BATALHA ESPIRITUAL: Como é e como nos preparar? (Comentário de Ef 6.10-17)

O cenário das batalhas era comum no imaginário popular da época de Paulo. Quando se imaginava uma batalha, logo se pensava em todas as figuras mencionadas neste texto. Não apenas o vestuário, mas também as armas usadas, tanto de defesa quanto de ataque.

Valendo-se dessas figuras, Paulo traz as figuras de uma batalha para o campo espiritual, mostrando que há uma batalha espiritual acontecendo sobre a vida de todo o povo de Deus. Embora exista muita confusão no tempo em que vivemos com esse tema, e muita gente o compreenda de forma errada, Paulo, neste texto, deixa claro o que verdadeiramente é uma batalha espiritual, dentro da qual todos nós vivemos.

Quanto ao mais, sede fortalecidos no Senhor e na força do seu poder. Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra as ciladas do diabo; porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes.

Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, depois de terdes vencido tudo, permanecer inabaláveis.

Estai, pois, firmes, cingindo-vos com a verdade e vestindo-vos da couraça da justiça. Calçai os pés com a preparação do evangelho da paz; embraçando sempre o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do Maligno.

Tomai também o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus;

Ef 6.10-17

10 Quanto ao mais, sede fortalecidos no Senhor e na força do seu poder.

Em princípio, a ordem é para que nos fortaleçamos. Mas não é uma força qualquer, é na força do seu poder, ou seja, o poder de Deus. Para o assunto que Paulo está para tratar, apenas a força que vem do Senhor é capaz de nos proteger.

E não podemos perder de foco tudo o que foi escrito até aqui, pois o que Paulo está para escrever está intimamente ligado aos versos anteriores, nos quais Paulo tratou sobre a família e todo o ambiente familiar.

11 Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra as ciladas do diabo; 12 porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes.

Antes de falar sobre a armadura de Deus, Paulo dá as razões e alguns alertas sobre nossa proteção e luta espiritual. A palavra revesti-vos nos faz pensar em que precisamos nos despir de algo. Bem, se vamos nos revestir da armadura para sermos protegidos espiritualmente pelo Senhor, devemos nos despir de tudo que possa ser nossa própria armadura, nossas próprias desculpas e armas de proteção.

Todos as possuímos e quando estamos em situações de tensão diante de alguém, as usamos sem dó nem piedade. Devemos abandonar nossas armas de ataque e de defesa e nos vestirmos apenas com a armadura de Deus, a qual é bem diferente da nossa própria armadura.

Para poderdes ficar firmes contra as ciladas do diabo, ou seja, contra todas as batalhas espirituais, somente as armas que o Senhor nos der funcionarão. O diabo é quem arma ciladas, armadilhas. Nós somos os que caem nelas. Você e eu precisamos estar atentos a isso.

Nossa luta não é contra o sangue e a carne, mas contra demônios. Logo, dentro do contexto deste texto, o contexto familiar, todas as vezes que ciladas do diabo forem armadas, é necessário que você se recorde que a luta dentro de seu lar não é contra sua esposa ou marido, filhos ou pais, mas contra espíritos imundos que, o tempo todo, estão tentando destruir o seu lar.

Neste mundo tenebroso, as trevas (tenebras) sempre estarão a nos cercar querendo nos envolver e destruir. E somos tão lentos para vê-la que, ao menor descuido, em meio às batalhas espirituais dentro do lar, rapidamente começamos a lutar contra a carne e o sangue que moram conosco. Mas a luta da esposa não é contra o marido, e vice-versa. Nem a dos pais com os filhos e vice-versa. Mas, a luta de cada um é contra os principados e potestades, as forças espirituais do mal.

Mas não é fácil nos recordarmos disso quando estamos em meio ao calor da irritação. No meio da ira, normalmente não nos lembramos da armadura de Deus e de contra quem estamos guerreando. Por fraqueza e imaturidade, acabamos tomando nossas próprias armas de defesa e de ataque, e partimos para a briga sem nos lembrarmos de quem nos jogou naquela cilada e de quais são seus reais propósitos finais. No final, todos da família perderão. Não restarão vencedores, apenas humanos que descuidadamente perderam a oportunidade de permanecerem firmes diante das ciladas do diabo.

13 Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, depois de terdes vencido tudo, permanecer inabaláveis.

Mais uma vez a ordem é dada: tomai toda a armadura de Deus. A razão não é somente a obediência à Palavra, mas a nossa completa fragilidade diante do mundo espiritual. Sendo nossa luta contra espíritos imundos poderosos que habitam as regiões celestiais desse mundo, que podemos fazer nós sem que os vejamos, os toquemos ou sequer saibamos como lidar com os tais.

É necessário que alguém maior do que nós, mais forte do que nós, nos defenda e conceda as armas de nossa defesa. É por isso que somos exortados a tomar toda a armadura de Deus, sem a qual não seremos capazes de resistir no dia mau. O dia mau é o dia da tentação, da batalha espiritual que virá (e vem) sobre nós e nossas famílias. Só podemos vencer e permanecer inabaláveis caso reconheçamos o Senhor como nosso Castelo Forte, nosso rochedo e Libertador. Sem ele, certamente cederemos aos desejos enganosos e pecaminosos, ou seja, às nossas próprias armas.

14 Estai, pois, firmes, cingindo-vos com a verdade e vestindo-vos da couraça da justiça. 15 Calçai os pés com a preparação do evangelho da paz; 16 embraçando sempre o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do Maligno. 17 Tomai também o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus;

Para que possamos estar firmes no dia da luta, é necessário que nos revistamos da armadura de Deus, a qual passa a ser descrita nos versos 14 a 17, finalizando essa passagem.

O primeiro item da armadura de Deus é cingir-se com a verdade, ou, o “cinto da verdade” (τὴν ὀσφὺν ὑμῶν ἐν ἀληθείᾳ — tēn osphyn hymōn en alētheia). O cinto nas armaduras antigas serviam para prender bem a roupa tanto na cintura quanto no meio do peito facilitando movimentos rápidos por parte de quem luta. O cinto era vital para a segurança e sobrevivência de um guerreiro na antiguidade. Assim, o cinto da verdade nos mostra o que é vital para nossa sobrevivência em lutas espirituais que vivenciamos dentro e fora de nossas famílias. Sem a verdade, estamos a um grande passo de nossa completa destruição.⁠1

O segundo item da armadura é a couraça da justiça (τὸν θώρακα τῆς δικαιοσύνης — ton thōraka tēs dikaiosynēs). Da palavra grega “thōraka (θώρακα)” surge a nossa palavra “tórax”. Originalmente, θώρακα significa couraça, originalmente feita de couro, de onde retiramos seu nome em português. Posteriormente, a couraça, item da armadura que protege o tórax, passou a ser confeccionada com outros materiais. Muitos reconhecem aqui o texto de Isaías:

Isaías 59.17: Vestiu-se de justiça, como de uma couraça, e pôs o capacete da salvação na cabeça; pôs sobre si a vestidura da vingança e se cobriu de zelo, como de um manto.

Outra sugestão que o texto nos traz é a de que a couraça da justiça protegerá o coração do cristão dos assaltos e investidas do diabo assim como a couraça de um soldado protege seu coração da lança de seu inimigo.

O terceiro item  (verso 15) é o calçado. Um soldado em batalha deve estar calçado devidamente a fim de não sofrer durante a luta. O que calça um cristão é o Evangelho. Assim como calçado dá segurança para quem se move diante de um inimigo, o Evangelho também nos dá segurança de quais movimentos devemos realizar quando dentro de uma intensa batalha espiritual. Também está associado a Isaías que escreveu:

Isaías 52.7: Que formosos são sobre os montes os pés do que anuncia as boas-novas, que faz ouvir a paz, que anuncia coisas boas, que faz ouvir a salvação, que diz a Sião: O teu Deus reina!

Assim, além de dar segurança para quem está na luta, simboliza aquele que é mensageiro ou portador de uma notícia importante. Os cristãos são estes que, enquanto batalham contra o inimigo, continuam a levar o Evangelho de Cristo por todo o mundo.

O próximo item da armadura é o escudo da fé. Todos sabemos como é e para que serve um escudo. Até hoje, forças militares e policiais utilizam escudos para avançar sobre seus oponentes enquanto se protegem do que é lançado sobre eles. Em tempos antigos, o escudo tinha o mesmo fim, embora os itens lançados fossem diferentes.

Segundo o texto, nosso inimigo é perito em lançar sobre nós dardos inflamados. O escudo, numa batalha, é um dos mais importantes itens na batalha. Sem ele, a luta está quase perdida. Logo, a fé é que nos protege das dúvidas que serão lançadas das formas mais geniais possíveis pelo Maligno. Ele sabe como nos fazer duvidar de Deus, duvidar de nós mesmo e duvidarmos dele. A arte da dúvida e da insegurança gera em nós o desânimo necessário para que percamos a batalha.

A própria ideia de um dardo inflamado, ou seja, uma flecha em cuja ponta há fogo, demonstra o desejo destruidor de nosso inimigo. É necessário que mantenhamos o escudo da fé sempre levantado, caso contrário, na fraqueza da dúvida seremos derrotados e mortos.

O penúltimo item é capacete da salvação. Sem salvação, nossa luta já está fadada ao fracasso. Sem salvação não há nem luta, pois a ausência do capacete denota que já somos derrotados, escravos daquele contra quem imaginamos lutar. Na verdade, o capacete da salvação é tomado no mesmo instante em que a justiça é posta sobre nós. O que devemos fazer em meio às batalhas espirituais é nos lembrar de que um dia nos vestimos com este capacete e de que ele é visto, e muito bem visto, por aquele contra quem lutamos. Nosso inimigo sabe quem somos e isso o irrita e inquieta.

O último, mas não menos importante, item da armadura de Deus é a espada do Espírito, que é a palavra de Deus. O próprio texto explica o que simboliza esta parte de nossa armadura. Em nós não pode faltar a espada, aquilo que nos protege, defende das investidas de nosso inimigo. É com ela que nos protegemos diante das aflições.

