PEDRO: Transformado pela Palavra de Deus 

 

16Respondendo Simão Pedro, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.17Então, Jesus lhe afirmou: Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to revelaram, mas meu Pai, que está nos céus.18Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela

Mt 16.16-18 

Exposição bíblica

Pedro e sua relação com os Doze Apóstolos.

Pedro é, ao lado do apóstolo Paulo, uma das pessoas mais importantes apresentadas no Novo Testamento. Pedro, além de ser escolhido por Jesus para ser um dos doze apóstolos, foi escolhido para ser um dos três discípulos mais próximos de Jesus durante seu ministério terreno. E, além de ser ao lado de João e Tiago, um dos três discípulos mais próximos de Cristo, foi escolhido pelo próprio Jesus para ser o líder dos apóstolos.

O capítulo 16 do Evangelho segundo Mateus traz para nós o fermento dos fariseus e algumas lições relacionadas à compreensão sobre isso. O capítulo começa com os fariseus e saduceus pedindo a Jesus um sinal. Estes dois grupos representavam boa parte dos judeus no período do Novo Testamento. Enquanto os fariseus estavam mais ligados à religião, os saduceus eram mais ligados à políticas e outros movimentos menos religiosos. Saduceus, ao contrário dos fariseus, não criam em ressurreição e, muitos deles, em milagres.

Jesus responde a eles dizendo que sua preocupação com sinais representava uma espécie de cegueira espiritual. “Nenhum sinal” a não ser o de Jonas lhes seria dado. Uma geração má e adúltera pede um sinal; e nenhum sinal lhe será dado, senão o de Jonas, Mt 16.4. Palavras duras de Jesus aos seus ouvintes. Jesus respondeu, e se retirou.

A percepção que estas facções judaicas deveria ter era a de algo que havia vindo do céu. Assim como chuva pode ser percebida por sinais visíveis vindos do céu, assim a vinda do Messias poderia ser percebida pela vida e obras de Jesus. Tudo o que as Escrituras diziam sobre o Messias estava se cumprindo na vida de Jesus naqueles dias. Como é que eles pedem um sinal? Havia, de fato, abundância de sinais a serem vistos por todos os lados. Mas seus pecados os impedia de verem o óbvio.

Em seguida, Mt 16 nos apresenta uma conversa de Jesus com os discípulos sobre o fermento dos fariseus. Os discípulos haviam esquecido de levar pães para o lugar para onde foram. Nesse contexto, Jesus lhes fala para tomar cuidado com o fermento dos fariseus. Imediatamente, eles associam as palavras de Jesus com o fato de terem esquecido dos pães.

Nos versos 5 a 12, Jesus lhes explica que não era desse tipo de fermento que falava. Lhes lembra de seu poder para fazer o impossível, e de como alimentou nove mil pessoas, em duas ocasiões diferentes, multiplicando pães e peixes milagrosamente. O fermento do qual Jesus fala era a doutrina ensinada por aqueles grupos, que se diziam religiosos, tementes a Deus, mas que haviam construído doutrinas nas quais criam e viviam, mas que nada tinham de ligação com a Palavra de Deus. Erro doutrinário leva pessoas para muito longe de Deus, mesmo que essas pessoas estejam vivendo religiosamente em uma igreja.

Caminhando, Jesus chega com seus discípulos à cidade de Cesareia de Felipe. Lá, pergunta para eles sobre o que o povo estava falando sobre ele. As respostas envolviam comparação com João Batista, Elias e Jeremias. Então Jesus pergunta o que eles diziam sobre ele. Isso é muito importante, pois o que Jesus está pedindo é uma definição cristológica. Jesus está pedindo uma confissão de fé. Jesus está pedindo que eles exponham seu pensamento sobre a pessoa dele. Isso é algo que todos nós devemos nos preocupar em saber ainda hoje. O que sabemos sobre Cristo pode (ou não) mudar nossa vida. Confessar o que sabemos pode mudar a vida de alguém.

É após esse momento que encontramos a confissão de Pedro. No verso 16, Pedro responde com a seguinte confissão: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. Poucas, mas precisas palavras. Simples e profundo, Objetivo, mas não superficial. Claro e preciso.Tu és o messias (o Cristo). Era isso que os fariseus e saduceus deveriam ter percebido, mas não conseguiram. Pedro aqui o confessa. E não apenas o Messias, mas o Filho do Deus vivo, aquele que soberanamente governa sobre todas as coisas.

A resposta de Jesus para Pedro foi: 17Então, Jesus lhe afirmou: Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to revelaram, mas meu Pai, que está nos céus.18Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.19Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra terá sido desligado nos céus.20Então, advertiu os discípulos de que a ninguém dissessem ser ele o Cristo.

Mt 16:17–20

  1. Pedro, o apóstolo, a rocha.

Há muita coisas que podem ser ditas sobre estas palavras de Jesus. Mas este não é meu objetivo neste estudo. O foco aqui é na pessoa de Pedro, e nas palavras que ele ouviu de Jesus. A confissão de Pedro tornavam-no um bem-aventurado. Bem-aventurança está ligada, também, a uma saudável confissão de nossa fé e a uma alegria que não está ligada apenas a algo que nos acontece no momento. Não se trata apenas de felicidade.

Uma saudável confissão de fé também está ligada à revelação do próprio Deus. A humanidade, sem Deus, é incapaz de chegar a confissões sadias de sua fé. Via de regra, farão como os fariseus e saduceus e criarão suas próprias doutrinas numa tentativa de se conduzirem a um suposto céu onde um suposto Deus os aceitaria com base em suas próprias obras.

A confissão de Pedro coloca Deus no centro do processo de salvação e de construção do que cremos. Sobre a liderança pastoral de Pedro, e sobre a afirmação feita por ele, Jesus edificaria a sua igreja. A rocha não é Pedro, mas o que ele disse, ou seja, sua confissão e a verdade contida nela. Todos que viessem a crer e confessar a mesma fé seriam colocados sobre esta pedra sobre a qual Jesus edifica sua igreja.

Jesus deixa claro que, ainda que venham perseguições, batalhas espirituais e aflições na vida, que as portas do inferno, os poderes do inferno, a influência demoníaca, não destruiriam sua igreja. O dom da fé, confessada pela igreja, uniria e manteria viva sua igreja até sua segunda vinda de Jesus.

Jesus conclui dando o poder das chaves para sua Igreja. O poder das chaves não está com Pedro, mas com a Igreja de Jesus Cristo. É ela que se reune confessando a mesma fé e tem o poder das chaves do verso 19: Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra terá sido desligado nos céus.

Embora Jesus fale com Pedro, ele aqui é apenas um representante daqueles que confessariam a mesma fé e se uniriam em igreja um dia. Pedro não pode ser o dono do poder das chaves pois, se fosse, com sua morte morreria a única pessoa com autorização para disciplinar e desligar pessoas da comunhão dos santos sobre a Terra. Pedro é apenas um representante. Jesus fala com Pedro, mas não sobre Pedro. As chaves dadas a ele são as mesmas dadas à toda Sua Igreja, da qual Pedro foi seu primeiro pastor.

Este texto é de difícil interpretação. Muitos têm interpretado de maneira descuidada retirando-o do seu contexto. A despeito de uma série de especulações sobre o texto, o que Jesus está dizendo é que sua igreja, aqueles que confessam a mesma fé que Pedro, teria o poder da disciplina, da organização, das decisões, sobre todas as coisas que aqui acontecessem. O Senhor está dando uma espécie de autorização à igreja para que esta tenha poder sobre situações de pecado, de erro doutrinário (é isso que está no contexto do capítulo), e exercerem o desligamento necessário de pessoas ou grupos que venham a pregar ou crer em uma confissão de fé diferente. Ninguém na Terra tem mais autoridade sobre a igreja do que a própria igreja. Nenhum homem pode exercer uma autoridade sobre a Igreja que seja maior do que a autoridade que a própria igreja já tem.

A igreja não é edificada sobre Pedro, mas sobre ele, Jesus, a pedra fundamental, a pedra de esquina, a qual os construtores rejeitaram. Ademais, gramaticalmente não se pode associar a pedra com Pedro. Πέτρᾳ é uma palavra feminina. Já Πέτρος é masculina. Gramaticalmente, a pedra não poderia ser Simão Pedro. A pedra é a confissão sobre o próprio Cristo. Crer na divindade de Jesus, e nele como o Filho do Deus vivo, nosso único e suficiente Salvador é a doutrina mais importante e fundamental do cristianismo.

Sua história: Porque Pedro deixou tudo?

Mas, quem foi esse homem chamado Simão Bar-Jonas? O significado desse nome seria Simão, filho de João. Essa é uma nomenclatura comum no mundo semítico. Simão seria o equivalente a Simeão, na língua dos hebreus. A adição do apelido Pedro veio somente posteriormente, assim como o Cristo veio posteriormente ao nome de Jesus.

Pedro cresceu na Galileia. Ele era da cidade de Betsaida, como descrito em João 1.44: Ora, Filipe era de Betsaida, cidade de André e de Pedro. Pedro e André viviam do comércio de peixes na região. Tinham, provavelmente uma casa (ou uma estação de venda) em Cafarnaum, cidade da região. Vemos isso nestes versos:

Marcos 1:21,29: Depois, entraram em Cafarnaum, e, logo no sábado, foi ele ensinar na sinagoga. … E saindo eles da sinagoga, foram, com Tiago e João, diretamente para a casa de Simão e André.

João e Tiago eram, provavelmente, seus sócios no negócio. Veja este verso:

Lc 5.10: bem como de Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram seus sócios. Disse Jesus a Simão: Não temas; doravante serás pescador de homens.

Pedro, sua conversão e chamado.

Quando Jesus os chamou a seres seus discípulos, os desafiou a serem, agora, pescadores de homens. Em Lucas, vemos que Pedro e os demais deixaram tudo para seguir a Jesus:

Lucas 18:28: E disse Pedro: Eis que nós deixamos nossa casa e te seguimos.

Pedro era casado e em Mc 1.29-31 Jesus cura a sogra dele. Em 1Co 9.5, Paulo dá-nos a impressão de que a esposa de Pedro o acompanhava em seu ministério pastoral e em suas viagens às igrejas. E, pelo verso, sabemos que outros apóstolos também eram casados.

Pedro viveu muitas experiências com Jesus. Não as veremos uma a uma aqui. Ele é o apóstolo com mais envolvimento e histórias envolvidas com Jesus.

De certo modo, a afirmação de Pedro em Mt 16 está relacionada àquilo que foi a sua vida junto do Senhor. Sempre firme, resoluto, mas não infalível. Mateus não mascara sua fraqueza e debilidade. Descreve as palavras de Jesus a ele como alguém de uma fé muito pequena:

Mateus 14:31: E, prontamente, Jesus, estendendo a mão, tomou-o e lhe disse: Homem de pequena fé, por que duvidaste?

Em outra ocasião, Mateus descreve as palavras de Jesus a Pedro associando-o a Satanás e aos planos demoníacos para atrapalhar o caminho da redenção, o caminho da cruz:

Mateus 16:23: Mas Jesus, voltando-se, disse a Pedro: Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço, porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens.

O galo, a negação e o arrependimento.

Este episódio é um dos mais conhecidos de sua história. Após Jesus ser traído e preso, Pedro o acompanhou, seguindo-o de longe. Muitos fugiram, mas Pedro o seguiu de longe.Viu todas as cenas relacionadas a Jesus. E Jesus, sendo Deus, viu o que Pedro também passou ao ser tentado quando lhe perguntaram, três vezes, sobre sua associação com o homem sob julgamento. Nas três ocasiões, Pedro negou.

Enquanto Judas Iscariotes, após se entristecer com o que havia feito, ter sob remorso se suicidado, Pedro optou por outro caminho. Pedro poderia ter tido o mesmo fim de Judas. Ambos traíram a Jesus. Pedro, no entanto, diferencia-se por ter genuinamente se arrependido do que fez. Pedro saiu de onde estava e chorou amargamente:

Lc 22.60–62: 60Mas Pedro insistia: Homem, não compreendo o que dizes. E logo, estando ele ainda a falar, cantou o galo.61Então, voltando-se o Senhor, fixou os olhos em Pedro, e Pedro se lembrou da palavra do Senhor, como lhe dissera: Hoje, três vezes me negarás, antes de cantar o galo.62Então, Pedro, saindo dali, chorou amargamente.

De pescador de peixes a pescador de homens.

Nós não temos tantas informações sobre o ministério de Pedro quanto temos do de Paulo. Sabemos que ele passou um tempo em Corinto, pelo fato de lá haver um grupo que se considerava de Pedro (1Co 1.12, 3.22).

Pedro, provavelmente, também realizou viagens missionárias. Percebemos isso no texto já citado de 1Co 9.5: E também o de fazer-nos acompanhar de uma mulher irmã, como fazem os demais apóstolos, e os irmãos do Senhor, e Cefas?

As epístolas de Pedro foram enviadas às igrejas da Ásia Menor. Lá, ficavam as províncias de Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia. Sobre esta última cidade, é muito interessante notar que, a razão pela qual muitas pessoas acham que o Espírito Santo não permitisse que Paulo passasse pela Bitínia fosse porque Pedro já havia começado um ministério naquela cidade.

Acts 16:7: defrontando Mísia, tentavam ir para Bitínia, mas o Espírito de Jesus não o permitiu.

Algumas pessoas associam a Babilônia citada por Pedro em 1Pe 5.13 com Roma. Pedro escreve dando a impressão de estar nesta tal de Babilônia. Se Pedro estava literalmente em Babilônia ou se na “Babilônia do ocidente”, como Roma era chamada, não sabemos. Em Apocalipse, Roma é associada com a Babilônia. Seja uma ou outra, vemos que Pedro também chegou a este lugar pregando o Evangelho.

O Evangelho, o ministério e a morte.

Após uma vida de ministério na pregação do Evangelho, Pedro morre da maneira como é profetizada em Jo 21.18: Em verdade, em verdade te digo que, quando eras mais moço, tu te cingias a ti mesmo e andavas por onde querias; quando, porém, fores velho, estenderás as mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres.

Muitos associam essas palavras a forma como Pedro morreu.

1Clemente foi escrita no final do primeiro século, provavelmente junto do livro de Apocalipse. Neste livro, lemos do martírio de Pedro, Paulo e muitos outros. Nesta epístola, Clemente de Roma menciona da morte de Pedro que aconteceu como um “glorioso exemplo entre nós”, o que demonstra que as pessoas da igreja de Clemente, em Roma, estavam envolvidas no mesmo martírio em que morreu Pedro, “um glorioso exemplo entre nós”.

Já na famosa e belíssima epístola de Inácio de Antioquia aos Romanos, o martírio de Pedro e de Paulo também são associados à cidade de Roma.

Também Dionísio, bispo de Corinto, em uma carta escrita em aproximadamente 170 d.C., e preservada por Eusébio de Cesareia, disse que Pedro e Paulo ensinaram juntos na Itália. No final do século II, Irineu de Lyon escreveu em seu livro Contra as heresias que Pedro e Paulo pregaram em Roma. Já Tertuliano escreveu no mesmo período que Pedro foi martirizado da mesma maneira que o Senhor.⁠1

Muitos outros escreveram sobre esse assunto⁠2. Há um grande debate sobre o lugar exato de sua tumba. No entanto, a visão mais tradicional é a que vê o monte vaticano como o mais provável lugar onde o corpo de Pedro foi enterrado após a sua morte.⁠3

PEDRO FOI UM HOMEM COMUM, como muitos de nós, sem nenhuma expressão política ou social. Um mero trabalhador de uma região distante do centro do seu país. Homem comum chamado para ser um discípulo de Jesus, transformado por Jesus, e que acabou morrendo pela causa de Jesus.

Como Pedro foi transformado, Deus deseja transformar a cada um de nós. E essa transformação tem como objetivo sermos usados para transformar, transformar por meio de nossa proclamação, transformados para trazer paz aos que sofrem, transformados para trazer alegria onde há morte.

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1 Elwell, W. A., & Beitzel, B. J. (1988). In Baker encyclopedia of the Bible (p. 1666). Grand Rapids, MI: Baker Book House.

2 Elwell, W. A., & Beitzel, B. J. In Baker encyclopedia of the Bible. Grand Rapids, MI: Baker Book House, 1988.

3 Elwell, W. A., & Beitzel, B. J. (1988). In Baker encyclopedia of the Bible (p. 1667). Grand Rapids, MI: Baker Book House.

O CORDEIRO DE DEUS (Comentário de Ap 14.1-5)

O Cordeiro de Deus sempre será a esperança e a bússola que os cristãos usarão para viver. Sempre será o seu norte, sua referência e seu prazer. Ser transformado à sua imagem, sempre será algo desejado pelos seguidores de Cristo. Os verdadeiros cristãos sempre desejarão ser como ele é.

Assim que acaba o festival de paródias feitas por Satanás e vistas nos capítulos anteriores, o capítulo 14 começa com aquele que realmente é o Senhor e Cordeiro. E não apenas fala sobre quem é Jesus, mas sobre como é o povo que o segue, contrastando com o povo que segue a besta, marcado pelo número de seu nome.

Vejamos, então, a perfeita descrição daquele que é o verdadeiro Cristo e o verdadeiro cristão.

Olhei, e eis o Cordeiro em pé sobre o monte Sião, e com ele cento e quarenta e quatro mil, tendo na fronte escrito o seu nome e o nome de seu Pai.Ouvi uma voz do céu como voz de muitas águas, como voz de grande trovão; também a voz que ouvi era como de harpistas quando tangem a sua harpa.Entoavam novo cântico diante do trono, diante dos quatro seres viventes e dos anciãos. E ninguém pôde aprender o cântico, senão os cento e quarenta e quatro mil que foram comprados da terra.São estes os que não se macularam com mulheres, porque são castos. São eles os seguidores do Cordeiro por onde quer que vá. São os que foram redimidos dentre os homens, primícias para Deus e para o Cordeiro;e não se achou mentira na sua boca; não têm mácula.

Ap 14.1–5

Vamos ao texto.

14.1       Olhei, e eis o Cordeiro em pé sobre o monte Sião, e com ele cento e quarenta e quatro mil, tendo na fronte escrito o seu nome e o nome de seu Pai.

Agora, temos a imagem do verdadeiro Cordeiro, e não de sua paródia descrita no capítulo anterior. João levanta os olhos e vê o Cordeiro em pé sobre o monte Sião. Junto dele, os 144.000 já mencionados anteriormente em Apocalipse. Naquela ocasião, vimos como os que estão representados neste número representam todo o povo de Deus ao longo da história.

Todo o povo de Deus, marcado na fronte com o seu próprio nome e o nome de Deus, junto do Cordeiro de Deus. Esta marca presente no povo de Deus os diferencia dos marcados pela Besta.

O Cordeiro é uma descrição clara da pessoa de Cristo, já o monte Sião é matéria de discussão, encontrando muitas explicações aqui. A mais plausível, do meu ponto de vista, é a que considera o Salmo 2 — particularmente, o verso 6 — como pano de fundo desta visão do início do capítulo 14. Dentro deste contexto apocalíptico, os 144.000 no monte Sião anuncie, provavelmente, o próprio povo de Deus, marcado pelo Espírito Santo.

2       Ouvi uma voz do céu como voz de muitas águas, como voz de grande trovão; também a voz que ouvi era como de harpistas quando tangem a sua harpa.

João ouve uma voz que, na verdade, são muitas vozes, vindas dos céus e relacionadas ao povo de Deus cantando dos céus. Mais uma vez, a figura apocalíptica (como voz de muitas águas, como voz de grande trovão). Além da grandeza dessa voz, havia curiosamente suavidade, e isso se nota no final do verso (era como de harpistas quando tangem a sua harpa).

3       Entoavam novo cântico diante do trono, diante dos quatro seres viventes e dos anciãos. E ninguém pôde aprender o cântico, senão os cento e quarenta e quatro mil que foram comprados da terra.

O novo cântico talvez seja o mesmo de Ap 5.9:

Apocalipse 5.9: e entoavam novo cântico, dizendo:

    Digno és de tomar o livro

    e de abrir-lhe os selos,

    porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus

    os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação

Este é o cântico dos eleitos, dos salvos eternamente pelo Senhor. Presente em toda a Escritura, ele diz respeito à nova vida, regenerada, após a conversão (Is 42.10; Sl 33.3; 40.3; 96.1; 98.1; 144.9; 149.1).

Este cântico novo só pode ser aprendido por aqueles que que foram salvos sobre a terra. Os 144.000 dizem respeito a todo o povo de Deus na terra, como já melhor explicado anteriormente. Esta salvação é descrita aqui com o simbolismo da compra, aqueles que foram resgatados.

4       São estes os que não se macularam com mulheres, porque são castos. São eles os seguidores do Cordeiro por onde quer que vá. São os que foram redimidos dentre os homens, primícias para Deus e para o Cordeiro; 5 e não se achou mentira na sua boca; não têm mácula.

A imagem de um grupo que não se maculou com mulheres está ligado no contexto apocalíptico com soldados que saíram à batalha e que não se envolveram com as coisas desse mundo. Essa é a conclusão a que chegam muitos estudiosos de Apocalipse.⁠1

Quando transformamos o símbolo em algo real, entendemos que isso aponta para o povo de Deus que não se misturou com as coisas deste mundo que já no maligno.

Estes são chamados de seguidores do Cordeiro por onde quer que vá. Isso demonstra discipulado e serviço na obra do Senhor.

Eles também são chamado de primícias para Deus e para o Cordeiro. Deus é o dono de toda a colheita. A colheita é dele. Os frutos colhidos ao longo da história são do Senhor, pertencem a ele, para sempre de Deus e do Cordeiro (veja Tg 1.18, onde a igreja é tratada como primícias).

A falta de mácula em suas vidas está associada à ação de Cristo junto ao seu povo (veja Ef 5.25-27. O povo de Deus vive, viveu e viverá sempre tudo em vista essa santidade.

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1 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 124.

666: O NÚMERO DA BESTA (Comentário de Ap 13.11-18)

O final do capítulo 13 continua tratando de imitação. O diabo continua a agir através de paródias. É importante que nos lembremos que uma paródia é o que você tem quando alguém produz algo falso que parece real, mas não é. Pessoas podem fazer isso intencionalmente ou não. Às vezes, pessoas fazem paródias com o fim de serem engraçados, como as paródias de jogadores de futebol, de artistas da música, ou de presidentes da república. O objetivo principal de uma paródia é parecer-se com o real, trazendo uma nova realidade para aquilo.

Naquele tempo (o tempo de João), era comum as pessoas associarem a grande besta ao Império Romano (na figura de seu imperador), o qual possuía autoridade sobre o mundo todo e exigia adoração à sua pessoa vez ou outra — muitos cristãos foram mortos por não aceitarem se curvar diante do Imperador. E a segunda besta (ou monstro) estaria relacionada às elites locais presentes em cada cidade do Império e que dava respeito e subordinação ao Império, vivendo por ele. A tarefa dessa segunda besta seria reproduzir as ações e intenções da primeira besta em nível local, levando as pessoas a adorarem a primeira besta.

É um pouco disto que encontramos nesta porção abaixo dentro da visão do apóstolo João.

Vi ainda outra besta emergir da terra; possuía dois chifres, parecendo cordeiro, mas falava como dragão.Exerce toda a autoridade da primeira besta na sua presença. Faz com que a terra e os seus habitantes adorem a primeira besta, cuja ferida mortal fora curada.Também opera grandes sinais, de maneira que até fogo do céu faz descer à terra, diante dos homens.Seduz os que habitam sobre a terra por causa dos sinais que lhe foi dado executar diante da besta, dizendo aos que habitam sobre a terra que façam uma imagem à besta, àquela que, ferida à espada, sobreviveu;e lhe foi dado comunicar fôlego à imagem da besta, para que não só a imagem falasse, como ainda fizesse morrer quantos não adorassem a imagem da besta.A todos, os pequenos e os grandes, os ricos e os pobres, os livres e os escravos, faz que lhes seja dada certa marca sobre a mão direita ou sobre a fronte,para que ninguém possa comprar ou vender, senão aquele que tem a marca, o nome da besta ou o número do seu nome.Aqui está a sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. Ora, esse número é seiscentos e sessenta e seis.

Ap 13.11–18

Vamos ao texto.

11       Vi ainda outra besta emergir da terra; possuía dois chifres, parecendo cordeiro, mas falava como dragão. 12 Exerce toda a autoridade da primeira besta na sua presença. Faz com que a terra e os seus habitantes adorem a primeira besta, cuja ferida mortal fora curada.

João vê outra besta. Esta, agora, emerge da terra, diferente da primeira, a qual emergiu do mar. Aqui, para muitos, a paródia satânica continua e o Diabo, agora, estaria imitando a ação das duas testemunhas (Ap 11.13-14). Para outros, a paródia não tem a ver com as duas testemunhas, mas com a própria Santíssima Trindade (o Dragão e as duas bestas).

Ainda outros, sugerem que a besta que emerge do mar seja uma alusão a Leviatã (mencionado em Jó 41.1-34), o antigo mestre do caos marítimo, e a besta que surge da terra, uma alusão a Behemote (Jó 40.15-24), o correspondente na terra do que Leviatã é no mar.⁠1 No final, estas duas bestas não passam de representações do mal e da rebelião contra o Criador e a ordem criada.

Os dois chifre, parecendo cordeiro mostra a paródia do próprio Cristo. Por fora, uma aparência de cordeiro; por dentro, seu verdadeiro caráter — falava como dragão. É interessante que é pela voz que se conhece o dragão e não por sua aparência.

Mais à frente em Apocalipse, esta segunda besta também é associada ao falso profeta (16.13,19.20,20.10). A segunda besta possui uma ação parecida com a do Espírito Santo, fazendo uma espécie de paródia do Consolador trabalhando não por sua glória, mas para a glória de outro. Assim, nós teríamos a Trindade não santa: Satanás como Deus-Pai, a besta do mar como o Filho de Deus, e a besta da terra como o Espírito Santo.

13       Também opera grandes sinais, de maneira que até fogo do céu faz descer à terra, diante dos homens.

Milagres são parte da obra satânica para enganar a humanidade. A ideia de que milagres são um sinal de autenticidade espiritual cristã cai por terra com a experiência vista por João nesta passagem. Aqueles que estão à serviço do Diabo também fazem milagres. Assim, aqui temos mais uma paródia de Cristo.

É impressionante que, até mesmo aquilo que os profetas de Baal tentaram fazer e não conseguiram, acontecerá por ação satânica no final dos tempos. Fogo cairá dos céus diante de todos os homens. O que temos aqui é um festival de imitações, tentando fazer aos homens algo parecido com aquilo que o próprio Deus fez ao longo da história com o fim de receber mais do que Deus recebeu em suas ações.

14       Seduz os que habitam sobre a terra por causa dos sinais que lhe foi dado executar diante da besta, dizendo aos que habitam sobre a terra que façam uma imagem à besta, àquela que, ferida à espada, sobreviveu; 15 e lhe foi dado comunicar fôlego à imagem da besta, para que não só a imagem falasse, como ainda fizesse morrer quantos não adorassem a imagem da besta.

Os milagres não param e as ações sobrenaturais continuam sendo usadas com o fim de causar espanto na humanidade. O jogo do sensacionalismo continuará a arrastar os incautos, iludidos pela mensagem sedutora e instantânea proporcionada pelo Diabo. Esta é uma clara ação anticristã.

16       A todos, os pequenos e os grandes, os ricos e os pobres, os livres e os escravos, faz que lhes seja dada certa marca sobre a mão direita ou sobre a fronte, 17 para que ninguém possa comprar ou vender, senão aquele que tem a marca, o nome da besta ou o número do seu nome. 18 Aqui está a sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. Ora, esse número é seiscentos e sessenta e seis.

Esta marca tem sido largamente discutida e explorada ao longo da história. Muita coisa tem sido dita e imaginada, desde os dias de João até os dias de hoje. O que o texto deixa claro é que ninguém poderá comprar comida ou fazer qualquer negócio sem a marca da besta. Isso provocará uma grande crise econômica e o povo de Deus não estará livre dessa crise.

Sobre o nome da besta e o número do seu nome, muita coisa tem sido dita e escrita. A despeito de todo exagero e absurdidade construída sobre o nome do Papa, sobre Adolf Hitler, sobre ex-presidentes norte-americanos, o que podemos ter por certo acerca desse “número de seu nome” é que nas línguas antigas, letras eram usadas como números. Assim, o nome de Jesus, por exemplo, somava 888. Curiosamente, é dito que o número do nome da besta soma 666. O próprio nome do imperador Nero (NERO CAESAR) quando escrito com as letras hebraicas somava 666. É provável que Nero não tenha sido a Besta, mas que esta será muito parecida com aquilo com que ele foi.

