PEDRO: Transformado pela Palavra de Deus 

 

16Respondendo Simão Pedro, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.17Então, Jesus lhe afirmou: Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to revelaram, mas meu Pai, que está nos céus.18Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela

Mt 16.16-18 

Exposição bíblica

Pedro e sua relação com os Doze Apóstolos.

Pedro é, ao lado do apóstolo Paulo, uma das pessoas mais importantes apresentadas no Novo Testamento. Pedro, além de ser escolhido por Jesus para ser um dos doze apóstolos, foi escolhido para ser um dos três discípulos mais próximos de Jesus durante seu ministério terreno. E, além de ser ao lado de João e Tiago, um dos três discípulos mais próximos de Cristo, foi escolhido pelo próprio Jesus para ser o líder dos apóstolos.

O capítulo 16 do Evangelho segundo Mateus traz para nós o fermento dos fariseus e algumas lições relacionadas à compreensão sobre isso. O capítulo começa com os fariseus e saduceus pedindo a Jesus um sinal. Estes dois grupos representavam boa parte dos judeus no período do Novo Testamento. Enquanto os fariseus estavam mais ligados à religião, os saduceus eram mais ligados à políticas e outros movimentos menos religiosos. Saduceus, ao contrário dos fariseus, não criam em ressurreição e, muitos deles, em milagres.

Jesus responde a eles dizendo que sua preocupação com sinais representava uma espécie de cegueira espiritual. “Nenhum sinal” a não ser o de Jonas lhes seria dado. Uma geração má e adúltera pede um sinal; e nenhum sinal lhe será dado, senão o de Jonas, Mt 16.4. Palavras duras de Jesus aos seus ouvintes. Jesus respondeu, e se retirou.

A percepção que estas facções judaicas deveria ter era a de algo que havia vindo do céu. Assim como chuva pode ser percebida por sinais visíveis vindos do céu, assim a vinda do Messias poderia ser percebida pela vida e obras de Jesus. Tudo o que as Escrituras diziam sobre o Messias estava se cumprindo na vida de Jesus naqueles dias. Como é que eles pedem um sinal? Havia, de fato, abundância de sinais a serem vistos por todos os lados. Mas seus pecados os impedia de verem o óbvio.

Em seguida, Mt 16 nos apresenta uma conversa de Jesus com os discípulos sobre o fermento dos fariseus. Os discípulos haviam esquecido de levar pães para o lugar para onde foram. Nesse contexto, Jesus lhes fala para tomar cuidado com o fermento dos fariseus. Imediatamente, eles associam as palavras de Jesus com o fato de terem esquecido dos pães.

Nos versos 5 a 12, Jesus lhes explica que não era desse tipo de fermento que falava. Lhes lembra de seu poder para fazer o impossível, e de como alimentou nove mil pessoas, em duas ocasiões diferentes, multiplicando pães e peixes milagrosamente. O fermento do qual Jesus fala era a doutrina ensinada por aqueles grupos, que se diziam religiosos, tementes a Deus, mas que haviam construído doutrinas nas quais criam e viviam, mas que nada tinham de ligação com a Palavra de Deus. Erro doutrinário leva pessoas para muito longe de Deus, mesmo que essas pessoas estejam vivendo religiosamente em uma igreja.

Caminhando, Jesus chega com seus discípulos à cidade de Cesareia de Felipe. Lá, pergunta para eles sobre o que o povo estava falando sobre ele. As respostas envolviam comparação com João Batista, Elias e Jeremias. Então Jesus pergunta o que eles diziam sobre ele. Isso é muito importante, pois o que Jesus está pedindo é uma definição cristológica. Jesus está pedindo uma confissão de fé. Jesus está pedindo que eles exponham seu pensamento sobre a pessoa dele. Isso é algo que todos nós devemos nos preocupar em saber ainda hoje. O que sabemos sobre Cristo pode (ou não) mudar nossa vida. Confessar o que sabemos pode mudar a vida de alguém.

É após esse momento que encontramos a confissão de Pedro. No verso 16, Pedro responde com a seguinte confissão: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. Poucas, mas precisas palavras. Simples e profundo, Objetivo, mas não superficial. Claro e preciso.Tu és o messias (o Cristo). Era isso que os fariseus e saduceus deveriam ter percebido, mas não conseguiram. Pedro aqui o confessa. E não apenas o Messias, mas o Filho do Deus vivo, aquele que soberanamente governa sobre todas as coisas.