Esta espada foi dada pelo Espírito, demonstrando a inspiração que a Bíblia possui por parte do Espírito Santo de Deus. Este é o único item de ataque que a armadura possui, embora contra o inimigo de nossas almas ela será mais usada como defesa do que como ataque, assim como fez Jesus na tentação no deserto:

A seguir, foi Jesus levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo.E, depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome.Então, o tentador, aproximando-se, lhe disse: Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães.Jesus, porém, respondeu: Está escrito:

  Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus.

Então, o diabo o levou à Cidade Santa, colocou-o sobre o pináculo do templo e lhe disse: Se és Filho de Deus, atira-te abaixo, porque está escrito:

  Aos seus anjos ordenará a teu respeito que te guardem;

e:

  Eles te susterão nas suas mãos, para não tropeçares nalguma pedra.

Respondeu-lhe Jesus: Também está escrito:

  Não tentarás o Senhor, teu Deus.

Levou-o ainda o diabo a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória delese lhe disse: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares.Então, Jesus lhe ordenou: Retira-te, Satanás, porque está escrito:

  Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a ele darás culto.

Com isto, o deixou o diabo, e eis que vieram anjos e o serviram.

Mt 4.1–11

Diante da insistência do Maligno para fazer Jesus cair em tentação, o tempo todo Jesus o atacou em respostas usando a própria Palavra de Deus. Assim, todos os cristãos devem conhecer bem as Escrituras a fim de sairem vitoriosos em face as batalhas espirituais que vivenciam tanto dentro do lar quanto fora dele.

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1 Derek R. Brown, Miles Custis, e Matthew M. Whitehead, Lexham Bible Guide: Ephesians, ed. Douglas Mangum, Lexham Bible Guide (Bellingham, WA: Lexham Press, 2013), Ef 6.14.

AS 7 IGREJAS DO APOCALIPSE: Laodicéia (Comentário 3.14-22)

É possível ser igreja e deixar Jesus do lado de fora? É possível ser uma igreja e, ainda assim, existir sem sua doce presença? Impressionantemente, a resposta é sim. Não sabemos por quanto tempo, mas é possível pois foi exatamente o que aconteceu em Laodicéia. Lá, os laodicenses agiam como cristãos, mas suas obras eram completamente diferentes das que traziam agrado a Deus.

Nesta pequenina carta de Jesus aos laodicenses, vemos como uma igreja que estava deixando Jesus do lado de fora pode, ainda assim, ser chamada de igreja por nosso Senhor Jesus Cristo.

Ao anjo da igreja em Laodicéia escreve:

Estas coisas diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus:

Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente!

Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca; pois dizes Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu.

Aconselho-te que de mim compres ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres, vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez, e colírio para ungires os olhos, a fim de que vejas.

Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso e arrepende-te.

Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo.

Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como também eu venci e me sentei com meu Pai no seu trono.

Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.

Ap 3.14–22

 

14       Ao anjo da igreja em Laodicéia escreve: Estas coisas diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus:

Laodicéia vem de Λαοδικείᾳ (Laodikeia), literalmente, “justiça do povo”. Os cidadãos de Laodicéia tinham um gosto especial, segundo Dr. Vincent, pela arte grega, e eram extremamente reconhecidos na ciência e na literatura. Tratava-se de uma cidade envolvida com artes e cultura. Laodicéia, nos dias em que este livro foi escrito, hospedava uma grande escola de medicina.⁠1

Além disso, Laodicéia era conhecida pela produção de uma espécie de lã negra de altíssima qualidade, muito procurada naqueles dias. Havia tudo de bom dentro de seus domínios, menos uma coisa, a água.

A razão para isso é simples. Laodicéia ficava entre duas cidades conhecidas, Hierápolis e Colossos. Da primeira, no alto de um penhasco íngrime, havia uma fonte de água quente. Turistas do mundo todo vinham à Hierápolis para seus banhos quentes. Ainda hoje, hotéis exploram tais águas na região da antiga Hierápolis, sendo fonte de grande lucro.

De acordo com Dr. Wright, no primeiro século, foram construídos aquedutos para trazer a água quente de Hierápolis para Laodiceia, a qual ficava em um vale entre as cidades de Colossos e Hierápolis. Ainda hoje estes aquedutos podem ser vistos na região.

Durante o percurso que fazia, a água quente se esfriava até chegar em Laodicéia, cerca de quatro ou cinco quilômetros de distância. Chegando morna em Laodicéia, tornava-se imprópria para beber, e era usada apenas para fins medicinais.⁠2

Do outro lado do vale, ficava a cidade de Colossos, a qual em 61 d.C., ou seja, há cerca de 30 anos antes de Apocalipse ser escrito, havia sofrido um terrível terremoto. Nesta cidade também havia uma “fonte esplêndida de água, que desce do alto do Monte Cadmus, coberto de neve”.⁠3

Isso fazia com que as águas que saíssem de Colossos, saíssem muito frias. No entanto, ao se aproximarem de Laodicéia, também perdiam sua temperatura gelada, chegando mornas por causa do calor do vale de Laodicéia, localizada há cerca de 18 quilômetros de Colossos. Também chegavam mornas.

Assim, as águas que banhavam Laodicéia eram mornas de ambos os lados. Ainda de acordo com N.T.Wright, a própria palavra Laodicéia era proverbial naqueles dias para designar algo apático, morno, ou, até mesmo, nojento.

Quando Jesus se dirige aos cristãos de Laodicéia, apresenta-se como aquele que é verdadeiro, o Amém, a testemunha fiel e verdadeira. Não há erro ou mentira naquilo que será dito e deve ser ouvido com absoluta atenção e cuidado.⁠4

15       Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! 16       Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca;

Deus usa figuras reconhecidas pela cidade para tratar de sua nojeira espiritual. Aquele que é a verdade e que não é capaz de narrar mentiras utiliza de figuras e imagens compreensíveis à audiência para tratar de sua situação espiritual.

Jesus diz conhecer as obras de cada um deles e as descreve como nem fria, nem quente. Ou seja, assim como as águas que desciam de Hierápolis e Colossos eram um problema para a saúde física da cidade, a vida espiritual dos cristãos de Laodicéia também era um problema.

Ao dizer assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca, Jesus está demonstrando sua revolta com o sabor do cristianismo de Laodicéia. Assim como uma pessoa podia se adoecer bebendo da água de Laodicéia, Jesus notava como imprópria a vida espiritual dos laodicenses, como algo que poderia lhe trazer doença caso insistisse em usufruir.

17       pois dizes Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu. 18       Aconselho-te que de mim compres ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres, vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez, e colírio para ungires os olhos, a fim de que vejas.     

Jesus descreve a situação financeira da igreja, aparentemente muito boa. A impressão que se tem com tais palavras é que não havia problema financeiro em Laodicéia. Jesus, mais uma vez, utiliza de figuras conhecidas pelos habitantes de Laodicéia, no entanto, chamando para si a capacidade de cobrir a real vergonha dos laodicenses, a qual não estava em seu corpo, mas em sua alma.

A despeito de toda lã produzida em Laodicéia, é de Jesus que os laodicenses deveriam comprar a real veste para se cobrir. E também apesar do ouro que tinham, de Cristo viria o melhor tesouro, sendo ele mesmo o grande e único tesouro que os laodicenses precisavam. E não devemos deixar de olhar para a necessidade de um colírio, mesmo havendo uma escola médica na cidade, nenhum doutor seria capaz de fazê-los enxergar melhor do que Cristo.

Apesar de possuírem muito, na verdade, não possuíam nada, pois o tudo que possuíam nada tinha a ver com Cristo, e somente em Jesus todo tesouro e satisfação podem ser encontrados.

19       Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso e arrepende-te. 20       Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo.

Jesus reconhece que havia uma igreja ali, embora fosse tão desobediente e falha. O fato de dizer que disciplina a quantos amo, demonstra que havia amor e compaixão de sua parte para com os laodicenses. Embora tão imperfeitos em sua espiritualidade, ainda eram igreja, digna da atenção do próprio Cristo.

O amor é quem convida ao arrependimento. E convida por estar do lado de fora da igreja. Não são incrédulos que deveriam convidar Jesus a entrar, mas os próprios cristãos. Suas palavras Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo, revelam alguém que deseja entrar, ter comunhão, estar no meio, ser íntimo, mas que permanecia do lado de fora.

O caminho para abrir a porta é o arrependimento. O arrependimento é que o leva à ceia, à comunhão.

21       Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como também eu venci e me sentei com meu Pai no seu trono. 22       Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.    

Mais uma vez, o encerramento de suas palavras revelam alguém disposto a dar de si mesmo, do que possui, àqueles que o amarem e deixarem tudo para tê-lo. Seu próprio trono será compartilhado com aqueles que se arrependerem e o amarem.

__________________

 

1 Marvin Richardson Vincent, Word studies in the New Testament, vol. 2 (New York: Charles Scribner’s Sons, 1887), 469.

2 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 37.

3 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 37.

4 Johannes P. Louw e Eugene Albert Nida, Greek-English lexicon of the New Testament: based on semantic domains (New York: United Bible Societies, 1996), 672.

A IGREJA DE JESUS CRISTO (Parte 2)

Esta é a segunda parte de meu comentário da Epístola de Paulo aos Efésios. Feita para ser estudada nas comunidades da Igreja Batista Liberdade em Araraquara-SP, receberá ainda as partes 3 a 6, fechando o estudo de toda a epístola. O estudo de todo o capítulo 1 pode ser lido aqui: http://www.wilsonporte.org/site/a-igreja-de-jesus-cristo-parte-1/ ou aqui: http://issuu.com/webmais/docs/efesios_1parte

Espero em Deus que possa ser útil para a edificação de quem ler.

in dextera tua,

Wilson

 

UNIDADE NA DIVERSIDADE: A beleza do Corpo de Cristo

Além de ser um milagre, a Igreja de Jesus Cristo é uma prova de que há amor na Santíssima Trindade. Tudo o que Paulo irá apresentar no texto abaixo aponta para esta ação misericordiosa e compassiva de Deus sobre um povo pelo qual Cristo morreu. Povo que Deus não apenas escolheu, chamou, perdoou, batizou com Seu Espírito, mas povo que também foi habitado por Deus.

