O CORDEIRO DE DEUS (Comentário de Ap 14.1-5)

O Cordeiro de Deus sempre será a esperança e a bússola que os cristãos usarão para viver. Sempre será o seu norte, sua referência e seu prazer. Ser transformado à sua imagem, sempre será algo desejado pelos seguidores de Cristo. Os verdadeiros cristãos sempre desejarão ser como ele é.

Assim que acaba o festival de paródias feitas por Satanás e vistas nos capítulos anteriores, o capítulo 14 começa com aquele que realmente é o Senhor e Cordeiro. E não apenas fala sobre quem é Jesus, mas sobre como é o povo que o segue, contrastando com o povo que segue a besta, marcado pelo número de seu nome.

Vejamos, então, a perfeita descrição daquele que é o verdadeiro Cristo e o verdadeiro cristão.

Olhei, e eis o Cordeiro em pé sobre o monte Sião, e com ele cento e quarenta e quatro mil, tendo na fronte escrito o seu nome e o nome de seu Pai.Ouvi uma voz do céu como voz de muitas águas, como voz de grande trovão; também a voz que ouvi era como de harpistas quando tangem a sua harpa.Entoavam novo cântico diante do trono, diante dos quatro seres viventes e dos anciãos. E ninguém pôde aprender o cântico, senão os cento e quarenta e quatro mil que foram comprados da terra.São estes os que não se macularam com mulheres, porque são castos. São eles os seguidores do Cordeiro por onde quer que vá. São os que foram redimidos dentre os homens, primícias para Deus e para o Cordeiro;e não se achou mentira na sua boca; não têm mácula.

Ap 14.1–5

Vamos ao texto.

14.1       Olhei, e eis o Cordeiro em pé sobre o monte Sião, e com ele cento e quarenta e quatro mil, tendo na fronte escrito o seu nome e o nome de seu Pai.

Agora, temos a imagem do verdadeiro Cordeiro, e não de sua paródia descrita no capítulo anterior. João levanta os olhos e vê o Cordeiro em pé sobre o monte Sião. Junto dele, os 144.000 já mencionados anteriormente em Apocalipse. Naquela ocasião, vimos como os que estão representados neste número representam todo o povo de Deus ao longo da história.

Todo o povo de Deus, marcado na fronte com o seu próprio nome e o nome de Deus, junto do Cordeiro de Deus. Esta marca presente no povo de Deus os diferencia dos marcados pela Besta.

O Cordeiro é uma descrição clara da pessoa de Cristo, já o monte Sião é matéria de discussão, encontrando muitas explicações aqui. A mais plausível, do meu ponto de vista, é a que considera o Salmo 2 — particularmente, o verso 6 — como pano de fundo desta visão do início do capítulo 14. Dentro deste contexto apocalíptico, os 144.000 no monte Sião anuncie, provavelmente, o próprio povo de Deus, marcado pelo Espírito Santo.

2       Ouvi uma voz do céu como voz de muitas águas, como voz de grande trovão; também a voz que ouvi era como de harpistas quando tangem a sua harpa.

João ouve uma voz que, na verdade, são muitas vozes, vindas dos céus e relacionadas ao povo de Deus cantando dos céus. Mais uma vez, a figura apocalíptica (como voz de muitas águas, como voz de grande trovão). Além da grandeza dessa voz, havia curiosamente suavidade, e isso se nota no final do verso (era como de harpistas quando tangem a sua harpa).

3       Entoavam novo cântico diante do trono, diante dos quatro seres viventes e dos anciãos. E ninguém pôde aprender o cântico, senão os cento e quarenta e quatro mil que foram comprados da terra.

O novo cântico talvez seja o mesmo de Ap 5.9:

Apocalipse 5.9: e entoavam novo cântico, dizendo:

    Digno és de tomar o livro

    e de abrir-lhe os selos,

    porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus

    os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação

Este é o cântico dos eleitos, dos salvos eternamente pelo Senhor. Presente em toda a Escritura, ele diz respeito à nova vida, regenerada, após a conversão (Is 42.10; Sl 33.3; 40.3; 96.1; 98.1; 144.9; 149.1).

Este cântico novo só pode ser aprendido por aqueles que que foram salvos sobre a terra. Os 144.000 dizem respeito a todo o povo de Deus na terra, como já melhor explicado anteriormente. Esta salvação é descrita aqui com o simbolismo da compra, aqueles que foram resgatados.

4       São estes os que não se macularam com mulheres, porque são castos. São eles os seguidores do Cordeiro por onde quer que vá. São os que foram redimidos dentre os homens, primícias para Deus e para o Cordeiro; 5 e não se achou mentira na sua boca; não têm mácula.

A imagem de um grupo que não se maculou com mulheres está ligado no contexto apocalíptico com soldados que saíram à batalha e que não se envolveram com as coisas desse mundo. Essa é a conclusão a que chegam muitos estudiosos de Apocalipse.⁠1

Quando transformamos o símbolo em algo real, entendemos que isso aponta para o povo de Deus que não se misturou com as coisas deste mundo que já no maligno.

Estes são chamados de seguidores do Cordeiro por onde quer que vá. Isso demonstra discipulado e serviço na obra do Senhor.

Eles também são chamado de primícias para Deus e para o Cordeiro. Deus é o dono de toda a colheita. A colheita é dele. Os frutos colhidos ao longo da história são do Senhor, pertencem a ele, para sempre de Deus e do Cordeiro (veja Tg 1.18, onde a igreja é tratada como primícias).

A falta de mácula em suas vidas está associada à ação de Cristo junto ao seu povo (veja Ef 5.25-27. O povo de Deus vive, viveu e viverá sempre tudo em vista essa santidade.

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1 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 124.

666: O NÚMERO DA BESTA (Comentário de Ap 13.11-18)

O final do capítulo 13 continua tratando de imitação. O diabo continua a agir através de paródias. É importante que nos lembremos que uma paródia é o que você tem quando alguém produz algo falso que parece real, mas não é. Pessoas podem fazer isso intencionalmente ou não. Às vezes, pessoas fazem paródias com o fim de serem engraçados, como as paródias de jogadores de futebol, de artistas da música, ou de presidentes da república. O objetivo principal de uma paródia é parecer-se com o real, trazendo uma nova realidade para aquilo.

Naquele tempo (o tempo de João), era comum as pessoas associarem a grande besta ao Império Romano (na figura de seu imperador), o qual possuía autoridade sobre o mundo todo e exigia adoração à sua pessoa vez ou outra — muitos cristãos foram mortos por não aceitarem se curvar diante do Imperador. E a segunda besta (ou monstro) estaria relacionada às elites locais presentes em cada cidade do Império e que dava respeito e subordinação ao Império, vivendo por ele. A tarefa dessa segunda besta seria reproduzir as ações e intenções da primeira besta em nível local, levando as pessoas a adorarem a primeira besta.

É um pouco disto que encontramos nesta porção abaixo dentro da visão do apóstolo João.

Vi ainda outra besta emergir da terra; possuía dois chifres, parecendo cordeiro, mas falava como dragão.Exerce toda a autoridade da primeira besta na sua presença. Faz com que a terra e os seus habitantes adorem a primeira besta, cuja ferida mortal fora curada.Também opera grandes sinais, de maneira que até fogo do céu faz descer à terra, diante dos homens.Seduz os que habitam sobre a terra por causa dos sinais que lhe foi dado executar diante da besta, dizendo aos que habitam sobre a terra que façam uma imagem à besta, àquela que, ferida à espada, sobreviveu;e lhe foi dado comunicar fôlego à imagem da besta, para que não só a imagem falasse, como ainda fizesse morrer quantos não adorassem a imagem da besta.A todos, os pequenos e os grandes, os ricos e os pobres, os livres e os escravos, faz que lhes seja dada certa marca sobre a mão direita ou sobre a fronte,para que ninguém possa comprar ou vender, senão aquele que tem a marca, o nome da besta ou o número do seu nome.Aqui está a sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. Ora, esse número é seiscentos e sessenta e seis.

Ap 13.11–18

Vamos ao texto.

11       Vi ainda outra besta emergir da terra; possuía dois chifres, parecendo cordeiro, mas falava como dragão. 12 Exerce toda a autoridade da primeira besta na sua presença. Faz com que a terra e os seus habitantes adorem a primeira besta, cuja ferida mortal fora curada.

João vê outra besta. Esta, agora, emerge da terra, diferente da primeira, a qual emergiu do mar. Aqui, para muitos, a paródia satânica continua e o Diabo, agora, estaria imitando a ação das duas testemunhas (Ap 11.13-14). Para outros, a paródia não tem a ver com as duas testemunhas, mas com a própria Santíssima Trindade (o Dragão e as duas bestas).

Ainda outros, sugerem que a besta que emerge do mar seja uma alusão a Leviatã (mencionado em Jó 41.1-34), o antigo mestre do caos marítimo, e a besta que surge da terra, uma alusão a Behemote (Jó 40.15-24), o correspondente na terra do que Leviatã é no mar.⁠1 No final, estas duas bestas não passam de representações do mal e da rebelião contra o Criador e a ordem criada.

Os dois chifre, parecendo cordeiro mostra a paródia do próprio Cristo. Por fora, uma aparência de cordeiro; por dentro, seu verdadeiro caráter — falava como dragão. É interessante que é pela voz que se conhece o dragão e não por sua aparência.

Mais à frente em Apocalipse, esta segunda besta também é associada ao falso profeta (16.13,19.20,20.10). A segunda besta possui uma ação parecida com a do Espírito Santo, fazendo uma espécie de paródia do Consolador trabalhando não por sua glória, mas para a glória de outro. Assim, nós teríamos a Trindade não santa: Satanás como Deus-Pai, a besta do mar como o Filho de Deus, e a besta da terra como o Espírito Santo.

13       Também opera grandes sinais, de maneira que até fogo do céu faz descer à terra, diante dos homens.

Milagres são parte da obra satânica para enganar a humanidade. A ideia de que milagres são um sinal de autenticidade espiritual cristã cai por terra com a experiência vista por João nesta passagem. Aqueles que estão à serviço do Diabo também fazem milagres. Assim, aqui temos mais uma paródia de Cristo.

É impressionante que, até mesmo aquilo que os profetas de Baal tentaram fazer e não conseguiram, acontecerá por ação satânica no final dos tempos. Fogo cairá dos céus diante de todos os homens. O que temos aqui é um festival de imitações, tentando fazer aos homens algo parecido com aquilo que o próprio Deus fez ao longo da história com o fim de receber mais do que Deus recebeu em suas ações.

14       Seduz os que habitam sobre a terra por causa dos sinais que lhe foi dado executar diante da besta, dizendo aos que habitam sobre a terra que façam uma imagem à besta, àquela que, ferida à espada, sobreviveu; 15 e lhe foi dado comunicar fôlego à imagem da besta, para que não só a imagem falasse, como ainda fizesse morrer quantos não adorassem a imagem da besta.

Os milagres não param e as ações sobrenaturais continuam sendo usadas com o fim de causar espanto na humanidade. O jogo do sensacionalismo continuará a arrastar os incautos, iludidos pela mensagem sedutora e instantânea proporcionada pelo Diabo. Esta é uma clara ação anticristã.

16       A todos, os pequenos e os grandes, os ricos e os pobres, os livres e os escravos, faz que lhes seja dada certa marca sobre a mão direita ou sobre a fronte, 17 para que ninguém possa comprar ou vender, senão aquele que tem a marca, o nome da besta ou o número do seu nome. 18 Aqui está a sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. Ora, esse número é seiscentos e sessenta e seis.

Esta marca tem sido largamente discutida e explorada ao longo da história. Muita coisa tem sido dita e imaginada, desde os dias de João até os dias de hoje. O que o texto deixa claro é que ninguém poderá comprar comida ou fazer qualquer negócio sem a marca da besta. Isso provocará uma grande crise econômica e o povo de Deus não estará livre dessa crise.

Sobre o nome da besta e o número do seu nome, muita coisa tem sido dita e escrita. A despeito de todo exagero e absurdidade construída sobre o nome do Papa, sobre Adolf Hitler, sobre ex-presidentes norte-americanos, o que podemos ter por certo acerca desse “número de seu nome” é que nas línguas antigas, letras eram usadas como números. Assim, o nome de Jesus, por exemplo, somava 888. Curiosamente, é dito que o número do nome da besta soma 666. O próprio nome do imperador Nero (NERO CAESAR) quando escrito com as letras hebraicas somava 666. É provável que Nero não tenha sido a Besta, mas que esta será muito parecida com aquilo com que ele foi.

Sabemos, como já temos estudado até aqui, que o número 7 está ligado à perfeição. O número anterior, assim, está ligado àquilo que é quase perfeito, ou que deseja ser perfeito. Repetido três vezes, apresenta uma forma hiperlativa de deseja por tal perfeição.

Alguns têm sugerido que o número 6 seja o número da humanidade, criada à imagem e semelhança divina, quase perfeita aos olhos de Deus, coroa de sua criação (Salmo 8). Se isso estiver correto, penso que aqui tenhamos uma tentativa satânica (do Dragão) de possuir seres humanos com o fim de buscar através deles a perfeição, como se fossem uma nova criação, não mais à imagem e semelhança divina, mas de si mesmo. Assim, essa representação humana agirá contrariamente a tudo que foi um dia revelado pelo Senhor.

O número 666 talvez seja a maior de todas as paródias, ou, pelo menos, a mais famosa de todas em Apocalipse. O número perfeito seria 777. 666 seria uma paródia dessa perfeição. Somando o nome JESUS em alguns sistemas onde letras agem como números, teríamos o número acima da perfeição — 888.⁠2

Assim, a pessoa associada a este número também representará um sistema ao qual este número estará ligado. Haverá neste tempo perigo, possivelmente fome, tragédia, e, enfim, completa manipulação das consciências e ações dos seres humanos, os quais serão, finalmente, controlados quase totalmente pela ação do Diabo.

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1 Robert James Utley, Hope in Hard Times – The Final Curtain: Revelation, vol. Volume 12, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 2001), 98.

2 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 122.

CUIDADO: O DIABO QUER IMITAR JESUS (Comentário de Ap 13.1-10)

O diabo quer poder. Satanás quer ser igual a Deus. Em muitas ocasiões na Bíblia, o encontramos agindo de um modo imitador. No entanto, nenhum texto é tão explícito quanto o início do capítulo 13 de Apocalipse. Aqui, mais do que em qualquer outro lugar, encontramos Satanás agindo deliberada e milimetricamente com o objetivo de imitar a Cristo.

No entanto, por mais que ele venha a fazer coisas com o objetivo de ser como o filho de Deus, nunca deixará de ser um macaco de imitação.

Vejamos, então, as muitas tentativas satânicas do final dos tempos para ser como o filho de Deus.

Vi emergir do mar uma besta que tinha dez chifres e sete cabeças e, sobre os chifres, dez diademas e, sobre as cabeças, nomes de blasfêmia.A besta que vi era semelhante a leopardo, com pés como de urso e boca como de leão. E deu-lhe o dragão o seu poder, o seu trono e grande autoridade.Então, vi uma de suas cabeças como golpeada de morte, mas essa ferida mortal foi curada; e toda a terra se maravilhou, seguindo a besta;e adoraram o dragão porque deu a sua autoridade à besta; também adoraram a besta, dizendo: Quem é semelhante à besta? Quem pode pelejar contra ela?Foi-lhe dada uma boca que proferia arrogâncias e blasfêmias e autoridade para agir quarenta e dois meses;e abriu a boca em blasfêmias contra Deus, para lhe difamar o nome e difamar o tabernáculo, a saber, os que habitam no céu.Foi-lhe dado, também, que pelejasse contra os santos e os vencesse. Deu-se-lhe ainda autoridade sobre cada tribo, povo, língua e nação;e adorá-la-ão todos os que habitam sobre a terra, aqueles cujos nomes não foram escritos no Livro da Vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo.Se alguém tem ouvidos, ouça.

   Se alguém leva para cativeiro,

    para cativeiro vai.

    Se alguém matar à espada,

    necessário é que seja morto à espada.

Aqui está a perseverança e a fidelidade dos santos.

Ap 13.1–10

Vamos ao texto.

13.1       Vi emergir do mar uma besta que tinha dez chifres e sete cabeças e, sobre os chifres, dez diademas e, sobre as cabeças, nomes de blasfêmia.

Não há texto fácil em Apocalipse. Esse, certamente, é mais um texto difícil de compreendermos. No entanto, com base nas figuras que já recebemos em textos anteriores de Apocalipse, é possível que cheguemos à algumas conclusões bastante prováveis.

O texto começa com João tendo a visão de uma besta, ou seja, um demônio, saindo do mar. Não nos esqueçamos, como já vimos anteriormente, mar é também o símbolo de povos, além de ser símbolo de perigo, obscuridade, medo, etc. Trazendo à realidade, é possível que João esteja vendo uma força demoníaca saindo do meio dos homens.

Este monstro é poderoso. Ele possui dez chifres e sete cabeças e, sobre os chifres, dez diademas. Sem dúvida, o que temos aqui é uma paródia fajuta do diabo em tentar imitar a Deus. Como já vimos, chifres e cabeças possuem a ideia de poder e autoridade. Os diademas estão ligados à realeza. O diabo sempre quis usurpar a autoridade, poder e reino de Cristo. Como a Cristo ele não pode atingir, resta o seu povo que acaba sofrendo diretamente o ataque da besta em sua fúria contra aqueles que verdadeiramente reinam sobre este mundo.

O verso termina dizendo que, além dos elementos relacionados à usurpação pretendida pelo mal, havia muita blasfêmia na boca da besta, ou seja, dessa força demoníaca. 

No tempo de João, muitos, para não dizer todos, associavam esta besta com a própria Roma ou com a autoridade imperial que emergia da capital do Império Romano.

2       A besta que vi era semelhante a leopardo, com pés como de urso e boca como de leão. E deu-lhe o dragão o seu poder, o seu trono e grande autoridade.

Esta força demoníaca, seja ela Roma, seja ela uma força religiosa romana, seja ela um homem do futuro, seja ela o que for, é semelhante àquelas figuras já vistas no livro do profeta Daniel, associadas com os reinos do fim dos tempos.

Os animais são leopardo, urso, leão, além da própria besta. Muito parecido com os animais de Daniel 7. Lá, os animais são poderes, reinos, ou ainda, pessoas poderosas colocadas sobre reinos. Sendo eles reinos (Dn 7.23 — dá a impressão de serem reinos mesmo), então a figura da besta em Apocalipse seja provavelmente um reino também, ou semelhante a um reino.

Curiosamente, este reino recebe do dragão, ou seja, do próprio Satanás, poder, trono e autoridade. Mais uma vez, o que se tem é um desejo de usurpar o que pertence a Cristo. O que Satanás parece estar orquestrando é uma grande paródia onde ele atuaria como Cristo, procurando viver o que é de Cristo.

3       Então, vi uma de suas cabeças como golpeada de morte, mas essa ferida mortal foi curada; e toda a terra se maravilhou, seguindo a besta; 4 e adoraram o dragão porque deu a sua autoridade à besta; também adoraram a besta, dizendo: Quem é semelhante à besta? Quem pode pelejar contra ela?

Uma das cabeças desse reino é cortada. Na antiguidade, os que pensavam ser o Império Romano esta besta, afirmavam que estas cabeças eram os imperadores romanos. Talvez tenham sido. No entanto, é bastante possível que sejam líderes de um império futuro, um governo futuro, cheio de autoridade, cheio de arrogância.

Dentro dessa autoridade mundial anti-Deus, um líder será morto. No entanto, sua ferida mortal será curada. Mais uma vez, uma paródia do Evangelho. Não foi exatamente isso que aconteceu com Cristo? Ele não morreu e ressuscitou? Até isso Satanás irá imitar. O que temos diante de nós é um ser maligno querendo imitar o Salvador não com o desejo de glorificá-lo, mas com o desejo de ser adorado como ele foi, é e será.

O ponto do verso 4 é nos mostrar que muita gente reverenciará Satanás quando vir o que ele mesmo fez à esta cabeça que foi ferida, mas reviveu. O texto diz que toda a terra se maravilhou, seguindo a besta. Esse seguir a besta pode ser tanto um seguir literal — pessoas seguindo forças demoníacas —, como ser também pessoas seguindo por direções influenciadas pela ação demoníacas. Pessoas não necessariamente precisam seguir alguém, antes, basta que estejam vivendo no caminho do erro, no caminho articuladamente preparado pela besta.

A adoração ao dragão também não necessariamente tenha a ver com adoração ao próprio Satanás, algo bastante inimaginável — pelo menos, em nível mundial. Pode se referir também a um grupo de pessoas que adoram coisas que Satanás as influenciou para adorar.

O fato é que muitas pessoas admirarão e adorarão aquela autoridade que aparentemente ressuscitou. Darão a esta autoridade a mesma admiração que um dia foi dada a Jesus Cristo. De novo aqui, uma paródia, uma usurpação do que foi dado a Cristo.

5       Foi-lhe dada uma boca que proferia arrogâncias e blasfêmias e autoridade para agir quarenta e dois meses; 6 e abriu a boca em blasfêmias contra Deus, para lhe difamar o nome e difamar o tabernáculo, a saber, os que habitam no céu.

Foi dada à besta, ou seja, ao reino (à autoridade dentro desse reino que, aparentemente, foi morto, mas reviveu) uma boca que proferia arrogâncias e blasfêmias. Nada de surpresa aqui. Era de se esperar esta atitude de uma autoridade que não tem temor de Deus nem respeito por sua Palavra. A consequência quase sempre natural de quem está longe do caminho de Deus é a presunção, a arrogância e, ocasionalmente, blasfêmias contra Deus.

Outro ponto destacado é que esta autoridade — que está fazendo de tudo neste texto para usurpar aquilo que é de Cristo — é investida de poder para agir durante um determinado tempo (aqui representado por 42 meses). Durante esse tempo, não só agirá autoritariamente, mas tornará pública as blasfêmias contra Deus, difamando o nome santo de Deus e difamando o povo de Deus, tanto os que estão na terra quanto os que estão nos céus. É isso que significa difamar o tabernáculo. O fato dessa autoridade estar não somente dizendo coisas, mas agindo (por 42 meses) denote talvez uma espécie de perseguição por parte deste governo aqui simbolizado na figura de uma besta.

7       Foi-lhe dado, também, que pelejasse contra os santos e os vencesse. Deu-se-lhe ainda autoridade sobre cada tribo, povo, língua e nação; 8 e adorá-la-ão todos os que habitam sobre a terra, aqueles cujos nomes não foram escritos no Livro da Vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo.

Aqui no verso 7 fica mais clara a intensão de perseguição. A besta pelejará contra o povo de Deus e os vencerá, os matará. Este governo sem temor de Deus, ímpio, guiado pela sedução de Satanás, o dragão, agirá autoritariamente contra todos na terra, cada tribo, povo, língua e nação (símbolo de “o mundo todo”).

Algo interessante que é anunciado é que aqueles que não forem mortos neste tempo de perseguição passarão a adorar a besta, tal como Cristo é digno de adoração.

Outro ponto interessantíssimo é o fato de João receber a revelação de que as pessoas que são inscritas no Livro da Vida não o são no momento de suas conversões. Pelo texto sagrado, estas pessoas já estão neste chamado Livro da Vida do Cordeiro desde a fundação do mundo. Desde a fundação do mundo o famoso Livro da Vida já contempla os que hão de ser salvos ou não. Isso se encaixa perfeitamente com a doutrina da eleição eterna pela graça soberana de Deus.

9       Se alguém tem ouvidos, ouça. 10 Se alguém leva para cativeiro, para cativeiro vai. Se alguém matar à espada, necessário é que seja morto à espada. Aqui está a perseverança e a fidelidade dos santos.

A famosa exortação. Um chamado a que todos prestemos atenção ao que nos tem sido dito. Ouvir aqui não significa apenas receber pela audição o som que é transmitido por outro. Ouvir tem a ver com apreender o que é anunciado, abraçar e seguir as orientações que lhes foram passadas.

O verso 10 é uma palavra de preparação aos ouvintes da época de João a que eles não devessem estranhar o cativeiro e o martírio caso eles viessem. Que glorificassem a Deus mesmo nestas situações difíceis e tristes. Mas que eles perseverassem e continuassem fieis a Cristo, mesmo em meio à toda tentação e tribulação. O que demonstra que alguém está no Livro da Vida, se é santo ou não, é a perseverança e a fidelidade.

DE QUE LADO VOCÊ ESTÁ? … OU: O QUE DEUS DIZ SOBRE OS SEUS? O QUE FAZEM? COMO VIVEM? (Comentário de Ap 12.7-17)

Só existem dois lados para se estar aos olhos de Deus. Não se trata de maniqueísmo, mas de posição. Ou se está do lado de Deus ou se está do lado da antiga serpente. Sensatamente, todos diriam estão do lado de Deus. Mas, o que significa estar do lado de Deus? Será que o próprio Deus tem algo a dizer sobre aqueles que estão ao seu lado? O que fazem? Como vivem?

A visão que João tem neste pequeno trecho nos ajuda a compreender um pouco disso.

Houve peleja no céu. Miguel e os seus anjos pelejaram contra o dragão. Também pelejaram o dragão e seus anjos;todavia, não prevaleceram; nem mais se achou no céu o lugar deles.E foi expulso o grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, o sedutor de todo o mundo, sim, foi atirado para a terra, e, com ele, os seus anjos.Então, ouvi grande voz do céu, proclamando:

    

Agora, veio a salvação, o poder,

    o reino do nosso Deus

    e a autoridade do seu Cristo,

    pois foi expulso o acusador de nossos irmãos,

    o mesmo que os acusa de dia e de noite, diante do nosso Deus.

   Eles, pois, o venceram por causa do sangue do Cordeiro

    e por causa da palavra do testemunho que deram

    e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida.

   Por isso, festejai, ó céus,

    e vós, os que neles habitais.

    Ai da terra e do mar,

    pois o diabo desceu até vós,

    cheio de grande cólera,

    sabendo que pouco tempo lhe resta.

Quando, pois, o dragão se viu atirado para a terra, perseguiu a mulher que dera à luz o filho varão;e foram dadas à mulher as duas asas da grande águia, para que voasse até ao deserto, ao seu lugar, aí onde é sustentada durante um tempo, tempos e metade de um tempo, fora da vista da serpente.Então, a serpente arrojou da sua boca, atrás da mulher, água como um rio, a fim de fazer com que ela fosse arrebatada pelo rio.A terra, porém, socorreu a mulher; e a terra abriu a boca e engoliu o rio que o dragão tinha arrojado de sua boca.Irou-se o dragão contra a mulher e foi pelejar com os restantes da sua descendência, os que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus; e se pôs em pé sobre a areia do mar.

Ap 12.7–17

Vamos ao texto, verso a verso.

7       Houve peleja no céu. Miguel e os seus anjos pelejaram contra o dragão. Também pelejaram o dragão e seus anjos; 8 todavia, não prevaleceram; nem mais se achou no céu o lugar deles. 9 E foi expulso o grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, o sedutor de todo o mundo, sim, foi atirado para a terra, e, com ele, os seus anjos.

  

Há alguns textos atrás, comentei algo que N.T.Wright disse sobre o quebra-cabeças que é o livro de Apocalipse. O quebra cabeças desse trecho das Escrituras parece apontar para dois grupos bastante diferentes envolvidos em uma vitória.

O texto começa com a expressão houve peleja no céu, algo inimaginável para nós. Aparentemente, Miguel é o arcanjo de Dn 10. Ele convocou todos os anjos do céu para lugar contra o dragão que apareceu nos versos do início do capítulo.

De acordo com vários comentaristas, todas as batalhas espirituais e morais que se desenrolam neste mundo são uma espécie de reflexo dessa antiga batalha existente na esfera espiritual. Nesta esfera, Miguel venceu e o dragão perdeu. Com sua derrota, é expulso do céu e lançado sobre a terra⁠1. Sobre a terra, existe como um sedutor de todo o mundo.