Sabemos, como já temos estudado até aqui, que o número 7 está ligado à perfeição. O número anterior, assim, está ligado àquilo que é quase perfeito, ou que deseja ser perfeito. Repetido três vezes, apresenta uma forma hiperlativa de deseja por tal perfeição.

Alguns têm sugerido que o número 6 seja o número da humanidade, criada à imagem e semelhança divina, quase perfeita aos olhos de Deus, coroa de sua criação (Salmo 8). Se isso estiver correto, penso que aqui tenhamos uma tentativa satânica (do Dragão) de possuir seres humanos com o fim de buscar através deles a perfeição, como se fossem uma nova criação, não mais à imagem e semelhança divina, mas de si mesmo. Assim, essa representação humana agirá contrariamente a tudo que foi um dia revelado pelo Senhor.

O número 666 talvez seja a maior de todas as paródias, ou, pelo menos, a mais famosa de todas em Apocalipse. O número perfeito seria 777. 666 seria uma paródia dessa perfeição. Somando o nome JESUS em alguns sistemas onde letras agem como números, teríamos o número acima da perfeição — 888.⁠2

Assim, a pessoa associada a este número também representará um sistema ao qual este número estará ligado. Haverá neste tempo perigo, possivelmente fome, tragédia, e, enfim, completa manipulação das consciências e ações dos seres humanos, os quais serão, finalmente, controlados quase totalmente pela ação do Diabo.

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1 Robert James Utley, Hope in Hard Times – The Final Curtain: Revelation, vol. Volume 12, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 2001), 98.

2 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 122.

CUIDADO: O DIABO QUER IMITAR JESUS (Comentário de Ap 13.1-10)

O diabo quer poder. Satanás quer ser igual a Deus. Em muitas ocasiões na Bíblia, o encontramos agindo de um modo imitador. No entanto, nenhum texto é tão explícito quanto o início do capítulo 13 de Apocalipse. Aqui, mais do que em qualquer outro lugar, encontramos Satanás agindo deliberada e milimetricamente com o objetivo de imitar a Cristo.

No entanto, por mais que ele venha a fazer coisas com o objetivo de ser como o filho de Deus, nunca deixará de ser um macaco de imitação.

Vejamos, então, as muitas tentativas satânicas do final dos tempos para ser como o filho de Deus.

Vi emergir do mar uma besta que tinha dez chifres e sete cabeças e, sobre os chifres, dez diademas e, sobre as cabeças, nomes de blasfêmia.A besta que vi era semelhante a leopardo, com pés como de urso e boca como de leão. E deu-lhe o dragão o seu poder, o seu trono e grande autoridade.Então, vi uma de suas cabeças como golpeada de morte, mas essa ferida mortal foi curada; e toda a terra se maravilhou, seguindo a besta;e adoraram o dragão porque deu a sua autoridade à besta; também adoraram a besta, dizendo: Quem é semelhante à besta? Quem pode pelejar contra ela?Foi-lhe dada uma boca que proferia arrogâncias e blasfêmias e autoridade para agir quarenta e dois meses;e abriu a boca em blasfêmias contra Deus, para lhe difamar o nome e difamar o tabernáculo, a saber, os que habitam no céu.Foi-lhe dado, também, que pelejasse contra os santos e os vencesse. Deu-se-lhe ainda autoridade sobre cada tribo, povo, língua e nação;e adorá-la-ão todos os que habitam sobre a terra, aqueles cujos nomes não foram escritos no Livro da Vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo.Se alguém tem ouvidos, ouça.

   Se alguém leva para cativeiro,

    para cativeiro vai.

    Se alguém matar à espada,

    necessário é que seja morto à espada.

Aqui está a perseverança e a fidelidade dos santos.

Ap 13.1–10

Vamos ao texto.

13.1       Vi emergir do mar uma besta que tinha dez chifres e sete cabeças e, sobre os chifres, dez diademas e, sobre as cabeças, nomes de blasfêmia.

Não há texto fácil em Apocalipse. Esse, certamente, é mais um texto difícil de compreendermos. No entanto, com base nas figuras que já recebemos em textos anteriores de Apocalipse, é possível que cheguemos à algumas conclusões bastante prováveis.

O texto começa com João tendo a visão de uma besta, ou seja, um demônio, saindo do mar. Não nos esqueçamos, como já vimos anteriormente, mar é também o símbolo de povos, além de ser símbolo de perigo, obscuridade, medo, etc. Trazendo à realidade, é possível que João esteja vendo uma força demoníaca saindo do meio dos homens.

Este monstro é poderoso. Ele possui dez chifres e sete cabeças e, sobre os chifres, dez diademas. Sem dúvida, o que temos aqui é uma paródia fajuta do diabo em tentar imitar a Deus. Como já vimos, chifres e cabeças possuem a ideia de poder e autoridade. Os diademas estão ligados à realeza. O diabo sempre quis usurpar a autoridade, poder e reino de Cristo. Como a Cristo ele não pode atingir, resta o seu povo que acaba sofrendo diretamente o ataque da besta em sua fúria contra aqueles que verdadeiramente reinam sobre este mundo.

O verso termina dizendo que, além dos elementos relacionados à usurpação pretendida pelo mal, havia muita blasfêmia na boca da besta, ou seja, dessa força demoníaca. 

No tempo de João, muitos, para não dizer todos, associavam esta besta com a própria Roma ou com a autoridade imperial que emergia da capital do Império Romano.

2       A besta que vi era semelhante a leopardo, com pés como de urso e boca como de leão. E deu-lhe o dragão o seu poder, o seu trono e grande autoridade.

Esta força demoníaca, seja ela Roma, seja ela uma força religiosa romana, seja ela um homem do futuro, seja ela o que for, é semelhante àquelas figuras já vistas no livro do profeta Daniel, associadas com os reinos do fim dos tempos.

Os animais são leopardo, urso, leão, além da própria besta. Muito parecido com os animais de Daniel 7. Lá, os animais são poderes, reinos, ou ainda, pessoas poderosas colocadas sobre reinos. Sendo eles reinos (Dn 7.23 — dá a impressão de serem reinos mesmo), então a figura da besta em Apocalipse seja provavelmente um reino também, ou semelhante a um reino.

Curiosamente, este reino recebe do dragão, ou seja, do próprio Satanás, poder, trono e autoridade. Mais uma vez, o que se tem é um desejo de usurpar o que pertence a Cristo. O que Satanás parece estar orquestrando é uma grande paródia onde ele atuaria como Cristo, procurando viver o que é de Cristo.

3       Então, vi uma de suas cabeças como golpeada de morte, mas essa ferida mortal foi curada; e toda a terra se maravilhou, seguindo a besta; 4 e adoraram o dragão porque deu a sua autoridade à besta; também adoraram a besta, dizendo: Quem é semelhante à besta? Quem pode pelejar contra ela?

Uma das cabeças desse reino é cortada. Na antiguidade, os que pensavam ser o Império Romano esta besta, afirmavam que estas cabeças eram os imperadores romanos. Talvez tenham sido. No entanto, é bastante possível que sejam líderes de um império futuro, um governo futuro, cheio de autoridade, cheio de arrogância.

Dentro dessa autoridade mundial anti-Deus, um líder será morto. No entanto, sua ferida mortal será curada. Mais uma vez, uma paródia do Evangelho. Não foi exatamente isso que aconteceu com Cristo? Ele não morreu e ressuscitou? Até isso Satanás irá imitar. O que temos diante de nós é um ser maligno querendo imitar o Salvador não com o desejo de glorificá-lo, mas com o desejo de ser adorado como ele foi, é e será.

O ponto do verso 4 é nos mostrar que muita gente reverenciará Satanás quando vir o que ele mesmo fez à esta cabeça que foi ferida, mas reviveu. O texto diz que toda a terra se maravilhou, seguindo a besta. Esse seguir a besta pode ser tanto um seguir literal — pessoas seguindo forças demoníacas —, como ser também pessoas seguindo por direções influenciadas pela ação demoníacas. Pessoas não necessariamente precisam seguir alguém, antes, basta que estejam vivendo no caminho do erro, no caminho articuladamente preparado pela besta.

A adoração ao dragão também não necessariamente tenha a ver com adoração ao próprio Satanás, algo bastante inimaginável — pelo menos, em nível mundial. Pode se referir também a um grupo de pessoas que adoram coisas que Satanás as influenciou para adorar.

O fato é que muitas pessoas admirarão e adorarão aquela autoridade que aparentemente ressuscitou. Darão a esta autoridade a mesma admiração que um dia foi dada a Jesus Cristo. De novo aqui, uma paródia, uma usurpação do que foi dado a Cristo.

5       Foi-lhe dada uma boca que proferia arrogâncias e blasfêmias e autoridade para agir quarenta e dois meses; 6 e abriu a boca em blasfêmias contra Deus, para lhe difamar o nome e difamar o tabernáculo, a saber, os que habitam no céu.

Foi dada à besta, ou seja, ao reino (à autoridade dentro desse reino que, aparentemente, foi morto, mas reviveu) uma boca que proferia arrogâncias e blasfêmias. Nada de surpresa aqui. Era de se esperar esta atitude de uma autoridade que não tem temor de Deus nem respeito por sua Palavra. A consequência quase sempre natural de quem está longe do caminho de Deus é a presunção, a arrogância e, ocasionalmente, blasfêmias contra Deus.

Outro ponto destacado é que esta autoridade — que está fazendo de tudo neste texto para usurpar aquilo que é de Cristo — é investida de poder para agir durante um determinado tempo (aqui representado por 42 meses). Durante esse tempo, não só agirá autoritariamente, mas tornará pública as blasfêmias contra Deus, difamando o nome santo de Deus e difamando o povo de Deus, tanto os que estão na terra quanto os que estão nos céus. É isso que significa difamar o tabernáculo. O fato dessa autoridade estar não somente dizendo coisas, mas agindo (por 42 meses) denote talvez uma espécie de perseguição por parte deste governo aqui simbolizado na figura de uma besta.

7       Foi-lhe dado, também, que pelejasse contra os santos e os vencesse. Deu-se-lhe ainda autoridade sobre cada tribo, povo, língua e nação; 8 e adorá-la-ão todos os que habitam sobre a terra, aqueles cujos nomes não foram escritos no Livro da Vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo.

Aqui no verso 7 fica mais clara a intensão de perseguição. A besta pelejará contra o povo de Deus e os vencerá, os matará. Este governo sem temor de Deus, ímpio, guiado pela sedução de Satanás, o dragão, agirá autoritariamente contra todos na terra, cada tribo, povo, língua e nação (símbolo de “o mundo todo”).

Algo interessante que é anunciado é que aqueles que não forem mortos neste tempo de perseguição passarão a adorar a besta, tal como Cristo é digno de adoração.

Outro ponto interessantíssimo é o fato de João receber a revelação de que as pessoas que são inscritas no Livro da Vida não o são no momento de suas conversões. Pelo texto sagrado, estas pessoas já estão neste chamado Livro da Vida do Cordeiro desde a fundação do mundo. Desde a fundação do mundo o famoso Livro da Vida já contempla os que hão de ser salvos ou não. Isso se encaixa perfeitamente com a doutrina da eleição eterna pela graça soberana de Deus.

9       Se alguém tem ouvidos, ouça. 10 Se alguém leva para cativeiro, para cativeiro vai. Se alguém matar à espada, necessário é que seja morto à espada. Aqui está a perseverança e a fidelidade dos santos.

A famosa exortação. Um chamado a que todos prestemos atenção ao que nos tem sido dito. Ouvir aqui não significa apenas receber pela audição o som que é transmitido por outro. Ouvir tem a ver com apreender o que é anunciado, abraçar e seguir as orientações que lhes foram passadas.

O verso 10 é uma palavra de preparação aos ouvintes da época de João a que eles não devessem estranhar o cativeiro e o martírio caso eles viessem. Que glorificassem a Deus mesmo nestas situações difíceis e tristes. Mas que eles perseverassem e continuassem fieis a Cristo, mesmo em meio à toda tentação e tribulação. O que demonstra que alguém está no Livro da Vida, se é santo ou não, é a perseverança e a fidelidade.

DE QUE LADO VOCÊ ESTÁ? … OU: O QUE DEUS DIZ SOBRE OS SEUS? O QUE FAZEM? COMO VIVEM? (Comentário de Ap 12.7-17)

Só existem dois lados para se estar aos olhos de Deus. Não se trata de maniqueísmo, mas de posição. Ou se está do lado de Deus ou se está do lado da antiga serpente. Sensatamente, todos diriam estão do lado de Deus. Mas, o que significa estar do lado de Deus? Será que o próprio Deus tem algo a dizer sobre aqueles que estão ao seu lado? O que fazem? Como vivem?

A visão que João tem neste pequeno trecho nos ajuda a compreender um pouco disso.

Houve peleja no céu. Miguel e os seus anjos pelejaram contra o dragão. Também pelejaram o dragão e seus anjos;todavia, não prevaleceram; nem mais se achou no céu o lugar deles.E foi expulso o grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, o sedutor de todo o mundo, sim, foi atirado para a terra, e, com ele, os seus anjos.Então, ouvi grande voz do céu, proclamando:

    

Agora, veio a salvação, o poder,

    o reino do nosso Deus

    e a autoridade do seu Cristo,

    pois foi expulso o acusador de nossos irmãos,

    o mesmo que os acusa de dia e de noite, diante do nosso Deus.

   Eles, pois, o venceram por causa do sangue do Cordeiro

    e por causa da palavra do testemunho que deram

    e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida.

   Por isso, festejai, ó céus,

    e vós, os que neles habitais.

    Ai da terra e do mar,

    pois o diabo desceu até vós,

    cheio de grande cólera,

    sabendo que pouco tempo lhe resta.

Quando, pois, o dragão se viu atirado para a terra, perseguiu a mulher que dera à luz o filho varão;e foram dadas à mulher as duas asas da grande águia, para que voasse até ao deserto, ao seu lugar, aí onde é sustentada durante um tempo, tempos e metade de um tempo, fora da vista da serpente.Então, a serpente arrojou da sua boca, atrás da mulher, água como um rio, a fim de fazer com que ela fosse arrebatada pelo rio.A terra, porém, socorreu a mulher; e a terra abriu a boca e engoliu o rio que o dragão tinha arrojado de sua boca.Irou-se o dragão contra a mulher e foi pelejar com os restantes da sua descendência, os que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus; e se pôs em pé sobre a areia do mar.

Ap 12.7–17

Vamos ao texto, verso a verso.

7       Houve peleja no céu. Miguel e os seus anjos pelejaram contra o dragão. Também pelejaram o dragão e seus anjos; 8 todavia, não prevaleceram; nem mais se achou no céu o lugar deles. 9 E foi expulso o grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, o sedutor de todo o mundo, sim, foi atirado para a terra, e, com ele, os seus anjos.

  

Há alguns textos atrás, comentei algo que N.T.Wright disse sobre o quebra-cabeças que é o livro de Apocalipse. O quebra cabeças desse trecho das Escrituras parece apontar para dois grupos bastante diferentes envolvidos em uma vitória.

O texto começa com a expressão houve peleja no céu, algo inimaginável para nós. Aparentemente, Miguel é o arcanjo de Dn 10. Ele convocou todos os anjos do céu para lugar contra o dragão que apareceu nos versos do início do capítulo.

De acordo com vários comentaristas, todas as batalhas espirituais e morais que se desenrolam neste mundo são uma espécie de reflexo dessa antiga batalha existente na esfera espiritual. Nesta esfera, Miguel venceu e o dragão perdeu. Com sua derrota, é expulso do céu e lançado sobre a terra⁠1. Sobre a terra, existe como um sedutor de todo o mundo.

10       Então, ouvi grande voz do céu, proclamando:

     Agora, veio a salvação, o poder,

     o reino do nosso Deus

     e a autoridade do seu Cristo,

     pois foi expulso o acusador de nossos irmãos,

     o mesmo que os acusa de dia e de noite, diante do nosso Deus. 11 Eles, pois, o venceram por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida. 12 Por isso, festejai, ó céus,

     e vós, os que neles habitais.

     Ai da terra e do mar,

     pois o diabo desceu até vós,

     cheio de grande cólera,

     sabendo que pouco tempo lhe resta.

Algo muito interessante acontece após a descrição da queda de Satanás. Uma canção de vitória é entoada por aqueles que venceram, os quais, curiosamente, não são anjos, mas seres humanos que, antes, eram acusados por Satanás.

Interessantemente, o crédito da vitória é dado ao povo de Deus na terra, e não a Miguel. O que será que isso quer nos mostrar?

O texto diz no verso 11 eles, pois, o venceram por causa do sangue do Cordeiro. Eles quem? Venceram a quem? Eles só pode ser o povo de Deus (por causa do sangue do Cordeiro). E aquele a quem eles venceram só pode ser Satanás, o acusador, a antiga serpente, ou ainda, o dragão.

Então, quem é que derrotou o dragão, os mártires ou Miguel com seus anjos? Wright afirma que, em certo sentido, ambos derrotaram. A realidade espiritual na qual batalham anjos e demônios de certo modo desceu sobre a humanidade levando alguns a vencerem, ou seja, a glorificarem a Deus mesmo em face da própria morte. Pessoas vencem o dragão glorificando a Deus em suas vidas e em suas mortes.

São estes que não cansam de celebrar a grande vitória de Cristo em sua morte e ressurreição, não deixando espaço para qualquer acusação quer sobre céus quer sobre a terra.

13       Quando, pois, o dragão se viu atirado para a terra, perseguiu a mulher que dera à luz o filho varão; 14 e foram dadas à mulher as duas asas da grande águia, para que voasse até ao deserto, ao seu lugar, aí onde é sustentada durante um tempo, tempos e metade de um tempo, fora da vista da serpente. 15 Então, a serpente arrojou da sua boca, atrás da mulher, água como um rio, a fim de fazer com que ela fosse arrebatada pelo rio. 16 A terra, porém, socorreu a mulher; e a terra abriu a boca e engoliu o rio que o dragão tinha arrojado de sua boca.

Aqui, os versos dão um outro ângulo desta batalha. O dragão é o acusador e aquele que, agora, também é perseguidor. O dragão persegue a mulher no sentido em que Satanás persegue o povo de Deus. O verso 14 nos diz que à mulher foram dadas duas asas para que ela voasse até ao deserto, algo parecido ao que Deus fez com seu povo no período do Êxodo, quando eles saíram do Egito em direção à Terra Prometida.

Neste deserto (símbolo tanto de perseguição quanto provação e preparação), o povo de Deus seria sustentado pelo próprio Deus pela metade de um tempo perfeito aos olhos de Deus (é isso que significa um tempo, tempos e metade de um tempo). Fora da vista da serpente, ou seja, sem que Satanás possa tocar-lhes sem a permissão de Deus.

A partir do verso 15, sabemos que Satanás fará o que puder para destruir este povo. Ele abre “sua boca” da qual sai águas como correnteza de um rio com o objetivo de levar este povo e destrui-lo. No verso 16, no entanto, vemos que a terra socorreu a mulher.

João está tentando colocar seus leitores dentro do drama, está tentando conscientizar seus leitores de que eles são parte do que está acontecendo. Os cristãos de então deveriam esperar que o Dragão viria sobre eles, que os acusaria e os seduziria tão violentamente quando um tsunami. Os olhos de Deus, no entanto, não se apartariam de sobre seu povo.

O impressionante é a expressão a terra, porém, socorreu a mulher; e a terra abriu a boca e engoliu o rio. A terra vem em resgate da mulher, ou seja, a criação parece estar ao lado de Deus e de seu povo.⁠2

17       Irou-se o dragão contra a mulher e foi pelejar com os restantes da sua descendência, os que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus; e se pôs em pé sobre a areia do mar.

O que se esperava com estas últimas palavras é que a comunidade cristã esperasse por mais perseguição, mais ataques, falsas acusações, etc. Veja a expressão do verso 12:

     Ai da terra e do mar,

     pois o diabo desceu até vós,

     cheio de grande cólera,

     sabendo que pouco tempo lhe resta.

Ela indica que sobre a criação e sobre os seres humanos, o diabo está agindo. A visão que João tem nesse final de capítulo objetiva encorajar e alertar seus leitores, tanto aqueles daqueles dias quanto os de um tempo futuro, a esperar por perseguição. O dragão está, em seus últimos dias antes do juízo final, agindo sobre o mar.

Mar para o pensamento judeu antigo poderia significar duas coisas:

1. Lugar obscuro e perigoso;

2. Povos da terra.

Ambas podem ser aplicadas a este texto. A ira do dragão é apenas contra os que fazem duas coisas:

1. Os que guardam os mandamentos do Senhor;

2. Os que têm o testemunho de Jesus.

Isso aponta também para aqueles que são verdadeiramente o povo de Deus na terra. Ou se está deste lado, onde a antiga serpente continua a tentar destruir, ou se está do lado dela, do lado da sedução, da cegueira, da perdição e juízo. De qual lado você está?

______________

 

1 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 111.

2 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 113.

A IGREJA E SUA HISTÓRIA DE SOFRIMENTO (Comentário de Ap 12.1-6)

João está no início de uma grande visão na qual Cristo, Satanás e a igreja estão envolvidos. O que ele vê aqui pode ser tanto aplicado a algo que já aconteceu em um passado distante, como a algo que sempre tem acontecido com o povo da aliança. No final, o que se descobre é que o Senhor sempre sustenta os seus. Seja Cristo em sua encarnação, humilhação, paixão, morte e exaltação, seja a sua igreja em momentos de paz e perseguição. Os seus, sempre estarão em suas mãos. Vejamos como isso ficou claro para João em sua visão apocalíptica.

Viu-se grande sinal no céu, a saber, uma mulher vestida do sol com a lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça,que, achando-se grávida, grita com as dores de parto, sofrendo tormentos para dar à luz.Viu-se, também, outro sinal no céu, e eis um dragão, grande, vermelho, com sete cabeças, dez chifres e, nas cabeças, sete diademas.A sua cauda arrastava a terça parte das estrelas do céu, as quais lançou para a terra; e o dragão se deteve em frente da mulher que estava para dar à luz, a fim de lhe devorar o filho quando nascesse.Nasceu-lhe, pois, um filho varão, que há de reger todas as nações com cetro de ferro. E o seu filho foi arrebatado para Deus até ao seu trono.A mulher, porém, fugiu para o deserto, onde lhe havia Deus preparado lugar para que nele a sustentem durante mil duzentos e sessenta dias.

Ap 12.1–6

Vamos ao texto.

12.1       Viu-se grande sinal no céu, a saber, uma mulher vestida do sol com a lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça, 2 que, achando-se grávida, grita com as dores de parto, sofrendo tormentos para dar à luz.

Este grande sinal visto no céu provavelmente aponta para o início de uma nova visão sobre o fim. De acordo com alguns comentaristas, o céu no qual a visão acontece trata-se do céu que vemos sobre nossas cabeças, e não o céu onde Deus habita.⁠1

A mulher vestida do sol, ou seja, uma mulher cheia de luz, simboliza o próprio povo de Deus, mais especificamente, a igreja. Há muitas teorias sobre quem seria esta mulher. Alguns sugerem ser o povo de Israel que, em Mq 4.10, é tratado como uma mulher que está para dar à luz uma criança. Outros sugerem que seja a própria noiva de Cristo, a igreja, também tratada como uma mulher no Novo Testamento. Outros ainda consideravam o próprio monte Sião como a mãe Sião.

João, no entanto, provavelmente esteja entendendo esta mulher como aquela que representa a mãe da comunidade messiânica, do povo que crê em Deus, tanto na antiga quanto na nova aliança.

Sobre as doze estrelas na cabeça, o número doze é um símbolo apocalíptico que sempre aparece associado tanto às doze tribos de Israel como aos doze discípulos de Cristo. Também é visto como o número prefeito de uma organização, ou, de uma organização perfeita.

Ela estava grávida, com dores de parto, associadas provavelmente aos eventos que estavam por vir. Antes da chegada de algo novo, uma tribulação teria seu lugar, assim como o nascimento de uma criança. O que nos parece é que os eventos mundiais ficarão cada vez piores Deus, no entanto, permanecerá no controle sobre todas as coisas. Tanto pré-milenistas quanto amilenistas concordam com isso. Apenas os pós-milenistas possuem uma visão mais otimista do futuro.

Em meio às grandes tribulações dos últimos dias, seu povo será guardado. Como pontuou Robert Utley:

A pergunta é: “Como Deus vai proteger seus seguidores?” O selo em suas testas os protegerá “da ira de Deus”, mas não das perseguições dos incrédulos (tribulação). Deus é por eles, com eles, e os amará, mas eles, ainda assim, vão morrer!⁠2

3       Viu-se, também, outro sinal no céu, e eis um dragão, grande, vermelho, com sete cabeças, dez chifres e, nas cabeças, sete diademas.

Após a visão que se passou, João vê um outro grande sinal no céu. Agora, a figura não é mais de um anjo, mas de um dragão monstruoso, vermelho, com sete cabeças, dez chifres e sete diademas.

Obviamente, essa também é uma visão simbólica dentro da literatura apocalíptica. Essa é claramente uma descrição do mal e de seu grande poder. Cabeças e chifres simbolizam um poder perfeito. Os diademas representam o desejo de Satanás de usurpar a posição real de Cristo.

Aquele que representa o dragão aqui é o mesmo que representou a serpente no Antigo Testamento. Estes são os dois grandes monstros do caos.

4       A sua cauda arrastava a terça parte das estrelas do céu, as quais lançou para a terra; e o dragão se deteve em frente da mulher que estava para dar à luz, a fim de lhe devorar o filho quando nascesse.

Como no Antigo Testamento o termo estrelas do céu é às vezes associado aos santos de Deus, alguns sugerem que que Satanás tenha arrastado com sua cauda um terço dos santos (Gn 15.5, Jr 33.22, Dn 12.3). No entanto, o contexto aqui de Apocalipse sugere que estrelas do céu esteja ligado a anjos caído e não a homens. A presença de anjos caídos é comum na literatura apocalíptica.⁠3

Sendo a mulher como o povo de Deus (tanto do AT quanto do NT) e o dragão Satanás, sabemos que Satanás se deteve em frente ao povo eleito (que estava para dar à luz). Esta criança, de acordo com o verso 5, é o próprio Messias, que vem do povo de Deus (AT). O que se infere daqui é que Satanás possui planos para destruir o povo e os intentos do Senhor de resgate e redenção deste povo.

 

5       Nasceu-lhe, pois, um filho varão, que há de reger todas as nações com cetro de ferro. E o seu filho foi arrebatado para Deus até ao seu trono.

Mais uma vez, com a menção da regência deste filho sobre todas as nações com cetro de ferro, entendemos que o filho é o próprio Senhor Jesus. Este veio do povo de Deus (judeus) como profetizado no Antigo Testamento.

O foco de João aqui é ir da encarnação à exaltação, sem passar pela humilhação. Não há problemas nisso, visto que o foco de João em Apocalipse é apresentar mais o Cristo glorificado, em seu poder e soberania, o qual virá em breve para julgar os vivos e os mortos. Seu ponto nessa passagem é apenas demonstrar que aquele que encarnou e que foi assediado pelo diabo também foi exaltado (após sua ressurreição) pelo próprio Pai até ao seu trono.

6       A mulher, porém, fugiu para o deserto, onde lhe havia Deus preparado lugar para que nele a sustentem durante mil duzentos e sessenta dias.

É quase impossível não fazer associação aqui com a passagem do povo de Deus no A.T. pelo deserto do Sinai. No entanto, é possível entender que todo o povo de Deus acaba por passar por um período de deserto, ou, de perseguição e preparação.

O ponto deste verso é apresentar o cuidado de Deus sobre a mulher, sustentando-a durante a metade de um tempo (metade de 7 anos — 3 anos e meio, ou ainda, 1260 dias). Durante esse tempo simbólico me que seu povo seria perseguido, Deus não deixaria de sustentá-los.

Assim tem sido ao longo da história. O povo de Deus sempre foi perseguido e atacado por aqueles em quem existe o mesmo ódio que existiu naqueles que quiseram a morte de Jesus. Assim como Jesus foi sustentado, guardado e levado, a mulher igualmente seria sustentada, guardada e, por fim, levada. No entanto, assim como Cristo sofreu e morreu debaixo da fúria do dragão, a igreja também passará por sofrimento e morte.

 

1 Robert James Utley, Hope in Hard Times – The Final Curtain: Revelation, vol. Volume 12, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 2001), 89.

2 Robert James Utley, Hope in Hard Times – The Final Curtain: Revelation, vol. Volume 12, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 2001), 89–90.

3 Robert James Utley, Hope in Hard Times – The Final Curtain: Revelation, vol. Volume 12, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 2001), 90.