Por amor, Deus uniu pessoas quebradas e destruídas. Vidas desgarradas que foram chamadas pelo Bom Pastor para serem ovelhas de um só rebanho. Deus fez tudo o que era necessário para que esse povo fosse unido. Agora, Deus usa o apóstolo Paulo para exortá-lo a não destruírem essa comunhão. Vejamos suas palavras:

esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz; há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos.

Ef 4.3–6

Paulo toca no esforço humano, tema raro em suas epístolas. Isso deixa claro que há responsabilidades que cabem aos homens dentro do plano redentor em todo o seu transcorrer. Aqui, especialmente, esta responsabilidade está ligada à unidade no seio da Igreja de Jesus. 

esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz;

A palavra usada para “esforçando-vos” é σπουδάζοντες (spoudázontes), cuja tradução é “ser zeloso”, “fazer algo com intensa motivação”. Este esforço do qual Paulo fala é algo que depende somente de nós. A igreja é a destinatária desta ordem. Sim, trata-se de um ordem que todos devem ouvir. Assim, precisamos de duas palavras para traduzir σπουδάζοντες — esforço e diligência, “esforçai-vos diligentemente” —, ou seja, façam o que têm de fazer com toda atenção e cuidado.

O esforço é direcionado à preservação de algo muito caro à Santíssima Trindade, a Unidade no Corpo de Cristo. Desde muito cedo, antes mesmo da Igreja de Jesus Cristo existir, ele já orava por ela, pedindo exatamente por sua união.

Pai santo, guarda-os em teu nome, que me deste, para que eles sejam um, assim como nós… Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra; a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste.

Jo 17.11, 20–21

Jesus orou pela unidade da Igreja desde antes de sua paixão e morte. Ele sabia que a estrutura dessa igreja seria frágil. Seres humanos são frágeis e susceptíveis à queda. Por isso, precisam de oração e de atenção. 

Paulo segue informando que este esforço seria para proteger ou preservar com muito carinho a unidade do Espírito. A palavra preservar nos mostra o quão vulnerável e susceptível de invasão e destruição é a Igreja. Ela é um organismo frágil que pode ser invadida e destruída — pelo menos localmente — com muita facilidade. É por isso que todos que estão nela devem esforçar-se para mantê-la unida. Todo esforço contra a união é parceria com as trevas. Alguém que coopera para a desunião da igreja é alguém que está agindo segundo o grande inimigo do Corpo de Cristo. Jamais alguém que ama a Cristo agiria de um modo a ferir ou dividir seu Corpo. É por isso que todos dentro dela devem se esforçar ao máximo para protegê-la.

Unidade não significa uniformidade. Paulo não está exortando os efésios a serem uniformizados, ou conformados, a todos os demais cristãos em todo o mundo. A Igreja é um Corpo rico em diversidade. Paulo, então, não os exorta a lutar pela uniformidade de práticas, liturgias, tons, temperamentos, etc. Paulo os exorta à unidade. A expressão “unidade do Espírito” tem a ver com esta união entre aqueles que possuem o Espírito de Cristo, aqueles sobre os quais o Espírito Santo habita.

Toda a responsabilidade pela unidade na Igreja é dos que creem. Assim, se você que me lê é parte do Corpo de Cristo, você é responsável por essa unidade. É dos cristãos a responsabilidade pela saúde e vitalidade do Corpo de Cristo. Somos nós quem cuidamos da saúde deste corpo. Por estas palavras de Paulo, Deus nos exorta a sermos totalmente submissos à esta ordem a fim de mantermos a paz na Família de Deus.⁠1

4       há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação;

Esta declaração deixa muito claro que não se concebe a ideia de divisão no Corpo de Cristo. Toda ideia sectária é absurda e errada. Ainda que existam várias denominações ou tradições cristãs, o cristianismo, ou, a Igreja de Jesus Cristo, é única. É a única Igreja de Cristo que entrará na presença do Senhor por toda a eternidade.

O verso 4 começa afirmando que há um Corpo. A Igreja não é uma possibilidade, mas uma realidade. A Igreja não é um sonho de Deus, mas uma ação já concretizada por Deus. Obviamente, este Corpo não é o que ele será um dia. Mas, sem dúvida alguma, ele não é o que um dia foi. Todos os que estão nele foram regenerados e transformados. Já não são mais como eram. E, juntos, caminham debaixo da orientação da Cabeça que é Cristo, o Senhor.

Assim, o Corpo já é. Ele já existe. E, neste Corpo, habita um Espírito, não dois. Não há um Espírito Santo em cada Igreja local. Ele habita todo o Corpo, não individualmente cada um. Ele é sobre todos, com todos e por todos. Ele sustenta a Igreja em todo o mundo. Ele a lembra das palavras de Cristo. É Ele quem convence novos cristãos de seus pecados, da justiça de Deus e do Juízo. É Ele quem a todos sela, regenera e santifica. Toda a obra na igreja é ação do Espírito Santo do Senhor. Sem o Espírito Santo seria impossível sermos Igreja. Se Ele não habitasse o Seu povo, jamais conseguiríamos alcançar a união. É pela ajuda e suporte do Espírito que somos capazes de alcançarmos a unidade.

Daqui até o final desta perícope, Paulo mostrará de modo simples e rápido o papel e exercício da Santíssima Trindade sobre o Corpo de Cristo:

“Um só Espírito”, verso 4.

“Um só Senhor”, verso 5.

“Um só Deus e Pai”, verso 6.

A fórmula trinitária é uma expressão do que Paulo cria. Aqui, Paulo deixa claro que crê na Trindade e que acredita que Ela está presente na Igreja. Em algum sentido não muito claro a nós, Pai-Filho-Espírito estão com a Sua Igreja o tempo todo capacitando-a a serem um Corpo unido. Deste modo, todo esforço contra a unidade é uma afronta à Trindade. Por outro lado, todo esforço pela unidade agrada e glorifica a Deus.

O verso 4 termina nos lembrando do nosso chamado. É sempre bom lembrarmos que quem nos chamou foi o próprio Espírito do Senhor. De acordo com Jesus,

Quando ele vier convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo: do pecado porque não crêem em mim; da justiça, porque vou para o Pai, e não me vereis mais; do juízo, porque o príncipe deste mundo já está julgado.

Jo 16.8–11

Se um dia fomos convencidos de nossa culpa e pecado, foi graças à ação graciosa e misericordiosa do Senhor nos mostrando e convencendo. Sem a ação externa do Espírito, nenhum de nós poderia jamais ter se convencido sozinho, pois como também nos revela a Sagrada Escritura, estávamos todos “mortos em nossos delitos” (Ef 2.5). Graças à ação do Espírito tocando e convencendo estes mortos é que fomos capazes de enxergar nossos pecados com tristeza e não mais com desdém ou algo de menor importância. Esta é a “esperança de nosso chamado” ou “esperança da nossa vocação”. Vocação aqui tem a ver com este chamado inicial que o Espírito exerceu sobre nós.

5       há um só Senhor, uma só fé, um só batismo;

Não há dois senhores, um do Antigo e outro do Novo Testamento. O Senhor do Antigo é o Senhor do Novo Testamento. Aquele que se apresenta como o Senhor da Nova Aliança é o mesmo que se apresentou a Moisés no Monte Sinai como o único Deus e Senhor de todos. 

É deste Senhor que nos vem a fé e o batismo. A fé conforme explicada pelo autor da Epístola aos Hebreus:

Portanto, também nós, visto que temos a rodear-nos tão grande nuvem de testemunhas, desembaraçando-nos de todo peso e do pecado que tenazmente nos assedia, corramos, com perseverança, a carreira que nos está proposta, olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus.

Hb 12.1–2

Veja que este Senhor sobre quem Paulo fala aos Efésios é o mesmo Senhor da Epístola aos Hebreus. E é Ele o autor e consumados da nossa fé. Ela vem dele. Ela não nasce em nossos corações sem a intervenção direta dele. Há sim uma fé que vem de nosso próprio coração. Todavia, esta é inútil para a salvação. A fé que está ligada à salvação eterna é aquela que vem de Cristo, o qual não é apresentado apenas como o autor de nossa fé, mas também aquele que consuma esta fé dentro de nós.

Sendo Ele o autor desta fé, não pode haver dois tipos de fé, ou modos e sentimentos diferentes relacionados à fé. Sendo um só o autor da fé, ela será idêntica a todos que a possuírem. Isso cria uma unidade e identidade neste Corpo, não importando onde ou quando os membros do mesmo vivam. Sempre haverá uma identidade entre aqueles que possuem a fé, eles sempre se reconhecerão. E o Senhor faz isso para a Sua Igreja com o objetivo de vê-la unida. 

Veja, assim, que da parte do Senhor existe todo um esforço em prol da unidade deste Corpo, restando a nós apenas nos esforçarmos por proteger e preservar tal unidade. Toda desunião é ofensa à pessoa bendita de nosso Senhor Jesus Cristo.

Fé aqui também tem a ver com o conjunto daquilo que cremos. Não apenas a atitude daquele que crê, mas o próprio conteúdo daquilo que se crê. É aqui que nascem as Confissões de “Fé”. Além do sentido de fé ser aquela disposição interna de crer em Cristo e em sua obra, fé também traz a ideia de um conjunto de doutrinas nas quais os cristãos creem. Paulo fala sobre isso aos Filipenses:

Filipenses 1.27: Vivei, acima de tudo, por modo digno do evangelho de Cristo, para que, ou indo ver-vos ou estando ausente, ouça, no tocante a vós outros, que estais firmes em um só espírito, como uma só alma, lutando juntos pela fé evangélica.

Esta “fé evangélica” diz respeito àquilo em que os que creem acreditam. Não há duas formas de se crer no Evangelho e nas doutrinas essenciais do cristianismo, mas uma só. Há, sem dúvida, doutrinas não essenciais (como detalhes da escatologia relacionados à segunda vinda de Cristo) sobre as quais a Bíblia não é clara. Neste aspecto, somos livres para discordar e termos posicionamentos diferentes. No entanto, naquilo que é central à fé cristã, não há como divergirmos.