10       Então, ouvi grande voz do céu, proclamando:

     Agora, veio a salvação, o poder,

     o reino do nosso Deus

     e a autoridade do seu Cristo,

     pois foi expulso o acusador de nossos irmãos,

     o mesmo que os acusa de dia e de noite, diante do nosso Deus. 11 Eles, pois, o venceram por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida. 12 Por isso, festejai, ó céus,

     e vós, os que neles habitais.

     Ai da terra e do mar,

     pois o diabo desceu até vós,

     cheio de grande cólera,

     sabendo que pouco tempo lhe resta.

Algo muito interessante acontece após a descrição da queda de Satanás. Uma canção de vitória é entoada por aqueles que venceram, os quais, curiosamente, não são anjos, mas seres humanos que, antes, eram acusados por Satanás.

Interessantemente, o crédito da vitória é dado ao povo de Deus na terra, e não a Miguel. O que será que isso quer nos mostrar?

O texto diz no verso 11 eles, pois, o venceram por causa do sangue do Cordeiro. Eles quem? Venceram a quem? Eles só pode ser o povo de Deus (por causa do sangue do Cordeiro). E aquele a quem eles venceram só pode ser Satanás, o acusador, a antiga serpente, ou ainda, o dragão.

Então, quem é que derrotou o dragão, os mártires ou Miguel com seus anjos? Wright afirma que, em certo sentido, ambos derrotaram. A realidade espiritual na qual batalham anjos e demônios de certo modo desceu sobre a humanidade levando alguns a vencerem, ou seja, a glorificarem a Deus mesmo em face da própria morte. Pessoas vencem o dragão glorificando a Deus em suas vidas e em suas mortes.

São estes que não cansam de celebrar a grande vitória de Cristo em sua morte e ressurreição, não deixando espaço para qualquer acusação quer sobre céus quer sobre a terra.

13       Quando, pois, o dragão se viu atirado para a terra, perseguiu a mulher que dera à luz o filho varão; 14 e foram dadas à mulher as duas asas da grande águia, para que voasse até ao deserto, ao seu lugar, aí onde é sustentada durante um tempo, tempos e metade de um tempo, fora da vista da serpente. 15 Então, a serpente arrojou da sua boca, atrás da mulher, água como um rio, a fim de fazer com que ela fosse arrebatada pelo rio. 16 A terra, porém, socorreu a mulher; e a terra abriu a boca e engoliu o rio que o dragão tinha arrojado de sua boca.

Aqui, os versos dão um outro ângulo desta batalha. O dragão é o acusador e aquele que, agora, também é perseguidor. O dragão persegue a mulher no sentido em que Satanás persegue o povo de Deus. O verso 14 nos diz que à mulher foram dadas duas asas para que ela voasse até ao deserto, algo parecido ao que Deus fez com seu povo no período do Êxodo, quando eles saíram do Egito em direção à Terra Prometida.

Neste deserto (símbolo tanto de perseguição quanto provação e preparação), o povo de Deus seria sustentado pelo próprio Deus pela metade de um tempo perfeito aos olhos de Deus (é isso que significa um tempo, tempos e metade de um tempo). Fora da vista da serpente, ou seja, sem que Satanás possa tocar-lhes sem a permissão de Deus.

A partir do verso 15, sabemos que Satanás fará o que puder para destruir este povo. Ele abre “sua boca” da qual sai águas como correnteza de um rio com o objetivo de levar este povo e destrui-lo. No verso 16, no entanto, vemos que a terra socorreu a mulher.

João está tentando colocar seus leitores dentro do drama, está tentando conscientizar seus leitores de que eles são parte do que está acontecendo. Os cristãos de então deveriam esperar que o Dragão viria sobre eles, que os acusaria e os seduziria tão violentamente quando um tsunami. Os olhos de Deus, no entanto, não se apartariam de sobre seu povo.

O impressionante é a expressão a terra, porém, socorreu a mulher; e a terra abriu a boca e engoliu o rio. A terra vem em resgate da mulher, ou seja, a criação parece estar ao lado de Deus e de seu povo.⁠2

17       Irou-se o dragão contra a mulher e foi pelejar com os restantes da sua descendência, os que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus; e se pôs em pé sobre a areia do mar.

O que se esperava com estas últimas palavras é que a comunidade cristã esperasse por mais perseguição, mais ataques, falsas acusações, etc. Veja a expressão do verso 12:

     Ai da terra e do mar,

     pois o diabo desceu até vós,

     cheio de grande cólera,

     sabendo que pouco tempo lhe resta.

Ela indica que sobre a criação e sobre os seres humanos, o diabo está agindo. A visão que João tem nesse final de capítulo objetiva encorajar e alertar seus leitores, tanto aqueles daqueles dias quanto os de um tempo futuro, a esperar por perseguição. O dragão está, em seus últimos dias antes do juízo final, agindo sobre o mar.

Mar para o pensamento judeu antigo poderia significar duas coisas:

1. Lugar obscuro e perigoso;

2. Povos da terra.

Ambas podem ser aplicadas a este texto. A ira do dragão é apenas contra os que fazem duas coisas:

1. Os que guardam os mandamentos do Senhor;

2. Os que têm o testemunho de Jesus.

Isso aponta também para aqueles que são verdadeiramente o povo de Deus na terra. Ou se está deste lado, onde a antiga serpente continua a tentar destruir, ou se está do lado dela, do lado da sedução, da cegueira, da perdição e juízo. De qual lado você está?

______________

 

1 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 111.

2 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 113.

A IGREJA E SUA HISTÓRIA DE SOFRIMENTO (Comentário de Ap 12.1-6)

João está no início de uma grande visão na qual Cristo, Satanás e a igreja estão envolvidos. O que ele vê aqui pode ser tanto aplicado a algo que já aconteceu em um passado distante, como a algo que sempre tem acontecido com o povo da aliança. No final, o que se descobre é que o Senhor sempre sustenta os seus. Seja Cristo em sua encarnação, humilhação, paixão, morte e exaltação, seja a sua igreja em momentos de paz e perseguição. Os seus, sempre estarão em suas mãos. Vejamos como isso ficou claro para João em sua visão apocalíptica.

Viu-se grande sinal no céu, a saber, uma mulher vestida do sol com a lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça,que, achando-se grávida, grita com as dores de parto, sofrendo tormentos para dar à luz.Viu-se, também, outro sinal no céu, e eis um dragão, grande, vermelho, com sete cabeças, dez chifres e, nas cabeças, sete diademas.A sua cauda arrastava a terça parte das estrelas do céu, as quais lançou para a terra; e o dragão se deteve em frente da mulher que estava para dar à luz, a fim de lhe devorar o filho quando nascesse.Nasceu-lhe, pois, um filho varão, que há de reger todas as nações com cetro de ferro. E o seu filho foi arrebatado para Deus até ao seu trono.A mulher, porém, fugiu para o deserto, onde lhe havia Deus preparado lugar para que nele a sustentem durante mil duzentos e sessenta dias.

Ap 12.1–6

Vamos ao texto.

12.1       Viu-se grande sinal no céu, a saber, uma mulher vestida do sol com a lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça, 2 que, achando-se grávida, grita com as dores de parto, sofrendo tormentos para dar à luz.

Este grande sinal visto no céu provavelmente aponta para o início de uma nova visão sobre o fim. De acordo com alguns comentaristas, o céu no qual a visão acontece trata-se do céu que vemos sobre nossas cabeças, e não o céu onde Deus habita.⁠1

A mulher vestida do sol, ou seja, uma mulher cheia de luz, simboliza o próprio povo de Deus, mais especificamente, a igreja. Há muitas teorias sobre quem seria esta mulher. Alguns sugerem ser o povo de Israel que, em Mq 4.10, é tratado como uma mulher que está para dar à luz uma criança. Outros sugerem que seja a própria noiva de Cristo, a igreja, também tratada como uma mulher no Novo Testamento. Outros ainda consideravam o próprio monte Sião como a mãe Sião.

João, no entanto, provavelmente esteja entendendo esta mulher como aquela que representa a mãe da comunidade messiânica, do povo que crê em Deus, tanto na antiga quanto na nova aliança.

Sobre as doze estrelas na cabeça, o número doze é um símbolo apocalíptico que sempre aparece associado tanto às doze tribos de Israel como aos doze discípulos de Cristo. Também é visto como o número prefeito de uma organização, ou, de uma organização perfeita.

Ela estava grávida, com dores de parto, associadas provavelmente aos eventos que estavam por vir. Antes da chegada de algo novo, uma tribulação teria seu lugar, assim como o nascimento de uma criança. O que nos parece é que os eventos mundiais ficarão cada vez piores Deus, no entanto, permanecerá no controle sobre todas as coisas. Tanto pré-milenistas quanto amilenistas concordam com isso. Apenas os pós-milenistas possuem uma visão mais otimista do futuro.

Em meio às grandes tribulações dos últimos dias, seu povo será guardado. Como pontuou Robert Utley:

A pergunta é: “Como Deus vai proteger seus seguidores?” O selo em suas testas os protegerá “da ira de Deus”, mas não das perseguições dos incrédulos (tribulação). Deus é por eles, com eles, e os amará, mas eles, ainda assim, vão morrer!⁠2

3       Viu-se, também, outro sinal no céu, e eis um dragão, grande, vermelho, com sete cabeças, dez chifres e, nas cabeças, sete diademas.

Após a visão que se passou, João vê um outro grande sinal no céu. Agora, a figura não é mais de um anjo, mas de um dragão monstruoso, vermelho, com sete cabeças, dez chifres e sete diademas.

Obviamente, essa também é uma visão simbólica dentro da literatura apocalíptica. Essa é claramente uma descrição do mal e de seu grande poder. Cabeças e chifres simbolizam um poder perfeito. Os diademas representam o desejo de Satanás de usurpar a posição real de Cristo.

Aquele que representa o dragão aqui é o mesmo que representou a serpente no Antigo Testamento. Estes são os dois grandes monstros do caos.

4       A sua cauda arrastava a terça parte das estrelas do céu, as quais lançou para a terra; e o dragão se deteve em frente da mulher que estava para dar à luz, a fim de lhe devorar o filho quando nascesse.

Como no Antigo Testamento o termo estrelas do céu é às vezes associado aos santos de Deus, alguns sugerem que que Satanás tenha arrastado com sua cauda um terço dos santos (Gn 15.5, Jr 33.22, Dn 12.3). No entanto, o contexto aqui de Apocalipse sugere que estrelas do céu esteja ligado a anjos caído e não a homens. A presença de anjos caídos é comum na literatura apocalíptica.⁠3

Sendo a mulher como o povo de Deus (tanto do AT quanto do NT) e o dragão Satanás, sabemos que Satanás se deteve em frente ao povo eleito (que estava para dar à luz). Esta criança, de acordo com o verso 5, é o próprio Messias, que vem do povo de Deus (AT). O que se infere daqui é que Satanás possui planos para destruir o povo e os intentos do Senhor de resgate e redenção deste povo.

 

5       Nasceu-lhe, pois, um filho varão, que há de reger todas as nações com cetro de ferro. E o seu filho foi arrebatado para Deus até ao seu trono.

Mais uma vez, com a menção da regência deste filho sobre todas as nações com cetro de ferro, entendemos que o filho é o próprio Senhor Jesus. Este veio do povo de Deus (judeus) como profetizado no Antigo Testamento.

O foco de João aqui é ir da encarnação à exaltação, sem passar pela humilhação. Não há problemas nisso, visto que o foco de João em Apocalipse é apresentar mais o Cristo glorificado, em seu poder e soberania, o qual virá em breve para julgar os vivos e os mortos. Seu ponto nessa passagem é apenas demonstrar que aquele que encarnou e que foi assediado pelo diabo também foi exaltado (após sua ressurreição) pelo próprio Pai até ao seu trono.

6       A mulher, porém, fugiu para o deserto, onde lhe havia Deus preparado lugar para que nele a sustentem durante mil duzentos e sessenta dias.

É quase impossível não fazer associação aqui com a passagem do povo de Deus no A.T. pelo deserto do Sinai. No entanto, é possível entender que todo o povo de Deus acaba por passar por um período de deserto, ou, de perseguição e preparação.

O ponto deste verso é apresentar o cuidado de Deus sobre a mulher, sustentando-a durante a metade de um tempo (metade de 7 anos — 3 anos e meio, ou ainda, 1260 dias). Durante esse tempo simbólico me que seu povo seria perseguido, Deus não deixaria de sustentá-los.

Assim tem sido ao longo da história. O povo de Deus sempre foi perseguido e atacado por aqueles em quem existe o mesmo ódio que existiu naqueles que quiseram a morte de Jesus. Assim como Jesus foi sustentado, guardado e levado, a mulher igualmente seria sustentada, guardada e, por fim, levada. No entanto, assim como Cristo sofreu e morreu debaixo da fúria do dragão, a igreja também passará por sofrimento e morte.

 

1 Robert James Utley, Hope in Hard Times – The Final Curtain: Revelation, vol. Volume 12, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 2001), 89.

2 Robert James Utley, Hope in Hard Times – The Final Curtain: Revelation, vol. Volume 12, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 2001), 89–90.

3 Robert James Utley, Hope in Hard Times – The Final Curtain: Revelation, vol. Volume 12, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 2001), 90.

O FIM DO MUNDO (Comentário de Ap 11.15-19)

A Bíblia fala muito sobre a última trombeta. Veja alguns exemplos:

1Co 15.51–52: Eis que vos digo um mistério: nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta. A trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados.

Este texto diz para nós que, no tocar da última trombeta, todos seremos glorificados. No ressoar da última trombeta, se cumprirá a profecia da ressurreição dos mortos e glorificação dos corpos de todos os santos da história. Outro texto diz assim:

1Ts 4.15–17: Ora, ainda vos declaramos, por palavra do Senhor, isto nós, os vivos, os que ficarmos até à vinda do Senhor, de modo algum precederemos os que dormem. Porquanto o Senhor mesmo, dada a sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo, e ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; depois, nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares, e, assim, estaremos para sempre com o Senhor.

Aos tessalonicenses, Paulo afirma que o arrebatamento da igreja acontecerá no ressoar da trombeta de Deus, e que o mesmo acontecerá no mesmo momento da ressurreição. Olhando para o que Cristo disse em Mt 24, sabemos que essa vinda será sobre as nuvens do céu, com poder e muita glória.

Mt 24.29–31: Logo em seguida à tribulação daqueles dias, o sol escurecerá, a lua não dará a sua claridade, as estrelas cairão do firmamento, e os poderes dos céus serão abalados. Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e muita glória. E ele enviará os seus anjos, com grande clangor de trombeta, os quais reunirão os seus escolhidos, dos quatro ventos, de uma a outra extremidade dos céus.

Assim, o evento relacionado ao tocar da última trombeta está associado com a soberania, o reino, o poder e majestade que pertencem ao único verdadeiro Deus e seu Cristo, seu Messias, e sobre como este Deus tomou o poder e reino das mãos dos homens e passou a reinar pelos séculos dos séculos. Neste texto de Apocalipse, é a última vez que a palavra trombeta aparece na Bíblia. Esta é uma pequena janela do dia do fim deste presente mundo.

Vamos ao texto.

O sétimo anjo tocou a trombeta, e houve no céu grandes vozes, dizendo:

    O reino do mundo se tornou de nosso Senhor

    e do seu Cristo,

    e ele reinará pelos séculos dos séculos.

E os vinte e quatro anciãos que se encontram sentados no seu trono, diante de Deus, prostraram-se sobre o seu rosto e adoraram a Deus,dizendo:

    Graças te damos, Senhor Deus, Todo-Poderoso,

    que és e que eras,

    porque assumiste o teu grande poder

    e passaste a reinar.

   Na verdade, as nações se enfureceram;

    chegou, porém, a tua ira,

    e o tempo determinado para serem julgados os mortos,

    para se dar o galardão aos teus servos, os profetas,

    aos santos e aos que temem o teu nome,

    tanto aos pequenos como aos grandes,

    e para destruíres os que destroem a terra.

Abriu-se, então, o santuário de Deus, que se acha no céu, e foi vista a arca da Aliança no seu santuário, e sobrevieram relâmpagos, vozes, trovões, terremoto e grande saraivada.

Ap 11.15–19

Vejamos o texto, verso a verso.

15       O sétimo anjo tocou a trombeta, e houve no céu grandes vozes, dizendo:

     O reino do mundo se tornou de nosso Senhor

     e do seu Cristo,

     e ele reinará pelos séculos dos séculos.

Chegou o tempo em que a última trombeta tocará. Quando o sétimo anjo a tocou, João ouviu grandes vozes no céu, diferentemente daquele tempo de silêncio, dizendo algo sobre o reino do mundo e o reino de Cristo, algo que, talvez, tenha a ver com a cidade santa e a cidade deste mundo.

O texto diz que o reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo. Isso descreve o fim de um reino humano caído, o fim de um tempo em que os homens governaram e o início de um tempo em que o próprio Deus governará.

O tempo em que o Senhor governará está no final de cada um dos três elementos que aparecem em Apocalipse. Ao final dos selos (6.12-17), das trombetas (11.15-18), e das taças (19), o demonstra os três ângulos que João está vendo sobre o fim.

Assim, Apocalipse não é um livro cronológico. Os eventos não estão em uma sequência lógica. O que temos aqui é um drama apresentado em três ciclos, três ângulos de um mesmo período ou evento. A diferença entre os três ângulos de visão está na intensidade em que os níveis de julgamento são mencionados.⁠1

Com o início do Reino de Cristo que reinará pelos séculos dos séculos, não temos um reino milenar ou qualquer reino que dure apenas por um tempo. Temos o início de uma eternidade, de um reino eternal de nosso Deus, como dito por profetas e apóstolos:

Isaías 9.6–7: Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz;7para que se aumente o seu governo, e venha paz sem fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reino, para o estabelecer e o firmar mediante o juízo e a justiça, desde agora e para sempre. O zelo do SENHOR dos Exércitos fará isto.

Daniel 2.44: Mas, nos dias destes reis, o Deus do céu suscitará um reino que não será jamais destruído; este reino não passará a outro povo; esmiuçará e consumirá todos estes reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre,

Lucas 1.33: ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu reinado não terá fim.

1Tessalonicenses 4.17: depois, nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares, e, assim, estaremos para sempre com o Senhor.

2Pedro 1.11: Pois desta maneira é que vos será amplamente suprida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

O que teremos aqui é o cumprimento final do pedido de Cristo em sua oração mais conhecida (Mt 6.10).⁠2

16       E os vinte e quatro anciãos que se encontram sentados no seu trono, diante de Deus, prostraram-se sobre o seu rosto e adoraram a Deus, 17 dizendo:

     Graças te damos, Senhor Deus, Todo-Poderoso,

     que és e que eras,

     porque assumiste o teu grande poder

     e passaste a reinar.

Veja a diferença desse texto com Ap 1.4:

João, às sete igrejas que se encontram na Ásia, graça e paz a vós outros, da parte daquele que é, que era e que há de vir, da parte dos sete Espíritos que se acham diante do seu trono.

A expressão “que há de vir” não aparece mais aqui no capítulo 11. A razão é simples. Com o toque da sétima trombeta, Cristo já veio. Aqui, Cristo é apresentado com aquele que é e que era, e que, enfim, passaste a reinar.

O testemunho muitas vezes sofredor da igreja cheia de mártires enfim demonstra ao mundo que Deus é Deus de verdade, e que Jesus é o Senhor e Rei sobre todos e tudo.⁠3 O reino enfim está em sua plenitude agora.

18       Na verdade, as nações se enfureceram;

     chegou, porém, a tua ira,

     e o tempo determinado para serem julgados os mortos,

     para se dar o galardão aos teus servos, os profetas,

     aos santos e aos que temem o teu nome,

     tanto aos pequenos como aos grandes,

     e para destruíres os que destroem a terra.

A fúria das nações pode ser vista de duas maneiras:

1. O sistema deste mundo caído odeia a Deus e seus planos e regras, bem como seu povo que as segue;

2. Haverá uma espécie de rebelião do tempo do fim contra Deus caracterizada em outro lugar como a batalha do Armagedom.

Chegou o tempo determinado. Este é o Dia do Senhor, o dia do julgamento para alguns e de recompensa para outros (para se dar o galardão aos teus servos, os profetas, aos santos e aos que temem o teu nome). Este é o tempo popularmente conhecido como Juízo Final. Há dois textos que o apresentam.

Mateus 25.31–46: 31Quando vier o Filho do Homem na sua majestade e todos os anjos com ele, então, se assentará no trono da sua glória;32e todas as nações serão reunidas em sua presença, e ele separará uns dos outros, como o pastor separa dos cabritos as ovelhas;33e porá as ovelhas à sua direita, mas os cabritos, à esquerda;34então, dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo.35Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes;36estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me.37Então, perguntarão os justos: Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? Ou com sede e te demos de beber?38E quando te vimos forasteiro e te hospedamos? Ou nu e te vestimos?39E quando te vimos enfermo ou preso e te fomos visitar?40O Rei, respondendo, lhes dirá: Em verdade vos afirmo que, sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.41Então, o Rei dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos.42Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber;43sendo forasteiro, não me hospedastes; estando nu, não me vestistes; achando-me enfermo e preso, não fostes ver-me.44E eles lhe perguntarão: Senhor, quando foi que te vimos com fome, com sede, forasteiro, nu, enfermo ou preso e não te assistimos?45Então, lhes responderá: Em verdade vos digo que, sempre que o deixastes de fazer a um destes mais pequeninos, a mim o deixastes de fazer.46E irão estes para o castigo eterno, porém os justos, para a vida eterna.

Apocalipse 20.11–15: 11Vi um grande trono branco e aquele que nele se assenta, de cuja presença fugiram a terra e o céu, e não se achou lugar para eles.12Vi também os mortos, os grandes e os pequenos, postos em pé diante do trono. Então, se abriram livros. Ainda outro livro, o Livro da Vida, foi aberto. E os mortos foram julgados, segundo as suas obras, conforme o que se achava escrito nos livros.13Deu o mar os mortos que nele estavam. A morte e o além entregaram os mortos que neles havia. E foram julgados, um por um, segundo as suas obras.14Então, a morte e o inferno foram lançados para dentro do lago de fogo. Esta é a segunda morte, o lago de fogo.15E, se alguém não foi achado inscrito no Livro da Vida, esse foi lançado para dentro do lago de fogo.

Todos os seres humanos estarão diante de Deus neste dia e darão contas de suas vidas:

2Coríntios 5.10: Porque importa que todos nós compareçamos perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito por meio do corpo.

Hebreus 4.13: E não há criatura que não seja manifesta na sua presença; pelo contrário, todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar contas.

    

Tudo o que resta agora, após o toque da última trombeta, é destruir os que destroem a terra. Este é, na linguagem das trombetas, o último momento de julgamento do pecado. Este julgamento é o julgamento do Criador contra todos que roubaram sua criação e a destruíram, fazendo dela o que bem quiseram e não que o Ele disse que deveria ser feito. Aqueles que fizeram de si mesmos e das demais coisas criadas o que bem quiseram, o que seus corações desejaram, se a preocupação com a vontade do Criador.

Deus, o tempo todo tem demonstrado seu desejo de resgatar e restaurar sua criação das forças que agem neste mundo de um modo contrário à criação. Trata-se de um julgamento dos que são anti-criação, anti-matéria, anti-vida. É um tempo para destruir os destruidores, um tempo para matar a morte e seu poder.

19       Abriu-se, então, o santuário de Deus, que se acha no céu, e foi vista a arca da Aliança no seu santuário, e sobrevieram relâmpagos, vozes, trovões, terremoto e grande saraivada.

Este verso ao mesmo tempo encerra esta passagem e o toque das trombetas, bem como dá início a uma nova seção de visão que João terá até o final do livro. A história que começará no próximo capítulo nada mais é do que o mesmo que já foi visto, só que agora sob um novo ângulo, uma outra maneira de visualizar.⁠4

O texto termina com a visão do santuário de Deus que, como vimos no texto anterior, pode estar relacionado com a igreja, o Corpo de Cristo, também chamado no N.T. de templo ou santuário de Deus. Este, agora, é visto no céu. Dentre deste santuário, ou seja, junto a este povo, é vista a arca da Aliança, símbolo no Antigo Testamento da presença de Deus e de sua misericórdia sobre o povo.

Ao ver tudo isso, João vê uma série de fenômenos amedrontadores no céus (relâmpago, trovões, grande saraivada) e na terra (vozes e terremoto).

Apocalipse tem a ver com a vinda e plenitude do Reino de Deus. Este povo que é resgatado pelo Senhor e que é visto por João voltará com Cristo e habitará eternamente o novo céu e nova terra, terra essa restaurada. Esqueça, assim, toda ideia de que você e eu moraremos para sempre no céu. Não haverá distinção entre céu e terra quando começar o período do novo céu e nova terra. Viveremos nesta terra restaurada, com o próprio Deus e seus anjos.

Todos estes relâmpagos, vozes, trovões, terremoto e grande saraivada servem para mostrar (simbolicamente) a transição de um momento para outro. Agora, finalmente, Deus reinará para todo sempre sobre todos os homens e sua vontade será feita na terra assim como é feita nos céus.

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1 Robert James Utley, Hope in Hard Times – The Final Curtain: Revelation, vol. Volume 12, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 2001), 84.

2 Robert James Utley, Hope in Hard Times – The Final Curtain: Revelation, vol. Volume 12, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 2001), 84.

3 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 105.

4 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 103.

O TESTEMUNHO QUE JAMAIS PODERÁ SER CALADO! (Comentário Ap 11.1-14)

Como escreveu N.T.Wright, se  para muitos a Bíblia é um quebra-cabeças cujas peças devem ser corretamente colocadas a fim de serem compreendidas, o livro de Apocalipse seria a parte mais difícil desse quebra-cabeças. E, de Apocalipse, sem dúvida o que acontece a partir do capítulo 11 torna o quebra-cabeça ainda mais difícil.

Só é possível compreendê-lo quando visto à luz dos textos anteriores, inclusive, de livros anteriores na própria Escritura. Mais uma vez, o que vemos neste texto é a misericórdia de Deus seguindo seu juízo contra o pecado dos homens.

Vamos ao texto.

Foi-me dado um caniço semelhante a uma vara, e também me foi dito: Dispõe-te e mede o santuário de Deus, o seu altar e os que naquele adoram;mas deixa de parte o átrio exterior do santuário e não o meças, porque foi ele dado aos gentios; estes, por quarenta e dois meses, calcarão aos pés a cidade santa.

Darei às minhas duas testemunhas que profetizem por mil duzentos e sessenta dias, vestidas de pano de saco.São estas as duas oliveiras e os dois candeeiros que se acham em pé diante do Senhor da terra.Se alguém pretende causar-lhes dano, sai fogo da sua boca e devora os inimigos; sim, se alguém pretender causar-lhes dano, certamente, deve morrer.Elas têm autoridade para fechar o céu, para que não chova durante os dias em que profetizarem. Têm autoridade também sobre as águas, para convertê-las em sangue, bem como para ferir a terra com toda sorte de flagelos, tantas vezes quantas quiserem.Quando tiverem, então, concluído o testemunho que devem dar, a besta que surge do abismo pelejará contra elas, e as vencerá, e matará,e o seu cadáver ficará estirado na praça da grande cidade que, espiritualmente, se chama Sodoma e Egito, onde também o seu Senhor foi crucificado.Então, muitos dentre os povos, tribos, línguas e nações contemplam os cadáveres das duas testemunhas, por três dias e meio, e não permitem que esses cadáveres sejam sepultados.Os que habitam sobre a terra se alegram por causa deles, realizarão festas e enviarão presentes uns aos outros, porquanto esses dois profetas atormentaram os que moram sobre a terra.Mas, depois dos três dias e meio, um espírito de vida, vindo da parte de Deus, neles penetrou, e eles se ergueram sobre os pés, e àqueles que os viram sobreveio grande medo;e as duas testemunhas ouviram grande voz vinda do céu, dizendo-lhes: Subi para aqui. E subiram ao céu numa nuvem, e os seus inimigos as contemplaram.Naquela hora, houve grande terremoto, e ruiu a décima parte da cidade, e morreram, nesse terremoto, sete mil pessoas, ao passo que as outras ficaram sobremodo aterrorizadas e deram glória ao Deus do céu.