O FIM DO MUNDO (Comentário de Ap 11.15-19)

A Bíblia fala muito sobre a última trombeta. Veja alguns exemplos:

1Co 15.51–52: Eis que vos digo um mistério: nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta. A trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados.

Este texto diz para nós que, no tocar da última trombeta, todos seremos glorificados. No ressoar da última trombeta, se cumprirá a profecia da ressurreição dos mortos e glorificação dos corpos de todos os santos da história. Outro texto diz assim:

1Ts 4.15–17: Ora, ainda vos declaramos, por palavra do Senhor, isto nós, os vivos, os que ficarmos até à vinda do Senhor, de modo algum precederemos os que dormem. Porquanto o Senhor mesmo, dada a sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo, e ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; depois, nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares, e, assim, estaremos para sempre com o Senhor.

Aos tessalonicenses, Paulo afirma que o arrebatamento da igreja acontecerá no ressoar da trombeta de Deus, e que o mesmo acontecerá no mesmo momento da ressurreição. Olhando para o que Cristo disse em Mt 24, sabemos que essa vinda será sobre as nuvens do céu, com poder e muita glória.

Mt 24.29–31: Logo em seguida à tribulação daqueles dias, o sol escurecerá, a lua não dará a sua claridade, as estrelas cairão do firmamento, e os poderes dos céus serão abalados. Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e muita glória. E ele enviará os seus anjos, com grande clangor de trombeta, os quais reunirão os seus escolhidos, dos quatro ventos, de uma a outra extremidade dos céus.

Assim, o evento relacionado ao tocar da última trombeta está associado com a soberania, o reino, o poder e majestade que pertencem ao único verdadeiro Deus e seu Cristo, seu Messias, e sobre como este Deus tomou o poder e reino das mãos dos homens e passou a reinar pelos séculos dos séculos. Neste texto de Apocalipse, é a última vez que a palavra trombeta aparece na Bíblia. Esta é uma pequena janela do dia do fim deste presente mundo.

Vamos ao texto.

O sétimo anjo tocou a trombeta, e houve no céu grandes vozes, dizendo:

    O reino do mundo se tornou de nosso Senhor

    e do seu Cristo,

    e ele reinará pelos séculos dos séculos.

E os vinte e quatro anciãos que se encontram sentados no seu trono, diante de Deus, prostraram-se sobre o seu rosto e adoraram a Deus,dizendo:

    Graças te damos, Senhor Deus, Todo-Poderoso,

    que és e que eras,

    porque assumiste o teu grande poder

    e passaste a reinar.

   Na verdade, as nações se enfureceram;

    chegou, porém, a tua ira,

    e o tempo determinado para serem julgados os mortos,

    para se dar o galardão aos teus servos, os profetas,

    aos santos e aos que temem o teu nome,

    tanto aos pequenos como aos grandes,

    e para destruíres os que destroem a terra.

Abriu-se, então, o santuário de Deus, que se acha no céu, e foi vista a arca da Aliança no seu santuário, e sobrevieram relâmpagos, vozes, trovões, terremoto e grande saraivada.

Ap 11.15–19

Vejamos o texto, verso a verso.

15       O sétimo anjo tocou a trombeta, e houve no céu grandes vozes, dizendo:

     O reino do mundo se tornou de nosso Senhor

     e do seu Cristo,

     e ele reinará pelos séculos dos séculos.

Chegou o tempo em que a última trombeta tocará. Quando o sétimo anjo a tocou, João ouviu grandes vozes no céu, diferentemente daquele tempo de silêncio, dizendo algo sobre o reino do mundo e o reino de Cristo, algo que, talvez, tenha a ver com a cidade santa e a cidade deste mundo.

O texto diz que o reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo. Isso descreve o fim de um reino humano caído, o fim de um tempo em que os homens governaram e o início de um tempo em que o próprio Deus governará.

O tempo em que o Senhor governará está no final de cada um dos três elementos que aparecem em Apocalipse. Ao final dos selos (6.12-17), das trombetas (11.15-18), e das taças (19), o demonstra os três ângulos que João está vendo sobre o fim.

Assim, Apocalipse não é um livro cronológico. Os eventos não estão em uma sequência lógica. O que temos aqui é um drama apresentado em três ciclos, três ângulos de um mesmo período ou evento. A diferença entre os três ângulos de visão está na intensidade em que os níveis de julgamento são mencionados.⁠1

Com o início do Reino de Cristo que reinará pelos séculos dos séculos, não temos um reino milenar ou qualquer reino que dure apenas por um tempo. Temos o início de uma eternidade, de um reino eternal de nosso Deus, como dito por profetas e apóstolos:

Isaías 9.6–7: Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz;7para que se aumente o seu governo, e venha paz sem fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reino, para o estabelecer e o firmar mediante o juízo e a justiça, desde agora e para sempre. O zelo do SENHOR dos Exércitos fará isto.

Daniel 2.44: Mas, nos dias destes reis, o Deus do céu suscitará um reino que não será jamais destruído; este reino não passará a outro povo; esmiuçará e consumirá todos estes reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre,

Lucas 1.33: ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu reinado não terá fim.

1Tessalonicenses 4.17: depois, nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares, e, assim, estaremos para sempre com o Senhor.

2Pedro 1.11: Pois desta maneira é que vos será amplamente suprida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

O que teremos aqui é o cumprimento final do pedido de Cristo em sua oração mais conhecida (Mt 6.10).⁠2

16       E os vinte e quatro anciãos que se encontram sentados no seu trono, diante de Deus, prostraram-se sobre o seu rosto e adoraram a Deus, 17 dizendo:

     Graças te damos, Senhor Deus, Todo-Poderoso,

     que és e que eras,

     porque assumiste o teu grande poder

     e passaste a reinar.

Veja a diferença desse texto com Ap 1.4:

João, às sete igrejas que se encontram na Ásia, graça e paz a vós outros, da parte daquele que é, que era e que há de vir, da parte dos sete Espíritos que se acham diante do seu trono.

A expressão “que há de vir” não aparece mais aqui no capítulo 11. A razão é simples. Com o toque da sétima trombeta, Cristo já veio. Aqui, Cristo é apresentado com aquele que é e que era, e que, enfim, passaste a reinar.

O testemunho muitas vezes sofredor da igreja cheia de mártires enfim demonstra ao mundo que Deus é Deus de verdade, e que Jesus é o Senhor e Rei sobre todos e tudo.⁠3 O reino enfim está em sua plenitude agora.

18       Na verdade, as nações se enfureceram;

     chegou, porém, a tua ira,

     e o tempo determinado para serem julgados os mortos,

     para se dar o galardão aos teus servos, os profetas,

     aos santos e aos que temem o teu nome,

     tanto aos pequenos como aos grandes,

     e para destruíres os que destroem a terra.

A fúria das nações pode ser vista de duas maneiras:

1. O sistema deste mundo caído odeia a Deus e seus planos e regras, bem como seu povo que as segue;

2. Haverá uma espécie de rebelião do tempo do fim contra Deus caracterizada em outro lugar como a batalha do Armagedom.

Chegou o tempo determinado. Este é o Dia do Senhor, o dia do julgamento para alguns e de recompensa para outros (para se dar o galardão aos teus servos, os profetas, aos santos e aos que temem o teu nome). Este é o tempo popularmente conhecido como Juízo Final. Há dois textos que o apresentam.

Mateus 25.31–46: 31Quando vier o Filho do Homem na sua majestade e todos os anjos com ele, então, se assentará no trono da sua glória;32e todas as nações serão reunidas em sua presença, e ele separará uns dos outros, como o pastor separa dos cabritos as ovelhas;33e porá as ovelhas à sua direita, mas os cabritos, à esquerda;34então, dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo.35Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes;36estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me.37Então, perguntarão os justos: Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? Ou com sede e te demos de beber?38E quando te vimos forasteiro e te hospedamos? Ou nu e te vestimos?39E quando te vimos enfermo ou preso e te fomos visitar?40O Rei, respondendo, lhes dirá: Em verdade vos afirmo que, sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.41Então, o Rei dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos.42Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber;43sendo forasteiro, não me hospedastes; estando nu, não me vestistes; achando-me enfermo e preso, não fostes ver-me.44E eles lhe perguntarão: Senhor, quando foi que te vimos com fome, com sede, forasteiro, nu, enfermo ou preso e não te assistimos?45Então, lhes responderá: Em verdade vos digo que, sempre que o deixastes de fazer a um destes mais pequeninos, a mim o deixastes de fazer.46E irão estes para o castigo eterno, porém os justos, para a vida eterna.

Apocalipse 20.11–15: 11Vi um grande trono branco e aquele que nele se assenta, de cuja presença fugiram a terra e o céu, e não se achou lugar para eles.12Vi também os mortos, os grandes e os pequenos, postos em pé diante do trono. Então, se abriram livros. Ainda outro livro, o Livro da Vida, foi aberto. E os mortos foram julgados, segundo as suas obras, conforme o que se achava escrito nos livros.13Deu o mar os mortos que nele estavam. A morte e o além entregaram os mortos que neles havia. E foram julgados, um por um, segundo as suas obras.14Então, a morte e o inferno foram lançados para dentro do lago de fogo. Esta é a segunda morte, o lago de fogo.15E, se alguém não foi achado inscrito no Livro da Vida, esse foi lançado para dentro do lago de fogo.

Todos os seres humanos estarão diante de Deus neste dia e darão contas de suas vidas:

2Coríntios 5.10: Porque importa que todos nós compareçamos perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito por meio do corpo.

Hebreus 4.13: E não há criatura que não seja manifesta na sua presença; pelo contrário, todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar contas.

    

Tudo o que resta agora, após o toque da última trombeta, é destruir os que destroem a terra. Este é, na linguagem das trombetas, o último momento de julgamento do pecado. Este julgamento é o julgamento do Criador contra todos que roubaram sua criação e a destruíram, fazendo dela o que bem quiseram e não que o Ele disse que deveria ser feito. Aqueles que fizeram de si mesmos e das demais coisas criadas o que bem quiseram, o que seus corações desejaram, se a preocupação com a vontade do Criador.

Deus, o tempo todo tem demonstrado seu desejo de resgatar e restaurar sua criação das forças que agem neste mundo de um modo contrário à criação. Trata-se de um julgamento dos que são anti-criação, anti-matéria, anti-vida. É um tempo para destruir os destruidores, um tempo para matar a morte e seu poder.

19       Abriu-se, então, o santuário de Deus, que se acha no céu, e foi vista a arca da Aliança no seu santuário, e sobrevieram relâmpagos, vozes, trovões, terremoto e grande saraivada.

Este verso ao mesmo tempo encerra esta passagem e o toque das trombetas, bem como dá início a uma nova seção de visão que João terá até o final do livro. A história que começará no próximo capítulo nada mais é do que o mesmo que já foi visto, só que agora sob um novo ângulo, uma outra maneira de visualizar.⁠4

O texto termina com a visão do santuário de Deus que, como vimos no texto anterior, pode estar relacionado com a igreja, o Corpo de Cristo, também chamado no N.T. de templo ou santuário de Deus. Este, agora, é visto no céu. Dentre deste santuário, ou seja, junto a este povo, é vista a arca da Aliança, símbolo no Antigo Testamento da presença de Deus e de sua misericórdia sobre o povo.

Ao ver tudo isso, João vê uma série de fenômenos amedrontadores no céus (relâmpago, trovões, grande saraivada) e na terra (vozes e terremoto).

Apocalipse tem a ver com a vinda e plenitude do Reino de Deus. Este povo que é resgatado pelo Senhor e que é visto por João voltará com Cristo e habitará eternamente o novo céu e nova terra, terra essa restaurada. Esqueça, assim, toda ideia de que você e eu moraremos para sempre no céu. Não haverá distinção entre céu e terra quando começar o período do novo céu e nova terra. Viveremos nesta terra restaurada, com o próprio Deus e seus anjos.

Todos estes relâmpagos, vozes, trovões, terremoto e grande saraivada servem para mostrar (simbolicamente) a transição de um momento para outro. Agora, finalmente, Deus reinará para todo sempre sobre todos os homens e sua vontade será feita na terra assim como é feita nos céus.

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1 Robert James Utley, Hope in Hard Times – The Final Curtain: Revelation, vol. Volume 12, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 2001), 84.

2 Robert James Utley, Hope in Hard Times – The Final Curtain: Revelation, vol. Volume 12, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 2001), 84.

3 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 105.

4 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 103.

O TESTEMUNHO QUE JAMAIS PODERÁ SER CALADO! (Comentário Ap 11.1-14)

Como escreveu N.T.Wright, se  para muitos a Bíblia é um quebra-cabeças cujas peças devem ser corretamente colocadas a fim de serem compreendidas, o livro de Apocalipse seria a parte mais difícil desse quebra-cabeças. E, de Apocalipse, sem dúvida o que acontece a partir do capítulo 11 torna o quebra-cabeça ainda mais difícil.

Só é possível compreendê-lo quando visto à luz dos textos anteriores, inclusive, de livros anteriores na própria Escritura. Mais uma vez, o que vemos neste texto é a misericórdia de Deus seguindo seu juízo contra o pecado dos homens.

Vamos ao texto.

Foi-me dado um caniço semelhante a uma vara, e também me foi dito: Dispõe-te e mede o santuário de Deus, o seu altar e os que naquele adoram;mas deixa de parte o átrio exterior do santuário e não o meças, porque foi ele dado aos gentios; estes, por quarenta e dois meses, calcarão aos pés a cidade santa.

Darei às minhas duas testemunhas que profetizem por mil duzentos e sessenta dias, vestidas de pano de saco.São estas as duas oliveiras e os dois candeeiros que se acham em pé diante do Senhor da terra.Se alguém pretende causar-lhes dano, sai fogo da sua boca e devora os inimigos; sim, se alguém pretender causar-lhes dano, certamente, deve morrer.Elas têm autoridade para fechar o céu, para que não chova durante os dias em que profetizarem. Têm autoridade também sobre as águas, para convertê-las em sangue, bem como para ferir a terra com toda sorte de flagelos, tantas vezes quantas quiserem.Quando tiverem, então, concluído o testemunho que devem dar, a besta que surge do abismo pelejará contra elas, e as vencerá, e matará,e o seu cadáver ficará estirado na praça da grande cidade que, espiritualmente, se chama Sodoma e Egito, onde também o seu Senhor foi crucificado.Então, muitos dentre os povos, tribos, línguas e nações contemplam os cadáveres das duas testemunhas, por três dias e meio, e não permitem que esses cadáveres sejam sepultados.Os que habitam sobre a terra se alegram por causa deles, realizarão festas e enviarão presentes uns aos outros, porquanto esses dois profetas atormentaram os que moram sobre a terra.Mas, depois dos três dias e meio, um espírito de vida, vindo da parte de Deus, neles penetrou, e eles se ergueram sobre os pés, e àqueles que os viram sobreveio grande medo;e as duas testemunhas ouviram grande voz vinda do céu, dizendo-lhes: Subi para aqui. E subiram ao céu numa nuvem, e os seus inimigos as contemplaram.Naquela hora, houve grande terremoto, e ruiu a décima parte da cidade, e morreram, nesse terremoto, sete mil pessoas, ao passo que as outras ficaram sobremodo aterrorizadas e deram glória ao Deus do céu.

Passou o segundo ai. Eis que, sem demora, vem o terceiro ai.

Ap 11.1–14

João, que antes era apenas um expectador, agora se torna um participante daquilo que acontece na visão celestial.

1     Foi-me dado um caniço semelhante a uma vara, e também me foi dito: Dispõe-te e mede o santuário de Deus, o seu altar e os que naquele adoram; 

João deveria medir o santuário de Deus, o seu altar e os que adoram neste santuário. João deveria medir não somente o lugar, mas as pessoas que nele estavam. De acordo com Wright⁠1 e Utley⁠2 (e muitos outros comentaristas), esse templo não tem nada a ver com o templo de Jerusalém ou com o templo celestial visto no início do livro de Apocalipse.

Como no início do cristianismo os seguidores de Cristo viam a si mesmos como o verdadeiro templo, o lugar onde Deus agora vive através de Seu Espírito, João provavelmente estaria medindo a comunidade do povo de Deus, o verdadeiro templo do Senhor.

Aqui, provavelmente exista uma relação com o texto de Zacarias 2 no qual pareça existir a imagem da Nova Jerusalém e do povo que nela está. Há uma nova terminologia, incomum, nesta passagem de Apocalipse. Ao contrários das visões em Ezequiel e Zacarias, o que é medido não é apenas o lugar, mas as pessoas que estão neste lugar. Provavelmente, as pessoas sejam o próprio lugar.

     

2 mas deixa de parte o átrio exterior do santuário e não o meças, porque foi ele dado aos gentios; estes, por quarenta e dois meses, calcarão aos pés a cidade santa. 3 Darei às minhas duas testemunhas que profetizem por mil duzentos e sessenta dias, vestidas de pano de saco. 4 São estas as duas oliveiras e os dois candeeiros que se acham em pé diante do Senhor da terra.

42 meses, ou 1260 dias, ou ainda 3 anos e meio. Esse tempo é exatamente a metade de 7 anos, simbolicamente, um tempo perfeito, inteiro, completo. Durante metade desse tempo que, literalmente, ninguém sabe quanto é, os gentios que não são contados com “o templo” calcarão aos pés a cidade santa.

A cidade santa aqui, provavelmente não tenha a ver com Jerusalém ou Roma, mas com o próprio povo de Deus (vide Ap 3.12). Este povo seria oprimido e perseguido pelos de fora (simbolizado pelos gentios). Estes não podem ser medidos pois não fazem parte “do templo” do Senhor.

É então que surgem as duas testemunhas que, de acordo com verso 4, são as duas oliveiras e os dois candeeiros que se acham em pé diante do Senhor da terra. Há muitas teorias sobre estas duas testemunhas. Compreendo, olhando para o contexto deste texto, que elas sejam uma representação do povo de Deus de todos os templos. Os candeeiros, de acordo com a linguagem do próprio livro, representam a igreja de Jesus Cristo sobre a terra (Ap 1.20)

Assim sendo, a igreja é quem testemunha do Senhor durante metade do tempo perfeito do Senhor. É ela quem profetiza vestida de pano de saco, ou seja, em humildade e, às vezes, humilhação, para os gentios que não são contados com o povo de Deus.

Como duas oliveiras (verso 4), as testemunhas são uma provável alusão a Zorobabel (descendente monárquico de Davi) e Josué (descendente sacerdotal de Aarão). Neste sentido, o Evangelho pregado por essas duas testemunhas tem um tom tanto real quanto sacerdotal.

5       Se alguém pretende causar-lhes dano, sai fogo da sua boca e devora os inimigos; sim, se alguém pretender causar-lhes dano, certamente, deve morrer. 6 Elas têm autoridade para fechar o céu, para que não chova durante os dias em que profetizarem. Têm autoridade também sobre as águas, para convertê-las em sangue, bem como para ferir a terra com toda sorte de flagelos, tantas vezes quantas quiserem.

Este povo será divinamente protegido ao longo de seu período de pregação. Enquanto sua missão não estiver completa, nada lhe causará dano.

O fogo da sua boca alude ao poder da mensagem que anunciam, a qual tanto purifica quanto mata (condena). Deus está demonstrando que honrará e abençoará este povo que é chamado ao longo do livro de Apocalipse a ser fiel em seu testemunho de Jesus Cristo, mesmo debaixo de perseguição.

Os sinais que estão associados com sua autoridade podem não ser literais, mas apenas símbolos usados para enfatizar seu poder sobre o mundo.

7       Quando tiverem, então, concluído o testemunho que devem dar, a besta que surge do abismo pelejará contra elas, e as vencerá, e matará, 8 e o seu cadáver ficará estirado na praça da grande cidade que, espiritualmente, se chama Sodoma e Egito, onde também o seu Senhor foi crucificado. 9 Então, muitos dentre os povos, tribos, línguas e nações contemplam os cadáveres das duas testemunhas, por três dias e meio, e não permitem que esses cadáveres sejam sepultados. 10 Os que habitam sobre a terra se alegram por causa deles, realizarão festas e enviarão presentes uns aos outros, porquanto esses dois profetas atormentaram os que moram sobre a terra.

O lugar onde o seu Senhor foi crucificado não diz respeito à Jerusalém necessariamente, muito menos à Sodoma e Egito, mas à este mundo como um todo.

Haverá o martírio desse povo, promovido pela besta que surge do abismo. Esta, ao longo do Apocalipse, está associada com forças demoníacas. Assim, forças demoníacas pelejarão contra o povo de Deus, levando-o ao martírio.

Durante o período da igreja antiga, muitos consideraram Babel (ou Babilônia) ou Roma como a grande cidade, enquanto outros consideraram todo o Império Romano, o que significa crer em quase todo o mundo conhecida da época.

Por três dias e meio (mais uma vez, a metade do símbolo de um tempo completo ou perfeito aos olhos de Deus — um período simbólico de perseguição), o mundo se alegra com o fim do povo de Deus. Com sua morte, ninguém irá mais atormentar os que moram sobre a terra.

11       Mas, depois dos três dias e meio, um espírito de vida, vindo da parte de Deus, neles penetrou, e eles se ergueram sobre os pés, e àqueles que os viram sobreveio grande medo; 12 e as duas testemunhas ouviram grande voz vinda do céu, dizendo-lhes: Subi para aqui. E subiram ao céu numa nuvem, e os seus inimigos as contemplaram. 13 Naquela hora, houve grande terremoto, e ruiu a décima parte da cidade, e morreram, nesse terremoto, sete mil pessoas, ao passo que as outras ficaram sobremodo aterrorizadas e deram glória ao Deus do céu. 14 Passou o segundo ai. Eis que, sem demora, vem o terceiro ai.

Sua alegria, todavia, dura pouco. Deus, agindo de um modo sobrenatural, ressuscita seu povo, tal como Ezequiel viu no capítulo 37 de sua profecia.

A diferença em Apocalipse é que, uma vez viva novamente, a igreja é levada aos céus envolta em uma nuvem enquanto que aqueles que se alegraram com seu fim as contemplam.

De acordo com o final do verso 13, um grande número de convertidos aparece dando glória ao Deus do céu. Parece haver uma real conversão, reconhecimento da soberania de Deus, e um verdadeiro e penitente retorno a Deus.

Antes de sua conversão, o que parece acontecer é um grande terremoto em todo o mundo no qual “a décima parte da cidade” é destruída. São mortas 7.000 pessoas (mais uma vez, o símbolo perfeito do número dos que deveriam ser mortos), mas sobrevivem algumas. As que sobrevivem são as que se aproximam do Senhor cheias de temor e dando glória a Deus. Olhando para Ap 16.9, temos a impressão de que, dar glória a Deus neste contexto todo é sinônimo de arrependimento e conversão.

Assim, no verso 14 percebemos que no final do segundo ai (do toque da sexta trombeta) a misericórdia de Deus conduzirá muitos ao arrependimento e conversão. Aqueles que antes se alegravam com a morte dos que testemunhavam de Cristo, agora tornam-se cristão.

 

1 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 98.

2 Robert James Utley, Hope in Hard Times – The Final Curtain: Revelation, vol. Volume 12, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 2001), 81.

JUÍZO E MISERICÓRDIA JUNTOS: Contradição? (Comentário de Ap 10.1-11)

O juízo e a misericórdia são características sempre presentes na pessoa de nosso Deus. Se, por um lado, ele está sempre pronto a punir, julgar e disciplinar aquele que erra, por outro lado está sempre se revelando em gestos de compaixão e misericórdia diante da criatura que o ofendeu e que não merece a sua graça.

Em meio a um turbilhão de visões de juízo, João tem a oportunidade de contemplar um pouco da misericórdia do Senhor que virá junto do juízo no final dos tempos.

Vi outro anjo forte descendo do céu, envolto em nuvem, com o arco-íris por cima de sua cabeça; o rosto era como o sol, e as pernas, como colunas de fogo;e tinha na mão um livrinho aberto. Pôs o pé direito sobre o mar e o esquerdo, sobre a terra,e bradou em grande voz, como ruge um leão, e, quando bradou, desferiram os sete trovões as suas próprias vozes.Logo que falaram os sete trovões, eu ia escrever, mas ouvi uma voz do céu, dizendo: Guarda em segredo as coisas que os sete trovões falaram e não as escrevas.Então, o anjo que vi em pé sobre o mar e sobre a terra levantou a mão direita para o céue jurou por aquele que vive pelos séculos dos séculos, o mesmo que criou o céu, a terra, o mar e tudo quanto neles existe: Já não haverá demora,mas, nos dias da voz do sétimo anjo, quando ele estiver para tocar a trombeta, cumprir-se-á, então, o mistério de Deus, segundo ele anunciou aos seus servos, os profetas.

A voz que ouvi, vinda do céu, estava de novo falando comigo e dizendo: Vai e toma o livro que se acha aberto na mão do anjo em pé sobre o mar e sobre a terra.Fui, pois, ao anjo, dizendo-lhe que me desse o livrinho. Ele, então, me falou: Toma-o e devora-o; certamente, ele será amargo ao teu estômago, mas, na tua boca, doce como mel.Tomei o livrinho da mão do anjo e o devorei, e, na minha boca, era doce como mel; quando, porém, o comi, o meu estômago ficou amargo.Então, me disseram: É necessário que ainda profetizes a respeito de muitos povos, nações, línguas e reis.

Ap 10.1–11

Novamente, uma imagem impressionante.

1     Vi outro anjo forte descendo do céu, envolto em nuvem, com o arco-íris por cima de sua cabeça; o rosto era como o sol, e as pernas, como colunas de fogo; 2 e tinha na mão um livrinho aberto. Pôs o pé direito sobre o mar e o esquerdo, sobre a terra, 3 e bradou em grande voz, como ruge um leão, e, quando bradou, desferiram os sete trovões as suas próprias vozes. 4 Logo que falaram os sete trovões, eu ia escrever, mas ouvi uma voz do céu, dizendo: Guarda em segredo as coisas que os sete trovões falaram e não as escrevas.

Temos aqui o segundo anjo forte mencionado em Apocalipse. O primeiro a ser mencionado aparece em Ap 5.2 (Vi, também, um anjo forte, que proclamava em grande voz: Quem é digno de abrir o livro e de lhe desatar os selos?). Estes anjos se destacam pelo fato de serem mais expressivos em projeção.

O que aqui aparece, desce do alto envolto em uma nuvem. Tente imaginar a visão de João. Sobre sua cabeça há um arco-íris, o que, imediatamente, nos leva à ideia de aliança e misericórdia, assim como apresentados em Gênesis.

A impressão que se tem é que algo doce seria anunciado a partir daqui. Algo que destoaria do que foi anunciado recentemente no texto. Ao final do verso 1, temos apenas a descrição da aparência deste anjo, bastante diferente dos demais visto até aqui.

O descer nas nuvens traz consigo a ideia de a descida do juízo de Deus. O juízo está chegando e, sobre ele, vê-se a misericórdia de Deus no arco-íris.

Um pequeno rolo é visto na mão esquerda desse anjo. E o rolo, ou livro, está aberto. Descendo com este livro aberto, o anjo coloca os pés sobre a terra e o mar e, tocando-os, dá um brado tão alto quanto o de leões. Não bastasse isso, após o brado do anjo, ouve-se sete trovões anunciando em alta voz profecias. Quando João se preparou para escrevê-las, ouviu uma ordem para que não as escrevesse.

Curiosamente, mais à frente em Apocalipse, duas bestas se levantarão, uma vinda do mar e outra vinda da terra. E este anjo tem seus pés postos sobre ambos.

5       Então, o anjo que vi em pé sobre o mar e sobre a terra levantou a mão direita para o céu 6       e jurou por aquele que vive pelos séculos dos séculos, o mesmo que criou o céu, a terra, o mar e tudo quanto neles existe: Já não haverá demora, 7 mas, nos dias da voz do sétimo anjo, quando ele estiver para tocar a trombeta, cumprir-se-á, então, o mistério de Deus, segundo ele anunciou aos seus servos, os profetas.

Então, com os dois pés postos sobre este mundo, um sobre o mar e outro sobre a terra, com um livro aberto em sua mão esquerda, o anjo agora levanta sua mão direita ao céu e jura pelo Criador de que o tocar da última trombeta não demoraria mais. A João é revelado que, no momento em que a última trombeta soar, se cumprirá tudo o que foi profetizado pelo Senhor por meio de seus profetas no passado.

Somente o Senhor Deus, o Criador, tem autoridade sobre tudo aquilo que ele criou e virá no final, mesmo sobre o mal, para destrui-lo e dar início a um novo tempo em um novo céu e uma nova terra. Assim, a consumação será um retorno à criação inicial. Aquilo que se perdeu por causa dos homens será restaurado para os próprios homens.