Em seguida, Paulo fala sobre o batismo. Aqui, ele pode estar falando tanto do batismo do Espírito quanto do batismo nas águas. Como ele já havia mencionado a pessoa do Espírito anteriormente, é possível que ele esteja falando de água aqui. Possivelmente, no verso 4 Paulo fale da ação interna do Espírito, ou seja, do batismo do Espírito que acontece, segundo o que Paulo escreve nesta mesma epístola, no exato momento em que a pessoa ouve a Palavra da Verdade e crê no Evangelho da Salvação (Ef 1.13).⁠2 E aqui no verso 5 ele esteja a tratar da ação externa relacionada com o batismo nas águas no qual a morte para mundo, a crucificação do eu, do velho homem, é simbolizada pela imersão após a qual a pessoa simbolicamente ressuscita para uma nova vida em Cristo (Rm 6.4; Cl 2.12).

Romanos 6.4: Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida.

Colossenses 2.12: tendo sido sepultados, juntamente com ele, no batismo, no qual igualmente fostes ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos.

6 um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos.

Paulo conclui esta porção mostrando o papel do Pai nesta presente habitação do Espírito sobre Sua Igreja. É por Ele que todos somos protegidos e guardados. Através da obra do Filho e do Espírito, o Pai está sobre todos nós. Isto demonstra proteção, cuidado e zelo.

Ele não apenas está sobre nós, mas Ele atua em nós. É neste sentido que Ele age por meio de todos. Nossa ações santas, de domínio próprio, de compaixão e misericórdia, nossas melhores ações de justiça e de socorro aos que sofrem são graças à ação dEle em nós. Não fosse a capacidade que Ele nos dá como nosso Criador e Sustentador jamais seríamos capazes de viver e fazer o bem.

Por fim, o texto sagrado diz que Ele está em todos nós. Obviamente, mais uma vez, Ele o faz através da obra do Espírito Santo em nós. Ele não apenas nos cerca, mas nos invade. Ele não apenas nos protege e abraça, mas nos possui de um modo gracioso e prazeroso.

Tudo isso apenas demonstra o quão paciente e amoroso Ele é, revelando a grandiosidade de sua graça. Graça que nos humilha ao não exigir nada de nós além de a aceitarmos com gratidão e amor. Ele fala e nós o abraçamos. Ele nos ama e nós, constrangidos, o amamos de volta. É assim que, na Nova Aliança, Deus entra em um Pacto com Seu povo, Sua Igreja, estabelecendo como estipulações deste pacto ou aliança que a parte dele seria nos dar tudo e a nossa parte seria recebermos tudo, em quebrantamento e arrependimento. 

Diante de tudo o que Ele fez por nós para que fôssemos um com Ele, aqui Ele nos exorta a nos esforcemos para que nada destrua este vínculo, esta união. Que jamais sejamos acusados de estarmos provocando a desunião desta Igreja que Ele comprou com o preço de Seu sangue sobre a cruz.

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1 Robert James Utley, Paul Bound, the Gospel Unbound: Letters from Prison (Colossians, Ephesians and Philemon, then later, Philippians), vol. Volume 8, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 1997), 109.

2 Robert James Utley, Paul Bound, the Gospel Unbound: Letters from Prison (Colossians, Ephesians and Philemon, then later, Philippians), vol. Volume 8, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 1997), 110.

UM MILAGRE CHAMADO IGREJA

A Igreja de Deus é um milagre em todos os sentidos. Ela nunca daria certo não fosse propósito de Deus. Ela não sobreviveria mais do que 30 anos, não fosse criação do próprio Deus.

Numa época em que os homens têm feito tantas atrocidades com esta noiva, desfigurando-a por completo daquilo que ela um dia foi, se faz mais do que necessário que voltemos às antigas verdades e aos antigos conselho. É sobre isso que o apóstolo Paulo escreve neste trecho.

No início de um novo capítulo, Paulo inicia um novo tema, voltado à unidade deste Corpo, da Igreja de Jesus Cristo.

 

Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados, com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor

Ef 4.1–2

 

Mais uma vez, caminhemos através do texto. 

 

Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, 

 

As palavras de Paulo começam com uma súplica. Mas não uma súplica qualquer. Trata-se de um pedido feito por alguém que tem autoridade. Um pedido que os prudentes não deixam de atender. Um pedido que possui um tom de ordem. Assim é entendida a palavra escolhida por Paulo aqui, Παρακαλῶ. Se alguém possuía tal autoridade, esse alguém era o próprio apóstolo Paulo.

Aqui, ele se apresenta como o prisioneiro no Senhor. É a segunda vez que Paulo fala de si mesmo como um prisioneiro nesta carta. A primeira está em Ef 3.1:

 

Por esta causa eu, Paulo, sou o prisioneiro de Cristo Jesus, por amor de vós, gentios,

 

Contudo, há uma pequena diferença entre este texto com o que, agora, está em estudo. Em Ef 3.1, Paulo se menciona como um prisioneiro de Cristo. Em Ef 4.1, Paulo se menciona como um prisioneiro no Senhor. Na primeira vez que fala de si, Paulo se apresenta como uma propriedade de Cristo. Ele se apresenta como alguém que pertence à Jesus. Já na segunda vez em que se apresenta como um prisioneiro, Paulo apresenta-se não mais como uma propriedade, mas como alguém que está preso dentro de seu Senhor. 

Cristo não apenas é o dono deste prisioneiro, como também é a própria prisão. É neste sentido que Paulo está preso em Cristo. Significa que ele está dentro de Cristo. Obviamente, isso só faz sentido se observarmos que Cristo é aquele dentro de quem estamos enquanto somos guiados através do deserto deste mundo para a nossa Terra Prometida, A Jerusalém Celestial, a Nova Jerusalém, nos Novos Céus e Nova Terra.

Assim, Paulo reforça mais ainda a autoridade daquilo que falará. Ele não fala de si mesmo, mas fala estando dentro de Cristo. Sai de sua pena, mas pertence a Cristo, visto que tudo que ele agora é, é de Cristo.

Vejamos, então, o que Paulo com toda a autoridade possível, roga em um sentido de profunda autoridade aos seus leitores.

 

que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados,

 

Ainda no verso 1, Paulo apresenta sua súplica. Os efésios deveriam andar de um modo digno. O que significa isso? E, o que isso tem a ver com você e comigo?

Digno aqui é ἀξίως, algo que corresponde ao que é esperado de alguém. Algo que está “encaixado” ou “emoldurado” por outro algo — ou alguém — de modo que aquilo que o cerca é exatamente aquilo que o define.⁠1 Quem nos define é o Senhor e é pelos passos e vida dele que devemos ser moldados.

Já a expressão toda, “que andeis de modo digno”, nos recorda de que nossa vida deve ser um estandarte da glória e majestade daquele que nos amou e nos adotou em sua infinita graça. Todos devemos nos amoldar ao Evangelho e sua mensagem. Todos devemos ser transformados à imagem do Filho de Deus. Foi para isso que Deus nos predestinou:

 

Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou.

Rm 8.28–30⁠2

 

Note a parte que sublinhei. Qual o fim de nossa predestinação? Resposta: sermos conformados à imagem de seu Filho. Isso significa que, em amor, a Santíssima Trindade desde a eternidade já havia nos destinado a entrarmos em uma forma que possui o mesmo e santidade do Deus-Filho, o “primogênito entre muitos irmãos”. Após ele, Deus deu a todos nós o privilégio de sermos transformados à imagem de Jesus.

É a ele quem imitamos. Nosso andar deve seguir o exemplo e os passos de Jesus. É isso que significa andarmos de um modo digno. Não é à toa que fomos chamados de cristãos ao longo da história. Se é assim que você se chama, é assim que você deve viver. Nós fomos chamados para sermos cidadãos do Reino de Deus. Vivamos como cidadãos do Rei dos reis.⁠3

O verso ainda indica que devemos andar de modo digno “da vocação a que fostes chamados”. Isso traz de volta mais uma vez o tema da eleição. Se é Deus quem nos chama para andarmos de um modo digno em sua presença, mais uma vez, é de Deus o mérito e a graça do chamado. Não estávamos vivos quando fomos chamados, mas mortos. Foi nesta condição que Ele nos apresentou a graça de Seu Filho. Ao aceitá-la como suficiente, sinceramente arrependidos de nossos pecados, fomos aceitos na família divina. É por sua graça que Ele nos chama. Devemos andar de um modo digno pois esta é única forma de respondermos com gratidão ao chamado que um dia recebemos.

 

com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, 

 

A partir destas palavras, Paulo irá apresentar algumas formas de andarmos de um modo digno de cristãos. Obviamente, esta pequena lista de Paulo não é exaustiva. Muita coisa está fora daqui. Todavia, se bem observada, sem dúvida nenhuma, gerará grande impacto na vida e através da vida do povo de Deus.

Todos os dons que possuímos foram dados por Cristo à sua Igreja após sua morte, ressurreição e ascensão.⁠4 Em outro lugar, Paulo afirmou que o grande ministério dado à Igreja de Jesus Cristo após sua ascensão foi o da reconciliação:

 

Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus. Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele fôssemos feitos justiça de Deus.

2Co 5.18–21

 

Estas palavras nos recordam do ministério primordial que recebemos do Senhor. Tendo-o em mente, vejamos o que Paulo afirma aos efésios.

Quando Paulo fala sobre humildade e mansidão, obviamente não está falando de fraquezas humanas. Embora muitos as reconheçam em nosso tempo como tais, as mesmas são aqui apresentadas como virtudes dignas. É a humildade quem gera a mansidão. Observe sempre que é a falta de humildade que gera irritação em alguém e a falsa sensação de que tudo depende da tal pessoa. É como se o mundo não pudesse ser um lugar melhor sem aquela pessoa. Por isso que humildade e mansidão vêm juntas aqui, diferentemente da virtude seguinte, a longanimidade, quem vem sozinha.

De acordo com Warren W. Wiersbe, mansidão é poder sob controle.⁠5 Moisés era uma homem manso, embora fosse tremendamente poderoso:

 

Era o varão Moisés mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra.

Nm 12.3

 

Em Mt 11.29, Jesus afirma:

 

porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma.