Passou o segundo ai. Eis que, sem demora, vem o terceiro ai.

Ap 11.1–14

João, que antes era apenas um expectador, agora se torna um participante daquilo que acontece na visão celestial.

1     Foi-me dado um caniço semelhante a uma vara, e também me foi dito: Dispõe-te e mede o santuário de Deus, o seu altar e os que naquele adoram; 

João deveria medir o santuário de Deus, o seu altar e os que adoram neste santuário. João deveria medir não somente o lugar, mas as pessoas que nele estavam. De acordo com Wright⁠1 e Utley⁠2 (e muitos outros comentaristas), esse templo não tem nada a ver com o templo de Jerusalém ou com o templo celestial visto no início do livro de Apocalipse.

Como no início do cristianismo os seguidores de Cristo viam a si mesmos como o verdadeiro templo, o lugar onde Deus agora vive através de Seu Espírito, João provavelmente estaria medindo a comunidade do povo de Deus, o verdadeiro templo do Senhor.

Aqui, provavelmente exista uma relação com o texto de Zacarias 2 no qual pareça existir a imagem da Nova Jerusalém e do povo que nela está. Há uma nova terminologia, incomum, nesta passagem de Apocalipse. Ao contrários das visões em Ezequiel e Zacarias, o que é medido não é apenas o lugar, mas as pessoas que estão neste lugar. Provavelmente, as pessoas sejam o próprio lugar.

     

2 mas deixa de parte o átrio exterior do santuário e não o meças, porque foi ele dado aos gentios; estes, por quarenta e dois meses, calcarão aos pés a cidade santa. 3 Darei às minhas duas testemunhas que profetizem por mil duzentos e sessenta dias, vestidas de pano de saco. 4 São estas as duas oliveiras e os dois candeeiros que se acham em pé diante do Senhor da terra.

42 meses, ou 1260 dias, ou ainda 3 anos e meio. Esse tempo é exatamente a metade de 7 anos, simbolicamente, um tempo perfeito, inteiro, completo. Durante metade desse tempo que, literalmente, ninguém sabe quanto é, os gentios que não são contados com “o templo” calcarão aos pés a cidade santa.

A cidade santa aqui, provavelmente não tenha a ver com Jerusalém ou Roma, mas com o próprio povo de Deus (vide Ap 3.12). Este povo seria oprimido e perseguido pelos de fora (simbolizado pelos gentios). Estes não podem ser medidos pois não fazem parte “do templo” do Senhor.

É então que surgem as duas testemunhas que, de acordo com verso 4, são as duas oliveiras e os dois candeeiros que se acham em pé diante do Senhor da terra. Há muitas teorias sobre estas duas testemunhas. Compreendo, olhando para o contexto deste texto, que elas sejam uma representação do povo de Deus de todos os templos. Os candeeiros, de acordo com a linguagem do próprio livro, representam a igreja de Jesus Cristo sobre a terra (Ap 1.20)

Assim sendo, a igreja é quem testemunha do Senhor durante metade do tempo perfeito do Senhor. É ela quem profetiza vestida de pano de saco, ou seja, em humildade e, às vezes, humilhação, para os gentios que não são contados com o povo de Deus.

Como duas oliveiras (verso 4), as testemunhas são uma provável alusão a Zorobabel (descendente monárquico de Davi) e Josué (descendente sacerdotal de Aarão). Neste sentido, o Evangelho pregado por essas duas testemunhas tem um tom tanto real quanto sacerdotal.

5       Se alguém pretende causar-lhes dano, sai fogo da sua boca e devora os inimigos; sim, se alguém pretender causar-lhes dano, certamente, deve morrer. 6 Elas têm autoridade para fechar o céu, para que não chova durante os dias em que profetizarem. Têm autoridade também sobre as águas, para convertê-las em sangue, bem como para ferir a terra com toda sorte de flagelos, tantas vezes quantas quiserem.

Este povo será divinamente protegido ao longo de seu período de pregação. Enquanto sua missão não estiver completa, nada lhe causará dano.

O fogo da sua boca alude ao poder da mensagem que anunciam, a qual tanto purifica quanto mata (condena). Deus está demonstrando que honrará e abençoará este povo que é chamado ao longo do livro de Apocalipse a ser fiel em seu testemunho de Jesus Cristo, mesmo debaixo de perseguição.

Os sinais que estão associados com sua autoridade podem não ser literais, mas apenas símbolos usados para enfatizar seu poder sobre o mundo.

7       Quando tiverem, então, concluído o testemunho que devem dar, a besta que surge do abismo pelejará contra elas, e as vencerá, e matará, 8 e o seu cadáver ficará estirado na praça da grande cidade que, espiritualmente, se chama Sodoma e Egito, onde também o seu Senhor foi crucificado. 9 Então, muitos dentre os povos, tribos, línguas e nações contemplam os cadáveres das duas testemunhas, por três dias e meio, e não permitem que esses cadáveres sejam sepultados. 10 Os que habitam sobre a terra se alegram por causa deles, realizarão festas e enviarão presentes uns aos outros, porquanto esses dois profetas atormentaram os que moram sobre a terra.

O lugar onde o seu Senhor foi crucificado não diz respeito à Jerusalém necessariamente, muito menos à Sodoma e Egito, mas à este mundo como um todo.

Haverá o martírio desse povo, promovido pela besta que surge do abismo. Esta, ao longo do Apocalipse, está associada com forças demoníacas. Assim, forças demoníacas pelejarão contra o povo de Deus, levando-o ao martírio.

Durante o período da igreja antiga, muitos consideraram Babel (ou Babilônia) ou Roma como a grande cidade, enquanto outros consideraram todo o Império Romano, o que significa crer em quase todo o mundo conhecida da época.

Por três dias e meio (mais uma vez, a metade do símbolo de um tempo completo ou perfeito aos olhos de Deus — um período simbólico de perseguição), o mundo se alegra com o fim do povo de Deus. Com sua morte, ninguém irá mais atormentar os que moram sobre a terra.

11       Mas, depois dos três dias e meio, um espírito de vida, vindo da parte de Deus, neles penetrou, e eles se ergueram sobre os pés, e àqueles que os viram sobreveio grande medo; 12 e as duas testemunhas ouviram grande voz vinda do céu, dizendo-lhes: Subi para aqui. E subiram ao céu numa nuvem, e os seus inimigos as contemplaram. 13 Naquela hora, houve grande terremoto, e ruiu a décima parte da cidade, e morreram, nesse terremoto, sete mil pessoas, ao passo que as outras ficaram sobremodo aterrorizadas e deram glória ao Deus do céu. 14 Passou o segundo ai. Eis que, sem demora, vem o terceiro ai.

Sua alegria, todavia, dura pouco. Deus, agindo de um modo sobrenatural, ressuscita seu povo, tal como Ezequiel viu no capítulo 37 de sua profecia.

A diferença em Apocalipse é que, uma vez viva novamente, a igreja é levada aos céus envolta em uma nuvem enquanto que aqueles que se alegraram com seu fim as contemplam.

De acordo com o final do verso 13, um grande número de convertidos aparece dando glória ao Deus do céu. Parece haver uma real conversão, reconhecimento da soberania de Deus, e um verdadeiro e penitente retorno a Deus.

Antes de sua conversão, o que parece acontecer é um grande terremoto em todo o mundo no qual “a décima parte da cidade” é destruída. São mortas 7.000 pessoas (mais uma vez, o símbolo perfeito do número dos que deveriam ser mortos), mas sobrevivem algumas. As que sobrevivem são as que se aproximam do Senhor cheias de temor e dando glória a Deus. Olhando para Ap 16.9, temos a impressão de que, dar glória a Deus neste contexto todo é sinônimo de arrependimento e conversão.

Assim, no verso 14 percebemos que no final do segundo ai (do toque da sexta trombeta) a misericórdia de Deus conduzirá muitos ao arrependimento e conversão. Aqueles que antes se alegravam com a morte dos que testemunhavam de Cristo, agora tornam-se cristão.

 

1 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 98.

2 Robert James Utley, Hope in Hard Times – The Final Curtain: Revelation, vol. Volume 12, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 2001), 81.

JUÍZO E MISERICÓRDIA JUNTOS: Contradição? (Comentário de Ap 10.1-11)

O juízo e a misericórdia são características sempre presentes na pessoa de nosso Deus. Se, por um lado, ele está sempre pronto a punir, julgar e disciplinar aquele que erra, por outro lado está sempre se revelando em gestos de compaixão e misericórdia diante da criatura que o ofendeu e que não merece a sua graça.

Em meio a um turbilhão de visões de juízo, João tem a oportunidade de contemplar um pouco da misericórdia do Senhor que virá junto do juízo no final dos tempos.

Vi outro anjo forte descendo do céu, envolto em nuvem, com o arco-íris por cima de sua cabeça; o rosto era como o sol, e as pernas, como colunas de fogo;e tinha na mão um livrinho aberto. Pôs o pé direito sobre o mar e o esquerdo, sobre a terra,e bradou em grande voz, como ruge um leão, e, quando bradou, desferiram os sete trovões as suas próprias vozes.Logo que falaram os sete trovões, eu ia escrever, mas ouvi uma voz do céu, dizendo: Guarda em segredo as coisas que os sete trovões falaram e não as escrevas.Então, o anjo que vi em pé sobre o mar e sobre a terra levantou a mão direita para o céue jurou por aquele que vive pelos séculos dos séculos, o mesmo que criou o céu, a terra, o mar e tudo quanto neles existe: Já não haverá demora,mas, nos dias da voz do sétimo anjo, quando ele estiver para tocar a trombeta, cumprir-se-á, então, o mistério de Deus, segundo ele anunciou aos seus servos, os profetas.

A voz que ouvi, vinda do céu, estava de novo falando comigo e dizendo: Vai e toma o livro que se acha aberto na mão do anjo em pé sobre o mar e sobre a terra.Fui, pois, ao anjo, dizendo-lhe que me desse o livrinho. Ele, então, me falou: Toma-o e devora-o; certamente, ele será amargo ao teu estômago, mas, na tua boca, doce como mel.Tomei o livrinho da mão do anjo e o devorei, e, na minha boca, era doce como mel; quando, porém, o comi, o meu estômago ficou amargo.Então, me disseram: É necessário que ainda profetizes a respeito de muitos povos, nações, línguas e reis.

Ap 10.1–11

Novamente, uma imagem impressionante.

1     Vi outro anjo forte descendo do céu, envolto em nuvem, com o arco-íris por cima de sua cabeça; o rosto era como o sol, e as pernas, como colunas de fogo; 2 e tinha na mão um livrinho aberto. Pôs o pé direito sobre o mar e o esquerdo, sobre a terra, 3 e bradou em grande voz, como ruge um leão, e, quando bradou, desferiram os sete trovões as suas próprias vozes. 4 Logo que falaram os sete trovões, eu ia escrever, mas ouvi uma voz do céu, dizendo: Guarda em segredo as coisas que os sete trovões falaram e não as escrevas.

Temos aqui o segundo anjo forte mencionado em Apocalipse. O primeiro a ser mencionado aparece em Ap 5.2 (Vi, também, um anjo forte, que proclamava em grande voz: Quem é digno de abrir o livro e de lhe desatar os selos?). Estes anjos se destacam pelo fato de serem mais expressivos em projeção.

O que aqui aparece, desce do alto envolto em uma nuvem. Tente imaginar a visão de João. Sobre sua cabeça há um arco-íris, o que, imediatamente, nos leva à ideia de aliança e misericórdia, assim como apresentados em Gênesis.

A impressão que se tem é que algo doce seria anunciado a partir daqui. Algo que destoaria do que foi anunciado recentemente no texto. Ao final do verso 1, temos apenas a descrição da aparência deste anjo, bastante diferente dos demais visto até aqui.

O descer nas nuvens traz consigo a ideia de a descida do juízo de Deus. O juízo está chegando e, sobre ele, vê-se a misericórdia de Deus no arco-íris.

Um pequeno rolo é visto na mão esquerda desse anjo. E o rolo, ou livro, está aberto. Descendo com este livro aberto, o anjo coloca os pés sobre a terra e o mar e, tocando-os, dá um brado tão alto quanto o de leões. Não bastasse isso, após o brado do anjo, ouve-se sete trovões anunciando em alta voz profecias. Quando João se preparou para escrevê-las, ouviu uma ordem para que não as escrevesse.

Curiosamente, mais à frente em Apocalipse, duas bestas se levantarão, uma vinda do mar e outra vinda da terra. E este anjo tem seus pés postos sobre ambos.

5       Então, o anjo que vi em pé sobre o mar e sobre a terra levantou a mão direita para o céu 6       e jurou por aquele que vive pelos séculos dos séculos, o mesmo que criou o céu, a terra, o mar e tudo quanto neles existe: Já não haverá demora, 7 mas, nos dias da voz do sétimo anjo, quando ele estiver para tocar a trombeta, cumprir-se-á, então, o mistério de Deus, segundo ele anunciou aos seus servos, os profetas.

Então, com os dois pés postos sobre este mundo, um sobre o mar e outro sobre a terra, com um livro aberto em sua mão esquerda, o anjo agora levanta sua mão direita ao céu e jura pelo Criador de que o tocar da última trombeta não demoraria mais. A João é revelado que, no momento em que a última trombeta soar, se cumprirá tudo o que foi profetizado pelo Senhor por meio de seus profetas no passado.

Somente o Senhor Deus, o Criador, tem autoridade sobre tudo aquilo que ele criou e virá no final, mesmo sobre o mal, para destrui-lo e dar início a um novo tempo em um novo céu e uma nova terra. Assim, a consumação será um retorno à criação inicial. Aquilo que se perdeu por causa dos homens será restaurado para os próprios homens.

8       A voz que ouvi, vinda do céu, estava de novo falando comigo e dizendo: Vai e toma o livro que se acha aberto na mão do anjo em pé sobre o mar e sobre a terra. 9 Fui, pois, ao anjo, dizendo-lhe que me desse o livrinho. Ele, então, me falou: Toma-o e devora-o; certamente, ele será amargo ao teu estômago, mas, na tua boca, doce como mel. 10 Tomei o livrinho da mão do anjo e o devorei, e, na minha boca, era doce como mel; quando, porém, o comi, o meu estômago ficou amargo. 11 Então, me disseram: É necessário que ainda profetizes a respeito de muitos povos, nações, línguas e reis.

De repente, João ouve uma voz que lhe ordena a ir até ao anjo forte e tomar o livro de sua mão. Corajosamente, João foi até ele e pediu que o desse o livro. O anjo não somente lhe deu como também lhe ordenou que comesse o pequeno livro.

João comeu e logo percebeu que o gosto sugerido pelo anjo era verdadeiro. Suave e doce aos lábios, amargo para o estômago.

O fato das palavras serem doce na boca e amarga no estômago, apocalipticamente, aponta para os dois lados da própria Palavra de Deus. Tanto sua Palavra quanto seu juízo possuem dois gostos. Se, para uns, representa algo bom e prazeroso, rico em misericórdia, para outros representa angústia e sofrimento, amargura de alma devido às consequências e disciplinas referentes aos pecados.

Após tal experiência, João ouve que muito lhe seria dito sobre o fim antes do soar da última trombeta. Por ora, devia apenas saber que, junto do juízo virá a misericórdia.

O SOFRIMENTO QUE ACABA COM TODO SOFRIMENTO (Comentário de Ap 9.13-21)

O segundo Aí! é explicado no chamado que é feito ao anjo que portava a sexta trombeta. No texto abaixo, vemos o que acontece após o aparecimento do monstro visto no texto anterior. Após o horror visto por João na figura do gafanhoto que foi se transformando pouco a pouco em um terrível monstro, João vê agora um outro exército que sai para causar tortura e terror em toda a terra.

Um terço da população é dizimada. O juízo tem como objetivo mostrar o poder de Deus, julgar o pecado e, de certo modo, chamar os homens ao arrependimento. No entanto, o encanto e sedução debaixo do qual a humanidade está é tão grande que não são capazes de se arrependerem diante de tantos sinais de que o Criador lhes deu, demonstrando que os estava condenando por causa precisamente de seus pecados e idolatrias.

A cegueira espiritual e a idolatria chegam em seu nível mais alto em toda a história.

O sexto anjo tocou a trombeta, e ouvi uma voz procedente dos quatro ângulos do altar de ouro que se encontra na presença de Deus,dizendo ao sexto anjo, o mesmo que tem a trombeta: Solta os quatro anjos que se encontram atados junto ao grande rio Eufrates.Foram, então, soltos os quatro anjos que se achavam preparados para a hora, o dia, o mês e o ano, para que matassem a terça parte dos homens.O número dos exércitos da cavalaria era de vinte mil vezes dez milhares; eu ouvi o seu número.Assim, nesta visão, contemplei que os cavalos e os seus cavaleiros tinham couraças cor de fogo, de jacinto e de enxofre. A cabeça dos cavalos era como cabeça de leão, e de sua boca saía fogo, fumaça e enxofre.Por meio destes três flagelos, a saber, pelo fogo, pela fumaça e pelo enxofre que saíam da sua boca, foi morta a terça parte dos homens;pois a força dos cavalos estava na sua boca e na sua cauda, porquanto a sua cauda se parecia com serpentes, e tinha cabeça, e com ela causavam dano.

Os outros homens, aqueles que não foram mortos por esses flagelos, não se arrependeram das obras das suas mãos, deixando de adorar os demônios e os ídolos de ouro, de prata, de cobre, de pedra e de pau, que nem podem ver, nem ouvir, nem andar;nem ainda se arrependeram dos seus assassínios, nem das suas feitiçarias, nem da sua prostituição, nem dos seus furtos.

Ap 9.13–21

13 O sexto anjo tocou a trombeta, e ouvi uma voz procedente dos quatro ângulos do altar de ouro que se encontra na presença de Deus, 14 dizendo ao sexto anjo, o mesmo que tem a trombeta: Solta os quatro anjos que se encontram atados junto ao grande rio Eufrates.

Antes que o último anjo toque a última trombeta, somos apresentados ao penúltimo toque de trombeta, o qual dá início ao juízo de Deus contra os homens. A visão que está diante dos olhos de João é, novamente, a do tabernáculo do Antigo testamento (Ex 20.2-3,10), lugar onde se encontrava o altar de ouro. Mais uma vez, vem daquele que reina os juízos sobre os homens. Vem daquele que é santo a disciplina sobre aqueles cujos pecados foram cometidos diária e deliberadamente diante da face de Deus.

Chegou a hora em que Deus soltaria os anjos responsáveis pelo juízo contra a humanidade. Em primeiro lugar, João ouve uma voz que vem do altar, diante da presença de Deus. É esta voz que permite ao sexto anjo tocar a sexta trombeta.⁠1

Ao anjo que tem a sexta trombeta foi ordenado que soltasse os quatro anjos que se encontram atados junto ao grande rio Eufrates. Tanto para judeus quanto para romanos, a figura de exércitos vindo das fronteiras do Eufrates era algo terrível. Não foram poucas as vezes em que os impérios do ocidente foram ameaçados por conta de forças vindas do oriente. Como escreveu Wright, do grande rio Eufrates vinham “seus piores pesadelos militares e políticos”.⁠2

Muitos entendem que esta passagem deve ser vista como a que vem imediatamente antes, ou seja, como uma visão simbólica e não como uma previsão literal de um acontecimento histórico. Esta visão aponta para algo horrível, provavelmente, para um crescimento monstruoso no número de tortura e terror entre os homens.

15       Foram, então, soltos os quatro anjos que se achavam preparados para a hora, o dia, o mês e o ano, para que matassem a terça parte dos homens. 16 O número dos exércitos da cavalaria era de vinte mil vezes dez milhares; eu ouvi o seu número.

17       Assim, nesta visão, contemplei que os cavalos e os seus cavaleiros tinham couraças cor de fogo, de jacinto e de enxofre. A cabeça dos cavalos era como cabeça de leão, e de sua boca saía fogo, fumaça e enxofre.

18       Por meio destes três flagelos, a saber, pelo fogo, pela fumaça e pelo enxofre que saíam da sua boca, foi morta a terça parte dos homens; 19 pois a força dos cavalos estava na sua boca e na sua cauda, porquanto a sua cauda se parecia com serpentes, e tinha cabeça, e com ela causavam dano.

Ao serem soltos os quatro anjos que vêm do Eufrates, têm-se a imagem de algo terrível, de um grande terror que vem sobre a humanidade. O fato de haver uma hora, um dia, um mês e um ano, nos direciona para um período de terror que está preparado para a humanidade. Haverá um período de terror e tortura que fará com que a terça parte da humanidade seja morta.

O número daqueles que se parecem com o exército da cavalaria (de anjos) e que causarão o terror será de 200.000.000 — vinte mil vezes dez milhares. Suas armas de tortura e destruição eram munidas de três elementos: fogo, fumaça e enxofre, os quais saíam da boca destes seres direto sobre aqueles a quem eles desejam ferir. Estas são, verdadeiramente, hostes infernais que saem a ferir o povo sobre a terra.

20       Os outros homens, aqueles que não foram mortos por esses flagelos, não se arrependeram das obras das suas mãos, deixando de adorar os demônios e os ídolos de ouro, de prata, de cobre, de pedra e de pau, que nem podem ver, nem ouvir, nem andar; 21 nem ainda se arrependeram dos seus assassínios, nem das suas feitiçarias, nem da sua prostituição, nem dos seus furtos.

No fim dos tempos será visto um elevado número de ídolos sendo construídos e adorados pelos homens. Impressionantemente, apesar de todos os sinais nos céus e na terra, sinais que apontarão para reprovação de Deus dos atos da humanidade, ainda assim os que sobreviverem ao juízo não se arrependerão de seus pecados e de sua idolatria.

Aqui percebemos que, um dos propósitos da pragas será provocar arrependimento. No entanto, a impressão que se tem é a de que muitos não se arrependerão. Assim como no Egito as pragas foram usadas com o fim de fazer com que os egípcios vissem seu poder e pudessem crer nele, e também fazer com que os israelitas permanecessem fieis e não deixassem de adorar somente ao Deus de Israel (Dt 27-28), estas pragas em Apocalipse buscam trazer os homens à redenção. No entanto, em sua visão João percebe uma contínua recusa e rebelião da humanidade contra Deus.

As obras das suas mãos das quais eles não se arrependeram é uma alusão à idolatria tão mencionada no Antigo Testamento e que parece voltar com grande força no final dos tempos sendo como foi no início entre o povo da aliança. A nota interessante que é feita por João é a associação entre a idolatria e o culto a demônios. Ou seja, se o que for o objeto da adoração de alguém (uma estátua, o dinheiro, uma profissão, uma pessoa, etc.), por trás de toda busca por prazer em algo está uma espécie de culto a demônios, ainda que a pessoa que os adora não o saiba.

A idolatria está associada a quatro coisas: assassinato, feitiçaria, prostituição e furtos. Essas quatro coisas resumem o estilo de vida imoral de alguém que não teme a Deus. É necessário aqui lembrar que, segundo Jesus, o assassinato e a prostituição estão ligados mais à motivação do coração e alma de alguém do que o ato concluído na prática. Assim também, o furto traz por detrás de si o pecado da cobiça — logo, a cobiça já se torna furto aos olhos de Deus. Assim também toda rebeldia caracteriza-se em feitiçaria aos olhos de Deus.

Sobre todas as esferas do pecado, Deus trará juízo e condenação. No entanto, lembre-se de que houve alguém que suportou ira pior do que esta que será derramada sobre uma parte da humanidade. A ira que foi derramada sobre a pessoa de Jesus Cristo continha a maldição de todos nós. Porque ele sofreu e foi culpado em nosso lugar é que Deus nos livrará do sofrimento futuro a devida punição pelos crimes que a humanidade cometeu. Toda lei de Deus que foi quebrada será levada em conta. Somente aqueles a quem Cristo substituiu naquela cruz serão livrados da condenação futura.

O Evangelho nos ensina exatamente isso. Se não sofreremos com o restante do mundo, é por causa da bondade Deus que nos conduziu a Cristo, o qual já sofreu em nosso lugar.

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1 Robert James Utley, Hope in Hard Times – The Final Curtain: Revelation, vol. Volume 12, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 2001), 74.

2 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 90.

AQUELE QUE É MAIOR DO QUE TODOS OS MONSTROS E DEMÔNIOS (Comentário de Ap 9.1-12)

O primeiro dos três Ais! é explicado no tocar da quinta trombeta. No final do capítulo anterior, três ais são anunciados. Aqui, o primeiro mostra sua face monstruosa.

O quinto anjo tocou a trombeta, e vi uma estrela caída do céu na terra. E foi-lhe dada a chave do poço do abismo.

Ela abriu o poço do abismo, e subiu fumaça do poço como fumaça de grande fornalha, e, com a fumaceira saída do poço, escureceu-se o sol e o ar.

Também da fumaça saíram gafanhotos para a terra; e foi-lhes dado poder como o que têm os escorpiões da terra, e foi-lhes dito que não causassem dano à erva da terra, nem a qualquer coisa verde, nem a árvore alguma e tão-somente aos homens que não têm o selo de Deus sobre a fronte.

Foi-lhes também dado, não que os matassem, e sim que os atormentassem durante cinco meses. E o seu tormento era como tormento de escorpião quando fere alguém.

Naqueles dias, os homens buscarão a morte e não a acharão; também terão ardente desejo de morrer, mas a morte fugirá deles.

O aspecto dos gafanhotos era semelhante a cavalos preparados para a peleja; na sua cabeça havia como que coroas parecendo de ouro; e o seu rosto era como rosto de homem; tinham também cabelos, como cabelos de mulher; os seus dentes, como dentes de leão; tinham couraças, como couraças de ferro; o barulho que as suas asas faziam era como o barulho de carros de muitos cavalos, quando correm à peleja; tinham ainda cauda, como escorpiões, e ferrão; na cauda tinham poder para causar dano aos homens, por cinco meses; e tinham sobre eles, como seu rei, o anjo do abismo, cujo nome em hebraico é Abadom, e em grego, Apoliom.

O primeiro ai passou. Eis que, depois destas coisas, vêm ainda dois ais.

Ap 9.1–12

O imagem que João passa a ter a partir de agora é monstruosa, digna dos piores filmes de terror. O tocar da quinta trombeta dá início a uma visão que envolve, provavelmente, um demônio.⁠1

9.1       O quinto anjo tocou a trombeta, e vi uma estrela caída do céu na terra. E foi-lhe dada a chave do poço do abismo. 2 Ela abriu o poço do abismo, e subiu fumaça do poço como fumaça de grande fornalha, e, com a fumaceira saída do poço, escureceu-se o sol e o ar. 

A associação desta estrela caída do céu com demônio tem sido feita ao longo da história. No verso 9, lemos que, após o toque da quinta trombeta, uma estrela caída do céu é vista na terra. João não vê a estrela caindo, mas a estrela que já caiu. E esta estrela abre a chave do poço do abismo. Aqui, mais uma vez, temos de ter cuidado para não interpretar literalmente o que foi escrito de forma simbólica.

Aparentemente, existe uma associação entre alguém que antes foi um ministro de Cristo, mas que, agora, parece ser um ministro do diabo e que parece usar poderes do inferno contra as igrejas de Cristo.⁠2

O que a quinta trombeta faz é dar início à ação desta estrela caída, talvez associada à estrela de Is 14.12 e Lc 10.18. Obviamente, esta é uma ação maligna e de terror. O terror toma seu lugar quando, ao abrir o poço do abismo, some-se a luz do sol e o ar. Assim como os buracos negros na astrofísica moderna os quais são uma espécie de antimatéria que promove destruição e caos, a abertura desse poço parece produzir efeitos semelhantes.⁠3

3 Também da fumaça saíram gafanhotos para a terra; e foi-lhes dado poder como o que têm os escorpiões da terra, 4 e foi-lhes dito que não causassem dano à erva da terra, nem a qualquer coisa verde, nem a árvore alguma e tão-somente aos homens que não têm o selo de Deus sobre a fronte. 