8       A voz que ouvi, vinda do céu, estava de novo falando comigo e dizendo: Vai e toma o livro que se acha aberto na mão do anjo em pé sobre o mar e sobre a terra. 9 Fui, pois, ao anjo, dizendo-lhe que me desse o livrinho. Ele, então, me falou: Toma-o e devora-o; certamente, ele será amargo ao teu estômago, mas, na tua boca, doce como mel. 10 Tomei o livrinho da mão do anjo e o devorei, e, na minha boca, era doce como mel; quando, porém, o comi, o meu estômago ficou amargo. 11 Então, me disseram: É necessário que ainda profetizes a respeito de muitos povos, nações, línguas e reis.

De repente, João ouve uma voz que lhe ordena a ir até ao anjo forte e tomar o livro de sua mão. Corajosamente, João foi até ele e pediu que o desse o livro. O anjo não somente lhe deu como também lhe ordenou que comesse o pequeno livro.

João comeu e logo percebeu que o gosto sugerido pelo anjo era verdadeiro. Suave e doce aos lábios, amargo para o estômago.

O fato das palavras serem doce na boca e amarga no estômago, apocalipticamente, aponta para os dois lados da própria Palavra de Deus. Tanto sua Palavra quanto seu juízo possuem dois gostos. Se, para uns, representa algo bom e prazeroso, rico em misericórdia, para outros representa angústia e sofrimento, amargura de alma devido às consequências e disciplinas referentes aos pecados.

Após tal experiência, João ouve que muito lhe seria dito sobre o fim antes do soar da última trombeta. Por ora, devia apenas saber que, junto do juízo virá a misericórdia.

O SOFRIMENTO QUE ACABA COM TODO SOFRIMENTO (Comentário de Ap 9.13-21)

O segundo Aí! é explicado no chamado que é feito ao anjo que portava a sexta trombeta. No texto abaixo, vemos o que acontece após o aparecimento do monstro visto no texto anterior. Após o horror visto por João na figura do gafanhoto que foi se transformando pouco a pouco em um terrível monstro, João vê agora um outro exército que sai para causar tortura e terror em toda a terra.

Um terço da população é dizimada. O juízo tem como objetivo mostrar o poder de Deus, julgar o pecado e, de certo modo, chamar os homens ao arrependimento. No entanto, o encanto e sedução debaixo do qual a humanidade está é tão grande que não são capazes de se arrependerem diante de tantos sinais de que o Criador lhes deu, demonstrando que os estava condenando por causa precisamente de seus pecados e idolatrias.

A cegueira espiritual e a idolatria chegam em seu nível mais alto em toda a história.

O sexto anjo tocou a trombeta, e ouvi uma voz procedente dos quatro ângulos do altar de ouro que se encontra na presença de Deus,dizendo ao sexto anjo, o mesmo que tem a trombeta: Solta os quatro anjos que se encontram atados junto ao grande rio Eufrates.Foram, então, soltos os quatro anjos que se achavam preparados para a hora, o dia, o mês e o ano, para que matassem a terça parte dos homens.O número dos exércitos da cavalaria era de vinte mil vezes dez milhares; eu ouvi o seu número.Assim, nesta visão, contemplei que os cavalos e os seus cavaleiros tinham couraças cor de fogo, de jacinto e de enxofre. A cabeça dos cavalos era como cabeça de leão, e de sua boca saía fogo, fumaça e enxofre.Por meio destes três flagelos, a saber, pelo fogo, pela fumaça e pelo enxofre que saíam da sua boca, foi morta a terça parte dos homens;pois a força dos cavalos estava na sua boca e na sua cauda, porquanto a sua cauda se parecia com serpentes, e tinha cabeça, e com ela causavam dano.

Os outros homens, aqueles que não foram mortos por esses flagelos, não se arrependeram das obras das suas mãos, deixando de adorar os demônios e os ídolos de ouro, de prata, de cobre, de pedra e de pau, que nem podem ver, nem ouvir, nem andar;nem ainda se arrependeram dos seus assassínios, nem das suas feitiçarias, nem da sua prostituição, nem dos seus furtos.

Ap 9.13–21

13 O sexto anjo tocou a trombeta, e ouvi uma voz procedente dos quatro ângulos do altar de ouro que se encontra na presença de Deus, 14 dizendo ao sexto anjo, o mesmo que tem a trombeta: Solta os quatro anjos que se encontram atados junto ao grande rio Eufrates.

Antes que o último anjo toque a última trombeta, somos apresentados ao penúltimo toque de trombeta, o qual dá início ao juízo de Deus contra os homens. A visão que está diante dos olhos de João é, novamente, a do tabernáculo do Antigo testamento (Ex 20.2-3,10), lugar onde se encontrava o altar de ouro. Mais uma vez, vem daquele que reina os juízos sobre os homens. Vem daquele que é santo a disciplina sobre aqueles cujos pecados foram cometidos diária e deliberadamente diante da face de Deus.

Chegou a hora em que Deus soltaria os anjos responsáveis pelo juízo contra a humanidade. Em primeiro lugar, João ouve uma voz que vem do altar, diante da presença de Deus. É esta voz que permite ao sexto anjo tocar a sexta trombeta.⁠1

Ao anjo que tem a sexta trombeta foi ordenado que soltasse os quatro anjos que se encontram atados junto ao grande rio Eufrates. Tanto para judeus quanto para romanos, a figura de exércitos vindo das fronteiras do Eufrates era algo terrível. Não foram poucas as vezes em que os impérios do ocidente foram ameaçados por conta de forças vindas do oriente. Como escreveu Wright, do grande rio Eufrates vinham “seus piores pesadelos militares e políticos”.⁠2

Muitos entendem que esta passagem deve ser vista como a que vem imediatamente antes, ou seja, como uma visão simbólica e não como uma previsão literal de um acontecimento histórico. Esta visão aponta para algo horrível, provavelmente, para um crescimento monstruoso no número de tortura e terror entre os homens.

15       Foram, então, soltos os quatro anjos que se achavam preparados para a hora, o dia, o mês e o ano, para que matassem a terça parte dos homens. 16 O número dos exércitos da cavalaria era de vinte mil vezes dez milhares; eu ouvi o seu número.

17       Assim, nesta visão, contemplei que os cavalos e os seus cavaleiros tinham couraças cor de fogo, de jacinto e de enxofre. A cabeça dos cavalos era como cabeça de leão, e de sua boca saía fogo, fumaça e enxofre.

18       Por meio destes três flagelos, a saber, pelo fogo, pela fumaça e pelo enxofre que saíam da sua boca, foi morta a terça parte dos homens; 19 pois a força dos cavalos estava na sua boca e na sua cauda, porquanto a sua cauda se parecia com serpentes, e tinha cabeça, e com ela causavam dano.

Ao serem soltos os quatro anjos que vêm do Eufrates, têm-se a imagem de algo terrível, de um grande terror que vem sobre a humanidade. O fato de haver uma hora, um dia, um mês e um ano, nos direciona para um período de terror que está preparado para a humanidade. Haverá um período de terror e tortura que fará com que a terça parte da humanidade seja morta.

O número daqueles que se parecem com o exército da cavalaria (de anjos) e que causarão o terror será de 200.000.000 — vinte mil vezes dez milhares. Suas armas de tortura e destruição eram munidas de três elementos: fogo, fumaça e enxofre, os quais saíam da boca destes seres direto sobre aqueles a quem eles desejam ferir. Estas são, verdadeiramente, hostes infernais que saem a ferir o povo sobre a terra.

20       Os outros homens, aqueles que não foram mortos por esses flagelos, não se arrependeram das obras das suas mãos, deixando de adorar os demônios e os ídolos de ouro, de prata, de cobre, de pedra e de pau, que nem podem ver, nem ouvir, nem andar; 21 nem ainda se arrependeram dos seus assassínios, nem das suas feitiçarias, nem da sua prostituição, nem dos seus furtos.

No fim dos tempos será visto um elevado número de ídolos sendo construídos e adorados pelos homens. Impressionantemente, apesar de todos os sinais nos céus e na terra, sinais que apontarão para reprovação de Deus dos atos da humanidade, ainda assim os que sobreviverem ao juízo não se arrependerão de seus pecados e de sua idolatria.

Aqui percebemos que, um dos propósitos da pragas será provocar arrependimento. No entanto, a impressão que se tem é a de que muitos não se arrependerão. Assim como no Egito as pragas foram usadas com o fim de fazer com que os egípcios vissem seu poder e pudessem crer nele, e também fazer com que os israelitas permanecessem fieis e não deixassem de adorar somente ao Deus de Israel (Dt 27-28), estas pragas em Apocalipse buscam trazer os homens à redenção. No entanto, em sua visão João percebe uma contínua recusa e rebelião da humanidade contra Deus.

As obras das suas mãos das quais eles não se arrependeram é uma alusão à idolatria tão mencionada no Antigo Testamento e que parece voltar com grande força no final dos tempos sendo como foi no início entre o povo da aliança. A nota interessante que é feita por João é a associação entre a idolatria e o culto a demônios. Ou seja, se o que for o objeto da adoração de alguém (uma estátua, o dinheiro, uma profissão, uma pessoa, etc.), por trás de toda busca por prazer em algo está uma espécie de culto a demônios, ainda que a pessoa que os adora não o saiba.

A idolatria está associada a quatro coisas: assassinato, feitiçaria, prostituição e furtos. Essas quatro coisas resumem o estilo de vida imoral de alguém que não teme a Deus. É necessário aqui lembrar que, segundo Jesus, o assassinato e a prostituição estão ligados mais à motivação do coração e alma de alguém do que o ato concluído na prática. Assim também, o furto traz por detrás de si o pecado da cobiça — logo, a cobiça já se torna furto aos olhos de Deus. Assim também toda rebeldia caracteriza-se em feitiçaria aos olhos de Deus.

Sobre todas as esferas do pecado, Deus trará juízo e condenação. No entanto, lembre-se de que houve alguém que suportou ira pior do que esta que será derramada sobre uma parte da humanidade. A ira que foi derramada sobre a pessoa de Jesus Cristo continha a maldição de todos nós. Porque ele sofreu e foi culpado em nosso lugar é que Deus nos livrará do sofrimento futuro a devida punição pelos crimes que a humanidade cometeu. Toda lei de Deus que foi quebrada será levada em conta. Somente aqueles a quem Cristo substituiu naquela cruz serão livrados da condenação futura.

O Evangelho nos ensina exatamente isso. Se não sofreremos com o restante do mundo, é por causa da bondade Deus que nos conduziu a Cristo, o qual já sofreu em nosso lugar.

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1 Robert James Utley, Hope in Hard Times – The Final Curtain: Revelation, vol. Volume 12, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 2001), 74.

2 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 90.

AQUELE QUE É MAIOR DO QUE TODOS OS MONSTROS E DEMÔNIOS (Comentário de Ap 9.1-12)

O primeiro dos três Ais! é explicado no tocar da quinta trombeta. No final do capítulo anterior, três ais são anunciados. Aqui, o primeiro mostra sua face monstruosa.

O quinto anjo tocou a trombeta, e vi uma estrela caída do céu na terra. E foi-lhe dada a chave do poço do abismo.

Ela abriu o poço do abismo, e subiu fumaça do poço como fumaça de grande fornalha, e, com a fumaceira saída do poço, escureceu-se o sol e o ar.

Também da fumaça saíram gafanhotos para a terra; e foi-lhes dado poder como o que têm os escorpiões da terra, e foi-lhes dito que não causassem dano à erva da terra, nem a qualquer coisa verde, nem a árvore alguma e tão-somente aos homens que não têm o selo de Deus sobre a fronte.

Foi-lhes também dado, não que os matassem, e sim que os atormentassem durante cinco meses. E o seu tormento era como tormento de escorpião quando fere alguém.

Naqueles dias, os homens buscarão a morte e não a acharão; também terão ardente desejo de morrer, mas a morte fugirá deles.

O aspecto dos gafanhotos era semelhante a cavalos preparados para a peleja; na sua cabeça havia como que coroas parecendo de ouro; e o seu rosto era como rosto de homem; tinham também cabelos, como cabelos de mulher; os seus dentes, como dentes de leão; tinham couraças, como couraças de ferro; o barulho que as suas asas faziam era como o barulho de carros de muitos cavalos, quando correm à peleja; tinham ainda cauda, como escorpiões, e ferrão; na cauda tinham poder para causar dano aos homens, por cinco meses; e tinham sobre eles, como seu rei, o anjo do abismo, cujo nome em hebraico é Abadom, e em grego, Apoliom.

O primeiro ai passou. Eis que, depois destas coisas, vêm ainda dois ais.

Ap 9.1–12

O imagem que João passa a ter a partir de agora é monstruosa, digna dos piores filmes de terror. O tocar da quinta trombeta dá início a uma visão que envolve, provavelmente, um demônio.⁠1

9.1       O quinto anjo tocou a trombeta, e vi uma estrela caída do céu na terra. E foi-lhe dada a chave do poço do abismo. 2 Ela abriu o poço do abismo, e subiu fumaça do poço como fumaça de grande fornalha, e, com a fumaceira saída do poço, escureceu-se o sol e o ar. 

A associação desta estrela caída do céu com demônio tem sido feita ao longo da história. No verso 9, lemos que, após o toque da quinta trombeta, uma estrela caída do céu é vista na terra. João não vê a estrela caindo, mas a estrela que já caiu. E esta estrela abre a chave do poço do abismo. Aqui, mais uma vez, temos de ter cuidado para não interpretar literalmente o que foi escrito de forma simbólica.

Aparentemente, existe uma associação entre alguém que antes foi um ministro de Cristo, mas que, agora, parece ser um ministro do diabo e que parece usar poderes do inferno contra as igrejas de Cristo.⁠2

O que a quinta trombeta faz é dar início à ação desta estrela caída, talvez associada à estrela de Is 14.12 e Lc 10.18. Obviamente, esta é uma ação maligna e de terror. O terror toma seu lugar quando, ao abrir o poço do abismo, some-se a luz do sol e o ar. Assim como os buracos negros na astrofísica moderna os quais são uma espécie de antimatéria que promove destruição e caos, a abertura desse poço parece produzir efeitos semelhantes.⁠3

3 Também da fumaça saíram gafanhotos para a terra; e foi-lhes dado poder como o que têm os escorpiões da terra, 4 e foi-lhes dito que não causassem dano à erva da terra, nem a qualquer coisa verde, nem a árvore alguma e tão-somente aos homens que não têm o selo de Deus sobre a fronte. 

A ideia aqui é trazer à mente a oitava praga no Egito (Ex 10.14-15). Este gafanhotos com poder de escorpiões são a figura do que João vê quando assiste o sofrimento e dor daqueles que não possuem o selo de Deus em sua fronte. Curiosamente, o veneno do escorpião, símbolo do poder e ação do Maligno entre os homens, não traria morte aos homens, mas apenas desespero e muita dor.⁠4

5 Foi-lhes também dado, não que os matassem, e sim que os atormentassem durante cinco meses. E o seu tormento era como tormento de escorpião quando fere alguém. 

Aqui fica claro o tormento pelo qual passarão todos que não possuírem o selo de Deus. Os cinco meses que serão o tempo em que o tormento durará aponta tão somente para o período em que este sofrimento durará. Ele terá um fim, embora para quem sofre parecer uma eternidade.

O texto bíblico tem como objetivo demonstrar que Deus é soberano sobre todos esses eventos. Deus-Pai e o Cordeiro possuem a soberania, ainda que o mal parece finalmente ter conquistado a primazia sobre a terra. O que vemos aqui é que, antes que o mal seja final e totalmente destruído, que ele chegará a um nível elevado, como nunca antes na história da humanidade.

6       Naqueles dias, os homens buscarão a morte e não a acharão; também terão ardente desejo de morrer, mas a morte fugirá deles.

Embora queiram fugir do tormento e da dor, não serão capazes. Haverá uma espécie de consequência terrena pelos pecados, a despeito das consequências eternas.

7       O aspecto dos gafanhotos era semelhante a cavalos preparados para a peleja; na sua cabeça havia como que coroas parecendo de ouro; e o seu rosto era como rosto de homem; 8 tinham também cabelos, como cabelos de mulher; os seus dentes, como dentes de leão; 9 tinham couraças, como couraças de ferro; o barulho que as suas asas faziam era como o barulho de carros de muitos cavalos, quando correm à peleja; 10 tinham ainda cauda, como escorpiões, e ferrão; na cauda tinham poder para causar dano aos homens, por cinco meses; 11 e tinham sobre eles, como seu rei, o anjo do abismo, cujo nome em hebraico é Abadom, e em grego, Apoliom.

Agora, a imagem dos gafanhotos que causavam dor como escorpiões é atualizada para animais bem maiores e preparados para outros tipos de batalha. Agora, os gafanhotos se parecem com cavalos de guerra.  E não somente isso, mas os gafanhotos que agora se parecem cavalos possuem algo semelhante a uma coroa de ouro em sua cabeça, na qual o rosto parece com o rosto de um homem. Mais uma vez, linguagem simbólica deve ser interpretada simbolicamente, não devendo ninguém esperar que tais criaturas apareçam voando ao olhar pela janela.

Estes gafanhotos/cavalos com rosto de homem possuíam cabelo comprido, como cabelos de mulher, e dentes como o de leão. É aqui que o terror começa, pois aquilo que João havia visto no início vai se transformando em uma criatura monstruosa e amedrontadora.

De repente, a imagem do monstro (de longe lembra um gafanhoto) recebe uma couraça de ferro, como a dos guerreiros da Idade Média, principalmente, a usada pelos reis e generais. As asas desses gafanhotos criavam um barulho tão alto que parecia com o barulho de muitos carros de cavalos em guerra. E, na cauda desses gafanhotos, ia um ferrão de escorpião.

A imagem, para muitos, sugere os atuais helicópteros, modificados em helicópteros de guerra, superpotentes. Seja a imagem dos atuais helicópteros, seja a representação do poder do mal que vem do alto e se espalha em destruição, o fato é que os primeiros leitores compreenderam que haveria um momento de desolação que se espalharia sobre a humanidade. Todo o sofrimento dura por outros cinco meses, e terá um fim.

No verso 11, conhecemos o rei de todos esses agentes do mal, um anjo do abismo, provavelmente o abismo aberto no início do capítulo 9. O nome desse líder da maldade é dado tanto em grego quanto em hebraico: Apoliom e Abadon. Apoliom, em grego, significa “destruidor”. Abadon, em hebraico, “o lugar da destruição”. Isso indica o poder de destruir a criação, o poder antimatéria. Assim, a missão desses seres da destruição não é simplesmente dar fim à humanidade, mas torturar os povos enquanto estes desejam a morte sem, no entanto, alcançá-la.

12       O primeiro ai passou. Eis que, depois destas coisas, vêm ainda dois ais.

Assim como temos nas pragas do Egito, devemos encarar estas pragas como uma forma de sinais chamando o povo ao arrependimento e à mudança de mente e atitude. Ao passar o primeiro Ai! dos três que vimos no final do capítulo 8 é explicado. Ainda outros dois virão. E o que percebemos é que, a despeito de toda a disciplina do Senhor, o coração dessas pessoas permanece duro, cada vez mais distantes do Senhor. Seus corações endurecidos são a razão do juízo que virá em breve.

De um certo modo, os anjos caídos já agem em nosso meio há milênios com a força de um monstro destruidor. Sem dúvida, os leitores de João acreditavam que Apoliom e Abadon já existiam e agiam em seu tempo. Muitos entendiam os imperadores Nero e Domiciano como representações dos poderes do mal devido a toda maldade infringida sobre o povo de Deus em seu tempo.

Seja quem for a figura ou figuras que esses símbolos representam, o que o texto deseja nos comunicar não é sobre quem realiza o mal, mas sobre aquele que tem seus olhos sobre todo o mal e há de vencê-lo completamente no final da história. Aqui, o mal é visto sob outra perspectiva. E, mais uma vez, a soberania do Cordeiro está presente, sobre todo o mal e sobre todo aquele que sofre por causa desse mal. Sejam quais forem os monstros ou os males que saírem ou sairão do abismo, Jesus Cristo vencerá sobre todos!

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1 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 86.

2 Matthew Henry e Thomas Scott, Matthew Henry’s Concise Commentary on the Bible (Sociedade Bíblica do Brasil, 1939), Ap 9.1.

3 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 86.

4 Marvin Richardson Vincent, Word studies in the New Testament, vol. 2 (New York: Charles Scribner’s Sons, 1887), 508.

PROMESSAS DE UMA LIBERTAÇÃO FINAL (Comentário de Ap 8.6-13)

Com o início do toque das trombetas, uma outra visão é recebida sobre o julgamento do mal e de pessoas que trouxeram o mal para dentro do povo de Deus, para o ambiente em que esse mal floresceu e apodreceu.

Mais uma vez, o que se percebe é o zelo em comunicar que o Senhor está atento a tudo que acontece na terra e, em especial, com o seu povo. Por mais que o mal presente entre o povo parece indicar a ausência de Deus, ele continua presente na vida dos seus e atento ao que se passa na vida dos que não são seus. Como diz o Salmo 1:

Salmo 1.6: Pois o Senhor conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá.

Esta passagem é claramente uma demonstração do conhecimento e controle do Senhor sobre os caminhos que os seres humanos traçam em suas histórias.

Então, os sete anjos que tinham as sete trombetas prepararam-se para tocar. O primeiro anjo tocou a trombeta, e houve saraiva e fogo de mistura com sangue, e foram atirados à terra. Foi, então, queimada a terça parte da terra, e das árvores, e também toda erva verde.

O segundo anjo tocou a trombeta, e uma como que grande montanha ardendo em chamas foi atirada ao mar, cuja terça parte se tornou em sangue, e morreu a terça parte da criação que tinha vida, existente no mar, e foi destruída a terça parte das embarcações.

O terceiro anjo tocou a trombeta, e caiu do céu sobre a terça parte dos rios, e sobre as fontes das águas uma grande estrela, ardendo como tocha. O nome da estrela é Absinto; e a terça parte das águas se tornou em absinto, e muitos dos homens morreram por causa dessas águas, porque se tornaram amargosas.

O quarto anjo tocou a trombeta, e foi ferida a terça parte do sol, da lua e das estrelas, para que a terça parte deles escurecesse e, na sua terça parte, não brilhasse, tanto o dia como também a noite. Então, vi e ouvi uma águia que, voando pelo meio do céu, dizia em grande voz: Ai! Ai! Ai dos que moram na terra, por causa das restantes vozes da trombeta dos três anjos que ainda têm de tocar!

Ap 8.6–13

Algo muito parecido com o que aconteceu no Egito é narrado e escrito por João.  Dez pragas afligiram os egípcios após 400 anos de escravidão do povo israelita. Todas as pragas serviram como advertência aos egípcios sobre o poder do Deus de Israel. As pragas que João visualiza agora, em Apocalipse, leva seus leitores à pensarem nas pragas do Egito e assegurar de que, após aquele momento de perseguição e sofrimento, o mesmo resultado seria visto por todo o povo — libertação.⁠1

6       Então, os sete anjos que tinham as sete trombetas prepararam-se para tocar.

    

O texto se apresenta com os sete anjos preparando-se para tocar suas trombetas. Após o momento de preparação, ouve-se o primeiro toque.

7       O primeiro anjo tocou a trombeta, e houve saraiva e fogo de mistura com sangue, e foram atirados à terra. Foi, então, queimada a terça parte da terra, e das árvores, e também toda erva verde.

     

O texto diz que houve saraiva e fogo de mistura com sangue (embora, originalmente, se diga em sangue).

Desde o início, uma interpretação que se deu a esta passagem (que, hoje, encontra outras interpretações) era a de que uma tempestade de heresias cairia sobre os povos. Uma mistura de erros terríveis, espantosos, cairiam sobre a igreja, algo que trouxesse uma tempestade de destruição dentro dela.⁠2 Aparentemente, um terço da terra atingida por essa tempestade será destruída.

No entanto, outras interpretações têm traçado linhas mais literais para este evento. Nessa linha interpretativa, a terra será atingida de modo devastador, como nunca antes em sua história.⁠3 Nem todos os bombeiros do mundo serão capazes de apagar os incêndios causados pelo o que será atirado sobre a terra.⁠4

8       O segundo anjo tocou a trombeta, e uma como que grande montanha ardendo em chamas foi atirada ao mar, cuja terça parte se tornou em sangue, 9 e morreu a terça parte da criação que tinha vida, existente no mar, e foi destruída a terça parte das embarcações.

Ao toque do segundo anjo, algo pior acontece. Algo como uma grande montanha ardendo em chamas é lançada sobre o mar. O resultado é a morte de um terço de tudo que existe no mar, não apenas seres vivos, mas também um terço das embarcações.

Além da interpretação que considera isso literal, algo como um meteoro caindo sobre o mar causando gigantesca destruição, há os que consideram esta montanha como os líderes que realizam as perseguições. Outros, na antiguidade, chegaram a interpretar essa passagem com os Godos e Vândalos invadindo e saqueando Roma com muita crueldade.⁠5

A imagem de uma montanha ou uma grande estrela caindo sobre o mar sempre esteve presente no imaginário popular israelita. Jesus a usa em um exemplo em Mc 11.23. Isaías a usa em Is 14.12 quando trata de um anjo caindo do céu. Cada um deles usou a figura com um propósito diferente e enfatizando coisas distintas.

Ao usá-la, João, possivelmente continue a traçar paralelos entre o poder de Deus que guiou as pragas no Egito com o mesmo poder que guiará a igreja em meio aos eventos finais da presente era. Quando lemos que um terço do mar se tornou como em sangue, imediatamente ligamos essa imagem à do Êxodo. Com a destruição das embarcações, provavelmente, algo relacionado ao comércio esteja sendo sinalizado para nós.

10       O terceiro anjo tocou a trombeta, e caiu do céu sobre a terça parte dos rios, e sobre as fontes das águas uma grande estrela, ardendo como tocha. 11 O nome da estrela é Absinto; e a terça parte das águas se tornou em absinto, e muitos dos homens morreram por causa dessas águas, porque se tornaram amargosas.

Piorando o quadro apresentado, o terceiro anjo toca sua trombeta e lemos de uma grande estrela caindo do céu, ardendo como tocha. Alguns compreenderam esta passagem como a queda de um eminente governador, enquanto que, outros, a interpretaram como um pessoa investida de grande poder que corrompeu as igrejas de Cristo.

Após a grande tempestade de erros derramada sobre o povo de Deus, a queda de um servo de Deus muito conhecido geraria uma espécie de ruína no local onde, antes, pessoas encontravam alento.⁠6

Algo novo e interessante acontece nesta passagem. O nome da estrela que caiu é dado — Absinto. No A.T., este nome sempre esteve associado à idolatria (veja Dt 29.17-18 onde absinto está associado a algo venenoso e amargo, tal como a idolatria em Israel). Possivelmente, tenhamos aqui alguém ligado à religião, mas que ocupava um lugar de adoração, de idolatria. Com sua queda, muitos “caíram” também.

12       O quarto anjo tocou a trombeta, e foi ferida a terça parte do sol, da lua e das estrelas, para que a terça parte deles escurecesse e, na sua terça parte, não brilhasse, tanto o dia como também a noite.

Quando o quarto anjo tocou a trombeta, sol, lua e estrelas novamente são feridos. A escuridão agora cai sobre os grandes luzeiros do céu — pelo menos, como são conhecidos na Bíblia. Os astros que produzem luz no mundo perdem sua força. Muitos aqui têm considerado outros governadores e presidentes, pessoas de grande importância mundial, pessoas que influenciam a outras, tal como o sol influencia com sua luz e calor.

Com a destruição dessas vidas, dessas influencias, destrói-se também a esperança dos homens que depositavam nestas figuras sua vida e esperança.

13       Então, vi e ouvi uma águia que, voando pelo meio do céu, dizia em grande voz: Ai! Ai! Ai dos que moram na terra, por causa das restantes vozes da trombeta dos três anjos que ainda têm de tocar!

Algumas versões mais antigas, como a versão inglesa King James Version, trazem a palavra anjo ao invés da palavra águia. No entanto, tanto o manuscrito Sinaiticus (א) quanto o Alexandrinus (A) trazem a palavra águia. Daí a maioria das versões permanecerem com águia.

A águia é um símbolo de vingança em alguns trechos do A.T.:

Deuteronômio 28.49: O SENHOR levantará contra ti uma nação de longe, da extremidade da terra virá, como o vôo impetuoso da águia, nação cuja língua não entenderás;

Hosea 8.1: Emboca a trombeta! Ele vem como a águia contra a casa do SENHOR, porque transgrediram a minha aliança e se rebelaram contra a minha lei.