Mt 11.29

 

O fato de Jesus Cristo ser manso, igualmente não fez dele alguém fraco, ou covarde. Ao contrário. Jesus era um homem absolutamente poderoso, mas este poder estava sob controle. Esta é a ideia de mansidão, um poder sob controle. Utley chama a mansidão de uma “força domesticada”, como a de um animal treinado.⁠6 Assim como um proprietário de um animal o treina para se conter, Deus também irá nos tratar até nossos impulsos estejam completamente controlados e submissos à sua soberana vontade. Animais selvagens podem estar em contato com seres humanos, desde que domados. Sem o seu completo domínio, não há relacionamento entre homem e fera. Curiosamente, Deus nunca destrói nossas energias e impulsos, mas procura domá-las, dominá-las e, por fim, usá-las para Sua glória e propósitos. Veja outros lugares onde esta virtude é destacada:

 

Efésios 4.2: com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor.

 

Gálatas 5.23: mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei.

 

Gálatas 6.1: Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura; e guarda-te para que não sejas também tentado.

 

Colossenses 3.12: Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de ternos afetos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de longanimidade.

 

1Timóteo 6.11: Tu, porém, ó homem de Deus, foge destas coisas; antes, segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a constância, a mansidão.

 

2Timóteo 2.25: disciplinando com mansidão os que se opõem, na expectativa de que Deus lhes conceda não só o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade.

 

Veja você o quanto o apóstolo Paulo gosta de citar tal expressão em suas epístolas. Há um senso de clareza para ele do quanto o Espírito nos domina e nos amansa para nos usarmos segundo seus propósitos.

Após falar da humildade que gera mansidão, Paulo fala da longanimidade. Alguém longânimo é alguém com uma paciência quase indestrutível, alguém com um ânimo muito longo, alguém muito paciente.

Paciência é outro tema precioso para o apóstolo:

 

Gálatas 5.22: Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade,

 

Colossenses 1.11: sendo fortalecidos com todo o poder, segundo a força da sua glória, em toda a perseverança e longanimidade; com alegria,

 

Colossenses 3.12: Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de ternos afetos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de longanimidade.

 

1Timóteo 1.16: Mas, por esta mesma razão, me foi concedida misericórdia, para que, em mim, o principal, evidenciasse Jesus Cristo a sua completa longanimidade, e servisse eu de modelo a quantos hão de crer nele para a vida eterna.

 

2Timóteo 4.2: prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina.

 

Diante de tudo isso que lemos, fica claro que a paciência é outra característica dos cristãos. Os cristãos são pacientes uns com outros por causa do fruto do Espírito, a paciência (e a longanimidade) de Deus que está dentro deles. Como já vimos em textos acima, tanto a mansidão quanto a longanimidade são frutos do Espírito Santo na vida do Seu povo.

É segundo o poder de Deus que opera dentro de nós que somos capazes de ser domados pelo Espírito, o mesmo que também nos conforma à imagem do Filho, a fim de que, pela graça, possamos ser paulatinamente transformados. É pela presença do Espírito em nós que o impossível se torna possível. E é pela transformação de nosso temperamento e caráter que somos visivelmente reconhecidos como legítimos membros da Igreja de Jesus Cristo neste mundo.⁠7 

 

suportando-vos uns aos outros em amor

 

Para Deus, nossas atitudes neste mundo são muitíssimo importantes. Nossas atitudes testemunhadas por nossa caminhada são uma espécie de assinatura de que o Espírito Santo está em nós. Não é possível que alguém se diga cristão sem que sua vida testemunhe dos frutos da presença do Espírito.

Além dos frutos já mencionados, este é especialmente importante. Naquele tempo, os escravos faziam parte da sociedade em todo o Império Romano. Apenas os escravos deveriam ter atitude de humildade  e mansidão. Os fortes, aos olhos do mundo, eram orgulhosos de si e impacientes, sempre descontentes ou irados com algo. Alguém constantemente agitado ou ativo era visto com bons olhos pela sociedade.

Além disso, os escravos eram aqueles que deveriam suportar outras pessoas numa típica atitude de servidão. Suportar não tinha a ver com ter paciência com alguém. Antes, tem a ver com dar o suporte que este alguém precisa para prosseguir.

Ao retratar estas atitudes como cristãs, Paulo deixa claro que somos escravos. Temos um Senhor, mas este não é mais aquele que tínhamos antes da conversão. Debaixo do senhorio de nosso Senhor Jesus Cristo, o servimos e nos dispomos a servir a todo aquele que ele nos mandar.

Os santos devem ser completamente humildes e mansos em seu caminhar diário. Isso não os fazia parecidos com as pessoas de seu tempo. Ontem como hoje, o chamado é para que sejamos diferentes, tenhamos um outro molde. Cristo é o nosso supremo modelo de humildade (Fp 2.7-11).

Assim, após falar sobre como cada um deles deveria caminhar e viver, Paulo declara o modo como outros os tratariam em suas lutas e dificuldades pessoais (e, obviamente, como eles deveriam tratar outros quando aqueles passassem por tribulações). 

A exortação é que todos se suportem, mutuamente. A mandamento é recíproco, todos deveriam estar prontos para dar o suporte que os demais carecessem. Isso é o remédio contra a desunião. Cientes de que ninguém deveria viver para si, nem morrer para si (Rm 14.7), todos deveriam batalhar pela unidade da família cristã. Quem desiste dela, peca.

Não é difícil entender isso. Se ligarmos todas as atitudes que se esperam de nós à pessoa bendita de nosso Senhor Jesus Cristo, nos lembraremos fácil e rapidamente de como ele também lutou pela unidade desse corpo. O “corpo” queria unidade? Seu povo é marcado por esta característica, a de amar e lutar pela unidade? É obvio que não. E, mesmo assim, ele foi capaz de dar a própria vida para que fôssemos um corpo. Esta é apenas uma das razões pelas quais os cristãos também deveriam estar dispostos a dar suas vidas pela união deste corpo. Abandoná-lo é pecar contra a própria obra de Cristo e um forma de desprezar do sofrimento de Cristo, como que dizendo que tudo aquilo não serviu para nada.

Ao nos ensinar que devemos dar o suporte uns aos outros, aprendemos que devemos ser amavelmente tolerantes com aqueles que são especialmente diferentes de nós.⁠8 Não somos chamados a tolerar e dar suporte apenas àqueles que são iguais a nós e que não possuem problemas em suas vidas. Somos chamados a perseverarmos na comunhão com todos os santos.

Se assim vivermos, observando estes conselhos e norteando nossas vidas por essas verdades, com certeza seremos membros saudáveis deste Corpo que nasceu com a morte de Cristo e que viverá por toda a eternidade pela misericórdia de Deus. 

 

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1 Johannes P. Louw e Eugene Albert Nida, Greek-English lexicon of the New Testament: based on semantic domains (New York: United Bible Societies, 1996), 627.

2 O destaque e sublinhado, obviamente, são meus.

3 Matthew Henry, Matthew Henry’s commentary on the whole Bible: complete and unabridged in one volume (Peabody: Hendrickson, 1994), 2312.

4 Matthew Henry, Matthew Henry’s commentary on the whole Bible: complete and unabridged in one volume (Peabody: Hendrickson, 1994), 2313.

5 Warren W. Wiersbe, The Bible exposition commentary, vol. 2 (Wheaton, IL: Victor Books, 1996), 35.

6 Robert James Utley, Paul Bound, the Gospel Unbound: Letters from Prison (Colossians, Ephesians and Philemon, then later, Philippians), vol. Volume 8, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 1997), 108.

7 Robert Jamieson, A. R. Fausset, e David Brown, Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible (Oak Harbor, WA: Logos Research Systems, Inc., 1997), Ef 4.2–3.

8 Harold W. Hoehner, “Ephesians”, in The Bible Knowledge Commentary: An Exposition of the Scriptures, ed. J. F. Walvoord e R. B. Zuck, vol. 2 (Wheaton, IL: Victor Books, 1985), 632–633.

A INCRÍVEL MENSAGEM DO AMOR DE DEUS

É muito difícil descrever o que é o amor. É mais difícil ainda quando tentamos definir o que é o amor de Deus em relação a nós. Embora seja algo possível de se experimentar, não é algo possível de se esgotar, tal como uma fonte da qual se é possível beber sem que a mesma venha um dia a secar.

Assim é o amor de Deus. Ainda que seja impossível descrevê-lo plenamente como ele é, creio que o Espírito Santo usou Paulo nesta pequena porção para nos apresentar de um modo humanamente perfeito e incorrigível o que é o amor de Deus “por todos os seus santos”.

Paulo encerra este trecho de sua epístola com uma revelação sobre o amor de Deus que é incrível. Poucas vezes na Sagrada Escritura o conhecimento do amor de Deus é descrito com tanta profundidade e gratidão.

Aqui, Paulo é usado por Deus para nos apresentar, na medida em que podemos compreender, a grandeza impressionante do amor e da obra de Deus em nossas vidas. Vejamos:

 

a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus. Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém!

Ef 3.18–21

 

 

a fim de poderdes compreender, 

 

O entendimento sempre foi um tema especial na Palavra de Deus. A Bíblia não é para não ser compreendida. A Palavra do Senhor não diz respeito a um livro oculto que foi dado com o objetivo de não ser compreendido. É até absurda esta ideia.

Assim, também é absurda a ideia de que o Senhor deixou verdades ocultas que são essenciais para nossa salvação e conforto. Não questiono o fato de que existam verdades de difícil compreensão e que não estejam completamente reveladas — como a verdade da segunda vinda de Jesus Cristo. Todos sabemos que ela acontecerá, mas não exatamente como. A Bíblia nos fala que isso acontecerá, mas não dá detalhes precisos relacionados a dia, hora, etc. 

O mesmo não se dá com temas relacionados ao amor de Deus por nós, tema tratado por Paulo nesta porção de sua Epístola. Não somente aquilo que está relacionado ao amor de Deus, mas também tudo o que está relacionado com o conforto e consolo dos cristãos foi muito em revelado a fim de que pudéssemos descansar em momentos de crise.