A resposta de Jesus para Pedro foi: 17Então, Jesus lhe afirmou: Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to revelaram, mas meu Pai, que está nos céus.18Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.19Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra terá sido desligado nos céus.20Então, advertiu os discípulos de que a ninguém dissessem ser ele o Cristo.

Mt 16:17–20

  1. Pedro, o apóstolo, a rocha.

Há muita coisas que podem ser ditas sobre estas palavras de Jesus. Mas este não é meu objetivo neste estudo. O foco aqui é na pessoa de Pedro, e nas palavras que ele ouviu de Jesus. A confissão de Pedro tornavam-no um bem-aventurado. Bem-aventurança está ligada, também, a uma saudável confissão de nossa fé e a uma alegria que não está ligada apenas a algo que nos acontece no momento. Não se trata apenas de felicidade.

Uma saudável confissão de fé também está ligada à revelação do próprio Deus. A humanidade, sem Deus, é incapaz de chegar a confissões sadias de sua fé. Via de regra, farão como os fariseus e saduceus e criarão suas próprias doutrinas numa tentativa de se conduzirem a um suposto céu onde um suposto Deus os aceitaria com base em suas próprias obras.

A confissão de Pedro coloca Deus no centro do processo de salvação e de construção do que cremos. Sobre a liderança pastoral de Pedro, e sobre a afirmação feita por ele, Jesus edificaria a sua igreja. A rocha não é Pedro, mas o que ele disse, ou seja, sua confissão e a verdade contida nela. Todos que viessem a crer e confessar a mesma fé seriam colocados sobre esta pedra sobre a qual Jesus edifica sua igreja.

Jesus deixa claro que, ainda que venham perseguições, batalhas espirituais e aflições na vida, que as portas do inferno, os poderes do inferno, a influência demoníaca, não destruiriam sua igreja. O dom da fé, confessada pela igreja, uniria e manteria viva sua igreja até sua segunda vinda de Jesus.

Jesus conclui dando o poder das chaves para sua Igreja. O poder das chaves não está com Pedro, mas com a Igreja de Jesus Cristo. É ela que se reune confessando a mesma fé e tem o poder das chaves do verso 19: Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra terá sido desligado nos céus.

Embora Jesus fale com Pedro, ele aqui é apenas um representante daqueles que confessariam a mesma fé e se uniriam em igreja um dia. Pedro não pode ser o dono do poder das chaves pois, se fosse, com sua morte morreria a única pessoa com autorização para disciplinar e desligar pessoas da comunhão dos santos sobre a Terra. Pedro é apenas um representante. Jesus fala com Pedro, mas não sobre Pedro. As chaves dadas a ele são as mesmas dadas à toda Sua Igreja, da qual Pedro foi seu primeiro pastor.

Este texto é de difícil interpretação. Muitos têm interpretado de maneira descuidada retirando-o do seu contexto. A despeito de uma série de especulações sobre o texto, o que Jesus está dizendo é que sua igreja, aqueles que confessam a mesma fé que Pedro, teria o poder da disciplina, da organização, das decisões, sobre todas as coisas que aqui acontecessem. O Senhor está dando uma espécie de autorização à igreja para que esta tenha poder sobre situações de pecado, de erro doutrinário (é isso que está no contexto do capítulo), e exercerem o desligamento necessário de pessoas ou grupos que venham a pregar ou crer em uma confissão de fé diferente. Ninguém na Terra tem mais autoridade sobre a igreja do que a própria igreja. Nenhum homem pode exercer uma autoridade sobre a Igreja que seja maior do que a autoridade que a própria igreja já tem.

A igreja não é edificada sobre Pedro, mas sobre ele, Jesus, a pedra fundamental, a pedra de esquina, a qual os construtores rejeitaram. Ademais, gramaticalmente não se pode associar a pedra com Pedro. Πέτρᾳ é uma palavra feminina. Já Πέτρος é masculina. Gramaticalmente, a pedra não poderia ser Simão Pedro. A pedra é a confissão sobre o próprio Cristo. Crer na divindade de Jesus, e nele como o Filho do Deus vivo, nosso único e suficiente Salvador é a doutrina mais importante e fundamental do cristianismo.