A ideia aqui é trazer à mente a oitava praga no Egito (Ex 10.14-15). Este gafanhotos com poder de escorpiões são a figura do que João vê quando assiste o sofrimento e dor daqueles que não possuem o selo de Deus em sua fronte. Curiosamente, o veneno do escorpião, símbolo do poder e ação do Maligno entre os homens, não traria morte aos homens, mas apenas desespero e muita dor.⁠4

5 Foi-lhes também dado, não que os matassem, e sim que os atormentassem durante cinco meses. E o seu tormento era como tormento de escorpião quando fere alguém. 

Aqui fica claro o tormento pelo qual passarão todos que não possuírem o selo de Deus. Os cinco meses que serão o tempo em que o tormento durará aponta tão somente para o período em que este sofrimento durará. Ele terá um fim, embora para quem sofre parecer uma eternidade.

O texto bíblico tem como objetivo demonstrar que Deus é soberano sobre todos esses eventos. Deus-Pai e o Cordeiro possuem a soberania, ainda que o mal parece finalmente ter conquistado a primazia sobre a terra. O que vemos aqui é que, antes que o mal seja final e totalmente destruído, que ele chegará a um nível elevado, como nunca antes na história da humanidade.

6       Naqueles dias, os homens buscarão a morte e não a acharão; também terão ardente desejo de morrer, mas a morte fugirá deles.

Embora queiram fugir do tormento e da dor, não serão capazes. Haverá uma espécie de consequência terrena pelos pecados, a despeito das consequências eternas.

7       O aspecto dos gafanhotos era semelhante a cavalos preparados para a peleja; na sua cabeça havia como que coroas parecendo de ouro; e o seu rosto era como rosto de homem; 8 tinham também cabelos, como cabelos de mulher; os seus dentes, como dentes de leão; 9 tinham couraças, como couraças de ferro; o barulho que as suas asas faziam era como o barulho de carros de muitos cavalos, quando correm à peleja; 10 tinham ainda cauda, como escorpiões, e ferrão; na cauda tinham poder para causar dano aos homens, por cinco meses; 11 e tinham sobre eles, como seu rei, o anjo do abismo, cujo nome em hebraico é Abadom, e em grego, Apoliom.

Agora, a imagem dos gafanhotos que causavam dor como escorpiões é atualizada para animais bem maiores e preparados para outros tipos de batalha. Agora, os gafanhotos se parecem com cavalos de guerra.  E não somente isso, mas os gafanhotos que agora se parecem cavalos possuem algo semelhante a uma coroa de ouro em sua cabeça, na qual o rosto parece com o rosto de um homem. Mais uma vez, linguagem simbólica deve ser interpretada simbolicamente, não devendo ninguém esperar que tais criaturas apareçam voando ao olhar pela janela.

Estes gafanhotos/cavalos com rosto de homem possuíam cabelo comprido, como cabelos de mulher, e dentes como o de leão. É aqui que o terror começa, pois aquilo que João havia visto no início vai se transformando em uma criatura monstruosa e amedrontadora.

De repente, a imagem do monstro (de longe lembra um gafanhoto) recebe uma couraça de ferro, como a dos guerreiros da Idade Média, principalmente, a usada pelos reis e generais. As asas desses gafanhotos criavam um barulho tão alto que parecia com o barulho de muitos carros de cavalos em guerra. E, na cauda desses gafanhotos, ia um ferrão de escorpião.

A imagem, para muitos, sugere os atuais helicópteros, modificados em helicópteros de guerra, superpotentes. Seja a imagem dos atuais helicópteros, seja a representação do poder do mal que vem do alto e se espalha em destruição, o fato é que os primeiros leitores compreenderam que haveria um momento de desolação que se espalharia sobre a humanidade. Todo o sofrimento dura por outros cinco meses, e terá um fim.

No verso 11, conhecemos o rei de todos esses agentes do mal, um anjo do abismo, provavelmente o abismo aberto no início do capítulo 9. O nome desse líder da maldade é dado tanto em grego quanto em hebraico: Apoliom e Abadon. Apoliom, em grego, significa “destruidor”. Abadon, em hebraico, “o lugar da destruição”. Isso indica o poder de destruir a criação, o poder antimatéria. Assim, a missão desses seres da destruição não é simplesmente dar fim à humanidade, mas torturar os povos enquanto estes desejam a morte sem, no entanto, alcançá-la.

12       O primeiro ai passou. Eis que, depois destas coisas, vêm ainda dois ais.

Assim como temos nas pragas do Egito, devemos encarar estas pragas como uma forma de sinais chamando o povo ao arrependimento e à mudança de mente e atitude. Ao passar o primeiro Ai! dos três que vimos no final do capítulo 8 é explicado. Ainda outros dois virão. E o que percebemos é que, a despeito de toda a disciplina do Senhor, o coração dessas pessoas permanece duro, cada vez mais distantes do Senhor. Seus corações endurecidos são a razão do juízo que virá em breve.

De um certo modo, os anjos caídos já agem em nosso meio há milênios com a força de um monstro destruidor. Sem dúvida, os leitores de João acreditavam que Apoliom e Abadon já existiam e agiam em seu tempo. Muitos entendiam os imperadores Nero e Domiciano como representações dos poderes do mal devido a toda maldade infringida sobre o povo de Deus em seu tempo.

Seja quem for a figura ou figuras que esses símbolos representam, o que o texto deseja nos comunicar não é sobre quem realiza o mal, mas sobre aquele que tem seus olhos sobre todo o mal e há de vencê-lo completamente no final da história. Aqui, o mal é visto sob outra perspectiva. E, mais uma vez, a soberania do Cordeiro está presente, sobre todo o mal e sobre todo aquele que sofre por causa desse mal. Sejam quais forem os monstros ou os males que saírem ou sairão do abismo, Jesus Cristo vencerá sobre todos!

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1 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 86.

2 Matthew Henry e Thomas Scott, Matthew Henry’s Concise Commentary on the Bible (Sociedade Bíblica do Brasil, 1939), Ap 9.1.

3 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 86.

4 Marvin Richardson Vincent, Word studies in the New Testament, vol. 2 (New York: Charles Scribner’s Sons, 1887), 508.

PROMESSAS DE UMA LIBERTAÇÃO FINAL (Comentário de Ap 8.6-13)

Com o início do toque das trombetas, uma outra visão é recebida sobre o julgamento do mal e de pessoas que trouxeram o mal para dentro do povo de Deus, para o ambiente em que esse mal floresceu e apodreceu.

Mais uma vez, o que se percebe é o zelo em comunicar que o Senhor está atento a tudo que acontece na terra e, em especial, com o seu povo. Por mais que o mal presente entre o povo parece indicar a ausência de Deus, ele continua presente na vida dos seus e atento ao que se passa na vida dos que não são seus. Como diz o Salmo 1:

Salmo 1.6: Pois o Senhor conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá.

Esta passagem é claramente uma demonstração do conhecimento e controle do Senhor sobre os caminhos que os seres humanos traçam em suas histórias.

Então, os sete anjos que tinham as sete trombetas prepararam-se para tocar. O primeiro anjo tocou a trombeta, e houve saraiva e fogo de mistura com sangue, e foram atirados à terra. Foi, então, queimada a terça parte da terra, e das árvores, e também toda erva verde.

O segundo anjo tocou a trombeta, e uma como que grande montanha ardendo em chamas foi atirada ao mar, cuja terça parte se tornou em sangue, e morreu a terça parte da criação que tinha vida, existente no mar, e foi destruída a terça parte das embarcações.

O terceiro anjo tocou a trombeta, e caiu do céu sobre a terça parte dos rios, e sobre as fontes das águas uma grande estrela, ardendo como tocha. O nome da estrela é Absinto; e a terça parte das águas se tornou em absinto, e muitos dos homens morreram por causa dessas águas, porque se tornaram amargosas.

O quarto anjo tocou a trombeta, e foi ferida a terça parte do sol, da lua e das estrelas, para que a terça parte deles escurecesse e, na sua terça parte, não brilhasse, tanto o dia como também a noite. Então, vi e ouvi uma águia que, voando pelo meio do céu, dizia em grande voz: Ai! Ai! Ai dos que moram na terra, por causa das restantes vozes da trombeta dos três anjos que ainda têm de tocar!

Ap 8.6–13

Algo muito parecido com o que aconteceu no Egito é narrado e escrito por João.  Dez pragas afligiram os egípcios após 400 anos de escravidão do povo israelita. Todas as pragas serviram como advertência aos egípcios sobre o poder do Deus de Israel. As pragas que João visualiza agora, em Apocalipse, leva seus leitores à pensarem nas pragas do Egito e assegurar de que, após aquele momento de perseguição e sofrimento, o mesmo resultado seria visto por todo o povo — libertação.⁠1

6       Então, os sete anjos que tinham as sete trombetas prepararam-se para tocar.

    

O texto se apresenta com os sete anjos preparando-se para tocar suas trombetas. Após o momento de preparação, ouve-se o primeiro toque.

7       O primeiro anjo tocou a trombeta, e houve saraiva e fogo de mistura com sangue, e foram atirados à terra. Foi, então, queimada a terça parte da terra, e das árvores, e também toda erva verde.

     

O texto diz que houve saraiva e fogo de mistura com sangue (embora, originalmente, se diga em sangue).

Desde o início, uma interpretação que se deu a esta passagem (que, hoje, encontra outras interpretações) era a de que uma tempestade de heresias cairia sobre os povos. Uma mistura de erros terríveis, espantosos, cairiam sobre a igreja, algo que trouxesse uma tempestade de destruição dentro dela.⁠2 Aparentemente, um terço da terra atingida por essa tempestade será destruída.

No entanto, outras interpretações têm traçado linhas mais literais para este evento. Nessa linha interpretativa, a terra será atingida de modo devastador, como nunca antes em sua história.⁠3 Nem todos os bombeiros do mundo serão capazes de apagar os incêndios causados pelo o que será atirado sobre a terra.⁠4

8       O segundo anjo tocou a trombeta, e uma como que grande montanha ardendo em chamas foi atirada ao mar, cuja terça parte se tornou em sangue, 9 e morreu a terça parte da criação que tinha vida, existente no mar, e foi destruída a terça parte das embarcações.

Ao toque do segundo anjo, algo pior acontece. Algo como uma grande montanha ardendo em chamas é lançada sobre o mar. O resultado é a morte de um terço de tudo que existe no mar, não apenas seres vivos, mas também um terço das embarcações.

Além da interpretação que considera isso literal, algo como um meteoro caindo sobre o mar causando gigantesca destruição, há os que consideram esta montanha como os líderes que realizam as perseguições. Outros, na antiguidade, chegaram a interpretar essa passagem com os Godos e Vândalos invadindo e saqueando Roma com muita crueldade.⁠5

A imagem de uma montanha ou uma grande estrela caindo sobre o mar sempre esteve presente no imaginário popular israelita. Jesus a usa em um exemplo em Mc 11.23. Isaías a usa em Is 14.12 quando trata de um anjo caindo do céu. Cada um deles usou a figura com um propósito diferente e enfatizando coisas distintas.

Ao usá-la, João, possivelmente continue a traçar paralelos entre o poder de Deus que guiou as pragas no Egito com o mesmo poder que guiará a igreja em meio aos eventos finais da presente era. Quando lemos que um terço do mar se tornou como em sangue, imediatamente ligamos essa imagem à do Êxodo. Com a destruição das embarcações, provavelmente, algo relacionado ao comércio esteja sendo sinalizado para nós.

10       O terceiro anjo tocou a trombeta, e caiu do céu sobre a terça parte dos rios, e sobre as fontes das águas uma grande estrela, ardendo como tocha. 11 O nome da estrela é Absinto; e a terça parte das águas se tornou em absinto, e muitos dos homens morreram por causa dessas águas, porque se tornaram amargosas.

Piorando o quadro apresentado, o terceiro anjo toca sua trombeta e lemos de uma grande estrela caindo do céu, ardendo como tocha. Alguns compreenderam esta passagem como a queda de um eminente governador, enquanto que, outros, a interpretaram como um pessoa investida de grande poder que corrompeu as igrejas de Cristo.

Após a grande tempestade de erros derramada sobre o povo de Deus, a queda de um servo de Deus muito conhecido geraria uma espécie de ruína no local onde, antes, pessoas encontravam alento.⁠6

Algo novo e interessante acontece nesta passagem. O nome da estrela que caiu é dado — Absinto. No A.T., este nome sempre esteve associado à idolatria (veja Dt 29.17-18 onde absinto está associado a algo venenoso e amargo, tal como a idolatria em Israel). Possivelmente, tenhamos aqui alguém ligado à religião, mas que ocupava um lugar de adoração, de idolatria. Com sua queda, muitos “caíram” também.

12       O quarto anjo tocou a trombeta, e foi ferida a terça parte do sol, da lua e das estrelas, para que a terça parte deles escurecesse e, na sua terça parte, não brilhasse, tanto o dia como também a noite.

Quando o quarto anjo tocou a trombeta, sol, lua e estrelas novamente são feridos. A escuridão agora cai sobre os grandes luzeiros do céu — pelo menos, como são conhecidos na Bíblia. Os astros que produzem luz no mundo perdem sua força. Muitos aqui têm considerado outros governadores e presidentes, pessoas de grande importância mundial, pessoas que influenciam a outras, tal como o sol influencia com sua luz e calor.

Com a destruição dessas vidas, dessas influencias, destrói-se também a esperança dos homens que depositavam nestas figuras sua vida e esperança.

13       Então, vi e ouvi uma águia que, voando pelo meio do céu, dizia em grande voz: Ai! Ai! Ai dos que moram na terra, por causa das restantes vozes da trombeta dos três anjos que ainda têm de tocar!

Algumas versões mais antigas, como a versão inglesa King James Version, trazem a palavra anjo ao invés da palavra águia. No entanto, tanto o manuscrito Sinaiticus (א) quanto o Alexandrinus (A) trazem a palavra águia. Daí a maioria das versões permanecerem com águia.

A águia é um símbolo de vingança em alguns trechos do A.T.:

Deuteronômio 28.49: O SENHOR levantará contra ti uma nação de longe, da extremidade da terra virá, como o vôo impetuoso da águia, nação cuja língua não entenderás;

Hosea 8.1: Emboca a trombeta! Ele vem como a águia contra a casa do SENHOR, porque transgrediram a minha aliança e se rebelaram contra a minha lei.

Habacuque 1.8: Os seus cavalos são mais ligeiros do que os leopardos, mais ferozes do que os lobos ao anoitecer são os seus cavaleiros que se espalham por toda parte; sim, os seus cavaleiros chegam de longe, voam como águia que se precipita a devorar.

Provavelmente, seja isso que os primeiros leitores estariam a entender. Uma águia estaria trazendo a vingança da parte do Senhor.⁠7

O grito de Ai!Ai! Ai!, provavelmente estejam associadas às três últimas trombetas que estão por vir, bem como podem se tratar de um símbolo da intensidade da dor que virá (tal como é intensificada a santidade na expressão Santo, Santo, Santo. Segundo Dr. Utley, um Ai! no A.T. marca o início de um certo lamento poético relacionado à morte e julgamento.⁠8

Assim, em meio a sinais no céu e na terra, Deus libertará definitivamente o seu povo no final dos tempos. Assim como sinais no céu e na terra acompanharam a libertação do povo no Egito, sinais também acompanhar a redenção final do povo de Deus na história.

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1 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 82.

2 Matthew Henry e Thomas Scott, Matthew Henry’s Concise Commentary on the Bible (Sociedade Bíblica do Brasil, 1939), Ap 8.7.

3 Grant R. Osborne. Apocalipse: comentário exegético. São Paulo: Vida Nova, 2014, p. 392.

4 Robert James Utley, Hope in Hard Times – The Final Curtain: Revelation, vol. Volume 12, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 2001), 71–72.

5 Matthew Henry e Thomas Scott, Matthew Henry’s Concise Commentary on the Bible (Sociedade Bíblica do Brasil, 1939), Ap 8.7.

6 Matthew Henry e Thomas Scott, Matthew Henry’s Concise Commentary on the Bible (Sociedade Bíblica do Brasil, 1939), Ap 8.7.

7 Marvin Richardson Vincent, Word studies in the New Testament, vol. 2 (New York: Charles Scribner’s Sons, 1887), 507.

8 Robert James Utley, Hope in Hard Times – The Final Curtain: Revelation, vol. Volume 12, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 2001), 73.

UM PAI QUE SE LEVANTA POR SEUS FILHOS (Comentário de Ap 8.1-5)

Com a abertura do último selo, vemos o início de uma nova etapa, novas revelações sobre o fim, sobre o que acontecerá àqueles que, ontem, hoje e amanhã, têm feito tanto mal ao povo de Deus.

Quando o Cordeiro abriu o sétimo selo, houve silêncio no céu cerca de meia hora.

Então, vi os sete anjos que se acham em pé diante de Deus, e lhes foram dadas sete trombetas.

Veio outro anjo e ficou de pé junto ao altar, com um incensário de ouro, e foi-lhe dado muito incenso para oferecê-lo com as orações de todos os santos sobre o altar de ouro que se acha diante do trono; e da mão do anjo subiu à presença de Deus a fumaça do incenso, com as orações dos santos.

E o anjo tomou o incensário, encheu-o do fogo do altar e o atirou à terra. E houve trovões, vozes, relâmpagos e terremoto.

Ap 8.1–5

Embora o texto esteja a falar de coisas distintas, há algo em comum na passagem. Deus está a ouvir a oração que todos os que sofrem lhe fazem e demonstra que, em breve, virá ele mesmo par responder a tais orações. Vejamos.

8.1       Quando o Cordeiro abriu o sétimo selo, houve silêncio no céu cerca de meia hora.

Há várias possibilidades para estes trinta minutos de silêncio no céu. A despeito de todo absurdo que é dito sobre esta meia hora, o fato é que o silêncio se deu após o Cordeiro abrir o sétimo selo.

No momento imediatamente anterior, ouvia-se um grito de alegria no céu, contrastando com o que agora há. Depois de muito barulho, silêncio. Por um lado, nos parece uma introdução aos acontecimentos que darão início ao eterno Sabbath de descanso do povo de Deus.⁠1

Jesus é quem pode abrir o último selo. A partir desse momento, um novo cenário se abre dando início a um novo momento de revelações. Estas novas revelações dão lugar ao silêncio. Todos aparentemente estão em silêncio, como uma espécie de expectativa pelo que virá após a abertura do último selo, ou como uma forma de reverência gigantesca diante do Cordeiro apresentado os últimos eventos relacionados a destruição do mal.⁠2

2       Então, vi os sete anjos que se acham em pé diante de Deus, e lhes foram dadas sete trombetas.

Aqui começam os eventos relacionados às trombetas. O último selo dá origem a uma nova série de revelações que se desenrolarão à medida em que as sete trombetas forem tocadas pelos sete anjos que as receberam.

Todos estes anjos, em pé diante de Deus, simbolizam a plena obediência desses espíritos ministradores à Palavra de Deus. O tocar das trombetas no Antigo Testamento estava relacionado com juízo, perturbação, aflições:

Joel 2.1: Tocai a trombeta em Sião e dai voz de rebate no meu santo monte; perturbem-se todos os moradores da terra, porque o Dia do SENHOR vem, já está próximo;

Sofonias 1.16: dia de trombeta e de rebate contra as cidades fortes e contra as torres altas.

Zacarias 9.14: O SENHOR será visto sobre os filhos de Sião, e as suas flechas sairão como o relâmpago; o SENHOR Deus fará soar a trombeta e irá com os redemoinhos do Sul.

Já no Novo Testamento, o tocar de trombetas está relacionado às segunda vinda de nosso Senhor Jesus Cristo:⁠3

Mateus 24.31: E ele enviará os seus anjos, com grande clangor de trombeta, os quais reunirão os seus escolhidos, dos quatro ventos, de uma a outra extremidade dos céus.

1Coríntios 15.52–53: num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta. A trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Porque é necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que o corpo mortal se revista da imortalidade.

1Tessalonicenses 4.16: Porquanto o Senhor mesmo, dada a sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo, e ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro;

3       Veio outro anjo e ficou de pé junto ao altar, com um incensário de ouro, e foi-lhe dado muito incenso para oferecê-lo com as orações de todos os santos sobre o altar de ouro que se acha diante do trono; 4 e da mão do anjo subiu à presença de Deus a fumaça do incenso, com as orações dos santos.

Havia um conceito teológico rabínico que pressupunha que os anjos são os carregadores das orações do povo de Deus. Não confunda isso com intercessão ou mediação dos anjos. Apenas cria-se que eles conduzem as orações até Deus.

A Bíblia, no entanto, não diz absolutamente nada sobre isso, impedindo-nos de interpretar ou aferir juízo sobre esse conceito rabínico. Este símbolo que aqui aparece não pode ser usado para suposições irresponsáveis fruto da criatividade de cada um.

O que João tem aqui é uma visão com símbolos e não uma descrição de fatos ou normas. E, como já dissemos, nessa visão, algo semelhante ao Templo de Jerusalém, já destruído durante o tempo em que este Apocalipse de João foi escrito. Interessante essa associação de um templo celestial no mesmo lugar em que fica a Sala do Trono do Rei dos reis.

O que sabemos dessa visão é que, após ver os sete primeiros anjos com as sete trombetas, aparece outro anjo que aparece junto com as orações de todos os santos sobre o altar que está em frente ao trono. Das mãos desse anjos sobem as orações de todos os santos. Quem são estes “santos”, ou seja, a que grupo se refere, é impossível de se precisar.

Nos parece apenas uma forma de demonstrar aos leitores originais que viviam debaixo de perseguição que o Senhor estava ouvindo a oração de cada um deles, da mesma forma como ouvia as orações de um grupo de israelitas que ainda clamavam a ele no Egito pedindo por libertação. É importante que saibamos também que o incenso é um dos símbolos ligados à oração. Veja:

Salmo 141.2: Suba à tua presença a minha oração, como incenso, e seja o erguer de minhas mãos como oferenda vespertina.

Apocalipse 5.8: e, quando tomou o livro, os quatro seres viventes e os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do Cordeiro, tendo cada um deles uma harpa e taças de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos,

5       E o anjo tomou o incensário, encheu-o do fogo do altar e o atirou à terra. E houve trovões, vozes, relâmpagos e terremoto.

De repente, o incensário que, nos versos anteriores, estavam ligadas às orações dos santos, agora é cheio de fogo do altar e atirado sobre a terra. A impressão que se tem é que o mesmo “objeto” que leva as orações dos santos é usado para trazer a resposta de Deus sobre a terra, e esta resposta vem em forma de trovões, vozes, relâmpagos e terremoto.

Deus está no controle de todos os eventos e é quem está respondendo as orações de seu povo por justiça. O final do versículo é uma forma de dizer que o próprio Deus irá descer sobre a terra para trazer juízo a ela. É como um pré-anúncio do fim, do último juízo. Veja esses textos:

Êx 19.10–11, 16–20 : Disse também o Senhor a Moisés: Vai ao povo e purifica-o hoje e amanhã. Lavem eles as suas vestes e estejam prontos para o terceiro dia; porque no terceiro dia o Senhor, à vista de todo o povo, descerá sobre o monte Sinai. … Ao amanhecer do terceiro dia, houve trovões, e relâmpagos, e uma espessa nuvem sobre o monte, e mui forte clangor de trombeta, de maneira que todo o povo que estava no arraial se estremeceu. E Moisés levou o povo fora do arraial ao encontro de Deus; e puseram-se ao pé do monte. Todo o monte Sinai fumegava, porque o Senhor descera sobre ele em fogo; a sua fumaça subiu como fumaça de uma fornalha, e todo o monte tremia grandemente. E o clangor da trombeta ia aumentando cada vez mais; Moisés falava, e Deus lhe respondia no trovão. Descendo o Senhor para o cimo do monte Sinai, chamou o Senhor a Moisés para o cimo do monte. 

Salmo 18.10–13

Cavalgava um querubim e voou;

    sim, levado velozmente nas asas do vento.

   Das trevas fez um manto em que se ocultou;

    escuridade de águas e espessas nuvens dos céus eram o seu pavilhão.

   Do resplendor que diante dele havia,

    as densas nuvens se desfizeram

    em granizo e brasas chamejantes.

   Trovejou, então, o SENHOR, nos céus;

    o Altíssimo levantou a voz,

    e houve granizo e brasas de fogo.

O próprio Deus é quem desce aqui em Ap 8.5 para responder à oração de seu povo, como um pai que se levanta e vai cuidar da causa de seu filho. Deus, assim, está consolando seu povo de que Ele está no controle e que, logo, virá Ele mesmo e não outro para julgar e responder às orações de seu povo.

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1 Robert Jamieson, A. R. Fausset, e David Brown, Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible, vol. 2 (Oak Harbor, WA: Logos Research Systems, Inc., 1997), 571.

2 Matthew Henry e Thomas Scott, Matthew Henry’s Concise Commentary on the Bible (Sociedade Bíblica do Brasil, 1939), Ap 8.1.

3 Robert James Utley, Hope in Hard Times – The Final Curtain: Revelation, vol. Volume 12, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 2001), 71.

A NOSSA INSEGURANÇA E O PODER DE NOSSO PAI (Comentário de Ap 7.1-8)

Não há nada que traz mais segurança a uma criança indefesa e amedrontada do que e presença da mãe ou do pai. Seja em uma ocasião de apagão, ou de afogamento, ou outra qualquer, a presença do pai traz segurança à criança de que tudo terminará bem.

Deus conhece as suas crianças. Sabe que elas também são frágeis e medrosas diante de eventos que se agigantam diante delas fazendo-as sentir-se pequenas, indefesas e impotentes. É por isso que, muitas vezes, o Senhor usa sua Palavra para assegurar ao seu povo de que ele os vê e os protegerá de todo o mal.

No texto abaixo, sabemos que João está diante do pior dos males que pode assolar a humanidade. Diante da ira do juízo de Deus que virá sobre o mundo, a mensagem do texto objetiva assegurar o seu povo de que ele está no controle e de que nada acontecerá com seus filhos e filhas. Por mais que os problemas venham e cresçam diante dos seus, sua Palavra tem a intensão de assegurar o quanto Deus está atento e de que os protegerá. Vejamos o texto.

Depois disto, vi quatro anjos em pé nos quatro cantos da terra, conservando seguros os quatro ventos da terra, para que nenhum vento soprasse sobre a terra, nem sobre o mar, nem sobre árvore alguma.

Vi outro anjo que subia do nascente do sol, tendo o selo do Deus vivo, e clamou em grande voz aos quatro anjos, aqueles aos quais fora dado fazer dano à terra e ao mar, dizendo: Não danifiqueis nem a terra, nem o mar, nem as árvores, até selarmos na fronte os servos do nosso Deus.

Então, ouvi o número dos que foram selados, que era cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel: da tribo de Judá foram selados doze mil; da tribo de Rúben, doze mil; da tribo de Gade, doze mil; da tribo de Aser, doze mil; da tribo de Naftali, doze mil; da tribo de Manassés, doze mil; da tribo de Simeão, doze mil; da tribo de Levi, doze mil; da tribo de Issacar, doze mil; da tribo de Zebulom, doze mil; da tribo de José, doze mil; da tribo de Benjamim foram selados doze mil.

Ap 7.1–8

Impressionantemente, o capítulo 7 não começa com a abertura do sétimo selo, naturalmente esperado depois de tudo o que foi revelado dos selos 1 a 6. Esperava-se o clímax dessa história, o desfecho final daquilo que já foi anunciado.