A palavra escolhida por Paulo para “compreender” é a palavra καταλαμβάνω — chegar ao entendimento de algo que não era entendido ou percebido previamente.⁠1 Há um sentido também em que esta palavra significa algo que é abraçado, algo sobre o que você estende os braços e toma para si, compreendendo a dimensão de tal coisa.⁠2 

Assim, fica claro que o assunto que será tratado por Paulo não deveria ficar distante do conhecimento fácil dos efésios. Deveria ser algo sobre o que eles poderiam facilmente estender suas mãos, tocar, sentir, aprender e apreender.

 

com todos os santos, 

 

Com estas palavras, fica claro que o que deve ser compreendido não deve ficar fechado a um grupo exclusivo de pessoas. É clara a expressão “todos os santos”. Estes são aqueles que deverão alcançar a compreensão. Nenhum santo deve ficar de fora.

Isto, por si só, já confronta o que os gnósticos diziam nesta mesma época influenciando muitos cristãos. Eles diziam que havia um conhecimento secreto que deveria ser conhecido a fim de que a salvação pudesse ser obtida. No entanto, apenas um grupo pequeno tinha o privilégio de conhecer esta verdade oculta sobre si mesmos e sobre o universo. 

Com a expressão “com todos os santos”, Paulo mostra que o Evangelho não era destinado a um grupo de homens mais inteligentes que outros, ou um grupo de homens mais esforçados que outros. Todos os santos conheceriam esta verdade.

Mas, quem são “todos os santos”? Sempre que Paulo fala dos santos ele os trata de modo plural. Ser santo é ser parte de uma comunidade.⁠3 Obviamente, não uma comunidade local específica, mas uma comunidade espalhada por todo o mundo, composta de pessoas vivas e mortas, visíveis e invisíveis, que estão na terra e no céu.⁠4 E Deus trabalha o tempo todo com esta comunidade que Ele chama de seu “corpo”. Esta é a Igreja de Jesus Cristo.

 

qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus. 

 

Esta é, enfim, a verdade a ser conhecida: o amor de Cristo (ἀγάπην τοῦ Χριστοῦ). A palavra “amor” (ἀγάπην) aqui usada diz respeito a um amor por algo ou alguém baseado em uma sincera apreciação e grande entrega. Não é nunca algo egoísta, mas sempre abnegado e altruísta. Não é difícil de imaginar o amor de Jesus por nós desta maneira. É exatamente assim que ele amou a cada uma de suas ovelhas. Ele não somente as conhece pelo nome, mas sinceramente as ama. Por cada uma delas ele deu a sua vida. Há tanto amor na pessoa bendita de nosso Senhor Jesus Cristo que não é nem mesmo possível compreendermos racionalmente a magnitude desse amor.

Todavia, em algum sentido estranho a nós, Paulo afirma que abraçaremos (compreender) este amor. Nossas mãos (percepção) alcançariam a largura, o comprimento, a altura e a profundidade deste amor. 

A palavras de Paulo apontam para algo que ultrapassa nossa capacidade de compreender. Mas isso não significa que não podemos compreender. Significa apenas que vai além do que podemos. 

A expressão “e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento” (γνῶναί τε τὴν ὑπερβάλλουσαν τῆς γνώσεως ἀγάπην τοῦ Χριστοῦ, ἵνα πληρωθῆτε εἰς πᾶν τὸ πλήρωμα τοῦ θεοῦ⁠5) poderia ser também traduzida desta forma: “E conhecer o ultrapassar do conhecimento, o amor de Cristo, a fim de vós sejais tomados plenamente de toda a plenitude de Deus⁠6”. 

O que significa “o ultrapassar do conhecimento”? Resposta: o amor de Cristo. O amor de Cristo é o “ultrapassar do conhecimento”. Conhecer o amor de Cristo significa conhecer algo que ultrapassa o conhecimento. Quando conhecemos este amor, somos tomados pelo mesmo que nos dá a impressão de que estamos sendo tomados pela plenitude de Deus.

Uma tradução do texto grego acima bem próxima do literal seria exatamente esta: “conhecer o ultrapassar do conhecimento”. Nela, fica clara a impossibilidade de se alcançar em plenitude aquilo que é infinito. Ou seja, sendo a plenitude de Deus infinita, jamais pode ser totalmente abraçada por quem é finito e mortal. 

No entanto, o amor de Cristo é derramado de tal modo sobre nossos corações que nos permite compreender no máximo que podemos, no limite de nossa capacidade humana, este amor. Ele nos preenche de tal modo que temos a impressão de que o abraçamos plenamente. Todavia, abraçamos apenas aquilo que somos capazes de abraçar — bebemos somente daquilo que somos capazes de sorver. Sem dúvida, a fonte desta água possui muito mais do que eu jamais poderei beber.

Assim também é o amor de Cristo. Ele é totalmente suficiente para mim, e totalmente suficiente para você. Assim como é suficiente para satisfazer e preencher a todos os santos que o conhecem e dele experimentam. 

A expressão final desta porção afirma “para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus”, ou, como traduzi acima, “a fim de vós sejais tomados plenamente de toda a plenitude de Deus”. Esta expressão também é muito forte.

É quase inimaginável ilustrarmos tal expressão. Como é possível que sejamos “tomados plenamente de toda plenitude de Deus”? Deus não cabe em nós, diria alguém. Exatamente. Ele não cabe em nós como em lugar ou coisa alguma. Nada nem ninguém o comporta. Todavia, ele revela que de alguma maneira nos tomaria plenamente de si mesmo.

É impossível que alguém seja tomado pela pessoa bendita de nosso Deus e não sinta nada. O encontro com o amor de nossas almas sempre causa um impacto inesquecível e indelével. Deus deseja nos tomar para si, não apenas comprando-nos, mas ocupando-nos. Não apenas cercando-nos, mas invadindo-nos.

Após escrever sobre o amor de Deus e a maneira como esse amor nos invade e nos preenche, Paulo encerra com uma palavra de adoração:

 

Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém!

 

Esta é uma das mais belas doxologias⁠7 do Novo Testamento. O texto começa com as palavras que destinam a Deus todo o louvor. Só Ele é digno de louvor. Continuando, Paulo afirma o que este Deus é capaz de realizar em nós, ou seja, tudo. Ele é capaz de fazer infinitamente mais do que tudo.

Pare e medite, por um breve momento, sobre estas palavras: “poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos”. 

Há uma profundidade indescritível nestas palavras. Simplesmente não é possível imaginar o que Deus não possa fazer pelos seus. Ele os ama de um modo tão impressionante que não há nada que o Senhor possa lhes negar (obviamente, se não forem pecaminosas).

O texto continua afirmando “conforme o seu poder que opera em nós”. No grego original, Paulo fala de um poder que está dentro de nós. Ligue isso ao que foi dito anteriormente — fomos plenamente tomados pela plenitude de Deus. Agora, cheios de Deus, ou, do Espírito Santo, temos tal poder que opera dentro de nós.⁠8

Isto mostra o quão diferente a Nova Aliança é da Antiga. Na Nova Aliança (Novo Testamento), o Espírito do Senhor habita permanentemente entre seu povo, diferentemente de como era na Antiga Aliança. Esta presença é o que garante permanentemente este poder dentro de nós.

Paulo encerra este capítulo louvando a Deus na pessoa bendita de nosso Senhor Jesus Cristo, capaz de tudo, e a quem devemos adorar. A ele seja a glória. Só ele é digno, e ninguém os amará ou cuidará como ele. Ele é antes de todas as coisas, e superior a todos e todas as coisas.Só a ele os santos — todos os santos — rendem louvor. 

“A ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus”. Sendo a glória dada exclusivamente a Deus, note-se que esta glória (ou, fama) é conhecida através de Cristo e de seu corpo, a igreja. É nela que a fama de Cristo continua a ser espalhada em toda a Terra. A fama de seu nome é espalhada por todo o mundo via todos os santos, aqueles cujas vidas estavam cheias do Espírito Santo. 

Paulo termina com a expressão “por todas as gerações, para todo o sempre. Amém!” Havia no coração paulino um desejo de que tal ação de Deus no coração humano trouxesse a Deus não só a gloria devida ao seu nome, mas uma glória que fosse reconhecida pelos séculos dos séculos, para todo o sempre.

Com a expressão “amém”, Paulo encerra com esta expressão tão famosa no seio cristão. Do grego ἀμήν, esta expressão significa uma forte confirmação ou concordância com algo dito imediatamente antes. Assim, Paulo encerra afirmando quão firmemente ele cria em todas as coisas que havia acabado de dizer.

Esta é a mesma convicção que se espera de todo aquele que experimenta o amor de Deus e é tomado pelo mesmo.

 

 

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1 Johannes P. Louw e Eugene Albert Nida, Greek-English lexicon of the New Testament: based on semantic domains (New York: United Bible Societies, 1996), 381.

2 Warren W. Wiersbe, The Bible exposition commentary, vol. 2 (Wheaton, IL: Victor Books, 1996), 33.

3 Robert James Utley, Paul Bound, the Gospel Unbound: Letters from Prison (Colossians, Ephesians and Philemon, then later, Philippians), vol. Volume 8, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 1997), 103.

4 E esta é uma das ideais principais por trás da palavra Católica.

5 Eberhard Nestle et al., The Greek New Testament, 27th ed. (Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1993), Ef 3.19.

6 Minha tradução.

7 Uma expressão de louvor a Deus.

8 Robert James Utley, Paul Bound, the Gospel Unbound: Letters from Prison (Colossians, Ephesians and Philemon, then later, Philippians), vol. Volume 8, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 1997), 103–104.

ORAÇÃO DE JOELHOS: porque e quando ajoelhar-se?

Porque os cristãos se ajoelham? Você já se fez esta pergunta? Há razões mais específicas pelas quais devemos nos colocar de joelhos? Ou será que todas as orações deveriam ser feitas de joelhos? Seria hipocrisia orar de joelhos? O que a Bíblia diz sobre isso?

Nesta porção de Paulo aos Efésios, o mesmo comenta sobre sua própria experiência nos ajudando a entender pelo menos um bom motivo pelo qual se por de joelhos. 