Sua história: Porque Pedro deixou tudo?

Mas, quem foi esse homem chamado Simão Bar-Jonas? O significado desse nome seria Simão, filho de João. Essa é uma nomenclatura comum no mundo semítico. Simão seria o equivalente a Simeão, na língua dos hebreus. A adição do apelido Pedro veio somente posteriormente, assim como o Cristo veio posteriormente ao nome de Jesus.

Pedro cresceu na Galileia. Ele era da cidade de Betsaida, como descrito em João 1.44: Ora, Filipe era de Betsaida, cidade de André e de Pedro. Pedro e André viviam do comércio de peixes na região. Tinham, provavelmente uma casa (ou uma estação de venda) em Cafarnaum, cidade da região. Vemos isso nestes versos:

Marcos 1:21,29: Depois, entraram em Cafarnaum, e, logo no sábado, foi ele ensinar na sinagoga. … E saindo eles da sinagoga, foram, com Tiago e João, diretamente para a casa de Simão e André.

João e Tiago eram, provavelmente, seus sócios no negócio. Veja este verso:

Lc 5.10: bem como de Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram seus sócios. Disse Jesus a Simão: Não temas; doravante serás pescador de homens.

Pedro, sua conversão e chamado.

Quando Jesus os chamou a seres seus discípulos, os desafiou a serem, agora, pescadores de homens. Em Lucas, vemos que Pedro e os demais deixaram tudo para seguir a Jesus:

Lucas 18:28: E disse Pedro: Eis que nós deixamos nossa casa e te seguimos.

Pedro era casado e em Mc 1.29-31 Jesus cura a sogra dele. Em 1Co 9.5, Paulo dá-nos a impressão de que a esposa de Pedro o acompanhava em seu ministério pastoral e em suas viagens às igrejas. E, pelo verso, sabemos que outros apóstolos também eram casados.

Pedro viveu muitas experiências com Jesus. Não as veremos uma a uma aqui. Ele é o apóstolo com mais envolvimento e histórias envolvidas com Jesus.

De certo modo, a afirmação de Pedro em Mt 16 está relacionada àquilo que foi a sua vida junto do Senhor. Sempre firme, resoluto, mas não infalível. Mateus não mascara sua fraqueza e debilidade. Descreve as palavras de Jesus a ele como alguém de uma fé muito pequena:

Mateus 14:31: E, prontamente, Jesus, estendendo a mão, tomou-o e lhe disse: Homem de pequena fé, por que duvidaste?

Em outra ocasião, Mateus descreve as palavras de Jesus a Pedro associando-o a Satanás e aos planos demoníacos para atrapalhar o caminho da redenção, o caminho da cruz:

Mateus 16:23: Mas Jesus, voltando-se, disse a Pedro: Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço, porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens.

O galo, a negação e o arrependimento.

Este episódio é um dos mais conhecidos de sua história. Após Jesus ser traído e preso, Pedro o acompanhou, seguindo-o de longe. Muitos fugiram, mas Pedro o seguiu de longe.Viu todas as cenas relacionadas a Jesus. E Jesus, sendo Deus, viu o que Pedro também passou ao ser tentado quando lhe perguntaram, três vezes, sobre sua associação com o homem sob julgamento. Nas três ocasiões, Pedro negou.

Enquanto Judas Iscariotes, após se entristecer com o que havia feito, ter sob remorso se suicidado, Pedro optou por outro caminho. Pedro poderia ter tido o mesmo fim de Judas. Ambos traíram a Jesus. Pedro, no entanto, diferencia-se por ter genuinamente se arrependido do que fez. Pedro saiu de onde estava e chorou amargamente:

Lc 22.60–62: 60Mas Pedro insistia: Homem, não compreendo o que dizes. E logo, estando ele ainda a falar, cantou o galo.61Então, voltando-se o Senhor, fixou os olhos em Pedro, e Pedro se lembrou da palavra do Senhor, como lhe dissera: Hoje, três vezes me negarás, antes de cantar o galo.62Então, Pedro, saindo dali, chorou amargamente.

De pescador de peixes a pescador de homens.

Nós não temos tantas informações sobre o ministério de Pedro quanto temos do de Paulo. Sabemos que ele passou um tempo em Corinto, pelo fato de lá haver um grupo que se considerava de Pedro (1Co 1.12, 3.22).