No entanto, antes que o ápice dos selos seja alcançado, um suspense é feito, algo que não acontecerá apenas aqui, mas em vários outros lugares de Apocalipse. Assim como as almas debaixo do altar deverão esperar dizendo Até quando?, nós também devemos esperar até o capítulo 8 para compreendermos a abertura do sétimo selo. Há coisas que o Senhor deseja nos revelar antes de anunciar o que acontecerá.

1 Depois disto, vi quatro anjos em pé nos quatro cantos da terra, conservando seguros os quatro ventos da terra, para que nenhum vento soprasse sobre a terra, nem sobre o mar, nem sobre árvore alguma.

Quatro cantos da terra, quatro ventos da terra, quatro anjos em pé. Mais uma vez, figuras simbólicas são empregadas por João. O texto parece muito difícil para o leitor ocidental contemporâneo, distante de todo contexto literário da época de João.

De acordo com Dr. Utley, há muitas interpretações quanto aos quatro ventos.⁠1 Via de regra, têm a ver com o mal e com o julgamento de Deus. Jeremias e Daniel também escreveram sobre isso:

Jeremias 49.36: Trarei sobre Elão os quatro ventos dos quatro ângulos do céu e os espalharei na direção de todos estes ventos; e não haverá país aonde não venham os fugitivos de Elão.

Daniel 7.2: Falou Daniel e disse: Eu estava olhando, durante a minha visão da noite, e eis que os quatro ventos do céu agitavam o mar Grande.

Os quatro cantos da terra estão frequentemente associados ao mundo todo, a uma forma de mencionar a inteireza da planeta. Os quatro anjos em pé provavelmente estejam se referindo ao poder angelical, ou seja, ao poder de Deus através de seus espíritos ministradores em toda a terra. Assim, os quatro ventos provavelmente estejam relacionados ao juízo de Deus que virá pelo exercício de seus anjos em todos os cantos do mundo.

2 Vi outro anjo que subia do nascente do sol, tendo o selo do Deus vivo, e clamou em grande voz aos quatro anjos, aqueles aos quais fora dado fazer dano à terra e ao mar, 3 dizendo: Não danifiqueis nem a terra, nem o mar, nem as árvores, até selarmos na fronte os servos do nosso Deus.

O nascente do sol era um símbolo devida, saúde ou um novo dia, no antigo oriente. O anjo que sobe com esse sol anuncia ao leitor original a chegada da esperança; assim, com o juízo vem a esperança. O selo que o anjo possui nas mãos é o mesmo com o qual selará os servos de Deus mundo afora. Algo semelhante ao que aconteceu no Egito acontecerá com o povo de Deus antes do juízo final de Deus sobre o mundo.

Assim como anjo da morte passou em Êxodo 12 e não tocou no povo de Deus em cujas casas era visto o sangue da Páscoa, no final dos tempos um povo será selado a fim de não sofrer com o restante do mundo durante o julgamento que virá sobre a terra. Esse é o simbolismo que, provavelmente, esteve presente na compreensão dos primeiros leitores dessa carta.

O propósito do símbolo aqui é retratar a segurança do povo de Deus, assegurar que este povo não sofrerá com o restante do mundo quando a ira de Deus for derramada sobre a terra. Isso não significa que o povo de Deus não passará por aflições, mas que, nessas, será sustentado e guardado com a paz que vem de Deus, diferentemente do desespero que tomará conta das mentes e corações dos demais cidadãos.

Pelo o que o texto apresenta, a própria criação sofrerá. A terra, o mar e as árvores serão gravemente danificadas. A própria criação será destruída a fim de ser igualmente purificada e restaurada. O simbolismo por detrás da grande destruição representa o grande chacoalhar pelo qual esse mundo passará antes da segunda vinda de Cristo, como já descrito durante a abertura dos selos.

Como o povo de Deus viverá esta situação de instabilidade e desespero, é necessária a palavra de conforto, afirmando que assim como o povo de Deus foi guardado no Egito, serão novamente guardados durante as “pragas” do fim. Todos serão selados a fim de que os “ministros” executadores do juízo de Deus não os fira juntamente com o mundo.⁠2

4       Então, ouvi o número dos que foram selados, que era cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel: 5 da tribo de Judá foram selados doze mil; da tribo de Rúben, doze mil; da tribo de Gade, doze mil; 6 da tribo de Aser, doze mil; da tribo de Naftali, doze mil; da tribo de Manassés, doze mil; 7 da tribo de Simeão, doze mil; da tribo de Levi, doze mil; da tribo de Issacar, doze mil; 8 da tribo de Zebulom, doze mil; da tribo de José, doze mil; da tribo de Benjamim foram selados doze mil.

A partir daqui, a revelação nos aponta uma realidade através de duas formas. A primeira delas é através do simbolismo presente na figura dos 144.000 selados durante o tempo do fim.

Vimos nos versos anteriores que um anjo subiu com o selo de Deus para selar seu povo para que este não seja destruído e julgado junto do restante do mundo. Aqui, a partir do verso 4, João ouve o número de pessoas que seriam seladas. E, mais interessante ainda, de onde são essas pessoas.

Os 144.000 são divididos em 12.000 de cada tribo de Israel. O ponto é que, para o leitor mais atento, a lista de tribos de Israel é bastante diferente das demais listas conhecidas no Antigo e Novo Testamentos.

Quando o leitor original leu pela primeira vez, principalmente se era judeu (ou conhecia o Antigo Testamento), imediatamente percebeu a inclusão da tribo de Levi aqui, algo incomum no Antigo Testamento, além da omissão de Dã e Efraim. Outra diferença é a colocação de Judá no topo da lista, sendo que o primogênito é Ruben. Wright sugere que Judá é posto no topo da lista por indicar que esta lista diga respeito a todo o povo de Deus, incluindo os regenerados pelo Messias, o leão de Judá. A explicação que Wright encontrou para a inclusão de Manassés, um dos filhos de José, foi preencher o número 12, uma vez que Dã tenha sido retirado, provavelmente, por ser uma tribo da qual, na tradição judaica, cria-se que o “antimessias” viria.⁠3

Assim, a lista aqui encontrada não se encaixa em nenhuma das mais de vinte listas encontradas no Antigo Testamento. Qualquer judeu entenderia que esta lista é simbólica e que não poderia ser tomada como literal, por encontrar-se irregular. Sendo irregular, deveria ser toma simbolicamente.⁠4

Esse número é simbólico, como quase tudo dentro da literatura apocalíptica o é. Tanto é que, no verso 9, o número dos que João vê não é mais limitado aos 144.000, mas sim uma grande e incontável multidão. Provavelmente, é isso que 144.000 queiram representar.

Na cultura judaica, o número doze também era usado para simbolizar inteireza. E não só na cultura judaica, mas muitos outros povos têm no doze o símbolo de um ciclo completo e perfeito. Assim, conhecemos os 12 meses do ano, os 12 signos do Zodíaco, os 12 filhos de Jacó formando as 12 tribos de Israel, as 12 colunas no altar (Ex 24.4), os 12 espias enviados a Canaã (Nm 13), os 12 intendentes de Salomão sobre a nação de Israel (1Rs 4.7), as 12 pedras com as quais Elias erigiu um altar ao Senhor (1Rs 18.31), os 12 apóstolos escolhidos por Cristo, dentre tantas outras.

Aqui em Ap 7, os 12.000 de cada uma das 12 tribos mencionadas simbolizam a inteireza do povo de Deus sobre a terra. Multiplicando 12 por 12.000, chega-se aos 144.000. Todo o povo de Deus passará ileso pelo juízo que virá sobre o mundo.

Assim, o povo de Deus é redefinido com o povo do leão de Judá. Este povo será marcado e todos os eventos que serão, sem dúvida, catastróficos e desesperadores para o restante da humanidade, acontecerão sem atingir o povo de Deus sobre a terra. O povo de Deus é assegurado aqui de que poderá descansar em segurança de que o Senhor seu Deus os manterá debaixo do seu cuidado. Nunca fará tanto sentido o Salmo 91.7:

Caiam mil ao teu lado,

e dez mil, à tua direita;

tu não serás atingido.

Sl 91.7

________________

 

1 Robert James Utley, Hope in Hard Times – The Final Curtain: Revelation, vol. Volume 12, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 2001), 64.

2 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 70.

3 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 71.

4 Robert James Utley, Hope in Hard Times – The Final Curtain: Revelation, vol. Volume 12, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 2001), 66.

RAZÕES PARA O FIM DO MUNDO (Comentário de Ap 6.1-8)

A abertura dos selos revela um de alguns pontos de vista que o Senhor nos dá sobre o fim. Todos estão intimamente ligados uns aos outros, e sem compreendê-los não faz sentido a vitória do Cordeiro. A abertura dos selos dão sentido à final vitória do Cordeiro de Deus. Vejamos, então.

Vi quando o Cordeiro abriu um dos sete selos e ouvi um dos quatro seres viventes dizendo, como se fosse voz de trovão: Vem!

Vi, então, e eis um cavalo branco e o seu cavaleiro com um arco; e foi-lhe dada uma coroa; e ele saiu vencendo e para vencer.

Quando abriu o segundo selo, ouvi o segundo ser vivente dizendo: Vem! E saiu outro cavalo, vermelho; e ao seu cavaleiro, foi-lhe dado tirar a paz da terra para que os homens se matassem uns aos outros; também lhe foi dada uma grande espada.

Quando abriu o terceiro selo, ouvi o terceiro ser vivente dizendo: Vem! Então, vi, e eis um cavalo preto e o seu cavaleiro com uma balança na mão.

E ouvi uma como que voz no meio dos quatro seres viventes dizendo: Uma medida de trigo por um denário; três medidas de cevada por um denário; e não danifiques o azeite e o vinho.

Quando o Cordeiro abriu o quarto selo, ouvi a voz do quarto ser vivente dizendo: Vem!E olhei, e eis um cavalo amarelo e o seu cavaleiro, sendo este chamado Morte; e o Inferno o estava seguindo, e foi-lhes dada autoridade sobre a quarta parte da terra para matar à espada, pela fome, com a mortandade e por meio das feras da terra.

Ap 6.1–8

Aqui começa uma fascinante forma de Deus nos mostrar o futuro (misturado com o presente, conforme veremos). Vejamos os primeiros versos.

6.1 Vi quando o Cordeiro abriu um dos sete selos e ouvi um dos quatro seres viventes dizendo, como se fosse voz de trovão: Vem!

2 Vi, então, e eis um cavalo branco e o seu cavaleiro com um arco; e foi-lhe dada uma coroa; e ele saiu vencendo e para vencer.

     

Não podemos olhar para essa passagem sem olharmos para todas as anteriores. O aparecimento dos cavalos e seus cavaleiros só tomam parte da história após o Cordeiro tomar o livro e passar a abrir os selos. E, a menos que os cavalos e seus cavaleiros venham e façam o que têm de fazer, o livro não pode continuar a ser lido e compreendido.

A vitória do Cordeiro de Deus só fará sentido no final da história humana graças ao que é revelado sobre estes cavaleiros. Suas ações serão completamente destruídas pela obra do Cordeiro. As coisas com as quais o Cordeiro lidará e que estão ligadas à sua vitória final têm a ver com esses cavaleiros e carecem de sua aparição a fim de que a vitória do Cordeiro faça sentido e seja completa.

Quando o Cordeiro toma o livro e passa a abrir os selos, não encontramos a vitória sobre o mal logo de início. Antes, vemos os quatro seres viventes chamando, após o Cordeiro abrir os selos, quatro seres que, depois, aparecem como cavalos e cavaleiros.⁠1

O primeiro deles, após o primeiro ser vivente dizer Vem!, aparece sobre um cavalo branco e possui um arco, uma coroa, e sai vencendo e para vencer. Cavalos brancos normalmente estão associados à vitoriosos na cultura antiga. Principalmente, quando sobre este bem alguém triunfantemente segurando seu arco e sua coroa.

Muitos atribuem este papel ao Messias, ao Senhor Jesus, ligando este texto ao de Ap 19.11, onde Jesus aparece sobre um cavalo branco. É possível que haja alguma relação entre os textos, no entanto, olhando para o contexto imediato dentro do qual ele se apresenta, acredito que este cavaleiro esteja representado um grupo de pessoas.

Compreendo, como N.T.Wright, que esta passagem esteja falando dos reis conquistadores da terra, dos homens poderosos que subjugam povos e dominam sobre estes. Estes são aqueles que, ao dominarem os povos, exigem o reconhecimento de sua soberania sobre eles. A consequência sobre tal opressão sobre a terra e sobre o povo de Deus (que aparecerá no quinto selo) é que o mal correrá solto sobre os povos. Ou seja, debaixo de um império iníquo que se coloca no lugar de Deus, o mal acaba destruindo vidas.⁠2

Para que o Cordeiro revele sua vitória sobre o mal, é necessário que se desate este primeiro selo a fim de que o governo mal tome seu lugar sobre a humanidade.  Compreendendo assim o primeiro cavalo, fica compreensível os demais que surgem abaixo.

3       Quando abriu o segundo selo, ouvi o segundo ser vivente dizendo: Vem!

4       E saiu outro cavalo, vermelho; e ao seu cavaleiro, foi-lhe dado tirar a paz da terra para que os homens se matassem uns aos outros; também lhe foi dada uma grande espada.

     

Assim como ocorre no primeiro selo, após o segundo ser aberto, outro ser vivente chama Vem!, diante do que aparece outro cavalo, agora vermelho, e seu cavaleiro. Este recebe o poder de tirar a paz da terra e fazer com que os homens se matem uns aos outros.

Seguindo a linha de raciocínio dos versos 1 e 2, após a conquista realizada pelos poderosos, os quais sempre existiram e sempre existirão, sempre vem a guerra, a destruição. Com a humilhação da raça humana, não há paz. Esta lhe é tirada. E, quando não há paz, os homens passam a se matar uns aos outros. É necessário que isso aconteça e apareça logo no início da revelação a fim de que a vitória do Cordeiro faça sentido sobre todo esse mal.

Assim, o cavalo vermelho representa a consequência da invasão dos povos, da conquista dos poderosos: a falta de paz e a mortandade.

5       Quando abriu o terceiro selo, ouvi o terceiro ser vivente dizendo: Vem! Então, vi, e eis um cavalo preto e o seu cavaleiro com uma balança na mão.

6       E ouvi uma como que voz no meio dos quatro seres viventes dizendo: Uma medida de trigo por um denário; três medidas de cevada por um denário; e não danifiques o azeite e o vinho.

     

Ao chamado do terceiro ser vivente — Vem! —, um cavalo preto surge e, sobre ele, alguém com uma balança na mão. Do meio dos quatro seres viventes, um voz apareceu com palavras que, para João (bem como para os leitores de sua época) simbolizavam problemas econômicos seríssimos.

Uma medida de trigo por um denário; três medidas de cevada por um denário, representa um valor altíssimo no mercado, consequência de provável escassez do referido alimento.

Não danifiques o azeite e o vinho, simbolizam provável dificuldade de produção, bem como dificuldade na aquisição dos referidos alimentos.

Tais problemas econômicos sempre estiveram na esteira da violência entre as nações. Sempre que uma nação se levanta contra outra em guerra, ou sempre que homens poderosos subjugam povos com violência que conduz à guerra, consequentemente aparecem problemas econômicos sobre os homens.

Se continuarmos na linha de raciocínio do texto, o que Jesus está apresentando com essas verdades é que sempre que alguém desejou soberania entre os homens, isso resultou em guerra; e, sempre que a guerra veio, problemas econômicos a acompanharam. Jesus está descrevendo com a abertura dos selos o que sempre tem acontecido na história da humanidade.

7       Quando o Cordeiro abriu o quarto selo, ouvi a voz do quarto ser vivente dizendo: Vem!

8       E olhei, e eis um cavalo amarelo e o seu cavaleiro, sendo este chamado Morte; e o Inferno o estava seguindo, e foi-lhes dada autoridade sobre a quarta parte da terra para matar à espada, pela fome, com a mortandade e por meio das feras da terra.

Continuando o chamado, o quarto ser vivente chama o quarto cavalo na fila. Sobre este, um cavalo amarelo, vem o cavaleiro cujo nome é Morte. Curiosamente, atrás desse cavaleiro surge alguém o seguinte do perto. Esse “alguém” chama-se Inferno.

Como já dissemos, esses cavalos e cavaleiros não são personagens reais, mas figuras e símbolos que representam fatos reais. João e seus leitores não esperavam ver tais figuras cavalgando ao olharem pela janela ou ao caminharem na rua. Todos compreenderam como figuras que representam fatos na história, tanto passada quanto futura.

Assim, a Morte e o Inferno são as consequências naturais dentro da linha de raciocínio de Ap 6. A última consequência após tudo o que aconteceu até aqui é o Inferno. E, em todos os séculos, podemos encontrar tiranos, guerras, problemas econômicos e, a consequência final sobre tudo isso, a morte e o inferno.

É importante que estes selos sejam abertos e tudo isso aconteça antes que venha a grande vitória do Cordeiro sobre todo o mal que assola a humanidade. O mal será vencido. Tudo o que vemos nos noticiários diariamente terá um fim. O mal existe e será destruído. É sobre isso que o Livro do Cordeiro trata.

Este é apenas o início da visão que Deus nos dá sobre o que acontecerá antes que venha o fim, antes que o Reino de Deus seja estabelecido sobre a humanidade. As consequências do pecado são grandes e terríveis. Tanto em nível pessoal quanto global, o pecado sempre destrói. Jesus, aqui, apenas deseja nos mostrar sobre o que ele vencerá quando chegar o dia do Novo Céu e Nova Terra.

______________

 

1 É certo que a visão de João tem algo a ver com a de Zacarias em sua profecia nos capítulos 1 e 6, embora os cavaleiros daqui pareçam possuir um papel diferente. De qualquer forma, nos focaremos aos seus papeis apresentados na revelação em Apocalipse.

2 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 61.

UM ESPETÁCULO NO CÉU (Comentário de Ap 5.8–14)

O louvor perfeito existe? Eu creio que sim, e creio que nenhuma passagem da Escritura retrata melhor o que seria a perfeita adoração do que a passagem abaixo. Aparentemente, há uma progressão das etapas em que a adoração é dada a Jesus Cristo.

Ele é o centro de toda a adoração. Jesus Cristo e sua obra estão no centro de todo louvor dado a Deus. Essa visão é a continuação da que João teve no início do capítulo 5.

e, quando tomou o livro, os quatro seres viventes e os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do Cordeiro, tendo cada um deles uma harpa e taças de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos, e entoavam novo cântico, dizendo:

    Digno és de tomar o livro

    e de abrir-lhe os selos,

    porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus

    os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação

    e para o nosso Deus os constituíste reino e sacerdotes;

    e reinarão sobre a terra.

Vi e ouvi uma voz de muitos anjos ao redor do trono, dos seres viventes e dos anciãos, cujo número era de milhões de milhões e milhares de milhares, proclamando em grande voz:

    Digno é o Cordeiro que foi morto

    de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e força,

    e honra, e glória, e louvor.

Então, ouvi que toda criatura que há no céu e sobre a terra, debaixo da terra e sobre o mar, e tudo o que neles há, estava dizendo:

    Àquele que está sentado no trono e ao Cordeiro,

    seja o louvor, e a honra, e a glória, e o domínio

    pelos séculos dos séculos.

E os quatro seres viventes respondiam: Amém! Também os anciãos prostraram-se e adoraram.

Ap 5.8–14

Vejamos os primeiros três versos.

8 e, quando tomou o livro, os quatro seres viventes e os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do Cordeiro, tendo cada um deles uma harpa e taças de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos, 9 e entoavam novo cântico, dizendo:

    Digno és de tomar o livro

    e de abrir-lhe os selos,

    porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus

    os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação

   10 e para o nosso Deus os constituíste reino e sacerdotes;

    e reinarão sobre a terra.

A cena apocalíptica continua com João assistindo àquele que possuía face tanto de Cordeiro quanto de Leão tomando o livro daquele que estava assentado no trono. Isso, para quem assistia, pareceu ser um gesto de vitória, de triunfo, de paz, pois o que estaria oculto, provavelmente seria revelado pelo Cordeiro.

Todos, os quatro seres viventes e os vinte e quatro anciãos se prostraram em adoração no mesmo momento em que Cristo toma o livro em suas mãos. Todos estavam munidos de harpas e taças de ouro, as quais simbolizavam uma espécie de baú onde as orações do povo de Deus são depositadas. É daqui que se entende que as orações do povo de Deus são derramadas perante o Senhor como um incenso agradável ao nosso Deus.

O novo cântico entoado por estes homens fala de uma nova era inaugurada pelo derramar do sangue do Cordeiro, por meio do qual, a Nova Aliança é estabelecida. Este novo cântico exaltava a autoridade de Cristo de abrir o livro, os selos que revelam parte do juízo de Deus sobre os homens, e a razão pela qual Cristo é digno de abrir o livro. Ele morreu no lugar de um povo que seria santo perante ele um dia. Com seu sangue, ele comprou este povo, povo que ele mesmo apresentará perante Deus no último dia, povo que constará de gente de todos os cantos do mundo, de todas as línguas, tribos, povos e nações.

É este povo que a Palavra de Deus diz que o Senhor constituiu reino e sacerdotes, e que estes são os que reinarão sobre a terra, uma provável menção à tudo aquilo que está relacionado aos novos céus e nova terra. O texto segue com as seguintes informações:

11 Vi e ouvi uma voz de muitos anjos ao redor do trono, dos seres viventes e dos anciãos, cujo número era de milhões de milhões e milhares de milhares, 12 proclamando em grande voz:

    Digno é o Cordeiro que foi morto

    de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e força,

    e honra, e glória, e louvor.

Mais louvor é descrito perante a Trono de Deus. Agora, não mais apenas os seres viventes, mas uma voz de muitos anjos, os quais rodeavam o trono. Tente imaginar essa cena só por um instante. Você é capaz? E junto à voz dos anjos, se uniu a voz dos seres viventes e dos anciãos, e João diz que o número de seres que ele viu adorando a Deus é de milhões de milhões e milhares de milhares. Tente imagina toda essa multidão de vozes cantando essas palavras do verso 12.

Todos reconhecem que Jesus é digno de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor. Ou seja, o Cordeiro é digno de receber aquilo que somente Deus é digno de receber. Aqui, todos esses milhões de milhões estão reconhecendo a dignidade e a divindade de nosso Senhor Jesus Cristo, adorando-o em pleno céus.

13 Então, ouvi que toda criatura que há no céu e sobre a terra, debaixo da terra e sobre o mar, e tudo o que neles há, estava dizendo:

    Àquele que está sentado no trono e ao Cordeiro,

    seja o louvor, e a honra, e a glória, e o domínio

    pelos séculos dos séculos.

14 E os quatro seres viventes respondiam: Amém! Também os anciãos prostraram-se e adoraram.

A cena, agora, parece estender-se àquilo que teremos no final dos tempos, quando todos os seres criados por Deus cantarão em adoração diante do Cordeiro de Deus.

Aqui, não vemos mais apenas os milhões e milhões sobre os céus, mas toda criatura que há no céu e sobre a terra, ou seja, parece haver uma união perfeita de adoração sobre os que estão nos céus com os que estão na terra, assim como havia no Éden. Não parece haver destituição ou qualquer separação entre os seres que estão debaixo da terra e sobre o mar, e tudo o que neles há. Todos estão adorando o Cordeiro que foi morto, mas ressuscitou.

Toda criatura, absolutamente tudo na criação de Deus estarão dando este louvor perfeito e grato a Jesus Cristo. E o louvor exalta Àquele que está sentado no trono e ao Cordeiro. O desejo que enche o coração de todas as criaturas é que haja louvor, honra, glória e domínio ao Cordeiro, e que isso seja lhe dado pelos séculos dos séculos.

A resposta imediata dos quatro seres viventes é Amém! Imagine, apenas tente, tal cena. Toda a criação, absolutamente toda a criação louvando a Jesus Cristo, os quatro seres viventes dizendo Amém aos louvor entoado por toda criação, e, enquanto tudo isso acontece, os anciãos ajoelhando-se e adorando ao Cordeiro de Deus.

É essa cena fantástica, porém pertencente a um futuro real, que João tem antes de lhe ser desvendado todo o juízo de Deus que será derramado sobre a Terra antes que venham novos céus e nova Terra.

O CORDEIRO E O LEÃO (Comentário em Ap 5.1-7)

A figura do Cordeiro e do Leão é uma das mais conhecidas na Palavra de Deus. João, depois de visualizar Cristo como o Leão de Judá e como o Cordeiro de Deus, compreende o porque seus olhos serão limpos de todo medo, incerteza e lágrimas. A visão que João passa a ter no capítulo 5 garante a paz, a esperança e a segurança que todo cristão anseia por ter.

Tanto em seu poder e autoridade quanto sua doçura e piedade, aquele que é o Cordeiro e o Leão há de reger o fim do presente tempo e guardar todos aqueles que estão em suas mãos, encaminhando-os para aquilo que é chamado de Novos Céus e Nova Terra.

Vi, na mão direita daquele que estava sentado no trono, um livro escrito por dentro e por fora, de todo selado com sete selos.Vi, também, um anjo forte, que proclamava em grande voz: Quem é digno de abrir o livro e de lhe desatar os selos?Ora, nem no céu, nem sobre a terra, nem debaixo da terra, ninguém podia abrir o livro, nem mesmo olhar para ele;e eu chorava muito, porque ninguém foi achado digno de abrir o livro, nem mesmo de olhar para ele.Todavia, um dos anciãos me disse: Não chores; eis que o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os seus sete selos.

Então, vi, no meio do trono e dos quatro seres viventes e entre os anciãos, de pé, um Cordeiro como tendo sido morto. Ele tinha sete chifres, bem como sete olhos, que são os sete Espíritos de Deus enviados por toda a terra.Veio, pois, e tomou o livro da mão direita daquele que estava sentado no trono;

Ap 5.1–7

1 Vi, na mão direita daquele que estava sentado no trono, um livro escrito por dentro e por fora, de todo selado com sete selos.

Ninguém sabe o que se encontra neste livro. Seu conteúdo é incerto. A palavra livro é a palavra βιβλίον (biblion), ou seja, livro, ou conteúdo de um livro, ou ainda, rolo. É bastante possível que João não tenha visto um livro tal como nós o imaginamos hoje, com capa, contra-capa, lombada, etc. Mas sim um rolo, possivelmente parecido com os rolos de pergaminho de seu tempo. E este rolo (livro) estava totalmente lacrado com sete selos, demonstrando possuir uma mensagem secreta, real, e importante.

Lembre-se de que aquele que estava sentado no trono é o mesmo que já apareceu em Ap 1.16:

Apocalipse 1.16: Tinha na mão direita sete estrelas, e da boca saía-lhe uma afiada espada de dois gumes. O seu rosto brilhava como o sol na sua força.

Assim como tem as igrejas e pastores em suas mãos, Jesus também possui autoridade sobre todos os segredos do universo, do tempo e da história. A mão direita na cultura judaica e nas Escrituras Sagradas simboliza poder e força, e, em algumas ocasiões, bênçãos.

Os selos guardavam o segredo relacionado aos julgamentos que estavam por vir sobre o mundo. Os selos denotam não apenas que o que esta no rolo é desconhecido, mas que é igualmente inacessível a qualquer pessoa que não seja aquele que está assentado sobre o trono.

2 Vi, também, um anjo forte, que proclamava em grande voz: Quem é digno de abrir o livro e de lhe desatar os selos?

Em sua visão, João afirma ter visto um anjo forte. Não sabemos ao certo o que esta expressão significa a não ser que, próximo ao trono de Deus, e próximo ao rolo no qual os segredos sobre os eventos de juízo futuro estão escritos, este anjo diferente aparece, assim como aparece outras vezes no restante do livro de Apocalipse (Ap 10.1 e 18.21:

Apocalipse 10.1: Vi outro anjo forte descendo do céu, envolto em nuvem, com o arco-íris por cima de sua cabeça; o rosto era como o sol, e as pernas, como colunas de fogo;

Apocalipse 18.21: Então, um anjo forte levantou uma pedra como grande pedra de moinho e arrojou-a para dentro do mar, dizendo: Assim, com ímpeto, será arrojada Babilônia, a grande cidade, e nunca jamais será achada.