Muitas outras religiões mantêm essa prática. Muitos, como os muçulmanos, entendem que todas as orações devem ser feitas de joelhos. Não querendo entrar no mérito do porque as outras religiões encontram razões para colocarem-se de joelhos perantes seus deuses, vejamos razões bem claras pelas quais devemos nos colocar diante de nosso Deus.

 

Por esta causa, me ponho de joelhos diante do Pai, de quem toma o nome toda família, tanto no céu como sobre a terra, para que, segundo a riqueza da sua glória, vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior; e, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor, 

 

Ef 3.14–17

 

Sim, há uma razão especial pela qual devemos nos por de joelhos diante de Deus-Pai. Poucas são as vezes em que Paulo afirma que fará tal coisa. Orar é sempre um ato de intimidade entre o cristão e a Santíssima Trindade. Mas, o pôr-se de joelhos sempre teve uma razão específica e especial por detrás de tal atitude.

Não é comum vermos as pessoas ajoelhando-se para falar com Deus. A orações eram feitas de muitas maneiras no tempo bíblico. No entanto, quando se fala que uma pessoa se pôs de joelhos para orar, sempre alguma razão especial está atrelada a isso.

 

Por esta causa, me ponho de joelhos diante do Pai

 

Obviamente, Paulo não estava de joelhos no momento exato em que escrevia estas palavras. Trata-se apenas de uma figura simples relacionada à mais sincera oração.

Paulo não estava preocupado com sua vida, com seus problemas. Sua preocupação estava ligada aos efésios. É por eles que Paulo se ajoelhou. Ele se ajoelha “diante do Pai”, para quem dirige sincera  e amorosamente sua oração.⁠1

Pense por um momento neste fato. Paulo, em nenhuma de suas epístola diz que se ajoelha por si mesmo, mas sempre por outras pessoas. Será que o Espírito Santo não deseja nos ensinar algo com isso? Será que não deveríamos nós também nos ajoelharmos quando estivermos clamando pela vida de outra pessoa?

Como veremos abaixo, não foi apenas Paulo que fez isso. Muitos outros antes dele também se colocaram de joelhos para pedir por outros. Vejamos:

 

Vinde, adoremos e prostremo-nos; ajoelhemos diante do SENHOR, que nos criou. Ele é o nosso Deus, e nós, povo do seu pasto e ovelhas de sua mão. Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o coração, como em Meribá, como no dia de Massá, no deserto,

Sl 95.6–8.

 

Neste texto, o povo é convidado a orar suplicando por forças para que não voltem a cair no mesmo pecado que seus antepassados um dia caíram. Eles se põe de joelhos para clamar a Deus que os ajudasse a não terem o mesmo coração duro que seus pais tiveram nos tempos do deserto.

Não havia uma preocupação individual. O foco é no coletivo. Eles se prostrariam, se ajoelhariam, para pedir uns pelos outros, uns pelas vidas dos outros. O foco não estava no que era particular, mas no que estava relacionado à vida dos outros.

Outro texto que vemos é este:

 

E, quando chegaram para junto da multidão, aproximou-se dele um homem, que se ajoelhou e disse: Senhor, compadece-te de meu filho, porque é lunático e sofre muito; pois muitas vezes cai no fogo e outras muitas, na água.

Mt 17.14–15.

 

Neste texto, temos um homem se pondo de joelhos para pedir pela vida de seus filho. Seu filho tinha problemas aparentemente mentais, os quais, todavia, se revelaram como fruto de possessão demoníaca. O foco do texto, no entanto, não é o problema do filho, mas a atitude do pai. Ele foi até Jesus e, diante dele, ajoelhou-se para pedir por outro.

Aqui também o foco não é pedir por si. O foco daquele que procurou Jesus e se ajoelhou diante dele era outra pessoa. Um pai clamando socorro e libertação por seu filho. Um pai de joelhos clamando pela salvação de seu filho.

Outro texto é este:

 

Porque Salomão tinha feito uma tribuna de bronze, de cinco côvados de comprimento, cinco de largura e três de altura, e a pusera no meio do pátio; pôs-se em pé sobre ela, ajoelhou-se em presença de toda a congregação de Israel, estendeu as mãos para o céu e disse: Ó SENHOR, Deus de Israel, não há Deus como tu, nos céus e na terra, como tu que guardas a aliança e a misericórdia a teus servos que de todo o coração andam diante de ti … Ouve, pois, a súplica do teu servo e do teu povo de Israel, quando orarem neste lugar; ouve do lugar da tua habitação, dos céus; ouve e perdoa.

2Cr 6.13–14, 21

 

Neste texto, o rei Salomão se ajoelha para orar pelo povo. Após algumas palavras de adoração, Salomão intercede pelo povo, para que todas as orações que eles fizessem naquele lugar fossem ouvidas e atendidas pelo Senhor. Ele não pede por si, mas pelo povo, para que não só fossem ouvidas suas oração, mas também para que seus pecados fossem perdoados quando ali confessados.

Outra vez, o foco de quem ora não está em si mesmo, mas em outras pessoas que estão ao seu redor. Outros estão em sua mente quando seus joelhos tocam o chão.

Não lhe parece curioso este fato? São apenas alguns episódios bíblicos. Em todos eles, quem se ajoelha o faz para pedir pelo outro. Seria errado se ajoelhar para pedir por si mesmo? Qual seria a forma de orarmos por nós mesmo?

Na verdade, não há nada de errado em ajoelhar-se para orar por si mesmo. O ponto não é este, mas apenas destacar que, quando homens de Deus se ajoelhavam não era apenas para pedir pelos seus próprios  problemas, mas também pelos outros.

Normalmente, nos ajoelhamos com o objetivo de clamar por uma situação que nos saiu do controle, um pecado que cometemos, uma viagem que faremos, etc. O foco está sempre em nós mesmos. Aqui, com Paulo e todos estes demais textos, aprendemos que nossas orações de joelhos não devem ter apenas nossos pedidos como o centro da oração. É saudável que também nos ajoelhemos a fim de orar apenas pelos outros.

 

de quem toma o nome toda família, tanto no céu como sobre a terra,

 

O verso 15 nos apresenta outro fato maravilhoso. Assim como um pai dá um nome para um filho e para uma família, Deus dá um nome para todos que formam sua família, tanto no céu quanto na terra. 

Dar um nome equivale-se a dar um título.⁠2 Você o leva para onde for e todos o reconhecerão por este nome. Não apenas lhe chamarão por ele, mas também lhe honrarão.

Deus nos dá a honra de seus seus filhos e filhas e de levarmos o seu nome em nossas vidas. Como filhos amados, recebemos dEle esta graça.

Paulo aqui faz uma brincadeira com as palavras. No final do verso anterior, ele citou o πατέρα de quem toda a πατριὰ toma o nome. Pater e Patria, pai e família. Nesta brincadeira, Paulo reforça a identidade do nome entre a família com seu Pai.⁠3

 

para que, segundo a riqueza da sua glória, vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior; e, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor, 

 

No verso 16, Paulo nos recorda que Deus nos dá poder no homem interior. Este poder é o que nos capacita a agirmos com maturidade diante de todas as situações da vida. Não há nada impossível para quem caminha cheio desse poder. Tudo podemos naquele que nos fortalece.

É segundo a riqueza de sua glória que ele nos enche de graça e de poder. É por esta graça que Ele nos faz fortes. É por esta graça que cegos veem e fracos são capazes de lutar contra o impossível. É por esta graça que você e eu não temos motivos para desistir nunca e em nenhum momento de nossas vidas quando estivermos diante de tribulações e angústias.

No verso 17, Paulo trata de uma verdade muito cara aos cristãos: “habite Cristo no vosso coração”. Todos amamos esta expressão. Ensinar a crianças e adultos sobre Cristo estar presente em nossos corações é tão precioso.

No entanto, o que Paulo está fazendo aqui é ligar a riqueza de sua glória ao habitar de Cristo em nossos corações.

Pela fé (que é um dom de Deus, segundo informações reveladas nesta mesma Epístola) é que recebemos a Cristo em nossos corações e assim passamos a estar estabelecidos e firmemente arraigados em Cristo. O poder de Deus faz com que Cristo habite no coração. O poder de Deus é o que faz com que esta habitação seja indestrutível e eterna. Até quando ele habitará em nossos corações? Até que entremos definitivamente em sua presença no novo céu e nova terra. Lá, então, não se fará mais necessária esta atual e interna habitação. Na verdade, lá seremos nós que habitaremos nele, conforme nos aponta o livro de Apocalipse.

 

Algo interessante a ser notado aqui também é o destaque à ação da Trindade em todo o processo. “Pai… Espírito… Filho”. No verso 14, a pessoa do Pai é mencionada. No verso 16, a pessoa do Espírito Santo é mencionada. E, no verso 17, a pessoa de Cristo é mencionada. Se separássemos tudo o que está no meio, as palavras de Paulo nesta porção ficariam assim:

 

“Me ponho de joelhos diante do Pai,… para sejais fortalecidos mediante o seu Espírito,… e, assim, habite Cristo em vosso coração”.

 

Note que o Pai é quem recebe a oração que fazemos ajoelhados. Quem opera na resposta a nosso pedido é o Espírito. É Ele quem opera em nós no tempo da igreja. É pela obra do Espírito segundo a vontade do Pai que o Filho habita em nossos corações fazendo com que conheçamos e experimentemos “a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade⁠4” do amor de Cristo, conforme veremos no comentário dos versos seguintes.

 

Assim, não nos esqueçamos de que a presença de Cristo em nossos corações é o que nos fortalece, que o Espírito Santo continua operando no coração de homens e mulheres segundo a vontade do Pai. E, acima de tudo, não nos esqueçamos de quão importante é nos colocarmos de joelhos para clamar pela vida das pessoas a quem amamos e desejamos livramentos, curas e, principalmente, salvação.

 

 

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1 Kenneth S. Wuest, Wuest’s word studies from the Greek New Testament: for the English reader (Grand Rapids: Eerdmans, 1997), Ef 3.14.

2 Johannes P. Louw e Eugene Albert Nida, Greek-English lexicon of the New Testament: based on semantic domains (New York: United Bible Societies, 1996), 402.