Pedro, provavelmente, também realizou viagens missionárias. Percebemos isso no texto já citado de 1Co 9.5: E também o de fazer-nos acompanhar de uma mulher irmã, como fazem os demais apóstolos, e os irmãos do Senhor, e Cefas?

As epístolas de Pedro foram enviadas às igrejas da Ásia Menor. Lá, ficavam as províncias de Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia. Sobre esta última cidade, é muito interessante notar que, a razão pela qual muitas pessoas acham que o Espírito Santo não permitisse que Paulo passasse pela Bitínia fosse porque Pedro já havia começado um ministério naquela cidade.

Acts 16:7: defrontando Mísia, tentavam ir para Bitínia, mas o Espírito de Jesus não o permitiu.

Algumas pessoas associam a Babilônia citada por Pedro em 1Pe 5.13 com Roma. Pedro escreve dando a impressão de estar nesta tal de Babilônia. Se Pedro estava literalmente em Babilônia ou se na “Babilônia do ocidente”, como Roma era chamada, não sabemos. Em Apocalipse, Roma é associada com a Babilônia. Seja uma ou outra, vemos que Pedro também chegou a este lugar pregando o Evangelho.

O Evangelho, o ministério e a morte.

Após uma vida de ministério na pregação do Evangelho, Pedro morre da maneira como é profetizada em Jo 21.18: Em verdade, em verdade te digo que, quando eras mais moço, tu te cingias a ti mesmo e andavas por onde querias; quando, porém, fores velho, estenderás as mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres.

Muitos associam essas palavras a forma como Pedro morreu.

1Clemente foi escrita no final do primeiro século, provavelmente junto do livro de Apocalipse. Neste livro, lemos do martírio de Pedro, Paulo e muitos outros. Nesta epístola, Clemente de Roma menciona da morte de Pedro que aconteceu como um “glorioso exemplo entre nós”, o que demonstra que as pessoas da igreja de Clemente, em Roma, estavam envolvidas no mesmo martírio em que morreu Pedro, “um glorioso exemplo entre nós”.

Já na famosa e belíssima epístola de Inácio de Antioquia aos Romanos, o martírio de Pedro e de Paulo também são associados à cidade de Roma.

Também Dionísio, bispo de Corinto, em uma carta escrita em aproximadamente 170 d.C., e preservada por Eusébio de Cesareia, disse que Pedro e Paulo ensinaram juntos na Itália. No final do século II, Irineu de Lyon escreveu em seu livro Contra as heresias que Pedro e Paulo pregaram em Roma. Já Tertuliano escreveu no mesmo período que Pedro foi martirizado da mesma maneira que o Senhor.⁠1

Muitos outros escreveram sobre esse assunto⁠2. Há um grande debate sobre o lugar exato de sua tumba. No entanto, a visão mais tradicional é a que vê o monte vaticano como o mais provável lugar onde o corpo de Pedro foi enterrado após a sua morte.⁠3

PEDRO FOI UM HOMEM COMUM, como muitos de nós, sem nenhuma expressão política ou social. Um mero trabalhador de uma região distante do centro do seu país. Homem comum chamado para ser um discípulo de Jesus, transformado por Jesus, e que acabou morrendo pela causa de Jesus.

Como Pedro foi transformado, Deus deseja transformar a cada um de nós. E essa transformação tem como objetivo sermos usados para transformar, transformar por meio de nossa proclamação, transformados para trazer paz aos que sofrem, transformados para trazer alegria onde há morte.

anImage_15.tiff

1 Elwell, W. A., & Beitzel, B. J. (1988). In Baker encyclopedia of the Bible (p. 1666). Grand Rapids, MI: Baker Book House.

2 Elwell, W. A., & Beitzel, B. J. In Baker encyclopedia of the Bible. Grand Rapids, MI: Baker Book House, 1988.

3 Elwell, W. A., & Beitzel, B. J. (1988). In Baker encyclopedia of the Bible (p. 1667). Grand Rapids, MI: Baker Book House.

Posted in Biografias, Comentário, Comentário Bíblico, História da Igreja, Igreja Perseguida, Teologia, Teologia Bíblica, Teologia Reformada and tagged , , , .

Deixe uma resposta