É justamente este anjo que também demonstra interesse em que os segredos sobre os eventos futuros sejam revelados, no entanto, Quem é digno de abrir o livro e de lhe desatar os selos?, questiona o anjo.

3 Ora, nem no céu, nem sobre a terra, nem debaixo da terra, ninguém podia abrir o livro, nem mesmo olhar para ele; 4 e eu chorava muito, porque ninguém foi achado digno de abrir o livro, nem mesmo de olhar para ele.

Ninguém, aos olhos do anjo, poderia abrir o livro. Ninguém sobre a terra, nem mesmos os profetas e apóstolos. Ninguém sobre céus, nem mesmo os arcanjos. Aliás, nem mesmo olhar para o livro era permitido.

O choro de João é justificado, pois, talvez, ele não chorasse tanto pelo conteúdo inacessível, mas pelo juízo certo que viria do único que possui autoridade sobre céus e terra. A impressão que se tem olhando para o verso seguinte é que não haveria salvação sobre a humanidade, não haveria vitória sobre a desgraça humana, e por isso João chora. No entanto, o mesmo que se assenta no trono, ao longo do livro de Apocalipse, revela que não somente abrirá o livro como enxugará dos olhos toda lágrima. Mais uma vez, isso não se trata apenas de um gesto gentil, mas de uma verdade escatológica, a verdade de que o bem, finalmente, vencerá o mal e de que todas as coisas serão restauradas a fim de ser como deveria desde o Éden. A lágrima de desesperança será enxugada pois o Cordeiro de Deus fará novas todas as coisas!

 

5 Todavia, um dos anciãos me disse: Não chores; eis que o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os seus sete selos.

Aqui está o consolo de João, a palavra de um dos anciãos vistos em versos anteriores. Cristo é como o leão. Seu poder e grandeza sobre a criação devem trazer esperança ao coração dos homens. Cristo é o Messias prometido no Antigo Testamento, o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, aquele que venceu a morte e o pecado, e que, com sua vitória, garantiu o poder de abrir o livro e seus sete selos.

A certeza de que o Senhor está no controle da história deve trazer esperança e paz ao coração daqueles que estão nele. Sua vitória é a vitória dos seus.

6 Então, vi, no meio do trono e dos quatro seres viventes e entre os anciãos, de pé, um Cordeiro como tendo sido morto. Ele tinha sete chifres, bem como sete olhos, que são os sete Espíritos de Deus enviados por toda a terra. 7 Veio, pois, e tomou o livro da mão direita daquele que estava sentado no trono;

A visão de João, neste primeiro momento, se encerra com a brilhante comparação de Cristo como um Cordeiro. Ele é o Leão, mas ao mesmo tempo o Cordeiro. A força e a mansidão. O juízo e a misericórdia. Seus sete chifres simbolizam apocalipticamente a plenitude do poder. Chifres simbolizavam o poder numa batalha. Lembre-se de animais que possuem chifres. Numa batalha animal, estes animais usam seus chifres mais do que qualquer outra parte de seu corpo, pois ali está concentrada sua força. Simbolicamente, na literatura apocalíptica chifre simboliza poder, enquanto o número sete, como já vimos, simboliza a plenitude. Sete chifre, bem como sete olhos simbolizam não apenas uma plenitude de poder, como também uma plenitude de conhecimento, sabedoria e visão. Dentro disso, também se encontra com o Cordeiro de Deus os sete Espírito de Deus, os quais simbolizam a plenitude do Espírito Santo enviado sobre a terra. É justamente este Cordeiro e Leão que vem e toma da mão direita de Deus Pai, Todo Poderoso, que estava sentado no trono, o livro. É a partir daqui que todas as coisas começam.

ADORAÇÃO: “assim na Terra, como no Céu” (Comentário de Ap 4.6-11)

Amar é deixar a si e olhar para o outro. Adorar é reconhecer no outro a quem se ama seus atributos e qualidades. O tempo todo, os seres vistos nos sala do trono de Deus o reconhecem amorosamente em sua adoração, dando-nos uma lição de como devemos igualmente adorar.

Adoração na Terra não deve ser diferente do que há no céus. O que o final do capítulo 4 nos permite é compreender o que há por detrás de tal adoração, suas motivações, intenções e quem são as pessoas que adoram. Este texto está intimamente ligado ao anterior.

Há diante do trono um como que mar de vidro, semelhante ao cristal, e também, no meio do trono e à volta do trono, quatro seres viventes cheios de olhos por diante e por detrás.

O primeiro ser vivente é semelhante a leão, o segundo, semelhante a novilho, o terceiro tem o rosto como de homem, e o quarto ser vivente é semelhante à águia quando está voando.

E os quatro seres viventes, tendo cada um deles, respectivamente, seis asas, estão cheios de olhos, ao redor e por dentro; não têm descanso, nem de dia nem de noite, proclamando:

Santo, Santo, Santo

é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso,

aquele que era, que é e que há de vir.

Quando esses seres viventes derem glória, honra e ações de graças ao que se encontra sentado no trono, ao que vive pelos séculos dos séculos, os vinte e quatro anciãos prostrar-se-ão diante daquele que se encontra sentado no trono, adorarão o que vive pelos séculos dos séculos e depositarão as suas coroas diante do trono, proclamando:

Tu és digno, Senhor e Deus nosso,

de receber a glória, a honra e o poder,

porque todas as coisas tu criaste,

sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas.

Ap 4.6–11

6       Há diante do trono um como que mar de vidro, semelhante ao cristal, e também, no meio do trono e à volta do trono, quatro seres viventes cheios de olhos por diante e por detrás.

Outra parte da visão que se destacou diante de João foi o mar de vidro, semelhando ao cristal. De acordo com Utley, há muitas teorias sobre o que seria tal mar.⁠1 Para alguns, ela se refere à bacia de bronze presente no Templo de Salomão. Para outros, se refere a algo muito belo como o que está escrito em Êxodo 24.9–10:

E subiram Moisés, e Arão, e Nadabe, e Abiú, e setenta dos anciãos de Israel. E viram o Deus de Israel, sob cujos pés havia uma como pavimentação de pedra de safira, que se parecia com o céu na sua claridade.

Para outros ainda, o mar de vidro visto por João se parece com a beleza da safira vista por Ezequiel em sua visão da sala do trono:

Ezequiel 1.22: Sobre a cabeça dos seres viventes havia algo semelhante ao firmamento, como cristal brilhante que metia medo, estendido por sobre a sua cabeça.

Ezequiel 1.26: Por cima do firmamento que estava sobre a sua cabeça, havia algo semelhante a um trono, como uma safira; sobre esta espécie de trono, estava sentada uma figura semelhante a um homem.

Ezequiel 10.1: Olhei, e eis que, no firmamento que estava por cima da cabeça dos querubins, apareceu sobre eles uma como pedra de safira semelhando a forma de um trono.

Por fim, há quem considere esta visão apenas um símbolo da separação que há entre a santidade de Deus de tudo o mais.

João também menciona quatro seres viventes. A descrição dessas criaturas aparecerá nos versos seguintes. Há muita relação entre essas criaturas de Apocalipse e as criaturas de Ezequiel. Embora o número de asas e faces varia, permanece a composição daqueles que rodeiam o trono de Deus, numa espécie de combinação entre os querubins de Ez 1.18 e 10.17 e os serafins de Is 6.2-3. É possível que João e Ezequiel (e, talvez, Isaías) tenham tido a mesma visão.

Todos eles possuíam grande proximidade do trono de Deus. O fato de estarem cheios de olhos, pode tratar-se de uma metáfora bíblica da onisciência de Deus e também para a vigilância constante desses seres diante de Deus.⁠2

7       O primeiro ser vivente é semelhante a leão, o segundo, semelhante a novilho, o terceiro tem o rosto como de homem, e o quarto ser vivente é semelhante à águia quando está voando.

João passa, agora, a descrever como se parecem estes seres vistos no verso anterior. Na literatura rabínica, estes animais são listados como os mais fortes das diferentes ordens da criação de Deus.⁠3 Irineu, um pai da igreja do século II, usou estes quatro diferentes seres para descrever os quatro escritores dos Evangelhos (Mateus como leão, Marcos como novilho, Lucas como homem e João como águia). No entanto, muitos consideraram isso mera especulação e alegoria que não deveria ser levada adiante.

O certo é que estas figuras são simbólicas e não literais. São uma aproximação do que João, de fato, viu. Destaca-se sempre a palavra “semelhante”. A visão pode estar sugerindo que toda a criação deve estar constantemente em vigilância e adoração diante de seu Criador. Talvez, João esteja desejando transmitir aos seus leitores o que se espera deles também.

8       E os quatro seres viventes, tendo cada um deles, respectivamente, seis asas, estão cheios de olhos, ao redor e por dentro; não têm descanso, nem de dia nem de noite, proclamando:

     Santo, Santo, Santo

     é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso,

     aquele que era, que é e que há de vir.

Mais uma vez, a visão se aproxima a de Ezequiel, diferindo apenas no número de asas visto. Mais uma vez a vigilância e constância na adoração são destacados. Muitos olhos, vigilância. Constância, de dia e de noite.

Em sua adoração, destaca-se atributos de Deus. Menciona-se a santidade, possivelmente, da Santíssima Trindade (o Pai é Santo, o Filho é Santo e o Espírito é Santo). E ele é o Senhor sobre todas as coisas, ou seja, Soberano. É Todo-Poderoso, ou seja, nada foge ao seu poder ou conhecer. Ele é eterno, é aquele que era, que é e que há de vir, ou seja, canta-se a certeza de Sua vinda.

A adoração que há diante do trono de Deus nos céus não é sobre nada a não ser Deus. Isso, talvez, indique o que o próprio Deus espera daqueles que o adoram neste mundo, que os mesmos cantem sobre ele, elogiam, admirem, adorem seus atributos. O que percebemos aqui é que o louvor perfeito que há diante do trono canta sobre quem Deus é, como uma espécie de reconhecimento e, ao mesmo tempo, manifestação de amor pela pessoa de Deus.

9       Quando esses seres viventes derem glória, honra e ações de graças ao que se encontra sentado no trono, ao que vive pelos séculos dos séculos, 10 os vinte e quatro anciãos prostrar-se-ão diante daquele que se encontra sentado no trono, adorarão o que vive pelos séculos dos séculos e depositarão as suas coroas diante do trono, proclamando: 

11 Tu és digno, Senhor e Deus nosso,

de receber a glória, a honra e o poder,

porque todas as coisas tu criaste,

sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas.

     

Em grego, originalmente os versos 9 a 11 formam uma única sentença cujo objetivo também é demonstrar a quem unicamente é devida toda honra e toda a glória. Os seres viventes são os mesmo já mencionados e que voltarão a ser no restante do livro (cf. 5.6,8,14; 6.1; 7.11; 14.3; 15.7; 19.4).

O fato destes lançarem suas coroas diante do trono demonstra reconhecimento destes seres de que o poder e autoridade que possuíam veio daquele trono. Curiosamente, na parte final de sua adoração há um reconhecimento de que o Cordeiro de Deus, que se assenta no trono, é participante da criação. Assim como foi escrito por João no Evangelho que leva seu nome:

Jo 1.1–3: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.Ele estava no princípio com Deus.Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez.

Mais uma vez, reconhecimento de seu poder criador sobre todas as coisas no céus e na terra. Adorar, segundo o que vemos na sala do trono, é reconhecem que Deus é e elogiá-lo por isso, cheio de amor. Assim como um jovem, amando sua noiva, reconhecendo sua beleza, bondade, e demais qualidades, sente prazer em mencioná-las, elogiando sua noiva. É esta mesma atitude que se espera de quem se aproxima do trono de Deus, amor e reconhecimento de quem ele é.

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1 Robert James Utley, Hope in Hard Times – The Final Curtain: Revelation, vol. Volume 12, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 2001), 52.

2 John D. Barry et al., Faithlife Study Bible (Bellingham, WA: Logos Bible Software, 2012), Ap 4.6.

3 Robert James Utley, Hope in Hard Times – The Final Curtain: Revelation, vol. Volume 12, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 2001), 52.

OS PAPÉIS DO HOMEM E DA MULHER NO CASAMENTO (Parte 2)

Além de demonstrar as funções que homens e mulheres devem desempenhar no lar, a Palavra de Deus nos incentiva a olhar para a história da criação do casamento na Bíblia como uma forma de visualizarmos o modo como o próprio Deus deseja se relacionar com seu povo.

Existem muitos paralelos entre a relações de homens e mulheres e a relação de Deus com seu povo, e Paulo aproveita a assunto já começado nos versículos anteriores para demonstrar como a igreja deve enxergar o papel do casamento dentro do propósito redentor.

Porque ninguém jamais odiou a própria carne; antes, a alimenta e dela cuida, como também Cristo o faz com a igreja; porque somos membros do seu corpo. Eis por que deixará o homem a seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher, e se tornarão os dois uma só carne. Grande é este mistério, mas eu me refiro a Cristo e à igreja. Não obstante, vós, cada um de per si também ame a própria esposa como a si mesmo, e a esposa respeite ao marido.

Ef 5.29–33

29 Porque ninguém jamais odiou a própria carne; antes, a alimenta e dela cuida, como também Cristo o faz com a igreja; 30 porque somos membros do seu corpo.

As palavras de Cristo são absolutamente cristalinas quanto à maneira como um homem deve amar sua esposa. Assim como ninguém jamais odiará sua própria carne, estes mesmos tais não devem odiar sua esposa. O foco não está no ódio, mas no sentimento oposto a este. O amor com que alguém ama a si mesmo deve ser o amor com o qual alguém se entrega à sua esposa.

Assim, jamais alguém deve odiar ao próximo, visto ser impossível este mesmo alguém odiar a si mesmo. Tão absurdo aos olhos de Deus é o ódio ao próximo como o é o ódio a si mesmo. Assim como nos preocupamos em cuidar e alimentar a nós mesmos, devemos cuidar dos interesses e necessidades de nosso próximo, especialmente o próximos mais próximo, nosso cônjuge.

É isso que Cristo faz com a igreja. Cristo cuida dela, a ama, a alimenta, sem jamais odiá-la. E, assim como Cristo se torna um só corpo com a sua igreja, assim como nos tornamos membros de seu corpo, um casamento faz com que homem e mulher se tornem membros uns dos outros. Paulo chamará isso de mistério mais adiante, sobre o como tornam-se uma só carne Cristo e sua igreja, marido e sua esposa.

31 Eis por que deixará o homem a seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher, e se tornarão os dois uma só carne.

A razão pela qual pais deixam seus filhos quando estes se casam é a união de almas que acontece entre um marido e sua esposa. Quando estes se tornam uma só carne, deixam a carne da qual um dia vieram. Há uma íntima ligação, uma ligação espiritual entre pais e filhos, a qual só é cortada pelo casamento.

Assim, homem e mulher se tornam uma só carne no casamento, em repetição a Gênesis:

Gênesis 2.24: Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne.

A orientação matrimonial dando as orientações quanto às funções de marido e esposa vêm desde antes da queda. Desde antes do pecado entrar na humanidade, já havia uma definição bastante clara da união que liga homem e mulher no casamento.

Esta união implica cuidado mútuo, e submissão mútua, e é por isso que o Senhor nos diz através de Paulo no verso 21 deste mesmo capítulo: sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo. Sem a sujeição mútua não há união de almas e de carne. Sem sujeição mútua, o casamento não passa de uma troca de interesse, onde se casa para se satisfazer e, quando não mais se satisfaz, encerra-se o matrimônio.

O casamento criado por Deus não foi feio para terminar antes que a morte chegue. Chegando a morte, não há mais laços ou aliança. No entanto, enquanto a morte não chega (e o casamento não é dissolvido por quebra de aliança pelos motivos bíblicos), o casal está ligado um ao outro, mesmo que um documento civil afirme que não há mais casamento. Documentos civis não têm poder de dissolver o que foi unido debaixo da bênção de Deus. Assim, o que começou debaixo da bênção de Deus não pode ser encerrado sem a permissão de Deus.

32 Grande é este mistério, mas eu me refiro a Cristo e à igreja.

Sem dúvida alguma, é dificílimo compreender este paralelo, embora ele exista. Assim como homem e mulher estão unidos pelo casamento, Cristo e a igreja estão unidos também, embora, por enquanto, apenas pela promessa. Cristo é “noivo” da igreja e, em breve, haverá bodas de casamento e sua igreja estará para sempre com seu “marido”.

Por enquanto, apenas desfrutamos no casamento daquilo que será perfeito com Cristo. Todo casamento é imperfeito na terra pois haverá um só casamento perfeito, o de Cristo com sua noiva, a igreja. Assim, o prazer máximo que um casal pode ter no casamento é apenas uma sombra do prazer que haverá na relação entre Cristo e a igreja na eternidade.

Esposas devem olhar para a igreja e esforçarem-se para ser a melhor esposa para seu marido, assim como a igreja deve buscar ser a melhor noiva para Cristo. E maridos devem olhar para Cristo e esforçarem-se para amar e respeitar sua esposa com a mesma intensidade com que Cristo ama a igreja.

33 Não obstante, vós, cada um de per si também ame a própria esposa como a si mesmo, e a esposa respeite ao marido.

Paulo conclui com um resumo de tudo o que expôs ao longo do capítulo — esposas respeitam seu marido, e maridos amam sua esposa.

Algo que aprendemos de modo rico e impressionante é o entrelaçamento que há entre a relação do homem com sua mulher e a relação de Deus com os seres humanos. É interessante notar que o apóstolo Paulo vai para antes da queda, na própria Criação dos seres humanos para demonstrar o modo como homem e mulher deveriam se ver.

Assim como o homem (Messias Jesus) deixa sua “casa” para buscar sua noiva, o homem deixa sua casa para encontrar-se definitivamente com sua noiva. Assim como o Messias resgata um povo para que este seja seu por todo o sempre, assim um homem resgata sua esposa a fim de que essa seja sua esposa até que a morte os separe.

Compare o estado de humilhação do Cordeiro de Deus ao vir buscar sua noiva com o que se espera dos maridos:

Filipenses 2.6–11: pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus;7antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana,8a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz.9Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome,10para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra,11e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.

Veja mais este:

Colossenses 1.15–20: Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação;16pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele.17Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste.18Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia,19porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude20e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus.

Embora ele seja o cabeça da criação, se humilhou e esvaziou de si a fim de remir uma “noiva” com a qual desfrutará de comunhão e alegria por toda a eternidade.

Lendo Filipenses 2: 6-11 ou Colossenses 1: 15-20, encontramos aquilo que N. T. Wright chamou de uma “sugestão rica e fascinante”.1 Podemos encontrar paralelos múltiplos e incríveis na relação homem e mulher com a relação Deus e seres humanos. A maneira como vivemos nossas vidas como casados revela muita coisa sobre o que cremos e como vemos a relação de Deus com o seu povo. Nossas mais preciosas relações devem ser vividas de um modo bastante semelhante à relação de Deus com os homens.

As relações entre homens e mulheres se entrelaçam de muitas formas e se confundem de muitas maneiras com a relação entre homens e Deus. Assim, olhando para Deus, homens serão desafiados a amarem de um modo especial sua esposa, de um modo parecido com o que Cristo ama a igreja. E olhando também para Cristo, mulheres serão desafiadas a amarem e respeitarem seus maridos como instrumentos de Deus para levarem-nas para mais perto da cruz.

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1 Tom Wright, Paul for Everyone: The Prison Letters: Ephesians, Philippians, Colossians, and Philemon (London: Society for Promoting Christian Knowledge, 2004), 68.

AS 7 IGREJAS DO APOCALIPSE: Filadélfia (Comentário Ap 3.7-13)

Após escrever outras palavras de elogio e disciplina, Jesus volta a escrever uma carta apenas com elogios. Os de Filadélfia haviam agido de modo fiel e perseverante e iriam desfrutar no presente e no novo céu e na terra de prazeres e bênçãos exclusivas.

Ao anjo da igreja em Filadélfia escreve:

Estas coisas diz o santo, o verdadeiro, aquele que tem a chave de Davi, que abre, e ninguém fechará, e que fecha, e ninguém abrirá:Conheço as tuas obras — eis que tenho posto diante de ti uma porta aberta, a qual ninguém pode fechar — que tens pouca força, entretanto, guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome.Eis farei que alguns dos que são da sinagoga de Satanás, desses que a si mesmos se declaram judeus e não são, mas mentem, eis que os farei vir e prostrar-se aos teus pés e conhecer que eu te amei.Porque guardaste a palavra da minha perseverança, também eu te guardarei da hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro, para experimentar os que habitam sobre a terra.Venho sem demora. Conserva o que tens, para que ninguém tome a tua coroa.Ao vencedor, fá-lo-ei coluna no santuário do meu Deus, e daí jamais sairá; gravarei também sobre ele o nome do meu Deus, o nome da cidade do meu Deus, a nova Jerusalém que desce do céu, vinda da parte do meu Deus, e o meu novo nome.Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.

Ap 3.7–13

7 Ao anjo da igreja em Filadélfia escreve:

Estas coisas diz o santo, o verdadeiro, aquele que tem a chave de Davi, que abre, e ninguém fechará, e que fecha, e ninguém abrirá:

Filadelfia e Esmirna foram as duas igrejas a receberem apenas elogios da parte do Senhor. Não há críticas, apenas reconhecimento do amor e das obras existente no meio delas.

Filadélfia era reconhecidamente importante por causa de seu comércio e agricultura. Especialmente por conta de suas plantações de vinho. Um deus muito querido pela população da cidade era Dionísio, deus do vinho. Junto à adoração a Dionísio, a adoração ao imperador também era forte em Filadélfia. Conforme destacou Jarry D. Barry, “A cidade recebeu permissão para construir um templo provincial, ganhando-lhe o nome Neocoros (que significa “guardião do templo”).”⁠1

A chave de Davi está relacionada à autoridade para reinar sobre um povo, o povo escolhido. Só quem tem esta chave possui o direito de abrir e fechar portas, começar e terminar coisas, nada foge às suas mãos. O desejo daquele que possui esta chave estará sempre acima do desejo de qualquer pessoa. Isaías havia descrito isto:

Isaías 22.22: Porei sobre o seu ombro a chave da casa de Davi; ele abrirá, e ninguém fechará, fechará, e ninguém abrirá.

Em Apocalipse, Jesus está revelando-se à fiel igreja em Filadélfia sobre sua autoridade e domínio sobre tudo.

8       Conheço as tuas obras — eis que tenho posto diante de ti uma porta aberta, a qual ninguém pode fechar — que tens pouca força, entretanto, guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome. 9       Eis farei que alguns dos que são da sinagoga de Satanás, desses que a si mesmos se declaram judeus e não são, mas mentem, eis que os farei vir e prostrar-se aos teus pés e conhecer que eu te amei.

As obras são importantes para Deus. O tempo todo Jesus cita as obras realizadas pelo seu povo, e o conhecimento sobre estas obras. Assim como conhecia no passado, Jesus conhece hoje também, aprovando ou reprovando seu povo em suas contínuas ações. Tudo o que fazem, o fazem diante dos olhos de Deus, tanto para aprovação quanto para reprovação.

É possível que os leitores dessa carta tivessem sido excluídos da sinagoga local. Daí as palavras de Jesus sobre a porta aberta diante deles, a qual ninguém pode fechar. Ninguém tem autoridade maior do que o que possui as “Chaves da casa de Davi”.

A pouca força desses cristãos está ligada à sua pequenez diante de autoridades locais. Diante dos olhos humanos, via de regra os cristãos serão sempre considerados pequenos. Embora pequenos, pelo fato de terem guardado a palavra de Cristo e de não terem negado o nome de Jesus, tais pessoas seriam guardadas por Deus e levantadas diante dos olhos dos que antes os humilharam.

Os da Sinagoga de Satanás que se dobrarão diante dos cristãos provavelmente estão ligados aos judeus daquela cidade. Como já explicado anteriormente, este era o tempo usado para designar judeus dentro de uma sinagoga considerando-se melhores por terem a tradição junto de si, não tendo, porém, o amor que criou a tradição em seus corações. Tinham a tradição, mas não a Deus, o verdadeiro amor.

Estes, futuramente iriam reconhecer a presença de Deus junto aos cristãos e iriam se dobrar diante destes. Veriam claramente o amor de Deus posto sobre a pequenina igreja e não sobre a tradição, onde supostamente deveria estar.

10       Porque guardaste a palavra da minha perseverança, também eu te guardarei da hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro, para experimentar os que habitam sobre a terra. 

Guardar a palavra da perseverança é igual a ser guardado da hora da provação que há de vir. Há aqui uma afirmação e ao mesmo tempo uma promessa. As duas coisas estão ligadas uma à outra.

A primeira coisa a ser cumprida é a guarda da palavra que veio de Cristo para que eles perseverassem. Tendo feito isso, cumpre-se a promessa da proteção, não apenas nesta terra, mas em toda a eternidade. A visão divina não resume-se a este mundo, muito menos sua proteção. Toda e qualquer dificuldade ou aflição aqui não significa quebra de promessa da parte do Senhor. No entanto, há uma provação que virá sobre o mundo inteiro e é dessa que Jesus promete livrar todos os seus, todos os que o guardam em seus corações.

Esse sofrimento está ligado à eventos escatológicos vindouros relacionados a eventos retratados no próprio livro. Há uma rebelião presente da parte dos seres humanos diante de Deus. Haverá um juízo futuro sobre isso, e os cristãos serão guardados.

Interessantemente, a Bíblia fala de um desejo do Senhor, de que todos se arrependam e creiam:

1Timóteo 2.4: o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade.

2Pedro 3.9: Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento.

No entanto, muitos não se arrependerão, em um dos tantos mistérios que envolvem a soberania divina e a responsabilidade humana na salvação. E estes que não se arrependerem provarão da ira vindoura. Se esta será um período determinado de dias, meses ou anos sobre a terra ou se será um evento (de um dia ou vários dias) no qual a ira será derramada, não é suficientemente claro para nós. Daí existirem muitas teorias sobre estes dias.

11       Venho sem demora. Conserva o que tens, para que ninguém tome a tua coroa. 12       Ao vencedor, fá-lo-ei coluna no santuário do meu Deus, e daí jamais sairá; gravarei também sobre ele o nome do meu Deus, o nome da cidade do meu Deus, a nova Jerusalém que desce do céu, vinda da parte do meu Deus, e o meu novo nome. 13       Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.

Outra vez, a promessa de que sua vinda não demora é feita. Mais uma vez, palavra de perseverança é dada aos filhos de Deus. Conserva o que tens, a fim de que a chegada de cada um no reino dos céus seja como que em triunfo, para receberem uma coroa. A promessa é descrita com figuras e imagens:

Os vencedores serão como colunas no santuário de Deus. Os vencedores terão em si gravado o nome de Deus, o nome da cidade de Deus (Nova Jerusalém) e o novo nome de Jesus. Seria isso uma espécie de tatuagem celestial? Uma espécie de marca no corpo que denote seres humanos em posição especial perante Deus e a humanidade? Tudo indica que sim. Isso, para mostrar o quão especiais eram pelo fato de terem guardado a palavra de Cristo.

Assim como o pecado tem suas consequências maléficas e destruidoras, vencer o pecado nesta vida também tem suas consequências benéficas e recompensadoras no mundo por vir.

