. A palavra para “revelação” é ἀποκάλυψιν (apokalypsin), de onde nos vem a palavra apocalipse. A melhor definição é realmente esta, trazer à luz algo que estava oculto. O que estava oculto? O mistério da união entre gentios e judeus em um só corpo compondo a “família de Deus”, como já dito em versos anteriores.

Revelação não é algo que se dá o tempo todo, indiscriminadamente. Trata-se de algo elementar, fundamental, sobre o qual tudo o mais se constrói. É a base de qualquer pensamento que se constrói. Não se pode lançar  fundamento de um edifício enquanto ele se constrói. Assim, o que foi dado a Paulo foi a base sobre o que não somente aquela igreja foi construída, mas todas as igrejas em todos os tempos nos milênios seguintes também o foram. 

A revelação que foi dada a Paulo no caminho de Damasco foi de uma natureza extraordinária. Ela não acontece ou acontecerá com outros da mesma maneira. Foi única. Foi para ele. Recebendo-a, foi fiel a ela até o dia de sua morte. Obviamente, não se tratava de uma revelação como Paulo receberia tempos depois, como a própria autoridade para escrever esta epístola aos Efésios, inspirada pelo Espírito Santo. Tal revelação também foi uma realidade em sua vida. 

Todavia, esta foi de uma outra natureza, pois estava relacionada ao descobrir da razão de sua existência neste mundo. Deus o havia predestinado para ser um vaso de honra entre os gentios, um vaso que seria usado para levar o evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo a povos distantes na geografia, na língua, na cultura, nos hábitos, nas festas, nas alianças, e em tudo o mais. Deus, em sua rica misericórdia, revelou a Paulo que ele seria o portador da mensagem do fim dessa separação e distância. 

 

me foi dado conhecer o mistério, 

 

Paulo recebeu como um presente a possibilidade de conhecer algo que ninguém havia conhecido antes dele. Nenhum profeta no Antigo Testamento havia suposto que a chegada dos gentios à aliança aconteceria da maneira como aconteceu no Novo Testamento.

Não preciso esclarecer em detalhes isto aqui, visto que Paulo tratará do mesmo assunto em detalhes no decorrer dessa carta.

Apenas destaco suas palavras “foi me dado”. Paulo, mais uma vez, é passivo no processo. O mistério que lhe foi dado veio como um presente, uma dádiva não merecida. Assim como tudo que Deus nos dá e faz por nós, recebemos de um modo passivo e imerecido, ficando encantados e constrangidos com tanto amor derramado sobre nós. 

 

conforme escrevi há pouco, resumidamente; pelo que, quando ledes, podeis compreender o meu discernimento do mistério de Cristo,

 

Paulo já havia escrito no final do capítulo dois acerca do mistério. Resumidamente, falou sobre algo grandioso e imperceptível aos hebreus do Antigo Testamento: a união dos gentios nas alianças dos judeus no Novo Testamento.

Obviamente, como já comentei, não em todas as alianças. Um estudo cuidadoso das alianças faz com que percebamos isso. Não se faz necessário explicar aqui que algumas alianças são exclusivas à Israel, enquanto outras são para todos os eleitos. Um exemplo: a aliança relacionada à terra prometida de Canaã, da qual a igreja hoje não participa, muito menos reivindica.

Paulo, ao falar sobre o mistério da inclusão dos gentios no mesmo “corpo” em que os judeus já estavam, explica que ele já havia falado sobre o assunto resumidamente. Logo, seu foco aqui não é ser exaustivo. No decorrer da carta, ele citará outras coisas relacionadas a esta união mística entre os povos com Cristo e, através de Cristo, com a Santíssima Trindade.

Paulo não se preocupa em explicar em detalhes esta união por, provavelmente, tratar-se de algo muitíssimo claro a todos os gentios efésios. Eles experimentavam esta união de modo prático e vívido. Não precisava-se explicar. Eles a sentiam. A paz, as bênçãos, a presença do Espírito, o perdão, a união, a nova aliança através do sangue do Cordeiro judeu sacrificado para salvar a todos que nele cressem, tudo isso fazia com que tal união mística fosse algo maravilhoso e vivo para eles.

 

o qual, em outras gerações, não foi dado a conhecer aos filhos dos homens, como, agora, foi revelado aos seus santos apóstolos e profetas, no Espírito, a saber, que os gentios são co-herdeiros, membros do mesmo corpo e co-participantes da promessa em Cristo Jesus por meio do evangelho; 

 

Aqui, então, o apóstolo Paulo irá deixar clara esta união. 