3 Robert James Utley, Paul Bound, the Gospel Unbound: Letters from Prison (Colossians, Ephesians and Philemon, then later, Philippians), vol. Volume 8, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 1997), 102.

4 Ef 3.18

SUA UNIÃO COM CRISTO: VERDADES QUE VOCÊ PRECISA SABER!

Paulo, após falar sobre o poder que os mortos têm para viver, começa a tratar de um novo assunto. A proposta do apóstolo é que os efésios pensassem doravante no que implica estarem unidos com Cristo.

A expressão que o apóstolo usa com frequência em Ef 2.4-7 é ἐν Χριστῷ Ἰησοῦ. Uma tradução simples traria “em Cristo Jesus. Já um estudo mais detalhados destas palavras possivelmente nos traria “dentro de Cristo Jesus”, ou “em união com Cristo Jesus (sendo que esta união se compreende quando nos vemos dentro dele). 

A preposição grega ἐν (em) traz a ideia de algo que está literalmente dentro de alguma coisa. Traz a ideia de uma união perfeita onde o objetivo envolvido está absorvido interna e externamente por aquele que o envolve. Não é a toa que Paulo por diversas vezes usa essa expressão para tratar dele e da igreja em Éfeso. Todos estavam “em Cristo”, e a correta compreensão do que significa isso traria conforto e gratidão ao coração dos efésios.

 

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SALVAÇÃO: MÉRITO NOSSO OU DOM DE DEUS?

Como é bom saber que nossa salvação foi planejada cuidadosa e graciosamente pela Santíssima Trindade antes da fundação do mundo. Como é bom saber que nossa salvação não depende nós, não depende de nosso esforço ou merecimento. Como é bom saber que, além de salvos, nos foi dado pelo Espírito Santo o dom para perseverar até o fim, quando receberemos, ainda que imerecidamente, a coroa da vida e o fruto da Árvore da Vida, colhido pelas mãos do próprio Cordeiro de Deus.

 

Continuemos a refletir, em espírito de oração, nas palavras de Paulo inspiradas pelo Espírito Santo à igreja que se reunia na cidade de Éfeso.

 

8 que ele fez abundar para conosco em toda a sabedoria e prudência,

 

O início deste verso nos faz lembrar do que o Senhor fez abundar para conosco. Sua graça maravilhosa e inesgotável, como vimos na pregação anterior, está para nós como uma a água está para uma esponja. A graça de Deus nos envolve e nos preenche. É por isso que Paulo aqui ressalta que o Senhor a fez abundar sobre nós.

 

Outro ponto curioso do verso 8 é que Deus a derramou sobre nós com sabedoria e com prudência. O que significa isso? Vejamos.

 

Sabedoria tem a ver com o conhecimento perfeito que Deus possui e que lhe faz agir como age. Todas as suas ações são poderosas e perfeitas porque feitas sabiamente. Sabedoria não é algo necessariamente que está em Deus. De certo modo, ele é a própria sabedoria, a fonte dela. É por isso que a graça de Deus não vem impulsivamente sobre nós, ou mesmo apaixonadamente. Vem em sabedoria. Deus sabe o que ama e a quem ama. Seu amor e graça é absolutamente racional.

 

Já a Prudência tem a ver com uma virtude que não existiria se soubéssemos que Deus não existe. Ele é a fonte de toda prudência. A ação redentora não foi (nem é) ingênua ou pueril. Agiu o tempo todo prudentemente, sabiamente, demonstrando que há em Deus justiça e bondade em sua escolha eterna. Não é preciso muito esforço para concluirmos que nossos padrões acerca de justiça são insuficientes quando desejamos entender a Deus e o que ele fez. Portanto, fuja da tentação de achar que Deus é injusto em sua eleição. Nós nem mesmo sabemos o que é justiça, ainda mais aquilo que para ele é justiça.

 

9 fazendo-nos conhecer o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, 

 

Como fruto de um amor que não se pode medir nem explicar, Deus revelou a nós seu amor, coisa que, aparentemente, não revelou a nenhuma outra de suas criaturas. Quando o apóstolo fala do “mistério de sua vontade”, ela fala de nossa salvação, motivo do louvor de Paulo nesta primeira de duas orações que ele faz no capítulo um de sua epístola aos efésios.

 

Esta salvação vem a nós de acordo com seus planos pré-estabelecidos na eternidade passada. O beneplácito de Deus de certo modo revela sua prudência, mencionada no verso anterior. Deus agiu de um modo sensato em sua eleição. É possível a nós compreendermos isso? A menos que provem o contrário, afirmo com convicção que não. Por melhor que argumentemos, não conseguiremos nos desfazer do embaraço daquilo que para nós é justiça. Sempre acusaremos Deus de injusto.

 

Devemos, sabiamente, abandonar todo esforço em querer justificar a Deus quanto à eleição. Três coisas são certas:

 

1. Nenhum ser humano merece a salvação (nem mesmo os eleitos);

2. Deus escolheu de um modo sábio, sensato e prudente;

3. Deus foi e sempre será justo e bom, em seu caráter e em suas decisões.

 

Portanto, desistamos de querer “ganhar a briga” pela doutrina da eleição. Ela não nos foi revelada para que brigássemos, mas para que louvássemos a Deus por sua maravilhosa graça que nos anteviu salvos antes da fundação do mundo. Nunca pergunte o por quê de Deus não ter salvo um amigo seu. Pergunte o por quê dele ter salvo você. E então, o louve, com todo seu coração.

 

O beneplácito, conforme muitas versões em português traduz, vem da palavra original εὐδοκίαν⁠1 para “plano generoso”. Foi de um modo generoso que o Senhor nos anteviu, nos predestinou e que, generosa e abundantemente, tem nos abençoado e amparado dia após dia.⁠2 Assim, sabemos que nossa salvação trouxe grande prazer ao próprio Deus.

 

Na continuação da epístola, Paulo afirma que a vinda de Cristo se deu naquilo que Deus mesmo chamou de “a plenitude dos tempos”. Este termo tem a ver com o ápice da história, o momento mais especial dentro do plano da criação. Para aquele que é o Criador e que é Eterno, tudo o que acontece antes e depois desse momento é periférico e menos importante em comparação com a crucificação. A história da humanidade é a história da redenção. O que não tem a ver com redenção, é periférico.

 

Vejamos o por quê.

 

10 de fazer convergir em Cristo todas as coisas, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra,

 

Como disse o teólogo puritano Matthew Henry, todas as linhas da revelação divina encontram-se em Cristo. Ou seja, além da própria história da humanidade encontrar o seu ápice em Cristo, tudo o que de Deus recebemos através de revelação especial (Verbo Escrito e Verbo Encarnado) convergem igualmente a Cristo.

 

Sem Cristo não há religião (no sentido puro da palavra, ou seja, um religar-se a Deus). Todos os povos, todas as línguas, todas as nações, tudo e todos que se encontram redimidos encontram-se e ainda encontrar-se-ão em Cristo, através da morte e ressurreição de Cristo.

 

Deus fez tudo convergir à cruz. Tanto os que serão salvos quanto os que continuarão perdidos por escolha própria por toda a eternidade. A cruz divide a história e aqueles que estarão ou não na eternidade com Deus. Este atrair ou convergir não seria apenas algo terreno, mas algo cósmico, toda a natureza criada seria convergida à Cristo na cruz. A cruz é o centro de toda a história e é nela que tudo encontra sua redenção. Através dela, abre-se a esperança para uma “nova humanidade” ligada ao “segundo Adão” que habitará a “nova Terra e os novos céus”!⁠3

 

11 nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade,

 

Paulo, aqui no verso 11, apresenta o papel dos que somos salvos dentro da história da redenção. Em Cristo, todos fomos feitos herança. Essa herança há muito havia sido prometida. Mesmo antes de Cristo nascer, Deus usou o profeta Isaías para revelar isso:

 

“Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma e ficará satisfeito; o meu Servo, o Justo, com o seu conhecimento, justificará a muitos, porque as iniquidades deles levará sobre si. Por isso, eu lhe darei muitos como a sua parte, e com os poderosos repartirá ele o despojo, porquanto derramou a sua alma na morte; foi contado com os transgressores; contudo, levou sobre si o pecado de muitos e pelos transgressores intercedeu.” Is 53.11-12.

 

Ele levou os nossos pecados sobre a cruz e lá pagou o preço por cada um deles. Agora, já não há mais condenação. Tendo pago o nosso preço, fez de nós a sua herança. Assim, do início ao fim, nossa salvação tem a ver com Ele, Cristo, e nunca conosco. Somos totalmente passivos no que diz respeito à obra e méritos pela salvação.

 

Tudo isso foi feito por causa da vontade de Deus. Do início ao fim, nossa salvação é pela pura e graciosa vontade de Deus. A expressão grega κατὰ τὴν βουλὴν τοῦ θελήματος αὐτοῦ poderia ser traduzida livremente assim: “de acordo com aquilo que foi planejado segundo a vontade dele”. Ou seja, não se trata apenas de um conhecimento prévio, ou de uma presciência, mas de algo que foi planejado, pensado, segundo a sabedoria, a justiça, a bondade e o amor que há nas pessoas benditas da Santíssima Trindade. Dessa graciosa deliberação, resultou o “beneplácito” de sua vontade.⁠4

 

Não foi por acaso nem ou presciência, mas por decisão ativa e deliberada do Pai, do Filho e do Espírito Santo na eternidade. Assim foram todos os santos predestinados para a glória daquele que nos criou.

 

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1 Do grego koinê εὐδοκία, ας (aquilo que satisfaz alguém).

2 Johannes P. Louw e Eugene Albert Nida, Greek-English lexicon of the New Testament: based on semantic domains (New York: United Bible Societies, 1996), 298.

3 Matthew Henry, Matthew Henry’s commentary on the whole Bible: complete and unabridged in one volume (Peabody: Hendrickson, 1994), 2308.

4 Johannes P. Louw e Eugene Albert Nida, Greek-English lexicon of the New Testament: based on semantic domains (New York: United Bible Societies, 1996), 357.