 

1 John D. Barry et al., Faithlife Study Bible (Bellingham, WA: Logos Bible Software, 2012), Ap 3.7.

AS 7 IGREJAS DO APOCALIPSE: Sardes (Comentário Ap 3.1-6)

Em Sardes, a igreja recebeu uma das palavras mais duras dentre todas as enviadas por Jesus às sete igrejas do Apocalipse. Apesar de duras, suas palavras demonstram o amor de quem prefere anunciar do que calar e permitir o sofrimento daqueles que poderiam se arrepender caso ouvissem a verdade. Cada palavra de Jesus, por mais dura que possa parecer, carrega consigo toneladas de amor, paciência e desejo divino de que houvesse arrependimento.

Ao anjo da igreja em Sardes escreve:

Estas coisas diz aquele que tem os sete Espíritos de Deus e as sete estrelas: Conheço as tuas obras, que tens nome de que vives e estás morto.Sê vigilante e consolida o resto que estava para morrer, porque não tenho achado íntegras as tuas obras na presença do meu Deus.Lembra-te, pois, do que tens recebido e ouvido, guarda-o e arrepende-te. Porquanto, se não vigiares, virei como ladrão, e não conhecerás de modo algum em que hora virei contra ti.Tens, contudo, em Sardes, umas poucas pessoas que não contaminaram as suas vestiduras e andarão de branco junto comigo, pois são dignas.O vencedor será assim vestido de vestiduras brancas, e de modo nenhum apagarei o seu nome do Livro da Vida; pelo contrário, confessarei o seu nome diante de meu Pai e diante dos seus anjos.Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.

Ap 3.1–6

1       Ao anjo da igreja em Sardes escreve:

Estas coisas diz aquele que tem os sete Espíritos de Deus e as sete estrelas: Conheço as tuas obras, que tens nome de que vives e estás morto.

Os sete espíritos de Deus traz a ideia d perfeição deste mesmo espírito. Não devemos considerar que Deus possua sete espíritos santos, e que a trindade agora tornou-se maior. Dentro da linguagem do gênero apocalíptico, sete está sempre associado à perfeição. Assim, o texto acima começa mencionando aquele que é um com o perfeito Espírito Santo de Deus.

Não apenas Cristo é um com o Espírito Santo, mas com os anjos que estão em suas mãos, ou seja, os pastores das sete igrejas, os quais também representam o número “perfeito” ou completo dos pastores que servem a Deus. 

Jesus está, primeiramente, dirigindo estas palavras ao pastor da igreja em Sardes. As suas palavras dizem respeito ao pastor e, por consequência, à igreja que o seguia em suas práticas e crenças. Estes, tinham a aparência de quem vivia, mas, na realidade, estavam mortos.

Sardes era uma cidade conhecida por ser uma antiga fortaleza militar. Nos dias do apóstolo João, Sardes era uma cidade muito rica, detentora de um gigantesco (pelas proporções da época) templo dedicado à deusa Artemis. Além da idolatria à Artemis, ali era prestado culto ao imperador com um templo dedicado à sua imagem.

2       Sê vigilante e consolida o resto que estava para morrer, porque não tenho achado íntegras as tuas obras na presença do meu Deus.

A vigilância não estava sendo mantida pelos de Sardes. No verso anterior, Jesus já havia os exortado de que, talvez, estivessem mortos espiritualmente, ou seja, que nem salvos seriam. Isso tonar esta repreensão a mais dura das sete enviadas em Apocalipse. 

A partir do verso 2, há uma série de advertências imperativas nas quais Cristo chama sua igreja ao arrependimento. Ao afirmar sobre o resto que estava para morrer, Jesus demonstra saber que alguns da igreja não eram mortos apenas espiritual ou metaforicamente, mas haviam morrido fisicamente. E havia alguns ali que estavam perto da morte.

Ao afirmar que não tinha achado íntegras as obras do povo na presença de Deus, Jesus demonstra saber que alguns dos que ali estavam não possuíam obras como agrada a Deus. Ainda tinham obras a cumprir.⁠1

3       Lembra-te, pois, do que tens recebido e ouvido, guarda-o e arrepende-te. Porquanto, se não vigiares, virei como ladrão, e não conhecerás de modo algum em que hora virei contra ti.

Jesus agora demonstra saber do conteúdo lá ensinado e que os de Sardes não eram ignorantes quanto ao Evangelho. Tal conhecimento deveria levá-los ao arrependimento. Todo conhecimento de Deus (ou, que venha de Deus) deve levar-nos ao arrependimento. Eles não deveriam se lembrar do modo como ouviram ou do local aonde estavam, mas do conteúdo do que ouviram. Jesus, provavelmente, estaria se referindo ao Evangelho.

Jesus cita outra vez suas palavras uma vez registradas pelo apóstolo Mateus:

Mateus 24.42–44: Portanto, vigiai, porque não sabeis em que dia vem o vosso Senhor. Mas considerai isto: se o pai de família soubesse a que hora viria o ladrão, vigiaria e não deixaria que fosse arrombada a sua casa. Por isso, ficai também vós apercebidos; porque, à hora em que não cuidais, o Filho do Homem virá.

Sua exortação quanto à sua vinda é dita em um contexto de juízo sobre o descaso da igreja em Sardes para com a obra do Senhor e para com a vida em santidade. Paulo também chegou a mencionar este acontecimento:

1Tessalonicenses 5.2: pois vós mesmos estais inteirados com precisão de que o Dia do Senhor vem como ladrão de noite.

4       Tens, contudo, em Sardes, umas poucas pessoas que não contaminaram as suas vestiduras e andarão de branco junto comigo, pois são dignas.

Aqui, a provável razão desta carta, o fato de ainda existirem uns poucos em Sardes que mantinham-se puros espiritualmente, mesmo diante de tanta tentação para sair e errar contra Deus. A expressão umas poucas pessoas que não contaminaram as suas vestiduras e andarão de branco junto comigo demonstra a fidelidade de alguns na igreja, pessoas que o próprio Jesus considera dignas de se vestirem como ele e andarem com ele por ocasião de seu 2º Advento.

A vestes contaminadas possivelmente esteja relacionada à atividades sexuais presentes em rituais de idolatria em determinados templos de Sardes.

Havia um grupo fiel em Sardes, e estes se vestirão como Cristo, como vitoriosos.

5       O vencedor será assim vestido de vestiduras brancas, e de modo nenhum apagarei o seu nome do Livro da Vida; pelo contrário, confessarei o seu nome diante de meu Pai e diante dos seus anjos. 6 Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.

Mais uma vez é prometido que se vestirão como Cristo aqueles que se guardarem puros até a sua vinda. Estas vestiduras brancas aqui mencionadas são um símbolo da vida eterna, cheia de comunhão e unidade com o próprio Cristo na eternidade.

Há uns poucos que são capazes de pensar e ensinar que é possível ter seus nomes ou de outros retirados da árvore da vida, mas isso é um completo absurdo. A expressão hiperbólica de Cristo nesta passagem reforça a ideia bíblica da segurança eterna dos crentes, ou seja, de que uma vez em Cristo, selados pelo Espírito Santo, nada nem ninguém pode lhes salvar. Ou seja. Uma vez salvo, salvo para sempre, graças à ação do Espírito dentro de nós nos ajudando a perseverar até o final.

Seus nomes serão preservados e confessados diante do Pai. O próprio Cristo os confessará diante do Pai, como um sinal de honra e oficialidade de sua vocação. Jesus conclui suas palavras mais uma vez citando um trecho que foi registrado por Mateus pois deve ter constado em algumas pregações de Jesus:

Mateus 10.32: Portanto, todo aquele que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus.

Suas últimas palavras são de apelo, como sempre. É o Espírito quem dá capacidade para alguém ouvir e entender as Escrituras.

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1 John D. Barry et al., Faithlife Study Bible (Bellingham, WA: Logos Bible Software, 2012), Ap 3.2.

AS 7 IGREJAS DO APOCALIPSE: Tiatira (Comentário Ap 2.18-29)

Jesus se dirige à igreja localizada na cidade, provavelmente, mais insignificante das sete igrejas do Apocalipse. No entanto, havia um risco real no seio da igreja, e é sobre isso que ele tratará em sua carta.

Ao anjo da igreja em Tiatira escreve:

Estas coisas diz o Filho de Deus, que tem os olhos como chama de fogo e os pés semelhantes ao bronze polido:

Conheço as tuas obras, o teu amor, a tua fé, o teu serviço, a tua perseverança e as tuas últimas obras, mais numerosas do que as primeiras.

Tenho, porém, contra ti o tolerares que essa mulher Jezabel, que a si mesma se declara profetisa, não somente ensine, mas ainda seduza os meus servos a praticarem a prostituição e a comerem coisas sacrificadas aos ídolos.

Dei-lhe tempo para que se arrependesse; ela, todavia, não quer arrepender-se da sua prostituição.

Eis que a prostro de cama, bem como em grande tribulação os que com ela adulteram, caso não se arrependam das obras que ela incita.

Matarei os seus filhos, e todas as igrejas conhecerão que eu sou aquele que sonda mentes e corações, e vos darei a cada um segundo as vossas obras.

Digo, todavia, a vós outros, os demais de Tiatira, a tantos quantos não têm essa doutrina e que não conheceram, como eles dizem, as coisas profundas de Satanás: Outra carga não jogarei sobre vós; tão-somente conservai o que tendes, até que eu venha.

Ao vencedor, que guardar até ao fim as minhas obras, eu lhe darei autoridade sobre as nações, e com cetro de ferro as regerá e as reduzirá a pedaços como se fossem objetos de barro; assim como também eu recebi de meu Pai, dar-lhe-ei ainda a estrela da manhã. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.

Ap 2.18–29

18 Ao anjo da igreja em Tiatira escreve:

Estas coisas diz o Filho de Deus, que tem os olhos como chama de fogo e os pés semelhantes ao bronze polido:

A cidade de Tiatira ficava no sopé entre duas montanhas. Era uma cidade onde existia muitas guildas, uma espécie de sindicatos de profissões especificas. Não era uma cidade conhecida por seus cultos religiosos, embora os tais existissem por lá. Mas era especialmente famosa por causa das guildas dos que trabalhavam com tecidos, com joias, com ferramentas cortantes, etc. Cada guilda cuidava dos interesses da profissão e todos trabalhadores a que estava ligada.

Frequentemente, festas aconteciam reunindo os trabalhadores relacionados a uma mesma profissão. Quando isso acontecia, momentos religiosos eram comuns, quanto carne sacrificada a ídolos eram comidas após momentos litúrgicos pagãos. 

Era uma cidade muito parecida com as cidades de hoje em termos de reivindicações dos direitos dos trabalhadores. Não era uma cidade conhecida por seu exército, ou por seus templos ao imperador, ou por suas fortalezas, as quais nem existiam por lá. Tiatira é, provavelmente, uma das cidades menos importantes religiosamente entre as sete igrejas do Apocalipse. Era uma cidade conhecida por suas indústrias, seu trânsito intenso de comerciantes, e por suas guildas e as coisas relacionadas a elas. Esse fluxo grande de pessoas de vários lugares e o envolvimento quase certo dos cristãos com as guildas e a vida da cidade, representavam um perigo para os cristãos que ali viviam.

Aos cristãos de Tiatira, Jesus se apresenta como aquele que purifica, como aquele que possui olhos como chama de fogo e os pés semelhantes ao bronze polido, figura que já apareceu em Ap 1.14-15. Ele é aquele que purifica com os olhos e possui a beleza de quem anuncia Boas Novas. Essa é a figura por trás dos pés: aquele que traz notícias.

19 Conheço as tuas obras, o teu amor, a tua fé, o teu serviço, a tua perseverança e as tuas últimas obras, mais numerosas do que as primeiras.

Como é típico das mensagens às igrejas, Jesus apresenta os pontos favoráveis de Tiatira. Jesus alista: as tuas obras, o teu amor, a tua fé, o teu serviço, a tua perseverança e as tuas últimas obras, mais numerosas do que as primeiras.

Ou seja, não havia nada que desabonasse os de Tiatira com relação à prática. Eles amavam, tinha fé, trabalhavam na obra de Deus, eram perseverantes, ou seja, não desanimavam facilmente, e quanto mais o tempo passava, mais obras tinham a apresentar. Ou seja, ao contrário do “normal”, com o passar do tempo, eles não esfriavam, ao contrário, aumentavam mais ainda seu serviço ao Senhor.

20 Tenho, porém, contra ti o tolerares que essa mulher Jezabel, que a si mesma se declara profetisa, não somente ensine, mas ainda seduza os meus servos a praticarem a prostituição e a comerem coisas sacrificadas aos ídolos.

No entanto, após rapidamente os elogiar, passa a apresentar o que tinha contra eles. Tenho, porém, contra ti o tolerares que essa mulher Jezabel. O único defeito dos cristãos de Tiatira era o serem tolerantes para com essa mulher sobre a qual não sabemos absolutamente nada além do nome. Precisamos aqui refletir em duas coisas.

1. O problema não era Jezabel, mas o fato deles serem tolerantes quanto ao ensino e sedução que ela exercia entre os cristãos de Tiatira. O pecado deles era a tolerância. Tolerância nunca é bom quando é contra o pecado. Tolerância para com o pecado, via de regra, levará à heresia, como bem disse John MacArthur na 11ª edição da Conferência Fiel para Pastores e Líderes: “A heresia vem montada nos lombos da tolerância”. Jesus estava preocupado que seu povo viesse a se afastar dele e de sua Palavra por causa da tolerância com relação aos ensinos de Jezabel;

2. O segundo ponto que precisamos abordar é sobre quem foi Jezabel. As informações que dispomos do próprio Cristo é que ela possuía bom contato com os cristãos da igreja em Tiatira. Se declarava profetisa entre os cristãos, ensinava na igreja, e possuía uma prática de vida que acabava levando alguns homens à prostituição e às festas onde se comia carne sacrificada aos ídolos.

Não podemos ir tão rapidamente associando esta Jezabel com a do Antigo Testamento, embora tenham o mesmo nome e façam o mesmo — levar o povo de Deus à prostituição e à idolatria. Talvez seja um apelido que Senhor deu à mulher de Tiatira para mostrar como ela parecia com a esposa do rei Acabe no Antigo Testamento. 

No entanto, não podemos deixar de lembrar de que esta Jezabel era uma pessoa real no meio da igreja em Tiatira. Era alguém que estava ali e precisava ser parada. Alguns já chegaram a associá-la à esposa do “anjo” de Tiatira, ou seja, à esposa do pastor, fato difícil de ser provado, embora alguns manuscritos antigos possibilitem essa tradução: Tenho, porém, contra ti o tolerares que SUA mulher Jezabel. Não podemos esquecer de que a carta foi escrita, antes de tudo, ao “anjo da igreja em Tiatira”. No entanto, não é possível confiar nesta tradução.

Seja ela quem tenha sido, o que importa é que deveria ser parada no meio dos cristãos. Não deveria continuar sendo tolerada, muito menos seu ensino.

21 Dei-lhe tempo para que se arrependesse; ela, todavia, não quer arrepender-se da sua prostituição. 22 Eis que a prostro de cama, bem como em grande tribulação os que com ela adulteram, caso não se arrependam das obras que ela incita. 23 Matarei os seus filhos, e todas as igrejas conhecerão que eu sou aquele que sonda mentes e corações, e vos darei a cada um segundo as vossas obras.

Aqui, Jesus passa a falar sobre Jezabel e, por associação, ou, cumplicidade no erro, àqueles de Tiatira que participavam do pecado de Jezabel. É interessante observar que Jesus dá um tempo para que haja arrependimento, mas não há no coração de quem cometia o pecado nenhum desejo de voltar atrás. 

A consequência do pecado foi uma enfermidade que a pôs de cama. Interessante também observar que veio tribulação sobre aqueles que foram seduzidos por ela. Os tais não podiam acusá-la ou transferir a culpa à ela. Por terem caído, tornaram-se culpados do erro também. Haveria consequências na família deles. Pessoas morreriam como consequência do pecado, não sabemos se por meio de alguma doença resultante dos pecados cometidos, ou se por outra maneira. Mas, é interessante observar que tudo isso é apenas uma advertência. Haveria socorro caso houvesse arrependimento. 

Jesus deixa claro o fogo de seus olhos. Ele é quem purifica arrependidos como também é capaz de conhecer tudo o que se passa no coração e na mente de cada um. E ele retribui a cada um segundo suas obras!

24 Digo, todavia, a vós outros, os demais de Tiatira, a tantos quantos não têm essa doutrina e que não conheceram, como eles dizem, as coisas profundas de Satanás: Outra carga não jogarei sobre vós; 25 tão-somente conservai o que tendes, até que eu venha. 26 Ao vencedor, que guardar até ao fim as minhas obras, eu lhe darei autoridade sobre as nações, 27 e com cetro de ferro as regerá e as reduzirá a pedaços como se fossem objetos de barro; 28 assim como também eu recebi de meu Pai, dar-lhe-ei ainda a estrela da manhã. 29 Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.

A carta termina com algumas recomendações. Antes, porém, garante aos que não se curvaram ante o ensino de Jezabel nem foram seduzidos por suas prostituições e para suas festas relacionadas à idolatria que não lançaria tribulação sobre eles, mas apenas aos que se entregaram ao erro. Ou seja, aprendemos aqui que Jesus pode lançar tribulação sobre seu povo quando este se entrega ao erro e não se arrepende do mesmo.

A partir do verso 26, a quem perseverar até o fim, Jesus promete associação consigo em sua obra em uma clara associação ao Salmo 2.8–9:

Pede-me, e eu te darei as nações por herança

e as extremidades da terra por tua possessão.

Com vara de ferro as regerás

e as despedaçarás como um vaso de oleiro.

Assim, quem vencesse às tentações e seduções deste mundo provaria do que Cristo é e será sobre o mundo vindouro, de sua autoridade real. Mas não só isso, ele também diz dar-lhe-ei ainda a estrela da manhã. Jesus está prometendo que, além de partilhar sua autoridade, partilharia sua identidade, conforme observa N.T.Wright em seu comentário sobre Apocalipse: “Uma vez que, mais adiante no livro (Ap 22.16), Jesus mesmo é a ‘estrela da manhã’, nós, provavelmente, temos aqui outra dica do nível de intimidade que ele oferece ao seu povo. Ele partilhará sua própria identidade com eles, assim como acabamos de vê-lo fazendo com sua autoridade real”.⁠1

Assim, mais uma vez, o vemos partilhando muito de si com seu povo, o que nos enche de alegria e esperança. Que todos tenham ouvidos atentos para ouvir.

 

1 Tom Wright, Revelation for Everyone, For Everyone Bible Study Guides (London; Louisville, KY: SPCK; Westminster John Knox, 2011), 27–28.

AS 7 IGREJAS DO APOCALIPSE: Pérgamo (Comentário Ap 2.12-17)

Jesus, neste texto, aponta o local do trono de Satanás. Embora a expressão seja forte, o foco não é Satanás e nem o lugar de sua habitação, mas a igreja na cidade de Pérgamo que não vivia em total fidelidade ao Senhor Jesus Cristo. Vejamos suas palavras a esta igreja.

Ao anjo da igreja em Pérgamo escreve:

Estas coisas diz aquele que tem a espada afiada de dois gumes: 13Conheço o lugar em que habitas, onde está o trono de Satanás, e que conservas o meu nome e não negaste a minha fé, ainda nos dias de Antipas, minha testemunha, meu fiel, o qual foi morto entre vós, onde Satanás habita. 14Tenho, todavia, contra ti algumas coisas, pois que tens aí os que sustentam a doutrina de Balaãoc, o qual ensinava a Balaque a armar ciladas diante dos filhos de Israel para comerem coisas sacrificadas aos ídolos e praticarem a prostituição. 15Outrossim, também tu tens os que da mesma forma sustentam a doutrina dos nicolaítas. 16Portanto, arrepende-te; e, se não, venho a ti sem demora e contra eles pelejarei com a espada da minha boca. 17Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor, dar-lhe-ei do maná escondidod, bem como lhe darei uma pedrinha branca, e sobre essa pedrinha escrito um nome novo, o qual ninguém conhece, exceto aquele que o recebe.

Ap 2.12-17

Ao anjo da igreja em Pérgamo escreve:

Estas coisas diz aquele que tem a espada afiada de dois gumes: 

A espada afiada de dois gumes está, obviamente, ligada à Palavra de Deus, que tanto fere quanto cura, tanto mata quanto salva, tanto justifica quanto condena, tanto destrói quanto promove.

A espada, em tempos antigos, estava ligada a muitas coisas. Desde a elevação de um título de um soldado por um ato heróico pela nação, ao deitar a espada sobre um ombro e passá-la ao outro lado, sobre o outro ombro, conferia-se honra ao tal soldado, ou a qualquer pessoa na nação que tivesse feito algo digno de honra. A espada também era usada para salvar pessoas em perigo, bem como para ferir e matar a quem precisa-se em tempos de guerra.

Assim também a Espada de Cristo, ou seja, a Sua Santa Palavra. A mesma tem o poder de agir conforme o Seu divino propósito. Ela serve apenas a Ele, pois a espada é Sua. Não serve a nós, a nossos interesses, mas aos interesses dele cumprindo eficazmente seus ideais eternos. Quando a usamos indevidamente somos punidos por isso, pelo fato de o desonrarmos. A espada é dEle, e quem está se dirigindo à igreja em Pérgamo é justamente o dono da Palavra de Deus.

13Conheço o lugar em que habitas, onde está o trono de Satanás, e que conservas o meu nome e não negaste a minha fé, ainda nos dias de Antipas, minha testemunha, meu fiel, o qual foi morto entre vós, onde Satanás habita. 

Aqui, Pérgamo é mencionada como o “trono de Satanás”. Satanás, em Apocalise, está associado sempre à Serpente, símbolo de um dos deuses da cidade. Também era o centro de adoração dos deuses pagãos Zeus, Athenas, Dionísio e Asclépio (o deus da cura – hoje associado ao símbolo da Medicina). Este último, especialmente, estava relacionado à serpente que, talvez, tenha associação com o “Acusador”, a “Antiga Serpente”, ou, “Satanás”.  

Em sua região, Pérgumo também estava associada ao culto ao imperador. É interessante notar, como observou N. T. Wright, que o trono de Satanás não estava em Roma, onde o imperador se assentava. De um modo bastante silencioso e sutil, Satanás tirou o foco do “centro” e o espalhou especialmente nos locais por onde a Igreja de Jesus Cristo estava se espalhando e prosperando.

Assim, na cidade de Pérgamo, Satanás “habitava”. Os cristãos que lá habitavam conservavam o nome de Cristo entre si e não negavam sua fé em Jesus de Nazaré. É recordado a eles o martírio de Antipas, sobre o qual sabemos quase nada. No entanto, é marcante o fato do próprio Jesus citar Antipas, e chamá-lo de minha testemunha, meu fiel, demonstrando conhecimento sobre o que se passava com os indivíduos daquela igreja. Ele foi morto, provavelmente, em alguma região associada ao trono de Satanás, provavelmente um tempo de alguma das religiões de Pérgamo, provavelmente, o de Asclépio.

14Tenho, todavia, contra ti algumas coisas, pois que tens aí os que sustentam a doutrina de Balaão, o qual ensinava a Balaque a armar ciladas diante dos filhos de Israel para comerem coisas sacrificadas aos ídolos e praticarem a prostituição. 

No entanto, nem todos foram fieis como Antipas.  Houve quem abandonasse a fé em Cristo e passasse a sustentar a antiga (e destruidora) doutrina de Balaão. O próprio texto explica no que criam os que sustentavam a heresia negando a Cristo: armar ciladas diante dos filhos de Israel para comerem coisas sacrificadas aos ídolos e praticarem a prostituição. 

Estas eram práticas comuns dentro das religiões pagãs. Era de se esperar que os cristãos se entregassem a tais práticas caso deixasse o Evangelho e se misturasse ou permitissem a mistura do paganismo com o cristianismo nascente.

Dentro do meio cristão havia quem sustentasse doutrinas pagãs. Eram os famosos falsos mestres, como chamados por Paulo. Ou, anticristos, como chamados por João. Aqui, Jesus os chama de pessoas que “sustentam a doutrina de Balaão”. 

As pessoas que sustentam que os cristãos devem ser mais frouxos em sua permissão à entrada de elementos pagãos em suas vidas, elementos relacionados à adoração pagã, deveriam estar atentos ao erro que estavam cometendo.  Os cristãos, os fieis a Cristo e à Sua Palavra, à Espada de dois gumes, devem expulsar a falsa doutrina, bem como o falso mestre, de seu meio. Toda e qualquer falsa doutrina, acabará por levar o povo de Deus à idolatria e à protituição.

15Outrossim, também tu tens os que da mesma forma sustentam a doutrina dos nicolaítas. 

Voltam a ser mencionados os nicolaítas, sobre os quais já mencionamos mais atrás. Não se sabe ao certo que grupo foi esse, mas a ausência de explicação sugere que foi um grupo bem grande e conhecido no tempo da escrita deste livro.

Talvez associados aos da doutrina de Balaão, ou ainda, associados àqueles que defendiam uma flexibilidade um pouco maior por parte dos cristãos com relação às exigências do governo romano.

Possivelmente, um grupo que defendia certa aproximação e sincretismo diante das religiões associadas ao Imperador, evitando-se o terror do martírio.

Os irmãos da igreja em Pérgamo tinham em seu convívio eclesiástico aqueles que defendiam tudo isso e, aparentemente, não faziam nada. Nos parece uma igreja apática, que, por uma lado, ama a Cristo e demonstra possuir pessoas fieis a ele, mas que, por outro lado possui pessoas negligentes, instáveis, de fé duvidosa, amantes do mundo, mas que se diziam amantes de Deus também, algo, claramente, impossível.

16Portanto, arrepende-te; e, se não, venho a ti sem demora e contra eles pelejarei com a espada da minha boca. 

Diante desse cenário de frouxidão espiritual, o chamado do Evangelho continua em Apocalipse: arrepende-te. O convite de Cristo continua o mesmo, mesmo após sua ressurreição. Uma tomada de decisão e mudança de direção deveriam ser tomadas pelos cristãos que viviam em Pérgamo. Caso eles no fizessem isso, sofreriam as consequências naturais daquele que optam pelo caminho da rebeldia, do “dar de ombros”, do tomar seu próprio caminho, a despeito do caminho que o Senhor nos orientou andar.

Jesus garante, mais uma vez, seu retorno. Retorno que não sabemos se está relacionado ao Segundo Advento ou à uma vinda espiritual para juízo daqueles que o negavam na prática, embora o “honravam” com seus lábios. O juízo do Senhor é certo sobre os que não andam em conformidade com sua lei. E o objeto de juízo do Senhor será a Sua própria Palavra, a espada da minha boca, como ele mesmo diz. É pela Sua Palavra que seremos julgados por nossas ações.

17Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor, dar-lhe-ei do maná escondido, bem como lhe darei uma pedrinha branca, e sobre essa pedrinha escrito um nome novo, o qual ninguém conhece, exceto aquele que o recebe.

João termina com as palavras de Jesus de chamado ao arrependimento, características de Cristo em suas cartas em Apocalipse, como uma assinatura de final de carta, ou uma saudação característica: Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas. Mais uma vez, atenção é cobrada da parte dos cristãos.

Cristo promete dar o maná escondido. É inevitável a ligação com o alimento que sustentou os israelitas por quarenta anos durante a peregrinação no deserto. O maná escondido está ligado a algum tipo de provisão alimentar celestial. Não é de assustar diante do texto. A expressão está fazendo claro contraste com os alimentos sacrificados aos ídolos relacionados ao grupo da igreja que sustentava a doutrina de Balaão. Em contraste, o Senhor promete que a de dar o alimento melhor àqueles que são seus.

Além do maná, é prometida uma pedrinha branca, ligada, dentro do contexto da época, a um convite para participar de um banquete, de uma grande festa. Em nosso tempo e contexto, uma pedrinha branca sendo dada não faz sentido nenhum. Mas, naqueles dias, tal expressão vinha carregada de significado e todos compreendiam o que Jesus queria dizer com ela. Há festas melhores e mais especiais aguardando os cristãos no futuro. O cristão não deve trocar o banquete que o aguarda pelas migalhas que hoje lhes oferecem, ainda que sejam tentadoras demais.