Habacuque 1.8: Os seus cavalos são mais ligeiros do que os leopardos, mais ferozes do que os lobos ao anoitecer são os seus cavaleiros que se espalham por toda parte; sim, os seus cavaleiros chegam de longe, voam como águia que se precipita a devorar.

Provavelmente, seja isso que os primeiros leitores estariam a entender. Uma águia estaria trazendo a vingança da parte do Senhor.⁠7

O grito de Ai!Ai! Ai!, provavelmente estejam associadas às três últimas trombetas que estão por vir, bem como podem se tratar de um símbolo da intensidade da dor que virá (tal como é intensificada a santidade na expressão Santo, Santo, Santo. Segundo Dr. Utley, um Ai! no A.T. marca o início de um certo lamento poético relacionado à morte e julgamento.⁠8

Assim, em meio a sinais no céu e na terra, Deus libertará definitivamente o seu povo no final dos tempos. Assim como sinais no céu e na terra acompanharam a libertação do povo no Egito, sinais também acompanhar a redenção final do povo de Deus na história.

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1 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 82.

2 Matthew Henry e Thomas Scott, Matthew Henry’s Concise Commentary on the Bible (Sociedade Bíblica do Brasil, 1939), Ap 8.7.

3 Grant R. Osborne. Apocalipse: comentário exegético. São Paulo: Vida Nova, 2014, p. 392.

4 Robert James Utley, Hope in Hard Times – The Final Curtain: Revelation, vol. Volume 12, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 2001), 71–72.

5 Matthew Henry e Thomas Scott, Matthew Henry’s Concise Commentary on the Bible (Sociedade Bíblica do Brasil, 1939), Ap 8.7.

6 Matthew Henry e Thomas Scott, Matthew Henry’s Concise Commentary on the Bible (Sociedade Bíblica do Brasil, 1939), Ap 8.7.

7 Marvin Richardson Vincent, Word studies in the New Testament, vol. 2 (New York: Charles Scribner’s Sons, 1887), 507.

8 Robert James Utley, Hope in Hard Times – The Final Curtain: Revelation, vol. Volume 12, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 2001), 73.

UM PAI QUE SE LEVANTA POR SEUS FILHOS (Comentário de Ap 8.1-5)

Com a abertura do último selo, vemos o início de uma nova etapa, novas revelações sobre o fim, sobre o que acontecerá àqueles que, ontem, hoje e amanhã, têm feito tanto mal ao povo de Deus.

Quando o Cordeiro abriu o sétimo selo, houve silêncio no céu cerca de meia hora.

Então, vi os sete anjos que se acham em pé diante de Deus, e lhes foram dadas sete trombetas.

Veio outro anjo e ficou de pé junto ao altar, com um incensário de ouro, e foi-lhe dado muito incenso para oferecê-lo com as orações de todos os santos sobre o altar de ouro que se acha diante do trono; e da mão do anjo subiu à presença de Deus a fumaça do incenso, com as orações dos santos.

E o anjo tomou o incensário, encheu-o do fogo do altar e o atirou à terra. E houve trovões, vozes, relâmpagos e terremoto.

Ap 8.1–5

Embora o texto esteja a falar de coisas distintas, há algo em comum na passagem. Deus está a ouvir a oração que todos os que sofrem lhe fazem e demonstra que, em breve, virá ele mesmo par responder a tais orações. Vejamos.

8.1       Quando o Cordeiro abriu o sétimo selo, houve silêncio no céu cerca de meia hora.

Há várias possibilidades para estes trinta minutos de silêncio no céu. A despeito de todo absurdo que é dito sobre esta meia hora, o fato é que o silêncio se deu após o Cordeiro abrir o sétimo selo.

No momento imediatamente anterior, ouvia-se um grito de alegria no céu, contrastando com o que agora há. Depois de muito barulho, silêncio. Por um lado, nos parece uma introdução aos acontecimentos que darão início ao eterno Sabbath de descanso do povo de Deus.⁠1

Jesus é quem pode abrir o último selo. A partir desse momento, um novo cenário se abre dando início a um novo momento de revelações. Estas novas revelações dão lugar ao silêncio. Todos aparentemente estão em silêncio, como uma espécie de expectativa pelo que virá após a abertura do último selo, ou como uma forma de reverência gigantesca diante do Cordeiro apresentado os últimos eventos relacionados a destruição do mal.⁠2

2       Então, vi os sete anjos que se acham em pé diante de Deus, e lhes foram dadas sete trombetas.

Aqui começam os eventos relacionados às trombetas. O último selo dá origem a uma nova série de revelações que se desenrolarão à medida em que as sete trombetas forem tocadas pelos sete anjos que as receberam.

Todos estes anjos, em pé diante de Deus, simbolizam a plena obediência desses espíritos ministradores à Palavra de Deus. O tocar das trombetas no Antigo Testamento estava relacionado com juízo, perturbação, aflições:

Joel 2.1: Tocai a trombeta em Sião e dai voz de rebate no meu santo monte; perturbem-se todos os moradores da terra, porque o Dia do SENHOR vem, já está próximo;

Sofonias 1.16: dia de trombeta e de rebate contra as cidades fortes e contra as torres altas.

Zacarias 9.14: O SENHOR será visto sobre os filhos de Sião, e as suas flechas sairão como o relâmpago; o SENHOR Deus fará soar a trombeta e irá com os redemoinhos do Sul.

Já no Novo Testamento, o tocar de trombetas está relacionado às segunda vinda de nosso Senhor Jesus Cristo:⁠3

Mateus 24.31: E ele enviará os seus anjos, com grande clangor de trombeta, os quais reunirão os seus escolhidos, dos quatro ventos, de uma a outra extremidade dos céus.

1Coríntios 15.52–53: num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta. A trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Porque é necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que o corpo mortal se revista da imortalidade.

1Tessalonicenses 4.16: Porquanto o Senhor mesmo, dada a sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo, e ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro;

3       Veio outro anjo e ficou de pé junto ao altar, com um incensário de ouro, e foi-lhe dado muito incenso para oferecê-lo com as orações de todos os santos sobre o altar de ouro que se acha diante do trono; 4 e da mão do anjo subiu à presença de Deus a fumaça do incenso, com as orações dos santos.

Havia um conceito teológico rabínico que pressupunha que os anjos são os carregadores das orações do povo de Deus. Não confunda isso com intercessão ou mediação dos anjos. Apenas cria-se que eles conduzem as orações até Deus.

A Bíblia, no entanto, não diz absolutamente nada sobre isso, impedindo-nos de interpretar ou aferir juízo sobre esse conceito rabínico. Este símbolo que aqui aparece não pode ser usado para suposições irresponsáveis fruto da criatividade de cada um.

O que João tem aqui é uma visão com símbolos e não uma descrição de fatos ou normas. E, como já dissemos, nessa visão, algo semelhante ao Templo de Jerusalém, já destruído durante o tempo em que este Apocalipse de João foi escrito. Interessante essa associação de um templo celestial no mesmo lugar em que fica a Sala do Trono do Rei dos reis.

O que sabemos dessa visão é que, após ver os sete primeiros anjos com as sete trombetas, aparece outro anjo que aparece junto com as orações de todos os santos sobre o altar que está em frente ao trono. Das mãos desse anjos sobem as orações de todos os santos. Quem são estes “santos”, ou seja, a que grupo se refere, é impossível de se precisar.

Nos parece apenas uma forma de demonstrar aos leitores originais que viviam debaixo de perseguição que o Senhor estava ouvindo a oração de cada um deles, da mesma forma como ouvia as orações de um grupo de israelitas que ainda clamavam a ele no Egito pedindo por libertação. É importante que saibamos também que o incenso é um dos símbolos ligados à oração. Veja:

Salmo 141.2: Suba à tua presença a minha oração, como incenso, e seja o erguer de minhas mãos como oferenda vespertina.

Apocalipse 5.8: e, quando tomou o livro, os quatro seres viventes e os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do Cordeiro, tendo cada um deles uma harpa e taças de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos,

5       E o anjo tomou o incensário, encheu-o do fogo do altar e o atirou à terra. E houve trovões, vozes, relâmpagos e terremoto.

De repente, o incensário que, nos versos anteriores, estavam ligadas às orações dos santos, agora é cheio de fogo do altar e atirado sobre a terra. A impressão que se tem é que o mesmo “objeto” que leva as orações dos santos é usado para trazer a resposta de Deus sobre a terra, e esta resposta vem em forma de trovões, vozes, relâmpagos e terremoto.

Deus está no controle de todos os eventos e é quem está respondendo as orações de seu povo por justiça. O final do versículo é uma forma de dizer que o próprio Deus irá descer sobre a terra para trazer juízo a ela. É como um pré-anúncio do fim, do último juízo. Veja esses textos:

Êx 19.10–11, 16–20 : Disse também o Senhor a Moisés: Vai ao povo e purifica-o hoje e amanhã. Lavem eles as suas vestes e estejam prontos para o terceiro dia; porque no terceiro dia o Senhor, à vista de todo o povo, descerá sobre o monte Sinai. … Ao amanhecer do terceiro dia, houve trovões, e relâmpagos, e uma espessa nuvem sobre o monte, e mui forte clangor de trombeta, de maneira que todo o povo que estava no arraial se estremeceu. E Moisés levou o povo fora do arraial ao encontro de Deus; e puseram-se ao pé do monte. Todo o monte Sinai fumegava, porque o Senhor descera sobre ele em fogo; a sua fumaça subiu como fumaça de uma fornalha, e todo o monte tremia grandemente. E o clangor da trombeta ia aumentando cada vez mais; Moisés falava, e Deus lhe respondia no trovão. Descendo o Senhor para o cimo do monte Sinai, chamou o Senhor a Moisés para o cimo do monte. 

Salmo 18.10–13

Cavalgava um querubim e voou;

    sim, levado velozmente nas asas do vento.

   Das trevas fez um manto em que se ocultou;

    escuridade de águas e espessas nuvens dos céus eram o seu pavilhão.

   Do resplendor que diante dele havia,

    as densas nuvens se desfizeram

    em granizo e brasas chamejantes.

   Trovejou, então, o SENHOR, nos céus;

    o Altíssimo levantou a voz,

    e houve granizo e brasas de fogo.

O próprio Deus é quem desce aqui em Ap 8.5 para responder à oração de seu povo, como um pai que se levanta e vai cuidar da causa de seu filho. Deus, assim, está consolando seu povo de que Ele está no controle e que, logo, virá Ele mesmo e não outro para julgar e responder às orações de seu povo.

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1 Robert Jamieson, A. R. Fausset, e David Brown, Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible, vol. 2 (Oak Harbor, WA: Logos Research Systems, Inc., 1997), 571.

2 Matthew Henry e Thomas Scott, Matthew Henry’s Concise Commentary on the Bible (Sociedade Bíblica do Brasil, 1939), Ap 8.1.

3 Robert James Utley, Hope in Hard Times – The Final Curtain: Revelation, vol. Volume 12, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 2001), 71.

A NOSSA INSEGURANÇA E O PODER DE NOSSO PAI (Comentário de Ap 7.1-8)

Não há nada que traz mais segurança a uma criança indefesa e amedrontada do que e presença da mãe ou do pai. Seja em uma ocasião de apagão, ou de afogamento, ou outra qualquer, a presença do pai traz segurança à criança de que tudo terminará bem.

Deus conhece as suas crianças. Sabe que elas também são frágeis e medrosas diante de eventos que se agigantam diante delas fazendo-as sentir-se pequenas, indefesas e impotentes. É por isso que, muitas vezes, o Senhor usa sua Palavra para assegurar ao seu povo de que ele os vê e os protegerá de todo o mal.

No texto abaixo, sabemos que João está diante do pior dos males que pode assolar a humanidade. Diante da ira do juízo de Deus que virá sobre o mundo, a mensagem do texto objetiva assegurar o seu povo de que ele está no controle e de que nada acontecerá com seus filhos e filhas. Por mais que os problemas venham e cresçam diante dos seus, sua Palavra tem a intensão de assegurar o quanto Deus está atento e de que os protegerá. Vejamos o texto.

Depois disto, vi quatro anjos em pé nos quatro cantos da terra, conservando seguros os quatro ventos da terra, para que nenhum vento soprasse sobre a terra, nem sobre o mar, nem sobre árvore alguma.

Vi outro anjo que subia do nascente do sol, tendo o selo do Deus vivo, e clamou em grande voz aos quatro anjos, aqueles aos quais fora dado fazer dano à terra e ao mar, dizendo: Não danifiqueis nem a terra, nem o mar, nem as árvores, até selarmos na fronte os servos do nosso Deus.

Então, ouvi o número dos que foram selados, que era cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel: da tribo de Judá foram selados doze mil; da tribo de Rúben, doze mil; da tribo de Gade, doze mil; da tribo de Aser, doze mil; da tribo de Naftali, doze mil; da tribo de Manassés, doze mil; da tribo de Simeão, doze mil; da tribo de Levi, doze mil; da tribo de Issacar, doze mil; da tribo de Zebulom, doze mil; da tribo de José, doze mil; da tribo de Benjamim foram selados doze mil.

Ap 7.1–8

Impressionantemente, o capítulo 7 não começa com a abertura do sétimo selo, naturalmente esperado depois de tudo o que foi revelado dos selos 1 a 6. Esperava-se o clímax dessa história, o desfecho final daquilo que já foi anunciado.

No entanto, antes que o ápice dos selos seja alcançado, um suspense é feito, algo que não acontecerá apenas aqui, mas em vários outros lugares de Apocalipse. Assim como as almas debaixo do altar deverão esperar dizendo Até quando?, nós também devemos esperar até o capítulo 8 para compreendermos a abertura do sétimo selo. Há coisas que o Senhor deseja nos revelar antes de anunciar o que acontecerá.

1 Depois disto, vi quatro anjos em pé nos quatro cantos da terra, conservando seguros os quatro ventos da terra, para que nenhum vento soprasse sobre a terra, nem sobre o mar, nem sobre árvore alguma.

Quatro cantos da terra, quatro ventos da terra, quatro anjos em pé. Mais uma vez, figuras simbólicas são empregadas por João. O texto parece muito difícil para o leitor ocidental contemporâneo, distante de todo contexto literário da época de João.

De acordo com Dr. Utley, há muitas interpretações quanto aos quatro ventos.⁠1 Via de regra, têm a ver com o mal e com o julgamento de Deus. Jeremias e Daniel também escreveram sobre isso:

Jeremias 49.36: Trarei sobre Elão os quatro ventos dos quatro ângulos do céu e os espalharei na direção de todos estes ventos; e não haverá país aonde não venham os fugitivos de Elão.

Daniel 7.2: Falou Daniel e disse: Eu estava olhando, durante a minha visão da noite, e eis que os quatro ventos do céu agitavam o mar Grande.

Os quatro cantos da terra estão frequentemente associados ao mundo todo, a uma forma de mencionar a inteireza da planeta. Os quatro anjos em pé provavelmente estejam se referindo ao poder angelical, ou seja, ao poder de Deus através de seus espíritos ministradores em toda a terra. Assim, os quatro ventos provavelmente estejam relacionados ao juízo de Deus que virá pelo exercício de seus anjos em todos os cantos do mundo.

2 Vi outro anjo que subia do nascente do sol, tendo o selo do Deus vivo, e clamou em grande voz aos quatro anjos, aqueles aos quais fora dado fazer dano à terra e ao mar, 3 dizendo: Não danifiqueis nem a terra, nem o mar, nem as árvores, até selarmos na fronte os servos do nosso Deus.

O nascente do sol era um símbolo devida, saúde ou um novo dia, no antigo oriente. O anjo que sobe com esse sol anuncia ao leitor original a chegada da esperança; assim, com o juízo vem a esperança. O selo que o anjo possui nas mãos é o mesmo com o qual selará os servos de Deus mundo afora. Algo semelhante ao que aconteceu no Egito acontecerá com o povo de Deus antes do juízo final de Deus sobre o mundo.

Assim como anjo da morte passou em Êxodo 12 e não tocou no povo de Deus em cujas casas era visto o sangue da Páscoa, no final dos tempos um povo será selado a fim de não sofrer com o restante do mundo durante o julgamento que virá sobre a terra. Esse é o simbolismo que, provavelmente, esteve presente na compreensão dos primeiros leitores dessa carta.

O propósito do símbolo aqui é retratar a segurança do povo de Deus, assegurar que este povo não sofrerá com o restante do mundo quando a ira de Deus for derramada sobre a terra. Isso não significa que o povo de Deus não passará por aflições, mas que, nessas, será sustentado e guardado com a paz que vem de Deus, diferentemente do desespero que tomará conta das mentes e corações dos demais cidadãos.

Pelo o que o texto apresenta, a própria criação sofrerá. A terra, o mar e as árvores serão gravemente danificadas. A própria criação será destruída a fim de ser igualmente purificada e restaurada. O simbolismo por detrás da grande destruição representa o grande chacoalhar pelo qual esse mundo passará antes da segunda vinda de Cristo, como já descrito durante a abertura dos selos.

Como o povo de Deus viverá esta situação de instabilidade e desespero, é necessária a palavra de conforto, afirmando que assim como o povo de Deus foi guardado no Egito, serão novamente guardados durante as “pragas” do fim. Todos serão selados a fim de que os “ministros” executadores do juízo de Deus não os fira juntamente com o mundo.⁠2

4       Então, ouvi o número dos que foram selados, que era cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel: 5 da tribo de Judá foram selados doze mil; da tribo de Rúben, doze mil; da tribo de Gade, doze mil; 6 da tribo de Aser, doze mil; da tribo de Naftali, doze mil; da tribo de Manassés, doze mil; 7 da tribo de Simeão, doze mil; da tribo de Levi, doze mil; da tribo de Issacar, doze mil; 8 da tribo de Zebulom, doze mil; da tribo de José, doze mil; da tribo de Benjamim foram selados doze mil.

A partir daqui, a revelação nos aponta uma realidade através de duas formas. A primeira delas é através do simbolismo presente na figura dos 144.000 selados durante o tempo do fim.

Vimos nos versos anteriores que um anjo subiu com o selo de Deus para selar seu povo para que este não seja destruído e julgado junto do restante do mundo. Aqui, a partir do verso 4, João ouve o número de pessoas que seriam seladas. E, mais interessante ainda, de onde são essas pessoas.

Os 144.000 são divididos em 12.000 de cada tribo de Israel. O ponto é que, para o leitor mais atento, a lista de tribos de Israel é bastante diferente das demais listas conhecidas no Antigo e Novo Testamentos.

Quando o leitor original leu pela primeira vez, principalmente se era judeu (ou conhecia o Antigo Testamento), imediatamente percebeu a inclusão da tribo de Levi aqui, algo incomum no Antigo Testamento, além da omissão de Dã e Efraim. Outra diferença é a colocação de Judá no topo da lista, sendo que o primogênito é Ruben. Wright sugere que Judá é posto no topo da lista por indicar que esta lista diga respeito a todo o povo de Deus, incluindo os regenerados pelo Messias, o leão de Judá. A explicação que Wright encontrou para a inclusão de Manassés, um dos filhos de José, foi preencher o número 12, uma vez que Dã tenha sido retirado, provavelmente, por ser uma tribo da qual, na tradição judaica, cria-se que o “antimessias” viria.⁠3

Assim, a lista aqui encontrada não se encaixa em nenhuma das mais de vinte listas encontradas no Antigo Testamento. Qualquer judeu entenderia que esta lista é simbólica e que não poderia ser tomada como literal, por encontrar-se irregular. Sendo irregular, deveria ser toma simbolicamente.⁠4

Esse número é simbólico, como quase tudo dentro da literatura apocalíptica o é. Tanto é que, no verso 9, o número dos que João vê não é mais limitado aos 144.000, mas sim uma grande e incontável multidão. Provavelmente, é isso que 144.000 queiram representar.

Na cultura judaica, o número doze também era usado para simbolizar inteireza. E não só na cultura judaica, mas muitos outros povos têm no doze o símbolo de um ciclo completo e perfeito. Assim, conhecemos os 12 meses do ano, os 12 signos do Zodíaco, os 12 filhos de Jacó formando as 12 tribos de Israel, as 12 colunas no altar (Ex 24.4), os 12 espias enviados a Canaã (Nm 13), os 12 intendentes de Salomão sobre a nação de Israel (1Rs 4.7), as 12 pedras com as quais Elias erigiu um altar ao Senhor (1Rs 18.31), os 12 apóstolos escolhidos por Cristo, dentre tantas outras.

Aqui em Ap 7, os 12.000 de cada uma das 12 tribos mencionadas simbolizam a inteireza do povo de Deus sobre a terra. Multiplicando 12 por 12.000, chega-se aos 144.000. Todo o povo de Deus passará ileso pelo juízo que virá sobre o mundo.

Assim, o povo de Deus é redefinido com o povo do leão de Judá. Este povo será marcado e todos os eventos que serão, sem dúvida, catastróficos e desesperadores para o restante da humanidade, acontecerão sem atingir o povo de Deus sobre a terra. O povo de Deus é assegurado aqui de que poderá descansar em segurança de que o Senhor seu Deus os manterá debaixo do seu cuidado. Nunca fará tanto sentido o Salmo 91.7:

Caiam mil ao teu lado,

e dez mil, à tua direita;

tu não serás atingido.

Sl 91.7

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1 Robert James Utley, Hope in Hard Times – The Final Curtain: Revelation, vol. Volume 12, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 2001), 64.

2 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 70.

3 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 71.

4 Robert James Utley, Hope in Hard Times – The Final Curtain: Revelation, vol. Volume 12, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 2001), 66.

O MAL E SUA COMPLETA DESTRUIÇÃO (Comentário de Ap 6.9-17)

Embora o mal exista — e isso fica claro em Apocalipse —, e ele tenha chegado tão próximo do povo de Deus ao longo da história, existe um dia preparado para a sua completa destruição. Onde você estará neste dia?

Na abertura dos quinto e sexto selos, fica clara a soberania do Cordeiro mesmo sobre eventos maus que afetam o seu próprio povo. Ele está atento a tudo e a todos, aguardando também o dia de sua manifestação final.

Quando ele abriu o quinto selo, vi, debaixo do altar, as almas daqueles que tinham sido mortos por causa da palavra de Deus e por causa do testemunho que sustentavam.

Clamaram em grande voz, dizendo: Até quando, ó Soberano Senhor, santo e verdadeiro, não julgas, nem vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?

Então, a cada um deles foi dada uma vestidura branca, e lhes disseram que repousassem ainda por pouco tempo, até que também se completasse o número dos seus conservos e seus irmãos que iam ser mortos como igualmente eles foram.

Vi quando o Cordeiro abriu o sexto selo, e sobreveio grande terremoto. O sol se tornou negro como saco de crina, a lua toda, como sangue, as estrelas do céu caíram pela terra, como a figueira, quando abalada por vento forte, deixa cair os seus figos verdes, e o céu recolheu-se como um pergaminho quando se enrola. Então, todos os montes e ilhas foram movidos do seu lugar.

Os reis da terra, os grandes, os comandantes, os ricos, os poderosos e todo escravo e todo livre se esconderam nas cavernas e nos penhascos dos montes e disseram aos montes e aos rochedos: Caí sobre nós e escondei-nos da face daquele que se assenta no trono e da ira do Cordeiro, porque chegou o grande Dia da ira deles; e quem é que pode suster-se?

Ap 6.9–17

Na progressão do que já vimos nas páginas anteriores, o Senhor Jesus revela um pouco mais daquilo que se deve esperar antes de sua vinda, coisas que não devem nos assustar, mas que devem tomar seu lugar antes que chegue o grande dia da vitória do Cordeiro.

9       Quando ele abriu o quinto selo, vi, debaixo do altar, as almas daqueles que tinham sido mortos por causa da palavra de Deus e por causa do testemunho que sustentavam.

10       Clamaram em grande voz, dizendo: Até quando, ó Soberano Senhor, santo e verdadeiro, não julgas, nem vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?

11       Então, a cada um deles foi dada uma vestidura branca, e lhes disseram que repousassem ainda por pouco tempo, até que também se completasse o número dos seus conservos e seus irmãos que iam ser mortos como igualmente eles foram.

     

Todos estes que clamavam ao Senhor (e ainda clamam) são todos os mártires da história do povo de Deus. Aqui, não devemos pensar apenas nos mártires cristãos, mas também no grande número de judeus mortos no período do Antigo Testamento, os quais morreram honrado e glorificando ao Senhor Deus com suas mortes.

Se voltarmos para os Salmos e tantos outros escritos veterotestamentários, encontraremos o clamor de uma multidão de crianças, de profetas e de sacerdotes por socorro.

Êxodo 2.23: Decorridos muitos dias, morreu o rei do Egito; os filhos de Israel gemiam sob a servidão e por causa dela clamaram, e o seu clamor subiu a Deus.

Este é apenas um de tantos escritos relatando o clamor do povo de Deus por libertação e socorro. Embora o tipo de perseguição ao povo de Deus mude com o passar dos séculos, ele nunca deixa de tomar o seu lugar na história. Sempre encontraremos ao longo dos séculos um povo que clama: Até quando, ó Soberano Senhor, santo e verdadeiro, não julgas, nem vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?

Ao abrir o quinto livro, não se ouve mais os seres viventes, mas as vozes destes que, ao longo da história, têm morrido por causa de seu amor pelo Criador e o Messias. Muitas vozes destes que estacam debaixo do altar clamavam por socorro e libertação. Todos mortos por causa de seu testemunho cristão. Obviamente, em nosso contexto ocidental não possuímos noção do que isso significa, visto não conhecermos a realidade de uma perseguição religiosa.

Algo interessante registrado por N.T.Wright em seu comentário sobre Apocalipse é que nada é dito sobre o atual estado e lugar dessas pessoas mortas por sua fé em Cristo. O que percebe-se apenas é que a visão de João transforma pouco a pouco esta sala do trono celestial em uma espécie de templo celestial onde há um altar, debaixo do qual estas almas estão.

Enquanto falam com o Senhor sobre sua justiça sobre o mal, percebe-se que o mal, em si, ainda não havia sido destruído e acabado. Aparentemente, enquanto o quinto selo é aberto, as almas continuam sendo mortas e o mal continua a imperar. Antes que o Cordeiro venha e julgue e destrua todo o mal, mártires existirão como consequência da existência do mal no mundo. Antes da vinda do Senhor, nunca conheceremos um tempo em que os mártires na existam. O que muda é apenas o lugar e a razão pela qual são mortos.

A roupa que é posta sobre eles é simbólica e alude à sua pureza e vitória. Por enquanto, estas almas apenas aguardam a sua ressurreição quando novamente terão um corpo e verão com alegria a justiçam de Deus tendo sido cumprida no mundo. Aparentemente, à medida em que o mal representado pelos quatro cavaleiros avança sobre o mundo, e enquanto este mal existir, mártires existirão e suas almas clamarão ao Senhor: Até quando?

12       Vi quando o Cordeiro abriu o sexto selo, e sobreveio grande terremoto. O sol se tornou negro como saco de crina, a lua toda, como sangue, 13 as estrelas do céu caíram pela terra, como a figueira, quando abalada por vento forte, deixa cair os seus figos verdes, 14 e o céu recolheu-se como um pergaminho quando se enrola. Então, todos os montes e ilhas foram movidos do seu lugar.

15 Os reis da terra, os grandes, os comandantes, os ricos, os poderosos e todo escravo e todo livre se esconderam nas cavernas e nos penhascos dos montes 16 e disseram aos montes e aos rochedos: Caí sobre nós e escondei-nos da face daquele que se assenta no trono e da ira do Cordeiro, 17 porque chegou o grande Dia da ira deles; e quem é que pode suster-se?

     

Devemos ter muito cuidado aqui. Ao analisar esta passagem, precisamos nos recordar o que estes símbolos representavam para o povo do Antigo Testamento. Sem dúvida, havia uma compreensão naquele tempo do que estas figuras representavam.

Uma explicação razoável é a dada por Wright. No Antigo Testamento, linguagem sobre o sol tornando-se negro e a lua tornando-se como sangue,  estrelas caindo do céu, e assim por diante, era normalmente empregada como um jeito de falar sobre o que nós chamaríamos de “eventos de importância mundial”, não necessariamente tratando de atuais terremotos, mas de eventos que geram tumultos mundiais, tais com a queda do Muro de Berlim ou a destruição das Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001. Para eventos assim, dificilmente se encontraria outra simbologia além da que aqui está posta.⁠1

Este sexto selo deve ser compreendido como eventos que trarão distúrbios mundiais e que farão com que os homens queiram fugir dos tais. Se se tratasse de eventos literais, não faria sentido a fuga dos poderosos para as cavernas, visto que estas seriam igualmente destruídas. Uma vez que vemos estes cataclismas como eventos que gerarão transtorno mundial, compreendemos porque milhares, talvez milhões de pessoas — que podem — tentarão fugir para encontrar sua paz.