Em outras gerações, diz respeito ao tempo do Antigo Testamento, quando a revelação bíblica era dada aos homens através dos profetas. Naquele tempo, nenhum deles jamais supôs muito menos escreveu nada sobre o tempo da igreja, o tempo desta união mística conhecida por Paulo e passada dele para outros através de revelação, pregação, ensino e escritos, inspirados ou não. O que chegou a nós são apenas seus escritos inspirados (que estão na Bíblia) através dos quais podemos saber o que Paulo recebeu de Cristo como revelação e pregou em seu tempo de vida. 

Agora, diz respeito ao tempo em que Paulo vivia quando apóstolos e profetas recebiam, através da ação do Espírito Santo em suas vidas, a revelação relacionada a esta união. 

Toda herança espiritual prometida aos judeus agora era dada aos gentios. Estes últimos também se tornaram herdeiros. Quem imaginava isso antes de Cristo? Que de dois povos, Deus faria um, colocando-os dentro e debaixo da mesma aliança? Membros do mesmo corpo?! Ninguém jamais imaginou algo assim.

Este mistério que estava oculto até a vinda de Cristo e sua revelação é agora, através de Paulo, comunicado ao mundo. Através do Evangelho, tal união tornou-se possível. Sem o Evangelho, a inimizade permanece. Sem o Evangelho, o que fica é a competição, a traição e a mentira. Com o Evangelho, todas as barreiras são desfeitas pois o novo-convertido aprende que nenhum pecado deve ser deixado sem perdão. Aprende que deve perdoar as ofensas de outros assim como suas próprias ofensas foram um dia perdoadas pelo próprio Deus.

Sobre o Evangelho, Paulo conclui falando com alegria sobre o presente que Deus havia lhe dado de se tornar ministro do mesmo.

 

do qual fui constituído ministro conforme o dom da graça de Deus a mim concedida segundo a força operante do seu poder.

 

Paulo reconhece que, até mesmo o fato de ter sido chamado para ser um pregador do Evangelho foi uma ato da misericórdia e da graça de Deus. Não foi algo planejado, sonhado, pensado por Paulo. Foi algo que caiu sobre ele. Veio a ele, sem que o mesmo pudesse ter tempo para pensar no que entraria. Já dentro, percebeu que tal convite nada mais foi do que um presente gracioso, sinal do amor de Deus por ele.

Foi, portanto, concedido a Paulo este privilégio como poderia ter sido concedido a qualquer outra pessoa. O ponto, portanto, não é Paulo, mas a graça. Uma graça poderosa e soberana que age (e sempre agirá) onde quer que intente Deus trazer transformação e restauração. Esta graça é poderosa para trazer as maiores transformações que o ser humano pode imaginar. Sem ela, ele está perdido. Com ela, nunca cessam as surpresas das maravilhas que o Senhor concederá para os que estão nele.

 

No texto seguinte, Paulo continuará a tratar da graça envolvida na revelação deste mistério mas, antes de seguir, gostaria de chamar sua atenção para o que tudo isso transmite a nós, leitores do século XXI, milênios depois de Paulo.

Quem pode imaginar os planos de Deus para si? Que igreja pode imaginar os planos de Deus para ela? Por mais que nos esforcemos, jamais compreenderemos os planos de Deus para os seus, seja na igreja, seja na família, seja em sua vida pessoal, presente e futuro. 

Com estas palavras de Paulo, o que fica muito claro é que o Senhor sempre surpreende o seu povo. Por mais que suas bênçãos nos deixem felizes, ele sempre tem mais, sempre algo “escondido” esperando pelo tempo certo em que tal bênção há de ser trazida à luz. Quando revelada, explode o coração e a alma de qualquer um que esteja debaixo de sua bondade. Não somos capazes de imaginar nem mesmo de pedir por aquilo que nos seja melhor. Deus sempre terá algo infinitamente melhor preparado para nós.

Nem sempre entenderemos este melhor. Outro problema nosso é que, quase sempre não teremos paciência para esperar pelo melhor. O que queremos, queremos agora. Ou, para amanhã. Mas que não demore muito. Isso cria ansiedade dentro de nós. E esta ansiedade só nos distancia. 

O que deveríamos fazer então? Deveríamos ouvir estas palavras reveladas e inspiradas de Paulo e agarrarmos cada uma delas com toda a força de nossa alma e atravessarmos o momento de aparente silêncio de Deus confiando nesta certeza de que ele sempre surpreendeu o seu povo.

Agarre bem firme tais verdades, abrace-as com força e fé, sem a qual é impossível agradar a Deus. Permaneça fiel, certo de que Ele sempre tem o melhor para os seus. 

 

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1 Kenneth S. Wuest, Wuest’s word studies from the Greek New Testament: for the English reader (Grand Rapids: Eerdmans, 1997), Ef 3.2.