AS 7 IGREJAS DO APOCALIPSE: Esmirna (Comentário Ap 2.8-11)

Somente com elogios, Jesus se dirige à igreja em Esmirna. Não seria maravilhoso se você e sua igreja recebessem uma carta de Cristo Jesus somente com elogios e encorajamentos par perseverar?

Foi exatamente isso que aconteceu aqui. Não há críticas. Como escreveu Paul Gardner, “Jesus não teve nenhuma censura para a igreja em Esmirna, mas revelou sua profunda compaixão por um povo que é fiel ao Senhor e estava sofrendo perseguição como resultado de sua fidelidade”.⁠1

O problema aqui, como em muitas outras igrejas em, praticamente, todo o mundo, são os judeus, chamados aqui de “sinagoga de Satanás”. É óbvio que o problema em si não era a etnia judaica, o que levaria à um antissemitismo gratuito, mas o pecado na vida de judeus que fazia com que eles insistissem com que cristãos tivessem que praticar ritos do antigo judaísmo caso quisessem encontrar a salvação. 

Jesus, aqui, se dirige a eles com palavras de muita compaixão e sabedoria. Esta também era uma igreja cheia de vidas pela qual Jesus morreu:

Ao anjo da igreja em Esmirna escreve: Estas coisas diz o primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver: Conheço a tua tribulação, a tua pobreza (mas tu és rico) e a blasfêmia dos que a si mesmos se declaram judeus e não são, sendo, antes, sinagoga de Satanás. Não temas as coisas que tens de sofrer. Eis que o diabo está para lançar em prisão alguns dentre vós, para serdes postos à prova, e tereis tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: O vencedor de nenhum modo sofrerá dano da segunda morte.

Ap 2.8–11

8 Ao anjo da igreja em Esmirna escreve: Estas coisas diz o primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver:

Esmirna era uma importante cidade localizada em um porto protegido do Mar Egeu próximo a um grande sistema viário. Segundo o estudioso John Barry, era extremamente bonita, além de ter sido selecionada como um local privilegiado para construção de templos para a religião imperial romana.⁠2

A cidade de Esmirna era muito famosa por sua beleza. Na antiguidade, muitos escritores citavam sua beleza. Apolônio de Tiana comentou sobre os belos edifícios que cercavam o Monte Pagus como uma coroa lindíssima.⁠3 O historiador Strabo (ou, Estrabão, do grego Στράϐων —  Strábōn) escreveu que a cidade era conhecida por sua beleza, riqueza e bons vinhos.⁠4

No período da escrita de Apocalipse de João, a cidade contava com 100.000 habitantes, incluindo a considerável comunidade judaica. O martírio de Policarpo de Esmirna, um famoso e muito querido bispo cristão da igreja antiga, contou, muito provavelmente, com a participação de acusadores judeus, algumas décadas após a recepção da carta contida no Apocalipse de João.⁠5

Foi esta igreja que viveu debaixo de falsas acusações e perseguições que recebeu de Jesus as palavras: Estas coisas diz o primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver.

9 Conheço a tua tribulação, a tua pobreza (mas tu és rico) e a blasfêmia dos que a si mesmos se declaram judeus e não são, sendo, antes, sinagoga de Satanás.

Suas primeiras palavras, após identificar-se, foram de compaixão e reconhecimento. O conhecer de Cristo tanto da tribulação, quanto da pobreza, quanto da blasfêmia, foram as mesmas pelas quais Jesus passou. Ele também havia sofrido décadas antes debaixo da mesma perseguição.

Conhecer, aqui, não diz respeito apenas ao conhecimento intelectual, ao saber do que estava acontecendo, mas significa conhecer por ter provado deste mal, por ter passado por aquilo e por saber/conhecer bem o que eles estavam passando.

E os encoraja dizendo que, apesar de parecerem pobres, o que eram realmente financeiramente, eram ricos espiritualmente, que é o que realmente conta para Deus. 

A perseguição vinha, especialmente, de homens que se declaram judeus e não são, sendo, antes, sinagoga de Satanás. Quem são estes homens?

Uma frase parecida aparece em Ap 3.9 e, tanto esses como aqueles se consideravam judeus melhores do que os demais pelo fato de clamarem por um retorno do povo às antigas práticas rituais judaicas aos cristãos. Se consideravam judeus melhores e é por isso que Jesus diz que, nem mesmo judeus, os tais são. Para Deus, judeus são todos que:

Romanos 2.28–29: Porque não é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é circuncisão a que é somente na carne. Porém judeu é aquele que o é interiormente, e circuncisão, a que é do coração, no espírito, não segundo a letra, e cujo louvor não procede dos homens, mas de Deus.

Gálatas 3.29: E, se sois de Cristo, também sois descendentes de Abraão e herdeiros segundo a promessa.

Gálatas 6.16: E, a todos quantos andarem de conformidade com esta regra, paz e misericórdia sejam sobre eles e sobre o Israel de Deus.

Faltava a estes judeus o serem segundo a vontade de Deus. Pois, para Deus, judeus são aqueles que estão acima. Tanto em Atos quanto em Gálatas, vemos muitos judeus agindo de um modo duro contra os cristãos. Em muitos lugares, estes religiosos causaram grande oposição à proclamação do Evangelho. É bom lembrar que o problema não estava nos judeus como etnia, pois Jesus era judeu e o apóstolo Paulo também. Todos os doze apóstolos o eram e estes nunca causaram um só problema ao Evangelho, ao contrário. Logo, não estamos tratando aqui de algo contra os judeus em si, mas comentando sobre aqueles judeus que, em Atos e Gálatas — e em Esmirna — se opunham violentamente contra o Evangelho.

O Senhor Jesus chega a chamá-los de Sinagoga de Satanás. Mais uma, como Cristo havia dito antes para outros judeus de seu tempo, Satanás está diretamente ligado à estes judeus em oposição ao Evangelho: 

João 8.44: Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira.

Como escreveu Utley, Satanás é quem cria calúnias contra os cristãos e quem dá energia e vigor àqueles que os perseguem.⁠6

10 Não temas as coisas que tens de sofrer. Eis que o diabo está para lançar em prisão alguns dentre vós, para serdes postos à prova, e tereis tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida.

Jesus lhes assegura que, dali a alguns dias, eles seriam presos e sofriam grande tribulação por dez dias.

Debaixo de perseguição, é natural que todos pensem em desistir. É natural que neguem qualquer coisa a fim de encontrarem alívio do sofrimento. O próprio Jesus chegou a orar para que o Pai passasse dele aquilo que chamou de cálice de sofrimento. Todos são tentados a negar debaixo de medo e angústia. Foi isso que Pedro fez antes que o galo cantasse três vezes.

Não é para nos assustar que Jesus lhes encoraje a perseverarem, pois todos dependemos da ação de Deus para continuarmos firmes. Sem Deus, desistimos. Sem sua graça, força e ajuda, o abandonamos e trocamos por uma suposta liberdade.

A coroa da vida está ligada à própria vida eterna que seria derramada sobre aquelas almas, caso provassem ter o Espírito que é a única coisa que nos capacita a perseverarmos até o fim. Sem o Espírito de Deus em nós, não é possível perseverar. Por isso, passar pela provação aprovados era uma forma de confirmação de que a presença do Espírito Santo estava sobre eles.

11       Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: O vencedor de nenhum modo sofrerá dano da segunda morte.

A cartinha à igreja em Esmirna termina com a mesma exortação: Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas. Sua palavra é que não provará o inferno e o lago de fogo todo aquele que é capaz de ouvidos ao Espírito Santo de Deus. Aqui está uma promessa e ao mesmo tempo uma revelação. Todo aquele que tem o Espírito Santo em si é capaz de perseverar até o fim, não importa quão intensa ou terrível seja a tribulação e são estas pessoas que, no final, serão guardadas da segunda morte, ou seja, o serem lançados no lago de fogo:

Apocalipse 20.14: Então, a morte e o inferno foram lançados para dentro do lago de fogo. Esta é a segunda morte, o lago de fogo.

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1 Tabletalk Magazine, May 2009: The 7 Letters of Revelation (Lake Mary, FL: Ligonier Ministries, 2009), 12.

2 John D. Barry et al., Faithlife Study Bible (Bellingham, WA: Logos Bible Software, 2012), Ap 2.8.

3 Philostratus, Vit. Apoll. 4.7, In: David Seal, “Smyrna”, ed. John D. Barry et al., The Lexham Bible Dictionary (Bellingham, WA: Lexham Press, 2012, 2013, 2014).

4 Strabo, ed. H. L. Jones, The Geography of Strabo (Medford, MA: Cambridge, Mass.: Harvard University Press; London: William Heinemann, Ltd., 1924).

5 David Seal, “Smyrna”, ed. John D. Barry et al., The Lexham Bible Dictionary (Bellingham, WA: Lexham Press, 2012, 2013, 2014).

6 Robert James Utley, Hope in Hard Times – The Final Curtain: Revelation, vol. Volume 12, Study Guide Commentary Series (Marshall, TX: Bible Lessons International, 2001), 37.

AS 7 IGREJAS DO APOCALIPSE: Éfeso (Comentário Ap 2.1-7)

Com elogios e repreensões, Jesus se dirige à igreja em Éfeso. Todos que estão vivos e são capazes de ouvir e entender o que o Espírito diz, precisam dar atenção à esta mensagem visto nela encontrar-se uma promessa escatológica.

Da mesma maneira como os oráculos dos profetas no Antigo Testamento vinham, vem a mensagem de Jesus aos efésios.⁠1 Vejamos.

Ao anjo da igreja em Éfeso escreve:

Estas coisas diz aquele que conserva na mão direita as sete estrelas e que anda no meio dos sete candeeiros de ouro: Conheço as tuas obras, tanto o teu labor como a tua perseverança, e que não podes suportar homens maus, e que puseste à prova os que a si mesmos se declaram apóstolos e não são, e os achaste mentirosos; e tens perseverança, e suportaste provas por causa do meu nome, e não te deixaste esmorecer. Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor. Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras; e, se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas. Tens, contudo, a teu favor que odeias as obras dos nicolaítas, as quais eu também odeio. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor, dar-lhe-ei que se alimente da árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus.

Ap 2.1–7

1 Ao anjo da igreja em Éfeso escreve: Estas coisas diz aquele que conserva na mão direita as sete estrelas e que anda no meio dos sete candeeiros de ouro:

A carta aos cristãos de Éfeso é, provavelmente, a primeira pelo fato de sua proeminência dentro da província, ou províncias dentre as quais viviam.

Éfeso não era grande apenas em importância política e comercial, mas também religiosamente. O imperador César Augusto permitiu que fossem construídos em Éfeso dois templos em sua própria honra, e o imperador Domiciano nomeou Éfeso como a “guardiã” do culto imperial, tornando-a o maior centro de adoração ao imperador em toda a Ásia.⁠2 Éfeso também era conhecida por sua adoração à Artemis e pela prática da magia. Encontramos pequenos registros disto em At 19.23-40 e em At 19.13-19:

At 19.34–35: Quando, porém, reconheceram que ele era judeu, todos, a uma voz, gritaram por espaço de quase duas horas: Grande é a Diana dos efésios! O escrivão da cidade, tendo apaziguado o povo, disse: Senhores, efésios: quem, porventura não sabe que a cidade de Éfeso é a guardiã do templo da grande Diana e da imagem que caiu de Júpiter?

At 19.18–19: Muitos dos que creram vieram confessando e denunciando publicamente as suas próprias obras. Também muitos dos que haviam praticado artes mágicas, reunindo os seus livros, os queimaram diante de todos. Calculados os seus preços, achou-se que montavam a cinqüenta mil denários.

Estes pequenos trechos já nos dão uma ideia de como eram as relações nesta cidade. Era o mundo no qual viviam os cristãos em Éfeso. E para estas pessoas Jesus está mais uma vez dizendo que ele é quem tem “na mão direita as sete estrelas (pastores) e que anda no meio dos sete candeeiros de ouro (igrejas)”. Jesus estava lhes assegurando de que estava no meio deles.

Certamente, o Novo Testamento nos fala mais sobre a vida desta igreja do que qualquer outra. Paulo plantou a igreja e Áquila e Priscila cuidaram dela no início, vindo, depois, Apolo dar continuidade ao trabalho. Sabemos pela patrística de que Timóteo também serviu à igreja em Éfeso. Sabe-se que o apóstolo João também viveu em Éfeso durante um tempo e que Maria, mãe de Jesus, viveu ali até o final de seus dias.

2 Conheço as tuas obras, tanto o teu labor como a tua perseverança, e que não podes suportar homens maus, e que puseste à prova os que a si mesmos se declaram apóstolos e não são, e os achaste mentirosos;

Obras, labor e perseverança, obras que devem estar presentes na vida de todo cristão. E isso não faltava ao efésios. Eles levavam a sério o trabalho do Senhor. Perseveravam naquilo que criam, não eram de “jogar a toalha”.

Parte de sua perseverança se dava ao fato dele não suportarem homens maus, homens que se diziam apóstolos sem ser um dos doze. Eram tão bom em sua obra e conhecimento da Escritura que eram capazes de mostrar a mentira por detrás das intenções dos falsos mestres.

3 e tens perseverança, e suportaste provas por causa do meu nome, e não te deixaste esmorecer.

Os efésios seguem sendo elogiados por Cristo por conta da maneira como passaram por perseguição e provações. Suportaste provas por causa do meu nome. O próprio Cristo reconhece que foi por causa de seu nome que os efésios suportaram dias difíceis, provas quase impossíveis em dias de perseguição. Os efésios em momento algum “esmoreceram” diante das provas.

A palavra usada aqui é κεκοπίακες (kekopiakes) que denota alguém que se torna emocionalmente cansada ou desencorajada.⁠3 E, aqui, Jesus está a dizer que eles não se deixaram abalar com as provas. Estas não desencorajaram os efésios de continuar servindo a Cristo. Psicológica e emocionalmente, os efésios permaneceram firmes e certos do que queriam — servir a Cristo e honrá-lo quer na vida quer na morte.

4Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor.

Após os elogios iniciais, Cristo começa a seção de repreensões. O Senhor os repreende pelo fato deles terem abandonado o primeiro amor. Isso significa que, apesar das obras externas e visíveis, faltavam internamente obras de devoção e amor pelo Salvador.

A expressão τὴν ἀγάπην σου τὴν πρώτην ἀφῆκες (tēn agapēn sou tēn prōtēn aphēkes) trata do amor que eles tiveram no início de sua caminhada cristã. É deste amor que o Senhor Jesus está falando. A prática piedosa que possuíam no início, abandonaram, embora suas obras fossem boas. É perfeitamente possível alguém ter obras, mas não vida. E é a isso que o Senhor está lhes exortando.

5Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras; e, se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas.

Aqui está a essência do Evangelho. Após a repreensão, exortação ao arrependimento. Arrepende-te e volta à prática das primeiras obras. Após se arrependerem de estarem em falta com suas vidas devocionais, voltem a praticar o que vocês praticavam no início de sua vida cristã.

Caso não fizessem isso, a certeza que Jesus lhes dá que é moveria o candelabro (igreja) deles de lugar. Ou seja, se a igreja perder o seu amor pelo Salvador, não serve para mais nada, a não ser ser lançada fora e ser pisada pelos homens:

Mt 5.13: Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens.

6Tens, contudo, a teu favor que odeias as obras dos nicolaítas, as quais eu também odeio.

Muito tem se debatido sobre quem são estes nicolaítas. Como afirmou o Dr. Dennis Johnson, o fato de Jesus não especificar detalhes sobre este grupo demonstra que eles eram bem conhecidos na época em que esta carta foi escrita. As ideias e práticas dos nicolaítas eram bem conhecidas no tempo em que esta carta foi escrita, no final do século I, início do século II.

Qual era o erro deste grupo? É da repreensão que Jesus faz à igreja em Pérgamo que inferimos que os nicolaítas, assim como Balaão há muito tempo atrás,

Ap 2.14–15: Tenho, todavia, contra ti algumas coisas, pois que tens aí os que sustentam a doutrina de Balaão, o qual ensinava a Balaque a armar ciladas diante dos filhos de Israel para comerem coisas sacrificadas aos ídolos e praticarem a prostituição. Outrossim, também tu tens os que da mesma forma sustentam a doutrina dos nicolaítas

Se a doutrina de Balaão estiver relacionada com a doutrina dos nicolaítas (como sugerem alguns), então sabemos que o que os efésios odiavam eram as práticas imorais cometidas por alguns em seu meio, as quais o próprio Jesus diz também odiar.⁠4  Segundo Kaschel e Zimmer, os nicolaítas eram “seguidores de uma seita que perturbavam as igrejas de Éfeso e de Pérgamo. Comiam alimentos sacrificados a ídolos e entregavam-se aos prazeres carnais.”⁠5

Após voltar a elogiá-los, Jesus volta a exortá-los como viver.

7Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor, dar-lhe-ei que se alimente da árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus.

Jesus encerra suas palavras com um ânimo à igreja em Éfeso. Ao vencedor, dar-lhe-ei que se alimente da árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus. O último lugar de habitação do povo de Deus é comparado com o lugar onde a história humana começou. A alusão ao retorno da Árvore da Vida é importantíssima, pois nos mostra que o Senhor há de restaurar mesmo sua criação, o que nos inclui, com a graça de Deus.

Todos devem dar ouvidos nesta mensagem.

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1 KEENER, Craig S. Revelation: the NIV application commentary: from biblical text to contemporary life. Grand Rapids: Zondervon, 2000, p. 105.

2 KEENER, p. 106.

3 Johannes P. Louw e Eugene Albert Nida, Greek-English lexicon of the New Testament: based on semantic domains (New York: United Bible Societies, 1996), 318.

4 JOHNSON Dennis E.The letter to the church in Ephesus. Tabletalk Magazine, May 2009: The 7 Letters of Revelation (Lake Mary, FL: Ligonier Ministries, 2009), 10.

5 Werner Kaschel e Rudi Zimmer, Dicionário da Bíblia de Almeida 2a ed. (Sociedade Bíblica do Brasil, 1999).

As 7 estrelas, os 7 candelabros e as chaves da morte e do inferno (Comentário Ap 1.12-20)

Voltei-me para ver quem falava comigo e, voltado, vi sete candeeiros de ouro e, no meio dos candeeiros, um semelhante a filho de homem, com vestes talares e cingido, à altura do peito, com uma cinta de ouro. A sua cabeça e cabelos eram brancos como alva lã, como neve; os olhos, como chama de fogo; os pés, semelhantes ao bronze polido, como que refinado numa fornalha; a voz, como voz de muitas águas. Tinha na mão direita sete estrelas, e da boca saía-lhe uma afiada espada de dois gumes. O seu rosto brilhava como o sol na sua força.

Quando o vi, caí a seus pés como morto. Porém ele pôs sobre mim a mão direita, dizendo: Não temas; eu sou o primeiro e o último e aquele que vive; estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da morte e do inferno. Escreve, pois, as coisas que viste, e as que são, e as que hão de acontecer depois destas. Quanto ao mistério das sete estrelas que viste na minha mão direita e aos sete candeeiros de ouro, as sete estrelas são os anjos das sete igrejas, e os sete candeeiros são as sete igrejas.

Ap 1.12–20

12 Voltei-me para ver quem falava comigo e, voltado, vi sete candeeiros de ouro

Esta ação de João é uma resposta à voz que ouvi na passagem anterior, Ap 1.10-11. Ao ouvir a voz que se parecia com uma trombeta, João se virou para vê-la. Em princípio, João não sabia quem falava com ele. Não sabia se um anjo, se um homem, ou se o próprio Deus.

Ao virar-se, a primeira coisa que viu foram os sete candeeiros de ouro. Não é a primeira vez que os candeeiros de ouro são usados para ilustrar alguma característica divina. A palavra λυχνία (lychnia) é usada no antigo testamento para traduzir a palavra מְנוֹרָה (mĕnôrâ). O candelabro de ouro, como é chamado nas traduções portuguesas, era feito de uma única peça de ouro, possuía sete lâmpadas de óleo, e era visto como um símbolo da Árvore da Vida. Era parte do mobiliário sagrado do tabernáculo e, depois, do Templo de Israel também.

A visão destes sete candelabros (ou, candeeiros) de ouro era uma visão que, ao judeu, remontava ao Templo de Israel, à presença de Deus, ao símbolo do criador e mantenedor da própria Vida. Mais para frente, João irá explicar, debaixo da revelação do próprio Jesus, o que são verdadeiramente estes sete candeeiros de ouro (as igrejas cristãs espalhadas pelo mundo). Em princípio, até mesmo João não sabia do que se tratava a revelação. Apenas viu os candeeiros e, provavelmente, se lembrou do que eles simbolizavam na história dos judeus.

13 e, no meio dos candeeiros, um semelhante a filho de homem, com vestes talares e cingido, à altura do peito, com uma cinta de ouro.

No meio dos candeeiros, um semelhante a filho de homem. É importante aqui também destacar que o homem a quem João viu, não era um homem como normalmente vemos em nosso mundo. Era uma ser semelhante a um filho de homem. Tal comparação é apenas aproximada, visto não ser possível expressar com clareza o que foi visto. É interessante notar que este ser divino estava no meio dos candeeiros, entre os candeeiros, ou seja, entre as igrejas. Jesus está entre elas.

As vestes talares eram vestes compridas que chegavam até aos pés de quem as vestia, uma espécie antiga de manto ou toga. Cingido, significa que ele estava vestido com um cinto ou faixa em torno de si mesmo. A aparência era de um homem com uma veste que tocava aos pés, possuindo um cinto de ouro que o envolvia à altura do peito. Esta era sua aparência. É muito possível que a descrição de João tenha relação com o Ancião de Dias da profecia de Daniel (Dn 7.9,13;10.5).

14 A sua cabeça e cabelos eram brancos como alva lã, como neve; os olhos, como chama de fogo;

Em Dn 10.6 e Dn 7.9, a cabeça e cabelos são como a pura lã, e os olhos, como tocha de fogo. Obviamente, trata-se da mesma visão, do mesmo ser, glorificado em um momento escatológico:

Daniel 10.6: o seu corpo era como o berilo, o seu rosto, como um relâmpago, os seus olhos, como tochas de fogo, os seus braços e os seus pés brilhavam como bronze polido; e a voz das suas palavras era como o estrondo de muita gente.

Daniel 7.9: Continuei olhando, até que foram postos uns tronos, e o Ancião de Dias se assentou; sua veste era branca como a neve, e os cabelos da cabeça, como a pura lã; o seu trono eram chamas de fogo, e suas rodas eram fogo ardente.

A pureza é retratada na alvura da cabeça e dos cabelos e o poder de purificar é demonstrado nos olhos que são semelhantes chamas de fogo.

15 os pés, semelhantes ao bronze polido, como que refinado numa fornalha; a voz, como voz de muitas águas.

Seus pés são semelhantes ao bronze polido refinado em uma fornalha. Isso só demonstra a beleza e brilho desse pés. Para o contexto judeu, os pés trazem consigo a simbologia dos mensageiros, aqueles que possuem algo de bom (ou de ruim) para trazer a outros. Lembramos, aqui, da expressão do profeta Isaías repetida pelo apóstolo Paulo:

Isaías 52.7: Que formosos são sobre os montes os pés do que anuncia as boas-novas, que faz ouvir a paz, que anuncia coisas boas, que faz ouvir a salvação, que diz a Sião: O teu Deus reina!

Romanos 10.15: E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: “Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas!”

A voz, como o som de muitas águas. Aqui, além de lembrarmos novamente do homem do profeta Daniel (Dn 10.6), lembramos do que foi retratado pelo profeta Ezequiel:

Ezequiel 43.2: E eis que, do caminho do oriente, vinha a glória do Deus de Israel; a sua voz era como o ruído de muitas águas, e a terra resplandeceu por causa da sua glória.

Sem dúvida alguma, é Deus quem está sendo retratado aqui. Este que é semelhante a filho do homem, também é semelhante à divindade una e soberana. Tratando-se de alguém que possui, ao mesmo tempo, atributos de homem e de Deus, fica claro à João e aos primeiros leitores de Apocalipse que a pessoa que está falando com João é o próprio Senhor Jesus Cristo aparecendo-lhe em uma visão.

16 Tinha na mão direita sete estrelas, e da boca saía-lhe uma afiada espada de dois gumes. O seu rosto brilhava como o sol na sua força.

imagesAs mãos de Deus são o único lugar seguro para se estar. Simboliza perdão, justificação, segurança e vida eterna. Os que estão em suas mãos são seus, sua possessão. E, assim como ao final deste capítulo Jesus explica a João o que são os sete candelabros, ele também explica quem são as sete estrelas em suas mãos. Estes são os anjos das sete igrejas, ou seja, os pastores das sete igrejas. Assim, Jesus está no meio das igrejas com seus pastores em suas mãos.

De sua boca, sai uma espada afiada de dois gumes. É óbvia e autoexplicativa a presença da Palavra de Deus neste contexto de Igrejas e Pastores. Neste ambiente, encontra-se também a Palavra de Deus, a qual procede da própria boca de Cristo. Ela é o próprio Cristo, que, um dia, “se fez carne e habitou entre nós” (João 1.14).

Quando o texto afirma que o seu rosto brilhava como o sol em sua força, é impossível não lembra do que o mesmo João viu no “monte da transfiguração”, quando junto de outro dois discípulos, viu que “o seu rosto resplandecia como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz” (Mt 17.2). Tratava-se do mesmo rosto.

17  Quando o vi, caí a seus pés como morto. Porém ele pôs sobre mim a mão direita, dizendo: Não temas; eu sou o primeiro e o último

Sua aparência impõe reverência. Ao vê-lo e, certamente, reconhecê-lo, João caiu aos seus pés. A mesma reação tiveram Ezequiel e Daniel quando experimentaram um pouco da visão de João:

Ezequiel 1.28: Como o aspecto do arco que aparece na nuvem em dia de chuva, assim era o resplendor em redor. Esta era a aparência da glória do SENHOR; vendo isto, caí com o rosto em terra e ouvi a voz de quem falava.

Daniel 10.9: Contudo, ouvi a voz das suas palavras; e, ouvindo-a, caí sem sentidos, rosto em terra.

Ele se apresenta como o primeiro e o último, ou seja, o alfa e o ômega. Mais uma vez, aquele que possui absoluta soberania e controle sobre todos os eventos na história da humanidade.

18 e aquele que vive; estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da morte e do inferno.

Ele é aquele que ressuscitou e que está vivo pelo século dos séculos. As chaves da morte e do inferno denotam sua soberania e autoridade sobre o mundo invisível a nós. Não apenas sobre as coisas daqui, mas sobre toda a criação, visível e invisível, ele é o Senhor e Soberano.

19-20 Escreve, pois, as coisas que viste, e as que são, e as que hão de acontecer depois destas. Quanto ao mistério das sete estrelas que viste na minha mão direita e aos sete candeeiros de ouro, as sete estrelas são os anjos das sete igrejas, e os sete candeeiros são as sete igrejas.

Suas últimas palavras são de ordem para que João não deixasse de escrever o livro. Tudo que ouvia e via deveria ser escrito no livro e enviado às primeiras sete igrejas. Pela vontade de Deus, estas palavras chegaram até nós e nos asseguram a mesma soberania e presença de Cristo entre suas igrejas, entre o seu rebanho, no meio daqueles que ele mesmo comprou com o seu precioso sangue sobre a cruz no Gólgota. Em suas mãos estão os mensageiros destas igrejas, responsáveis pela fiel e correta administração do alimento ao seu rebanho. São co-pastores com ele, o Bom Pastor, que deu a vida por suas ovelhas. Estes estão em suas mãos, ele está entre o seu povo, de sua boca sai a Sua Palavra, e tudo o que aqui está escrito é para o conforto dos seus.