Quando estes eventos estiverem levando para um tempo em que a ira do Cordeiro ficará clara para todos, estes clamarão desesperados diante da justiça de Deus. Verão aquilo que parecia improvável: a ira do Cordeiro.

Curiosamente, muitos vêm a Deus e a Cristo apenas com a doçura de um Cordeiro, e no conseguem imaginar a possibilidade de haver um Cordeiro irado. É quase impossível imaginar-se um cordeiro em ira pastando no campo. Assim, muitos nutrem uma imagem de Deus como a de alguém manso e que não julga, mas compreende a todos, e que, no final, acolherá a todos. No entanto, quanto mais próximos do fim estivermos, mais claro ficará a todos que o Cordeiro de Deus, aquele que demonstrou tanto amor e doçura, também se ira contra o mal existente entre os homens. O dia da Ira do Cordeiro será o pior dia da história da humanidade. E este dia está para chegar. Na abertura dos selos, conhecemos as coisas que acontecerão antes que chegue o dia da Ira do Cordeiro.

Você está preparado para o dia da ira do Cordeiro?

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1 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 67.

RAZÕES PARA O FIM DO MUNDO (Comentário de Ap 6.1-8)

A abertura dos selos revela um de alguns pontos de vista que o Senhor nos dá sobre o fim. Todos estão intimamente ligados uns aos outros, e sem compreendê-los não faz sentido a vitória do Cordeiro. A abertura dos selos dão sentido à final vitória do Cordeiro de Deus. Vejamos, então.

Vi quando o Cordeiro abriu um dos sete selos e ouvi um dos quatro seres viventes dizendo, como se fosse voz de trovão: Vem!

Vi, então, e eis um cavalo branco e o seu cavaleiro com um arco; e foi-lhe dada uma coroa; e ele saiu vencendo e para vencer.

Quando abriu o segundo selo, ouvi o segundo ser vivente dizendo: Vem! E saiu outro cavalo, vermelho; e ao seu cavaleiro, foi-lhe dado tirar a paz da terra para que os homens se matassem uns aos outros; também lhe foi dada uma grande espada.

Quando abriu o terceiro selo, ouvi o terceiro ser vivente dizendo: Vem! Então, vi, e eis um cavalo preto e o seu cavaleiro com uma balança na mão.

E ouvi uma como que voz no meio dos quatro seres viventes dizendo: Uma medida de trigo por um denário; três medidas de cevada por um denário; e não danifiques o azeite e o vinho.

Quando o Cordeiro abriu o quarto selo, ouvi a voz do quarto ser vivente dizendo: Vem!E olhei, e eis um cavalo amarelo e o seu cavaleiro, sendo este chamado Morte; e o Inferno o estava seguindo, e foi-lhes dada autoridade sobre a quarta parte da terra para matar à espada, pela fome, com a mortandade e por meio das feras da terra.

Ap 6.1–8

Aqui começa uma fascinante forma de Deus nos mostrar o futuro (misturado com o presente, conforme veremos). Vejamos os primeiros versos.

6.1 Vi quando o Cordeiro abriu um dos sete selos e ouvi um dos quatro seres viventes dizendo, como se fosse voz de trovão: Vem!

2 Vi, então, e eis um cavalo branco e o seu cavaleiro com um arco; e foi-lhe dada uma coroa; e ele saiu vencendo e para vencer.

     

Não podemos olhar para essa passagem sem olharmos para todas as anteriores. O aparecimento dos cavalos e seus cavaleiros só tomam parte da história após o Cordeiro tomar o livro e passar a abrir os selos. E, a menos que os cavalos e seus cavaleiros venham e façam o que têm de fazer, o livro não pode continuar a ser lido e compreendido.

A vitória do Cordeiro de Deus só fará sentido no final da história humana graças ao que é revelado sobre estes cavaleiros. Suas ações serão completamente destruídas pela obra do Cordeiro. As coisas com as quais o Cordeiro lidará e que estão ligadas à sua vitória final têm a ver com esses cavaleiros e carecem de sua aparição a fim de que a vitória do Cordeiro faça sentido e seja completa.

Quando o Cordeiro toma o livro e passa a abrir os selos, não encontramos a vitória sobre o mal logo de início. Antes, vemos os quatro seres viventes chamando, após o Cordeiro abrir os selos, quatro seres que, depois, aparecem como cavalos e cavaleiros.⁠1

O primeiro deles, após o primeiro ser vivente dizer Vem!, aparece sobre um cavalo branco e possui um arco, uma coroa, e sai vencendo e para vencer. Cavalos brancos normalmente estão associados à vitoriosos na cultura antiga. Principalmente, quando sobre este bem alguém triunfantemente segurando seu arco e sua coroa.

Muitos atribuem este papel ao Messias, ao Senhor Jesus, ligando este texto ao de Ap 19.11, onde Jesus aparece sobre um cavalo branco. É possível que haja alguma relação entre os textos, no entanto, olhando para o contexto imediato dentro do qual ele se apresenta, acredito que este cavaleiro esteja representado um grupo de pessoas.

Compreendo, como N.T.Wright, que esta passagem esteja falando dos reis conquistadores da terra, dos homens poderosos que subjugam povos e dominam sobre estes. Estes são aqueles que, ao dominarem os povos, exigem o reconhecimento de sua soberania sobre eles. A consequência sobre tal opressão sobre a terra e sobre o povo de Deus (que aparecerá no quinto selo) é que o mal correrá solto sobre os povos. Ou seja, debaixo de um império iníquo que se coloca no lugar de Deus, o mal acaba destruindo vidas.⁠2

Para que o Cordeiro revele sua vitória sobre o mal, é necessário que se desate este primeiro selo a fim de que o governo mal tome seu lugar sobre a humanidade.  Compreendendo assim o primeiro cavalo, fica compreensível os demais que surgem abaixo.

3       Quando abriu o segundo selo, ouvi o segundo ser vivente dizendo: Vem!

4       E saiu outro cavalo, vermelho; e ao seu cavaleiro, foi-lhe dado tirar a paz da terra para que os homens se matassem uns aos outros; também lhe foi dada uma grande espada.

     

Assim como ocorre no primeiro selo, após o segundo ser aberto, outro ser vivente chama Vem!, diante do que aparece outro cavalo, agora vermelho, e seu cavaleiro. Este recebe o poder de tirar a paz da terra e fazer com que os homens se matem uns aos outros.

Seguindo a linha de raciocínio dos versos 1 e 2, após a conquista realizada pelos poderosos, os quais sempre existiram e sempre existirão, sempre vem a guerra, a destruição. Com a humilhação da raça humana, não há paz. Esta lhe é tirada. E, quando não há paz, os homens passam a se matar uns aos outros. É necessário que isso aconteça e apareça logo no início da revelação a fim de que a vitória do Cordeiro faça sentido sobre todo esse mal.

Assim, o cavalo vermelho representa a consequência da invasão dos povos, da conquista dos poderosos: a falta de paz e a mortandade.

5       Quando abriu o terceiro selo, ouvi o terceiro ser vivente dizendo: Vem! Então, vi, e eis um cavalo preto e o seu cavaleiro com uma balança na mão.

6       E ouvi uma como que voz no meio dos quatro seres viventes dizendo: Uma medida de trigo por um denário; três medidas de cevada por um denário; e não danifiques o azeite e o vinho.

     

Ao chamado do terceiro ser vivente — Vem! —, um cavalo preto surge e, sobre ele, alguém com uma balança na mão. Do meio dos quatro seres viventes, um voz apareceu com palavras que, para João (bem como para os leitores de sua época) simbolizavam problemas econômicos seríssimos.

Uma medida de trigo por um denário; três medidas de cevada por um denário, representa um valor altíssimo no mercado, consequência de provável escassez do referido alimento.

Não danifiques o azeite e o vinho, simbolizam provável dificuldade de produção, bem como dificuldade na aquisição dos referidos alimentos.

Tais problemas econômicos sempre estiveram na esteira da violência entre as nações. Sempre que uma nação se levanta contra outra em guerra, ou sempre que homens poderosos subjugam povos com violência que conduz à guerra, consequentemente aparecem problemas econômicos sobre os homens.

Se continuarmos na linha de raciocínio do texto, o que Jesus está apresentando com essas verdades é que sempre que alguém desejou soberania entre os homens, isso resultou em guerra; e, sempre que a guerra veio, problemas econômicos a acompanharam. Jesus está descrevendo com a abertura dos selos o que sempre tem acontecido na história da humanidade.

7       Quando o Cordeiro abriu o quarto selo, ouvi a voz do quarto ser vivente dizendo: Vem!

8       E olhei, e eis um cavalo amarelo e o seu cavaleiro, sendo este chamado Morte; e o Inferno o estava seguindo, e foi-lhes dada autoridade sobre a quarta parte da terra para matar à espada, pela fome, com a mortandade e por meio das feras da terra.

Continuando o chamado, o quarto ser vivente chama o quarto cavalo na fila. Sobre este, um cavalo amarelo, vem o cavaleiro cujo nome é Morte. Curiosamente, atrás desse cavaleiro surge alguém o seguinte do perto. Esse “alguém” chama-se Inferno.

Como já dissemos, esses cavalos e cavaleiros não são personagens reais, mas figuras e símbolos que representam fatos reais. João e seus leitores não esperavam ver tais figuras cavalgando ao olharem pela janela ou ao caminharem na rua. Todos compreenderam como figuras que representam fatos na história, tanto passada quanto futura.

Assim, a Morte e o Inferno são as consequências naturais dentro da linha de raciocínio de Ap 6. A última consequência após tudo o que aconteceu até aqui é o Inferno. E, em todos os séculos, podemos encontrar tiranos, guerras, problemas econômicos e, a consequência final sobre tudo isso, a morte e o inferno.

É importante que estes selos sejam abertos e tudo isso aconteça antes que venha a grande vitória do Cordeiro sobre todo o mal que assola a humanidade. O mal será vencido. Tudo o que vemos nos noticiários diariamente terá um fim. O mal existe e será destruído. É sobre isso que o Livro do Cordeiro trata.

Este é apenas o início da visão que Deus nos dá sobre o que acontecerá antes que venha o fim, antes que o Reino de Deus seja estabelecido sobre a humanidade. As consequências do pecado são grandes e terríveis. Tanto em nível pessoal quanto global, o pecado sempre destrói. Jesus, aqui, apenas deseja nos mostrar sobre o que ele vencerá quando chegar o dia do Novo Céu e Nova Terra.

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1 É certo que a visão de João tem algo a ver com a de Zacarias em sua profecia nos capítulos 1 e 6, embora os cavaleiros daqui pareçam possuir um papel diferente. De qualquer forma, nos focaremos aos seus papeis apresentados na revelação em Apocalipse.

2 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 61.

A IMPORTÂNCIA DA VIDA DE ORAÇÃO (Comentário final à Epístola aos Efésios)

Nenhum cristão pode negligenciar sua vida de oração. Orar é permanecer vivo, de pé, acordado, em meio à uma grande batalha. Oração é a primeira fonte de força que o cristão possui para lutar contra os poderes desta era.⁠1

Paulo compreendia tão bem este princípio que termina sua Epístola aos Efésios da mesma maneira como começou, falando sobre oração, pedindo aos seus irmãos que se unissem a ele em oração.

com toda oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito e para isto vigiando com toda perseverança e súplica por todos os santos e também por mim; para que me seja dada, no abrir da minha boca, a palavra, para, com intrepidez, fazer conhecido o mistério do evangelho, pelo qual sou embaixador em cadeias, para que, em Cristo, eu seja ousado para falar, como me cumpre fazê-lo. 

E, para que saibais também a meu respeito e o que faço, de tudo vos informará Tíquico, o irmão amado e fiel ministro do Senhor. Foi para isso que eu vo-lo enviei, para que saibais a nosso respeito, e ele console o vosso coração. Paz seja com os irmãos e amor com fé, da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo. A graça seja com todos os que amam sinceramente a nosso Senhor Jesus Cristo.

Ef 6.18–24

Vejamos os três primeiros versos:

18 com toda oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito e para isto vigiando com toda perseverança e súplica por todos os santos 19 e também por mim; para que me seja dada, no abrir da minha boca, a palavra, para, com intrepidez, fazer conhecido o mistério do evangelho, 20 pelo qual sou embaixador em cadeias, para que, em Cristo, eu seja ousado para falar, como me cumpre fazê-lo.

Um embaixador em cadeias. É assim que Paulo se descreve no início de sua despedida. Você seria capaz de imaginar tal cena? A de um embaixador em cadeias? Um embaixador, principalmente dentro do contexto paulino, era alguém que corria o império romano, livre, como um mensageiro de reis e, às vezes, príncipes. No entanto, aqui temos um embaixador em cadeias. Alguém portanto uma mensagem real, do Rei dos reis, preso, sem condições de expor sua mensagem diante de todas as autoridades da terra.

É assim que Paulo pede que efésios que orem por ele com toda oração e súplica, que falem com em todo tempo ao Senhor por si mesmos, mas, principalmente, pelos demais cristãos espalhados pelo mundo em perseguição, e também por Paulo, preso por causa da mensagem.

No entanto, orar sem vigiar é imprudência. Por isso Paulo diz que eles deveriam orar e vigiar com toda perseverança. Sua oração sem cessar deveria ser por todos os santos, ou seja, por todos os cristãos espalhados pelo mundo.

Após orientar os efésios a orarem por seus irmãos na fé, Paulo pede para que se unam a ele em oração. Paulo pede oração por sua tarefa de anunciar o Evangelho, ainda que em cadeias. Um embaixador precisa de palavras, de uma mensagem. E Paulo compreendia sua completa dependência de Deus para anunciar exatamente aquilo que o Rei dos reis deseja que seja anunciado.

O desejo de Paulo era tornar a mensagem do Evangelho conhecida, o mistério do Evangelho que agora se torna conhecido de todos os homens.  E Paulo queria ter coragem para anunciá-lo, sem temer as outras consequências que poderiam vir sobre ele por conta de sua tarefa de anunciar. Ele já estava preso por causa disso. Que não lhe faltasse coragem.

Após lermos Paulo iniciando sua Epístola aos Efésios orando em adoração a Deus por sua graça e salvação, e também o vermos orando pelos efésios, Paulo encerra convidando os efésios a que se unissem a ele em oração, por sua vida e ministério. Será que Paulo levava a sério a vida de oração? Ou será que um homem da estatura espiritual dele chegou a um momento da vida em que considerou que não precisava mais orar? Paulo não precisava mais orar?

É obvio que precisava. Parece que, quanto mais perto de Deus chegava, mais dependente dele ficava. O amadurecimento espiritual, na verdade, torna-nos mais dependentes de Deus, como crianças que, quanto menores são, mais dependentes vivem de seus pais. Na vida cristã de Paulo, observamos o mesmo, quanto mais Paulo “cresce” espiritualmente, mais ele se torna como uma criança no Reino, e quando mais “criança” aos olhos de Deus se torna, mais dependente também ele vive.

Paulo levava muito a sério sua vida de oração. E “orar é trabalho duro”, como escreveu N.T.Wright⁠2 em seus comentários às epístolas da prisão. Para Wright, a oração não pode ser resumida a uns poucos momentos de meditação sonolenta realizada no final do dia, ou alguns poucos momentos preguiçosos e desatentos no início do dia. Como argumenta Wright, é óbvio que é melhor isso do que nada. Mas é o mesmo que sobreviver com um pequeno pedaço de pão ao longo do dia. Sem dúvida, uma alimentação maior, mais completa, será melhor para a saúde física do que apenas um pequeno pedaço de pão. Para Paulo, quem se engaja em uma vida de oração, deve manter-se sempre alerta, atento, vigiando e orando o tempo todo.

21 E, para que saibais também a meu respeito e o que faço, de tudo vos informará Tíquico, o irmão amado e fiel ministro do Senhor. 22 Foi para isso que eu vo-lo enviei, para que saibais a nosso respeito, e ele console o vosso coração. 23 Paz seja com os irmãos e amor com fé, da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo. 24 A graça seja com todos os que amam sinceramente a nosso Senhor Jesus Cristo.

Paulo termina a epístola com suas costumeiras considerações e despedida finais. Suas palavras sobre Tíquico nos versos 21 e 22 são praticamente idênticas às palavras encontradas em Colossenses 4.7-8:

Colossenses 4.7–8: Quanto à minha situação, Tíquico, irmão amado, e fiel ministro, e conservo no Senhor, de tudo vos informará. Eu vo-lo envio com o expresso propósito de vos dar conhecimento da nossa situação e de alentar o vosso coração.

Tíquico, então, é quem levou estas epístolas às igrejas de Éfeso e Colossos. Não que ele estivesse sozinho, pois não estava. Mas era o principal responsável deixado por Paulo para entregar a mensagem.

Tíquico era um cristão gentil, da Ásia Menos. Ele é muito mencionado no Novo Testamento, sempre como um parceiro no ministério de Paulo (At 20.4, Ef 6.21, Cl 4.7, 2Tm 4.12, Tt 3.12). Em Atos, sabemos que Tíquico acompanhou Paulo em sua terceira viagem missionária (At 20.4). Em outras citações, ele é mencionado como o irmão amado, o servo fiel, um conservo. Paulo confiava muito nele e várias vezes o comissionou a entregar algumas das cartas que hoje fazem parte do novo Testamento.

Paulo esperava que Tíquico contasse tudo o que estava acontecendo com Paulo naqueles últimos dias e que também consolasse o coração dos efésios que estavam, provavelmente, preocupados com a perseguição dos últimos dias. A consequência seria que eles, ouvindo a Palavra de consolo vinda de Tíquico, tivessem paz em seus corações.

Paz… e amor com fé, essas são as consequências maravilhosas que viriam de Deus sobre aqueles que ouvissem as palavras de Tíquico. Deus nos dá paz em meio às perseguições e, ao mesmo tempo, enche nossos coração com amor com fé, ou seja, amor e mais fé, amor unido à fé. Pensando em um tempo de perseguição religiosa e injustiças contra os cristãos, faz sentido imaginarmos o amor que encheria o coração dos perseguidos, obviamente um amor pelo que os perseguiam, com fé de que o Senhor está soberanamente no controle de todas as coisas.

Paz, então, está intimamente ligada à fé e ao amor. Todas vêm de Deus sobre o coração dos seres humanos. Vêm da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo. Foi esse mesmo amor que encheu o coração de Cristo sobre a cruz, quando orou por aqueles que o crucificavam, amando-os em fé. É esse mesmo amor cheio de fé que Deus deseja encher nossos corações. Só assim, teremos igualmente paz.

O apóstolo Paulo termina sua Epístola com uma bênção, desejando que a graça de nosso Senhor Jesus Cristo fosse com todos os que ama sinceramente a nosso Senhor Jesus Cristo. É essa mesma graça que nos abre os olhos para que comecemos a olhar para Deus na face de Cristo sobre a cruz e o amarmos com todo nosso coração, força e alma. É por graça que o amamos. É por graça que o recebemos em nossos corações, É por graça que permanecemos de pé, mesmo quando as tribulações tentam nos derrubar. É por graça que um dia entramos na presença do Pai e é pela mesma graça que seremos sustentados pelos séculos dos séculos em sua maravilhosa presença.

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1 John D. Barry et al., Faithlife Study Bible (Bellingham, WA: Logos Bible Software, 2012), Ef 6.18.

2 Tom Wright, Paul for Everyone: The Prison Letters: Ephesians, Philippians, Colossians, and Philemon (London: Society for Promoting Christian Knowledge, 2004), 78.

BATALHA ESPIRITUAL: Como é e como nos preparar? (Comentário de Ef 6.10-17)

O cenário das batalhas era comum no imaginário popular da época de Paulo. Quando se imaginava uma batalha, logo se pensava em todas as figuras mencionadas neste texto. Não apenas o vestuário, mas também as armas usadas, tanto de defesa quanto de ataque.

Valendo-se dessas figuras, Paulo traz as figuras de uma batalha para o campo espiritual, mostrando que há uma batalha espiritual acontecendo sobre a vida de todo o povo de Deus. Embora exista muita confusão no tempo em que vivemos com esse tema, e muita gente o compreenda de forma errada, Paulo, neste texto, deixa claro o que verdadeiramente é uma batalha espiritual, dentro da qual todos nós vivemos.

Quanto ao mais, sede fortalecidos no Senhor e na força do seu poder. Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra as ciladas do diabo; porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes.

Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, depois de terdes vencido tudo, permanecer inabaláveis.

Estai, pois, firmes, cingindo-vos com a verdade e vestindo-vos da couraça da justiça. Calçai os pés com a preparação do evangelho da paz; embraçando sempre o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do Maligno.

Tomai também o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus;

Ef 6.10-17

10 Quanto ao mais, sede fortalecidos no Senhor e na força do seu poder.

Em princípio, a ordem é para que nos fortaleçamos. Mas não é uma força qualquer, é na força do seu poder, ou seja, o poder de Deus. Para o assunto que Paulo está para tratar, apenas a força que vem do Senhor é capaz de nos proteger.

E não podemos perder de foco tudo o que foi escrito até aqui, pois o que Paulo está para escrever está intimamente ligado aos versos anteriores, nos quais Paulo tratou sobre a família e todo o ambiente familiar.

11 Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra as ciladas do diabo; 12 porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes.

Antes de falar sobre a armadura de Deus, Paulo dá as razões e alguns alertas sobre nossa proteção e luta espiritual. A palavra revesti-vos nos faz pensar em que precisamos nos despir de algo. Bem, se vamos nos revestir da armadura para sermos protegidos espiritualmente pelo Senhor, devemos nos despir de tudo que possa ser nossa própria armadura, nossas próprias desculpas e armas de proteção.

Todos as possuímos e quando estamos em situações de tensão diante de alguém, as usamos sem dó nem piedade. Devemos abandonar nossas armas de ataque e de defesa e nos vestirmos apenas com a armadura de Deus, a qual é bem diferente da nossa própria armadura.

Para poderdes ficar firmes contra as ciladas do diabo, ou seja, contra todas as batalhas espirituais, somente as armas que o Senhor nos der funcionarão. O diabo é quem arma ciladas, armadilhas. Nós somos os que caem nelas. Você e eu precisamos estar atentos a isso.

Nossa luta não é contra o sangue e a carne, mas contra demônios. Logo, dentro do contexto deste texto, o contexto familiar, todas as vezes que ciladas do diabo forem armadas, é necessário que você se recorde que a luta dentro de seu lar não é contra sua esposa ou marido, filhos ou pais, mas contra espíritos imundos que, o tempo todo, estão tentando destruir o seu lar.

Neste mundo tenebroso, as trevas (tenebras) sempre estarão a nos cercar querendo nos envolver e destruir. E somos tão lentos para vê-la que, ao menor descuido, em meio às batalhas espirituais dentro do lar, rapidamente começamos a lutar contra a carne e o sangue que moram conosco. Mas a luta da esposa não é contra o marido, e vice-versa. Nem a dos pais com os filhos e vice-versa. Mas, a luta de cada um é contra os principados e potestades, as forças espirituais do mal.

Mas não é fácil nos recordarmos disso quando estamos em meio ao calor da irritação. No meio da ira, normalmente não nos lembramos da armadura de Deus e de contra quem estamos guerreando. Por fraqueza e imaturidade, acabamos tomando nossas próprias armas de defesa e de ataque, e partimos para a briga sem nos lembrarmos de quem nos jogou naquela cilada e de quais são seus reais propósitos finais. No final, todos da família perderão. Não restarão vencedores, apenas humanos que descuidadamente perderam a oportunidade de permanecerem firmes diante das ciladas do diabo.

13 Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, depois de terdes vencido tudo, permanecer inabaláveis.

Mais uma vez a ordem é dada: tomai toda a armadura de Deus. A razão não é somente a obediência à Palavra, mas a nossa completa fragilidade diante do mundo espiritual. Sendo nossa luta contra espíritos imundos poderosos que habitam as regiões celestiais desse mundo, que podemos fazer nós sem que os vejamos, os toquemos ou sequer saibamos como lidar com os tais.

É necessário que alguém maior do que nós, mais forte do que nós, nos defenda e conceda as armas de nossa defesa. É por isso que somos exortados a tomar toda a armadura de Deus, sem a qual não seremos capazes de resistir no dia mau. O dia mau é o dia da tentação, da batalha espiritual que virá (e vem) sobre nós e nossas famílias. Só podemos vencer e permanecer inabaláveis caso reconheçamos o Senhor como nosso Castelo Forte, nosso rochedo e Libertador. Sem ele, certamente cederemos aos desejos enganosos e pecaminosos, ou seja, às nossas próprias armas.

14 Estai, pois, firmes, cingindo-vos com a verdade e vestindo-vos da couraça da justiça. 15 Calçai os pés com a preparação do evangelho da paz; 16 embraçando sempre o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do Maligno. 17 Tomai também o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus;

Para que possamos estar firmes no dia da luta, é necessário que nos revistamos da armadura de Deus, a qual passa a ser descrita nos versos 14 a 17, finalizando essa passagem.

O primeiro item da armadura de Deus é cingir-se com a verdade, ou, o “cinto da verdade” (τὴν ὀσφὺν ὑμῶν ἐν ἀληθείᾳ — tēn osphyn hymōn en alētheia). O cinto nas armaduras antigas serviam para prender bem a roupa tanto na cintura quanto no meio do peito facilitando movimentos rápidos por parte de quem luta. O cinto era vital para a segurança e sobrevivência de um guerreiro na antiguidade. Assim, o cinto da verdade nos mostra o que é vital para nossa sobrevivência em lutas espirituais que vivenciamos dentro e fora de nossas famílias. Sem a verdade, estamos a um grande passo de nossa completa destruição.⁠1

O segundo item da armadura é a couraça da justiça (τὸν θώρακα τῆς δικαιοσύνης — ton thōraka tēs dikaiosynēs). Da palavra grega “thōraka (θώρακα)” surge a nossa palavra “tórax”. Originalmente, θώρακα significa couraça, originalmente feita de couro, de onde retiramos seu nome em português. Posteriormente, a couraça, item da armadura que protege o tórax, passou a ser confeccionada com outros materiais. Muitos reconhecem aqui o texto de Isaías:

Isaías 59.17: Vestiu-se de justiça, como de uma couraça, e pôs o capacete da salvação na cabeça; pôs sobre si a vestidura da vingança e se cobriu de zelo, como de um manto.

Outra sugestão que o texto nos traz é a de que a couraça da justiça protegerá o coração do cristão dos assaltos e investidas do diabo assim como a couraça de um soldado protege seu coração da lança de seu inimigo.

O terceiro item  (verso 15) é o calçado. Um soldado em batalha deve estar calçado devidamente a fim de não sofrer durante a luta. O que calça um cristão é o Evangelho. Assim como calçado dá segurança para quem se move diante de um inimigo, o Evangelho também nos dá segurança de quais movimentos devemos realizar quando dentro de uma intensa batalha espiritual. Também está associado a Isaías que escreveu:

Isaías 52.7: Que formosos são sobre os montes os pés do que anuncia as boas-novas, que faz ouvir a paz, que anuncia coisas boas, que faz ouvir a salvação, que diz a Sião: O teu Deus reina!

Assim, além de dar segurança para quem está na luta, simboliza aquele que é mensageiro ou portador de uma notícia importante. Os cristãos são estes que, enquanto batalham contra o inimigo, continuam a levar o Evangelho de Cristo por todo o mundo.

O próximo item da armadura é o escudo da fé. Todos sabemos como é e para que serve um escudo. Até hoje, forças militares e policiais utilizam escudos para avançar sobre seus oponentes enquanto se protegem do que é lançado sobre eles. Em tempos antigos, o escudo tinha o mesmo fim, embora os itens lançados fossem diferentes.

Segundo o texto, nosso inimigo é perito em lançar sobre nós dardos inflamados. O escudo, numa batalha, é um dos mais importantes itens na batalha. Sem ele, a luta está quase perdida. Logo, a fé é que nos protege das dúvidas que serão lançadas das formas mais geniais possíveis pelo Maligno. Ele sabe como nos fazer duvidar de Deus, duvidar de nós mesmo e duvidarmos dele. A arte da dúvida e da insegurança gera em nós o desânimo necessário para que percamos a batalha.

A própria ideia de um dardo inflamado, ou seja, uma flecha em cuja ponta há fogo, demonstra o desejo destruidor de nosso inimigo. É necessário que mantenhamos o escudo da fé sempre levantado, caso contrário, na fraqueza da dúvida seremos derrotados e mortos.

O penúltimo item é capacete da salvação. Sem salvação, nossa luta já está fadada ao fracasso. Sem salvação não há nem luta, pois a ausência do capacete denota que já somos derrotados, escravos daquele contra quem imaginamos lutar. Na verdade, o capacete da salvação é tomado no mesmo instante em que a justiça é posta sobre nós. O que devemos fazer em meio às batalhas espirituais é nos lembrar de que um dia nos vestimos com este capacete e de que ele é visto, e muito bem visto, por aquele contra quem lutamos. Nosso inimigo sabe quem somos e isso o irrita e inquieta.

O último, mas não menos importante, item da armadura de Deus é a espada do Espírito, que é a palavra de Deus. O próprio texto explica o que simboliza esta parte de nossa armadura. Em nós não pode faltar a espada, aquilo que nos protege, defende das investidas de nosso inimigo. É com ela que nos protegemos diante das aflições.

Esta espada foi dada pelo Espírito, demonstrando a inspiração que a Bíblia possui por parte do Espírito Santo de Deus. Este é o único item de ataque que a armadura possui, embora contra o inimigo de nossas almas ela será mais usada como defesa do que como ataque, assim como fez Jesus na tentação no deserto:

A seguir, foi Jesus levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo.E, depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome.Então, o tentador, aproximando-se, lhe disse: Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães.Jesus, porém, respondeu: Está escrito:

  Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus.

Então, o diabo o levou à Cidade Santa, colocou-o sobre o pináculo do templo e lhe disse: Se és Filho de Deus, atira-te abaixo, porque está escrito:

  Aos seus anjos ordenará a teu respeito que te guardem;

e:

  Eles te susterão nas suas mãos, para não tropeçares nalguma pedra.

Respondeu-lhe Jesus: Também está escrito:

  Não tentarás o Senhor, teu Deus.

Levou-o ainda o diabo a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória delese lhe disse: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares.Então, Jesus lhe ordenou: Retira-te, Satanás, porque está escrito:

  Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a ele darás culto.

Com isto, o deixou o diabo, e eis que vieram anjos e o serviram.

Mt 4.1–11

Diante da insistência do Maligno para fazer Jesus cair em tentação, o tempo todo Jesus o atacou em respostas usando a própria Palavra de Deus. Assim, todos os cristãos devem conhecer bem as Escrituras a fim de sairem vitoriosos em face as batalhas espirituais que vivenciam tanto dentro do lar quanto fora dele.

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1 Derek R. Brown, Miles Custis, e Matthew M. Whitehead, Lexham Bible Guide: Ephesians, ed. Douglas Mangum, Lexham Bible Guide (Bellingham, WA: Lexham Press, 2013), Ef 6.14.

O CORDEIRO E O LEÃO (Comentário em Ap 5.1-7)

A figura do Cordeiro e do Leão é uma das mais conhecidas na Palavra de Deus. João, depois de visualizar Cristo como o Leão de Judá e como o Cordeiro de Deus, compreende o porque seus olhos serão limpos de todo medo, incerteza e lágrimas. A visão que João passa a ter no capítulo 5 garante a paz, a esperança e a segurança que todo cristão anseia por ter.

Tanto em seu poder e autoridade quanto sua doçura e piedade, aquele que é o Cordeiro e o Leão há de reger o fim do presente tempo e guardar todos aqueles que estão em suas mãos, encaminhando-os para aquilo que é chamado de Novos Céus e Nova Terra.

Vi, na mão direita daquele que estava sentado no trono, um livro escrito por dentro e por fora, de todo selado com sete selos.Vi, também, um anjo forte, que proclamava em grande voz: Quem é digno de abrir o livro e de lhe desatar os selos?Ora, nem no céu, nem sobre a terra, nem debaixo da terra, ninguém podia abrir o livro, nem mesmo olhar para ele;e eu chorava muito, porque ninguém foi achado digno de abrir o livro, nem mesmo de olhar para ele.Todavia, um dos anciãos me disse: Não chores; eis que o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os seus sete selos.

Então, vi, no meio do trono e dos quatro seres viventes e entre os anciãos, de pé, um Cordeiro como tendo sido morto. Ele tinha sete chifres, bem como sete olhos, que são os sete Espíritos de Deus enviados por toda a terra.Veio, pois, e tomou o livro da mão direita daquele que estava sentado no trono;

Ap 5.1–7

1 Vi, na mão direita daquele que estava sentado no trono, um livro escrito por dentro e por fora, de todo selado com sete selos.

Ninguém sabe o que se encontra neste livro. Seu conteúdo é incerto. A palavra livro é a palavra βιβλίον (biblion), ou seja, livro, ou conteúdo de um livro, ou ainda, rolo. É bastante possível que João não tenha visto um livro tal como nós o imaginamos hoje, com capa, contra-capa, lombada, etc. Mas sim um rolo, possivelmente parecido com os rolos de pergaminho de seu tempo. E este rolo (livro) estava totalmente lacrado com sete selos, demonstrando possuir uma mensagem secreta, real, e importante.

Lembre-se de que aquele que estava sentado no trono é o mesmo que já apareceu em Ap 1.16:

Apocalipse 1.16: Tinha na mão direita sete estrelas, e da boca saía-lhe uma afiada espada de dois gumes. O seu rosto brilhava como o sol na sua força.

Assim como tem as igrejas e pastores em suas mãos, Jesus também possui autoridade sobre todos os segredos do universo, do tempo e da história. A mão direita na cultura judaica e nas Escrituras Sagradas simboliza poder e força, e, em algumas ocasiões, bênçãos.

Os selos guardavam o segredo relacionado aos julgamentos que estavam por vir sobre o mundo. Os selos denotam não apenas que o que esta no rolo é desconhecido, mas que é igualmente inacessível a qualquer pessoa que não seja aquele que está assentado sobre o trono.

2 Vi, também, um anjo forte, que proclamava em grande voz: Quem é digno de abrir o livro e de lhe desatar os selos?

Em sua visão, João afirma ter visto um anjo forte. Não sabemos ao certo o que esta expressão significa a não ser que, próximo ao trono de Deus, e próximo ao rolo no qual os segredos sobre os eventos de juízo futuro estão escritos, este anjo diferente aparece, assim como aparece outras vezes no restante do livro de Apocalipse (Ap 10.1 e 18.21:

Apocalipse 10.1: Vi outro anjo forte descendo do céu, envolto em nuvem, com o arco-íris por cima de sua cabeça; o rosto era como o sol, e as pernas, como colunas de fogo;

Apocalipse 18.21: Então, um anjo forte levantou uma pedra como grande pedra de moinho e arrojou-a para dentro do mar, dizendo: Assim, com ímpeto, será arrojada Babilônia, a grande cidade, e nunca jamais será achada.

É justamente este anjo que também demonstra interesse em que os segredos sobre os eventos futuros sejam revelados, no entanto, Quem é digno de abrir o livro e de lhe desatar os selos?, questiona o anjo.

3 Ora, nem no céu, nem sobre a terra, nem debaixo da terra, ninguém podia abrir o livro, nem mesmo olhar para ele; 4 e eu chorava muito, porque ninguém foi achado digno de abrir o livro, nem mesmo de olhar para ele.

Ninguém, aos olhos do anjo, poderia abrir o livro. Ninguém sobre a terra, nem mesmos os profetas e apóstolos. Ninguém sobre céus, nem mesmo os arcanjos. Aliás, nem mesmo olhar para o livro era permitido.

O choro de João é justificado, pois, talvez, ele não chorasse tanto pelo conteúdo inacessível, mas pelo juízo certo que viria do único que possui autoridade sobre céus e terra. A impressão que se tem olhando para o verso seguinte é que não haveria salvação sobre a humanidade, não haveria vitória sobre a desgraça humana, e por isso João chora. No entanto, o mesmo que se assenta no trono, ao longo do livro de Apocalipse, revela que não somente abrirá o livro como enxugará dos olhos toda lágrima. Mais uma vez, isso não se trata apenas de um gesto gentil, mas de uma verdade escatológica, a verdade de que o bem, finalmente, vencerá o mal e de que todas as coisas serão restauradas a fim de ser como deveria desde o Éden. A lágrima de desesperança será enxugada pois o Cordeiro de Deus fará novas todas as coisas!

 

5 Todavia, um dos anciãos me disse: Não chores; eis que o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os seus sete selos.

Aqui está o consolo de João, a palavra de um dos anciãos vistos em versos anteriores. Cristo é como o leão. Seu poder e grandeza sobre a criação devem trazer esperança ao coração dos homens. Cristo é o Messias prometido no Antigo Testamento, o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, aquele que venceu a morte e o pecado, e que, com sua vitória, garantiu o poder de abrir o livro e seus sete selos.

A certeza de que o Senhor está no controle da história deve trazer esperança e paz ao coração daqueles que estão nele. Sua vitória é a vitória dos seus.

6 Então, vi, no meio do trono e dos quatro seres viventes e entre os anciãos, de pé, um Cordeiro como tendo sido morto. Ele tinha sete chifres, bem como sete olhos, que são os sete Espíritos de Deus enviados por toda a terra. 7 Veio, pois, e tomou o livro da mão direita daquele que estava sentado no trono;

A visão de João, neste primeiro momento, se encerra com a brilhante comparação de Cristo como um Cordeiro. Ele é o Leão, mas ao mesmo tempo o Cordeiro. A força e a mansidão. O juízo e a misericórdia. Seus sete chifres simbolizam apocalipticamente a plenitude do poder. Chifres simbolizavam o poder numa batalha. Lembre-se de animais que possuem chifres. Numa batalha animal, estes animais usam seus chifres mais do que qualquer outra parte de seu corpo, pois ali está concentrada sua força. Simbolicamente, na literatura apocalíptica chifre simboliza poder, enquanto o número sete, como já vimos, simboliza a plenitude. Sete chifre, bem como sete olhos simbolizam não apenas uma plenitude de poder, como também uma plenitude de conhecimento, sabedoria e visão. Dentro disso, também se encontra com o Cordeiro de Deus os sete Espírito de Deus, os quais simbolizam a plenitude do Espírito Santo enviado sobre a terra. É justamente este Cordeiro e Leão que vem e toma da mão direita de Deus Pai, Todo Poderoso, que estava sentado no trono, o livro. É a partir daqui que todas as coisas começam.

ADORAÇÃO: “assim na Terra, como no Céu” (Comentário de Ap 4.6-11)

Amar é deixar a si e olhar para o outro. Adorar é reconhecer no outro a quem se ama seus atributos e qualidades. O tempo todo, os seres vistos nos sala do trono de Deus o reconhecem amorosamente em sua adoração, dando-nos uma lição de como devemos igualmente adorar.

Adoração na Terra não deve ser diferente do que há no céus. O que o final do capítulo 4 nos permite é compreender o que há por detrás de tal adoração, suas motivações, intenções e quem são as pessoas que adoram. Este texto está intimamente ligado ao anterior.

Há diante do trono um como que mar de vidro, semelhante ao cristal, e também, no meio do trono e à volta do trono, quatro seres viventes cheios de olhos por diante e por detrás.

O primeiro ser vivente é semelhante a leão, o segundo, semelhante a novilho, o terceiro tem o rosto como de homem, e o quarto ser vivente é semelhante à águia quando está voando.

E os quatro seres viventes, tendo cada um deles, respectivamente, seis asas, estão cheios de olhos, ao redor e por dentro; não têm descanso, nem de dia nem de noite, proclamando:

Santo, Santo, Santo

é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso,

aquele que era, que é e que há de vir.

Quando esses seres viventes derem glória, honra e ações de graças ao que se encontra sentado no trono, ao que vive pelos séculos dos séculos, os vinte e quatro anciãos prostrar-se-ão diante daquele que se encontra sentado no trono, adorarão o que vive pelos séculos dos séculos e depositarão as suas coroas diante do trono, proclamando:

Tu és digno, Senhor e Deus nosso,

de receber a glória, a honra e o poder,

porque todas as coisas tu criaste,

sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas.

Ap 4.6–11

6       Há diante do trono um como que mar de vidro, semelhante ao cristal, e também, no meio do trono e à volta do trono, quatro seres viventes cheios de olhos por diante e por detrás.

Outra parte da visão que se destacou diante de João foi o mar de vidro, semelhando ao cristal. De acordo com Utley, há muitas teorias sobre o que seria tal mar.⁠1 Para alguns, ela se refere à bacia de bronze presente no Templo de Salomão. Para outros, se refere a algo muito belo como o que está escrito em Êxodo 24.9–10:

E subiram Moisés, e Arão, e Nadabe, e Abiú, e setenta dos anciãos de Israel. E viram o Deus de Israel, sob cujos pés havia uma como pavimentação de pedra de safira, que se parecia com o céu na sua claridade.

Para outros ainda, o mar de vidro visto por João se parece com a beleza da safira vista por Ezequiel em sua visão da sala do trono:

Ezequiel 1.22: Sobre a cabeça dos seres viventes havia algo semelhante ao firmamento, como cristal brilhante que metia medo, estendido por sobre a sua cabeça.

Ezequiel 1.26: Por cima do firmamento que estava sobre a sua cabeça, havia algo semelhante a um trono, como uma safira; sobre esta espécie de trono, estava sentada uma figura semelhante a um homem.

Ezequiel 10.1: Olhei, e eis que, no firmamento que estava por cima da cabeça dos querubins, apareceu sobre eles uma como pedra de safira semelhando a forma de um trono.

Por fim, há quem considere esta visão apenas um símbolo da separação que há entre a santidade de Deus de tudo o mais.

João também menciona quatro seres viventes. A descrição dessas criaturas aparecerá nos versos seguintes. Há muita relação entre essas criaturas de Apocalipse e as criaturas de Ezequiel. Embora o número de asas e faces varia, permanece a composição daqueles que rodeiam o trono de Deus, numa espécie de combinação entre os querubins de Ez 1.18 e 10.17 e os serafins de Is 6.2-3. É possível que João e Ezequiel (e, talvez, Isaías) tenham tido a mesma visão.

Todos eles possuíam grande proximidade do trono de Deus. O fato de estarem cheios de olhos, pode tratar-se de uma metáfora bíblica da onisciência de Deus e também para a vigilância constante desses seres diante de Deus.⁠2

7       O primeiro ser vivente é semelhante a leão, o segundo, semelhante a novilho, o terceiro tem o rosto como de homem, e o quarto ser vivente é semelhante à águia quando está voando.

João passa, agora, a descrever como se parecem estes seres vistos no verso anterior. Na literatura rabínica, estes animais são listados como os mais fortes das diferentes ordens da criação de Deus.⁠3 Irineu, um pai da igreja do século II, usou estes quatro diferentes seres para descrever os quatro escritores dos Evangelhos (Mateus como leão, Marcos como novilho, Lucas como homem e João como águia). No entanto, muitos consideraram isso mera especulação e alegoria que não deveria ser levada adiante.

O certo é que estas figuras são simbólicas e não literais. São uma aproximação do que João, de fato, viu. Destaca-se sempre a palavra “semelhante”. A visão pode estar sugerindo que toda a criação deve estar constantemente em vigilância e adoração diante de seu Criador. Talvez, João esteja desejando transmitir aos seus leitores o que se espera deles também.

8       E os quatro seres viventes, tendo cada um deles, respectivamente, seis asas, estão cheios de olhos, ao redor e por dentro; não têm descanso, nem de dia nem de noite, proclamando:

     Santo, Santo, Santo

     é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso,

     aquele que era, que é e que há de vir.

Mais uma vez, a visão se aproxima a de Ezequiel, diferindo apenas no número de asas visto. Mais uma vez a vigilância e constância na adoração são destacados. Muitos olhos, vigilância. Constância, de dia e de noite.

Em sua adoração, destaca-se atributos de Deus. Menciona-se a santidade, possivelmente, da Santíssima Trindade (o Pai é Santo, o Filho é Santo e o Espírito é Santo). E ele é o Senhor sobre todas as coisas, ou seja, Soberano. É Todo-Poderoso, ou seja, nada foge ao seu poder ou conhecer. Ele é eterno, é aquele que era, que é e que há de vir, ou seja, canta-se a certeza de Sua vinda.

A adoração que há diante do trono de Deus nos céus não é sobre nada a não ser Deus. Isso, talvez, indique o que o próprio Deus espera daqueles que o adoram neste mundo, que os mesmos cantem sobre ele, elogiam, admirem, adorem seus atributos. O que percebemos aqui é que o louvor perfeito que há diante do trono canta sobre quem Deus é, como uma espécie de reconhecimento e, ao mesmo tempo, manifestação de amor pela pessoa de Deus.

9       Quando esses seres viventes derem glória, honra e ações de graças ao que se encontra sentado no trono, ao que vive pelos séculos dos séculos, 10 os vinte e quatro anciãos prostrar-se-ão diante daquele que se encontra sentado no trono, adorarão o que vive pelos séculos dos séculos e depositarão as suas coroas diante do trono, proclamando: 

11 Tu és digno, Senhor e Deus nosso,

de receber a glória, a honra e o poder,

porque todas as coisas tu criaste,

sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas.

     

Em grego, originalmente os versos 9 a 11 formam uma única sentença cujo objetivo também é demonstrar a quem unicamente é devida toda honra e toda a glória. Os seres viventes são os mesmo já mencionados e que voltarão a ser no restante do livro (cf. 5.6,8,14; 6.1; 7.11; 14.3; 15.7; 19.4).

O fato destes lançarem suas coroas diante do trono demonstra reconhecimento destes seres de que o poder e autoridade que possuíam veio daquele trono. Curiosamente, na parte final de sua adoração há um reconhecimento de que o Cordeiro de Deus, que se assenta no trono, é participante da criação. Assim como foi escrito por João no Evangelho que leva seu nome:

Jo 1.1–3: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.Ele estava no princípio com Deus.Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez.

Mais uma vez, reconhecimento de seu poder criador sobre todas as coisas no céus e na terra. Adorar, segundo o que vemos na sala do trono, é reconhecem que Deus é e elogiá-lo por isso, cheio de amor. Assim como um jovem, amando sua noiva, reconhecendo sua beleza, bondade, e demais qualidades, sente prazer em mencioná-las, elogiando sua noiva. É esta mesma atitude que se espera de quem se aproxima do trono de Deus, amor e reconhecimento de quem ele é.

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1 Robert James Utley, Hope in Hard Times – The Final Curtain: Revelation, vol. Volume 12, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 2001), 52.

2 John D. Barry et al., Faithlife Study Bible (Bellingham, WA: Logos Bible Software, 2012), Ap 4.6.

3 Robert James Utley, Hope in Hard Times – The Final Curtain: Revelation, vol. Volume 12, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 2001), 52.

ESCRAVOS E SEUS SENHORES NA IGREJA (Comentário de Ef 6.5-9)

As relações sociais no Império Romano  no século I eram bastante diferentes das relações ocidentais dos últimos séculos. Sem compreendermos bem tais relações dificilmente entenderemos palavras como as à seguir.

Quanto a vós outros, servos, obedecei a vosso senhor segundo a carne com temor e tremor, na sinceridade do vosso coração, como a Cristo,não servindo à vista, como para agradar a homens, mas como servos de Cristo, fazendo, de coração, a vontade de Deus;servindo de boa vontade, como ao Senhor e não como a homens,certos de que cada um, se fizer alguma coisa boa, receberá isso outra vez do Senhor, quer seja servo, quer livre.E vós, senhores, de igual modo procedei para com eles, deixando as ameaças, sabendo que o Senhor, tanto deles como vosso, está nos céus e que para com ele não há acepção de pessoas.

Ef 6.5–9

5Quanto a vós outros, servos, obedecei a vosso senhor segundo a carne com temor e tremor, na sinceridade do vosso coração, como a Cristo,

A palavra Servos (δοῦλοι — douloi), no contexto de Paulo significava literalmente Escravos. Paulo está falando a escravos aqui, e não meramente a pessoas que trabalham para outras pessoas. No entanto, escravidão naquele tempo era algo muito diferente de como estamos acostumados a conhecê-la em nosso século e no ocidente.

Segundo o Dr. Marvin R. Vincent, em muitas cidades da Asia Menor, o número de escravos ultrapassava o de homens livres.⁠1 No Império Romano, as pessoas possuíam dois níveis sociais nos quais poderiam se encaixar: escravos ou livres. Em muitas ocasiões, escravos eram melhor tratados, cuidados e alimentados do que os homens livres. Famílias de escravos possuíam a segurança do cuidado de seus senhores enquanto famílias livres, em momentos de seca ou escassez de alimento, acabavam morrendo de fome.

De um modo muito diferente da história recente, a escravidão nos dias de Paulo não era baseada em etnias ou “raças”. Qualquer ser humano poderia se tornar um escravo e qualquer escravo poderia se tornar um homem livre. Homens livres e escravos viviam e trabalhavam juntos no século I e eram, socialmente, distinguidos apenas por seus status social de escravo ou livre. Há inúmeros relatos de pessoas que, podendo alcançar sua liberdade, preferiam continuar vivendo com seus senhores, como escravos, pela segurança que isso lhes trazia.⁠2

De modo nenhum isso é uma defesa da escravidão. Apenas precisamos compreender o contexto em que tais palavras foram escritas. Paulo, de modo algum, era a favor da escravidão tal como nós a conhecemos hoje. Basta uma simples leitura e estudo de sua Epístola a Filemon para compreendermos um pouco de seu pensamento sobre a escravidão. O que Paulo faz aqui em Efésios é mostrar tanto a escravos quanto a senhores de seu tempo como eles deveriam viver, no contexto social em que se encontravam, como cristãos. O propósito de Paulo é fazer com que as atitudes de um para com o outro sejam mudadas.

Como bem escreveu Ted Cabal, “o Evangelho é oposto à escravidão. Onde o Evangelho permeia vida, a instituição da escravidão está abolida. É digno de nota que a primeira geração de cristãos que foi libertada da escravidão do pecado, agradecidamente passou a chamar a si mesma de ‘escravos’ de Deus ou de Cristo (veja 1Tm 6.1; Fm 16)”.⁠3 Embora pareça algo contraditório, a “escravidão a Cristo” é o mais alto nível de liberdade que o ser humano pode alcançar.

O senhor segundo a carne do verso em estudo apenas contrasta com o verdadeiro e celestial Senhor (Ef 6.4). Mais desse conselho é dado nos seguintes versos:

Colossenses 3.22: Servos, obedecei em tudo ao vosso senhor segundo a carne, não servindo apenas sob vigilância, visando tão-somente agradar homens, mas em singeleza de coração, temendo ao Senhor.

1Pedro 2.18–21: Servos, sede submissos, com todo o temor ao vosso senhor, não somente se for bom e cordato, mas também ao perverso; porque isto é grato, que alguém suporte tristezas, sofrendo injustamente, por motivo de sua consciência para com Deus. Pois que glória há, se, pecando e sendo esbofeteados por isso, o suportais com paciência? Se, entretanto, quando praticais o bem, sois igualmente afligidos e o suportais com paciência, isto é grato a Deus. Porquanto para isto mesmo fostes chamados, pois que também Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos.

6não servindo à vista, como para agradar a homens, mas como servos de Cristo, fazendo, de coração, a vontade de Deus; 7servindo de boa vontade, como ao Senhor e não como a homens, 

Há uma insistência dos versos 5 a 7 de que a obediência é como ao próprio Cristo e não ao homem. Toda obediência devida tem como fim principal a glória de Deus. Assim, a razão pela qual um servo obedece a seu senhor não é o senhor em si, o senho humano. Mas, é pelo Senhor celestial que o servo deve obedecer e honrar aqueles que são seus senhores durante o tempo de sua servidão.

Como servos de Cristo, todos devem servir a seus senhores, de boa vontade, pensando que estão agradando a Deus fazendo isso, ainda que seus senhores não se agradem, ou reconheçam seu esforço, ou elogiem, enfim, é Deus quem observa e, por fim, deve recompensar seu ser por ter agido de um modo correto em sua relação social.

8certos de que cada um, se fizer alguma coisa boa, receberá isso outra vez do Senhor, quer seja servo, quer livre.

Aqui encontra-se a razão para tal obediência e uma promessa aos que agirem bem. Receberá isso outra vez do Senhor garante que Deus vê a vidas de todos os crentes, sejam eles livres ou prisioneiros de guerra vivendo como escravos em outra nação. Deus vê a todos e recompensará a cada um.

A Bíblia nos fala muito sobre recompensas futuras. Embora não consigamos compreender claramente o que serão tais prêmios, eles existem e serão dados ao povo de Deus no tempo oportuno (Mt 5.12,46;6.1–2;10.41–42; Lc 6.23,35; 1Co 3.8,14; 9.17–18; 2Jo 8; Ap 11.18; 14.13; 22.12).⁠4

Assim, a razão pela qual ouvimos ao Senhor e o obedecemos é tanto para lhe agradar quanto por causa das recompensas que ele mesmo deseja nos dar. Sejam homens livres, sejam escravos, Paulo se preocupa em que todos ouçam o que ele tem a dizer.

9E vós, senhores, de igual modo procedei para com eles, deixando as ameaças, sabendo que o Senhor, tanto deles como vosso, está nos céus e que para com ele não há acepção de pessoas.

Aprende-se neste último verso que senhores não são diferentes de seus servos. Mutatis mutandis,⁠5 Paulo orienta que os senhores deveriam proceder de igual modo para com eles, ou seja, pensando no Senhor e agindo de um modo que glorifica ao Senhor.

Deixando as ameaças aponta para uma relação amorosa que se espera entre senhores e escravos na sociedade imperial do séc. I. É o amor quem deve regula as relações, amor pelo próximo, e, principalmente, amor por Deus que deu tais orientações tanto para um quanto para outro.

Como o cristianismo torna todos os homens irmãos uns dos outros, não deveria haver ameaças ou opressão por parte dos senhores sobre seus escravos irmãos, principalmente aqueles que consentissem viver como escravos (por vontade própria) para fugir da fome e proteger sua família.⁠6

O modo igual com o qual os senhores devem proceder diante de seus servos aponta para Deus. Ambos agem diante da face de Deus. Ambos, independentemente de sua posição social na Terra, possuem um mesmo e único Senhor nos céus, para o qual não distinção entre um e outro, ou seja, não há acepção de pessoas.

A lição que o Espírito Santo deseja nos transmitir nestas palavras é que tudo o que fazemos, fazemos coram deo, ou seja, diante da face de Deus. E, por ele, fazemos o que fazemos, para a glória dele, e não de qualquer ser humano criado. Tudo o que fazemos, fazemos para o Senhor e não para o homem.  Devemos viver coram deo, cheios de santo e amoroso temor e tremor.

Seja na família, seja no trabalho, seja nos estudos, seja na igreja, seja nas relações sociais que forem, devemos agir sempre pensando em como o Senhor de todos deseja que ajamos. É a Ele que prestaremos contas e é a ele quem amamos com todo nosso coração. Por isso, devemos pensar nele antes de quaisquer decisões que venhamos a tomar.

Viver coram deo nos guarda da falsa ideia do carpe diem, ou seja, do “aproveite o dia”. Não é possível aproveitar bem o dia, curtir a vida e o dia vivido, sem nos lembrarmos que estamos constantemente diante da face de Deus. É Deus quem torna nossos dias felizes ou não. É ele quem dá sentido à nossa história. Sem ele, tudo é passageiro e vazio. Com ele, sejamos senhores ou servos, nossa vida sempre será uma bênção. Em outras palavras, não é possível haver carpe diem sem que haja coram deo.

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1 Marvin Richardson Vincent, Word studies in the New Testament, vol. 3 (New York: Charles Scribner’s Sons, 1887), 404.

2 John D. Barry et al., Faithlife Study Bible (Bellingham, WA: Logos Bible Software, 2012).

3 Ted Cabal et al., The Apologetics Study Bible: Real Questions, Straight Answers, Stronger Faith (Nashville, TN: Holman Bible Publishers, 2007), 1770.

4 Robert James Utley, Paul Bound, the Gospel Unbound: Letters from Prison (Colossians, Ephesians and Philemon, then later, Philippians), vol. Volume 8, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 1997), 136.

5 Expressão latina que traz a ideia de “mudando o que tem de ser mudado”.

6 Robert Jamieson, A. R. Fausset, e David Brown, Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible, vol. 2 (Oak Harbor, WA: Logos Research Systems, Inc., 1997), 356–357.

AS 7 IGREJAS DO APOCALIPSE: Laodicéia (Comentário 3.14-22)

É possível ser igreja e deixar Jesus do lado de fora? É possível ser uma igreja e, ainda assim, existir sem sua doce presença? Impressionantemente, a resposta é sim. Não sabemos por quanto tempo, mas é possível pois foi exatamente o que aconteceu em Laodicéia. Lá, os laodicenses agiam como cristãos, mas suas obras eram completamente diferentes das que traziam agrado a Deus.

Nesta pequenina carta de Jesus aos laodicenses, vemos como uma igreja que estava deixando Jesus do lado de fora pode, ainda assim, ser chamada de igreja por nosso Senhor Jesus Cristo.

Ao anjo da igreja em Laodicéia escreve:

Estas coisas diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus:

Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente!

Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca; pois dizes Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu.

Aconselho-te que de mim compres ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres, vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez, e colírio para ungires os olhos, a fim de que vejas.

Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso e arrepende-te.

Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo.

Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como também eu venci e me sentei com meu Pai no seu trono.

Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.

Ap 3.14–22

 

14       Ao anjo da igreja em Laodicéia escreve: Estas coisas diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus:

Laodicéia vem de Λαοδικείᾳ (Laodikeia), literalmente, “justiça do povo”. Os cidadãos de Laodicéia tinham um gosto especial, segundo Dr. Vincent, pela arte grega, e eram extremamente reconhecidos na ciência e na literatura. Tratava-se de uma cidade envolvida com artes e cultura. Laodicéia, nos dias em que este livro foi escrito, hospedava uma grande escola de medicina.⁠1

Além disso, Laodicéia era conhecida pela produção de uma espécie de lã negra de altíssima qualidade, muito procurada naqueles dias. Havia tudo de bom dentro de seus domínios, menos uma coisa, a água.

A razão para isso é simples. Laodicéia ficava entre duas cidades conhecidas, Hierápolis e Colossos. Da primeira, no alto de um penhasco íngrime, havia uma fonte de água quente. Turistas do mundo todo vinham à Hierápolis para seus banhos quentes. Ainda hoje, hotéis exploram tais águas na região da antiga Hierápolis, sendo fonte de grande lucro.

De acordo com Dr. Wright, no primeiro século, foram construídos aquedutos para trazer a água quente de Hierápolis para Laodiceia, a qual ficava em um vale entre as cidades de Colossos e Hierápolis. Ainda hoje estes aquedutos podem ser vistos na região.

Durante o percurso que fazia, a água quente se esfriava até chegar em Laodicéia, cerca de quatro ou cinco quilômetros de distância. Chegando morna em Laodicéia, tornava-se imprópria para beber, e era usada apenas para fins medicinais.⁠2

Do outro lado do vale, ficava a cidade de Colossos, a qual em 61 d.C., ou seja, há cerca de 30 anos antes de Apocalipse ser escrito, havia sofrido um terrível terremoto. Nesta cidade também havia uma “fonte esplêndida de água, que desce do alto do Monte Cadmus, coberto de neve”.⁠3

Isso fazia com que as águas que saíssem de Colossos, saíssem muito frias. No entanto, ao se aproximarem de Laodicéia, também perdiam sua temperatura gelada, chegando mornas por causa do calor do vale de Laodicéia, localizada há cerca de 18 quilômetros de Colossos. Também chegavam mornas.

Assim, as águas que banhavam Laodicéia eram mornas de ambos os lados. Ainda de acordo com N.T.Wright, a própria palavra Laodicéia era proverbial naqueles dias para designar algo apático, morno, ou, até mesmo, nojento.

Quando Jesus se dirige aos cristãos de Laodicéia, apresenta-se como aquele que é verdadeiro, o Amém, a testemunha fiel e verdadeira. Não há erro ou mentira naquilo que será dito e deve ser ouvido com absoluta atenção e cuidado.⁠4

15       Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! 16       Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca;

Deus usa figuras reconhecidas pela cidade para tratar de sua nojeira espiritual. Aquele que é a verdade e que não é capaz de narrar mentiras utiliza de figuras e imagens compreensíveis à audiência para tratar de sua situação espiritual.

Jesus diz conhecer as obras de cada um deles e as descreve como nem fria, nem quente. Ou seja, assim como as águas que desciam de Hierápolis e Colossos eram um problema para a saúde física da cidade, a vida espiritual dos cristãos de Laodicéia também era um problema.

Ao dizer assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca, Jesus está demonstrando sua revolta com o sabor do cristianismo de Laodicéia. Assim como uma pessoa podia se adoecer bebendo da água de Laodicéia, Jesus notava como imprópria a vida espiritual dos laodicenses, como algo que poderia lhe trazer doença caso insistisse em usufruir.

17       pois dizes Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu. 18       Aconselho-te que de mim compres ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres, vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez, e colírio para ungires os olhos, a fim de que vejas.     

Jesus descreve a situação financeira da igreja, aparentemente muito boa. A impressão que se tem com tais palavras é que não havia problema financeiro em Laodicéia. Jesus, mais uma vez, utiliza de figuras conhecidas pelos habitantes de Laodicéia, no entanto, chamando para si a capacidade de cobrir a real vergonha dos laodicenses, a qual não estava em seu corpo, mas em sua alma.

A despeito de toda lã produzida em Laodicéia, é de Jesus que os laodicenses deveriam comprar a real veste para se cobrir. E também apesar do ouro que tinham, de Cristo viria o melhor tesouro, sendo ele mesmo o grande e único tesouro que os laodicenses precisavam. E não devemos deixar de olhar para a necessidade de um colírio, mesmo havendo uma escola médica na cidade, nenhum doutor seria capaz de fazê-los enxergar melhor do que Cristo.

Apesar de possuírem muito, na verdade, não possuíam nada, pois o tudo que possuíam nada tinha a ver com Cristo, e somente em Jesus todo tesouro e satisfação podem ser encontrados.

19       Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso e arrepende-te. 20       Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo.

Jesus reconhece que havia uma igreja ali, embora fosse tão desobediente e falha. O fato de dizer que disciplina a quantos amo, demonstra que havia amor e compaixão de sua parte para com os laodicenses. Embora tão imperfeitos em sua espiritualidade, ainda eram igreja, digna da atenção do próprio Cristo.

O amor é quem convida ao arrependimento. E convida por estar do lado de fora da igreja. Não são incrédulos que deveriam convidar Jesus a entrar, mas os próprios cristãos. Suas palavras Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo, revelam alguém que deseja entrar, ter comunhão, estar no meio, ser íntimo, mas que permanecia do lado de fora.

O caminho para abrir a porta é o arrependimento. O arrependimento é que o leva à ceia, à comunhão.

21       Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como também eu venci e me sentei com meu Pai no seu trono. 22       Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.    

Mais uma vez, o encerramento de suas palavras revelam alguém disposto a dar de si mesmo, do que possui, àqueles que o amarem e deixarem tudo para tê-lo. Seu próprio trono será compartilhado com aqueles que se arrependerem e o amarem.

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1 Marvin Richardson Vincent, Word studies in the New Testament, vol. 2 (New York: Charles Scribner’s Sons, 1887), 469.

2 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 37.

3 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 37.

4 Johannes P. Louw e Eugene Albert Nida, Greek-English lexicon of the New Testament: based on semantic domains (New York: United Bible Societies, 1996), 672.

OS PAPÉIS DO HOMEM E DA MULHER NO CASAMENTO (Parte 2)

Além de demonstrar as funções que homens e mulheres devem desempenhar no lar, a Palavra de Deus nos incentiva a olhar para a história da criação do casamento na Bíblia como uma forma de visualizarmos o modo como o próprio Deus deseja se relacionar com seu povo.

Existem muitos paralelos entre a relações de homens e mulheres e a relação de Deus com seu povo, e Paulo aproveita a assunto já começado nos versículos anteriores para demonstrar como a igreja deve enxergar o papel do casamento dentro do propósito redentor.

Porque ninguém jamais odiou a própria carne; antes, a alimenta e dela cuida, como também Cristo o faz com a igreja; porque somos membros do seu corpo. Eis por que deixará o homem a seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher, e se tornarão os dois uma só carne. Grande é este mistério, mas eu me refiro a Cristo e à igreja. Não obstante, vós, cada um de per si também ame a própria esposa como a si mesmo, e a esposa respeite ao marido.

Ef 5.29–33

29 Porque ninguém jamais odiou a própria carne; antes, a alimenta e dela cuida, como também Cristo o faz com a igreja; 30 porque somos membros do seu corpo.

As palavras de Cristo são absolutamente cristalinas quanto à maneira como um homem deve amar sua esposa. Assim como ninguém jamais odiará sua própria carne, estes mesmos tais não devem odiar sua esposa. O foco não está no ódio, mas no sentimento oposto a este. O amor com que alguém ama a si mesmo deve ser o amor com o qual alguém se entrega à sua esposa.

Assim, jamais alguém deve odiar ao próximo, visto ser impossível este mesmo alguém odiar a si mesmo. Tão absurdo aos olhos de Deus é o ódio ao próximo como o é o ódio a si mesmo. Assim como nos preocupamos em cuidar e alimentar a nós mesmos, devemos cuidar dos interesses e necessidades de nosso próximo, especialmente o próximos mais próximo, nosso cônjuge.

É isso que Cristo faz com a igreja. Cristo cuida dela, a ama, a alimenta, sem jamais odiá-la. E, assim como Cristo se torna um só corpo com a sua igreja, assim como nos tornamos membros de seu corpo, um casamento faz com que homem e mulher se tornem membros uns dos outros. Paulo chamará isso de mistério mais adiante, sobre o como tornam-se uma só carne Cristo e sua igreja, marido e sua esposa.

31 Eis por que deixará o homem a seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher, e se tornarão os dois uma só carne.

A razão pela qual pais deixam seus filhos quando estes se casam é a união de almas que acontece entre um marido e sua esposa. Quando estes se tornam uma só carne, deixam a carne da qual um dia vieram. Há uma íntima ligação, uma ligação espiritual entre pais e filhos, a qual só é cortada pelo casamento.

Assim, homem e mulher se tornam uma só carne no casamento, em repetição a Gênesis:

Gênesis 2.24: Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne.

A orientação matrimonial dando as orientações quanto às funções de marido e esposa vêm desde antes da queda. Desde antes do pecado entrar na humanidade, já havia uma definição bastante clara da união que liga homem e mulher no casamento.

Esta união implica cuidado mútuo, e submissão mútua, e é por isso que o Senhor nos diz através de Paulo no verso 21 deste mesmo capítulo: sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo. Sem a sujeição mútua não há união de almas e de carne. Sem sujeição mútua, o casamento não passa de uma troca de interesse, onde se casa para se satisfazer e, quando não mais se satisfaz, encerra-se o matrimônio.

O casamento criado por Deus não foi feio para terminar antes que a morte chegue. Chegando a morte, não há mais laços ou aliança. No entanto, enquanto a morte não chega (e o casamento não é dissolvido por quebra de aliança pelos motivos bíblicos), o casal está ligado um ao outro, mesmo que um documento civil afirme que não há mais casamento. Documentos civis não têm poder de dissolver o que foi unido debaixo da bênção de Deus. Assim, o que começou debaixo da bênção de Deus não pode ser encerrado sem a permissão de Deus.

32 Grande é este mistério, mas eu me refiro a Cristo e à igreja.

Sem dúvida alguma, é dificílimo compreender este paralelo, embora ele exista. Assim como homem e mulher estão unidos pelo casamento, Cristo e a igreja estão unidos também, embora, por enquanto, apenas pela promessa. Cristo é “noivo” da igreja e, em breve, haverá bodas de casamento e sua igreja estará para sempre com seu “marido”.

Por enquanto, apenas desfrutamos no casamento daquilo que será perfeito com Cristo. Todo casamento é imperfeito na terra pois haverá um só casamento perfeito, o de Cristo com sua noiva, a igreja. Assim, o prazer máximo que um casal pode ter no casamento é apenas uma sombra do prazer que haverá na relação entre Cristo e a igreja na eternidade.

Esposas devem olhar para a igreja e esforçarem-se para ser a melhor esposa para seu marido, assim como a igreja deve buscar ser a melhor noiva para Cristo. E maridos devem olhar para Cristo e esforçarem-se para amar e respeitar sua esposa com a mesma intensidade com que Cristo ama a igreja.

33 Não obstante, vós, cada um de per si também ame a própria esposa como a si mesmo, e a esposa respeite ao marido.

Paulo conclui com um resumo de tudo o que expôs ao longo do capítulo — esposas respeitam seu marido, e maridos amam sua esposa.

Algo que aprendemos de modo rico e impressionante é o entrelaçamento que há entre a relação do homem com sua mulher e a relação de Deus com os seres humanos. É interessante notar que o apóstolo Paulo vai para antes da queda, na própria Criação dos seres humanos para demonstrar o modo como homem e mulher deveriam se ver.

Assim como o homem (Messias Jesus) deixa sua “casa” para buscar sua noiva, o homem deixa sua casa para encontrar-se definitivamente com sua noiva. Assim como o Messias resgata um povo para que este seja seu por todo o sempre, assim um homem resgata sua esposa a fim de que essa seja sua esposa até que a morte os separe.

Compare o estado de humilhação do Cordeiro de Deus ao vir buscar sua noiva com o que se espera dos maridos:

Filipenses 2.6–11: pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus;7antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana,8a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz.9Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome,10para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra,11e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.

Veja mais este:

Colossenses 1.15–20: Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação;16pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele.17Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste.18Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia,19porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude20e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus.

Embora ele seja o cabeça da criação, se humilhou e esvaziou de si a fim de remir uma “noiva” com a qual desfrutará de comunhão e alegria por toda a eternidade.

Lendo Filipenses 2: 6-11 ou Colossenses 1: 15-20, encontramos aquilo que N. T. Wright chamou de uma “sugestão rica e fascinante”.1 Podemos encontrar paralelos múltiplos e incríveis na relação homem e mulher com a relação Deus e seres humanos. A maneira como vivemos nossas vidas como casados revela muita coisa sobre o que cremos e como vemos a relação de Deus com o seu povo. Nossas mais preciosas relações devem ser vividas de um modo bastante semelhante à relação de Deus com os homens.

As relações entre homens e mulheres se entrelaçam de muitas formas e se confundem de muitas maneiras com a relação entre homens e Deus. Assim, olhando para Deus, homens serão desafiados a amarem de um modo especial sua esposa, de um modo parecido com o que Cristo ama a igreja. E olhando também para Cristo, mulheres serão desafiadas a amarem e respeitarem seus maridos como instrumentos de Deus para levarem-nas para mais perto da cruz.

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1 Tom Wright, Paul for Everyone: The Prison Letters: Ephesians, Philippians, Colossians, and Philemon (London: Society for Promoting Christian Knowledge, 2004), 68.

AS 7 IGREJAS DO APOCALIPSE: Filadélfia (Comentário Ap 3.7-13)

Após escrever outras palavras de elogio e disciplina, Jesus volta a escrever uma carta apenas com elogios. Os de Filadélfia haviam agido de modo fiel e perseverante e iriam desfrutar no presente e no novo céu e na terra de prazeres e bênçãos exclusivas.

Ao anjo da igreja em Filadélfia escreve:

Estas coisas diz o santo, o verdadeiro, aquele que tem a chave de Davi, que abre, e ninguém fechará, e que fecha, e ninguém abrirá:Conheço as tuas obras — eis que tenho posto diante de ti uma porta aberta, a qual ninguém pode fechar — que tens pouca força, entretanto, guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome.Eis farei que alguns dos que são da sinagoga de Satanás, desses que a si mesmos se declaram judeus e não são, mas mentem, eis que os farei vir e prostrar-se aos teus pés e conhecer que eu te amei.Porque guardaste a palavra da minha perseverança, também eu te guardarei da hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro, para experimentar os que habitam sobre a terra.Venho sem demora. Conserva o que tens, para que ninguém tome a tua coroa.Ao vencedor, fá-lo-ei coluna no santuário do meu Deus, e daí jamais sairá; gravarei também sobre ele o nome do meu Deus, o nome da cidade do meu Deus, a nova Jerusalém que desce do céu, vinda da parte do meu Deus, e o meu novo nome.Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.

Ap 3.7–13

7 Ao anjo da igreja em Filadélfia escreve:

Estas coisas diz o santo, o verdadeiro, aquele que tem a chave de Davi, que abre, e ninguém fechará, e que fecha, e ninguém abrirá:

Filadelfia e Esmirna foram as duas igrejas a receberem apenas elogios da parte do Senhor. Não há críticas, apenas reconhecimento do amor e das obras existente no meio delas.

Filadélfia era reconhecidamente importante por causa de seu comércio e agricultura. Especialmente por conta de suas plantações de vinho. Um deus muito querido pela população da cidade era Dionísio, deus do vinho. Junto à adoração a Dionísio, a adoração ao imperador também era forte em Filadélfia. Conforme destacou Jarry D. Barry, “A cidade recebeu permissão para construir um templo provincial, ganhando-lhe o nome Neocoros (que significa “guardião do templo”).”⁠1

A chave de Davi está relacionada à autoridade para reinar sobre um povo, o povo escolhido. Só quem tem esta chave possui o direito de abrir e fechar portas, começar e terminar coisas, nada foge às suas mãos. O desejo daquele que possui esta chave estará sempre acima do desejo de qualquer pessoa. Isaías havia descrito isto:

Isaías 22.22: Porei sobre o seu ombro a chave da casa de Davi; ele abrirá, e ninguém fechará, fechará, e ninguém abrirá.

Em Apocalipse, Jesus está revelando-se à fiel igreja em Filadélfia sobre sua autoridade e domínio sobre tudo.

8       Conheço as tuas obras — eis que tenho posto diante de ti uma porta aberta, a qual ninguém pode fechar — que tens pouca força, entretanto, guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome. 9       Eis farei que alguns dos que são da sinagoga de Satanás, desses que a si mesmos se declaram judeus e não são, mas mentem, eis que os farei vir e prostrar-se aos teus pés e conhecer que eu te amei.

As obras são importantes para Deus. O tempo todo Jesus cita as obras realizadas pelo seu povo, e o conhecimento sobre estas obras. Assim como conhecia no passado, Jesus conhece hoje também, aprovando ou reprovando seu povo em suas contínuas ações. Tudo o que fazem, o fazem diante dos olhos de Deus, tanto para aprovação quanto para reprovação.

É possível que os leitores dessa carta tivessem sido excluídos da sinagoga local. Daí as palavras de Jesus sobre a porta aberta diante deles, a qual ninguém pode fechar. Ninguém tem autoridade maior do que o que possui as “Chaves da casa de Davi”.

A pouca força desses cristãos está ligada à sua pequenez diante de autoridades locais. Diante dos olhos humanos, via de regra os cristãos serão sempre considerados pequenos. Embora pequenos, pelo fato de terem guardado a palavra de Cristo e de não terem negado o nome de Jesus, tais pessoas seriam guardadas por Deus e levantadas diante dos olhos dos que antes os humilharam.

Os da Sinagoga de Satanás que se dobrarão diante dos cristãos provavelmente estão ligados aos judeus daquela cidade. Como já explicado anteriormente, este era o tempo usado para designar judeus dentro de uma sinagoga considerando-se melhores por terem a tradição junto de si, não tendo, porém, o amor que criou a tradição em seus corações. Tinham a tradição, mas não a Deus, o verdadeiro amor.

Estes, futuramente iriam reconhecer a presença de Deus junto aos cristãos e iriam se dobrar diante destes. Veriam claramente o amor de Deus posto sobre a pequenina igreja e não sobre a tradição, onde supostamente deveria estar.

10       Porque guardaste a palavra da minha perseverança, também eu te guardarei da hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro, para experimentar os que habitam sobre a terra. 

Guardar a palavra da perseverança é igual a ser guardado da hora da provação que há de vir. Há aqui uma afirmação e ao mesmo tempo uma promessa. As duas coisas estão ligadas uma à outra.

A primeira coisa a ser cumprida é a guarda da palavra que veio de Cristo para que eles perseverassem. Tendo feito isso, cumpre-se a promessa da proteção, não apenas nesta terra, mas em toda a eternidade. A visão divina não resume-se a este mundo, muito menos sua proteção. Toda e qualquer dificuldade ou aflição aqui não significa quebra de promessa da parte do Senhor. No entanto, há uma provação que virá sobre o mundo inteiro e é dessa que Jesus promete livrar todos os seus, todos os que o guardam em seus corações.

Esse sofrimento está ligado à eventos escatológicos vindouros relacionados a eventos retratados no próprio livro. Há uma rebelião presente da parte dos seres humanos diante de Deus. Haverá um juízo futuro sobre isso, e os cristãos serão guardados.

Interessantemente, a Bíblia fala de um desejo do Senhor, de que todos se arrependam e creiam:

1Timóteo 2.4: o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade.

2Pedro 3.9: Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento.

No entanto, muitos não se arrependerão, em um dos tantos mistérios que envolvem a soberania divina e a responsabilidade humana na salvação. E estes que não se arrependerem provarão da ira vindoura. Se esta será um período determinado de dias, meses ou anos sobre a terra ou se será um evento (de um dia ou vários dias) no qual a ira será derramada, não é suficientemente claro para nós. Daí existirem muitas teorias sobre estes dias.

11       Venho sem demora. Conserva o que tens, para que ninguém tome a tua coroa. 12       Ao vencedor, fá-lo-ei coluna no santuário do meu Deus, e daí jamais sairá; gravarei também sobre ele o nome do meu Deus, o nome da cidade do meu Deus, a nova Jerusalém que desce do céu, vinda da parte do meu Deus, e o meu novo nome. 13       Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.

Outra vez, a promessa de que sua vinda não demora é feita. Mais uma vez, palavra de perseverança é dada aos filhos de Deus. Conserva o que tens, a fim de que a chegada de cada um no reino dos céus seja como que em triunfo, para receberem uma coroa. A promessa é descrita com figuras e imagens:

Os vencedores serão como colunas no santuário de Deus. Os vencedores terão em si gravado o nome de Deus, o nome da cidade de Deus (Nova Jerusalém) e o novo nome de Jesus. Seria isso uma espécie de tatuagem celestial? Uma espécie de marca no corpo que denote seres humanos em posição especial perante Deus e a humanidade? Tudo indica que sim. Isso, para mostrar o quão especiais eram pelo fato de terem guardado a palavra de Cristo.

Assim como o pecado tem suas consequências maléficas e destruidoras, vencer o pecado nesta vida também tem suas consequências benéficas e recompensadoras no mundo por vir.

 

1 John D. Barry et al., Faithlife Study Bible (Bellingham, WA: Logos Bible Software, 2012), Ap 3.7.

OS PAPÉIS DO HOMEM E DA MULHER NO CASAMENTO (Parte 1)

As funções dadas ao homem e à mulher apontam para uma das tantas formas de sermos cheios do Espírito Santo. Após começar a falar sobre o encher-se do Espírito, Paulo passa explorar uma forma pouco estudada de glorificar a Deus. Vivendo os papéis dados por Deus, homem e mulher são capazes de viver de um modo que glorifique a Deus e os encha do Espírito Santo.

A razão para isso é não só glorificar a Deus, mas protegerem-se de quaisquer problemas futuros que desencadeariam um processo de separação e divórcio. Batalhas espirituais são tão frequentes e normais que somente quando compreende-se as funções de cada um e vivem a função dada a cada um é que somos capazes de viver para a glória de Deus. 

Vejamos, assim, o começo sobre as funções no casamento e como homem e mulher, complementando-se através de suas funções, glorificam a Deus e protegem seu lar de quaisquer tempestades que vierem.

As mulheres sejam submissas ao seu próprio marido, como ao Senhor;

porque o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, sendo este mesmo o salvador do corpo. Como, porém, a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo submissas ao seu marido.

Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito.

Assim também os maridos devem amar a sua mulher como ao próprio corpo. Quem ama a esposa a si mesmo se ama.

Ef 5.22–28

As mulheres sejam submissas ao seu próprio marido, como ao Senhor;

Esse verso não deve ser lido sem a orientação do verso anterior (v. 21), sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo. A sujeição, segundos estes versos, é mútua, e não unilateral. 

No entanto, a primeira a ouvir sobre sua relação à submissão é a mulher. Esta, deve ser submissa ao marido da mesma forma como é submissa a Cristo. No entanto, isso não torna o marido um Cristo, ou Deus na vida da mulher. Apenas aponta para a função que a esposa tem em relação ao marido, e a relação funcional é de submissão.

A palavra submissa, na verdade, não aparece no verso 22, mas no 21. As mulheres do v. 22 estão ligadas à ordem do verso 21, 36.18 ὑποτάσσομαι (hypotassomai), submeter-se às ordens ou direções de alguém, obedecer, submeter-se.⁠1

A ordem para submeter-se no verso 21 é uns aos outros no temor de Cristo, ou seja, não apenas da mulher. O ponto é que, a primeira a receber orientação foi a mulher que, em respeito a Deus e ao marido, deve submeter-se sempre à função dada a ele de responder pela família e conduzi-la nas decisões e rumos da vida. Assim como são submissas ao Senhor Jesus, devem submeter-se ao marido. Por qual motivo?  

porque o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, sendo este mesmo o salvador do corpo. Como, porém, a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo submissas ao seu marido.

Eis o motivo dado pelo Espírito Santo. A palavra cabeça está ligada à função do marido de ser responsável pela família, sendo ele quem prestará contas e quem deve responder por quaisquer questões que sejam.

O paralelo usado por Deus neste texto é Cristo e igreja, homem e mulher. Como Cristo é o cabeça da igreja, o marido é o cabeça da mulher. A mulher deve se ver como a igreja, buscando santidade, serviço, amor, devoção, dedicação, enquanto o homem deve ver-se como Cristo, amando, protegendo, santificando, alimentando, pastoreando. Paulo irá explicar de modo mais detalhado este paralelo adiante.

Após expor o papel da mulher, o papel do homem é destacado.

Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito.

Assim também os maridos devem amar a sua mulher como ao próprio corpo. Quem ama a esposa a si mesmo se ama.

Aqui encontra-se, indubitavelmente, a função mais difícil, talvez, impossível, que foi a dada ao homem. No entanto, embora impossível, não pode ser abandonada. A função dada ao homem é ser semelhante a Cristo. 

Se, por um lado, a mulher de se ver como a igreja, por outro lado o homem deve se ver como Cristo, não somente em sua glória, mas em seu sacrifício. Aliás, mais em sua humilhação do que em sua exaltação, algo que ele, Cristo, não divide com ninguém. Já sua humilhação é dividida com o homem.

A primeira ordem é do amor. Amar não é nada além do que morrer para o bem do outro. Deixar sua própria vontade por causa do desejo de quem se ama. A medida que é dada ao homem contempla-o amando sua mulher da mesma maneira como Cristo a ama. Daí, então, cada palavra dita, cada decisão tomada, enfim, devem ser executadas pensando-se em Cristo. 

Enquanto a mulher se vê como a igreja em sua relação com o marido, o homem deve sempre pensar em Cristo, em como ele falaria, em como ele responderia, em o que Cristo faria com o tempo livre, na maneira como Cristo administraria o sustento dentro de casa, etc.

Como Cristo se entregou pela igreja, os maridos devem se entregar por suas esposas. E essa entrega envolve a santificação. A expressão no início do verso 28 “assim também os maridos devem amar a sua mulher revela o modo como o homem deve se ver em relação à esposa. O assim também deve levar os olhos dos maridos à pessoa de Cristo. Assim, todo marido deve se ver como responsável pela vida espiritual de sua esposa. É mais do que ser um pastor do lar, mas um verdadeiro agente santificador. Não que os maridos possuam poder para isso, mas sim o poder para conduzir um processo que leve a isso.

É assim que eles devem santificar suas esposas, como responsáveis pela santidade delas. As palavras são “santificar, purificar, lavar pela Palavra e, por fim, a apresentar diante do Pai”. Com outras palavras, é isso que o Espírito Santo levou Paulo a escrever nos versos 25-27 de Efésios 5.

Deve haver um santo temor em todo homem, pois haveremos de apresentar nossa esposa e família diante de Deus um dia. E esse dia pode chegar em breve e é por isso que não podemos postergar essa tarefa mais e mais. 

A Palavra de Deus possui um papel purificador neste texto. É ela quem purifica a mulher e o homem, e é através dela que o homem purificará sua esposa, através de leituras juntas, através de recordações de textos bíblicos que dão a direção em momentos de dúvida, através de momentos de devoção e meditação, enfim, é a Palavra de Deus sempre que é capaz de purificar os corações e o homem tem a responsabilidade dada pelo Criador de administrar a espiritualidade da esposa. Assim como Cristo apresentará sua noiva ao Pai, maridos darão conta de suas esposas de uma forma que, para nós, hoje, é difícil de compreender.

O amor de um homem por uma mulher apresenta o amor de um homem por si mesmo. Da mesma maneira como ele cuida de seu corpo e vontades, deve cuidar também da esposa.

 

1 Johannes P. Louw e Eugene Albert Nida, Greek-English lexicon of the New Testament: based on semantic domains (New York: United Bible Societies, 1996), 467.